e Leia a parte 3 de "O Rebelde com causa contra o império do mal", o making of de "Star Wars" ~ Diário do Moretti
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sábado, 17 de março de 2018

Leia a parte 3 de "O Rebelde com causa contra o império do mal", o making of de "Star Wars"





O REBELDE COM CAUSA CONTRA O IMPÉRIO DO MAL
Parte três

Por Marco Moretti

Harrison Ford, ainda pouco conhecido quando foi escalado para ser Han Solo
Fonte: Wikipedia

Numa estimativa modesta, o departamento de efeitos especiais da Fox considerou que seriam necessários ao menos 7 milhões de dólares para criar nas telas o mundo imaginário de George Lucas, contabilizando nesse cálculo a construção de cenários e a confecção de centenas de figurinos. A previsão de orçamento era não só absurda como proibitiva para uma aventura espacial nos idos da década de 1970, em que o tipo de ficção científica predominante, apocalíptica ou esotérica, como “Zardoz” e “Corrida Silenciosa”, dava pouco retorno financeiro e menos ainda prestígio crítico, e não havia razão para pensar que as coisas seriam diferentes com “Star Wars”. É bem possível que o longa-metragem fosse abortado antes mesmo de um só fotograma ser filmado, não fosse a entrada em cena do segundo herói de carne e osso dessa saga, após Alan Ladd Jr.. Ralph McQuarrie era um artista de grande talento que no passado havia trabalhado criando ilustrações para a fabricante de aviões Boeing e que o amigo de Lucas Hal Barwood contratou por volta de 1972 para desenvolver algumas pinturas conceituais para um filme de ficção científica que acabou jamais sendo realizado. Foi nessa ocasião que Lucas o conheceu, e lembrou-se do artista quando precisava exibir uma visão arrebatadora de seu universo de fantasia que cativasse a imaginação dos acionistas do estúdio.
As artes criadas por McQuarrie, nessa primeira etapa, eram baseadas no manuscrito inacabado de “The Star Wars” e apresentavam a sua própria interpretação, muito particular e bem diferente do que conhecemos hoje, é verdade, mas inegavelmente fascinante, dos personagens principais, cenários e ambientações da trama. Curiosamente, muitas das pinturas de McQuarrie teriam o efeito reverso de inspirar George Lucas na hora de desenvolver as roupas, as armas e até na escalação dos atores. Como descrito no roteiro, Darth Vader, por exemplo, devia ser um sujeito baixo e pouco impressionante, mas como uma das ilustrações do artista o mostrava quase como um ser avantajado coberto por um manto negro, um capacete estilo samurai com alguma reminiscência nazista, isso levou o cineasta a rever os conceitos e a contratar um intérprete à altura (literalmente) do papel, David Prowse, um fisiculturista britânico com quase dois metros. O físico de Prowse o havia habilitado a atuar justamente como o monstro de Frankenstein (em “O Horror de Frankenstein”, de 1970) e a fazer uma pequena ponta em “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick (é ele o guarda-costas do escritor que é barbaramente torturado pelo bando de delinquentes liderado por Malcolm McDowell). A estratégia funcionou e a Fox deu o sinal verde, aprovando um orçamento inicial de 8,25 milhões de dólares em fevereiro de 1975. Se não era o suficiente, ao menos garantiria que a produção desse os primeiros passos.
Mas criar os complicados efeitos especiais que a história exigia não seria tarefa fácil, nem barata. De imediato, o diretor percebeu que o filme excederia tudo o que havia sido feito até então nessa área, incluindo o revolucionário “2001”. Em outras palavras, os efeitos teriam de ser criados a partir do zero. Naquela época, os departamentos de efeitos especiais dos grandes estúdios, como o da própria Fox, dirigido durante anos pelo mestre L.B. Abbott (de “O Planeta dos Macacos”, a versão original, e “O Destino do Poseidon”, entre outros blockbusters), estavam fechando ou haviam reduzido drasticamente as suas operações, e não tinham combustível para criar novas tecnologias. A única saída que Lucas encontrou foi fundar, ele mesmo, a sua própria companhia produtora de efeitos especiais, e assim surgiu a hoje mundialmente famosa Industrial Light and Magic (ILM).
A nova empresa, montada originalmente em um galpão abandonado em Van Nuys, em Los Angeles, arregimentou um pequeno batalhão de jovens e inventivos profissionais especializados em áreas tão diversas quanto computação, robótica, fotografia e comerciais de televisão, alguns dos quais haviam trabalhado com Douglas Trumbull, o mago dos efeitos especiais de “2001”, como o temperamental John Dykstra, que ficou encarregado de supervisionar todo o complicado trabalho, e outros recém-saídos das universidades, como Lorne Peterson, Paul Huston e Steve Gawley (criadores de maquetes), Richard Edlund (cinegrafista de miniaturas), Dennis Muren (técnico de efeitos visuais), entre muitos outros. Os desafios eram enormes. Um novo sistema de controle de movimento de câmera, por exemplo, teve de ser montado meio que de improviso, na base da gambiarra, a partir de peças e placas de computadores, isso numa época em que os chips ainda eram apenas os nomes de um tipo de batatinha frita. O próprio Dykstra trouxe consigo um equipamento que ele mesmo havia desenvolvido para “Corrida Silenciosa”, o Dykstraflex, para auxiliar na programação dos movimentos dos modelos. Outra divisão ficou encarregada de criar as maquetes das naves espaciais e veículos a partir das ilustrações feitas por McQuarrie e o diretor de arte, Joe Johnston, que anos depois se tornaria um eficiente diretor de filmes de fantasia e super-heróis (como “Capitão América: O Primeiro Vingador”). Quanto ao design, Lucas sabia bem o que queria: um visual detalhista, em que as placas e parafusos deviam se sobressair na carcaça fosca das espaçonaves, em vez da aparência lisa, arredondada e brilhante dos foguetes e discos voadores típicos dos anos 1950 e 60. O alto custo para a manutenção das operações da ILM (25 mil dólares por semana), contudo, obrigou o cineasta a mudanças drásticas para diminuir a quantidade de efeitos especiais do filme. No roteiro original, por exemplo, a sequência de abertura descrevia quatro destróieres imperiais perseguindo a pequena nave rebelde, mas eles tiveram de ser reduzidos para apenas um único e imenso exemplar. E essa não foi a única revisão que o roteiro sofreria.
Com o pontapé inicial dado para a criação dos efeitos especiais, o passo seguinte foi a escalação do elenco, processo que teve início ainda no final de 1975. Para facilitar as coisas, Lucas resolveu somar forças com o colega Brian De Palma, que na época estava começando a fazer audições para selecionar os atores de “Carrie, a estranha”, a primeira adaptação de uma obra de Stephen King para o cinema. Os dois tinham a mesma ideia em mente: escolher rostos desconhecidos para os papeis principais, o que significava descobrir os mais talentosos e testá-los, avaliando-os na leitura dos diálogos, um trabalho árduo que se prolongou por mais de seis meses. Para a empreitada, Lucas contou com a ajuda valiosa de Fred Roos, diretor de elenco de “O Poderoso Chefão”, que ele tomou emprestado de Coppola (que, a propósito, se opôs veementemente à decisão do amigo de experimentar atores inexperientes). Calcula-se que foram testados milhares de jovens, alguns dos quais saltariam para o estrelato anos depois, como Christopher Walken e Kurt Russell (como Han Solo).
Para interpretar o herói principal de sua saga espacial, Luke Skywalker, a primeira escolha de Lucas era um ator de televisão chamado Will Seltzer, embora muitos outros tivessem sido testados e rejeitados. Um deles era um certo Mark Hamill, de 24 anos, conhecido dos telespectadores por sua participação na “soap opera” (novela americana) “General Hospital” e que nunca havia trabalhado numa produção de cinema antes. Hamill chegou a se submeter a uma audição mas foi dispensado e teria sido esquecido se Roos não insistisse com o diretor para que desse uma nova chance ao rapaz. Algo em sua atuação pareceu evocar a inteligência e a integridade que o personagem possuía, ao menos no roteiro, e assim ele ficou com o papel.
Roos também foi decisivo na escolha de Carrie Fisher, de 19 anos, para interpretar a princesa Leia. Ela mesma pertencia a uma outra realeza, a de Hollywood, já que era filha de Debbie Reynolds, a antiga estrela de “Cantando na Chuva”, o musical icônico dos anos 1950 (e ganhadora de um Oscar por seus trabalhos humanitários), com o ator e cantor Eddie Fisher. Praticamente todas as jovens atrizes de Hollywood já haviam sido testadas quando Carrie foi convidada para fazer uma tentativa. Como na época ela estava matriculada numa escola de interpretação na Inglaterra, e achou que o papel (e o filme) estavam muito aquém de suas ambições, preferiu declinar da oferta. Foi somente quando a atriz viajou de volta para casa, no Natal de 1975, é que Lucas a convenceu a ler a extensa fala de Leia no holograma projetado por R2D2. O teste foi considerado um sucesso e a atriz se viu na pele da princesa rebelde. Antes, porém, foi obrigada a perder alguns quilinhos para se adequar ao perfil esguio da personagem, conforme imaginada pelo diretor.
Harrison Ford nem de longe foi a primeira escolha de Lucas para encarnar Han Solo. Não tanto por razões pessoais, mas porque o ator já havia atuado em “Loucuras de Verão”, e, por uma birra tola, o cineasta estava reticente em empregar um rosto que já havia aparecido em qualquer de seus filmes anteriores. A escalação de Ford, então com 34 anos, na verdade, deveu-se mais a um acaso do que a uma escolha consciente. Para ser mais preciso, a uma porta. Naqueles tempos, o futuro Indiana Jones, ainda um ilustre desconhecido do grande público, completava a renda fazendo bicos de carpintaria e foi justamente para trocar uma porta, e não para participar de um teste cinematográfico, que ele foi chamado para ir ao escritório da Zoetrope, onde estavam sendo realizadas as audições. Quis o destino, contudo, que Lucas mudasse de ideia ao rever o rapaz e acabasse concordando com a sugestão de Roos em submetê-lo a uma leitura. A princípio escalado apenas para ajudar a responder aos diálogos com os outros atores que estavam sendo submetidos a teste, surpreendentemente, Ford se ajustou como uma luva ao papel do cínico e vivido mercenário espacial, talvez mais do que qualquer dos seus companheiros a seus respectivos personagens, embora se recusasse, inicialmente, a participar das eventuais sequências previstas.
Os três atores, virtuais novatos, aceitaram sem questionar o salário oferecido, de meros mil dólares semanais, e concordaram com a exigência de filmar nos estúdios ingleses (do trio, apenas Mark Hamill teve de suportar o escaldante calor do deserto tunisiano).
Ao contrário do que se pode imaginar, a escolha de intérpretes tão baratos teria contentado os chefões da Fox, mas não foi exatamente isso o que sucedeu. Uma produção milionária daquelas não podia se escorar apenas em anônimos, por mais talentosos e bonitos que fossem. Assim, Lucas teve de se esforçar para encontrar nomes mais “bancáveis”, que dessem algum prestígio ao seu filme. Originalmente, ele cogitou convidar o lendário astro dos longas-metragens de samurais de Kurosawa, Toshiro Mifune, para viver Obi-Wan Kenobi ou o próprio Darth Vader, mas a ideia não prosperou.
No lugar de Mifune, o diretor se voltou para algum ator britânico de renome, cujo currículo pudesse dar um ar de respeitabilidade à produção, e foi assim que o oscarizado Alec Guinness (por “A Ponte do Rio Kway”, o clássico de guerra dirigido pelo inglês David Lean em 1957), veterano de mais de 40 filmes, acabou vestindo o manto do velho cavaleiro Jedi. Ao ler o roteiro, porém, a impressão de Guinness é que estava embarcando em uma canoa furada e exigiu um salário à altura de seu prestígio e do risco que corria ao participar daquilo que chamou de uma mera ficção científica recheada de diálogos sofríveis. No total, o veterano ator abocanhou 150 mil dólares, além de 2% do lucro líquido. Anos depois, ele confessaria que, se tivesse previsto o desempenho que o filme obteria nas bilheterias, certamente teria exigido um percentual bem mais generoso.
Mas havia também uma razão mais prática para a contratação de Guinness. Como parte das filmagens seria realizada nos estúdios Elstree, próximo a Londres, na época os maiores do mundo, a legislação trabalhista então em voga na Inglaterra exigia que a produção empregasse obrigatoriamente uma cota mínima de mão-de-obra local, tanto para o elenco quanto para a equipe técnica. Isso levou à contratação, para o papel do governador Tarkin, de outro antigo astro do cinema britânico, Peter Cushing, um rosto conhecido dos cinéfilos das fitas de terror do estúdio inglês Hammer nos anos 1950 e 1960, nas quais costumava contracenar com o eterno Drácula Christopher Lee.
Também da terra de Shakespeare vieram os intérpretes de outros personagens-chaves da trama. O ator Anthony Daniels contou que, ao ver as ilustrações de McQuarrie para C3PO, sentiu de imediato a vulnerabilidade do personagem, mesmo sob a máscara metálica, e achou que o robô havia sido feito sob medida para ele. Originalmente, Lucas pretendia dar ao companheiro de R2 a voz descuidada de um vendedor de carros usados, mas acabou se convencendo que o tom afetado de mordomo inglês proposto pelo ator casava melhor com a personalidade subserviente do ser mecânico. O sofrimento de Daniels dentro da armadura feita de fibra de vidro de 3PO, que só foi montada inteiramente no momento das filmagens em locação na Tunísia, e que o impedia de se sentar e cujas rebarbas cortavam a pele, só não era maior do que as agruras de seu companheiro de baixa estatura Kenny Baker, comediante de teatro, que teve de espremer o corpo mirrado de 1,12 metro dentro da apertada lataria de R2-D2 (havia uma versão de R2 guiada por controle remoto, que nunca funcionou direito, assim como a maioria dos demais robôs que aparecem no filme, que não passavam de meros equipamentos controlados a distância e que viviam pifando).
Peter Mayhew, um atendente hospitalar de 2,18 metros de altura, teve a primazia de vestir o traje peludo do adorado Chewbacca. Para dar mais “credibilidade” ao papel, Mayhew visitou um zoológico londrino para estudar os movimentos de animais de grande porte a fim de incorporá-los aos maneirismos do peludão wookie. Como já foi dito, o seu compatriota David Prowse, fisiculturista de profissão, ficou com o mais imponente e temido papel, o de Darth Vader. Conquanto tivesse o “physique du role” apropriado para o personagem, o sotaque britânico carregado e a voz aguda do ator não lhe davam a autoridade necessária, e Lucas preferiu dublá-lo com a voz de barítono do ator negro americano James Earl Jones, depois de considerar por um tempo usar o vozeirão de Orson Welles. Curiosamente, na audição, o diretor ofereceu tanto a Prowse quanto a Mayhew os papeis de Vader e Chewbacca, e deixou que eles mesmos escolhessem quais personagens preferiam interpretar.
A área cenográfica talvez tenha sido a que mais sofreu com o orçamento apertado. A equipe formada pelo desenhista de produção, John Barry (de “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick), os diretores de arte Leslie Dilley e Norman Reynolds, e o decorador, Roger Christian, tiveram de se virar com ferros-velhos, canos e peças de segunda mão para criar os cenários das diversas ambientações da história, além dos armamentos e toda a sorte de apetrechos e equipamentos que vemos em cena. No final das contas, a improvisação forçada veio ao encontro das intenções de Lucas, que desde “THX” vinha buscando um “visual gasto” para os seus filmes futuristas, na intenção de introduzir um certo ar decadente e “sujo” num gênero que tradicionalmente sempre emanou uma aura de limpeza asséptica e modernidade tecnológica. Para o interior da Estrela da Morte, Barry concebeu um contraste entre superfícies escuras e claras, o que deu enormes dores de cabeça ao diretor de fotografia, Gil Taylor, na hora de iluminar as cenas.
Um especialista em uniformes militares, John Mollo, foi contratado para desenhar os trajes dos oficiais imperiais, das tropas de assalto e dos soldados rebeldes. Da mesma forma que Lucas, ele recolheu referências esparsas que iam dos oficiais nazistas e japoneses a fuzileiros navais americanos da época da Segunda Guerra Mundial, incorporando aqui e ali referências à cultura samurai. Com meros 90 mil dólares, Mollo teve de fazer milagres para criar todas as roupas do filme. As máscaras das tropas de assalto não eram feitas sob medida e por vezes se encaixavam mal nas cabeças dos extras, impedindo a sua visão e fazendo com que a toda hora trombassem com os elementos do cenário. Se o traje negro e imponente de Darth Vader remete ao de um motoqueiro, com jaqueta e botas de couro, é porque ele foi feito exatamente com esse material. Calças jeans e um manto barato bastaram para vestir Luke Skywalker. Muito mais trabalhoso foi a tarefa de manufaturar a pelugem de Chewbacca, obra do maquiador Stuart Freeborn, que também criou as fantasias dos símios em “2001”. A roupa foi feita a partir de pelos de iaque e de coelho costurados em um tecido de lã e era tão quente que os olhos de plástico embaçavam a todo momento devido à transpiração de Mayhew, dificultando a sua visão. A Freeborn também recaiu a exaustiva tarefa de criar todos os alienígenas que vemos na célebre sequência da cantina em Mos Eisley.
Outro importante nome da equipe de produção foi o diretor de som, Ben Burtt, nome sugerido por Walter Murch. Talentoso e cheio de energia, Burtt teve de usar toda a sua criatividade para criar os sons alienígenas de “Star Wars”. O urro de Chewbacca, por exemplo, foi desenvolvido a partir da mistura do rugido de um urso esfomeado de um zoológico com o de um leão-marinho, um texugo e um leão. Ele também criou os bipes eletrônicos de R2, que Lucas queria sentimentais e espontâneos como os de uma criança (usando um sintetizador, Burtt distorceu a própria voz para parecer balbucio e choro de bebê e a mesclou com ruídos artificialmente criados), além da respiração de Darth Vader (produzida por intermédio de um microfone acoplado a um bocal de respiração de equipamento de mergulho) e o som característico do sabre de luz, também criado eletronicamente. Para alguns efeitos sonoros, como os das rajadas de laser, ele recorreu a recursos simples, baratos e inventivos: simplesmente gravou e modulou os sons produzidos pela vibração de cabos de aço.
O roteiro continuava a ser constantemente polido na esperança de melhorar os diálogos sofríveis (a certa altura, o casal Huyck e Katz, os amigos de Lucas que já haviam acorrido em seu socorro durante a feitura do roteiro de “Loucuras de Verão”, ajudaram a reescrever algumas falas, em troca de modestos 15 mil dólares. No final das contas, os nomes deles não foram creditados no filme, embora se estime que foram responsáveis por um terço do tratamento final) quando a primeira etapa das filmagens começou, no escaldante deserto tunisiano, no norte da África, em março de 1976. Foi para aquelas paragens desoladas que a produção, que remontava a cerca de 150 pessoas (meia dúzia de extras, selecionados entre a população local tunisiana, se somariam a esse total para vestir as armaduras brancas dos Stormtroopers), se deslocou a bordo de um avião Hercules fretado por Gary Kurtz. A bordo, além de milhares de dólares em equipamentos e peças cenográficas elaboradas pela equipe de arte, estava o esqueleto artificial de um dinossauro usado em um longa-metragem antigo da Disney que estava pegando pó nos estúdios ingleses, e que seria empregado em uma das cenas do longa-metragem, quando os dois robôs pousam em Tatooine.
O próprio nome do planeta, que, a propósito, originalmente estava previsto para se chamar Utapau no roteiro de Lucas (uma provável referência ao livro “A Utopia” de Thomas Morus), foi modificado, por razões de sonoridade, para ficar semelhante ao de uma aldeia perto do local das filmagens chamada Tataouine (e que recentemente foi disputada pelo grupo extremista islâmico Estado Islâmico). Um colega de palco de Kenny Baker, Jack Purvis, além de um punhado de crianças de oito a dez anos, escaladas entre os habitantes locais ou os membros da produção (duas delas eram os filhos de Kurtz), fizeram os papeis de Jawas, aqueles seres pequenos trajando mantos pretos e com olhos brilhantes que raptam R2 no deserto para revendê-lo depois ao tio de Luke. O bantha, aquele ser enorme que parecia um elefante disfarçado como mamute que serve de transporte para o Povo da Areia, era exatamente isso, um elefante asiático chamado Mardji fornecido por um parque de diversão americano recoberto de uma “manta” de pele de cavalo e maquiado com chifres encurvados feitos com tubos de ventilação de plástico (mas as suas imagens foram feitas muito mais tarde, por uma equipe de segunda unidade, não na Tunísia, mas no deserto do Vale da Morte, nos Estados Unidos).
Desde o começo, porém, a produção parecia estar fadada ao desastre. Logo ao chegarem a Djerba, a cidade em que a equipe ficaria instalada durante as filmagens em locação, os produtores descobriram, consternados, que os hotéis e os técnicos disponíveis já estavam sendo ocupados por outra superprodução que estava sendo realizada no mesmo local e na mesma época, a da minissérie (depois longa-metragem) “Jesus de Nazaré”, de Franco Zeffirelli. Nas primeiras semanas, uma sucessão de acidentes assolou a locação e deu enormes dores de cabeça ao supervisor de produção, Robert Watts. De tempestades violentas (a primeira na região em 50 anos) que arrasaram os cenários erguidos para sediar Mos Eisley, a cidade infestada de tipos estranhos, até incêndios que destruíram parte de um carregamento de robôs. Tampouco havia meio de fazer esses dróides funcionarem a contento. Nada, porém, foi mais frustrante do que tentar fazer R2D2 caminhar uns poucos metros que fosse. A toda hora o pobre Kenny Baker desabava dentro da lataria e as poucas tomadas em que o robozinho aparece se movimentando são as únicas que deram certo (alguns planos com ele andando foram feitos mais tarde, também no deserto do Arizona, nos Estados Unidos). Isso sem mencionar o calor sufocante, de quase 50º, que fustigou os dois atores metidos em suas vestes metálicas. Não menos complicado foi fazer funcionar o landspeeder, o carro voador de Luke, na verdade um chassi de fibra de vidro montado sobre uma estrutura de carrossel que os técnicos tinham de girar no muque de um lado para o outro em alta velocidade para criar a ilusão de que o veículo flutuava no ar como um hovercraft. No final, essas cenas também tiveram de ser refeitas nos Estados Unidos. Até a filmagem do “duplo por do sol” em Tatooine, em que Luke contempla o horizonte, deu trabalho para ser realizada a contento, pois o tempo teimava em não colaborar (apenas um dos sóis é de verdade, o outro é uma duplicação feita na pós-produção).
O próprio Lucas não ajudava muito a melhorar as coisas. A sua proverbial timidez fazia com que ele não conseguisse impor respeito com a mesma determinação que o seu companheiro Coppola costumava fazer. Certa vez, um jornalista em visita ao set de filmagens demorou três dias para descobrir quem era o diretor, pois todo mundo dava ordens e ninguém se entendia. Lucas parecia se encolher atrás de sua técnica de direção passiva e lacônica, e que se limitava a apenas duas frases: “mais rápido” e “mais intenso”. Um estilo que Sir Alec Guinness descreveu como “indeciso”. O próprio Guinness teria ainda mais razões para ficar irritado, quando descobriu, só bem mais tarde, que uma mudança importante seria feita na história e que o seu personagem seria sacrificado num duelo final de sabres de luz com Darth Vader. Apesar disso, foi o seu profissionalismo, a sua boa vontade e perene bom-humor que mantiveram o moral dos colegas em alta durante as duras filmagens no deserto.
Devido a todos esses problemas, Lucas declarou mais tarde que se sentiu profundamente deprimido durante toda a filmagem em locação, já que nada parecia dar certo. As dificuldades não só não amenizaram como pioraram quando, em abril, a produção se deslocou para os estúdios londrinos em Elstree, onde a maior parte das cenas de interior foi realizada, incluindo as da cantina de Mos Eisley, da Estrela da Morte e do Millennium Falcon (algumas cenas, como a da Sala do Trono, da sala de controle rebelde e do hangar na lua de Yavin, foram feitas em outro estúdio inglês, o de Shepperton). Também na Inglaterra foi construído um “mockup” (uma versão em tamanho natural), com esteira e tudo, da parte inferior do imenso veículo usado pelos Jawas para cruzar o deserto de Tatooine. Nas tomadas em plano geral, foi empregada uma maquete construída na ILM.
Continua na próxima semana


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