e Outubro 2016 ~ Diário do Moretti
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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Leia a versão completa de "A Série que tornou as lições de história mais divertidas", o making of de "O Túnel do tempo"




A SÉRIE QUE TORNOU AS LIÇÕES DE HISTÓRIA
MAIS DIVERTIDAS

Por Marco Moretti

Doug Philips e Tony Newman, os dois heróis de "O Túnel do tempo" - Fonte: Wikipedia

            Este ano, os fãs de ficção científica têm boas razões para comemorar os 50 anos da série de televisão mais icônica do gênero. “Jornada nas Estrelas” (“Star Trek”, no original), revolucionou quase tudo o que se fazia em termos de FC e fantasia naqueles tempos. Ao mesmo tempo, o seriado produzido por Gene Roddenberry conseguiu agradar tanto àqueles que só procuravam entretenimento puro e simples quanto os que pretendiam elevar o nível intelectual da televisão. Embora “Star Trek” tenha se tornado realmente um marco, outro memorável seriado do gênero que chegou à telinha naquele mesmo ano de 1966, embora sem as pretensões sérias da criação de Roddenberry, continua sendo lembrado com carinho pelos aficionados de séries antigas. Na verdade, quando de sua estreia na televisão americana, em 9 de setembro (um dia depois de “Jornada”), “O Túnel do Tempo” mereceu críticas até mais favoráveis da imprensa do que as aventuras do Capitão Kirk, Spock & Cia. Isso porque, aparentemente, o seriado, produzido pelo espalhafatoso Irwin Allen, também criador de três outras séries de aventura e fantasia que marcaram época na década de 1960, “Viagem ao fundo do mar”, “Perdidos no espaço” (leia o making of desse seriado aqui em meu blog) e “Terra de Gigantes”, prometia ser uma instrutiva viagem pelas páginas da história universal e americana e teria uma função, digamos assim, “pedagógica” junto ao público, sobretudo o juvenil.
            Como logo se descobriu, porém, “instruir” era a última das preocupações do produtor quando ele concebeu o programa. Experiente executivo de Hollywood desde os anos 1940, Allen sabia muito bem que o que atraía a audiência eram histórias bem narradas, cheias de ação e emoção, e não pedantes aulas de história. Em sua cabeça, o lugar mais apropriado para adquirir conhecimento e cultura eram as salas de aula, não a telinha estreita dos aparelhos de televisão. Apesar dessa suposta aversão por temas intelectuais, em 1953 ele havia ganhado o único Oscar de sua carreira justamente por um excelente documentário científico a respeito do mundo submarino, “O Mar que nos cerca” (“The Sea around us”).
 “O Mar que nos cerca”, contudo, permaneceu como um elemento estranho em sua carreira, já que o espírito de Irwin Allen sempre esteve mais inclinado para o mundo do espetáculo e da ficção. Ex-agente literário (ele chegou a representar o humorista P.G. Wodehouse e o dramaturgo e roteirista Ben Hecht), jornalista de fofocas do mundo do cinema e radialista, ele ajudou a criar o primeiro talk-show da televisão, no final da década de 1940, cujo apresentador era ninguém menos que Groucho Marx, de quem se tornou amigo pessoal por toda a vida. Na mesma época, Allen pôs o pé na produção cinematográfica e realizou vários longas-metragens para a RKO e Warner Bros. estrelados por alguns dos maiores astros da época, como Robert Mitchum, Frank Sinatra, Jane Russell, Victor Mature e outros. Aliás, data desse período a sua queda por produções recheadas de nomes estelares, que se tornaria a sua marca registrada muito tempo depois, quando atingiria o ápice do sucesso com os filmes-catástrofe da década de 1970 “O Destino do Poseidon” e “Inferno na Torre” (quando mereceu a alcunha de “Mestre do Desastre”).
Depois de algumas produções não muito bem sucedidas, como “O Grande Circo”, uma imitação descarada de “O Maior Espetáculo da Terra”, o blockbuster sobre o mundo do circo realizado pelo lendário Cecil B. DeMille em 1952 (DeMille foi outra das grandes influências de sua carreira. Leia a biografia desse diretor aqui em meu blog), Allen levou os seus projetos para a 20th Century Fox e no novo estúdio abraçou de vez o gênero da fantasia e aventura que sempre o fascinou. Em 1960, ele realizou a primeira versão sonora de “O Mundo Perdido”, baseado no romance de Sir Arthur Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes), e que já havia sido adaptado para a telona nos anos 1920, ainda no período mudo. Com um elenco que incluía Claude Rains, Michael Rennie e Fernando Lamas, esse filme é lembrado hoje mais pelos hilários e nada convincentes dinossauros, na realidade lagartos e filhotes de crocodilos “maquiados” para parecerem sáurios pré-históricos, do que por qualquer qualidade que a produção pudesse ter. Seja como for, o êxito de bilheteria desse longa de Allen e dos dois seguintes, “Viagem ao fundo do mar”, de 1961, com Walter Pigeon no comando do submarino Seaview, e “Cinco Semanas em um balão”, de 1962, a partir do livro de Júlio Verne, o estimularam a continuar explorando o gênero, agora em uma nova mídia, a televisão.
Preocupado em acertar a mão, Irwin Allen preferiu não arriscar e escolheu uma de suas produções cinematográficas, “Viagem ao fundo do mar”, já testada junto ao público, para servir de base para a sua primeira empreitada na tevê. Foi assim que as aventuras do submarino Seaview em águas turbulentas habitadas por monstros das profundezas, alienígenas e espiões da Cortina de Ferro, desembarcaram nas telinhas em 1964, agora com Richard Basehart como o almirante Harriman Nelson e David Hedison como o capitão Lee Crane. O extraordinário sucesso da série incentivou Allen a produzir, no ano seguinte, a sua segunda e ainda mais bem-sucedida experiência televisiva, “Perdidos no Espaço”.
Animado por esses êxitos, o produtor começou a traçar planos para uma terceira série no mesmo estilo, desta vez baseada em seu longa-metragem do início da década “O Mundo Perdido”. A fim de testar a recepção do público a essa ideia, ele realizou um episódio envolvendo dinossauros na segunda temporada de “Viagem”. Contudo, “Terror na ilha dos dinossauros”, em que o almirante Nelson e o chefe Sharkey (Terry Becker) ficam presos em uma ilha habitada por criaturas pré-históricas, foi duramente criticada pelos telespectadores, principalmente pelo recurso ao material de arquivo das cenas com animais maquiados, extraídas diretamente de “O Mundo Perdido”. A reação negativa desencorajou o produtor a seguir adiante com a sua ideia e ele então saiu à procura de um projeto para chamar de seu. Na verdade, desde 1964 ele já tinha em mente a intenção de criar um programa sobre viagens no tempo, sugerida pelos executivos da rede de televisão americana ABC. Com o perdão do trocadilho, havia chegado o momento de levar adiante o projeto.
Naquele mesmo ano que assistiu à estreia de Irwin Allen na televisão, chegou às suas mãos o livro “The Time Tunnel” (“O Túnel do Tempo”), também publicado em 1964, escrito por Murray Leinster, um nome conhecido entre os autores clássicos de ficção científica (e que mais tarde escreveria também as novelizações das séries “O Túnel do Tempo” e “Terra de Gigantes”). O romance, bem menos espetacular do que a versão televisiva que conhecemos, tratava de um túnel espaço-temporal (uma fenda natural no tecido da realidade, aquilo que os físicos hoje chamam de “buraco de minhoca” e que conecta diferentes partes do tempo e do espaço) descoberto em um beco na cidade de Paris e que passa a ser empregado por comerciantes de arte para viajar para o passado até a Era Napoleônica a fim de roubarem relíquias históricas. Por mais frágil que essa trama pudesse parecer, Allen viu nela um imenso potencial e encomendou o roteiro para o piloto de um seriado para o seu colaborador habitual Shimon Wincelberg. Do livro, o produtor aproveitou mesmo apenas o título e o conceito central, e mesmo assim transformou o mirrado túnel num beco no maior projeto secreto da humanidade, grandioso e ultramoderno, como era o seu estilo.
Wincelberg, que também havia escrito o roteiro para o piloto de “Perdidos no Espaço” (que ele assinou sob o seu pseudônimo S. Bar-David depois que Allen reescreveu o material contra a sua vontade), entregou, após algumas semanas de trabalho, um primeiro tratamento (roteiro preliminar) intitulado “The Man Who killed time” (“O Homem que matou o tempo”), um pouco diferente da história que acabou sendo filmada. Nessa versão, o cientista Peter Phillips, um jovem prodígio formado em química e física na Universidade de Chicago, usa a si mesmo como cobaia para provar a eficácia de um projeto ultrassecreto do governo americano destinado a transportar pessoas para outros períodos cronológicos, o túnel do tempo. Ele vai parar nas águas geladas do Atlântico Norte e é resgatado pela tripulação do Titanic em sua primeira e única viagem fatídica, em 1912. No navio, o Dr. Phillips encontra a avó e o pai a bordo e faz o possível para salvar a vida deles (o roteiro sugeria que o cientista empreendeu a viagem no tempo justamente para avisá-los do desastre, em vez de parar no transatlântico por mero acaso).
A história, porém, não terminava com o famoso naufrágio. Nesse roteiro preliminar, o colega do Dr. Phillips, o Dr. Anthony Newman, um brilhante pesquisador de Oxford, na Inglaterra, e com conhecimentos em história, matemática e física teórica, permanece nas instalações do túnel do tempo e de lá controla as transferências temporais que levam o cientista do Titanic para a pré-história, onde ele tem de se haver com um tiranossauro rex disposto a devorá-lo, e, em seguida, a 1956, dez anos antes do período em que se passava a narrativa (mas a série foi deslocada para dois anos adiante do período em que foi produzida, no ano de 1968), quando a máquina do tempo ainda estava sendo construída (esses dois últimos segmentos foram eliminados do segundo tratamento e reaproveitados em episódios diferentes do seriado). Outra diferença importante desse primeiro tratamento com relação à série que conhecemos é que o responsável pela administração do Instituto para Pesquisas Avançadas (mais tarde rebatizado de Projeto Tic-Toc) era o Dr. Loman Kirk, um cientista civil, depois transformado no austero general Heywood Kirk (outra similaridade involuntária com “Jornada”).
Allen entregou a Wincelberg uma “bíblia” com todos os detalhes sobre o seriado. Nela era explicado que 12 mil pessoas trabalhavam nas instalações do túnel do tempo, um complexo subterrâneo com mais de 800 níveis, alimentado por um núcleo atômico. O projeto todo havia custado a bagatela de 7,5 bilhões de dólares (cerca de 60 bilhões em valores atuais). Quando questionado a respeito da impossibilidade prática desse conceito, o produtor dava a sua resposta costumeira: “Não venha com lógica pra cima de mim”. Allen também fez questão que o piloto girasse em torno do Titanic porque pretendia usar material de arquivo de cenas feitas para “Náufragos do Titanic” (“Titanic”), um longa-metragem produzido em 1953 pela Fox sobre a tragédia, para reduzir os custos de filmagem (embora tivessem sido feitas originalmente em preto e branco, essas tomadas foram “tingidas” pela produção para se adequar ao filme colorido do piloto). O produtor pretendia, portanto, lançar mão novamente do mesmo macete que empregou no episódio dos dinossauros de “Viagem ao fundo do mar”. A sua única preocupação era evitar qualquer menção disso no roteiro para que a rede de tevê não soubesse o que ele pretendia fazer e levantasse objeções.  
O roteiro, da forma como foi escrito, agradou a Irwin Allen e a 20th Century Fox, mas foi rejeitado pela ABC. A emissora queria algo mais dramático, que pudesse capturar a imaginação da audiência. Para o desgosto de Wincelberg, a Fox encarregou então outro roteirista, Harold Jack Bloom (que posteriormente trabalharia no roteiro de “Só se vive duas vezes”, o quinto longa-metragem de James Bond), para reescrever o primeiro tratamento. Reintitulado “Rendezvous with Yesterday” (“Volta ao passado”), assinado por Allen, Wincelberg e Bloom, a segunda versão mudou o nome do cientista de Peter para Douglas (“Doug”) Phillips e o jovem Dr. Tony Newman deixa a base de controle do túnel para se tornar o seu parceiro nas futuras viagens pelo tempo e espaço. É Tony, não Doug, quem testa pela primeira vez o túnel e vai parar a bordo do Titanic, para onde o amigo segue a fim de resgatá-lo. Bem ao gosto de Irwin Allen, os dramas pessoais foram deixados de lado em detrimento das sequências de suspense e ação, quando, por exemplo, o luxuoso transatlântico colide com o iceberg e começa a naufragar.
Para dar mais prestígio ao piloto, Michael Rennie, o eterno alienígena Klaatu do clássico “O Dia em que a Terra parou” (1951), contratado da Fox e também integrante esporádico da “companhia de repertório” de Allen (além de “O Mundo Perdido”, ele também apareceu em um dos melhores episódios de “Perdidos no Espaço”, “O Colecionador”, da primeira temporada), para interpretar o capitão Malcolm Smith, comandante do Titanic (conquanto o nome do capitão real fosse Edward). Além de Rennie, o episódio contou com a participação de Gary Merrill, um dos mais importantes coadjuvantes de Hollywood no passado, no papel do senador Leroy Clark (no roteiro original de Wincelberg, esse personagem estava previsto para se tornar integrante fixo do elenco estacionado na sala de comando do túnel). Como era habitual, o próprio Irwin Allen dirigiu “Volta ao passado”, quase todo realizado em estúdio, com exceção da cena de abertura, feita no deserto do Arizona. Contudo, nem tudo foram flores durante a realização desse piloto. O diretor ficou tão irritado com os atores que chegou a dizer em determinado momento que um dia criaria uma série sem nenhum ator. Como se verá, a tensão no set de filmagens seria uma constante durante toda a produção do seriado.
Entre as qualidades do produtor e diretor, algumas se sobressaíam nesse episódio inaugural. O senso de espetáculo visual, que só encontrava rival entre os grandes mestres do cinemão, como DeMille e George Pal, é uma delas. Assim como outro cineasta das antigas, Alfred Hitchcock, Allen tinha o costume de planejar minuciosamente cada episódio que realizava, por intermédio de detalhados storyboards. Daí o esmero com que cuidava do visual de suas produções, sobretudo o projeto e construção dos cenários. Não à toa, ele se cercou de uma equipe sempre fiel de técnicos, com quem trabalhou durante anos, e que incluíam o diretor de fotografia Winton C. Hoch, o diretor de arte William J. Creber, o diretor de efeitos especiais L.B. Abbott, o editor de roteiros William Welch e o figurinista Paul Zastupnevich.
Para os papeis dos dois protagonistas da série, o Dr. Doug Phillips e o Dr. Tony Newman, foram escolhidos, respectivamente, Robert Colbert e James Darren. Os dois jovens atores tinham relativamente pouca experiência dramática, a ponto de um casal de roteiristas regulares da série, Robert e Wanda Duncan, se queixarem certa vez de que eles não sabiam interpretar. Dos dois, Darren é quem tinha um pouco mais de notoriedade na época. O seu nome real é James Ercolani e ele fez carreira como cantor juvenil antes de se tornar um “ídolo adolescente” nos “filmes de surfe” em voga no final dos anos 1950 e começo da década seguinte, comédias musicais leves e românticas estreladas por Sandra Dee, como “Maldosamente Ingênua” (1959). A única participação memorável dele foi no clássico “Os Canhões de Navarone”, de 1961, em que teve a única oportunidade na vida de contracenar com pesos-pesados das telas como Gregory Peck, David Niven, Anthony Quinn e Irene Papas.
O currículo de Colbert era ainda mais inexpressivo que o de Darren e contava com aparições esporádicas em filmes B de terror do folclórico diretor William Castle e dramas de guerra nada memoráveis. Quando estava sob contrato com a Warner Bros., atuou ocasionalmente em alguns programas de tevê, como o sitcom “Meu Marciano favorito” (1963) e o clássico “Bonanza”, e chegou a interpretar um dos irmãos do protagonista (ao lado de Roger Moore) da série de faroeste “Maverick”, acima de tudo por sua semelhança com o astro, James Garner.
            De todos os integrantes do elenco regular, sem dúvida alguma a mais célebre foi Lee Meriwether, a Dra. Ann McGregor. Dona de uma beleza e sensualidade notáveis, que lhe garantiram o título de Miss America de 1955, ela hoje é mais lembrada por ter interpretado a vilã icônica dos quadrinhos, a Mulher-Gato, no longa-metragem do Batman, extraído do seriado televisivo homônimo estrelado por Adam West e Burt Ward e produzido no mesmo ano de “Túnel”, em 1966. Apesar dos belos atributos físicos, a atriz jamais teve a possibilidade de exibi-los em seu papel de Dra. McGregor. Por mais que ela se queixasse, jamais pode usar os cabelos penteados de um jeito que não fossem presos atrás, e em nenhum dos episódios deixou de cobrir o corpo escultural com o onipresente jaleco branco. Além disso, quase nunca os seus diálogos iam além de falas técnicas como “estou perdendo os registros deles”.
            Whit Bissell já era um ator em atividade desde os anos 1940, e um rosto bastante conhecido tanto do cinema quanto da tevê, quando foi convidado a encarnar o General Heywood Kirk. Os seus créditos incluem participações muitas vezes pequenas, mas inesquecíveis, em dezenas de longas-metragens. Entre os papeis mais memoráveis, destacam-se os de um cientista no clássico de terror “O Monstro da Lagoa Negra” (1954) e o de um médico em outro clássico de ficção científica da época da Guerra Fria, “Vampiros de almas” (1956).
            Outro veterano do cinema e da televisão era John Zaremba, o Dr. Raymond Swain, companheiro da Dra. MacGregor na estação de controle do Túnel do Tempo. Ele era um rosto conhecido pelas constantes aparições em filmes e séries policiais, de terror e ficção científica, que incluíam “Alfred Hitchcock Presents” (1957) e “Os Intocáveis” (1961), além de participações especiais em “Viagem ao fundo do mar”, do próprio Irwin Allen. Além desses membros fixos, o elenco contava com dois coadjuvantes semirregulares, Wesley Lau como o Sargento Jiggs, chefe da segurança do complexo do Projeto Tic-Toc, e Sam Groom no papel de um técnico chamado Jerry.
            Embora os cinco atores principais estivessem presentes em todos os 30 episódios da série, Robert Colbert e James Darren muito raramente contracenaram com os demais. Isso porque as sequências em outros lugares e épocas, nas quais as aventuras deles tinham lugar, eram realizadas em cenários diferentes e até em locações externas, enquanto Bissell, Zaremba e Meriwether ficaram quase sempre confinados ao estúdio da Fox que abrigava o túnel. Na maior parte das vezes, eles eram obrigados a interagir com o cenário vazio à frente, já que as cenas que se passavam em outros períodos de tempo e espaço eram sobrepostas mais tarde, na pós-produção. Apenas em duas ocasiões Lee Meriwether teve a oportunidade de deixar o seu posto. Numa delas, no episódio “Pirates of Dead Man’s Island” (“Os piratas da ilha do morto”), quando um pirata vindo do passado (Victor Jory) faz a Dra. MacGregor de refém e foge com ela pelas instalações do túnel. A propósito dessa sequência, o rosto de agonia da atriz não era encenação. Victor Jory levou tão a sério a interpretação que, ao agarrá-la com força, machucou-a de verdade. Noutro episódio, ”The Kidnappers” (“Os raptores”), a personagem de Meriwether é seqüestrada por seres alienígenas e levada para outro sistema planetário.
Apesar do recurso às cenas saqueadas de filmes antigos, o episódio-piloto foi o mais caro produzido até aquela época, cerca de 500 mil dólares. Isso porque a maior parte dessa quantia foi gasta no desenvolvimento e na construção dos imensos cenários que abrigavam o principal astro da série, o próprio túnel do tempo. Concebido pelo diretor de arte Jack Martin Smith e sua equipe, o túnel em si ocupava dois galpões inteiros dos estúdios da 20th Century Fox (mas ele não era tão extenso quanto parecia. A ilusão de profundidade era criada com o emprego de “perspectiva forçada”, no qual os anéis ao fundo eram gradualmente menores do que os do primeiro plano). Se o computador central da sala de controle parecia suficientemente verdadeiro, era porque usava partes remontadas de um computador real, adquirido da Força Aérea americana. Para as tomadas de plano geral, o túnel era composto com um cenário pintado, na técnica conhecida como “pintura no vidro” ou “matte painting” em inglês. O complexo subterrâneo onde a máquina estava instalada, em que o núcleo atômico aparecia em algumas cenas, não passava de uma miniatura com aproximadamente nove metros de altura.
Os efeitos especiais, sob os cuidados do oscarizado L. B. Abbott (de “O Destino do Poseidon”, entre outros), também diretor do departamento de efeitos da Fox, combinavam eficiência com orçamento reduzido e o mínimo dispêndio de tempo. O mais memorável deles era sem dúvida o vórtice temporal no qual Tony e Doug rodopiavam através das épocas. Para realizá-lo, os atores foram mantidos suspensos com cabos presos a arneses enquanto giravam a vários metros do solo. O vórtice em si era produzido com o uso de lentes grande-angulares, que distorcem as imagens, e glitteres brilhantes. Depois, a filmagem dos atores rodopiando em câmera lenta e o vórtice eram combinados opticamente. O resultado foi tão notável (para os padrões dos anos 1960) que o seriado ganhou o prêmio Emmy na categoria de Efeitos Fotográficos Especiais em 1967. Essas sequências eram sempre reprisadas nas aberturas e encerramentos dos episódios (nas aberturas, a propósito, havia uma narração que era feita, no original, por Dick Tufeld, o mesmo locutor que emprestava a voz para o Robô de “Perdidos”).
O hoje renomado músico John Williams, que na ocasião dava os primeiros passos na carreira, já havia composto a trilha para “Perdidos no espaço” e foi chamado novamente por Allen para criar a música de “O Túnel do tempo”. Ele compôs o tema de abertura da série, em que os acordes simulam o bater dos ponteiros de um relógio, quase tão memorável e eficiente quanto os de “Perdidos” e das duas temporadas de “Terra de Gigantes”, que realizaria depois. Williams também trabalhou na música do episódio-piloto, “Volta do passado”, e teria continuado a colaborar com o seriado se não tivesse se comprometido com outras produções naquele ano. No restante da temporada, ele foi substituído pelos compositores Lyn Murray (de “Ladrão de Casaca”, de Alfred Hitchcock) e George Duning (de “A Um passo da eternidade”), entre outros.
Apesar da razoável qualidade do episódio-piloto, ela não se manteve durante a realização do seriado. Sob vários aspectos, “O Túnel do tempo” sofreria com a proverbial muquiranagem do produtor. Homem prático, Irwin Allen procurava cortar ao máximo os custos e não se preocupava se isso afetasse o acabamento dos episódios. Na maioria das vezes, o tempo médio de filmagem era reduzido de cinco para três dias, mas nem isso foi suficiente para amenizar os atrasos constantes. Essa contingência provocou imensa pressão sobre os atores e, como consequência, o clima nos sets se tornou nervoso, dominado por frequentes discussões. “Não era um bom lugar para se levar as crianças”, comentou certa vez uma roteirista.
Muitas das histórias eram escritas tendo em vista a economia de recursos. Um exemplo foi o episódio “A Arma Secreta”, na qual Doug e Tony regressavam dez anos no tempo e se encontravam num segundo túnel do tempo exatamente igual ao deles, num país do outro lado da Cortina de Ferro (o bloco comunista comandando pela antiga União Soviética). O objetivo, naturalmente, era empregar o mesmo cenário conhecido do túnel, sem a necessidade de construir um diferente. Outro roteiro, que girava em torno do enigma do navio Marie Celeste, encontrado à deriva no oceano e completamente vazio em 1872, previa a aparição de uma lula gigante, mas no final teve de ser engavetado para que a produção não tivesse de gastar 30 mil dólares com a criação de um tentáculo de grandes dimensões.
            Mas onde a escassez de dinheiro afetou diretamente a produção foi no emprego constante de cenas retiradas de filmes antigos, como as que mostravam o foguete de “Destino à Lua”, um clássico da fc dos anos 1950 produzido por George Pal, no segundo episódio da série, “Viagem à Lua”; soldados medievais armados de arcos e flechas de “Príncipe Valente” (1954) em “Robin Hood”; os guerreiros gregos de “Os 300 de Esparta” ( a versão de 1962) em “Presente de grego”, em que os dois heróis vão parar em plena Guerra de Tróia; os navios piratas saídos de “O Cisne Negro”, estrelado por Tyrone Power de 1942, em “Os piratas da ilha do morto”, e assim por diante. O uso extensivo desse recurso era até compreensível, dadas as limitações técnicas e orçamentárias das séries de televisão nos anos 1960. O maior problema com essa prática é que as histórias passaram a ser confeccionadas tendo esse tipo de material em mente e, naturalmente, os arquivos do estúdio eram limitados. Chegou um momento em que a fonte secou e os roteiristas não tinham mais de onde tirar as imagens. Eles foram instruídos a escrever aventuras que se passavam no presente ou no futuro imediato e que envolvessem seres alienígenas bizarros. Com isso, a meticulosa pesquisa histórica que os roteiristas realizavam para escrever cada episódio e que ajudava a tornar o seriado um pouco mais interessante evaporou por completo. Foi quando a qualidade despencou de vez. Para complicar as coisas, “O Túnel” sofria a forte concorrência de dois outros programas muito populares na ocasião, “James West”, na rede de televisão CBS, e “O Agente da U.N.C.L.E.”, na NBC, que eram exibidos no mesmo horário nas noites de sexta-feira.
Outro fator que certamente contribuiu para a deterioração da série foi o inegável pendor de Irwin Allen para imprimir vigor às histórias que contava em detrimento dos personagens. A ação desenfreada jamais era interrompida para dar lugar ao adensamento psicológico ou discussões filosóficas eventuais, o que acabou se mostrando o principal calcanhar de Aquiles não só de “Túnel” como de todas as produções televisivas dele. Quase nunca nos é dado conhecer a vida pregressa dos personagens e as suas motivações. A única e honrosa exceção acontece no episódio “O Dia em que o céu desabou”, não por acaso considerado pelos fãs o melhor de todo o seriado. Nessa história, Doug e Tony são transportados para Honolulu às vésperas do ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941. Lá, Tony revê os pais vivos, encontra consigo mesmo ainda criança e presencia o momento da morte do pai, sob os escombros provocados pelo ataque (algumas tomadas reais do bombardeio foram usadas e nunca antes tinham sido mostradas na televisão). Esse episódio nos deu um vislumbre do que “O Túnel do tempo” poderia ter sido, não fosse a relutância do produtor em jamais sair das fórmulas pré-estabelecidas na época. Outra crítica que se fez ao seriado é que apenas muito ocasionalmente ele nos dava a oportunidade de revisitarmos os fatos históricos, apresentando versões diferentes daquilo que os livros costumam ensinar. Uma das poucas exceções ocorreu no episódio “Armadilha Fatal”, em que os dois viajantes do tempo regressam ao século XIX e deparam com um complô para assassinar o então presidente americano Abraham Lincoln. A ausência de caracterizações aprofundadas, de tramas inteligentes e menos infantilizadas, da própria lógica interna das histórias, enfim, impediu que a série alcançasse o mesmo nível de qualidade de “Contratempos” (“Quantum Leap”), um seriado muito parecido com o “Túnel” tanto no formato quanto nos temas, levado ao ar mais de vinte anos depois.
Mesmo com todas essas deficiências, depois de 30 episódios, “O Túnel do tempo” teve o sinal verde para prosseguir no ano seguinte e a produção começou a fazer planos para uma segunda temporada. Por azar, o presidente da ABC na ocasião, Tom Moore, foi substituído dias depois e a nova direção da emissora resolveu cancelar a série devido aos seus altos custos. Embora nunca tenha sido feito um episódio final, que pusesse um ponto final nas aventuras de Tony e Doug, Lee Meriwether assegurou em uma entrevista que o retorno dos dois viajantes do tempo ao presente chegou a ser filmado, mas jamais foi usado.
Irwin Allen nunca escondeu a sua predileção por esse seriado sobre os demais e tentou emplacar novamente um programa de tevê sobre o mesmo tema. Dois anos depois do cancelamento, ele produziu um episódio-piloto que não chegou a despertar interesse, intitulado “O Homem do século 25” (na verdade, estava previsto para ser parte de um episódio de “Perdidos no espaço”). Como diz o título, a premissa da nova série girava em torno de Tomo, estrelado pelo mesmo James Darren de “O Túnel”, um terráqueo criado por alienígenas que era enviado do futuro para a Terra do presente com o intuito de atuar como uma espécie de espião extraterrestre.  
Em 1976, Allen produziu um especial para a televisão intitulado “Degraus para o passado” (“Time Travelers”), com base numa história não publicada de “Rod Serling (o criador de “Além da Imaginação”), muito similar ao formato de “O Túnel do tempo” (embora sem nem um décimo de sua grandiosidade visual). Nesse telefilme, realizado com um orçamento irrisório (usando os cenários que ainda restavam do musical “Hello, Dolly”, de 1969, e, para não perder o hábito, cenas tiradas de um filme antigo, “Na Velha Chicago”, dos anos 1930) e estrelado por Richard Basehart, o Almirante Nelson de “Viagem ao fundo do mar”, uma dupla de cientistas regressava para a cidade de Chicago em 1871 em busca de uma fórmula para a cura de uma epidemia que estava acontecendo na época da exibição do filme.
Na década de 1980, a Fox fundiu o piloto de “O Túnel do tempo” com outros dez episódios para exibi-los na televisão em cinco longas-metragens. Também nessa época o produtor brincou com o conceito de outro seriado temporal, “The Time Project”, que jamais passou da fase de planejamento. Foi somente 15 anos depois da morte de Irwin Allen, em novembro de 1991, aos 75 anos, que “O Túnel” ganhou uma nova chance, agora ajustado para uma geração inteiramente nova e mais exigente, que jamais havia assistido ao seriado original.
Com uma vistosa produção de Sheila Allen, a viúva do produtor, associada à 20th Century Fox Television, à Fox Television Studios e à Regency Television, um telefilme de 54 minutos admiravelmente bem roteirizado, interpretado e produzido foi realizado para ser o piloto de uma série reformulada, que tomava a antiga apenas como ponto de partida. Estrelada por David Conrad como Doug e Andrea Roth como Toni (e não Tony), agora uma versão de saias do personagem, “The Time Tunnel” versão 2006 tinha uma proposta muito mais séria e inteligente do que o original. O conceito, vagamente inspirado no conto clássico de ficção científica “Um som de trovão”, do escritor Ray Bradbury, girava em torno de um centro de pesquisa em fusão nuclear destinado a produzir energia praticamente ilimitada, mas que dá muito errado. Ao ser acionado, o aparelho provocava uma espécie de “tormenta temporal” que passava a bagunçar a história, alterando os fatos do passado como os conhecemos. Assim, por exemplo, nessa nova linha do tempo, não foram os americanos que pisaram na Lua em 1969, mas os soviéticos, os Estados Unidos possuíam 49 e não 50 Estados e assim por diante. Um grupo de cientistas liderado por Doug e Toni é então enviado ao passado para tentar consertar o estrago e se envolve em uma trama complicada durante a batalha na Floresta de Hurtgen, na Alemanha, em 1944, em plena Segunda Guerra Mundial, para onde um monge do século XVI carregando o vírus da peste bubônica havia sido equivocadamente teletransportado. Apesar de promissor, o piloto não conseguiu convencer os produtores a bancar uma nova série e o projeto foi engavetado (embora possa ser assistido no Youtube). Três anos depois, o Sci-Fi Channel, novamente sob os auspícios de Sheila Allen, tentou emplacar uma segunda produção, que nunca passou da fase de pré-produção.
Apesar de seus percalços, a repetição das tramas e as limitações técnicas e financeiras a que estava submetido, “O Túnel do tempo” permanece até hoje como símbolo de uma época, os anos 1960, em que tudo parecia possível e ilimitado. O fato de o nome da série ter praticamente entrado para o léxico universal, inclusive do Brasil, é uma prova inegável de que a criação de Irwin Allen superou a mais difícil das barreiras, a do tempo, claro.

São Paulo, 05 de outubro de 2016
           

           

sábado, 1 de outubro de 2016

Leia a versão integral do conto "A Vida íntima das irmãs siamesas"




A VIDA ÍNTIMA DAS IRMÃS SIAMESAS

“A amizade é uma alma com dois corpos”
Aristóteles
Por Marco Moretti

"Duas Figuras", de Ismael Nery - Fonte: Wikipedia

Joana podia nutrir pela irmã todos os sentimentos que existem no dicionário e que vão de A de amor a Z de zelo, e ainda assim o que mais experimentava era o O de ódio. Isso porque qualquer afeto que pudesse ter para com ela podia se converter em desprezo e raiva com a mesma facilidade com que trocava de calcinha. A razão dessas reações temperadas de atração e repulsa continuava sendo um caso não muito bem explicado na mente de Joana, embora ela sinceramente se esforçasse para debelá-las quando vinham à tona. Isso ocorria invariavelmente todas as vezes em que Joelma insistia em chateá-la com algum de seus caprichos ou, o que costumeiramente era fonte de sonoras discussões entre as duas, nos instantes em que teimava em fazer qualquer coisa que a desagradasse. Não se pode afirmar, em defesa de Joana, que ela desconhecesse o temperamento da irmã, nem que as manias da outra fossem excentricidades de última hora. De forma alguma. Aquelas duas mulheres, agora na casa dos 50 anos, conheciam-se suficientemente bem desde o útero materno. Afinal de contas, é um fato fartamente conhecido que gêmeos univitelinos costumam manter um elo espiritual que perdura mesmo na eventualidade de um morrer antes do outro. Se as diferenças de personalidade entre ambas eram pouco ou nada significativas na infância, isso deixou de constituir uma verdade quando elas atingiram a idade adulta. À medida que cresciam, descobriram características próprias, idiossincrasias, que, com o passar dos anos, foram se acentuando. A maturidade deu um caráter definitivo de franca oposição às “peculiaridades” particulares, que levou ao nascimento dessa hostilidade, significativamente mais perceptível em Joana do que em Joelma, deve-se frisar. Não que a última não se aborrecesse em demasia com a irmã, mas sabia refrear a irritação e, por vezes, a ira, numa expressão de cinismo quase sempre acompanhada de uma risada escandalosa, que apenas servia para alimentar o desejo de Joana em vê-la a pelo menos um quilômetro de distância. A verdade é que ela já o teria feito, se as duas não fossem unha e carne, literalmente. Estavam ambas inseparavelmente unidas desde a concepção, ao menos fisicamente, já que não podiam ser mais díspares no plano psicológico. O que, como podem atestar os mais renomados especialistas no assunto, pode constituir uma originalidade, mas, de forma alguma, um evento corriqueiro em se tratando de irmãs xifópagas.
Deve-se creditar a uma época menos conservadora como a nossa (ou mais hipócrita, dependendo de como se veja a coisa) o fato de as duas não terem sido condenadas por toda a existência a um destino miserável. Se houvessem nascido em outras épocas e outros lugares, provavelmente seriam atiradas do alto de um penhasco, jogadas no fundo de um calabouço longe de olhares curiosos, ou, não menos pior, estariam relegadas a virar atração em um circo de horrores. Mas, em tempos de consumismo conspícuo farisaico e desprovido de encanto como o nosso, elas passaram a ganhar a vida se apresentando em bares e restaurantes de segunda categoria como músicas dotadas de habilidades ímpares, tocando piano e cantando. Na verdade, elas dividiam as funções. Quem martelava as teclas era Joana, de seu natural recolhida qual uma concha, enquanto Joelma preferia soltar o gogó. A verdade incômoda, contudo, é que as pessoas eram atraídas para as apresentações das duas não tanto pela qualidade musical que elas podiam exibir quanto pela curiosidade. No fundo, as apresentações das gêmeas siamesas em muito pouco diferiam de um show de parque de diversões. A bizarra, ou incomum, característica da dupla é o que causava comoção, em detrimento de seus dotes artísticos.
Guardadas as devidas proporções e uma que outra inconveniência, elas conseguiram atravessar mais ou menos incólumes a estrada das repulsas sociais sem grandes traumas. Até nos dois campos minados em que poderiam ter sofrido com a discriminação e o preconceito, quando não com a segregação, ambas se saíram razoavelmente. Tanto na escola quanto no trabalho sempre foram reconhecidas como esforçadas e competentes e, se não lograram êxito fenomenal, isso se deve menos à notável capacidade de sobreviver às adversidades do que à má vontade alheia. À estranheza com que eram acolhidas em cada esquina, retribuíam com um certo senso de indiferença que, às vezes, podia ser confundido com arrogância, mas que com frequência era visto como uma pontada de inflexível orgulho de suas próprias particularidades. Houve mesmo uma época em suas vidas, na adolescência, em que experimentaram um certo regozijo modulado por desprezo pela maneira com que as pessoas as fitavam.
            Características que, entenda-se como quiser, não se resumiam à excentricidade de sua condição física. Cada uma à sua maneira, as irmãs siamesas eram seres humanos de comportamentos e inclinações psicológicas distintos. Mais independente, rebelde e despachada das duas, Joana tolerava com muita má vontade a indolência da irmã (costumava dizer, em tom jocoso, que Joelma era tão preguiçosa que seria capaz de se ausentar do próprio velório só para não ter o trabalho de se deitar no caixão), a falta de iniciativa dela e, sobretudo, embora nem sempre aparente, a antipatia que nutria pelo mau gosto da irmã por tudo o que se referisse ao universo da moda e das artes em geral, não descontando desse cômputo a sua paixão pelas músicas sertanejas. Na verdade, Joana pouca paciência se dispunha a ter para com os constantes arroubos poéticos da outra. Eram, em resumo, duas almas diferentes separadas pelo mesmo corpo.
Era previsível e até desejável que essas oposições, tanto de predileções quanto de atitudes, esbarrassem, com o tempo, na intransponível necessidade de viverem, ambas, em cantos opostos da mesma existência. Ao menos desde que a noção de individualidade permeara a consciência de Joana e trouxe a reboque o anseio de se libertar daquele convívio forçado, não houve minuto, não houve um segundo sequer, que ela não procurasse algum meio de se separar da irmã. Dos 20 aos 30 anos, partiram dela todas as iniciativas para que procurassem especialistas médicos que pudessem auxiliá-las a concretizar esse desejo quase obsessivo pela libertação. Desnecessário dizer que só depararam com sorrisos complacentes estampados em rostos que se esforçavam a todo custo para expressar alguma espécie de compaixão pela situação das gêmeas, invariavelmente acompanhados de explicações minuciosas das razões por que seria impossível realizar um procedimento cirúrgico para separá-las. “Seria mais fácil dividir o Norte e o Sul do Brasil do que fatiar vocês duas ao meio”, asseverou certa feita um velho doutor de ar rabugento e volumosas papadas sob os olhos cansados.
Era de se esperar que essa muralha de negativas (numa estimativa aproximada, as irmãs consultaram meia centena de médicos nesse período) as desencorajasse a tentar qualquer empreitada que acenasse com uma possibilidade, ainda que remota, de alforria para ambas. Contudo, esse não era o tipo de obstáculo que faria com que Joana desistisse com tanta facilidade de seu intuito, por mais tresloucado que ele pudesse soar a ouvidos sensatos. Em quase cinco décadas de permanência neste mundo, não houve um sol sequer que a flagrasse pensando em outro assunto que não esse. Em última instância, essa arraigada turronice evitou que ela se abandonasse a uma existência arrastada e medíocre, sem alma e desacalentada, embora jamais perdesse de vista a noção de que, a menos que alguma nova tecnologia médica fosse desenvolvida ou um milagre divino intercedesse em seu favor, estava fadada a permanecer ligada a Joelma para todo o sempre. Aquilo era uma condenação pior do que a escravidão, muito pior, já que os grilhões eram impossíveis de serem rompidos por intermédio de uma simples lei áurea sem que as duas perecessem ao mesmo tempo.  
Como se sabe, uma alma desprovida de felicidades ou de meios para se atingir a felicidade é uma alma combalida pela inveja e pela amargura. Quando criança e adolescente, esses sentimentos vagavam enevoados por seus pensamentos, como se temessem ser reconhecidos, e recusavam-se a ganhar nomes definidos. No entanto, à medida que elas ingressavam juntas (de que outro modo seria?) no limiar da mocidade e os impulsos naturais da atração sexual principiavam a entrar em ebulição em suas entranhas, as irmãs se deram conta de que eram diferentes dos demais. E, como era de se esperar, se ressentiram disso, cada uma à sua maneira e de acordo com a predisposição de seus espíritos. Joelma refugiou-se dali para diante em uma armadura de indiferença e superficial frieza para tudo o que dissesse respeito aos rapazes e suas vontades, enquanto a irmã abaixava a cabeça ou virava os olhos, numa flagrante reação de irritação todas as vezes que calhava de presenciar um casal de namorados trocando afetos. Para ela, a visão de dois amantes se beijando com fervor juvenil era uma zombaria, uma provocação, quase um insulto.
Mas seria um engano imaginar que as irmãs xifópagas permaneceram para sempre num estado de intocável virgindade, alheias aos prazeres da carne. Muito pelo contrário. Desde cedo elas compartilharam os mesmos parceiros sob os lençóis da cama (ou nos bancos traseiros dos carros ou nos vãos dos becos escuros ou onde quer que as circunstâncias permitissem) e tiveram experiências nessa área tão satisfatórias quanto a maioria das garotas de sua idade. Entretanto, é também um fato impossível de refutar que os homens com quem deitaram (às vezes, mais de um ao mesmo tempo) não o fizeram por qualquer sentimentalismo, nem mesmo por compaixão ou piedade, mas pela pura e simples curiosidade, pelo anseio animalesco de machos ansiosos de despejar os seus espermas em conhecer uma espécie “diferente” de vivência sexual. Apenas isso.
A consciência dessa lamentável situação serviu somente para alimentar com dores agudas as repetidas decepções que as irmãs sofreram sempre que os homens se afastavam delas com olhar de nojo e repugnância depois de terem se saciado à vontade de seus corpos. Tais frustrações foram saudadas em incontáveis circunstâncias com litros de água salgada derramados dos dois pares de olhos, conquanto, das duas, parecesse evidente que Joana é quem mais ardia com o sofrimento daquele estado imutável de coisas. Em quantas oportunidades ela não amaldiçoou os céus, a lua e as estrelas por ter nascido e em quantas dessas vezes ela não se arrependeu por não ter estrangulado a irmã ainda no útero. “Se eu tivesse tido a chance de escolher, só por um momento, só por um momento”, pedia ela a Deus, ou ao diabo, ou aos deuses dos desfavorecidos, em pensamentos e falas entrecortadas de soluços e murmúrios enraivecidos travestidos de singela penitência. O fato de que essas manifestações de inconformismo de nada adiantavam ou serviam apenas para amplificar ainda mais a eterna frustração que ela experimentava consigo mesma e dentro do espaço bastante limitado de sua cabeça (a única coisa, na verdade, que ela verdadeiramente possuía naquele corpo compartilhado) jamais pareceu a Joana um desperdício de forças. Era dessa insatisfação perene que ela extraía a vontade, a cada dia mais potente, mais intensa, mais avassaladora, de se ver livre de Joelma. Mesmo que isso lhe custasse a vida.
Resignar-se ao seu destino era o tipo de coisa a que Joana nunca se dobraria. Podia revoltar-se, imprecar contra os céus, contorcer-se de dores, contudo, em hipótese alguma, se deixaria vencer pela humilhante aceitação de sua desdita. Numa noite de rumorosa tempestade de verão, de ventos uivantes e janelas trepidantes, jurou de si para consigo, enquanto confabulava com o seu lado do travesseiro, que haveria de encontrar um meio, fosse qual fosse, de dar um fim na indesejável união.
É bem verdade que a palavra “assassinato”, e as consequências que ela implicava, flutuaram várias vezes, qual miragens tremeluzentes, na mente dela. Mas a mesma fonte de indignação que “soprou” a ideia em seus ouvidos foi responsável por exilá-la para o reino das impossibilidades com um veemente abano de cabeça. Matar a outra metade de si mesma seria o mesmo que amputar um braço ou uma perna, sob o risco de não sobreviver à mutilação. Além disso, de que forma algo assim poderia ser executado? Guardadas as devidas proporções, seria como cometer suicídio.
Envenenar Joelma estava fora de propósito por razões que dispensam explicação. O mesmo valia para a decapitação e outras práticas menos sutis. Claro, sempre havia a possibilidade de meter a cabeça dela dentro do forno e ligar o gás, mas essa solução final ao estilo “João e Maria” era por demais radical e nada elegante, sumamente impraticável. Sufocá-la com o travesseiro, quando ela adormecesse, esbarrava em questões de ordem prática. Podia estrangulá-la, e Joana só não levou a cabo esse plano porque ele demandaria muito mais cuidados do que se pode supor. Se exagerasse na dose, corria o risco de matar a ela e a si mesma. Com pouca força, a irmã não só sobreviveria ao atentado como deixaria de ser uma companheira compassiva para se tornar a sua maior e mais temida nêmese.  
Aliás, evitar que a outra adivinhasse ou sequer suspeitasse de seus propósitos por si só era causa de recorrentes preocupações para Joana. O esforço de guardar somente para si os desígnios criminosos que alimentava na alma, não por um dia nem por um mês, mas por anos a fio, quase a levaram ao colapso nervoso. Mesmo que quisesse, mesmo que pudesse confiar em alguém para depositar as confissões, não havia forma concebível de fazer isso sem que a irmã tomasse conhecimento. Para ela, a falta de privacidade era o inferno. De maneira irrevogável e inapelável, estava condenada a ser a sua única confidente. Porém, por mais que tentasse acobertar esses intentos macabros, abafá-los dentro do cérebro, vez por outra pequenos vislumbres deles vazavam pelas frestas dos atos falhos de seu comportamento e de suas palavras.
Como sempre acontece nesse tipo de situação, o acaso veio fazer uma visita inesperada. Não o fez com um bater de porta ou um suave toque de campainha, mas com um grito agudo e estridente.
O incidente sucedeu numa noite de sábado, quente e monótona. Por essas razões e o fato de que não se sentiam dispostas para enfrentar as multidões fascinadas pela presença delas (não, a palavra certa não é bem essa, fascínio era um sentimento que elas raramente despertavam) num eventual passeio noturno, acharam por bem permanecer em casa assistindo a um filme de terror lamentavelmente medíocre, a respeito de uma cidadezinha invadida por aranhas. Um programa que parecia agradar mais a Joelma, mas ao qual Joana se resignaria de boa vontade desde que isso a poupasse dos eternos resmungos da irmã.
Foi justo quando assistiam a uma cena de insuportável mau gosto que as coisas adquiriram uma nova dimensão para Joana, que, enfim, vislumbrou uma escapatória para a clausura em que se achava encalacrada.
Ocorreu no clímax do filme, no momento de maior angústia da história, em que o confronto do protagonista com um bando de aranhas se dava de maneira sofrível por intermédio de efeitos especiais risíveis. Joana não precisou virar o rosto para se dar conta da reação da irmã. Mal absorta com o que via na televisão e entretida no próprio devanear, tomou um susto danado quando Joelma soltou um grito agudo de terror e foi acometida de um tremor insuportável que a fez se agitar no sofá com incomum veemência. Mais do que assustar-se com as horrendas imagens (em todos os sentidos) exibidas pela telinha, Joana deixou-se impressionar pelo desmedido pavor da irmã. Por um instante não tão breve quanto ambas desejariam, ela permaneceu paralisada, incapaz de insinuar o mínimo movimento, em um aparente estado de choque, os olhos vítreos, mirados num ponto qualquer do teto descascado, quase como se a alma repentinamente houvesse abandonado o corpo à própria sorte.
Quando finalmente se recompôs e pediu, aos berros, para que a tevê fosse desligada, Joana sequer prestou atenção em seus rogos como tampouco se preocupou em se certificar se ela estava passando bem. Quedou-se em um silêncio conspiratório, com a inconsciência de quem escapou por um momento da realidade e vagou pelos ermos desconhecidos de suas fantasias particulares. Nada disso passou inteiramente despercebido de Joelma, que pretendeu dispensar pouca importância a essa reação. O que escapou à sua atenção conturbada foi a expressão de faceira satisfação que se desenhou no rosto da irmã, sublinhada por um sorriso malicioso tão enigmático e fugidio quanto o da Gioconda.
Aqui é necessário que façamos um rápido flashback para resgatar fatos que ocorreram muito tempo antes, quando elas ainda nem haviam disputado o primeiro absorvente. O incidente ocorreu em outro sábado modorrento, quando a dupla se entretinha folheando um livro com figuras de toda espécie de bichos, de pássaros e mamíferos a insetos e aracnídeos. Embora elas já tivessem visto e revisto aquelas páginas incontáveis vezes, Joelma deixou-se surpreender por uma brincadeira de mau gosto de Joana, que quis pregar uma peça ao abrir o volume em uma imagem de página inteira de uma tarântula com dorso e patas peludas e o corpo escuro enfaixado de estrias coloridas. Pode-se imaginar o impacto daquela súbita e repugnante visão no estado de profunda catatonia que acometeu Joelma por quase uma hora. Foi necessário que a avó, que cuidava das meninas, corresse a lavar o seu rosto com um pano úmido e desse nervosos tapinhas nos pulsos para que ela se recobrasse. Quando isso aconteceu, não foi sem um choro desesperado entremeado de soluços histéricos que somente amainaram quando o cansaço venceu o frenesi. Dali em diante, a garota desenvolveu um pânico agudo por criaturas peludas de oito patas, uma reação desmedida e desproporcional que se recusava a ceder mesmo quando o que estava diante de seus olhos não passava de mero simulacro, como um desenho ou um filme. Nesses momentos, o medo se sobrepunha à razão e Joelma se via dominada por instintos primais de autodefesa que fugiam ao controle de sua mente. Nada, é claro, que uma boa terapia não resolvesse, mas isso estava além da compreensão delas na época. Como nenhuma atitude foi tomada, com o passar dos anos a coisa se tornou recorrente até atingir as raias de uma crônica fobia.
No instante mesmo em que a irmã se viu novamente presa dos impulsos de repulsa ante a visão das ridículas aranhas mecânicas exibidas na televisão, Joana percebeu, um tanto surpresa, que tinha em mãos um poderoso trunfo. Só não sabia ainda como usá-lo a seu favor, mas iria pensar em algo.
Logo no dia seguinte, uma ideia, nebulosa a princípio, mas que rapidamente ganhou corpo e forma, principiou a fermentar em seu cérebro. “Como sou idiota! Por que não pensei nisso antes?”, foi a reação imediata, pensada, jamais dita. Cristalina como a água, a solução de seus problemas encontrava-se imediatamente à mão. Talvez nem sequer precisasse empregar algum método agressivo para se ver livre da irmã. Bastava a engenhosidade de um estrategista militar e uma grande reserva de paciência (além de uma dose razoável de perversidade). Nada de facas, travesseiros ou coisa parecida. A única arma que necessitava era a insidiosa capacidade de sugestão. As palavras, e apenas elas, seriam o seu passaporte para a libertação. A sua adaga afiada, a sua AK-47, o seu punhal pontiagudo.
Havia, de fato, uma maneira sutil, conquanto mais demorada, para que Joana suprimisse Joelma de sua vida. Bastava incutir em sua mente, a conta-gotas, um pouco de cada vez e em doses diárias quase imperceptíveis, uma paranóia impossível de ser suplantada de que aranhas, de todas as espécies e cores possíveis, peludas, pequenas, grandes, negras ou amarronzadas, gordas ou magras, rondavam constantemente pelos cantos, pelos obscuros recessos da casa, no fundo das gavetas ou por trás dos móveis. Sozinhas ou em bandos. Não importava que elas não pudessem ser vistas, bastava a sugestão de que infestavam cada sombra e cada recanto. O medo se encarregaria de concluir o serviço. Um dia, finalmente, a irmã haveria de sucumbir, e quando esse momento chegasse a sua mente se transformaria numa tela translúcida e refratária a todas as impressões, incapaz de falar, de se manifestar, de mexer os olhos. Transformada em uma estátua de sal ambulante, emudecida e catatônica, Joelma não mais projetaria sobre a outra a sua incômoda presença. Seria, por assim dizer, mera silhueta desprovida de vida a acompanhar Joana para onde quer que a sua vontade exigisse. Claro, isso levaria um tempo impossível de ser calculado para acontecer, e que tanto poderia se traduzir em meses, em anos ou em décadas. Mas o que era o tempo para alguém que até então só podia sonhar com a morte para consumar o desejo de independência que lhe fervia na alma? Cedo ou tarde passaram a ser termos relativos para Joana, quase sinônimos.
Praticamente no mesmo instante em que esse estratagema brotou, pronto e acabado, em seu espírito, como Minerva saltou da cabeça de Júpiter, já armada de elmo e escudo, ela passou do pensamento à ação. Para que o plano funcionasse, porém, era preciso preparar o terreno com a dedicação de um lavrador. Ará-lo, antes de lançar as sementes. Assim, logo pela manhã seguinte, quando haviam acabado de tomar banho e reviravam o guarda-roupa, Joana falou, procurando parecer casual e despreocupada:
- Acho que vi alguma coisa se mexendo atrás daquelas roupas, você não viu?
- Não, eu não vi nada – respondeu Joelma.
- Tenho certeza que tinha algo andando por aí. Bem, vai ver, foi só impressão minha. Deixa pra lá – disse a outra, e tratou de mudar de assunto. Pouco depois, parou subitamente o que dizia – Espere um pouco... Tem, sim, alguma coisa nesse armário. Eu posso jurar que vi.
- Viu o que?
- Sei lá, um bicho, acho. Escuro, que nem uma bola de lã preta do tamanho do meu polegar.
- Ah, vai...
- Não, falo sério. É melhor não meter a mão aí dentro, Joelma. Se for algum bicho, pode nos picar. Vai saber o que tem aí...
Joana preferiu suspender a conversa nesse ponto, pendurada nas reticências sobre o abismo da apreensão. Ela se esquivou de mencionar a palavra “aranha”, e nem precisava. Achou, e achou corretamente, que a mera insinuação de que alguma criatura asquerosa rastejava pelo fundo do móvel bastava por ora para atiçar as cismas da irmã. Deixou, assim, que a imaginação dela fermentasse sozinha com as funestas possibilidades que era capaz de engendrar.
No dia seguinte, voltou a destilar o veneno dos temores indizíveis na mente da outra. Dessa vez, tentou ser um pouco menos vaga, um tanto assim mais enfática.
- Posso estar enganada, mas aposto que tem um bicho andando por uma das gavetas da cozinha. Eu vi só de relance, mas parecia ser peludo, com patas também peludas. Credo, só de pensar já me dá arrepios!
A reação de Joelma foi imediata. Começou a ficar histérica, a falar nervosa e atropeladamente, a se desdizer e a bradar para que a irmã fizesse alguma coisa. Que chamassem o vizinho, pagassem uma dedetização ou comprassem veneno. Com um mal disfarçado sorriso de satisfação insinuando-se no rosto, Joana pensou quanto faltaria para ela gritar pelos bombeiros, pelo exército e pela aeronáutica a fim de acudi-las. O ardil estava funcionando melhor do que o previsto, refletiu, agora era aguentar o tranco dos surtos de inquietação que viriam e seguir ministrando as doses homeopáticas de perversidade até que obtivesse o efeito final e definitivo.
Um mês depois, foi a própria Joelma quem começou a avistar miragens. Joana sequer precisou plantar em seu espírito qualquer ideia insidiosa numa manhã em que as duas preparavam um cozido de lagarto para o almoço.
- Aaaaiii! – disparou a berrar a irmã mal abriu a tampa do forno – Tem uma aranha enorme aqui dentro! Mata isso, peloamordeDeus, mata, anda, estraçalha a desgraçada! – repetia com a voz esganiçada, sufocada, entremeando às lamúrias chorosas os gritos de “ordinária” e “maldita”, que é como costumeiramente reagia nessas situações, e que não se sabia muito bem se fazia referência a Joana ou à criatura que povoava a sua imaginação hipertrofiada.
Realmente, havia alguma coisa dentro do forno, mas não um aracnídeo.
- Calma, não é nada. Não está vendo que é só um chumaço velho de palhinha de aço? Deve ter ficado depois da última limpeza...
- Joga essa porcaria fora! Joga agora!
O descontrole nervoso de Joelma começava a extrapolar as raias do aceitável, e quanto mais a irmã forçava a situação, mais as coisas pareciam sair do controle. Resolvida a fazer da tortura psicológica uma arte refinada, Joana esmerou-se nas soluções. Certa noite, quando ambas haviam se deitado e demoravam a pegar no sono, ela fingiu ouvir ruídos estranhos debaixo da cama, e foi veemente o bastante para levar a outra a escutar inexistentes sons de patas arranhando o assoalho.  
- Faz alguma coisa, Joana, eu não posso com isso...! – urrava, ao mesmo tempo em que se encolhia toda sob o lençol, tomada pelo pânico de que uma tarântula do tamanho da palma da mão e patas amarronzadas peludas e grossas subisse pelos pés da cama e penetrasse sob a camisola. A infeliz tremia e convulsionava, balbuciava palavras desconexas e vãs, e parecia prestes a sucumbir a outra crise de medo paralisante. Havia chegado ao ponto de não conseguir suportar mais a aversão que a consumia. Estava, portanto, no lugar exato, na extremidade precária e perigosa do penhasco que haveria de precipitá-la nas ondas revoltas da insanidade.
O empurrão fatídico seria dado, por uma cruel ironia dos deuses, não pela irmã nem por qualquer artimanha que ela pudesse urdir, mas pelas forças do acaso. A medonha exibição de histeria de Joelma se repetiria, em proporção bem maior, mais dramática e contundente, no lugar menos provável para que isso acontecesse: diante da audiência formada pelo punhado de frequentadores do barzinho onde as gêmeas costumavam se apresentar.
O imprevisto teve uma personagem que, em outras circunstâncias de tempo e espaço, passaria tão despercebida quanto uma partícula de poeira carregada pelo vento. Bastou o vulto escuro, fugaz, passar veloz sobre as teclas do piano e meter-se numa fresta na madeira para que Joelma engasgasse, tropeçasse nas letras da canção e torcesse o rosto num esgar de pavor, os olhos arregalados para além das órbitas. Pouco faltou para que emitisse um grito. Se estivesse no pleno controle das emoções, em vez de ter a mente encharcada pelas sugestões que a irmã havia plantado nela durante meses, teria se dado conta do absurdo de sua reação desmedida diante de uma reles, de uma inofensiva e ridícula barata. Contudo, seria exigir demais, àquela altura, que ela conseguisse manter qualquer domínio racional sobre si. Os sentidos a ludibriavam, escarneciam dela. Bastou o fantasma de um aracnídeo asqueroso perambulando pelas proximidades para deixá-la fora de prumo. O seu estado psicológico alterado tratou de completar o serviço.
Joana não previu o incidente, nem podia, e menos ainda a resposta da irmã, mas seria hipocrisia dizer que deixou de se regozijar com o que sucedeu. Apanhada de surpresa pelo intruso indesejável, a infeliz estacou, perplexa, o olhar congelado num ponto fixo do painel de ébano do piano. Sussurrou umas sílabas incompreensíveis antes de quedar-se imóvel, suando em profusão na nuca e nas têmporas. Sem saber direito o que acontecia no tablado, o público permaneceu suspenso num suspiro sobressaltado, pasmo, paralisado em sua incompreensão. Antes que alguém esboçasse a intenção de agir, a mulher perdeu os sentidos e tombou ao chão, levando a irmã consigo.
Aquilo não passaria de um lamentável episódio e teria sido creditado, como foi, a mero mal-estar, uma oscilação da pressão ou simples estafa, caso a recuperação de Joelma fosse rápida e satisfatória. Rápida foi, pois bastaram uns poucos minutos para ela despertar refeita do susto. Quanto à sua condição mental, bem, pode-se avaliá-la pela quase completa perda do mínimo contato com a realidade circundante que passou a demonstrar naquele e nos dias seguintes. Mal era capaz de formular uma frase completa e, quando o fazia, raramente conseguia emprestar a ela o mínimo sentido. Comportava-se como uma autista para quem a realidade ia pouco além de uma paisagem borrada na neblina. Era como se uma parte de seu cérebro continuasse refém do susto e impossibilitado, por tempo imprevisível, de reagir aos estímulos. Exatamente tudo o que a gêmea pretendia.
Muitas vezes, porém, a orfandade e a companheira de primeira hora do êxito. Cerca de uma semana depois desse incidente, as duas foram até o quartinho de empregada, um cômodo adjacente à cozinha, nos fundos da casa, buscar uma vassoura e um balde. A escuridão da noite, que a fraca lâmpada pendurada por um fio em nada ajudava a debelar, emprestava às tralhas amontoadas por toda a parte uma aparência ainda mais caótica e desleixada. Por duas vezes, elas tropeçaram em uma pá ou outra coisa largada no chão e por duas vezes derrubaram cestos contendo pregadores e panos sujos. A penumbra também tratava de moldar à sua maneira peculiar a realidade em torno.
“É a hora”, pensou Joana, e o ambiente soturno lhe dava razão. Tudo ali conspirava para dar o tom fatídico que o grand finale pedia. Bastava que ela pressionasse a tecla certa para que a corda da fobia estirada na alma de Joelma vibrasse na nota adequada e pronto. Estaria livre da incômoda irmã para sempre, ou assim imaginava.
- Nossa mãe do céu! – gritou, súbito, numa ação calculadamente teatral – Olha só isso! Este lugar está infestado de aranhas! São milhares! Tem um monte delas pelas paredes, pelo chão, por tudo quanto é lado! Vem, vamos sair daqui depressa!
Antes que elas movessem um único pé, contudo, a outra já havia sido dominada pela inação. A paranóia instalada em sua mente ergueu a quimera de que uma ninhada de aracnídeos as atacava, subindo pelas pernas, pelos braços, invadindo as roupas, saltando sobre os cabelos negros, arranhando a pele, mordendo a carne com as presas afiadas. Logo, se viu enredada no pânico e começou a falar histericamente e a sacudir e a agitar o corpo, numa espécie de frenesi de loucura que a deixou completamente fora de si.
Alguns instantes depois dessa patética demonstração de desvario, estacou.
Ficou tão imóvel quanto uma estátua, os olhos revirados, uma baba branca e espumosa escorrendo das comissuras dos lábios. A coitada era o retrato acabado da demência, os cabelos desgrenhados, um leve tremor chacoalhando o queixo. A mente, uma lousa apagada, quiçá para sempre. Enfim, o plano de Joana havia se consumado e ela fez aquilo que vinha esperando há muito tempo para fazer. Torceu o pescoço para o lado e soltou uma vigorosa cusparada no rosto da infeliz irmã xifópaga.
Sentia-se livre, finalmente. Livre das manhas e manias da outra. Livre de ter de dar explicações e pedir licenças por tudo o que pretendia fazer. Livre das interferências dela em suas vontades. Agora não haveria desejos que não fosse capaz de externar, e pouco importava se teria que carregar Joelma como um fardo mudo e catatônico de um lado para o outro, feito um saco de cimento. A sua alegria era tão desabrida que a contingência de conviver com uma alma-penada, inerte e alheia a tudo, pelo resto da vida era o que menos a incomodava. Podia suportar isso, tanto quanto havia suportado por mais de cinco décadas a absoluta impossibilidade de levar uma existência do jeito e do modo que sempre quis, sem a intromissão, sem a... sem a...
 Foi a sua imaginação exacerbada pela euforia ou aquela aguilhoada havia sido uma picada na mão direita?
Instintivamente, ela baixou os olhos para o braço. Uma vermelhidão aflorava na palma... Uma picada de aranha, sim, era isso, só podia ser... Obra de uma caranguejeira ou algo assim... mas que... Merda! Merda! Merda! A ardência... queimava como fogo em brasa... a dor... começava a se tornar quase insuportável... e veio acompanhada de uma tontura que a fez perder o equilíbrio... também passou a sentir náuseas... um suor frio escorria pelo pescoço... Isso não é justo! O veneno devia estar agindo rápido... precisava fazer alguma coisa... o que quer que fosse... chamar ajuda... pedir socorro... alguém, pelo amor de Deus...  mas não conseguia falar... as palavras simplesmente não saíam da garganta... até respirar era difícil... já havia perdido o controle dos movimentos... Joelma, sua imprestável... se mexe... Joelma... anda... faz alguma coisa... ou a gente vai... a gente vai...

São Paulo, 01 de outubro de 2016



 
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