e Leia a primeira parte de "O Minotauro no labirinto do gênio", o making de "O Iluminado", de Stanley Kubrick ~ Diário do Moretti
Facebook

domingo, 2 de abril de 2017

Leia a primeira parte de "O Minotauro no labirinto do gênio", o making de "O Iluminado", de Stanley Kubrick





O MINOTAURO NO LABIRINTO DO GÊNIO
Parte 1

Por Marco Moretti

Jack Nicholson e Shelley Duvall em cena de "O Iluminado", de Stanley Kubrick
Fonte: Wikipedia

            A raiva é um combustível poderoso, sobretudo para inspirar boas ideias na ficção, disse certa vez um escritor e roteirista de televisão. Esse adágio talvez não seja inteiramente verdade para todos os escritores e tampouco para todos os livros, contos, peças de teatro e roteiros já criados. Mas com certeza foi verdadeiro para Stephen King, o celebrado autor de livros de terror americano, quando se debruçava sobre a máquina de escrever em busca de inspiração para o seu terceiro livro, em meados dos anos 1970. King já era um escritor renomado e relativamente conhecido, que havia conquistado um lugar ao sol com o sucesso de seus dois primeiros romances publicados, “Carrie, a Estranha”, de 1974, e “A Hora do Vampiro”, do ano seguinte. O estrondoso êxito da versão cinematográfica de “Carrie”, dirigida por Brian De Palma em 1976, ajudou a difundir ainda mais o nome de King junto ao público e a firmá-lo como um novo ícone do gênero horror, fama que ele tratou de consolidar nos anos seguintes com sucessivas obras de incontestável êxito editorial (mas nem sempre crítico), que ajudaram a alçá-lo ao mesmo patamar de mestres como Edgar Allan Poe, Bram Stoker (autor de “Drácula”) e H.P. Lovecraft. Embora esse sucesso tenha se traduzido, como se pode imaginar, em polpudos rendimentos para King e sua esposa dos tempos da faculdade, Tabitha, o que lhes permitiu até comprar a primeira casa, em Boulder, no Colorado, a exigência dos editores da Doubleday, que detinha o contrato de exclusividade de seus trabalhos, em produzir uma nova obra que ombreasse com as anteriores começou a pesar nos ombros do promissor escritor.
Havia, também, outro fator que contribuía para o fardo de preocupações que tiravam o sono de King. A infância sofrida, passada sob condições extremas, no Maine, em que a ausência do pai alcoólatra desaparecido pairava como uma maldição sobre os esforços da mãe em dar as mínimas condições de vida e de educação aos dois filhos, deixou cicatrizes profundas na psique do autor de “Dança da Morte” por toda a sua existência. Isso e o medo de se manter à altura das expectativas que o cercavam, somado à insegurança de se adaptar a um novo hábitat longe de sua terra natal o levaram à beira do precipício da frustração e do desespero. A consequente instabilidade emocional provocada por esse contexto passou a se refletir, de forma gradualmente mais intensa, em seu comportamento dentro e em fora de casa. O alcoolismo, que ele sempre tentou combater, reassumiu com toda a força as rédeas de suas ações. Esse vício o levaria a sucumbir nos anos seguintes ao uso pesado de cocaína e outras drogas extremas até culminar com uma internação em uma instituição de saúde. Outro efeito perceptível da perda de controle que ele vinha experimentando como decorrência da pressão que sentia foram as sucessivas explosões de raiva e irritação dirigidos à mulher e aos filhos pequenos, a ponto de sentir ímpetos violentos em espancá-los, embora nunca tenha chegado a tanto.
O mais próximo que King esteve de cometer um infanticídio foi numa certa ocasião em que o seu filho, Joe, com três anos à época (hoje, com o nome de Joe Hill, o rapaz vem seguindo os passos do pai como romancista de terror), apanhou um calhamaço dos originais do pai e começou a desenhar figuras com lápis coloridos nele. O que conteve o escritor de cometer um desatino foi o conselho da falecida mãe, de extravasar no papel os pensamentos ruins que pudesse ter. Foi assim que King começou a elaborar a trama de uma história que girava em torno de um pai violento que perde a cabeça e persegue o filho e a mulher com o intuito de trucidá-los.
A essa ideia nuclear veio juntar-se outra, com que o escritor vinha brigando pouco antes, a respeito de uma criança dotada de percepção extrassensorial que aterrorizava os frequentadores de um parque de diversões, uma espécie de variação do tema de “Carrie”. Por mais que se esforçasse, contudo, a narrativa patinava e teimava em não sair do lugar. Foi mais ou menos nessa ocasião que ele decidiu tirar uma folga para descansar do penoso trabalho de espremer os neurônios para extrair a trama do novo romance. Seguindo a recomendação de vizinhos, ele e a esposa se hospedaram no Stanley Hotel, em Estes Park, uma região montanhosa a menos de 100 quilômetros de Boulder. Uma placa na estrada avisava que o lugar costumava ficar fechado durante todo o inverno e, mal puseram os pés no hotel, o escritor avistou três freiras partindo apressadas, o que lhe deu a impressão de que Deus tinha abandonado o Stanley e que o mal imperava ali. Com a imaginação borbulhando de excitação a caminho de seu quarto, o de número 217, ele notou vários detalhes interessantes por onde passava, entre os quais uma mangueira enrolada na parede feito uma cobra e a banheira tão funda que ele quase se afogou dentro quando foi tomar banho. Ao constatar que eram os únicos hóspedes ali e que o fim de semana que passariam seria na verdade o último antes do Stanley fechar para o inverno, King já tinha o esqueleto de seu romance inteiro na cabeça.  
Assim que voltou para casa, ele passou a escrever o aguardado terceiro livro, juntando os temas do pai violento, Jack Torrance, de seu filho com poderes de PES, Danny, e do hotel mal-assombrado, o Overlook. A esses elementos, ele somou outros dois, extraídos diretamente de sua experiência pessoal. O alcoolismo e o bloqueio criativo, outros tantos demônios que ele estava tentando exorcisar. Anos depois, King contou que a parte mais difícil do livro foi aquela em que o jovem Danny Torrance depara com uma mulher morta na banheira do quarto do hotel. A cena era tão aterrorizante que o escritor empacou na hora de escrevê-la. Durante várias noites seguidas, ele teve um pesadelo recorrente com uma explosão nuclear, que só passou quando finalmente conseguiu concluir a cena.
O título original para o livro seria “Shine”, tirado do refrão “We all shine on” (“Todos nós brilhamos”), da letra da música “Instant Karma”, de John Lennon e Yoko Ono. Na versão peculiar do romancista, a expressão “to shine” (“brilhar”, em português), passou a representar uma estirpe especial de pessoas com capacidades telepáticas e premonitórias. Porém, a Doubleday objetou que esse nome poderia ser mal interpretado, pois “shine” era também uma gíria usada pejorativamente para se referir aos negros americanos. Foi assim que o livro chegou às livrarias em janeiro de 1977 com o nome definitivo de “The Shining” (“O Iluminado”). Com uma tiragem inicial de 50 mil exemplares em capa dura, o romance se tornou, de fato, o primeiro best-seller de Stephen King, exigindo várias reimpressões subsequentes. Ao contrário do que se poderia esperar, a reação crítica foi bastante positiva, com resenhas elogiosas no “New York Times” e “Cosmopolitan”. Isso não impediu, entretanto, que “O Iluminado” se tornasse a primeira obra do autor a ser banida das bibliotecas escolares a pedido dos pais e professores, devido à sua extrema violência e clima assustador. A polêmica fez bem ao livro, cujas vendas cresceram exponencialmente. E também atraiu (novamente) a atenção dos estúdios de Hollywood.
“O Iluminado” circulou pelos escritórios dos mais proeminentes agentes e produtores da Meca do cinema até parar eventualmente nas mãos do mais brilhante e sagaz diretor americano da época. Nos idos dos anos 1970, Stanley Kubrick (1928-1999) era tido pela crítica como um dos quatro grandes gênios da sétima arte em atividade (os outros três eram o sueco Ingmar Bergman, o japonês Akira Kurosawa e o italiano Frederico Fellini), e cultivava a fama de recluso e difícil com a mesma meticulosidade com que planejava e executava cada um de seus filmes. Em três décadas de atividade, o cineasta havia erigido um complexo e fascinante conjunto de obras que lhe emprestaram a aura de visionário, que ele compartilharia por todo o resto da vida com outros luminares da telona como os seus compatriotas D.W. Griffith, Orson Welles, King Vidor e Cecil B. DeMille e o russo Sergei Eisenstein. Assim como o inglês Alfred Hitchcock, Kubrick também era fascinado pelo aspecto técnico de sua profissão, e nunca deixou de explorar os potenciais que a tecnologia podia lhe oferecer para criar trabalhos sempre ousados e inovadores.
Assim como os seus predecessores da época do cinema mudo, ele era um diretor essencialmente visual, que preferia usar as imagens como condutoras da narrativa no lugar das palavras, bem ao contrário de muitos de seus colegas contemporâneos, a maioria oriunda da televisão, como Sidney Lumet (“Um Dia de cão”) e John Frankenheimer (“Sete dias de maio”). Tratava-se de uma característica herdada de sua primeira profissão, a de fotojornalista. Nascido no Bronx, em Nova York, de uma família de imigrantes judeus austríacos de classe média (o pai era médico homeopata), o futuro diretor de “2001, Uma Odisseia no espaço” já era desde muito cedo um rebelde latente, e manifestava uma profunda aversão contra a escola e os seus métodos pedagógicos. Na tentativa de “endireitá-lo”, os pais o enviaram para a casa de um tio comerciante em Pasadena, na Califórnia, onde ele permaneceu por um ano, em 1940. A única coisa que resultou desse exílio forçado foi a paixão por toda a vida pelo xadrez, cujas regras foram ensinadas a ele pelo tio. De volta para casa no ano seguinte e às vésperas de Pearl Harbor, o jovem ganhou de presente uma máquina fotográfica, o que lhe abriu os olhos para uma nova maneira de expressar o seu inconformismo com o mundo que o cercava.
Munido então de seu brinquedo favorito, Kubrick rapidamente aprendeu a dominar a linguagem da composição de imagens e emprego da iluminação e não tardou em se tornar o fotógrafo oficial da revista da escola, ao mesmo tempo em que se iniciava em uma nova paixão como baterista de jazz. Esse período de aprendizagem culminou, em 1945, com a primeira venda profissional de uma foto tirada por ele e a contratação precoce como fotógrafo da conceituada revista “Look”. Nos anos subsequentes, ele aprimorou o seu olhar para os pequenos mas significativos detalhes do cotidiano, captando sugestivas imagens ricas em simbolismo. Era uma questão de tempo para que o seu caminho e o do cinema se encontrassem. Em 1949, casado com a primeira mulher, Toba Metz, e enfim já reconhecido como um inegável talento, ele foi encarregado pela “Look” de produzir um ensaio fotográfico de sete páginas sobre o lutador de boxe peso-médio Walter Cartier. Kubrick não demorou a perceber que a característica cinética de seu tema (um lutador em ação no ringue) pedia uma abordagem menos estática. Assim, ele se associou ao amigo Alex Singer para produzir e dirigir o seu primeiro curta-metragem, o documentário “Day of the fight” (“Dia de luta”), que conseguiu vender para o estúdio RKO em 1951.
A RKO gostou tanto do resultado que financiou naquele mesmo ano o seu segundo documentário de curta-metragem, “Flying padre” (“O Padre voador”), a respeito de um sacerdote católico que usava um avião para voar de uma paróquia a outra. Animado com essas experiências, ele pediu demissão da “Look” e embarcou em sua primeira aventura cinematográfica de grande fôlego, “Fear and Desire” (“Medo e Desejo”), lançada somente dois anos depois, em 1953. Produção independente feita com dinheiro levantado junto ao pai e ao tio de Pasadena e com um roteiro escrito a quatro mãos por ele e seu colega Howard Sackler, “Medo e Desejo” era uma parábola pacifista envolvendo um grupo de soldados numa guerra supostamente fictícia. Conquanto carregue todas as deficiências que se pode esperar de uma produção barata de apenas 53 mil dólares, com atores desconhecidos (quase todos amadores, com exceção do futuro diretor Paul Mazursky), em que Kubrick, segundo as suas próprias palavras, executava as funções de “iluminador, câmera, operador, administrador, maquiador, figurinista, cabeleireiro, contrarregra, chofer” e, naturalmente, diretor, esse primeiro longa-metragem já trazia de forma embrionária muitos das obsessões que depois frequentariam a sua obra madura, como a ambiguidade alegórica, as imagens poéticas e os temas da lógica e do racionalismo pervertidos pela loucura e a consequente tragédia final.
Conquanto tenha passado em branco junto à crítica na ocasião do lançamento, o filme acabou sendo vendido, um ano depois, para um distribuidor de filmes de arte, o que o auxiliou a abrir algumas portas, como a do produtor independente James B. Harris, com quem Kubrick formaria uma fecunda parceria tempos depois. Casado pela segunda vez, agora com a bailarina Ruth Sobotka, ele empreendeu em 1955 o seu segundo projeto, “Killer’s Kiss” (“A Morte passou perto”), um filme noir passado em Nova York e escrito novamente por ele e Sackler, com produção de Harris e verba de um amigo da família. Na trama, toda filmada num preto e branco austero e contrastado, um lutador de boxe se mete em complicações quando se envolve com uma dançarina de nightclube e seu amante, um gângster perigoso. O filme agradou pelo menos a um estúdio de Hollywood, a United Artists, que o comprou e se encarregou de distribuí-lo no circuito comercial. Embora tampouco tenha logrado um substancial êxito de bilheteria, “A Morte passou perto” assegurou ao cineasta a garantia contratual de um terceiro longa-metragem, dessa vez com elenco e produção de gente grande.

Continua na próxima semana





0 comentários:

Postar um comentário

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Blogger Templates