e Leia a versão integral do conto "A Vida íntima das irmãs siamesas" ~ Diário do Moretti
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sábado, 1 de outubro de 2016

Leia a versão integral do conto "A Vida íntima das irmãs siamesas"




A VIDA ÍNTIMA DAS IRMÃS SIAMESAS

“A amizade é uma alma com dois corpos”
Aristóteles
Por Marco Moretti

"Duas Figuras", de Ismael Nery - Fonte: Wikipedia

Joana podia nutrir pela irmã todos os sentimentos que existem no dicionário e que vão de A de amor a Z de zelo, e ainda assim o que mais experimentava era o O de ódio. Isso porque qualquer afeto que pudesse ter para com ela podia se converter em desprezo e raiva com a mesma facilidade com que trocava de calcinha. A razão dessas reações temperadas de atração e repulsa continuava sendo um caso não muito bem explicado na mente de Joana, embora ela sinceramente se esforçasse para debelá-las quando vinham à tona. Isso ocorria invariavelmente todas as vezes em que Joelma insistia em chateá-la com algum de seus caprichos ou, o que costumeiramente era fonte de sonoras discussões entre as duas, nos instantes em que teimava em fazer qualquer coisa que a desagradasse. Não se pode afirmar, em defesa de Joana, que ela desconhecesse o temperamento da irmã, nem que as manias da outra fossem excentricidades de última hora. De forma alguma. Aquelas duas mulheres, agora na casa dos 50 anos, conheciam-se suficientemente bem desde o útero materno. Afinal de contas, é um fato fartamente conhecido que gêmeos univitelinos costumam manter um elo espiritual que perdura mesmo na eventualidade de um morrer antes do outro. Se as diferenças de personalidade entre ambas eram pouco ou nada significativas na infância, isso deixou de constituir uma verdade quando elas atingiram a idade adulta. À medida que cresciam, descobriram características próprias, idiossincrasias, que, com o passar dos anos, foram se acentuando. A maturidade deu um caráter definitivo de franca oposição às “peculiaridades” particulares, que levou ao nascimento dessa hostilidade, significativamente mais perceptível em Joana do que em Joelma, deve-se frisar. Não que a última não se aborrecesse em demasia com a irmã, mas sabia refrear a irritação e, por vezes, a ira, numa expressão de cinismo quase sempre acompanhada de uma risada escandalosa, que apenas servia para alimentar o desejo de Joana em vê-la a pelo menos um quilômetro de distância. A verdade é que ela já o teria feito, se as duas não fossem unha e carne, literalmente. Estavam ambas inseparavelmente unidas desde a concepção, ao menos fisicamente, já que não podiam ser mais díspares no plano psicológico. O que, como podem atestar os mais renomados especialistas no assunto, pode constituir uma originalidade, mas, de forma alguma, um evento corriqueiro em se tratando de irmãs xifópagas.
Deve-se creditar a uma época menos conservadora como a nossa (ou mais hipócrita, dependendo de como se veja a coisa) o fato de as duas não terem sido condenadas por toda a existência a um destino miserável. Se houvessem nascido em outras épocas e outros lugares, provavelmente seriam atiradas do alto de um penhasco, jogadas no fundo de um calabouço longe de olhares curiosos, ou, não menos pior, estariam relegadas a virar atração em um circo de horrores. Mas, em tempos de consumismo conspícuo farisaico e desprovido de encanto como o nosso, elas passaram a ganhar a vida se apresentando em bares e restaurantes de segunda categoria como músicas dotadas de habilidades ímpares, tocando piano e cantando. Na verdade, elas dividiam as funções. Quem martelava as teclas era Joana, de seu natural recolhida qual uma concha, enquanto Joelma preferia soltar o gogó. A verdade incômoda, contudo, é que as pessoas eram atraídas para as apresentações das duas não tanto pela qualidade musical que elas podiam exibir quanto pela curiosidade. No fundo, as apresentações das gêmeas siamesas em muito pouco diferiam de um show de parque de diversões. A bizarra, ou incomum, característica da dupla é o que causava comoção, em detrimento de seus dotes artísticos.
Guardadas as devidas proporções e uma que outra inconveniência, elas conseguiram atravessar mais ou menos incólumes a estrada das repulsas sociais sem grandes traumas. Até nos dois campos minados em que poderiam ter sofrido com a discriminação e o preconceito, quando não com a segregação, ambas se saíram razoavelmente. Tanto na escola quanto no trabalho sempre foram reconhecidas como esforçadas e competentes e, se não lograram êxito fenomenal, isso se deve menos à notável capacidade de sobreviver às adversidades do que à má vontade alheia. À estranheza com que eram acolhidas em cada esquina, retribuíam com um certo senso de indiferença que, às vezes, podia ser confundido com arrogância, mas que com frequência era visto como uma pontada de inflexível orgulho de suas próprias particularidades. Houve mesmo uma época em suas vidas, na adolescência, em que experimentaram um certo regozijo modulado por desprezo pela maneira com que as pessoas as fitavam.
            Características que, entenda-se como quiser, não se resumiam à excentricidade de sua condição física. Cada uma à sua maneira, as irmãs siamesas eram seres humanos de comportamentos e inclinações psicológicas distintos. Mais independente, rebelde e despachada das duas, Joana tolerava com muita má vontade a indolência da irmã (costumava dizer, em tom jocoso, que Joelma era tão preguiçosa que seria capaz de se ausentar do próprio velório só para não ter o trabalho de se deitar no caixão), a falta de iniciativa dela e, sobretudo, embora nem sempre aparente, a antipatia que nutria pelo mau gosto da irmã por tudo o que se referisse ao universo da moda e das artes em geral, não descontando desse cômputo a sua paixão pelas músicas sertanejas. Na verdade, Joana pouca paciência se dispunha a ter para com os constantes arroubos poéticos da outra. Eram, em resumo, duas almas diferentes separadas pelo mesmo corpo.
Era previsível e até desejável que essas oposições, tanto de predileções quanto de atitudes, esbarrassem, com o tempo, na intransponível necessidade de viverem, ambas, em cantos opostos da mesma existência. Ao menos desde que a noção de individualidade permeara a consciência de Joana e trouxe a reboque o anseio de se libertar daquele convívio forçado, não houve minuto, não houve um segundo sequer, que ela não procurasse algum meio de se separar da irmã. Dos 20 aos 30 anos, partiram dela todas as iniciativas para que procurassem especialistas médicos que pudessem auxiliá-las a concretizar esse desejo quase obsessivo pela libertação. Desnecessário dizer que só depararam com sorrisos complacentes estampados em rostos que se esforçavam a todo custo para expressar alguma espécie de compaixão pela situação das gêmeas, invariavelmente acompanhados de explicações minuciosas das razões por que seria impossível realizar um procedimento cirúrgico para separá-las. “Seria mais fácil dividir o Norte e o Sul do Brasil do que fatiar vocês duas ao meio”, asseverou certa feita um velho doutor de ar rabugento e volumosas papadas sob os olhos cansados.
Era de se esperar que essa muralha de negativas (numa estimativa aproximada, as irmãs consultaram meia centena de médicos nesse período) as desencorajasse a tentar qualquer empreitada que acenasse com uma possibilidade, ainda que remota, de alforria para ambas. Contudo, esse não era o tipo de obstáculo que faria com que Joana desistisse com tanta facilidade de seu intuito, por mais tresloucado que ele pudesse soar a ouvidos sensatos. Em quase cinco décadas de permanência neste mundo, não houve um sol sequer que a flagrasse pensando em outro assunto que não esse. Em última instância, essa arraigada turronice evitou que ela se abandonasse a uma existência arrastada e medíocre, sem alma e desacalentada, embora jamais perdesse de vista a noção de que, a menos que alguma nova tecnologia médica fosse desenvolvida ou um milagre divino intercedesse em seu favor, estava fadada a permanecer ligada a Joelma para todo o sempre. Aquilo era uma condenação pior do que a escravidão, muito pior, já que os grilhões eram impossíveis de serem rompidos por intermédio de uma simples lei áurea sem que as duas perecessem ao mesmo tempo.  
Como se sabe, uma alma desprovida de felicidades ou de meios para se atingir a felicidade é uma alma combalida pela inveja e pela amargura. Quando criança e adolescente, esses sentimentos vagavam enevoados por seus pensamentos, como se temessem ser reconhecidos, e recusavam-se a ganhar nomes definidos. No entanto, à medida que elas ingressavam juntas (de que outro modo seria?) no limiar da mocidade e os impulsos naturais da atração sexual principiavam a entrar em ebulição em suas entranhas, as irmãs se deram conta de que eram diferentes dos demais. E, como era de se esperar, se ressentiram disso, cada uma à sua maneira e de acordo com a predisposição de seus espíritos. Joelma refugiou-se dali para diante em uma armadura de indiferença e superficial frieza para tudo o que dissesse respeito aos rapazes e suas vontades, enquanto a irmã abaixava a cabeça ou virava os olhos, numa flagrante reação de irritação todas as vezes que calhava de presenciar um casal de namorados trocando afetos. Para ela, a visão de dois amantes se beijando com fervor juvenil era uma zombaria, uma provocação, quase um insulto.
Mas seria um engano imaginar que as irmãs xifópagas permaneceram para sempre num estado de intocável virgindade, alheias aos prazeres da carne. Muito pelo contrário. Desde cedo elas compartilharam os mesmos parceiros sob os lençóis da cama (ou nos bancos traseiros dos carros ou nos vãos dos becos escuros ou onde quer que as circunstâncias permitissem) e tiveram experiências nessa área tão satisfatórias quanto a maioria das garotas de sua idade. Entretanto, é também um fato impossível de refutar que os homens com quem deitaram (às vezes, mais de um ao mesmo tempo) não o fizeram por qualquer sentimentalismo, nem mesmo por compaixão ou piedade, mas pela pura e simples curiosidade, pelo anseio animalesco de machos ansiosos de despejar os seus espermas em conhecer uma espécie “diferente” de vivência sexual. Apenas isso.
A consciência dessa lamentável situação serviu somente para alimentar com dores agudas as repetidas decepções que as irmãs sofreram sempre que os homens se afastavam delas com olhar de nojo e repugnância depois de terem se saciado à vontade de seus corpos. Tais frustrações foram saudadas em incontáveis circunstâncias com litros de água salgada derramados dos dois pares de olhos, conquanto, das duas, parecesse evidente que Joana é quem mais ardia com o sofrimento daquele estado imutável de coisas. Em quantas oportunidades ela não amaldiçoou os céus, a lua e as estrelas por ter nascido e em quantas dessas vezes ela não se arrependeu por não ter estrangulado a irmã ainda no útero. “Se eu tivesse tido a chance de escolher, só por um momento, só por um momento”, pedia ela a Deus, ou ao diabo, ou aos deuses dos desfavorecidos, em pensamentos e falas entrecortadas de soluços e murmúrios enraivecidos travestidos de singela penitência. O fato de que essas manifestações de inconformismo de nada adiantavam ou serviam apenas para amplificar ainda mais a eterna frustração que ela experimentava consigo mesma e dentro do espaço bastante limitado de sua cabeça (a única coisa, na verdade, que ela verdadeiramente possuía naquele corpo compartilhado) jamais pareceu a Joana um desperdício de forças. Era dessa insatisfação perene que ela extraía a vontade, a cada dia mais potente, mais intensa, mais avassaladora, de se ver livre de Joelma. Mesmo que isso lhe custasse a vida.
Resignar-se ao seu destino era o tipo de coisa a que Joana nunca se dobraria. Podia revoltar-se, imprecar contra os céus, contorcer-se de dores, contudo, em hipótese alguma, se deixaria vencer pela humilhante aceitação de sua desdita. Numa noite de rumorosa tempestade de verão, de ventos uivantes e janelas trepidantes, jurou de si para consigo, enquanto confabulava com o seu lado do travesseiro, que haveria de encontrar um meio, fosse qual fosse, de dar um fim na indesejável união.
É bem verdade que a palavra “assassinato”, e as consequências que ela implicava, flutuaram várias vezes, qual miragens tremeluzentes, na mente dela. Mas a mesma fonte de indignação que “soprou” a ideia em seus ouvidos foi responsável por exilá-la para o reino das impossibilidades com um veemente abano de cabeça. Matar a outra metade de si mesma seria o mesmo que amputar um braço ou uma perna, sob o risco de não sobreviver à mutilação. Além disso, de que forma algo assim poderia ser executado? Guardadas as devidas proporções, seria como cometer suicídio.
Envenenar Joelma estava fora de propósito por razões que dispensam explicação. O mesmo valia para a decapitação e outras práticas menos sutis. Claro, sempre havia a possibilidade de meter a cabeça dela dentro do forno e ligar o gás, mas essa solução final ao estilo “João e Maria” era por demais radical e nada elegante, sumamente impraticável. Sufocá-la com o travesseiro, quando ela adormecesse, esbarrava em questões de ordem prática. Podia estrangulá-la, e Joana só não levou a cabo esse plano porque ele demandaria muito mais cuidados do que se pode supor. Se exagerasse na dose, corria o risco de matar a ela e a si mesma. Com pouca força, a irmã não só sobreviveria ao atentado como deixaria de ser uma companheira compassiva para se tornar a sua maior e mais temida nêmese.  
Aliás, evitar que a outra adivinhasse ou sequer suspeitasse de seus propósitos por si só era causa de recorrentes preocupações para Joana. O esforço de guardar somente para si os desígnios criminosos que alimentava na alma, não por um dia nem por um mês, mas por anos a fio, quase a levaram ao colapso nervoso. Mesmo que quisesse, mesmo que pudesse confiar em alguém para depositar as confissões, não havia forma concebível de fazer isso sem que a irmã tomasse conhecimento. Para ela, a falta de privacidade era o inferno. De maneira irrevogável e inapelável, estava condenada a ser a sua única confidente. Porém, por mais que tentasse acobertar esses intentos macabros, abafá-los dentro do cérebro, vez por outra pequenos vislumbres deles vazavam pelas frestas dos atos falhos de seu comportamento e de suas palavras.
Como sempre acontece nesse tipo de situação, o acaso veio fazer uma visita inesperada. Não o fez com um bater de porta ou um suave toque de campainha, mas com um grito agudo e estridente.
O incidente sucedeu numa noite de sábado, quente e monótona. Por essas razões e o fato de que não se sentiam dispostas para enfrentar as multidões fascinadas pela presença delas (não, a palavra certa não é bem essa, fascínio era um sentimento que elas raramente despertavam) num eventual passeio noturno, acharam por bem permanecer em casa assistindo a um filme de terror lamentavelmente medíocre, a respeito de uma cidadezinha invadida por aranhas. Um programa que parecia agradar mais a Joelma, mas ao qual Joana se resignaria de boa vontade desde que isso a poupasse dos eternos resmungos da irmã.
Foi justo quando assistiam a uma cena de insuportável mau gosto que as coisas adquiriram uma nova dimensão para Joana, que, enfim, vislumbrou uma escapatória para a clausura em que se achava encalacrada.
Ocorreu no clímax do filme, no momento de maior angústia da história, em que o confronto do protagonista com um bando de aranhas se dava de maneira sofrível por intermédio de efeitos especiais risíveis. Joana não precisou virar o rosto para se dar conta da reação da irmã. Mal absorta com o que via na televisão e entretida no próprio devanear, tomou um susto danado quando Joelma soltou um grito agudo de terror e foi acometida de um tremor insuportável que a fez se agitar no sofá com incomum veemência. Mais do que assustar-se com as horrendas imagens (em todos os sentidos) exibidas pela telinha, Joana deixou-se impressionar pelo desmedido pavor da irmã. Por um instante não tão breve quanto ambas desejariam, ela permaneceu paralisada, incapaz de insinuar o mínimo movimento, em um aparente estado de choque, os olhos vítreos, mirados num ponto qualquer do teto descascado, quase como se a alma repentinamente houvesse abandonado o corpo à própria sorte.
Quando finalmente se recompôs e pediu, aos berros, para que a tevê fosse desligada, Joana sequer prestou atenção em seus rogos como tampouco se preocupou em se certificar se ela estava passando bem. Quedou-se em um silêncio conspiratório, com a inconsciência de quem escapou por um momento da realidade e vagou pelos ermos desconhecidos de suas fantasias particulares. Nada disso passou inteiramente despercebido de Joelma, que pretendeu dispensar pouca importância a essa reação. O que escapou à sua atenção conturbada foi a expressão de faceira satisfação que se desenhou no rosto da irmã, sublinhada por um sorriso malicioso tão enigmático e fugidio quanto o da Gioconda.
Aqui é necessário que façamos um rápido flashback para resgatar fatos que ocorreram muito tempo antes, quando elas ainda nem haviam disputado o primeiro absorvente. O incidente ocorreu em outro sábado modorrento, quando a dupla se entretinha folheando um livro com figuras de toda espécie de bichos, de pássaros e mamíferos a insetos e aracnídeos. Embora elas já tivessem visto e revisto aquelas páginas incontáveis vezes, Joelma deixou-se surpreender por uma brincadeira de mau gosto de Joana, que quis pregar uma peça ao abrir o volume em uma imagem de página inteira de uma tarântula com dorso e patas peludas e o corpo escuro enfaixado de estrias coloridas. Pode-se imaginar o impacto daquela súbita e repugnante visão no estado de profunda catatonia que acometeu Joelma por quase uma hora. Foi necessário que a avó, que cuidava das meninas, corresse a lavar o seu rosto com um pano úmido e desse nervosos tapinhas nos pulsos para que ela se recobrasse. Quando isso aconteceu, não foi sem um choro desesperado entremeado de soluços histéricos que somente amainaram quando o cansaço venceu o frenesi. Dali em diante, a garota desenvolveu um pânico agudo por criaturas peludas de oito patas, uma reação desmedida e desproporcional que se recusava a ceder mesmo quando o que estava diante de seus olhos não passava de mero simulacro, como um desenho ou um filme. Nesses momentos, o medo se sobrepunha à razão e Joelma se via dominada por instintos primais de autodefesa que fugiam ao controle de sua mente. Nada, é claro, que uma boa terapia não resolvesse, mas isso estava além da compreensão delas na época. Como nenhuma atitude foi tomada, com o passar dos anos a coisa se tornou recorrente até atingir as raias de uma crônica fobia.
No instante mesmo em que a irmã se viu novamente presa dos impulsos de repulsa ante a visão das ridículas aranhas mecânicas exibidas na televisão, Joana percebeu, um tanto surpresa, que tinha em mãos um poderoso trunfo. Só não sabia ainda como usá-lo a seu favor, mas iria pensar em algo.
Logo no dia seguinte, uma ideia, nebulosa a princípio, mas que rapidamente ganhou corpo e forma, principiou a fermentar em seu cérebro. “Como sou idiota! Por que não pensei nisso antes?”, foi a reação imediata, pensada, jamais dita. Cristalina como a água, a solução de seus problemas encontrava-se imediatamente à mão. Talvez nem sequer precisasse empregar algum método agressivo para se ver livre da irmã. Bastava a engenhosidade de um estrategista militar e uma grande reserva de paciência (além de uma dose razoável de perversidade). Nada de facas, travesseiros ou coisa parecida. A única arma que necessitava era a insidiosa capacidade de sugestão. As palavras, e apenas elas, seriam o seu passaporte para a libertação. A sua adaga afiada, a sua AK-47, o seu punhal pontiagudo.
Havia, de fato, uma maneira sutil, conquanto mais demorada, para que Joana suprimisse Joelma de sua vida. Bastava incutir em sua mente, a conta-gotas, um pouco de cada vez e em doses diárias quase imperceptíveis, uma paranóia impossível de ser suplantada de que aranhas, de todas as espécies e cores possíveis, peludas, pequenas, grandes, negras ou amarronzadas, gordas ou magras, rondavam constantemente pelos cantos, pelos obscuros recessos da casa, no fundo das gavetas ou por trás dos móveis. Sozinhas ou em bandos. Não importava que elas não pudessem ser vistas, bastava a sugestão de que infestavam cada sombra e cada recanto. O medo se encarregaria de concluir o serviço. Um dia, finalmente, a irmã haveria de sucumbir, e quando esse momento chegasse a sua mente se transformaria numa tela translúcida e refratária a todas as impressões, incapaz de falar, de se manifestar, de mexer os olhos. Transformada em uma estátua de sal ambulante, emudecida e catatônica, Joelma não mais projetaria sobre a outra a sua incômoda presença. Seria, por assim dizer, mera silhueta desprovida de vida a acompanhar Joana para onde quer que a sua vontade exigisse. Claro, isso levaria um tempo impossível de ser calculado para acontecer, e que tanto poderia se traduzir em meses, em anos ou em décadas. Mas o que era o tempo para alguém que até então só podia sonhar com a morte para consumar o desejo de independência que lhe fervia na alma? Cedo ou tarde passaram a ser termos relativos para Joana, quase sinônimos.
Praticamente no mesmo instante em que esse estratagema brotou, pronto e acabado, em seu espírito, como Minerva saltou da cabeça de Júpiter, já armada de elmo e escudo, ela passou do pensamento à ação. Para que o plano funcionasse, porém, era preciso preparar o terreno com a dedicação de um lavrador. Ará-lo, antes de lançar as sementes. Assim, logo pela manhã seguinte, quando haviam acabado de tomar banho e reviravam o guarda-roupa, Joana falou, procurando parecer casual e despreocupada:
- Acho que vi alguma coisa se mexendo atrás daquelas roupas, você não viu?
- Não, eu não vi nada – respondeu Joelma.
- Tenho certeza que tinha algo andando por aí. Bem, vai ver, foi só impressão minha. Deixa pra lá – disse a outra, e tratou de mudar de assunto. Pouco depois, parou subitamente o que dizia – Espere um pouco... Tem, sim, alguma coisa nesse armário. Eu posso jurar que vi.
- Viu o que?
- Sei lá, um bicho, acho. Escuro, que nem uma bola de lã preta do tamanho do meu polegar.
- Ah, vai...
- Não, falo sério. É melhor não meter a mão aí dentro, Joelma. Se for algum bicho, pode nos picar. Vai saber o que tem aí...
Joana preferiu suspender a conversa nesse ponto, pendurada nas reticências sobre o abismo da apreensão. Ela se esquivou de mencionar a palavra “aranha”, e nem precisava. Achou, e achou corretamente, que a mera insinuação de que alguma criatura asquerosa rastejava pelo fundo do móvel bastava por ora para atiçar as cismas da irmã. Deixou, assim, que a imaginação dela fermentasse sozinha com as funestas possibilidades que era capaz de engendrar.
No dia seguinte, voltou a destilar o veneno dos temores indizíveis na mente da outra. Dessa vez, tentou ser um pouco menos vaga, um tanto assim mais enfática.
- Posso estar enganada, mas aposto que tem um bicho andando por uma das gavetas da cozinha. Eu vi só de relance, mas parecia ser peludo, com patas também peludas. Credo, só de pensar já me dá arrepios!
A reação de Joelma foi imediata. Começou a ficar histérica, a falar nervosa e atropeladamente, a se desdizer e a bradar para que a irmã fizesse alguma coisa. Que chamassem o vizinho, pagassem uma dedetização ou comprassem veneno. Com um mal disfarçado sorriso de satisfação insinuando-se no rosto, Joana pensou quanto faltaria para ela gritar pelos bombeiros, pelo exército e pela aeronáutica a fim de acudi-las. O ardil estava funcionando melhor do que o previsto, refletiu, agora era aguentar o tranco dos surtos de inquietação que viriam e seguir ministrando as doses homeopáticas de perversidade até que obtivesse o efeito final e definitivo.
Um mês depois, foi a própria Joelma quem começou a avistar miragens. Joana sequer precisou plantar em seu espírito qualquer ideia insidiosa numa manhã em que as duas preparavam um cozido de lagarto para o almoço.
- Aaaaiii! – disparou a berrar a irmã mal abriu a tampa do forno – Tem uma aranha enorme aqui dentro! Mata isso, peloamordeDeus, mata, anda, estraçalha a desgraçada! – repetia com a voz esganiçada, sufocada, entremeando às lamúrias chorosas os gritos de “ordinária” e “maldita”, que é como costumeiramente reagia nessas situações, e que não se sabia muito bem se fazia referência a Joana ou à criatura que povoava a sua imaginação hipertrofiada.
Realmente, havia alguma coisa dentro do forno, mas não um aracnídeo.
- Calma, não é nada. Não está vendo que é só um chumaço velho de palhinha de aço? Deve ter ficado depois da última limpeza...
- Joga essa porcaria fora! Joga agora!
O descontrole nervoso de Joelma começava a extrapolar as raias do aceitável, e quanto mais a irmã forçava a situação, mais as coisas pareciam sair do controle. Resolvida a fazer da tortura psicológica uma arte refinada, Joana esmerou-se nas soluções. Certa noite, quando ambas haviam se deitado e demoravam a pegar no sono, ela fingiu ouvir ruídos estranhos debaixo da cama, e foi veemente o bastante para levar a outra a escutar inexistentes sons de patas arranhando o assoalho.  
- Faz alguma coisa, Joana, eu não posso com isso...! – urrava, ao mesmo tempo em que se encolhia toda sob o lençol, tomada pelo pânico de que uma tarântula do tamanho da palma da mão e patas amarronzadas peludas e grossas subisse pelos pés da cama e penetrasse sob a camisola. A infeliz tremia e convulsionava, balbuciava palavras desconexas e vãs, e parecia prestes a sucumbir a outra crise de medo paralisante. Havia chegado ao ponto de não conseguir suportar mais a aversão que a consumia. Estava, portanto, no lugar exato, na extremidade precária e perigosa do penhasco que haveria de precipitá-la nas ondas revoltas da insanidade.
O empurrão fatídico seria dado, por uma cruel ironia dos deuses, não pela irmã nem por qualquer artimanha que ela pudesse urdir, mas pelas forças do acaso. A medonha exibição de histeria de Joelma se repetiria, em proporção bem maior, mais dramática e contundente, no lugar menos provável para que isso acontecesse: diante da audiência formada pelo punhado de frequentadores do barzinho onde as gêmeas costumavam se apresentar.
O imprevisto teve uma personagem que, em outras circunstâncias de tempo e espaço, passaria tão despercebida quanto uma partícula de poeira carregada pelo vento. Bastou o vulto escuro, fugaz, passar veloz sobre as teclas do piano e meter-se numa fresta na madeira para que Joelma engasgasse, tropeçasse nas letras da canção e torcesse o rosto num esgar de pavor, os olhos arregalados para além das órbitas. Pouco faltou para que emitisse um grito. Se estivesse no pleno controle das emoções, em vez de ter a mente encharcada pelas sugestões que a irmã havia plantado nela durante meses, teria se dado conta do absurdo de sua reação desmedida diante de uma reles, de uma inofensiva e ridícula barata. Contudo, seria exigir demais, àquela altura, que ela conseguisse manter qualquer domínio racional sobre si. Os sentidos a ludibriavam, escarneciam dela. Bastou o fantasma de um aracnídeo asqueroso perambulando pelas proximidades para deixá-la fora de prumo. O seu estado psicológico alterado tratou de completar o serviço.
Joana não previu o incidente, nem podia, e menos ainda a resposta da irmã, mas seria hipocrisia dizer que deixou de se regozijar com o que sucedeu. Apanhada de surpresa pelo intruso indesejável, a infeliz estacou, perplexa, o olhar congelado num ponto fixo do painel de ébano do piano. Sussurrou umas sílabas incompreensíveis antes de quedar-se imóvel, suando em profusão na nuca e nas têmporas. Sem saber direito o que acontecia no tablado, o público permaneceu suspenso num suspiro sobressaltado, pasmo, paralisado em sua incompreensão. Antes que alguém esboçasse a intenção de agir, a mulher perdeu os sentidos e tombou ao chão, levando a irmã consigo.
Aquilo não passaria de um lamentável episódio e teria sido creditado, como foi, a mero mal-estar, uma oscilação da pressão ou simples estafa, caso a recuperação de Joelma fosse rápida e satisfatória. Rápida foi, pois bastaram uns poucos minutos para ela despertar refeita do susto. Quanto à sua condição mental, bem, pode-se avaliá-la pela quase completa perda do mínimo contato com a realidade circundante que passou a demonstrar naquele e nos dias seguintes. Mal era capaz de formular uma frase completa e, quando o fazia, raramente conseguia emprestar a ela o mínimo sentido. Comportava-se como uma autista para quem a realidade ia pouco além de uma paisagem borrada na neblina. Era como se uma parte de seu cérebro continuasse refém do susto e impossibilitado, por tempo imprevisível, de reagir aos estímulos. Exatamente tudo o que a gêmea pretendia.
Muitas vezes, porém, a orfandade e a companheira de primeira hora do êxito. Cerca de uma semana depois desse incidente, as duas foram até o quartinho de empregada, um cômodo adjacente à cozinha, nos fundos da casa, buscar uma vassoura e um balde. A escuridão da noite, que a fraca lâmpada pendurada por um fio em nada ajudava a debelar, emprestava às tralhas amontoadas por toda a parte uma aparência ainda mais caótica e desleixada. Por duas vezes, elas tropeçaram em uma pá ou outra coisa largada no chão e por duas vezes derrubaram cestos contendo pregadores e panos sujos. A penumbra também tratava de moldar à sua maneira peculiar a realidade em torno.
“É a hora”, pensou Joana, e o ambiente soturno lhe dava razão. Tudo ali conspirava para dar o tom fatídico que o grand finale pedia. Bastava que ela pressionasse a tecla certa para que a corda da fobia estirada na alma de Joelma vibrasse na nota adequada e pronto. Estaria livre da incômoda irmã para sempre, ou assim imaginava.
- Nossa mãe do céu! – gritou, súbito, numa ação calculadamente teatral – Olha só isso! Este lugar está infestado de aranhas! São milhares! Tem um monte delas pelas paredes, pelo chão, por tudo quanto é lado! Vem, vamos sair daqui depressa!
Antes que elas movessem um único pé, contudo, a outra já havia sido dominada pela inação. A paranóia instalada em sua mente ergueu a quimera de que uma ninhada de aracnídeos as atacava, subindo pelas pernas, pelos braços, invadindo as roupas, saltando sobre os cabelos negros, arranhando a pele, mordendo a carne com as presas afiadas. Logo, se viu enredada no pânico e começou a falar histericamente e a sacudir e a agitar o corpo, numa espécie de frenesi de loucura que a deixou completamente fora de si.
Alguns instantes depois dessa patética demonstração de desvario, estacou.
Ficou tão imóvel quanto uma estátua, os olhos revirados, uma baba branca e espumosa escorrendo das comissuras dos lábios. A coitada era o retrato acabado da demência, os cabelos desgrenhados, um leve tremor chacoalhando o queixo. A mente, uma lousa apagada, quiçá para sempre. Enfim, o plano de Joana havia se consumado e ela fez aquilo que vinha esperando há muito tempo para fazer. Torceu o pescoço para o lado e soltou uma vigorosa cusparada no rosto da infeliz irmã xifópaga.
Sentia-se livre, finalmente. Livre das manhas e manias da outra. Livre de ter de dar explicações e pedir licenças por tudo o que pretendia fazer. Livre das interferências dela em suas vontades. Agora não haveria desejos que não fosse capaz de externar, e pouco importava se teria que carregar Joelma como um fardo mudo e catatônico de um lado para o outro, feito um saco de cimento. A sua alegria era tão desabrida que a contingência de conviver com uma alma-penada, inerte e alheia a tudo, pelo resto da vida era o que menos a incomodava. Podia suportar isso, tanto quanto havia suportado por mais de cinco décadas a absoluta impossibilidade de levar uma existência do jeito e do modo que sempre quis, sem a intromissão, sem a... sem a...
 Foi a sua imaginação exacerbada pela euforia ou aquela aguilhoada havia sido uma picada na mão direita?
Instintivamente, ela baixou os olhos para o braço. Uma vermelhidão aflorava na palma... Uma picada de aranha, sim, era isso, só podia ser... Obra de uma caranguejeira ou algo assim... mas que... Merda! Merda! Merda! A ardência... queimava como fogo em brasa... a dor... começava a se tornar quase insuportável... e veio acompanhada de uma tontura que a fez perder o equilíbrio... também passou a sentir náuseas... um suor frio escorria pelo pescoço... Isso não é justo! O veneno devia estar agindo rápido... precisava fazer alguma coisa... o que quer que fosse... chamar ajuda... pedir socorro... alguém, pelo amor de Deus...  mas não conseguia falar... as palavras simplesmente não saíam da garganta... até respirar era difícil... já havia perdido o controle dos movimentos... Joelma, sua imprestável... se mexe... Joelma... anda... faz alguma coisa... ou a gente vai... a gente vai...

São Paulo, 01 de outubro de 2016



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