e Leia a versão integral do conto "Eles, os outros" ~ Diário do Moretti
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sábado, 12 de novembro de 2016

Leia a versão integral do conto "Eles, os outros"




ELES, OS OUTROS

Por Marco Moretti

“O inferno são os outros”
Jean-Paul Sartre

"Naigrawaine", obra de Mathias Grunewald
Fonte: Wikipedia

O homem contemplou a silhueta da cidade recortada contra o céu enevoado com desdém
“Não, ‘com desdém’ não fica bom...”
com enfado
“Não, isso também não. Tem de ser algo mais... sei lá... enfático...”
com tédio
“É, pode ser... essa música que não para... mas, pensando melhor...”
com desprezo
“Hmm... é um pouco... um pouco... será que não dá pra esse sujeito ouvir isso mais baixo...?”
com irritação
“É meio assim que eu estou me sentindo agora... Irritado com esse barulho infernal que não para de martelar no ouvido...”
com ódio
“Assim está perfeito... não, não está. Está uma... uma... merda... o infeliz parece que faz de propósito... agora deu de aumentar o volume... ainda se fosse um Chico, um Jobim... mas isso lá é música...?”
com indig
“Ah, não dá mais pra suportar isso. Se esse cara queria me tirar do sério, conseguiu! Não consigo nem pensar direito com essa porra de batucada...!”
Tibúrcio abandonou na tela do computador as palavras do texto que estava escrevendo e marchou a passos firmes e determinados até o interfone. Ia dar um fim nessa situação de uma vez por todas.
- Ah, seu Tibúrcio, sabe como é – começou a se explicar Gilmar, o porteiro, o cérebro entorpecido de inatividade custando para arregimentar as frases - o morador do 66 sai pra trabalhar e deixa o filho sozinho a tarde toda. Aí, dá nisso...! É som alto sempre. Não é só o senhor que reclama, não. A dona Ivete, do 52, também...
- Sei, mas o que é que eu tenho a ver com isso? Eu não pago condomínio pra ter de aguentar alguém me infernizando com esse pancadão. Desculpa, Gilmar, mas alguém tem de tomar uma providência.
O porteiro se enrolou em desculpas e explicações muito mal ajambradas e terminou dizendo que ia ver o que podia fazer. Por um instante, pareceu que a reclamação do estressado escritor havia surtido efeito. A calma voltou a reinar no prédio, ao menos por ora. Ele podia retomar o seu ofício.
com profunda amargura
 Não, isso também não se encaixava. Podia ouvir Flaubert sussurrando em seu ouvido direito, e ele talvez tivesse razão... Ah, ele que fosse para o inferno com aquela história de “mot juste” [1]! Tibúrcio simplesmente não conseguia encontrar a droga da palavra correta. Parecia que jamais atinaria com o termo apropriado. “Acho que não é bem esse o estado de espírito do... mas e essa agora? Que porcaria de gritaria...?”
Ele parou com os dedos suspensos sobre o teclado e, por um minuto, tentou controlar o batimento cardíaco que bombeava litros de sangue para a cabeça. Mas isso durou o espaço de tempo necessário para que o bando de crianças que corria atrás da bola e berrava no pátio em festiva desordem desatasse a discutir. E não fizeram isso de forma polida e contida, como se fossem senhoras de idade comendo bolo de nozes num bem comportado chá da tarde.
Já que as queixas e os rogos de nada serviam, e como ninguém parecia se importar com aquela balbúrdia a não ser ele, o homem mandou às favas a educação e o autocontrole e se precipitou para a janela. Com os olhos injetados de ira, as sobrancelhas ameaçadoramente arqueadas, os cabelos eriçados, uma carantonha amedrontadora, lançou uma expressão de fúria sobre o punhado de fedelhos que o azucrinava. Quando mandou que ficassem em silêncio (bem, não exatamente com essas palavras nem com a amabilidade que se esperaria de alguém com a sua índole comumente pacata), era a imagem acabada e pavorosa de Oro [2].
Se aquele gesto extremado não o poupou de incômodos, ao menos amenizou o berreiro que havia se instaurado lá embaixo. Mas também isso foi um mero bálsamo passageiro. Mal havia se instalado novamente na velha cadeira estofada e rasgada nos braços e voltado a sua atenção para o monitor do computador, o telefone começou a estridular com a urgência de uma sirene de ambulância. Tibúrcio desaguou a irritação com um murro no tampo da escrivaninha. Era como se as pessoas e os objetos tivessem se mancomunado numa conspiração para transformar o seu dia na versão mais próxima do Inferno que se podia chegar na Terra.
Antes mesmo que atendesse, ele já sabia, ou melhor, pressentia que a ligação o tiraria do sério (outra vez). Afinal, ninguém ligava para ele, sobretudo àquela hora do dia, para se derramar em elogios rasgados aos seus belos olhos negros, para dizer o quanto o admiravam, que pessoa magnífica ele era, assegurar que escrevia como um príncipe etc etc. Isso seria pedir demais até para a sua condescendente imaginação de ficcionista.
Como Tibúrcio já imaginava, a ligação era um desperdício de energia elétrica, dinheiro e paciência.
- Boa tarde, somos do banco Independência e gostaríamos de saber se o senhor estaria interessado em adquirir o nosso plano de seguro exclusivo – foi logo dizendo, em piloto automático, a bem educada e bem calma garota do outro lado da linha - Os benefícios são transferidos para os dependentes pelo período de...
“Olha, mocinha, eu não estou interessado na droga do seu plano, nem quero saber se ele é exclusivo pra mim ou para a minha faxineira, ou para o cachorro do puto do meu vizinho. Além disso, os únicos dependentes que eu tenho são o meu gato, as pulgas que moram com ele e as baratas da minha despensa. E creio que você sabe muito bem onde enfiar os tais benefícios...”
Isso é o que ele teria dito, se lhe tivesse sido dada a oportunidade. Mas o rabugento escritor sequer chegou a verbalizar essas palavras encharcadas de incontida raiva. Limitou-se a pensar nelas, a deliciar-se imaginando a cara de espanto da atendente. Em vez disso, preferiu o atalho mais breve e menos fatigante de desligar o celular antes que a moça tivesse a oportunidade de concluir o que tinha a dizer.
Na sua idade e nas suas condições, Tibúrcio já não tinha paciência para aturar esse tipo de aborrecimento, que lhe roubava o pouco tempo que dispunha. Afinal, como diria Nietzsche, um homem na casa dos 50 anos é uma corda estirada entre a juventude tola e repleta de idealismo e a aposentadoria distante e inglória, só tem o passado para se lamentar e o futuro para amaldiçoar. Quando se dispunha a lançar um olhar enviesado para trás, não era com enfado, tédio ou “fingida satisfação” que ele contemplava o que havia (ou não) feito da vida. Era, sim, com um profundo suspiro de desgosto que enxergava as parcas realizações e os muitos sonhos jamais cumpridos. “É isso tudo o que eu sou? Será que não resta mais nada para eu realizar nesta porcaria de mundo? A vida então não passa de uma sucessão de infelizes revezes (e de contas a pagar) atados pelo nó firmemente apertado dos insucessos, da velhice e da doença?”
É verdade que pensar nisso o deixava melancólico, refém dos próprios arrependimentos, e por essa razão procurava afastar essas reflexões incômodas sempre que as vislumbrava se acumulando no horizonte, quais nuvens escuras prenunciando tempestades. Com ímpeto redobrado, tratava de debelar esse sentimento ruim, que lhe deixava um travo amargo na boca, mergulhando de cabeça no trabalho (ou, quase sempre, num copo de vodca). Mas, de novo, o mundo bateu à porta disposto a atrapalhá-lo.
- É a conta da luz, seu Tibúrcio – disse o porteiro, assim que ele atendeu a campainha de serviço – assine aqui, por favor.
Mal bateu os olhos no papel, o escritor percebeu que havia algo errado na cobrança. “Os miseráveis estão cobrando 20 reais a mais”, pensou, rilhando os dentes de raiva. “Eles já cobraram por engano o mês passado e agora... outra vez...! Não é pelo valor, mas é que... Porra, é pelo valor, sim, senhor! 20 reais num mês, depois 20 no outro, e logo serão 100, 200, 1.000! Já estou de saco cheio disso!”, desabafou, amassando na mão o boleto.
Meia hora depois, o cérebro enxameando com expressões de cólera, o homem tinha outra meia dúzia de razões para se sentir indignado. Uma delas, a fila da agência da companhia elétrica, naquele horário um muro intransponível de plácida resignação. Outra, o ar blasé do caixa, que o encarava com insuportável enfado e manifesta displicência por trás dos óculos imaculadamente limpos. Mas foi somente quando o rapaz bem apessoado e arrumado informou-o que “o sistema não reconhecia o equívoco na conta e que ele teria de efetuar o pagamento para então recorrer a uma solicitação formal de estorno” é que a sua já escassa tolerância soçobrou como um Titanic após chocar com o iceberg. Mais do que tudo, era a má vontade, a falta de disposição em mexer um dedo sequer para auxiliá-lo, aquela incômoda sensação de que a vida seria significativamente menos complicada não fossem as pessoas que se interpunham à frente do caminho, que o deixou à beira da apoplexia, espumando pelas comissuras da boca, inflado feito uma bexiga vermelha prestes a estourar.
Desnecessário dizer que de nada adiantaram as imprecações e os veementes protestos de Tibúrcio.
- Me perdoe, meu senhor, mas eu não tenho culpa se as coisas são do jeito que são. O senhor pode escrever uma queixa para a Ouvidoria, se desejar...
Não, ele não desejava fazer uma queixa para a Ouvidoria, fosse lá onde isso fosse, como tampouco desejava pagar uma conta que havia computado um consumo que nunca aconteceu. Tudo o que pedia, o que o pobre homem estava praticamente implorando dobrado de joelhos no chão, era para que emitissem uma droga de um novo boleto retificado. Se eles podiam se comunicar instantaneamente com a Índia, com Timbuctu ou com a Lua a um simples digitar de números, é claro que eram capazes de solucionar o problema ali mesmo, no ato, gastando tanto esforço quanto uma rã para apanhar uma mosca. A verdade, evidente e inequívoca, é que não queriam fazer isso. O escritor podia ler isso na face lisa e desprovida de rugas de preocupação do jovem caixa. Bastava uma mísera porção de iniciativa para por fim àquilo ou para tornar a sua existência um pouco, mas só um pouco, menos amargurada. Contudo, o atendente simplesmente não pretendia fazer o mínimo gesto que servisse para facilitar a vida de outra pessoa. Tudo se resumia à questão de querer, de ajudar, de pensar fora das quatro paredes da mirrada cela mental a que foi condicionado.
Deve-se creditar à Providência divina, a um súbito acesso de lucidez ou às duas coisas o fato auspicioso de Tibúrcio não ter se lançado sobre o balcão para agarrar o colarinho do moço e cobri-lo de sopapos. Em vez disso, ele se conteve o quanto lhe permitia a escassa paciência, engoliu em seco a indignação, deu meia-volta e saiu desembestado como um touro bravo, trombando e empurrando quem quer que ousasse se interpor no caminho, as orelhas fumegando de ira. Tivesse o controle de um arsenal nuclear na mão, é provável que alegremente se entregasse ao êxtase de apertar o botão vermelho sem o mínimo resquício de culpa. Com a mesma sublime insanidade de um Dr. Fantástico [3], ele havia deixado de temer a bomba e, em vez disso, amava o apocalipse com desmedida intensidade.
“Insensibilidade, desprezo, descaso, arrogância... não há nada que uma bala bem enfiada no meio da testa não resolva”, refletiu, numa tentativa fadada ao fracasso de se resignar enquanto tratava de recolher os estilhaços do amor-próprio dilacerado. No mesmo instante em que esses pensamentos vagamente iconoclastas corroíam o seu cérebro, ele se deu conta de que precisava reagir a eles de algum modo. Ou melhor, reagir àquele sentimento de inconformismo e de indignação que contaminava a sua alma cada dia mais, uma Peste Negra a grassar incontrolável dentro de seu peito. “Preciso salvar a mim de mim mesmo. Não posso continuar nessa senda ou vou acabar cometendo uma bobagem.” Somente então, perdido entre as ondas espumantes de raiva que vinham esboroar-se em seu cérebro por todos os lados, o escritor percebeu pela primeira vez a razão profunda e até então insondável dos problemas que o assediavam.
            - É o mundo, são as pessoas que infestam este planeta, os outros que estão por aí pra transformar a vida da gente neste inferno! – bradou no meio da rua, entre os carros que passavam buzinando, perdido em meio ao xingamento dos motoristas, ao semáforo aberto, o guarda gesticulando nervoso, os transeuntes atônitos e os cachorros latindo, como se experimentasse, súbito, uma epifania reveladora. Foi como se as comportas de uma represa tivessem se aberto, ou como se a sua alma extravasasse para fora, para cima e além de si mesmo. O problema era o mundo (ou melhor dizendo, as pessoas) e não ele, e no exato instante em que essa certeza se estabeleceu no espírito, com a contundência de um martelo batendo numa bigorna fria, outra verdade brilhou com ofuscante esplendor dentro dele – Se é assim que tem de ser, que seja. Considerem-se avisados, seus imbecis. Sou eu, Rafael Tibúrcio, quem declara guerra ao mundo. Agora sou eu contra a humanidade! Vamos ver quem se sai melhor!
            Aquilo que em condições normais nunca teria passado de um arroubo ocasional, um desabafo um tanto destemperado, um desatino momentâneo numa tarde de verão, facilmente esquecíveis, converteu-se, ainda naquele dia, em uma elaborada manobra bélica. De volta para o seu apartamento, que tratou de transformar em quartel-general improvisado do conflito que pretendia travar, com a determinação algo insana de um Dom Quixote desprovido de seu Sancho Pança e sem uma Dulcineia para chamar de musa, escolheu cautelosa e meticulosamente as armas que empregaria nesse combate.
            “Não, eles não vão me dobrar à sua atávica cretinice. Se eu tenho de lutar contra os outros, então ditarei as regras. Não será de outro modo”, determinou o encolerizado escritor, olhando-se no espelho do banheiro como um comandante das antigas que se prepara para empunhar a espada. E nenhuma lâmina seria tão afiada, considerou ele, nem tão fácil de manejar em suas mãos habituadas à arte da argumentação e da retórica, quanto a palavra seca da lei. Já que a única saída era partir para o embate, que ele escolhesse nos códigos judiciários o arsenal que lhe convinha. Antes mesmo que o sol se pusesse naquele dia, o homem já tinha escolhido o soldado que haveria de defendê-lo.
             - Olha, eu não sei, não – começou a dizer o advogado – Essas coisas são complicadas, Tibúrcio. Complicadas e caras. Veja bem, pode demorar muito tempo para chegar aos veredictos, e não existe nenhuma garantia de que eles serão favoráveis. Afinal, tribunal é loteria... Tá, eu sei, você não se importa se vai demorar um ano, dois ou toda a eternidade, desde que a justiça seja feita. Deixa ver se eu entendi... Você quer que eu processe a companhia elétrica, todos os bancos, o síndico, os guardas e todos os moradores do seu prédio, além do prefeito, do governador e do presidente da República... todo o mundo, enfim, por... pelo que mesmo? Ah, sim, tratamento desumano, como você diz. Agora me diga, meu caro, o que sugere que eu alegue? A lei de proteção aos animais? Pra ser sincero, não existe a menor chance de você sair vitorioso em todas essas ações... algumas, até pode ser, depende do entendimento do juiz... mas todas? Não, seria difícil... impraticável... insano, além disso...
            Previsivelmente, a conversa terminou da forma abrupta e impaciente, nada polida e ríspida, com o escritor desligando o telefone antes sequer que o advogado pronunciasse outra sílaba. Tibúrcio permaneceu enterrado na poltrona, bufando e mastigando os dentes num esforço para domar a fúria que subia até a garganta. Após longas horas de meditação, ele se ergueu, resoluto. Se aquele incompetente não iria ajudá-lo a travar a sua guerra, que fosse pra puta que o pariu. Ele entraria nela sozinho, sem pedir ajuda a quem quer que fosse.
            Nos dias seguintes, ocupou-se de maneira quase obsessiva em visitar os tribunais e registrar petições com toda a sorte de processos contra qualquer pessoa, instituição ou empresa que lhe desse na telha. Se escasseavam justificativas, sobravam as motivações mais disparatadas. Razões não lhe faltavam, e certamente ele conhecia suficientemente bem as técnicas de argumentação para dispensar a ajuda de um advogado chicaneiro. O trâmite, já habitualmente demorado, arrastou-se por meses a fio, sem sinal a vista de que chegaria a algum termo, e para cada investida que o sujeito dava, outras tantas reações o fustigavam sem cessar. Como se pode prever, ao fim de um ano ele estava exaurido. Pior que isso, falido. Mas nem de longe se considerava derrotado, isso é que não.
            Depois dos revezes nas cortes, foi a vez da imprensa atormentá-lo com a sanha de um bando de abutres esfomeados. Rapidamente, a história vazou para as páginas dos tablóides e as redes sociais se esbaldaram em piadas e curtidas e em questão de semanas o assédio insuportável de repórteres mexeriqueiros decididos a extrair dele, a todo preço, uma declaração, por banal que fosse, serviu apenas para que ele encontrasse outro alvo a quem processar: os jornalistas. Porém, isso também resultou tão inócuo quanto todos os esforços que havia empreendido para dobrar o mundo à sua vontade tenaz. Um tanto tardiamente, reconheceu, contrafeito, que aquelas eram batalhas perdidas. Por mais louco que considerasse a si mesmo, e ninguém tinha dúvida de que era, de nada valeira prosseguir com a tática da confrontação. Enfronhou-se em suas próprias frustrações, deprimido diante da falta de perspectivas. Para onde quer que olhasse, uma muralha de intransigência e desprezo parecia se erguer acima de sua pobre cabeça semicalva, ameaçando soterrá-lo na insignificância. Isso não significava, entretanto, que ele havia jogado a toalha no ringue manchado de suor e sangue de seu autossacrifício. Muito pelo contrário. Se o mundo havia se voltado contra ele, então tanto pior para o mundo. Rafael Tibúrcio resistiria com todas as forças que dispunha para manter-se vivo, respirando e com os punhos cerrados e bem erguidos.
            Por intermináveis horas, dedicou-se a um planejamento febril. Desperdiçou pilhas de papeis em contabilidades e fazia e refazia prognósticos. Com a disposição de um fanático fundamentalista islâmico, varou madrugadas pesquisando estabelecimentos, produtos, preços. Raspou a conta bancária até que nem um centavo restasse. Quando se considerou pronto para a empreitada a que se impôs, fez uma exaustiva e minuciosa faxina. Livrou-se de tudo o que era desnecessário ou que pudesse representar um estorvo. Roupas de praia, como calções e maiôs, malas de viagem, além de quinquilharias as mais variadas em tamanho e forma acumuladas em 50 anos de desperdícios foram parar na lata de lixo ou jogadas no meio da rua sem a mínima cerimônia. Aquilo que não servia para nada, como álbuns de fotografias antigas, já esmaecidas pelo tempo, e lembranças de família, cuidou de por para fora. Mesmo entre os seus adorados livros e revistas, muitos com as folhas amareladas e carcomidas pelas baratas, de que possuía em número suficiente para abarrotar as prateleiras de uma biblioteca pública, promoveu um expurgo seletivo e rigoroso. Tomado de um súbito frenesi destruidor, deu de rasgar e picotar tudo o que considerava imprestável, supérfluo, e no que não via utilidade. Como um Nero ensandecido, acendeu uma pira e ateou fogo a uma pilha de metro e meio formada pelos restos retalhados de coleções de gibis que nunca teve tempo de ler. Isso, entretanto, foi apenas o começo.
Em seguida, ele tratou de cortar toda e qualquer amarra que pudesse ter com o mundo exterior. Destruiu a marretadas o celular e jogou os estilhaços na privada. Arrancou o interfone da parede e o esmigalhou a pesadas. Finalmente, desligou os fios das campainhas das duas portas para que ninguém pudesse incomodá-lo. Uma semana depois, começou os preparativos para a “gloriosa resistência”, como passou a chamar eufemisticamente a insana operação.
            Saiu a comprar mantimentos de todo o tipo. Latas e latas de alimentos em conserva, feijões, milho, doces em compota e leites em pó, sacos de arroz, de sal e açúcar. Em quantidade o bastante para alimentar uma tropa razoável de soldados em campanha. Filés de carne e frango congelados, verduras, legumes e frutas variadas, maçãs, bananas, laranjas e limões, sobretudo limões (lembrava-se, não sabia por que das histórias de marinheiros vítimas de escorbuto). Estocou por todos os cantos do apartamento e até debaixo da cama e dentro do box do chuveiro litros de água fresca suficientes para encher uma piscina. Também comprou dezenas de pacotes de biscoitos salgados e doces, além de farinhas e tantos ovos quantos caberiam numa granja. Abasteceu a despensa com uma quantidade enorme de coisas que julgava necessárias e, quando já não dispunha mais de espaço, ocupou os armários da cozinha e até os guarda-roupas dos quartos. Pelas suas estimativas mais conservadoras, esse estoque lhe bastaria por quase um ano. Quando ele se esgotasse, já sabia como faria para sobreviver por algum tempo a mais. Como não tinha planos para usar a televisão nem o computador, providenciou para que esses aparelhos servissem a um propósito menos supérfluo. Desmontou as carcaças, arrancou todas as peças e no lugar encheu de boa quantidade de areia e terra úmida e fofa, onde plantou sementes de plantas frutíferas, acerolas de um alaranjado vivo, pitangas suculentas, jabuticabas e dezenas de outras, isso sem contar pés de feijão e vagens. Dispôs essa horta caseira um tanto incomum sobre a mesa de centro da sala de estar, o que ajudou a amenizar um pouco a impressão de desarrumação caótica do apartamento. Ordem e limpeza eram itens que, ao menos naquele momento, trafegavam além da esfera das preocupações imediatas do obcecado escritor.
            Mas essa não foi senão a primeira etapa daquela operação desvairada. O mais importante, para aquele homenzinho ridículo, era interpor entre os outros e ele uma cerca intransponível, uma barreira tão sólida quanto o Muro de Berlim e tão extensa quanto a Muralha da China. Nada que ameaçasse a sua vida acanhada, ou que pudesse representar uma invasão à sua privacidade deveria atravessá-la. Isso significava lançar mão de qualquer coisa que pudesse servir para isolá-lo do mundo exterior. Queria, a todo e qualquer custo, entrincheirar-se da espécie humana o mais que possível, afastando para bem longe a necessidade de ter de ver e conviver com os vizinhos e estranhos. Pretendia estabelecer uma casamata segura para impedir que alguém o perturbasse. Ao menos enquanto durassem os alimentos estocados, estaria livre de aturar a impertinência, o supremo descaso, a falta de educação e de boas maneiras, a selvageria e a boçalidade inata dos outros.
            Com a obstinação de um fugitivo de uma casa de loucos, percorreu as marcenarias do bairro em busca de pranchas de madeira bem largas para tapar as janelas e vedar até mesmo a entrada de luz. Quem o visse naquela faina frenética poderia pensar que o planeta estava à beira de uma hecatombe nuclear. Nenhuma consideração de ordem prática o detinha em seus objetivos. Apenas se permitiu o luxo de deixar algumas frestas em pontos estratégicos por onde o ar pudesse penetrar no apartamento. Tampouco se importava com a claridade, quilos de velas seriam úteis no combate à escuridão. Mais do que evitar olhares curiosos e importunos para o seu reduto, Tibúrcio fazia questão de avisar à humanidade que tudo o que ela havia construído sobre a face do planeta só lhe provocava repulsa e desprezo e só teria a ganhar fechando as portas para o mundo exterior.
            Isso, naturalmente, incluía também todos os sons que pudessem incomodá-lo. Com o intuito de abafá-los o máximo possível, quando não emudecê-los, ele saiu a amarrar pelas paredes, portas e janelas o maior número de colchões velhos que recolheu das calçadas e de cima das caçambas cheias de entulho. Quando deu por encerrado o trabalho hercúleo, sentou-se, exausto, na poltrona do quarto e permaneceu vários minutos imerso na escuridão e no silêncio profundos que o abraçavam como um sudário e o tempo e o espaço pareciam se dissolver num nada absoluto. Havia, enfim, cavado uma trincheira funda o suficiente entre o mundo e a sua tão amada individualidade, um fosso onde a sua fobia social podia chafurdar à vontade, devorando-se a si mesma como uma hiena que devorasse as próprias vísceras. Daquele dia em diante, Rafael Tibúrcio não queria mais nada com o mundo e nem o mundo queria alguma coisa com ele. Infelizmente, isso durou pouco.
            Mal se passaram algumas horas, quando o cansaço e a sonolência o faziam trafegar naquela região imprecisa entre a realidade e o sonho, e um rumor de inegável procedência começou a atormentar-lhe os ouvidos. Num primeiro momento, ele pareceu dar pouca importância a isso, talvez na crença inabalável de que nada seria capaz de invadir os seus domínios, mas a insistência do ruído, que conseguiu chegar até os seus tímpanos depois de atravessar a espessa barreira de pranchas de madeira e colchões, impediu que ele se mantivesse alheio por muito tempo.
            Logo, eram as paredes da sala de jantar que vibravam, os vasos e pratos que balançavam e chacoalhavam nas prateleiras e o estuque do teto que principiava a rachar, como se um tremor sísmico houvesse atingido o prédio. Ainda que abafado, ainda que asfixiado, o ronco do motor, do ferro roendo o concreto, abrindo caminho, implacável, escavando centímetro a centímetro de tijolos e cimento, era distintamente perceptível, até que a ponta giratória da broca irrompeu num canto da parede, arrancando com ela uma porção de alvenaria, que desabou com estrondo no assoalho.
            O único pensamento que atravessou a mente de Tibúrcio foi também o último lampejo de bom senso que ele foi capaz de manifestar. “Foi tudo inútil!”
            “Eles querem me pegar!”, refletiu, ao mesmo tempo em que se agitava e se contorcia, incapaz de tomar uma decisão. “Os desgraçados (bando de ressentidos) nunca vão me perdoar por eu ter conseguido o que todos eles desejam, o que sempre sonharam em fazer mas jamais tiveram coragem de levar adiante: escapar de seu mundinho ordinário, dar uma banana às suas existências medíocres, virar as costas para as suas ignóbeis vaidades, ignorar os outros com o desprezo de um deus!”
            O pavor não demorou em se converter em fúria homicida, e a fúria homicida não demorou em se converter em uma resolução tisnada pela insanidade.
            “A turba, sempre ela! Eles nunca vão suportar o que não conseguem controlar (ou o que querem destruir), o que são incapazes de submeter à sua vontade! Preferem aniquilar quem ouse escapar ao seu poder do que deixá-lo livre...”
            Os momentos seguintes formaram um borrão indistinto em sua mente. Tudo de que ele foi capaz de lembrar, horas depois, quando interrogado pelos policiais, foram rápidos e fugidios lampejos, como as fotos rasgadas num acesso de cólera incontida: a faca com cabo preto guardada na gaveta da cozinha, a porta do vizinho vindo abaixo, a lâmina afiada penetrando na pele gorda e macia da mulher, os gritos estridentes, o pandemônio, o horrendo pandemônio, a pança inchada do marido sendo estripada, a carne fibrosa do pescoço cortado das crianças espalhada pelos móveis, o sangue cor de karo com suco de morango esguichando na parede, no carpete, em sua roupa, sarapintando o seu rosto...
E havia a sensação, aquela insuperável experiência de triunfo mascarada em fúria sanguinária em meio a um frenesi ensandecido. Imbuído por uma excitação quase epifânica, ele trucidava e retalhava e decepava e despedaçava e depredava e ria e urrava e exultava e bailava ao som de uma valsa que só ele era capaz de ouvir e saltava e delirava e espumava feito um cão louco.
            Tibúrcio nunca teve a noção exata do que lhe aconteceu nas semanas (ou teriam sido meses?) que se seguiram ao massacre. Tudo se passou de forma tão confusa, atropelada e vertiginosa quanto num romance ruim, o tipo de livro que ele costumava escrever e que a crítica adorava ignorar. Sempre que a sua mente olhava para trás, para o processo que o levou às barras do tribunal e que ele se esforçava para recordar os detalhes, ficava com a impressão de que os fatos tinham sido sonegados, como se alguém ou algum poder superior houvesse apagado parcialmente a fita de sua memória e dela só restassem fragmentos esparsos boiando num mar revolto de incompreensão.
            - Um crime hediondo...
            (bradou o promotor, tomado pela fúria)
            - ...um ato de desesperada insanidade...
            (declarou com solene impostação alguém, talvez o seu advogado de defesa, não lembrava direito)
            - ...a barbárie, a barbárie...
            (repetiu sem cessar, aos prantos, uma testemunha de acusação, uma mulher ridícula que morava no andar abaixo do seu e foi a primeira pessoa a chegar à cena do crime)
            Não houve apelações que bastassem nem contrições sinceras que servissem para evitar que ele fosse condenado. Uma das poucas coisas que conseguia recordar com cristalina precisão era a expressão de indisfarçável satisfação estampada no rosto da juíza ao bater o martelo ao mesmo tempo em que proferia o veredicto. O mesmo semblante de alívio e supremo regozijo que, ele podia perceber, se espalhava como uma marca de varíola pelos rostos de advogados e promotores, de testemunhas e jornalistas, da audiência, do escrivão e dos guardas. Quase era possível ouvir, entre os suspiros e as gargantas engolindo em seco, entre o tossido nervoso e os muxoxos de desdém, o rumor baixo e grave de risinhos insuportáveis, o coro da galhofa generalizada daqueles que, secretamente, haviam se unido com o intuito declarado de dizimá-lo.           
            Somente quando o levaram dali e o conduziram, por um dédalo de corredores soturnos, é que Rafael Tibúrcio começou a se dar conta da insuperável ironia de sua situação. Somente quando abriram a porta da cela e ele se viu enfiado à força num cubículo de três por três é que a atroz realidade começou a pesar em seu espírito. Somente então, ao se ver confinado com uns 50 homens (50 homens!), todos sujos e mal-vestidos, todos mal-encarados, todos embrutecidos e entregues às suas intenções malignas como lobos numa alcateia, é que a ficha de sua fragorosa derrota diante dos outros caiu.
“Não adianta, por mais que a gente faça, por mais que procuremos um lugar pra ficar longe de todo mundo, por mais que almejemos a solidão, eles, os outros, sempre dão um jeito de não nos deixar em paz. Vai ser sempre assim, sempre, sempre!” – lamentou, de si para consigo, enquanto abria caminho, lenta e mecanicamente, por entre aquela horda fedorenta que se espremia em redor, até o pequeno retângulo gradeado no alto da parede oposta que permitia um vislumbre discreto do mundo exterior.
Ao menos, havia encontrado a palavra que procurava:
O homem contemplou então a silhueta da cidade recortada contra o céu enevoado em completa amargura.
  
São Paulo, 12 de novembro de 2016







[1] “Palavra justa ou correta”, em francês, expressão usada pelo escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880), autor de “Madame Bovary”.
[2] O deus polinésio da guerra.
[3]  Personagem do clássico filme do diretor Stanley Kubrick “Dr. Fantástico”, de 1964.

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