e Leia a parte final de "O Rebelde com causa contra o império do mal", o making of de "Star Wars" ~ Diário do Moretti
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domingo, 1 de abril de 2018

Leia a parte final de "O Rebelde com causa contra o império do mal", o making of de "Star Wars"





O REBELDE COM CAUSA CONTRA O IMPÉRIO DO MAL
Final

Por Marco Moretti

George Lucas e John Williams, o compositor de "Star Wars" - Fonte: Wikipedia

A primeira versão montada de “Star Wars”, incompleta, tinha 117 minutos de duração, que deveriam ser acrescidos de uns tantos minutos a mais quando todas as cenas de efeitos especiais estivessem prontas. Com o acréscimo dos efeitos sonoros desenvolvidos por Ben Burtt, a primeira exibição dessa edição aconteceu em fins de janeiro de 1977, exclusivamente para Alan Ladd e um pequeno grupo de convidados. Essa foi a primeira apresentação de “Star Wars” para um público externo que não era constituído pelo próprio diretor e colegas de equipe. No meio da projeção, a esposa de Ladd, Gareth Wigan, virou-se para Lucas em prantos. “Eu pensei que ela estava chorando porque tinha pensado: ‘Oh, meu Deus – as nossas carreiras estão arruinadas!’”, recordou depois o diretor, “mas ela me disse: ‘Esse é o maior filme que eu já assisti’”. A primeira fã de uma legião de milhões que viriam havia surgido. O próprio Laddie, porém, não parecia convencido e acreditava que fariam bem uns 35 milhões de renda líquida e olhe lá, o que ao menos serviria para cobrir os custos e dar algum lucro (o orçamento final do longa-metragem saiu por estimados 9,5 milhões de dólares, fora alguns milhões a mais para as cópias e custos com publicidade). Lucas achava que renderia um terço disso.
Na verdade, o cineasta não sabia o que pensar, e ficaria ainda mais confuso depois de uma segunda apresentação, dessa vez exclusivamente para os amigos cineastas mais próximos, semanas depois. Na ocasião, estavam presentes Brian DePalma, Matthew Robbins e Steven Spielberg, entre outros. Para completar a metragem do filme, Lucas incluiu várias tomadas de documentários e longas-metragens da Segunda Guerra Mundial que mostravam aeroplanos em combate aéreo para substituir as ainda incompletas cenas de efeitos especiais, expediente que só ajudou a tornar tudo ainda mais confuso. A seleção e a inserção dessas tomadas foi um favor prestado pelo amigo Martin Scorsese, que, no entanto, decidiu na última hora não pegar o voo de Burbank para São Francisco com os demais colegas porque estava tão ansioso quanto Lucas. Ao final da exibição, um silêncio de mortuário recaiu sobre a plateia, ninguém ousou aplaudir e as reações foram mistas e desencontradas. Enquanto alguns não entenderam direito a história, DePalma, com a sua habitual franqueza e falta de tato, foi direto ao ponto: Lucas tinha uma bomba nas mãos. “Que merda é essa de Força? Onde está o sangue quando atiram nas pessoas? Quem são os caras vestidos igual ao Homem de Lata de ‘O Mágico de Oz’?”, ele saiu perguntando com o sarcasmo escorrendo dos lábios. DePalma também reclamou do letreiro inicial, que, para ele, soava mal-escrito e longo demais. “É um filme da Disney. Você alienou a plateia”, repetia, para o constrangimento de Lucas, que foi ficando cada vez mais pálido. De todos ali presentes, o único que se mostrou receptivo foi Spielberg. Embora reconhecesse que o longa ainda não estava pronto para ser exibido ao público e fosse estático demais para o seu gosto, sugerindo que Lucas podia ter realizado mais cenas com a câmara em movimento, o diretor de “E.T.” previu que esse seria o maior filme de todos os tempos e faria uns 50, 60 milhões de dólares, talvez mais. Como o tempo mostrou, ele também estava enganado.
Claro, além dos efeitos especiais, ainda faltava um elemento crucial que, talvez tanto quanto o visual inovador e a ágil edição, contribuiu de forma indiscutível para tornar “Star Wars” um clássico. A sua magistral e emblemática trilha sonora. Desde o princípio, ficou evidente que George Lucas pretendia uma moldura clássica para o seu épico espacial, seguindo a linha de “2001”. Na trilha temporária, uma colcha de retalhos feita para acompanhar a montagem provisória, era possível ouvir trechos de composições clássicas como “A Sagração da Primavera”, do russo Stravinsky, na sequência dos robôs no deserto, a “Sinfonia do Novo Mundo”, de Dvörak, na cerimônia final de condecoração dos heróis, e da “Nona Sinfonia” de Bruckner, emprestada para servir como tema de Luke. Conquanto não fosse grande conhecedor de música erudita, o diretor sabia bem o que não queria. Clichês futurísticos e música eletrônica. Ele sentia, acertadamente, que o seu filme já era suficientemente repleto de elementos estranhos, de planetas e cenários alienígenas a criaturas exóticas, e necessitava de um fundo musical romântico, à la Richard Wagner, o músico alemão do século XIX, para ancorar a história num terreno familiar ao público. Uma composição, enfim, que combinasse com o espírito de contos de fada de sua história. Foi, novamente, Spielberg quem o socorreu ao sugerir o nome do já premiado com o Oscar (duas vezes, uma pela adaptação da trilha do musical da Broadway “Um Violinista no Telhado” para o cinema, em 1971, e outra para “Tubarão”, em 1975) John Williams, que havia contribuído para revitalizar a trilha sinfônica para a televisão (nas séries de ficção científica de Irwin Allen, como “Perdidos no Espaço” e “Terra de Gigantes”) e no cinema, depois que os estúdios sucumbiram ao apelo de faixas mais “pops” e comerciais em meados da década de 1960.
De imediato, o compositor e Lucas se entenderam bem e Williams, que em vez de ler os roteiros preferia “sentir” o ritmo dos filmes já montados antes de compor, achava que dispor de criações clássicas já previamente feitas para outros contextos, como fez Kubrick em sua obra-prima, deixaria o resultado final sem personalidade. O músico não considerava apropriado enxertar um pedaço de Tchaikovsky aqui e um de Dvörak ali, e preferia uma abordagem que ajudasse a aprofundar os sentimentos e a identidade de cada personagem, ajudando ao mesmo tempo a dar homogeneidade ao conjunto.  “Eu penso que a música relaciona os personagens aos problemas humanos, mesmo se eles forem Whookies”, disse o músico, que não teve dificuldade em recorrer aos “leitmotivs” wagnerianos (temas específicos vinculados a personagens ou cenários) para sustentar essa proposta. Wagner era uma escolha óbvia, já que, no fundo, parte da inspiração de George Lucas para a sua ópera espacial havia sido extraída das obras operísticas do compositor alemão, como a célebre Tetralogia do Anel, recheada de duendes, dragões, feiticeiros, cavaleiros e princesas medievais. Além de funcionar como contraponto à narrativa futurista, o estilo melodioso e romântico de Wagner, segundo Williams, serviria como uma cola dramatúrgica ligando a trama do começo ao fim.
O tom grandioso da trilha sonora é estabelecida logo de início, no antológico tema de abertura, que hoje rivaliza em impacto e popularidade com clássicos eternos do cinema, como as composições de Bernard Herrrmann para “Um Corpo que Cai” e “Psicose”, de Max Steiner para “...E o Vento Levou” e “King Kong” e as criações de Ennio Morricone para os faroestes italianos de Sergio Leone. Ao mesmo tempo em que o letreiro inicial corre inclinado até desaparecer no infinito campo estelar, a introdução serve como uma “overture”, sintetizando toda a excitação e emoção que aguarda o espectador nas duas horas seguintes. Williams tempera a grandiloqüência do tema principal com faixas mais líricas, que evocam, simultaneamente, nostalgia, melancolia e o anseio por aventuras extraordinárias, como os temas de Luke e de Obi-Wan. Essas faixas se complementam com a de Leia, transbordante de romantismo, talvez a mais arrebatadora de todo o filme. Em outras passagens, como a da peregrinação dos robôs pelo deserto de Tatooine, a música ajuda a refletir a sensação de estranheza e mistério que cerca a desolação daquele mundo desconhecido. Em sequências de suspense, como a do compactador de lixo, a trilha segue num crescendo até o clímax, ecoando o ritmo do avanço das paredes que, pouco a pouco, se fecham em torno dos heróis. Nas cenas de ação, como a travessia de Luke e Leia do fosso, Williams cedeu ao gosto de Lucas para evocar o espírito de aventura juvenil com que Erich Wolgang Korngold, outro seguidor de Wagner, havia impregnado os seus filmes de capa-e-espada das décadas de 1930 e 1940, como “Capitão Blood” e “As Aventuras de Robin Hood”. Para o ataque final à Estrela da Morte, a música é dotada de uma pegada mais intensa e heróica, como pede a história, intermediada com trechos dos temas anteriores de Luke, Obi-Wan e Leia para criar um contraponto sentimental que ajuda a nos vincular emocionalmente com os personagens e elevar a tensão. Outra trilha memorável é a da cantina, uma composição jazzística ao estilo dos anos 1920 executada por nove músicos e que soa aos nossos ouvidos, ao mesmo tempo, ligeiramente familiar e esquisita.
Depois de exaustivos ensaios com a orquestra sinfônica de Londres, formada por mais de 100 músicos, John Williams gravou toda a trilha sonora (que, mesmo com as edições finais, ocupa mais de dois terços da duração do longa-metragem) num estúdio na Inglaterra, onde ele já havia gravado alguns de seus trabalhos anteriores. Ao todo, foram quatorze sessões de gravação de mais ou menos três horas de duração cada e que ocuparam uma semana inteira. Lucas viajou até a Grã-Bretanha para acompanhar de perto as gravações e ficou tão entusiasmado com o resultado que telefonou para Spielberg no ato e o convidou a escutar, por telefone mesmo, o trecho de abertura. O sucesso da trilha de “Star Wars”, que granjeou o terceiro Oscar para Williams, não ficou, porém, restrito ao longa-metragem. O disco com as faixas musicais vendeu mais de quatro milhões de cópias e se tornou, pelo menos até “Titanic”, o álbum de música “não-pop” do cinema mais vendido na história.
Após o acréscimo de umas poucas tomadas de cobertura, para completar algumas cenas, como a da tomada da paisagem em torno da base rebelde na lua de Yavin, realizada pela equipe de segunda unidade na floresta de Tikal, na Guatemala, o filme estava pronto para estrear, com toda a pompa e glória. O lançamento, várias vezes adiado até a hoje histórica data de 25 de maio de 1977 (no Brasil, o filme só chegou em janeiro de 1978), foi precedido por um trailer lançado no Natal que mais confundia do que esclarecia alguma coisa (até esse ponto, os executivos da Fox continuavam implicando com o nome do filme, pois temiam que ele desse a impressão de que se tratava de um filme sobre as disputas de estrelas de cinema. Mas o subtítulo “Capítulo IV – A New Hope” não existia no original. Ele só seria acrescentado muito mais tarde). Apesar de todas as preocupações, tanto o estúdio quanto os exibidores tinham como certo um fiasco. A promessa de uma gorda bilheteria estava nas mãos do ansiosamente aguardado “O Outro lado da meia-noite”, um drama romântico de tons levemente eróticos baseado no best-seller de Sidney Sheldon (uma espécie de “Cinquenta tons de cinza” dos anos 1970), que só estrearia no mês seguinte e estava programado para ocupar a imensa maioria das salas. Nenhum dono de cinema em sã consciência apostaria as fichas no longa de fantasia científica de Lucas. “O Outro lado da meia-noite” não só não cumpriu nem de longe as expectativas como estava destinado a ser um fragoroso fracasso justamente porque “Star Wars” roubaria a cena naquele verão.
Embora tenha tido uma pré-estreia bem acolhida em Northpoint, que também havia abrigado a de “Loucuras de Verão”, George Lucas ainda não estava convencido do êxito de seu filme e preferiu partir com Marcia e o casal Huyck para o Havaí uma semana antes do lançamento oficial para não ter de presenciar um desastre tido como certo. O cineasta se sentia tão exausto e tão deprimido que se recusou a ler qualquer crítica ou falar com quem quer que fosse da produção. Mas, no dia 25 de maio, ao voltarem para o hotel onde estavam hospedados, depararam com uma enxurrada de recados da Fox na caixa de mensagens que insistiam para que eles ligassem a televisão no noticiário das seis. Somente então, quando os Lucas se sentaram e assistiram, pasmos, as imagens das intermináveis filas nas portas dos cinemas e que davam voltas e mais voltas nos quarteirões, é que a ficha caiu. Passada a incredulidade e a euforia iniciais, o primeiro pensamento do diretor e sua esposa é que estavam ricos, muito ricos.
Dias depois, o casal Spielberg e Amy Irving, a sua primeira esposa, vieram se juntar aos Lucas no Havaí. Spielberg, que havia acabado de terminar a filmagem principal de “Contatos Imediatos do 3º Grau”, firmou na ocasião um acordo de cavaleiros com o amigo para trocarem 1% do lucro líquido de seus respectivos filmes. Assim como Alec Guinness, o diretor de “Tubarão” disse depois que, se tivesse noção do que seria o fenômeno “Star Wars”, teria aumentado muito mais o seu percentual (seja como for, no final das contas, o acordo foi mais vantajoso para ele, já que “Contatos”, embora tenha feito muito sucesso, jamais chegou a rivalizar com a saga espacial de Lucas). Reza a lenda que foi ali, nas praias de Honolulu, enquanto os dois diretores amigos brincavam fazendo castelos de areia à beira mar, que nasceu a ideia para um dos personagens mais emblemáticos do cinema de todos os tempos. Spielberg teria confidenciado ao colega a vontade de um dia dirigir um filme da série James Bond. Lucas respondeu que tinha coisa melhor em mente. Um certo professor-arqueólogo de chapéu de couro e chicote na mão envolvido em aventuras de tirar o fôlego em busca de tesouros antigos, no estilo das antigas matinês de cinema que os dois tanto curtiam quando eram crianças.
Em menos de três meses, “Star Wars” atingiu a marca de 100 milhões de dólares e, em novembro, superou os 190 milhões, desbancando justamente “Tubarão” do topo da lista dos filmes mais rentáveis da história, posto que ocupou pelos cinco anos seguintes, até que Spielberg novamente o superasse com o seu “E.T. – O Extraterrestre”. Instantaneamente, o filme se tornou uma mina de ouro e Lucas, um novo Midas. Tudo o que se referia ao longa-metragem e aos seus personagens vendia que nem água. A novelização, publicada de maneira discreta pela editora Bantam, vendeu dois milhões de exemplares em pouco tempo, permanecendo por várias semanas na lista dos mais vendidos daquele ano. E o merchandising, com a comercialização de todo o tipo de produto vinculado à marca “Star Wars”, de bonecos a camisetas e bonés, subiu à estratosfera e encheu mais ainda os cofres da Lucasfilm. O filme também salvou a pele de Alan Ladd, convertendo-o, perante os seus pares engravatados da Fox, num novo Irving Thalberg (o gênio precoce de Hollywood nos anos 1930). No Oscar daquele ano, “Star Wars” foi indicado para dez categorias, inclusive de Melhor Filme, diretor, ator coadjuvante (Alec Guinness) e roteiro original (que Lucas deve ter encarado como um gostinho de revanche perversa), e ficou com seis estatuetas, para direção de arte, figurino, som, edição, efeitos visuais especiais e a já mencionada de trilha sonora para John Williams. Ben Burtt, por seu extraordinário trabalho na criação dos efeitos sonoros, categoria que ainda não existia na época, recebeu um prêmio especial da Academia de Hollywood.
Também para os seus principais intérpretes a saga espacial foi de vital importância. Embora Guinness e Peter Cushing já tivessem sólidas filmografias estabelecidas, o longa-metragem ajudou-os a cair nas graças de toda uma nova geração de espectadores de cinema (embora Alec Guinness se arrependesse um pouco dessa fama renovada e reclamasse que ninguém parecia mais se lembrar de seus magistrais papeis anteriores ao do velho mestre Jedi). Do trio principal de atores, de longe o que mais se beneficiou com o sucesso foi, indubitavelmente, Harrison Ford. Ele jamais deixou de reconhecer a dívida para com Han Solo, que o transformou num nome brilhante nas marquises de cinema e lhe abriu as portas para outras atuações antológicas, como as de Indiana Jones e Rick Deckard, o Caçador de Andróides de “Blade Runner”. Conquanto também tenha se tornado merecidamente famosa como a Princesa Leia, Carrie Fisher teve uma vida particular muito complicada para usufruir de sua celebridade como poderia ter feito. Na verdade, a fama não lhe fez bem, e serviu para agravar ainda mais a sua dependência em drogas e aprofundou os problemas particulares que enfrentou com a mãe competitiva até morrer, em 2016 (a atriz chegou a escrever um relato autobiográfico de sua relação tempestuosa com Debbie Reynolds, “Postais do abismo”, que foi adaptado às telas em 1990, com o título de “Lembranças de Hollywood”, estrelado Shirley MacLaine e Meryl Streep, nos papeis de Debbie e Carrie, respectivamente). Dos três, o que menos teve sorte na carreira foi Mark Hamill. Pouco antes do lançamento do filme, em dezembro de 1976, ele sofreu um grave acidente de carro e teve parte da face desfigurada. O seu único papel realmente interessante depois disso foi o de um soldado em missão na Segunda Guerra Mundial no último grande filme do mestre Samuel Fuller, “Agonia e Glória”, realizado no mesmo ano de “O Império contra-ataca”, 1980. Com exceção das continuações de “Star Wars” e de dezenas de participações em filmes de pouca importância, ele só se destacou como o dublador original do Coringa e outros personagens na série animada de tevê do Batman, nos anos 1990.
Ainda assim, nada que nem de longe se compare ao quase ostracismo a que foram relegados os outros quatro principais astros do filme, Peter Mayhew, David Prowse, Kenny Baker e Anthony Daniels, todos vítimas da maldição de terem os rostos e as vozes (com exceção de Daniels) suprimidos durante toda a série. Prowse ainda poderia ter tido a chance de mostrar a sua real aparência como Anakin Skywalker na cena de despedida de Darth Vader, em “O Retorno de Jedi”, mas até nisso foi preterido. Quem vemos em cena é outro ator britânico, Sebastian Shaw (em depoimento a um documentário de 2015, “Elstree 1976”, é possível perceber uma ponta de amargura do ator, hoje com mais de 80 anos, por conta desse “esquecimento”). Contudo, se Mayhew e Prowse nunca foram de fato atores, o caso de Kenny Baker e Anthony Daniels era diferente. Profissionais do palco e da tela antes e depois do filme, nenhum dos dois teve grandes oportunidades fora do universo de Luke & Cia..  É bem verdade que, até a sua morte, em 2016, Baker continuou atuando em muitas outras produções, algumas inclusive do próprio Lucas, como “Labirinto – A Magia do tempo” (1986) e “Willow - Na Terra da Magia” (1988), mas sempre como coadjuvante. Ao menos, todos os quatro foram redimidos por quem mais importa: os fãs da saga, que nunca deixaram de demonstrar o seu carinho e reconhecimento nas inúmeras convenções e eventos a que atenderam através dos anos.
Contudo, muito mais do que o sucesso financeiro ou os merecidos Oscars, “Star Wars” mostrou-se com o tempo bem mais relevante do que parecia a princípio. De mero entretenimento passageiro de verão, ele se tornou um fenômeno cultural de massa que conseguiu atravessar quatro décadas sem dar mostras de enfraquecimento. Pelo contrário, as sequências diretas do original (“O Império contra-ataca”, de 1980, e “O Retorno de Jedi”, de 1983), os sucessivos relançamentos de edições especiais remasterizados e remontados e da primeira trilogia (formada por “A Ameaça Fantasma”, de 1999, “Ataque dos Clones”, de 2002, e “A Vingança dos Sith”, de 2005), da terceira trilogia (iniciada em 2015, com “O Despertar da Força”, e continuada em 2017, com “Os Últimos Jedis”) e os seus spin-offs (filmes derivados da saga, como “Rogue One” e o futuro “Han Solo”), sem mencionar as dezenas de subprodutos (livros, quadrinhos, games e desenhos animados) ajudaram a arrebanhar uma legião maior de fãs até praticamente se converter em um culto religioso (estima-se que um quarto da população do planeta já tenha visto ao menos uma vez qualquer um dos filmes da saga), e a adensar e ampliar o universo original para muito além da concepção de seu criador. Do Tibete a Bora Bora, não há quem nunca tenha visto ou ouvido falar de whookies, do poder da Força, dos cavaleiros Jedi, de sabres de luz e, naturalmente, de Darth Vader, que, com exceção do diabo em pessoa, se converteu no vilão mais popular de todos os tempos.
Apenas no âmbito cinematográfico, o filme influenciou a estética da ficção científica e gerou e continua gerando inúmeras imitações. “Alien – O Oitavo passageiro” (curiosamente, lançado dois anos depois exatamente na mesma data – 25 de maio – Leia o making of desse filme aqui em meu blog), deve muito de seu “visual sujo” a ele e séries de televisão como “Galáctica”, tanto a antiga quanto a nova versão, nem sequer teriam existido.
Além disso, o filme se tornou um divisor de águas na história do cinema comercial hollywoodiano. Indiscutivelmente, foi a partir dele e de “Contatos Imediatos” (que chegou aos cinemas bem depois naquele mesmo ano, em novembro de 1977) que a pirotecnia dos efeitos especiais gradualmente se impôs sobre outros aspectos da carpintaria cinematográfica, como uma boa história e densas atuações, até ultrapassar o limite do desejável na atual onda de filmes de super-heróis. Se os detratores o apontam justamente como o culpado pela infantilização cada vez mais acelerada e proeminente da sétima arte, pelo menos de 1980 em diante, e que ele teria contribuído para sepultar uma década de vital liberdade criativa no âmbito do cinema americano, permitindo que os grandes estúdios retomassem o controle da produção com mão de ferro apenas para mediocrizá-la, há os que buscam entendê-lo como um evento sociológico que só pode ser compreendido como reflexo dos contextos histórico, político e psicológico do momento em que foi lançado.
Sim, é verdade que o moral do povo americano em meados dos anos 1970 andava em baixa depois das crises seguidas do Escândalo Watergate, que levou ao afastamento do presidente Nixon, e da derrota militar na Guerra do Vietnã, e um certo cinismo mesclado ao pessimismo e a um desencantamento amargo com a vida política permeava o cinema, dominado por filmes críticos, violentos e contundentes, certamente necessários mas difíceis, como “Todos os Homens do presidente”, “Taxi Driver” e “Corações e Mentes”. “Star Wars”, com a sua desavergonhada aposta no escapismo deliberado, no retorno a um tipo de cinema que já não existia mais, ingênuo, infanto-juvenil, fantasioso e heróico, além do recurso a uma narrativa linear e rasa, veio no momento certo para arejar os espíritos do público americano. É certo que, se houvesse sido lançado um ano antes ou um ano depois, o seu impacto seria diferente e talvez jamais repercutisse tanto. Mas as interpretações sociológicas não explicam tudo. Não explica, por exemplo, por que “Star Wars” prossegue sendo popular ainda hoje, mesmo considerando-se todo o marketing em torno dele, e nem porque atinge tantas pessoas em partes tão diferentes da Terra.
Aqui, entramos no terreno pedregoso das especulações. Para o cineasta James Cameron, que considera o filme a sua iniciação ao cinema, ele foi revolucionário em diversos aspectos, além dos efeitos especiais e do visual “gasto”. “O futuro tinha um passado”, disse ele, “e mostrava coisas que pareciam velhas e desgastadas”. Mas a principal contribuição da criação de Lucas para a sétima arte, em sua opinião, reside na narrativa, no casamento da mitologia ancestral com os códigos consagrados da ficção científica. “A ficção científica anterior não tinha mitos, não apresentava personagens arquetípicos. Foi isso o que capturou a imaginação do público no mundo todo.” O que Cameron quer dizer é que “Star Wars” é uma parábola, uma metáfora ou um complexo de metáforas e, como tal, se presta a qualquer interpretação que se queira dar. Para Peter Travers, da revista “Rolling Stone”, a crítica de que o trabalho de Lucas é somente uma “boa matinê”, divertida e inconseqüente, reflete apenas parcialmente a verdade. “Para mim, que sou cinéfilo, ao ver o filme me perguntei o que era aquilo. Eu percebi que ele tinha muita riqueza. Ali estava ‘O Mágico de Oz’, ‘Hamlet’ e tudo o mais com que a mente de George Lucas foi bombardeada quando era criança.” Cinematográfica e esteticamente falando, o filme reflete influências que vão de Ford (o deserto de Tatooine, que remete ao Monument Valley dos faroestes do diretor) a Kubrick (o salto no hiperespaço) e até ao documentário nazista de Leni Riefenstahl “O Triunfo da vontade” (na sequência final da condecoração).
No plano político, como já mencionado, a leitura varia de acordo com o gosto do freguês e de seu paladar ideológico. Na época do lançamento, jornais de esquerda acusaram o filme de fascismo e acharam que ele endossava a intervenção americana no Vietnã, enquanto os de direita navegavam em sentindo oposto, apontando o dedo para o forte teor comunista impregnado na narrativa, e que constituiria uma disfarçada defesa dos vietcongues contra o poderio militar dos EUA.
Já no plano psicanalítico, o longa-metragem elabora simbolicamente o rito de passagem da adolescência para a vida adulta. Por mais que negue reiteradas vezes, é impossível não perceber os traços biográficos de Lucas em seu alter ego, Luke. Da mesma forma que o personagem, o diretor também se sentia um estranho numa terra estranha na mocidade, deslocado em meio a uma cidadezinha pequena e esquecida no interior americano, longe do agito das grandes cidades. Também como o jovem Skywalker, Lucas amava a velocidade e a ousadia. E, da mesma forma que o seu herói teve de enfrentar a resistência do tio Owen para poder realizar o sonho de se tornar um piloto espacial, o cineasta precisou passar por cima da recusa do pai para seguir a carreira que havia escolhido. Para os jovens, sobretudo os tímidos e excluídos, que logo à primeira hora se conectaram à história, era fácil transpor a trama espacial para as suas vidas cotidianas na escola ou em casa, ainda que inconscientemente. O maniqueísmo primário e óbvio da trama, com o enfrentamento do bem contra o mal, dos mocinhos contra os bandidos, reduzido ao esquema cromático elementar de roupas e cenários (os tons escuros da roupa de Darth Vader e do interior da Estrela da Morte em contraposição aos trajes claros de Leia do interior da nave rebelde), facilitava o entendimento e a tomada de posições sem exigir grandes exercícios intelectuais, como na torcida de um jogo de futebol.
Em uma escala muito maior e mais espetacular, na telona esses adolescentes podiam enxergar de forma distorcida mas evidente o embate com as figuras, as situações e os problemas que tanto os afligiam: a paixão secreta e jamais correspondida pela garota mais bonita e inacessível do colégio, a presença castradora do pai, do diretor da escola ou do eventual sogro, a fanfarronice vazia do valentão cheio de marra e falastrão, os ensinamentos cheios de sabedoria profunda e verdade do velho e querido professor, os amigos e companheiros de infortúnio queridos e simpáticos etc. A projeção de suas inseguranças e a realização de seus desejos num panorama tão vasto quanto o espaço profundo de uma galáxia imaginária, repleto de movimento, som e ação, povoado de galantes cavaleiros empunhando sabres de luz (um notório símbolo fálico de virilidade e força sexual) e princesas destemidas, criaturas terríveis e vilões poderosos, ajudou a exibir diante deles um espelho muito mais legal, atraente e auto-afirmativo em que podiam se ver à vontade como sempre ansiaram em suas fantasias reprimidas, rebeldes com causa lutando por um sonho. E que adolescente, seja onde for, não é assim? Por trás de todo o artifício, de todo o clichê, portanto, é possível vislumbrar na obra de Lucas sentimentos autênticos e sinceros universais, envergando as máscaras de personagens arquetípicos de todas as épocas e culturas, como o Dom Quixote e o Sancho Pança metálicos de C3PO e R2-D2, o Mago Merlin de Obi-Wan Kenobi, ou o Teseu de Luke Skywalker, capazes de nos envolver e provocar empatia mesmo estando tão distantes de nossas realidades no tempo e no espaço. Para além de qualquer explicação erudita e teórica, essa, certamente, é a principal razão de “Star Wars” continuar tão popular entre os jovens e os eternamente jovens de mais de 20 anos.


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