e Confira o final de "O Amor em tempos de cólera", o making of do clássico "...E o Vento levou" ~ Diário do Moretti
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sábado, 1 de setembro de 2018

Confira o final de "O Amor em tempos de cólera", o making of do clássico "...E o Vento levou"





O AMOR EM TEMPOS DE CÓLERA
Final

Por Marco Moretti

A cena clássica de Scarlett O'Hara (Vivien Leigh) na plantação devastada de Tara, em
"...E o Vento levou" - Fonte: wikipedia

À medida que o tempo escorria e a data de estreia se aproximava perigosamente, Steiner se deu conta de que provavelmente não conseguiria dar conta do recado no prazo proposto. Selznick e Whitney se recusaram a adiar o lançamento do longa-metragem e cuidaram para que um outro compositor, Franz Waxman, começasse a trabalhar paralelamente. Em certo momento, à revelia de Steiner, o produtor considerou chamar um músico da MGM, Herbert Stothart, que havia acabado de concluir a trilha de “O Mágico de Oz”, para consertar algumas coisas na composição que não tinham ficado de seu agrado, como a mania do músico vienense de acentuar e sincronizar cada movimento de cena como num desenho animado, técnica conhecida no cinema como “Mickey Mousing”. O processo caótico de produção do filme, com a sua constante troca de diretores e o mesmo conflito entre prazo e qualidade, estava se repetindo aqui, embora em menor escala. Quando descobriu que pretendiam puxar o seu tapete, Steiner teria ficado furioso e acelerou a gravação da trilha. Em 31 de novembro, duas semanas antes da estreia, ele ainda estava fazendo freneticamente alterações e regravações em algumas das faixas. No final das contas, ele fez sozinho o arranjo e orquestrou 11 dos principais temas. Eles incluíam faixas exclusivas para cada um dos quatro personagens principais e alguns dos coadjuvantes, como Mammy, Gerald O’Hara e Bonnie. O mais importante de todos era o tema de Tara, a propriedade dos O’Hara, que se tornou um personagem com as suas próprias características. No entendimento do compositor, Tara aglutinava todos os valores que Scarlett personificava, o amor pela terra e pelo local de nascimento, a herança dos antepassados irlandeses e a união familiar, e por isso a peça musical associada a ela, arrebatadoramente nostálgica e sentimental, permeia todo o filme. As peças secundárias foram adaptações de músicas do compositor sulista Stephen Foster e outros. Apesar de seus veementes protestos, pequenas músicas incidentais foram feitas por outros autores de trilhas sonoras chamados às pressas, como Hugo Friedhofer e Adolph Deutsch, que procuraram seguir bem de perto o seu estilo musical, para que o resultado não destoasse do conjunto. Certos trechos foram simplesmente extraídos das trilhas feitas anteriormente para filmes como “David Copperfield” e “As Aventuras de Tom Sawyer”. No final das contas, nada do que Waxman compôs como “música alternativa” foi usado e Stothart nem sequer chegou a escrever uma única nota. Em 6 de dezembro de 1939, o trabalho estava concluído, a menos de uma semana da estreia.
Finalmente, após três anos de produção e a um custo final estimado em 4.085,790 milhões de dólares, “...E o Vento levou” estava pronto para chegar às telas, e o fez com toda a pompa e glória, como nenhum outro longa-metragem na história do cinema, antes ou depois dele. A estreia, como não poderia deixar de ser, foi marcada para acontecer em 15 de dezembro em Atlanta, a cidade natal de Margaret Mitchell e cenário principal do livro e do filme, e foi nada menos do que apoteótica. L. B. Mayer usou toda a sua poderosa influência política e a eficiente máquina de propaganda da MGM para levar o governador da Geórgia a declarar feriado de três dias para o lançamento do filme. O prefeito de Atlanta emitiu um decreto fechando todas as escolas municipais e edifícios públicos no dia da estreia, e cerca de 300 mil pessoas saíram às ruas para prestigiar um desfile em carro aberto das principais estrelas do longa-metragem em seu percurso até o cinema. Gable e sua esposa, Carole Lombard, chegaram à cidade num avião fretado, com a inscrição “E O VENTO LEVOU DA MGM” gravada na fuselagem, e se juntaram a Vivien Leigh, Laurence Olivier, David e Irene Selznick, Olivia de Havilland e Margaret Mitchell para os discursos de agradecimento diante de uma multidão extasiada e enlouquecida. Uma réplica de Tara foi construída especialmente na fachada do cinema e o evento contou com desfiles de roupas de época e a presença de veteranos octogenários da Guerra de Secessão. A histeria foi tão desmedida que os jornais chegaram a classificar “...E o Vento levou” como “O maior filme de todos os tempos” e, por dois dias, as notícias sobre o seu lançamento tiveram o poder de ofuscar as manchetes a respeito da guerra em andamento na Europa.
A recepção entusiástica se refletiu na arrecadação. Em um ano, o longa-metragem obteve a espantosa cifra de 20 milhões de dólares, um marco inigualável na época, quando comparado a outros campeões de bilheteria do mesmo período, como os 8 milhões obtidos por “Branca de Neve e os sete anões” em 1937. Logo, superaria os 400 milhões e, com os subsequentes relançamentos através das décadas e o desconto da inflação, esse valor hoje é substancialmente maior. No ano seguinte, a Academia de Hollywood indicou “...E o Vento levou” em 13 categorias, entre as quais as de Melhor Ator para Clark Gable, Melhor Atriz coadjuvante para Olivia De Havilland e Melhor Trilha sonora original para Max Steiner. Na noite da premiação, em 29 de fevereiro de 1940, o filme fez história ao arrebatar oito estatuetas: Melhor Filme (vencendo pesos-pesados como “O Morro dos ventos uivantes”, “O Mágico de Oz”, “A Mulher faz o homem” e “No Tempo das diligências”, entre outros), Direção (para Victor Fleming), Roteiro (para Sidney Howard, a primeira vez na premiação em que alguém ganhou postumamente), Fotografia em cores, Direção de arte, Edição, Melhor Atriz Coadjuvante (para Hattie McDaniel, a primeira atriz negra a ganhar um Oscar, um feito que marcou época) e, como era esperado, Vivien Leigh levou para casa o seu prêmio de Melhor Atriz, entregue a ela por Spencer Tracy. Um nono Oscar, honorário, foi dado a William Cameron Menzies, por sua contribuição artística e pelo uso da cor para aprimorar a ambientação dramática do filme. Além do Oscar pelo filme, Selznick ainda recebeu outro, honorário, pelo conjunto da obra, aquele que justamente levava o nome de seu antigo rival na MGM, Irving G. Thalberg. A derrota mais sensível, sem dúvida, foi para a trilha sonora, que ficou com Herbert Stothart pelo seu trabalho em “O Mágico de Oz”. Seja como for, o fascínio que o filme inspirou na estreia perdurou por décadas e o seu prestígio continuava intacto até mesmo em 1976, quando foi exibido pela primeira vez na televisão aberta americana, atingindo a audiência recorde de 77 milhões de telespectadores. Em 1991, a escritora Alexandra Ripley perpetrou uma continuação do livro de Margaret Mitchell, “Scarlett”, que dava continuidade às desventuras da heroína. O livro rendeu uma minissérie igualmente descartável para a televisão em 1994, intitulada no Brasil “...E o Vento levou 2” e protagonizada por Timothy Dalton (como Rhett Butler).
            Hoje, quase 80 anos depois de sua estreia, quando a euforia por ele há muito se dissipou, o que resta de pé da magnificência de “...E o Vento levou”? Para o público moderno, acostumado a filmes mais barulhentos e recheados de ação, efeitos especiais e pirotecnias de encher os olhos, ele não passa de um novelão, na melhor das hipóteses, pesado e arrastado, com muito suor e lágrimas, ou uma antiquada peça de museu, na pior das hipóteses, uma obra-prima racista e machista. É difícil para os jovens de hoje entenderem o porque de tanto sucesso. A verdade, como sempre, deve ser buscada no meio-termo entre essas avaliações.
            Stanley Kubrick, o genial diretor de “2001, Uma Odisseia no espaço”, era um dos que torciam o nariz para o filme, que considerava horrível, e a atuação de Vivien Leigh, uma das piores que ele viu na vida. É certo que “...E o Vento levou” não pode ser colocado na mesma liga de obras-primas geniais da sétima arte como “Fellini Oito e Meio”, “O Leopardo” ou “A Laranja Mecânica”, do próprio Kubrick, mas o seu duradouro fascínio durante mais de meio século deve falar alguma coisa a respeito de suas qualidades técnicas e artísticas.
            Sempre é difícil defender um filme que tem, ao menos implicitamente, um viés racista. No livro, Margareth Mitchell não tem pudores em se revelar aberta e asquerosamente anti-abolicionista, destilando expressões ofensivas contra os negros aqui e ali. A autora chega a esposar a absurda e infame ideia de que os negros estavam melhores sob a tutela de seus senhores brancos, durante o longo calvário da escravidão, do que libertos, após a Guerra Civil. Na verdade, o romance, mais ainda do que o filme, possui um pronunciado tom nostálgico em relação ao período escravocrata, descrito como uma era de ouro que se foi após a Guerra de Secessão e a imposição dos ideais ianques.
            No longa-metragem, a condição abjeta dos negros sob a escravidão sequer merece qualquer menção séria. Simplesmente somos privados da visão deles a respeito da Guerra Civil, pelo mero fato de que não é um filme a respeito da escravidão ou da Secessão (ao menos na aparência), mas uma história de amor em tempos conturbados. Embora tenha o mérito de ter propiciado o primeiro Oscar para uma atriz negra em todos os tempos, o longa-metragem pouco fez para apresentar uma imagem dignificante e humanizada dos negros. Sob esse ponto de vista, ele até reforça os estereótipos em voga nos anos 1930 ao apresentá-los como figuras simpáticas, bonachonas, engraçadas, quando não ofensivamente bobocas, como mandava o figurino dos filmes hollywoodianos, sem se preocupar muito em fugir de caracterizações caricatas como as do comediante Stepin Fetchit, o astro negro mais popular da época. O mundo teria de esperar muito tempo para que um intérprete realmente à altura da importância e talento dos negros americanos se impusesse, o magistral e inesquecível Sidney Poitier.
Outro aspecto que diferencia bastante as duas versões é o que diz respeito às questões políticas. Enquanto o longa-metragem cuidou de reduzir significativamente, até apagá-lo, o espaço das discussões envolvendo os partidários de uma causa e de outra e do papel dos republicanos e democratas no período da reconstrução, o livro mergulha de cabeça no assunto e a sra. Mitchell novamente não titubeia em expressar as suas simpatias em favor dos democratas (que se opuseram à libertação dos escravos) e contra os republicanos (que impuseram o fim da escravidão na marra aos sulistas) – hoje isso pode parecer inconcebível, tendo em mente alguns infames presidentes americanos republicanos reacionários do passado recente e do presente, como George Bush filho e Donald Trump, mas a verdade é que foi um republicano moderado, Abraham Lincoln, quem lutou e conseguiu dar fim à escravidão. O filme pouco se preocupa em explicar os reais motivos da ruptura do sul com a União, e Selznick se esforçou para varrer para debaixo do tapete esses debates políticos e, em vez disso, dar relevo aos desencontros amorosos em meio às contrariedades de um conflito bélico, um tema sempre universal, que bem poderia se passar em qualquer outra época, das Guerras napoleônicas à Segunda Guerra Mundial. Tudo o que ele não queria era outro controverso e polêmico “Nascimento de uma nação” nas mãos.
            Os contextos políticos e econômicos da época naturalmente são elementos que não podem ser ignorados para se aquilatar a enorme recepção que o filme obteve no lançamento. Inadvertidamente, ao falar dos sofrimentos e tragédias de uma outra guerra, “...E o Vento levou” não deixava de se referir ao conflito recém-iniciado na Europa. Além disso, continuavam bem vivas nas lembranças de todos os americanos as agruras que haviam atravessado durante a Grande Depressão, cujos efeitos nefastos ainda se faziam sentir em 1939. A fome e o desespero, a desagregação familiar e a luta para não sucumbir ao crime e à violência, que o filme descreve com tanta dramaticidade em sua primeira parte, eram feridas não inteiramente cicatrizadas para a maioria dos espectadores. Como num espelho distorcido de parque de diversões, o longa-metragem amplificava e dava uma dimensão mítica aos anos difíceis que a América e o mundo tinham atravessado, ao mesmo tempo em que parecia premonitório ao lançar uma visão sinistra ao que estava prestes a ocorrer nos anos que se seguiriam.

Hattie McDaniel ao receber o seu histórico Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante,
o primeiro dado a uma atriz negra - Fonte: Wikipedia

            Mas, se conseguirmos ignorar a elegia à escravidão que o longa-metragem evoca e desviarmos o olhar para outro lado, podemos nos surpreender com o que vamos encontrar.
            Do ponto de vista da estrutura da história, o filme sofre do mesmo desequilíbrio que costuma acometer produções de metragem superior a 150 minutos, embora seja menos enfadonho e cansativo do que alguns de seus congêneres, como “Os Dez Mandamentos”, a versão de De Mille dos anos 1950, e “Doutor Jivago”, de David Lean, da década seguinte. Enquanto a primeira parte tem um ritmo arrebatador, movimentado e fluido, num arco que vai do entusiasmo e da euforia do início ao desespero e ao senso de tragédia iminente no final, a segunda parece chafurdar num clima de falta de desalento no princípio, que gradualmente se transforma numa mórbida sequência de cenas fúnebres (as mortes de Bonnie e de Melanie, logo em seguida ao aborto de Scarlett e a sua separação temporária de Rhett) à medida que se aproxima do desfecho. Outro paralelismo que o longa sugere diz respeito às relações familiares. Na primeira parte, a tradicional família sulista, simbolizada pelos O’Hara, patriarcal, agrária e rural e estruturada com base em valores ancestrais, se esfacela, da mesma forma que a grande família (a nação americana). Na segunda parte, no período da reconstrução, uma nova família, representada por Rhett e Scarlett, urbana, embebida pelo espírito capitalista industrial, onde a mulher deixa de ocupar um espaço coadjuvante nos assuntos domésticos, e francamente disfuncional, se ergue dos escombros do passado glorioso. Um lar ao estilo ianque, e que já prenuncia o modo de vida americano dominante no século XX. Da guerra em grande escala envolvendo todo o país da primeira parte, somos transportados para a guerra doméstica travada entre Rhett e Scarlett na segunda, numa espécie de rima narrativa antitética. Dois conflitos dilacerantes, um externo, outro interno, se contrapõem, e isso se reproduz no meticuloso trabalho de direção de arte e fotografia.
            Como a família ocupa lugar proeminente na história, é natural que as transformações pelas quais ela passa em decorrência da Guerra de Secessão e as suas consequências também se reflitam em suas imponentes residências, Tara e as vastas plantações de algodão dos O’Hara, na primeira parte, e a mansão de Rhett e Scarlett em Atlanta, na segunda. As duas propriedades funcionam como emblemas de suas respectivas épocas e corporificam os valores e o espírito de seus moradores. Tara, com sua arquitetura georgiana, fachada e colunas em estilo neoclássico, simboliza em seu sereno equilíbrio e harmonia e em sua tonalidade imaculadamente branca os ideais de nobreza e pureza do Velho Sul. Ou, ao menos, como a gente daquele período e daquela região gostava de se ver. No início da primeira parte, Tara domina o cenário com toda a sua opulência bucólica, cercada de árvores frondosas e floridas e dominando os campos férteis das “plantations”, exalando uma extasiante sensação de riqueza, paz e abundância. Quando a reencontramos mais adiante, no final da primeira parte, ela é a própria imagem do Sul destroçado pela guerra, decrépita e arruinada, os campos devastados e abandonados.
            A mansão de Rhett e Scarlett, em contraposição, é o próprio retrato do mal gosto “nouveau riche”, uma mistura de estilos que não se combinam muito bem, em que a ostentação é o traço dominante. O seu exterior alegre não passa de uma casca bonita, embora oca. O interior é, assim, vasto e vazio e possui uma ambientação predominantemente escura e sinistra, em que podemos ver a representação simbólica da vida familiar nada harmoniosa de seus moradores, triste, amarga, desprovida de qualquer traço de afeto e amor. Essa dicotomia entre exterior aparentemente opulento e interior desolado é a própria representação do lar burguês, constituído por uma fachada bonita mas inteiramente falsa e doentiamente consumista, que os ianques impuseram ao sul do país após a vitória na Guerra Civil e que se tornaria o traço dominante em toda a América a partir do século XX.
            E não poderia haver personagem melhor do que Scarlett para personificar essa transformação na mentalidade americana. Em essência, como a própria escritora observou, a sua trajetória é a do próprio Sul e, por extensão, do país inteiro. O seu jeito impetuoso, caprichoso e independente de ser já apontam, desde o início, a direção que ela irá seguir ao longo da história, todas as agruras que ela irá passar, o esforço para manter de pé o resto de dignidade dos O’Hara enquanto tenta impedir que Tara sucumba. Porém, mais do que tudo, é a sua falta completa de escrúpulos, o seu pouco caso para as convenções sociais da sociedade sulista, o anseio ardente de vencer as dificuldades a todo custo, “nem que tenha de roubar e matar”, como ela mesma diz, prenunciam o pensamento agressivamente individualista dos Estados Unidos do norte. Quando se apropria da empresa do marido, Scarlett se revela uma mulher de negócios independente, manipuladora e intimadoramente ambiciosa. Nesse sentido, ela e Rhett são como duas faces da mesma moeda. Assim como a heroína, ele é um contrabandista inescrupuloso e cínico, desprovido de qualquer traço de idealismo, em nada preocupado com as emboloradas tradições aristocráticas de sua gente. Só o que lhe interessa é se apropriar das pessoas e coisas com o típico espírito do self-made-man, o epítome do espírito capitalista americano. Ambos são, por assim dizer, seres da mesma natureza, movidos antes pela ganância, pelo egoísmo e pela cobiça do que por elevados princípios morais. Comparados com Scarlett e Rhett, Melanie e Ashley são como imagens refletidas num espelho, em tudo antíteses de seus comportamentos e atitudes. Melanie e Ashley são a encarnação da mentalidade sulista, imbuídos de uma altiva nobreza de sangue, de gestos altruístas, generosos e reservados, ainda que isso fosse apenas a maneira sentimental como Margaret Mitchell preferisse ver os seus antepassados. Eles são os últimos cavaleiros e damas feudais que o vento levou, como dizem os letreiros iniciais. Mas, ao mesmo tempo em que celebra essa nobreza perdida, o filme e o livro não deixam de lançar sobre ela um olhar crítico, ao mostrar os dois como seres frágeis, destituídos de vontade própria, hesitantes, fracos. A morte de Melanie simboliza exatamente a morte dessa classe social e de sua mentalidade aristocrática ultrapassada, e a sua substituição por um modo moderno de encarar o mundo, o modo capitalista, representado por Scarlett e Rhett, que displicentemente mandam às favas o orgulho sulista para abraçar as novas oportunidades que o fim da guerra oferece. Eles são o século XX e o futuro, Melanie e Ashley, o passado a ser superado.
            Levados pelo tom melodramático e pueril da história e pela grandiloquência visual do filme, os críticos fatalmente perderam de vista as suas inegáveis qualidades técnicas. Antes de tudo, é bom que se diga que “...E o Vento levou” estava muito à frente de seu tempo em termos de movimentação de câmara, de direção de cena e de atores, da edição, do emprego da trilha sonora mesclada às imagens, do uso expressivo da fotografia, da direção de arte e dos figurinos, e da qualidade dos efeitos especiais. Principalmente quando comparamos o longa-metragem às produções feitas na mesma época, essas características saltam aos olhos. Há, por exemplo, uma diferença abissal entre os enquadramentos e o modo como a câmara está sempre se movendo em cena entre “...E o Vento” e “O Morro dos Ventos Uivantes”, o seu rival mais acirrado na disputa dos Oscars de 1939. A obra de Wyler, embora não deixe de ser magistral sob diversos pontos de vista, tem a marca, a aparência e o estilo dos filmes dos anos 1930, ainda um tanto apegados à gramática do cinema mudo, enquanto a produção de Selznick, com os seus constantes travellings e panorâmicas, o seu ritmo fluido na montagem, mantém a sua “pegada” arrebatadora até mesmo para as platéias de hoje, quase como se tivesse sido feito há poucos anos, e não há décadas. Nesse sentido, o “troca-troca” de diretores, ao contrário do que pode se presumir, fez bem ao filme, na medida em que as contribuições isoladas de Cukor, Fleming, Wood, Menzies e do próprio Selznick, cada qual com o seu apuro artístico particular, ajudaram a dar variedade a um espetáculo que, de outra maneira, correria o risco de ser perigosamente tedioso. Assim, ele é intimista na medida certa nas cenas filmadas por Cukor, e épico quando precisa ser naquelas realizadas por Fleming. A própria interpretação dos atores teve muito a ganhar com isso. A cuidadosa construção da personalidade fútil e caprichosa de Scarlett, sob as mãos de Cukor, é contrabalançada pela virilidade galhofeira que Fleming imprimiu em Rhett.
            Para todos os envolvidos em sua realização, “...E o Vento levou” significou mais do que uma peça a mais em suas carreiras. De uma maneira ou de outra, mais ou menos intensa, o “superfilme” foi um marco intransponível. Para a maioria, os seus nomes só são evocados quando se lembra de sua participação nele. A autora, Margaret Mitchell, jamais escreveu outro livro e morreu dez anos depois, atropelada por um carro em Atlanta; Victor Fleming sofreu um ataque cardíaco fulminante em 1949, depois de finalizar “Joana D’Arc”, com Ingrid Bergman; Butterfly McQueen teve poucas chances de exibir todo o seu talento e, até o fim da vida, em 1995, ficou condenada a papeis coadjuvantes de pouca relevância em filmes e seriados de televisão. A sua última aparição de alguma importância foi em “A Costa do mosquito”, estrelado por Harrison Ford, em 1986; o Oscar pouco fez para alavancar a carreira de sua companheira Hattie McDaniel. Embora tenha tido mais oportunidades do que McQueen, jamais conseguiu se livrar do estereótipo da criada negra carismática e engraçada, como a Tia Tempy em “A Canção do sul”, de Walt Disney, em 1946. Morreu, esquecida, em 1952; Leslie Howard, que regressou à Inglaterra mal as filmagens se encerraram, só teve mais um papel de destaque em “Invasão de Bárbaros”, um típico filme patriótico do período da Segunda Guerra, e morreu em um acidente de avião em 1943, quando cumpria uma missão secreta para o seu país; Clark Gable também participou da guerra, como piloto de aviões em combates aéreos na Europa, e prosseguiu fazendo filmes, mas o seu brilho se apagou depois da tragédia particular que sofreu quando a sua amada esposa, Carole Lombard, morreu aos 33 anos em um acidente aéreo, em 1942, enquanto percorria o país vendendo bônus de guerra. Gable nunca mais se recuperou do choque e a carreira foi se tornando cada vez mais pálida até morrer de um ataque do coração em 1960, semanas após concluir o seu último filme, “Os Desajustados”, a obra-prima “maldita” de John Huston (pois esse foi também o último longa concluído por Marilyn Monroe); Olivia de Havilland, por incrível que pareça, é o único integrante do filme ainda viva, com mais de 100 anos, e continuou atuando de maneira brilhante em grandes filmes como “Tarde Demais” (1949), de Wyler (que lhe deu o segundo Oscar). Ela foi a pivô de uma grande batalha judicial contra os estúdios de Hollywood quando decidiu desafiar as cláusulas draconianas do infame contrato de sete anos, que amarrava os atores como gado às companhias de cinema. Foi De Havilland, aliada a alguns outros corajosos nomes, como James Stewart, que ajudaram a dar independência aos atores para escolherem o que, onde e como queriam trabalhar; Vivien Leigh, excelente atriz que era, ainda teve momentos de brilho em papeis memoráveis como o da prostituta Myra, em “A Ponte de Warteloo” (1940), Anna Karenina, na versão do romance homônimo de Leon Tolstoi realizada por Julien Duvivier em 1948, ou como a perturbada Blanche DuBois na adaptação da peça de Tennessee Williams “Uma Rua chamada Pecado” (1951), realizada por Elia Kazan, mas jamais deixou de ser lembrada como a eterna Scarlett O’Hara até o fim da vida, em 1967. Quanto ao próprio David O. Selznick, “...E o Vento levou” representou ao mesmo tempo o ápice de sua carreira e uma maldição que carregaria até morrer, dois anos antes de Leigh. Nos anos seguintes, ele perseguiu sem conseguir alcançar o mesmo sucesso estrondoso, realizando produções por vezes suntuosas e dramáticas, como o faroeste “Duelo ao Sol” (1946), estrelado por sua nova “descoberta” e segunda mulher, Jennifer Jones, que guarda alguns lampejos de seu filme mais famoso, ou por vezes francamente tediosas, como a segunda versão para as telas do livro de Ernest Hemingway “Adeus às armas”, de 1957, estrelada por Rock Hudson.  Mas algo que se igualasse à magnificência de  “...E o Vento levou”, isso ele jamais conseguiu.

São Paulo, 1 de setembro de 2018

1 comentários:

Brandon Steven disse...

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