e Leia a versão completa do conto "O Filho da Infâmia" ~ Diário do Moretti
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sábado, 17 de dezembro de 2016

Leia a versão completa do conto "O Filho da Infâmia"




O FILHO DA INFÂMIA

Por Marco Moretti

“E à orla do abismo, sobreerguida,/
eu vi de Creta a infâmia inominada”
Dante Alighieri – A Divina Comédia
           
"Urutu", obra de Tarsila do Amaral - Fonte: Wikipedia

A idiotia humana não conhece limites. Em meio às guerras, à miséria e à fome, viceja nossa ancestral ignorância, em sua feliz caminhada a passos firmes rumo às trevas abissais. Poucos são aqueles de nós que não se entregam aos seus hábitos e vícios, nenhum tão completamente quanto Gedeão Amado. Com seu semblante paleolítico, paramentado com uma barba rala branca, cabelos curtos também brancos, porte e inteligência simiescas, é o exemplo mais bem acabado da cretinice absoluta. A prova cabal de que Darwin estava errado. Estagnado em algum ponto entre a Pré-história e a Idade Média, é um pescador rude e atrasado. Sob o quepe de veludo cotelê azul, camisa clara de mangas curtas e calças escuras, tem sua morada o último dos neandertais. Nenhuma idéia iluminista, sequer o mais ínfimo conceito rousseauniano, encontrou guarida nos sombrios recessos de seu cérebro primevo. Mal acostumado a exercícios mentais que exijam o mínimo percentual dos neurônios, é um animal que só atende aos reflexos condicionados por uma existência medíocre e infrutífera. Como um cachorro de Pavlov, funciona por ação e reação aos estímulos externos, sem quaisquer lampejos de racionalismo e menos ainda compaixão.
 Dessa última qualidade exibia exuberante amostra em meio à estreita vereda lamacenta na qual andava com determinação ímpar e ira incontida. A determinação era necessária para enfrentar o aguaceiro que encharcava os ossos e contribuía para retardar-lhe o passo. A ira tinha por conta da filha, Sebastiana, que há bem mais de quilômetro e meio ele vinha arrastando mata adentro, puxando-a pelos compridos cabelos negros.
Surdo aos lamentos da jovem, menina mirrada na casa dos 14 anos, Gedeão seguia adiante, implacável, resolvido a parar somente quando chegasse ao seu destino. Contudo, não ia calado. Ora e vez imprecava contra Sebastiana, a infeliz Sebastiana, como a chamavam, bradando tão alto que sua voz confundia-se com o trovão ribombando na chuva.
- Calaboca, sua filha de uma égua! Não suporto mais ouvir essa tua choradeira! Esse nhenhenhem todo tá me dando no saco!
Por um instante, mas só por um instante, a garota emudecia, mordia o próprio gemido, engolia as lágrimas. Segundos depois, recomeçava a carpidar seu sofrimento de forma tão pungente que até as folhas da relva, se pudessem se expressar, se apiedariam dela. Os lamentos serviam apenas a um propósito: redobrar a raiva de Gedeão e fornecer-lhe combustível necessário para puxá-la com mais vontade.
- Vai me pagar com juros e correção a desgraça que me fez, sua vadia. Nem santo nem anjo nenhum vão me parar agora! Vai ver só uma coisa, ah, se vai!
Nessa toada, pai e filha foram se achegando a um casebre miserável, um tanto fora de prumo, inclinado para um lado como se estivesse prestes a desabar, de madeira úmida carcomida pelos cupins, invadido pela mata e amortalhado de imundície. Na varanda, uma lâmpada balançava nervosamente à ventania, lançando sua luz amarelada para cá e para lá. A impressão de abandono, porém, era apenas ilusória. Assim que se pôs em frente ao portão meio que desfeito em pedaços, Gedeão finalmente soltou os cabelos da filha e bateu palmas com vigor, uma e várias vezes.  
Ao fim de intermináveis minutos, do âmago daquela decrepitude assomou à porta uma mulher gorda e desajeitada, a prata dos cabelos desgrenhados encimando a cabeçorra, exibindo na boca uma fileira desordenada de dentes apodrecidos, denúncia tácita de que há muito havia dobrado o Cabo da Boa Esperança. Completavam o soberbo desenho da matrona uma papada generosa e seios opulentos, fellinianos. Apertou os olhos para ver se distinguia quem eram os dois vultos, mas a escuridão daqueles ermos e a chuva torrencial impediu que os reconhecesse de imediato.
- Quem é? Quem está aí? – indagou ela, a voz grave, roufenha, que delatava outra de suas características, o inveterado hábito de fumar cachimbo.
- Sou eu, dona Olinda, Gedeão, o pescador. Eu e minha filha Sebastiana. Anda logo, mulher, ou vai deixar a gente derreter debaixo desse pé d’água? – respondeu Gedeão sem rodeios, com a rudeza que lhe era peculiar.
- O que você mais a menina fazem aí fora nessa chuva...? E a essas horas? Já são duas da manhã, criatura! – exclamou d. Olinda.
- Por causa de quê? Por causa disso, mulher. Mira bem! - ele agarrou a filha pelo braço, ergueu-a do chão com força e, sustendo-a de pé, exibiu a marca de sua vergonha, a proeminente barriga de 7 meses da jovem.
Sem encontrar palavras com que dizer, d. Olinda franqueou a entrada aos dois. Gedeão ergueu a tramela e transpôs o portão, arrastando atrás de si a malsinada filha. O interior do casebre fazia vivo contraste com o exterior decrépito. Uma luz mortiça emitida por um lustre no teto iluminava precariamente o cômodo único, formado por uma sala em que disputavam o parco espaço um sofá-cama que fazia as vezes de divisória da cozinha, uma cômoda de cerejeira com uma televisão de 20 polegadas, um guarda-roupa com as portas desconjuntadas e, ao centro, uma mesa com quatro cadeiras. O ambiente espremido rescendia a mofo e a odores outros. A mulher puxou uma cadeira e ajudou Sebastiana, visivelmente debilitada, a sentar-se. Em seguida, apanhou toalhas secas.
- Vamos logo com isso, mulher. Quanto você quer pra arrancar essa coisa daí de dentro? Fala de uma vez o seu preço, que tenho pressa em dar fim nisso. – disparou ele, com seu jeito costumeiro, matemático, de resolver os problemas. A uma senda cheia de volteios e floreios, preferia o caminho reto, curto, entre dois pontos.
- Credo, lá é jeito de falar disso? – retrucou a velha, pousando a mão protetora sobre a barriga de Sebastiana.
- Para o seu governo, d. Olinda, “isso” é o fruto da sem-vergonhice dessa vagabunda com o tal do Ceará, aquele cafajeste.
- E como sabe que foi ele quem fez mal pra menina? – inquiriu a velha.
- Ora, se faz bem um tempo que o canalha vinha rondando a menina, jogando pra cima dela sua conversa mole, preparando o terreno pra embuchar a infeliz. – acusava ele, o dedo em riste, como se apontasse uma pistola contra a filha - Ah, quando eu botar as mãos naquele moleque, o desgraçado só tem 15 anos, a senhora sabe? Quando eu botar as mãos nele, não vai sobrar nem o fígado pra contar história. Agora vamos com isso. Fale seu preço.
- Hã... bem, não sei, não costumo fazer dessas coisas, eu—
- Pois a senhora não é parteira, mulher? Então como não é do seu costume fazer dessas coisas?
- Sou parteira, sim, mas nem por isso tenho prazer nisso. Acha que eu sou o quê? Um Herodes que tem gosto nessas práticas?
- Tá certo, tá certo – retrucou ele, sem esconder a impaciência - Você bem sabe que sou homem humilde, não disponho de recursos. Vivo da pesca e é tudo que tenho pra te oferecer. Se preferir, posso te pagar em peixe. 20 quilos de pirarucu, te bastam?
- Que história é essa? Se vou fazer esse serviço sujo, quero receber em dinheiro vivo. Uns 50 reais.
- Já disse que não tenho recursos – regateou Gedeão, afinando a voz, fazendo-se de humilde – Posso pagar até 30 reais mais 20 quilos de peixes.
- Ah, que seja então, 30 reais e 20 quilos de peixe! – fez a velha, soltando um gesto de irritação ao fixar o preço de uma vida – Quer beber alguma coisa? Tem café no fogão, água fresca na moringa.
- Até parece que não me conhece. Quero é coisa forte, comadre, de homem. Esse pé d’água me gelou até as tripas.
- Então pega a caninha no armário. E traz dois copos, que eu também quero um pouco, pra espantar a soneira.
Gedeão correu à cozinha, experimentou um trago da pinga de alambique e encheu dois copos, um até a metade, o outro até a borda.
- Pronto – disse com a pressa costumeira, molhando a garganta com a sua dose e já emborcando de novo a garrafa antes mesmo de entregar o outro copo para d. Olinda – Podemos começar então?
- Que pressa é essa, homem? Parece que vai tirar o pai da forca! Pelo menos, deixa eu acabar de beber!
- Olha, se vai fazer o serviço, então faz de uma vez! Não presta se ademorar nessa lerdeza! Arranca logo esse troço da menina que aquele pilantra embuchou!
- Não foi ele... – manifestou-se Sebastiana, que até esse momento permanecera cabisbaixa, os olhos tristes colados no chão. Usou uma voz tão baixa que era abafada pelo tamborilar dos pingos de chuva no telhado de zinco cheio de goteiras. Semelhava a uma assombração falando.
- O que foi que disse, filha? – quis saber a parteira, pousando o copo na mesa sem sequer terminar a bebida.
- Não interessa o que ela disse. Vamos com isso – interrompeu com brusquidão Gedeão, como se quisesse evitar que a jovem voltasse a falar, mas a estratégia não surtiu efeito.
- Não foi o “Ceará” – prosseguiu ela, erguendo em uma oitava o tom, um tanto assim mais confiante.
- Ora, sua desavergonhada de uma peste, eu arrebento as tuas fuças se não calar essa boca! – esbravejou o pai, avançando para ela decidido a dar-lhe um corretivo. D. Olinda o deteve, interpondo-se entre ele e a menina, que recuou, encolhendo-se branca de pavor de encontro ao espaldar da cadeira.
- Calma, Gedeão, calma – levantou a voz a parteira – Deixa ela falar.
- Que interessa isso? Quem quer saber? Quem se interessa por essa porqueira?
- Pro seu governo, eu me interesso. Acho que, se vou tirar a criança dela, a moça tem pelo menos o direito de se explicar.
- Explicar o que, mulher? Já disse que foi aquele sem-vergonha de pai e mãe! Quem mais seria? O Espírito Santo? – ironizou Gedeão, retrocedendo para perto da parede, como que acuado.
- O boto – saiu-se Sebastiana, com casca e tudo.
- C-Como é que é? – indagou d. Olinda, incrédula com seus ouvidos..
- Estou dizendo que foi ele, o boto.
- Ah, valha-me Deus! E essa agora! – reagiu irritado o pai, voltando a encher o copo de pinga e engolindo de uma só vez outro trago.
- Shh. Deixa a menina falar. Como assim, filha?
Sentindo-se agora mais protegida da ira do pai, a jovem empertigou-se na cadeira, ajeitou timidamente o vestido e fitou d. Olinda com os olhos grandes, que pareciam duas ameixas de tão negros. Pela primeira vez, a parteira pôde vislumbrar suas feições de rapariga em flor, a violência paterna nitidamente estampada em vergões na face e no pescoço. Finalmente, tomou coragem e dispôs-se a falar, um tanto desconexa.
- É, foi ele, sim. Ele me perseguiu. Não prestou fugir, ele vinha atrás de mim. Me cercava. Me enganou com aquele seu jeito, os seus olhos. Ai, ai, os olhos...
- Nunca escutei tanta baboseira junta! Vai dar ouvidos a essa besteirada, comadre? É mentira da grossa!
- Tá bom, tá bom. Olhe, por que não põe um pouco de água pra ferver no caldeirão enquanto eu preparo as coisas? Vai, anda – foi dizendo d. Olinda, despachando Gedeão para o fogão enquanto fazia de escutar a narrativa que a garota tecia ao mesmo tempo em que ia apanhando frascos, tesouras e algodões.
- Você não acredita nimim, né-não? – perguntou a menina. Sem saber direito o que responder, a velha soltou um longo suspiro, passou a mão pelos cabelos sebosos e fez um jogo de cena.
- Hmm... Filha, você há de concordar que é uma história dura de engolir. A gente sabe que a menina anda angustiada, mas essas lendas de bicho do mato não hão de servir pra muita coisa...
- Pois eu juro pela alma da minha mãe que é verdade. A pura verdade, dona. Juro por Santo Expedito! – exaltou-se a menina, expressando a mais profunda e cristalina sinceridade.
- Tem calma, tem calma. Quando foi que viu esse “boto” pela primeira vez? – arrazoou a velha, dando corda para ver até onde Sebastiana ia com a lorota sem se enforcar no laço que ia armando.
- Já nem me alembro mais. Faz pra lá de um ano, acho. Foi num dia desses bastante acalorado, de sol. Eu tava lá na beira do Juruá lavando umas roupas, era bem um monte de coisa suja, minha, dos meus irmãos, do meu pai... Foi quando dei com os olhos nele. Saindo da água, bem no meio do rio. Sem roupa, nem calça tinha, nada pra cobrir as vergonhas, não sabe?
- Entendo, filha. E então, como ele era?
- Ah, o moço tinha uma boniteza de dar dó, dona. Uns olhos azuis da cor d’água, mais uns cabelos preto, parecia artista de tevê! – começou Sebastiana a descrever o boto, pintando-o com toda a beleza, a juventude e a muda inexpressividade de um galã de novela. Mas o que mais a impressionou, disse, tinha sido o corpo, que ele exibia em toda a magnificência de sua nudez. Moreno claro, braços fortes, peitoral largo, coxas grossas, lisas, sem sequer um só pelo. Um belo exemplar de macho viril - Alto, pra lá de dois metro, dona – arrematou, com um sorriso maroto iluminando o rosto.
- E o que foi que você fez quando viu ele?
- Fiquei parada, não sabe? Apalermada, sem nem direito saber do que fazer. Nisso, ele foi saindo devagar da água e se achegou pra perto de eu. Um frio danado brotou na minha barriga e eu me tremi toda dos cabelo até os dedos dos pé.
- Imagino que foi então que ele te agarrou.
- Agarrou? Não, nada disso. Nem não teve tempo de me pegar, que eu mais que depressa recobrei tento e meti pernas mato adentro e só parei quando acheguei lá em casa, o coração explodindo na boca.
- Acaba de uma vez com essa papagaiada, comadre! – interveio Gedeão, que havia voltado da cozinha e virado outra dose de pinga – Basta dessa mentirada cabeluda! Isso são balelas de vadia!
- Que seja, então – reagiu com visível desconforto d. Olinda, ela mesma meio cansada dessa fábula – Vai, filha, entra ali no banheiro, tira o vestido e põe este avental. Amarre nas costas, desse jeito. Ah, e não esquece de prender bem o cabelo. Tome, pode usar a minha presilha – disse, retirando uma presilha que trazia ao cabelo e entregando-a à jovem.
- Não ouviu a d. Olinda, cretina? Vai, se mexe, ou quer que eu arranque esse troço a soco? – gritou o pai, puxando a menina pelo braço e empurrando-a na direção do banheiro.
- Quer procurar se acalmar, homem? Pra que tanto nervo? Parece até que tem é culpa no cartório.
- Culpa? Culpa do que, mulher? O que é que você tá insinuando, hein? Que história é essa? Vê lá o que vai dizer! – esbravejou Gedeão com d. Olinda. avançando para cima dela como uma fera ferida, prestes a dar o bote. E provavelmente a teria agredido se a velha não jogasse todo seu peso para cima dele e o detivesse.
- Devagar com o andor. Não foi por ruindade. Só não tem porque ser assim tão estúpido com a coitada. Não acha que ela já passou por muita coisa hoje? O jeito que você trouxe ela, isso não é coisa de gente, sabe? Parece espírito ruim, cruz-credo – e emendou a fala com um sinal da cruz.
Gedeão ficou ruminando uma resposta até que se contentou com o próprio silêncio e ficou andando de um lado para o outro da pequena sala, como um animal em cativeiro, irrequieto. Virou outro copo de pinga goela abaixo e os olhos já iam ficando vermelhos, o rosto encarnado. Essa agitação foi irritando d. Olinda, que arrumava a mesa e os apetrechos para a operação.
Aos poucos, um pensamento insistente imiscuiu-se em seu cérebro. A menina, ai que dó, parecia uma desatinada, uma perturbada. Não falava com muito senso, é verdade, mas o que dizia parecia sincero. Quase como se acreditasse mesmo naquela história absurda. Tal a veemência com que afirmava o sucedido, que a velha passou a considerar se não haveria ao menos um pingo de realidade naquilo tudo. Como legítima descendente de Pandora, estava disposta a investigar mais a fundo o mistério. A menina merecia o benefício da dúvida. Contudo, não poderia fazer isso ali, não com o irascível pai em seus calcanhares como um cão de guarda raivoso pronto a avançar em sua jugular.
A curiosidade venceu o temor e logo tratou de bolar algo para ocupá-lo a fim de afastá-lo tempo suficiente para escutar o resto da narrativa de Sebastiana. Qualquer pretexto viria a calhar para ficar a sós com a jovem.
- Compadre, faz favor, pega uma bacia lá fora. Pra trás da casa.
Meio a contragosto, sem economizar resmungos, o velho ranzinza ajeitou o quepe no cocuruto e saiu para buscar a bacia. Pouco depois, a filha saiu do banheiro vestindo o avental.
- Ótimo, dá aqui seu vestido – d. Olinda apanhou-o e colocou sobre o encosto da cadeira – agora vem, se debruce na mesa e levanta o avental. Vou te dar a anestesia, que não vai doer nada, nada, não se apoquente – enquanto preparava a seringa com a anestesia, a mulher instigou-a a prosseguir com a história do boto – Então me conta, menina. Quando foi que você mais esse moço, esse tal de boto... ficaram juntos, quero dizer, fizeram o que não deviam? Ah, você me entende, né não?
- Ele apareceu umas porção de outras vezes, sempre perto de um riacho ou ribeirão. Toda vez que eu metia as vistas nele, dava de correr pra bem longe. Certa vez o boto chegou perto assim e me agarrou. Quase que me beijou, mas eu tanto me debati que acabou me soltando.
A parteira terminou de aplicar a anestesia, sem desgrudar ouvido do que ela dizia.
- Até que aconteceu o arraial de São João no terreiro do Tião Barqueiro. Eu tava lá, de abestalhação, com a Ivonete, uma amiga, quando ele apareceu no portão. Que era ele, disso eu posso jurar de pés juntos. Não tinha como que duvidar. Moço assim bonito eu nunca que vi por essas bandas.
- Bem, creio que dessa vez pelo menos estava vestido.
- Ah, e que belezura de roupa. Branca de tudo. Camisa de mangas curtas, calças compridas, sapatos brilhosos. E usava um chapéu. Não tirou ele nem por um tico.
A menina explicou então que o rapaz, “assim que botou olhos em eu”, aproximou-se e a tirou para dançar. “Roxa de vergonha”, Sebastiana procurou se esquivar a princípio, olhando nervosa para os quatro lados, mas acabou cedendo.
- Ele foi se achegando. Eu bem que tentei me afastar, mas não prestou. Ele me agarrou forte pela cintura e me puxou. Ficamos assim, meio sem graça, coladinhos, até que ele fez aquilo.
- Aquilo o quê?
- Mas lascou um beijo bom de tudo. Dona, fiquei toda molengada. Minhas perna se alargaram e quase que fui caindo no chão se ele não me segurasse. Aí não vi mais coisa nenhuma.
- Quer dizer que você desmaiou. Aposto que ele te levou pra casa depois disso...
- Que nada! Ele me levou pra fora, sim, mas não foi pra casa, não. Foi me arrastando pra um matagal escuro, nos fundos do arraial, onde não teimava viva alma. Eu tava fraca feito caniço, e foi aí que aconteceu.
- Já faço idéia do resto da missa, filha.
- Não sei, não me alembro direito. Tava tão escuro... e foi tudo tão rápido, não sabe? O boto me jogou no mato, arrancou minhas roupa e se debruçou por cima. Quando vi, tava todo dentro de eu.
D. Olinda fez um gesto com a mão, como se pedisse para que a poupasse dos detalhes sórdidos. Então, ajudou-a a se deitar sobre a mesa. A menina retomou o fio da meada, pensando em voz alto consigo mesma:
- O gozado é que nesse tempo todo ele não disse nadica de nada. Não soltou nem um pio. Parecia até que o gato tinha comido a língua dele. Pensando bem, não alembro de ouvir a voz dele. Só soltou um som esquisito quando... bem, quando me lambuzou toda... E aí... Aí o que eu vi não foi a cara dele, mas a do meu pai...
- Sua vagabunda ordinária! – esbravejou Gedeão, regressando para dentro da casa nesse momento, visivelmente embriagado. Desferiu um bofetão vigoroso, que a fez virar sobre si mesma e tombar ao chão, cuspindo sangue pela boca – Então foi pra isso que eu te criei, pra servir de desfrute?! Vai ver só uma coisa! – com os braços fortes, acostumados a carregar peixes pesados, Gedeão empurrou a mesa para o lado e investiu contra a filha, esparramada ao chão. Em sua fúria implacável, ele a chutava e a esperneava e a xingava sem cessar, numa volúpia de ira e vingança. Quanto mais a agredia, mais prazer sentia nisso, um prazer que fazia toda a virilidade de seu corpo ferver e borbulhar. Chegou a arreganhar os dentes e a rir, um riso nervoso de satisfação com o gozo do castigo físico que infligia à filha.
Indefesa, Sebastiana tentava se proteger encolhendo-se a um canto. Berrava, desesperada, tomada pelo pavor. Puxava os cabelos, ensandecia. O pai, babando como um animal, a agredia com ímpeto ainda maior, numa sanha sadomasoquista que faria corar um Torquemada. Caprichava na mira e procurava acertar a barriga com toda a força que seu estado etílico lhe permitia. Desvairada, a pobre menina chegou a agarrar com as duas mãos a ponta de um dos sapatos, num esforço vão para conter a insanidade de Gedeão. Foi preciso toda a corpulência de d. Olinda para afastá-lo, jogando-o contra o sofá.
- Seu animal, olha só o que você fez! – lamentou a parteira, correndo para acudir a jovem, que se desdobrava de tanta dor, mergulhada em uma poça vermelha que escorria sob as pernas franzinas.
- Ela teve o que merecia! Essa vadia. Quem mandou se ofertar toda pros homens da vizinhança? Pensa que eu não via quando ela se emperequetava pra sair só pra atiçar a vontade dos moços? Ela se insinuava, jogava o corpo pra cima do primeiro macho que quisesse comer!
- Isso são jeitos de falar, homem! Olhe o que está dizendo, pelo amor do Santo Padre! Isso é pecado, pecado mortal! Você vai arder no fogo do inferno, escute o que estou dizendo!
Bêbado como estava, o velho pescador deixou-se enterrar no estofado e lá ficou, a cabeça socada nas mãos, regurgitando remorsos e pecadilhos.
- Quem vai pro inferno é ela. A rameira procurou até que achou. A senhora sabe como é, comadre, homem tem certas necessidades. Tem hora que um homem não se aguenta, que nasce umas vontades que vêm de dentro, e a gente tem que deixar sair. Tem que deixar, não sabe? Não presta segurar.
- Não sei do que está falando. Bah, que interessa isso agora? Ela está com uma sangreira danada. A criança vai nascer agora mesmo!
- Pois que esse rebento do diabo morra enforcado nas próprias tripas! – amaldiçoou Gedeão, jogando a um canto a garrafa seca de pinga, que se espatifou contra a parede.
Transtornada de indignação, d. Olinda ergueu-se e abriu caminho até ele. Agarrou-o pelo colarinho e o puxou-o, metendo seu nariz de encontro às fuças do velho bêbado.
- Não sei o porquê de tanta raiva, isso não é assunto meu. Mas se essa menina morrer por sua causa, você vai amargar na cadeia pelo resto da sua vida miserável e inútil.
- Humpf! Isso não é nada perto da sofredura que carrego no peito. É um não sei o quê que dói fundo, que me tira o sono, me aperta a alma. Um sufoco que vem lá do estômago e sobe até a boca e mal que consigo respirar direito. Aí preciso beber, beber até cair pra me esquecer.
 - Me poupa dessa choradeira. Vê se toma siso na vida, homem. Faz alguma coisa que preste ao menos uma vez. Sai e vai buscar um médico antes que a menina...
Um gemido profundo cortou a frase ao meio, impedindo que a parteira prosseguisse com sua catilinária. A jovem gritava e se contorcia de dor. Chafurdava na própria sanguinolência, revirando-se espasmodicamente sem qualquer controle. A parteira pediu socorro ao pai. Ainda que a contragosto, Gedeão abalou-se a segurá-la, mas a agonia era tão intensa que nem a força somada de ambos foi capaz de contê-la. O suplício cresceu em intensidade até alcançar o ápice com um grito lancinante que rompeu as fronteiras do humilde casebre, sobrepujando o ruído incessante da chuvarada e dissipando-se no ar noturno da mata. Então, um líquido branco-esverdeado vazou de seu útero, manchando o assoalho apodrecido. Súbito, um silêncio incômodo se abateu sobre o trio, ainda mais contundente em contraste com a desesperadora cena de um segundo antes.
Gedeão e d. Olinda quedaram paralisados. Após uma pausa momentânea, a barriga de Sebastiana passou a revolver e a tremer como se tivesse ganhado vida própria. Uma vida, de fato, agitava-se em suas entranhas, lutando para existir, esforçando-se para se ver livre. Mas que vida era aquela, ninguém ousava conjeturar. Repentinamente, uma cabeça diminuta e oval despontou dentre as pernas de Sebastiana. Dois olhos enviesados, reptilianos, perscrutaram a sala de um lado a outro. Uma língua curta e bifurcada sibilava no ar. Então, um corpo longilíneo, delgado e comprido, mas não tão comprido que ultrapassasse dois palmos de extensão, esgueirou-se para fora do corpo da menina. A pele escamosa, esverdeada, proibia querelas. Tratava-se de uma serpente, de uma espécie jamais vista antes. A princípio hesitante, logo empertigou-se e ziguezagueou errática pela sala até sair, esgueirando-se por debaixo do vão da porta.
Aterrados de incompreensão, a parteira e o pescador emudeceram. Porém, vencidos pela curiosidade, acorreram à porta e a abriram. Viram então o sinuoso rastro de sangue da serpente descendo pelos degraus da entrada, afastando-se para além do portão e desaparecendo na floresta. Enquanto seus cérebros lutavam para processar e classificar as informações bizarras que seus sentidos lhes forneciam, o corpo da serpe incendiou-se em contato com a umidade e a silhueta lançada pela chama amarelada alumiou a profundeza escura da mata e a verdade se fez. Todo o tempo, Gedeão estava certo. Sebastiana havia mentido, e mentido descaradamente. Seu rebento não era filho do boto, como ela alegara com tanta veemência. Nem, tampouco, do “Ceará”, como queria o velho pescador. Tratava-se de um boitatá, uma cobra de fogo, a infâmia encarnada, fruto da blasfêmia que ofende aos céus, a sepultura de nossa humanidade em cuja lápide está inscrito o pecado imundo e covarde entre pai e filha que não ousa dizer o nome. Era isso e nada mais.

São Paulo, 17 de dezembro de 2016


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