e Leia a versão completa de "A Série que tornou as lições de história mais divertidas", o making of de "O Túnel do tempo" ~ Diário do Moretti
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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Leia a versão completa de "A Série que tornou as lições de história mais divertidas", o making of de "O Túnel do tempo"




A SÉRIE QUE TORNOU AS LIÇÕES DE HISTÓRIA
MAIS DIVERTIDAS

Por Marco Moretti

Doug Philips e Tony Newman, os dois heróis de "O Túnel do tempo" - Fonte: Wikipedia

            Este ano, os fãs de ficção científica têm boas razões para comemorar os 50 anos da série de televisão mais icônica do gênero. “Jornada nas Estrelas” (“Star Trek”, no original), revolucionou quase tudo o que se fazia em termos de FC e fantasia naqueles tempos. Ao mesmo tempo, o seriado produzido por Gene Roddenberry conseguiu agradar tanto àqueles que só procuravam entretenimento puro e simples quanto os que pretendiam elevar o nível intelectual da televisão. Embora “Star Trek” tenha se tornado realmente um marco, outro memorável seriado do gênero que chegou à telinha naquele mesmo ano de 1966, embora sem as pretensões sérias da criação de Roddenberry, continua sendo lembrado com carinho pelos aficionados de séries antigas. Na verdade, quando de sua estreia na televisão americana, em 9 de setembro (um dia depois de “Jornada”), “O Túnel do Tempo” mereceu críticas até mais favoráveis da imprensa do que as aventuras do Capitão Kirk, Spock & Cia. Isso porque, aparentemente, o seriado, produzido pelo espalhafatoso Irwin Allen, também criador de três outras séries de aventura e fantasia que marcaram época na década de 1960, “Viagem ao fundo do mar”, “Perdidos no espaço” (leia o making of desse seriado aqui em meu blog) e “Terra de Gigantes”, prometia ser uma instrutiva viagem pelas páginas da história universal e americana e teria uma função, digamos assim, “pedagógica” junto ao público, sobretudo o juvenil.
            Como logo se descobriu, porém, “instruir” era a última das preocupações do produtor quando ele concebeu o programa. Experiente executivo de Hollywood desde os anos 1940, Allen sabia muito bem que o que atraía a audiência eram histórias bem narradas, cheias de ação e emoção, e não pedantes aulas de história. Em sua cabeça, o lugar mais apropriado para adquirir conhecimento e cultura eram as salas de aula, não a telinha estreita dos aparelhos de televisão. Apesar dessa suposta aversão por temas intelectuais, em 1953 ele havia ganhado o único Oscar de sua carreira justamente por um excelente documentário científico a respeito do mundo submarino, “O Mar que nos cerca” (“The Sea around us”).
 “O Mar que nos cerca”, contudo, permaneceu como um elemento estranho em sua carreira, já que o espírito de Irwin Allen sempre esteve mais inclinado para o mundo do espetáculo e da ficção. Ex-agente literário (ele chegou a representar o humorista P.G. Wodehouse e o dramaturgo e roteirista Ben Hecht), jornalista de fofocas do mundo do cinema e radialista, ele ajudou a criar o primeiro talk-show da televisão, no final da década de 1940, cujo apresentador era ninguém menos que Groucho Marx, de quem se tornou amigo pessoal por toda a vida. Na mesma época, Allen pôs o pé na produção cinematográfica e realizou vários longas-metragens para a RKO e Warner Bros. estrelados por alguns dos maiores astros da época, como Robert Mitchum, Frank Sinatra, Jane Russell, Victor Mature e outros. Aliás, data desse período a sua queda por produções recheadas de nomes estelares, que se tornaria a sua marca registrada muito tempo depois, quando atingiria o ápice do sucesso com os filmes-catástrofe da década de 1970 “O Destino do Poseidon” e “Inferno na Torre” (quando mereceu a alcunha de “Mestre do Desastre”).
Depois de algumas produções não muito bem sucedidas, como “O Grande Circo”, uma imitação descarada de “O Maior Espetáculo da Terra”, o blockbuster sobre o mundo do circo realizado pelo lendário Cecil B. DeMille em 1952 (DeMille foi outra das grandes influências de sua carreira. Leia a biografia desse diretor aqui em meu blog), Allen levou os seus projetos para a 20th Century Fox e no novo estúdio abraçou de vez o gênero da fantasia e aventura que sempre o fascinou. Em 1960, ele realizou a primeira versão sonora de “O Mundo Perdido”, baseado no romance de Sir Arthur Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes), e que já havia sido adaptado para a telona nos anos 1920, ainda no período mudo. Com um elenco que incluía Claude Rains, Michael Rennie e Fernando Lamas, esse filme é lembrado hoje mais pelos hilários e nada convincentes dinossauros, na realidade lagartos e filhotes de crocodilos “maquiados” para parecerem sáurios pré-históricos, do que por qualquer qualidade que a produção pudesse ter. Seja como for, o êxito de bilheteria desse longa de Allen e dos dois seguintes, “Viagem ao fundo do mar”, de 1961, com Walter Pigeon no comando do submarino Seaview, e “Cinco Semanas em um balão”, de 1962, a partir do livro de Júlio Verne, o estimularam a continuar explorando o gênero, agora em uma nova mídia, a televisão.
Preocupado em acertar a mão, Irwin Allen preferiu não arriscar e escolheu uma de suas produções cinematográficas, “Viagem ao fundo do mar”, já testada junto ao público, para servir de base para a sua primeira empreitada na tevê. Foi assim que as aventuras do submarino Seaview em águas turbulentas habitadas por monstros das profundezas, alienígenas e espiões da Cortina de Ferro, desembarcaram nas telinhas em 1964, agora com Richard Basehart como o almirante Harriman Nelson e David Hedison como o capitão Lee Crane. O extraordinário sucesso da série incentivou Allen a produzir, no ano seguinte, a sua segunda e ainda mais bem-sucedida experiência televisiva, “Perdidos no Espaço”.
Animado por esses êxitos, o produtor começou a traçar planos para uma terceira série no mesmo estilo, desta vez baseada em seu longa-metragem do início da década “O Mundo Perdido”. A fim de testar a recepção do público a essa ideia, ele realizou um episódio envolvendo dinossauros na segunda temporada de “Viagem”. Contudo, “Terror na ilha dos dinossauros”, em que o almirante Nelson e o chefe Sharkey (Terry Becker) ficam presos em uma ilha habitada por criaturas pré-históricas, foi duramente criticada pelos telespectadores, principalmente pelo recurso ao material de arquivo das cenas com animais maquiados, extraídas diretamente de “O Mundo Perdido”. A reação negativa desencorajou o produtor a seguir adiante com a sua ideia e ele então saiu à procura de um projeto para chamar de seu. Na verdade, desde 1964 ele já tinha em mente a intenção de criar um programa sobre viagens no tempo, sugerida pelos executivos da rede de televisão americana ABC. Com o perdão do trocadilho, havia chegado o momento de levar adiante o projeto.
Naquele mesmo ano que assistiu à estreia de Irwin Allen na televisão, chegou às suas mãos o livro “The Time Tunnel” (“O Túnel do Tempo”), também publicado em 1964, escrito por Murray Leinster, um nome conhecido entre os autores clássicos de ficção científica (e que mais tarde escreveria também as novelizações das séries “O Túnel do Tempo” e “Terra de Gigantes”). O romance, bem menos espetacular do que a versão televisiva que conhecemos, tratava de um túnel espaço-temporal (uma fenda natural no tecido da realidade, aquilo que os físicos hoje chamam de “buraco de minhoca” e que conecta diferentes partes do tempo e do espaço) descoberto em um beco na cidade de Paris e que passa a ser empregado por comerciantes de arte para viajar para o passado até a Era Napoleônica a fim de roubarem relíquias históricas. Por mais frágil que essa trama pudesse parecer, Allen viu nela um imenso potencial e encomendou o roteiro para o piloto de um seriado para o seu colaborador habitual Shimon Wincelberg. Do livro, o produtor aproveitou mesmo apenas o título e o conceito central, e mesmo assim transformou o mirrado túnel num beco no maior projeto secreto da humanidade, grandioso e ultramoderno, como era o seu estilo.
Wincelberg, que também havia escrito o roteiro para o piloto de “Perdidos no Espaço” (que ele assinou sob o seu pseudônimo S. Bar-David depois que Allen reescreveu o material contra a sua vontade), entregou, após algumas semanas de trabalho, um primeiro tratamento (roteiro preliminar) intitulado “The Man Who killed time” (“O Homem que matou o tempo”), um pouco diferente da história que acabou sendo filmada. Nessa versão, o cientista Peter Phillips, um jovem prodígio formado em química e física na Universidade de Chicago, usa a si mesmo como cobaia para provar a eficácia de um projeto ultrassecreto do governo americano destinado a transportar pessoas para outros períodos cronológicos, o túnel do tempo. Ele vai parar nas águas geladas do Atlântico Norte e é resgatado pela tripulação do Titanic em sua primeira e única viagem fatídica, em 1912. No navio, o Dr. Phillips encontra a avó e o pai a bordo e faz o possível para salvar a vida deles (o roteiro sugeria que o cientista empreendeu a viagem no tempo justamente para avisá-los do desastre, em vez de parar no transatlântico por mero acaso).
A história, porém, não terminava com o famoso naufrágio. Nesse roteiro preliminar, o colega do Dr. Phillips, o Dr. Anthony Newman, um brilhante pesquisador de Oxford, na Inglaterra, e com conhecimentos em história, matemática e física teórica, permanece nas instalações do túnel do tempo e de lá controla as transferências temporais que levam o cientista do Titanic para a pré-história, onde ele tem de se haver com um tiranossauro rex disposto a devorá-lo, e, em seguida, a 1956, dez anos antes do período em que se passava a narrativa (mas a série foi deslocada para dois anos adiante do período em que foi produzida, no ano de 1968), quando a máquina do tempo ainda estava sendo construída (esses dois últimos segmentos foram eliminados do segundo tratamento e reaproveitados em episódios diferentes do seriado). Outra diferença importante desse primeiro tratamento com relação à série que conhecemos é que o responsável pela administração do Instituto para Pesquisas Avançadas (mais tarde rebatizado de Projeto Tic-Toc) era o Dr. Loman Kirk, um cientista civil, depois transformado no austero general Heywood Kirk (outra similaridade involuntária com “Jornada”).
Allen entregou a Wincelberg uma “bíblia” com todos os detalhes sobre o seriado. Nela era explicado que 12 mil pessoas trabalhavam nas instalações do túnel do tempo, um complexo subterrâneo com mais de 800 níveis, alimentado por um núcleo atômico. O projeto todo havia custado a bagatela de 7,5 bilhões de dólares (cerca de 60 bilhões em valores atuais). Quando questionado a respeito da impossibilidade prática desse conceito, o produtor dava a sua resposta costumeira: “Não venha com lógica pra cima de mim”. Allen também fez questão que o piloto girasse em torno do Titanic porque pretendia usar material de arquivo de cenas feitas para “Náufragos do Titanic” (“Titanic”), um longa-metragem produzido em 1953 pela Fox sobre a tragédia, para reduzir os custos de filmagem (embora tivessem sido feitas originalmente em preto e branco, essas tomadas foram “tingidas” pela produção para se adequar ao filme colorido do piloto). O produtor pretendia, portanto, lançar mão novamente do mesmo macete que empregou no episódio dos dinossauros de “Viagem ao fundo do mar”. A sua única preocupação era evitar qualquer menção disso no roteiro para que a rede de tevê não soubesse o que ele pretendia fazer e levantasse objeções.  
O roteiro, da forma como foi escrito, agradou a Irwin Allen e a 20th Century Fox, mas foi rejeitado pela ABC. A emissora queria algo mais dramático, que pudesse capturar a imaginação da audiência. Para o desgosto de Wincelberg, a Fox encarregou então outro roteirista, Harold Jack Bloom (que posteriormente trabalharia no roteiro de “Só se vive duas vezes”, o quinto longa-metragem de James Bond), para reescrever o primeiro tratamento. Reintitulado “Rendezvous with Yesterday” (“Volta ao passado”), assinado por Allen, Wincelberg e Bloom, a segunda versão mudou o nome do cientista de Peter para Douglas (“Doug”) Phillips e o jovem Dr. Tony Newman deixa a base de controle do túnel para se tornar o seu parceiro nas futuras viagens pelo tempo e espaço. É Tony, não Doug, quem testa pela primeira vez o túnel e vai parar a bordo do Titanic, para onde o amigo segue a fim de resgatá-lo. Bem ao gosto de Irwin Allen, os dramas pessoais foram deixados de lado em detrimento das sequências de suspense e ação, quando, por exemplo, o luxuoso transatlântico colide com o iceberg e começa a naufragar.
Para dar mais prestígio ao piloto, Michael Rennie, o eterno alienígena Klaatu do clássico “O Dia em que a Terra parou” (1951), contratado da Fox e também integrante esporádico da “companhia de repertório” de Allen (além de “O Mundo Perdido”, ele também apareceu em um dos melhores episódios de “Perdidos no Espaço”, “O Colecionador”, da primeira temporada), para interpretar o capitão Malcolm Smith, comandante do Titanic (conquanto o nome do capitão real fosse Edward). Além de Rennie, o episódio contou com a participação de Gary Merrill, um dos mais importantes coadjuvantes de Hollywood no passado, no papel do senador Leroy Clark (no roteiro original de Wincelberg, esse personagem estava previsto para se tornar integrante fixo do elenco estacionado na sala de comando do túnel). Como era habitual, o próprio Irwin Allen dirigiu “Volta ao passado”, quase todo realizado em estúdio, com exceção da cena de abertura, feita no deserto do Arizona. Contudo, nem tudo foram flores durante a realização desse piloto. O diretor ficou tão irritado com os atores que chegou a dizer em determinado momento que um dia criaria uma série sem nenhum ator. Como se verá, a tensão no set de filmagens seria uma constante durante toda a produção do seriado.
Entre as qualidades do produtor e diretor, algumas se sobressaíam nesse episódio inaugural. O senso de espetáculo visual, que só encontrava rival entre os grandes mestres do cinemão, como DeMille e George Pal, é uma delas. Assim como outro cineasta das antigas, Alfred Hitchcock, Allen tinha o costume de planejar minuciosamente cada episódio que realizava, por intermédio de detalhados storyboards. Daí o esmero com que cuidava do visual de suas produções, sobretudo o projeto e construção dos cenários. Não à toa, ele se cercou de uma equipe sempre fiel de técnicos, com quem trabalhou durante anos, e que incluíam o diretor de fotografia Winton C. Hoch, o diretor de arte William J. Creber, o diretor de efeitos especiais L.B. Abbott, o editor de roteiros William Welch e o figurinista Paul Zastupnevich.
Para os papeis dos dois protagonistas da série, o Dr. Doug Phillips e o Dr. Tony Newman, foram escolhidos, respectivamente, Robert Colbert e James Darren. Os dois jovens atores tinham relativamente pouca experiência dramática, a ponto de um casal de roteiristas regulares da série, Robert e Wanda Duncan, se queixarem certa vez de que eles não sabiam interpretar. Dos dois, Darren é quem tinha um pouco mais de notoriedade na época. O seu nome real é James Ercolani e ele fez carreira como cantor juvenil antes de se tornar um “ídolo adolescente” nos “filmes de surfe” em voga no final dos anos 1950 e começo da década seguinte, comédias musicais leves e românticas estreladas por Sandra Dee, como “Maldosamente Ingênua” (1959). A única participação memorável dele foi no clássico “Os Canhões de Navarone”, de 1961, em que teve a única oportunidade na vida de contracenar com pesos-pesados das telas como Gregory Peck, David Niven, Anthony Quinn e Irene Papas.
O currículo de Colbert era ainda mais inexpressivo que o de Darren e contava com aparições esporádicas em filmes B de terror do folclórico diretor William Castle e dramas de guerra nada memoráveis. Quando estava sob contrato com a Warner Bros., atuou ocasionalmente em alguns programas de tevê, como o sitcom “Meu Marciano favorito” (1963) e o clássico “Bonanza”, e chegou a interpretar um dos irmãos do protagonista (ao lado de Roger Moore) da série de faroeste “Maverick”, acima de tudo por sua semelhança com o astro, James Garner.
            De todos os integrantes do elenco regular, sem dúvida alguma a mais célebre foi Lee Meriwether, a Dra. Ann McGregor. Dona de uma beleza e sensualidade notáveis, que lhe garantiram o título de Miss America de 1955, ela hoje é mais lembrada por ter interpretado a vilã icônica dos quadrinhos, a Mulher-Gato, no longa-metragem do Batman, extraído do seriado televisivo homônimo estrelado por Adam West e Burt Ward e produzido no mesmo ano de “Túnel”, em 1966. Apesar dos belos atributos físicos, a atriz jamais teve a possibilidade de exibi-los em seu papel de Dra. McGregor. Por mais que ela se queixasse, jamais pode usar os cabelos penteados de um jeito que não fossem presos atrás, e em nenhum dos episódios deixou de cobrir o corpo escultural com o onipresente jaleco branco. Além disso, quase nunca os seus diálogos iam além de falas técnicas como “estou perdendo os registros deles”.
            Whit Bissell já era um ator em atividade desde os anos 1940, e um rosto bastante conhecido tanto do cinema quanto da tevê, quando foi convidado a encarnar o General Heywood Kirk. Os seus créditos incluem participações muitas vezes pequenas, mas inesquecíveis, em dezenas de longas-metragens. Entre os papeis mais memoráveis, destacam-se os de um cientista no clássico de terror “O Monstro da Lagoa Negra” (1954) e o de um médico em outro clássico de ficção científica da época da Guerra Fria, “Vampiros de almas” (1956).
            Outro veterano do cinema e da televisão era John Zaremba, o Dr. Raymond Swain, companheiro da Dra. MacGregor na estação de controle do Túnel do Tempo. Ele era um rosto conhecido pelas constantes aparições em filmes e séries policiais, de terror e ficção científica, que incluíam “Alfred Hitchcock Presents” (1957) e “Os Intocáveis” (1961), além de participações especiais em “Viagem ao fundo do mar”, do próprio Irwin Allen. Além desses membros fixos, o elenco contava com dois coadjuvantes semirregulares, Wesley Lau como o Sargento Jiggs, chefe da segurança do complexo do Projeto Tic-Toc, e Sam Groom no papel de um técnico chamado Jerry.
            Embora os cinco atores principais estivessem presentes em todos os 30 episódios da série, Robert Colbert e James Darren muito raramente contracenaram com os demais. Isso porque as sequências em outros lugares e épocas, nas quais as aventuras deles tinham lugar, eram realizadas em cenários diferentes e até em locações externas, enquanto Bissell, Zaremba e Meriwether ficaram quase sempre confinados ao estúdio da Fox que abrigava o túnel. Na maior parte das vezes, eles eram obrigados a interagir com o cenário vazio à frente, já que as cenas que se passavam em outros períodos de tempo e espaço eram sobrepostas mais tarde, na pós-produção. Apenas em duas ocasiões Lee Meriwether teve a oportunidade de deixar o seu posto. Numa delas, no episódio “Pirates of Dead Man’s Island” (“Os piratas da ilha do morto”), quando um pirata vindo do passado (Victor Jory) faz a Dra. MacGregor de refém e foge com ela pelas instalações do túnel. A propósito dessa sequência, o rosto de agonia da atriz não era encenação. Victor Jory levou tão a sério a interpretação que, ao agarrá-la com força, machucou-a de verdade. Noutro episódio, ”The Kidnappers” (“Os raptores”), a personagem de Meriwether é seqüestrada por seres alienígenas e levada para outro sistema planetário.
Apesar do recurso às cenas saqueadas de filmes antigos, o episódio-piloto foi o mais caro produzido até aquela época, cerca de 500 mil dólares. Isso porque a maior parte dessa quantia foi gasta no desenvolvimento e na construção dos imensos cenários que abrigavam o principal astro da série, o próprio túnel do tempo. Concebido pelo diretor de arte Jack Martin Smith e sua equipe, o túnel em si ocupava dois galpões inteiros dos estúdios da 20th Century Fox (mas ele não era tão extenso quanto parecia. A ilusão de profundidade era criada com o emprego de “perspectiva forçada”, no qual os anéis ao fundo eram gradualmente menores do que os do primeiro plano). Se o computador central da sala de controle parecia suficientemente verdadeiro, era porque usava partes remontadas de um computador real, adquirido da Força Aérea americana. Para as tomadas de plano geral, o túnel era composto com um cenário pintado, na técnica conhecida como “pintura no vidro” ou “matte painting” em inglês. O complexo subterrâneo onde a máquina estava instalada, em que o núcleo atômico aparecia em algumas cenas, não passava de uma miniatura com aproximadamente nove metros de altura.
Os efeitos especiais, sob os cuidados do oscarizado L. B. Abbott (de “O Destino do Poseidon”, entre outros), também diretor do departamento de efeitos da Fox, combinavam eficiência com orçamento reduzido e o mínimo dispêndio de tempo. O mais memorável deles era sem dúvida o vórtice temporal no qual Tony e Doug rodopiavam através das épocas. Para realizá-lo, os atores foram mantidos suspensos com cabos presos a arneses enquanto giravam a vários metros do solo. O vórtice em si era produzido com o uso de lentes grande-angulares, que distorcem as imagens, e glitteres brilhantes. Depois, a filmagem dos atores rodopiando em câmera lenta e o vórtice eram combinados opticamente. O resultado foi tão notável (para os padrões dos anos 1960) que o seriado ganhou o prêmio Emmy na categoria de Efeitos Fotográficos Especiais em 1967. Essas sequências eram sempre reprisadas nas aberturas e encerramentos dos episódios (nas aberturas, a propósito, havia uma narração que era feita, no original, por Dick Tufeld, o mesmo locutor que emprestava a voz para o Robô de “Perdidos”).
O hoje renomado músico John Williams, que na ocasião dava os primeiros passos na carreira, já havia composto a trilha para “Perdidos no espaço” e foi chamado novamente por Allen para criar a música de “O Túnel do tempo”. Ele compôs o tema de abertura da série, em que os acordes simulam o bater dos ponteiros de um relógio, quase tão memorável e eficiente quanto os de “Perdidos” e das duas temporadas de “Terra de Gigantes”, que realizaria depois. Williams também trabalhou na música do episódio-piloto, “Volta do passado”, e teria continuado a colaborar com o seriado se não tivesse se comprometido com outras produções naquele ano. No restante da temporada, ele foi substituído pelos compositores Lyn Murray (de “Ladrão de Casaca”, de Alfred Hitchcock) e George Duning (de “A Um passo da eternidade”), entre outros.
Apesar da razoável qualidade do episódio-piloto, ela não se manteve durante a realização do seriado. Sob vários aspectos, “O Túnel do tempo” sofreria com a proverbial muquiranagem do produtor. Homem prático, Irwin Allen procurava cortar ao máximo os custos e não se preocupava se isso afetasse o acabamento dos episódios. Na maioria das vezes, o tempo médio de filmagem era reduzido de cinco para três dias, mas nem isso foi suficiente para amenizar os atrasos constantes. Essa contingência provocou imensa pressão sobre os atores e, como consequência, o clima nos sets se tornou nervoso, dominado por frequentes discussões. “Não era um bom lugar para se levar as crianças”, comentou certa vez uma roteirista.
Muitas das histórias eram escritas tendo em vista a economia de recursos. Um exemplo foi o episódio “A Arma Secreta”, na qual Doug e Tony regressavam dez anos no tempo e se encontravam num segundo túnel do tempo exatamente igual ao deles, num país do outro lado da Cortina de Ferro (o bloco comunista comandando pela antiga União Soviética). O objetivo, naturalmente, era empregar o mesmo cenário conhecido do túnel, sem a necessidade de construir um diferente. Outro roteiro, que girava em torno do enigma do navio Marie Celeste, encontrado à deriva no oceano e completamente vazio em 1872, previa a aparição de uma lula gigante, mas no final teve de ser engavetado para que a produção não tivesse de gastar 30 mil dólares com a criação de um tentáculo de grandes dimensões.
            Mas onde a escassez de dinheiro afetou diretamente a produção foi no emprego constante de cenas retiradas de filmes antigos, como as que mostravam o foguete de “Destino à Lua”, um clássico da fc dos anos 1950 produzido por George Pal, no segundo episódio da série, “Viagem à Lua”; soldados medievais armados de arcos e flechas de “Príncipe Valente” (1954) em “Robin Hood”; os guerreiros gregos de “Os 300 de Esparta” ( a versão de 1962) em “Presente de grego”, em que os dois heróis vão parar em plena Guerra de Tróia; os navios piratas saídos de “O Cisne Negro”, estrelado por Tyrone Power de 1942, em “Os piratas da ilha do morto”, e assim por diante. O uso extensivo desse recurso era até compreensível, dadas as limitações técnicas e orçamentárias das séries de televisão nos anos 1960. O maior problema com essa prática é que as histórias passaram a ser confeccionadas tendo esse tipo de material em mente e, naturalmente, os arquivos do estúdio eram limitados. Chegou um momento em que a fonte secou e os roteiristas não tinham mais de onde tirar as imagens. Eles foram instruídos a escrever aventuras que se passavam no presente ou no futuro imediato e que envolvessem seres alienígenas bizarros. Com isso, a meticulosa pesquisa histórica que os roteiristas realizavam para escrever cada episódio e que ajudava a tornar o seriado um pouco mais interessante evaporou por completo. Foi quando a qualidade despencou de vez. Para complicar as coisas, “O Túnel” sofria a forte concorrência de dois outros programas muito populares na ocasião, “James West”, na rede de televisão CBS, e “O Agente da U.N.C.L.E.”, na NBC, que eram exibidos no mesmo horário nas noites de sexta-feira.
Outro fator que certamente contribuiu para a deterioração da série foi o inegável pendor de Irwin Allen para imprimir vigor às histórias que contava em detrimento dos personagens. A ação desenfreada jamais era interrompida para dar lugar ao adensamento psicológico ou discussões filosóficas eventuais, o que acabou se mostrando o principal calcanhar de Aquiles não só de “Túnel” como de todas as produções televisivas dele. Quase nunca nos é dado conhecer a vida pregressa dos personagens e as suas motivações. A única e honrosa exceção acontece no episódio “O Dia em que o céu desabou”, não por acaso considerado pelos fãs o melhor de todo o seriado. Nessa história, Doug e Tony são transportados para Honolulu às vésperas do ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941. Lá, Tony revê os pais vivos, encontra consigo mesmo ainda criança e presencia o momento da morte do pai, sob os escombros provocados pelo ataque (algumas tomadas reais do bombardeio foram usadas e nunca antes tinham sido mostradas na televisão). Esse episódio nos deu um vislumbre do que “O Túnel do tempo” poderia ter sido, não fosse a relutância do produtor em jamais sair das fórmulas pré-estabelecidas na época. Outra crítica que se fez ao seriado é que apenas muito ocasionalmente ele nos dava a oportunidade de revisitarmos os fatos históricos, apresentando versões diferentes daquilo que os livros costumam ensinar. Uma das poucas exceções ocorreu no episódio “Armadilha Fatal”, em que os dois viajantes do tempo regressam ao século XIX e deparam com um complô para assassinar o então presidente americano Abraham Lincoln. A ausência de caracterizações aprofundadas, de tramas inteligentes e menos infantilizadas, da própria lógica interna das histórias, enfim, impediu que a série alcançasse o mesmo nível de qualidade de “Contratempos” (“Quantum Leap”), um seriado muito parecido com o “Túnel” tanto no formato quanto nos temas, levado ao ar mais de vinte anos depois.
Mesmo com todas essas deficiências, depois de 30 episódios, “O Túnel do tempo” teve o sinal verde para prosseguir no ano seguinte e a produção começou a fazer planos para uma segunda temporada. Por azar, o presidente da ABC na ocasião, Tom Moore, foi substituído dias depois e a nova direção da emissora resolveu cancelar a série devido aos seus altos custos. Embora nunca tenha sido feito um episódio final, que pusesse um ponto final nas aventuras de Tony e Doug, Lee Meriwether assegurou em uma entrevista que o retorno dos dois viajantes do tempo ao presente chegou a ser filmado, mas jamais foi usado.
Irwin Allen nunca escondeu a sua predileção por esse seriado sobre os demais e tentou emplacar novamente um programa de tevê sobre o mesmo tema. Dois anos depois do cancelamento, ele produziu um episódio-piloto que não chegou a despertar interesse, intitulado “O Homem do século 25” (na verdade, estava previsto para ser parte de um episódio de “Perdidos no espaço”). Como diz o título, a premissa da nova série girava em torno de Tomo, estrelado pelo mesmo James Darren de “O Túnel”, um terráqueo criado por alienígenas que era enviado do futuro para a Terra do presente com o intuito de atuar como uma espécie de espião extraterrestre.  
Em 1976, Allen produziu um especial para a televisão intitulado “Degraus para o passado” (“Time Travelers”), com base numa história não publicada de “Rod Serling (o criador de “Além da Imaginação”), muito similar ao formato de “O Túnel do tempo” (embora sem nem um décimo de sua grandiosidade visual). Nesse telefilme, realizado com um orçamento irrisório (usando os cenários que ainda restavam do musical “Hello, Dolly”, de 1969, e, para não perder o hábito, cenas tiradas de um filme antigo, “Na Velha Chicago”, dos anos 1930) e estrelado por Richard Basehart, o Almirante Nelson de “Viagem ao fundo do mar”, uma dupla de cientistas regressava para a cidade de Chicago em 1871 em busca de uma fórmula para a cura de uma epidemia que estava acontecendo na época da exibição do filme.
Na década de 1980, a Fox fundiu o piloto de “O Túnel do tempo” com outros dez episódios para exibi-los na televisão em cinco longas-metragens. Também nessa época o produtor brincou com o conceito de outro seriado temporal, “The Time Project”, que jamais passou da fase de planejamento. Foi somente 15 anos depois da morte de Irwin Allen, em novembro de 1991, aos 75 anos, que “O Túnel” ganhou uma nova chance, agora ajustado para uma geração inteiramente nova e mais exigente, que jamais havia assistido ao seriado original.
Com uma vistosa produção de Sheila Allen, a viúva do produtor, associada à 20th Century Fox Television, à Fox Television Studios e à Regency Television, um telefilme de 54 minutos admiravelmente bem roteirizado, interpretado e produzido foi realizado para ser o piloto de uma série reformulada, que tomava a antiga apenas como ponto de partida. Estrelada por David Conrad como Doug e Andrea Roth como Toni (e não Tony), agora uma versão de saias do personagem, “The Time Tunnel” versão 2006 tinha uma proposta muito mais séria e inteligente do que o original. O conceito, vagamente inspirado no conto clássico de ficção científica “Um som de trovão”, do escritor Ray Bradbury, girava em torno de um centro de pesquisa em fusão nuclear destinado a produzir energia praticamente ilimitada, mas que dá muito errado. Ao ser acionado, o aparelho provocava uma espécie de “tormenta temporal” que passava a bagunçar a história, alterando os fatos do passado como os conhecemos. Assim, por exemplo, nessa nova linha do tempo, não foram os americanos que pisaram na Lua em 1969, mas os soviéticos, os Estados Unidos possuíam 49 e não 50 Estados e assim por diante. Um grupo de cientistas liderado por Doug e Toni é então enviado ao passado para tentar consertar o estrago e se envolve em uma trama complicada durante a batalha na Floresta de Hurtgen, na Alemanha, em 1944, em plena Segunda Guerra Mundial, para onde um monge do século XVI carregando o vírus da peste bubônica havia sido equivocadamente teletransportado. Apesar de promissor, o piloto não conseguiu convencer os produtores a bancar uma nova série e o projeto foi engavetado (embora possa ser assistido no Youtube). Três anos depois, o Sci-Fi Channel, novamente sob os auspícios de Sheila Allen, tentou emplacar uma segunda produção, que nunca passou da fase de pré-produção.
Apesar de seus percalços, a repetição das tramas e as limitações técnicas e financeiras a que estava submetido, “O Túnel do tempo” permanece até hoje como símbolo de uma época, os anos 1960, em que tudo parecia possível e ilimitado. O fato de o nome da série ter praticamente entrado para o léxico universal, inclusive do Brasil, é uma prova inegável de que a criação de Irwin Allen superou a mais difícil das barreiras, a do tempo, claro.

São Paulo, 05 de outubro de 2016
           

           

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