e Leia a parte 3 de "O Minotauro no labirinto do gênio", o making of de "O Iluminado", de Stanley Kubrick ~ Diário do Moretti
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domingo, 16 de abril de 2017

Leia a parte 3 de "O Minotauro no labirinto do gênio", o making of de "O Iluminado", de Stanley Kubrick




O MINOTAURO NO LABIRINTO DO GÊNIO
Parte 3

Por Marco Moretti

O pequeno Danny Torrance e as gêmeas fantasmagóricas de "O Iluminado"
Fonte: Wikipedia

Depois de “Barry Lyndon”, Stanley Kubrick ingressou em um longo período de gestação, que durou mais de dois anos, perseguindo ideias para a realização de seu próximo projeto. Nenhum livro que lhe caía às mãos, contudo, o agradava. De acordo com o relato de sua secretária, era comum ouvir todos os dias baques vindos do interior de seu escritório. Virtualmente, nenhuma proposta de adaptação agradava o cineasta e a sua irritação expressava-se atirando contra as paredes os livros que não suportava ler mais do que a primeira dúzia de páginas. Até que, certo dia, o barulho cessou de súbito. Achando que o diretor havia sofrido uma síncope, a secretária entrou no escritório e o encontrou lendo atentamente as provas do único romance que tinha conseguido despertar a sua atenção e incendiar a sua fértil imaginação: “O Iluminado”, de Stephen King, sugerido por John Calley, executivo de seu estúdio, a Warner Bros..
Embora o diretor não pretendesse exatamente explorar o tema da paranormalidade, o livro tinha uma estrutura bem montada que capturou a atenção de Kubrick do começo ao fim. “Eu diria que a maior habilidade de King reside na construção da história”, ele declarou tempos depois, acrescentando que “O Iluminado” era uma das mais engenhosas e excitantes histórias que ele havia lido. Em sua análise, o livro, o primeiro do autor de “Carrie” que ele leu, conseguia atingir um equilíbrio extraordinário entre o psicológico e o sobrenatural de maneira a levar o leitor a explicar o sobrenatural por intermédio do psicológico. “Há algo inerentemente errado com a personalidade humana. Ela possui um lado maligno”, disse ele em uma entrevista. Sobretudo, o romance estimulava a sua imaginação cinematográfica e abria uma incrível possibilidade para que ele desse rédeas soltas à sua abordagem visionária.
Certa manhã bem cedo, Stephen King estava no banheiro, de cueca e fazendo a barba, quando a sua esposa apareceu com os olhos arregalados dizendo que Stanley Kubrick estava ao telefone. King nem sequer se preocupou em tirar o creme de barba do rosto quando atendeu a ligação transatlântica do excêntrico diretor anunciando a sua intenção de transformar “O Iluminado” em seu próximo projeto. A primeira coisa que Kubrick disse foi: “A ideia a respeito de fantasmas é sempre otimista, não acha?”. O escritor respondeu que não sabia do que ele estava falando, e então o cineasta explicou a ele que o conceito de fantasmas pressupõe a vida após a morte. “Trata-se de um conceito encorajador, não concorda?”. King já havia preparado um primeiro tratamento de roteiro de seu livro para a Warner, mas Kubrick preferiu deixá-lo de lado e nem sequer se deu ao trabalho de lê-lo, pois preferia usar apenas o esqueleto dramático do livro para enxertar nele as próprias ideias.
Ao contrário do que sucedeu na preparação de “2001”, em que trabalhou em estreita colaboração com o autor da história original, Arthur C. Clarke, o diretor preferiu não formar uma parceria com King e seguiu o seu próprio caminho, até porque, desde o início, era a sua intenção manifesta reelaborar “O Iluminado” segundo os seus padrões estéticos e narrativos (isso não impediu que o escritor chegasse a visitar o set de filmagem um dia, quando deparou com um diretor reservado, embora polido). Kubrick até começou a elaborar sozinho a sua primeira versão do roteiro, quando tomou conhecimento de que uma romancista que apreciava muito, Diane Johnson (autora do livro de mistério “The Shadow knows”, de 1974, entre outros trabalhos), estava ministrando um curso na Universidade da Califórnia, em Berkeley, a respeito da literatura gótica. A escritora topou o desafio de trabalhar com ele no roteiro e os dois conversaram bastante a respeito do romance. Durante três meses em meados de 1978, Johnson ficou em um apartamento em Londres de onde era transportada todo dia até a propriedade de Kubrick, fora da cidade. Ali, eles listaram as cenas que achavam que deviam ser incluídas no filme e as que deveriam ficar de fora, um esquema que sofreria inúmeras alterações, acréscimos e supressões antes que eles sentassem para escrever o primeiro tratamento, que também passou por muitas revisões antes e mesmo durante as filmagens. Outro procedimento adotado por Kubrick e Johnson foi adquirir vários exemplares do livro e arrancar deles cada parte que se referia a um dos personagens principais, separando-as depois em envelopes com os seus respectivos nomes. Eles também discutiram muitos assuntos pertinentes à história, como a literatura de H.P. Lovecraft, a obra seminal de Bruno Bettelheim sobre a psicanálise dos contos de fadas e até a interpretação dada por Freud a respeito dos fenômenos paranormais.
Quem lê o livro e assiste ao longa-metragem sabe que se tratam de duas coisas bem diferentes. Muitas das menções que são feitas no romance ao problema de alcoolismo de Jack Torrance foram reduzidas até quase desaparecer. A própria surra que certa vez ele deu no filho sob o efeito da bebida e que provocou uma fratura no braço do menino sequer é mencionada no filme. Outra imperdoável supressão foi a da caldeira no subsolo do hotel, cuja pressão do vapor precisava ser controlada constantemente por Torrance sob o risco de provocar uma explosão e que constitui uma interessante metáfora de seu estresse crescente (no filme, ela é mostrada apenas de relance). Nada do colapso nervoso dele com relação aos gerentes do hotel é mostrado, assim como os recortes de jornais que relatavam os fatos macabros ocorridos no Overlook durante muitas décadas. Os leitores também sentiram falta da mangueira na parede de um corredor que ganha vida e se comporta como uma serpente e do enxame de abelhas saído de uma colmeia que ataca o pequeno Danny em seu quarto de dormir. Muito mais relevante para a trama foi a completa supressão de Tony (cuidado com o spoiler!), a aparição do alter ego adulto do menino que envia do futuro mensagens telepáticas para preveni-lo da tragédia que está prestes a ocorrer (no filme, Tony é representado pelos colóquios que Danny tem com o próprio dedo indicador, uma solução, no mínimo, pueril).
Kubrick procurou a todo custo evitar as armadilhas dos clichês de filmes de horror. Portas que rangem e porões escuros estavam fora de cogitação. Algumas decisões do cineasta e sua parceira foram apropriadas, como a eliminação dos arbustos de animais que ganham vida. O diretor até chegou a considerar a ideia, mas a tecnologia de efeitos especiais da época não estava tão desenvolvida e o CGI (computação gráfica) nem mesmo existia para que a sequência se tornasse exequível sem cair no ridículo. A solução, engenhosa, foi inventar o intrincado labirinto de sebes do lado de fora do hotel Overlook. Outra invenção do diretor que não consta do romance são as aparições arrepiantes das filhas assassinadas do antigo zelador. A imagem, que evoca ao mesmo tempo inocência e horror, procurava recriar uma antiga foto de duas meninas, Phyllis, de cinco anos, e Barbara, de oito, paradas em pé uma lado da outra e usando vestidos idênticos, que ele tirou em seus tempos de fotojornalista para a “Look”, nos anos 1940. No filme, as meninas foram interpretadas pelas gêmeas Lisa e Louise Burns.
Kubrick chegou a discutir com King o final da história. O livro termina (olha outro spoiler!) com a destruição do hotel em um imenso incêndio, ao estilo da mansão Manderley em “Rebecca, a Mulher Inesquecível”, o filme de 1940 de Alfred Hitchcock, e isso era tudo o que o diretor não queria. A princípio, ele pensou em concluir a história com a ectoplásmica versão da família Torrance jantando no restaurante do hotel enquanto o gerente está ocupado recebendo o novo zelador. O escritor objetou que o público poderia se sentir enganado e então o cineasta imaginou outro final, aquele com a fotografia pendurada na parede que mostra Jack Torrance aprisionado numa espécie de “looping temporal” com os hóspedes mortos (uma solução que parece tirada de um episódio de “Além da Imaginação”, observou Stephen King).
Em outras versões do roteiro, o fim era mais dramático e inusitado. Numa delas, Jack ataca Wendy por trás e ela o esfaqueia no estômago. Depois, o chefe de cozinha, Halloran, se torna um lunático assassino graças à influência do antigo zelador, Grady, antes de ser detido pelos poderes psíquicos de Danny. No fim, Halloran também é esfaqueado por Wendy e morre tragicamente. Em todos esses tratamentos, era dado considerável destaque à pasta com recortes de jornais antigos que relatavam em detalhes os brutais assassinatos ocorridos no Overlook, que tem papel preponderante no romance, mas, no filme, ela só aparece de passagem algumas vezes sobre a mesa de trabalho de Jack Torrance e nem sequer é mencionada.
Com o trabalho no roteiro a todo vapor, Kubrick resolveu inicialmente regressar aos Estados Unidos para filmar lá “O Iluminado”, mas abandonou a ideia e decidiu ficar mesmo na Inglaterra e utilizar os bem equipados estúdios EMI-Elstree, próximos a Londres. Ele também chegou a considerar a possibilidade de realizar as filmagens no mesmo lugar que inspirou a Stephen King o livro, o Stanley Hotel (o prenome é mera coincidência), mas preferiu filmar os exteriores diários do Overlook no Timberline Lodge, próximo à floresta nacional de Mount Hood, no Estado do Oregon. O exterior dos fundos do Timberline coberto de neve, mostrado durante as sequências noturnas na parte final do longa-metragem, foi uma reconstrução detalhada feita em Elstree. Bem ao lado, foi erguido o fabuloso labirinto de sebes onde tem lugar a furiosa perseguição final de Jack ao filho, Danny. As alamedas eram montadas sobre formas móveis de madeira de balsa que permitiam formar corredores, ângulos e viradas abruptas. Para poder entrar e sair do cenário e não se perder em suas entranhas, Kubrick criou um diagrama do labirinto, com cópias fornecidas para a equipe de filmagem.
Todo o interior foi projetado pelo diretor de arte, o oscarizado (por “Barry Lyndon”) Roy Walker, com o propósito de permitir amplo movimento da equipe de filmagens pelos labirínticos corredores. Walker também viajou para os Estados Unidos a fim de inspecionar as possíveis locações exteriores, tirando fotos de tudo o que achava proveitoso. Depois, ele e o diretor escolheram as mais representativas para que o departamento de arte recriasse uma imagem composta dos elementos arquitetônicos e decorativos do hotel. O banheiro em que Grady e Torrance mantêm uma conversa sinistra, por exemplo, é similar ao toalete masculino de um hotel do Arizona assinado pelo famoso arquiteto Frank Lloyd Wright. Assim como o Overlook do romance, o Timberline possuía um Quarto 217, que na história é habitado pelo espírito da esposa assassinada de Grady. Os gerentes do estabelecimento ficaram preocupados que ninguém quisesse se hospedar nesse quarto depois de assistirem ao filme e pediram ao diretor que mudasse o número para 237, que não existe no hotel verdadeiro.

Continua na próxima semana


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