e Leia o final de "O Minotauro no labirinto do gênio", o making of de "O Iluminado", de Stanley Kubrick ~ Diário do Moretti
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sábado, 29 de abril de 2017

Leia o final de "O Minotauro no labirinto do gênio", o making of de "O Iluminado", de Stanley Kubrick



O MINOTAURO NO LABIRINTO DO GÊNIO
Final

Por Marco Moretti

Jack Nicholson em "O Iluminado" - Fonte: Wikipedia

Como vinha fazendo pelo menos desde “2001”, a seleção musical ficou a cargo do próprio diretor. Ao lado do editor, Ray Lovejoy (também dos tempos de “2001”), ele se enfurnou na sala de edição dos Estúdios Elstree durante dias para escutar atentamente gravações das músicas que considerava apropriadas. Para criar a intrincada trilha sonora de “O Iluminado”, foram chamadas duas compositoras que já haviam trabalhado com Kubrick em “Laranja Mecânica”, Wendy (nascida Walter) Carlos e Rachel Elkind. A primeira coisa que a dupla fez quando foi convidada para a produção foi correr para a livraria mais próxima de seu estúdio, em Nova York, e comprar um exemplar do livro de Stephen King. O cineasta então ligou para elas de Londres e expressou as suas preferências pessoais, que iam da “Valse Trieste”, de Sibelius, a alguma coisa de Mahler. Tomando essas sugestões como pontos de partida e sem sequer verem uma só tomada do longa-metragem, as compositoras contrataram uma pequena orquestra e gravaram uma fita demo com meia hora de possíveis trilhas, que foi enviada para a Inglaterra. Somente meses depois, em janeiro de 1979, Wendy e Rachel foram convocadas a voarem até Londres. Kubrick queria ouvir delas a sugestão para uma música que podia ser empregada com relação a túmulos, mortes e espíritos, e lhe foi sugerido “Dies Irae”, tradicional peça religiosa católica que inspirou compositores tão diversos quanto o russo Rachmaninoff e o francês Ravel. Mas foi do último movimento do “Réquiem” de Berlioz que o cineasta retirou a inspiração para a faixa de abertura do filme. Na verdade, toda a trilha sonora de “O Iluminado” é uma colcha de retalhos meticulosamente trabalhada com partes de Ligeti e Penderecki misturadas a material eletrônico original criado com a ajuda de sintetizadores, seguindo um procedimento similar de “Laranja Mecânica”. 
Quando Wendy e Rachel chegaram ao set de filmagens, o filme já estava em plena pós-produção, com parte da edição finalizada, e algumas de suas criações tiveram de ser adaptadas ou simplesmente deixadas de lado, já que as cenas a que se referiam não seriam mais usadas. Uma delas era uma longa e estranha sequência em que Jack Nicholson depara com flechas e outros objetos sobre a sua mesa de trabalho no salão do Overlook. Ele então escuta uma voz vinda de trás e uma figura fantasmagórica joga uma bola para ele. Outras sequências curtas, como a que envolvia Halloran e o dono de uma oficina, ficaram de fora do produto final. As compositoras também foram responsáveis por desenvolver eletronicamente os sons de fundo, alguns dos quais, como o ruído de ventania, foram criados de maneira tosca mas eficaz pela voz de contralto de Elkind manipulada e modificada em um sintetizador por Wendy.
Com um custo estimado total de 19 milhões de dólares (substancialmente acrescido devido ao desastroso incêndio que destruiu parte dos estúdios), e depois de três anos de produção, “O Iluminado” estreou em Nova York em 23 de maio de 1980. Cinco dias depois do filme chegar às telas, o cineasta mandou que fosse cortado o epílogo, que mostrava o gerente do hotel, o Sr. Ullman (Barry Nelson), visitando a Sra. Torrance no hospital. “Eu decidi que a cena era desnecessária”, declarou ele. Em reedições posteriores, outras cenas foram podadas, como uma que mostrava Wendy chegando ao lobby do hotel em sua desesperada fuga do marido e deparando com os esqueletos dos hóspedes mortos, e que mais parecia uma sequência de filme de terror B.
Ao contrário do que havia acontecido com as suas três produções anteriores, que estrearam inicialmente em uns poucos cinemas e somente depois, quando a propaganda boca-a-boca se espalhou, ganharam um circuito de exibição maior, o longa-metragem estreou simultaneamente em dez salas, para logo em seguida saltar para 750 somente no território americano. Isso permitiu que o filme amealhasse a bagatela de mais de 622 mil dólares apenas no primeiro fim de semana de exibição e quase 31 milhões líquidos até o final de 1980 (apenas como base de comparação, “2001” custou quase 10 milhões de dólares e levou dez anos para recuperar o investimento, e “Laranja Mecânica”, feito quase dez anos antes, saiu por 2 milhões e até 1978, quando foi retirado definitivamente de cartaz, havia rendido vinte vezes mais). Certamente, parte do atrativo foi devido ao trailer impactante exibido nas tevês e nos cinemas que o próprio diretor supervisionou (que mostrava a tomada das portas do elevador do Overlook se abrindo para despejar uma enxurrada de sangue) e ao material promocional do filme, de autoria do lendário Saul Bass, o designer e criador de créditos de clássicos como “O Homem do braço de ouro” e “Psicose”.
Apesar do estrondoso sucesso comercial (o maior da carreira do diretor), “O Iluminado” não obteve o mesmo êxito nas indicações para o Oscar no ano seguinte. Essa foi a primeira vez, desde “Glória feita de sangue”, que um filme de Kubrick deixou de ser indicado para algum prêmio da Academia de Hollywood. Igualmente frustrantes foram as críticas, a grande maioria decepcionante. Nenhuma, porém, foi tão severa quanto a do próprio Stephen King. O escritor até apreciou a escolha do labirinto de sebes no lugar das plantas recortadas com formas animais, ideia que ele mesmo havia tido quando escrevia o livro, mas que abandonou por achar que se parecia demais com um filme antigo, “O Terror da Torre” (“The Maze”, de 1953), que já havia lançado mão de um labirinto como elemento de suspense. Na opinião do escritor, contudo, Kubrick não conseguiu capturar ou não compreendeu o sentido do romance. “’Uma casa má atrai maus homens’, essa era a ideia em ‘O Iluminado’. O hotel não ficou mau porque certas pessoas foram para lá; aquela gente é que foi ao hotel porque o lugar era mau”, explicou ele em uma entrevista. Outro elemento que não agradou ao escritor foi a interpretação de Jack Nicholson. No livro, o personagem de Jack Torrance é uma pessoa que carrega consigo um passado de abusos na infância e problemas com alcoolismo, agravados pelas frustrações com a carreira literária. Essas fissuras em sua personalidade se alargam gradualmente, sob a influência do hotel e das histórias a respeito de seu passado violento, até explodir num comportamento psicopata. Para Stephen King, Nicholson já começa o filme com a expressão de desequilíbrio emocional e mental estampada no rosto, em vez de se mostrar, inicialmente, uma pessoa absolutamente pacata que aos poucos vai perdendo o controle e sucumbido ao lado negro de sua alma. No geral, King sempre preferiu o seu livro à adaptação de Kubrick e, em 1997, co-produziu uma nova adaptação, dessa vez para a televisão, no formato de uma minissérie em três capítulos estrelada por Rebecca De Mornay, sugestivamente intitulada “O Iluminado de Stephen King”, considerada pelos fãs e pela crítica bem mais fiel ao original.
Dentre as muitas interpretações oferecidas para a versão de Stanley Kubrick, a mais estapafúrdia é a que vincula o longa-metragem a uma suposta teoria da conspiração segundo a qual o cineasta teria tomado parte numa farsa montada pela NASA e o governo americano para simular o voo da Apollo 11 até a Lua, em 1969. De acordo com essa lenda, difundida com intensidade de uns tempos para cá na internet, o diretor teria firmado um pacto de silêncio com as autoridades americanas para não expor a verdade de que a chegada do homem ao nosso satélite jamais aconteceu, e tratou de espalhar mensagens cifradas em seus filmes que confirmariam essa história. Os defensores dessa hipótese apontam para a cena em que Danny Torrance está brincando no meio do corredor do Overlook e se ergue ao escutar um barulho oriundo do fatídico quarto 237, onde ele penetra pela porta entreaberta. A afirmação se baseia em dois elementos dessa sequência. Em primeiro lugar, o menino realmente usa um pulôver com o desenho de uma cápsula e o nome “Apollo XI” bordados nela. Em segundo lugar, o próprio número 237 poderia se referir à distância da Terra à Lua (237 mil milhas) e foi essa a verdadeira razão por que o número do quarto, 217 no livro, teria sido alterado.
Por mais sugestivas que essas ideias sejam, elas dificilmente se sustentam diante dos fatos. Mas num ponto, ao menos, elas talvez tenham algum fundo de razão. Kubrick realmente gostava de embutir mensagens subliminares em suas obras. Desde os primeiros longas-metragens até os trabalhos da maturidade, ele progrediu no sentido de oferecer várias camadas de leitura sanduichadas num mesmo contexto ficcional. À medida em que avançou em suas abordagens da agressividade latente humana e da dicotomia racionalidade/loucura, os seus filmes ganharam uma proporcional dimensão abstrata. A essência dessa perspectiva pode estar enraizada no ensaio de Sigmund Freud “A Inquietante estranheza”, de 1919. Nele, o pai da psicanálise analisa os acontecimentos, pessoas, situações ou impressões que provocam em nós uma sensação de angústia e de estranhamento diante do súbito rompimento da racionalidade da vida cotidiana. Trata-se de um elemento perturbador, portanto, que deixaria a nossa mente em alerta diante da natureza ambígua desse fenômeno (seriam os fantasmas que habitam o HHotel Overlook eventos psicológicos ou sobrenaturais, reais ou ilusórios?).
A mesma cena mencionada acima de “O Iluminado”, por exemplo, pode ser entendida frente a outro algarismo recorrente em vários momentos do filme: o número 42. Alguns estudiosos do filme já haviam percebido a repetição constante desse número. Ele aparece na manga de outro pulôver que Danny está usando quando tem a primeira visão da enxurrada de sangue saindo pelas portas do elevador; num programa de televisão que anuncia um “orçamento de 42 milhões de dólares”; no título do filme que Wendy e Danny estão assistindo na tevê, “Summer of ‘42” (no Brasil, intitulado “Houve uma vez um verão”, de Robert Mulligan, a respeito da iniciação sexual de um adolescente no ano de 1942); e, em última instância no produto da multiplicação dos três números do quarto 237 (2x3x7 = 42). Certo, mas o que significaria o número 42 e por que ele aparece repetidamente?
Como sempre ocorre com simbolismos e metáforas, a interpretação é sempre um rio bastante vasto e livre, em que quaisquer pontos de vista podem ganhar relevo sem que se auto-excluam. No caso de Kubrick, talvez o número 42 (e o 237) seja o fundamento para se compreender toda a trama de fundo de “O Iluminado”. O diretor cresceu durante a Segunda Guerra Mundial e jamais deixou de se sentir incomodado (para não dizer traumatizado) com o Holocausto judeu perpetrado pelos nazistas. Durante anos, ele alimentou o desejo de realizar um longa-metragem sobre o assunto e chegou a planejar a adaptação de “Wartime Lies”, o romance sobre o Shoah (como é chamado o extermínio dos judeus) de Louis Begley, antes de engavetá-lo depois do lançamento de “A Lista de Schindler”, de Steven Spielberg. Pois 1942 foi o ano em que a chamada Solução Final foi ordenada por Himmler, um dos asseclas de Hitler. E foi precisamente em julho daquele ano, verão no hemisfério norte, que começou a deportação dos judeus dos Países Baixos e de Varsóvia, na Polônia, para os campos de extermínio em Auschwitz e Treblinka, entre outros.
A forma que Kubrick encontrou de fazer referência à matança dos judeus teria sido, segundo essa interpretação, a referência à data em que ela começou de fato espalhada pela história. Isso talvez explique todo o visual de sanguinolência que domina o filme (o sangue que jorra das portas dos elevadores, por exemplo, uma possível metáfora para as portas dos trens que levavam os judeus para os campos de extermínio) e o próprio comportamento homicida de Jack Torrance. Seria mero acaso o fato de que a data da fotografia na parede, na tomada final, em que o personagem de Nicholson aparece cercado pelos convidados do hotel, 4 de julho de 1921, seja bastante próxima daquela em que Hitler assumiu o poder absoluto dentro do Partido Nazista e iniciou a sua desastrosa ascensão, 29 de julho de 1921? Ou que a soma de 4 + 7 (julho) + 1 + 9 + 21 seja igual a 42 (essa eu devo a um arguto aluno meu)? Ou, ainda, que 21 multiplicado por 2 dê 42?
Alguém poderia se perguntar qual a conexão, então, do Holocausto com a gravura da Apollo XI bordada na roupa do pequeno Danny. Bem, como se sabe, o comandante do programa espacial americano que levou à viagem da Apollo à Lua foi Werner Von Braun, ex-cientista nazista capturado pelos aliados que, durante a Segunda Guerra, foi responsável pela construção dos temíveis foguetes V-1 e V-2 que bombardearam a Inglaterra durante meses. Ao contrário de seus companheiros, que foram julgados e condenados em Nuremberg, Von Braun jamais cumpriu qualquer pena por seus atos. De maneira rebuscada, mas não de todo improvável, o cineasta talvez estivesse afirmando com toda essa simbologia que, por trás do êxito da missão Apollo (e, em última instância, da pujança de seu país), os americanos haviam preferido trancar num quarto os horrores jamais mencionados do holocausto, do qual o comandante Von Braun foi, em última instância, um dos artífices (durante anos, a imprensa dos Estados Unidos o acusou de usar mão-de-obra escrava dos prisioneiros judeus para construir as V-1 e V-2). Em outras palavras, em “O Iluminado” ele estaria apontando o dedo acusador para o governo americano, que teria encoberto os crimes de guerra do homem que fez o país vencer a corrida espacial contra os soviéticos.
Outra teoria, similar a essa, propõe uma referência ao genocídio dos índios americanos. De fato, existem também algumas alusões a isso espalhadas pelo filme. O gerente diz que o hotel foi erguido sobre um antigo cemitério indígena e, aqui e ali, é possível ver gravuras de nativos ou de cowboys. Na despensa, é bem visível o rótulo de uma lata de suprimentos com o rosto de um chefe índio, de cocar e tudo. Já vimos que em uma cena que foi  eliminada da montagem final Jack Torrance deparava com flechas e outros artefatos indígenas sobre a mesa no hall do hotel, e pode-se supor que o machado com que ele persegue a mulher e o filho e mata o chefe Halloran é uma alusão aos tomahawks, as armas usadas pelos algonquinos (e 1842 foi ano em que terminou a Segunda Guerra Seminole, na Flórida, que culminou com o massacre de centenas de índios). Logo no começo do filme, quando a família Torrance está atravessando as montanhas em direção ao Overlook, há uma alusão a uma tragédia ocorrida naquela região no tempo dos pioneiros, quando uma caravana de colonos ficou presa na neve e teve de recorrer ao canibalismo como último recurso antes que os seus integrantes morressem congelados.

Em todas essas situações, Kubrick parece disposto a frisar o passado sangrento e violento dos Estados Unidos, como se pretendesse dizer que o seu país foi na verdade erguido e atingiu o apogeu político e militar sobre o morticínio dos indígenas, o Holocausto judeu e outros crimes brutais da história. Interpretações à parte, a violência, o tema por excelência de sua obra, é, em “O Iluminado”, muito mais do que um pretexto para o virtuosismo visual e gráfico. Ela é, para Stanley Kubrick, a verdadeira natureza do homem, um ser metade racional, metade bestial, como um minotauro, preso num labirinto de corredores mentais que o aprisiona e no qual ele se debate tentando escapar. E não é algo agradável de se ver.

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