e Leia a versão integral do conto "A Fábula do pequeno prodígio" ~ Diário do Moretti
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sábado, 3 de setembro de 2016

Leia a versão integral do conto "A Fábula do pequeno prodígio"




A FÁBULA DO PEQUENO PRODÍGIO

Por Marco Moretti

O anjo Israfel, em quem as fibras do
Coração formam um alaúde e que tem a
Mais doce voz de todas as criaturas de Deus.”
Alcorão

"Anjo tocando alaúde", de Giovane Batista di Jacopo - Fonte: Wikipedia

      Os primeiros sons a saudarem o despontar do carro do sol no horizonte daquela manhã fria de junho foram o clact-clact, o pict-poct e o tap-tap esparsos de sapatos dos mais diversos modelos, cores e preços batendo apressados no asfalto negro. À medida que novos transeuntes despejados pelos trens do metrô, dos ônibus lotados e táxis chegavam ao centro da cidade para um novo dia de trabalho, o rumor avolumou-se até converter-se em uma cascata de estalos secos sem nenhuma outra harmonia que não a do costumeiro caos de passos desencontrados, e que formava uma partitura dodecafônica digna de um Gershwin[1]. O crraaatac das portas de ferro enferrujadas de um botequim sendo erguidas impôs-se aos ouvidos com a sutileza de uma matraca sendo percutida em meio a um samba de Noel[2]. Logo, uma sinfonia de riiips e scunchs e grrants e ruuumps ergueu-se no ar perfumado com o odor nauseabundo das guimbas jogadas na sarjeta e médias arrotadas que se insinuavam nas narinas. O scrriiinch estridente do frear brusco de um ônibus, seguido do costumeiro murmúrio de reclamações dos passageiros, assaltou por um instante o monótono despertar das consciências da metrópole. Um coro de apitos e cornetas de plástico, como as vuvuzelas em um estádio de futebol lotado, disputou espaço nas atenções abarrotadas com as vozes dos locutores das rádios AM anunciando invariavelmente a previsão do tempo e a situação do trânsito às 7 horas e, sem que isso despertasse a mínima surpresa, invariavelmente incorretas. O ritmo espantosamente desagradável de um pagode escapou do alto-falante de uma das dezenas de loja de roupas, na esperança de atrair clientes de flagrante mal gosto. “Abre o doc no arquiv do meu compu e env pro Hermó”... “Vam almoç hoj no padoc? Est com saud de cê”... “Diz pro chef que o metr atras e vô cheg atras na reuni”... tartamudeavam, engolindo as sílabas, mastigando as letras, esganados pela pressa, os advogados, as secretárias executivas e os gerentes de marketing, ouvidos e lábios colados aos celulares, sem descuidar dos marreteiros e pedintes que atravancavam o caminho. A cacofonia de barulhos ergueu-se semelhante ao marulhar do oceano bravio, sem ordem nem qualquer disciplina, escravo do acaso, e foi quebrado subitamente quando um acorde agudo, cortante como uma faca incandescente descendo sobre uma barra de manteiga, ousou sobrepor-se aos demais sons. Floresceu, pois essa é a palavra mais adequada, espontaneamente do meio das ruas agora apinhadas, sem que a princípio se pudesse atentar para a fonte de origem. Era tão singularmente modulado, tão perfeito na execução, que tornou-se impossível não emprestar-lhe os ouvidos. Somente os surdos e os boys com os fones enterrados nos tímpanos vomitando a berraria das bandas de heavy metal podiam ficar insensíveis a ele. Pareceu familiar a muitas pessoas, que o confundiram com o gorjeio de uma ave, quiçá um sabiá, mas logo a maestria com que era executado autorizava a identificá-lo com os trinados de um violino. Todos os olhos, todas as cabeças, voltaram-se então para a direção de onde provinha a música, e se depararam com a figura inusitada de um jovem carreteiro, que abria caminho entre os executivos e os vendedores ambulantes com a alegria disfarçada de displicência de um Sinatra [3] sarará, magrelo como o astro dos crooners em seus primórdios, esfarrapado e sintomaticamente desdentado. O detalhe inusitado, a vírgula de estranheza que coloria aquela figura singular, é que não se tratava de nenhum Itzhak Perlman[4], nem brandia um stradivarius ou instrumento algum de cordas. Para espanto daqueles que jamais o tinham visto, as notas delicadas, indistinguíveis de um violino, provinham única e exclusivamente de seu bem afinado gogó.
      Houve quem se admirasse com a soberba execução, e até estancasse a marcha para o trabalho a fim de admirar tal exibição de maestria musical. A turba escutava-o espantada, a mesma curiosidade dilatada de quando os motoristas enfastiados se põem a observar as cabriolas de um malabar equilibrando um trio de laranjas nos semáforos. Por um fugaz instante, o rapaz converteu-se no centro de todas as atenções, impondo com sua singular voz um constrangedor silêncio à barafunda de ruídos que emanava da natural agitação diária. As conversas frívolas, as gargalhadas espalhafatosas, os xingamentos surdos secaram nas bocas entreabertas de encanto das muitas dezenas de pessoas que proliferavam ao derredor. Mesmo o menor alarme dos celulares cessou por um átimo de tempo. Um ou dois, os poucos entendidos na arte musical, confabularam com seus neurônios e julgaram reconhecer naqueles acordes uma sonata de Mozart ou a Fantasia para violino e orquestra de Schumann. Os demais, a imensa maioria daquela plebe ignara, considerou-o mais ou menos pelo que sua miserável compreensão lhes ditava, o som similar ao do arranhar estridente de um giz partido em um quadro negro, ao qual responderam com um arrepio de aflição, seguido do torcer de narizes e esgares de bocas. A apresentação foi resolvida com uma salva de palmas e vivas jocosos que jorraram das janelas dos prédios de escritórios e despencaram sobre o solo com a intensidade de um coral gregoriano. Tão repentinamente quanto se calou, a multidão acordou então de seu enlevo como se experimentasse um segundo despertar e retomou a atividade febricitante de costume. Aquele fugaz momento de exaltação foi o mais próximo que um dia conseguiram chegar do ideal de beleza platônica, tão pura e perfeita que lhes roubava quaisquer parâmetros de comparação, eles, que viviam imersos na mediocridade dos ídolos pop decantados nas telas cintilantes das televisões.
      Como uma supernova cujo brilho resplandece com a força ofuscante de mil sóis para logo depois esvair-se, minutos depois não restava mais traço algum de Amadeu, o jovem prodígio. Sua breve apresentação havia caído no esquecimento coletivo das ocupações diárias com a velocidade com que um sanduíche de fast-food é digerido por um estômago faminto. Também ele voltou ao anonimato protetor do trabalho, recolhendo aqui e ali pedaços de papelão velho e latas de refrigerantes amassadas, além de muitos outros refugos. A atenção, os apupos e até mesmo as reticências já eram para ele prêmios suficientes, que acolhia com deleite. Nas calçadas turbulentas tinha seu talento, se não reconhecido, ao menos notado, o que, para um menino de sua idade e conformação, não deixava de ser um feito e tanto. A fama dos grandes cantores, o sucesso junto às multidões, eram vaidades estranhas a ele. Tudo o que desejava, no acanhado horizonte de suas realizações, era experimentar a indefinível sensação de pertencer ao gênero humano e conhecer a afeição e o amor das outras pessoas.
      O alcance desses anseios estava longe de atravessar-lhe a imaginação. Sobretudo porque trazia ainda bem vivas e ardentes as reações àquilo que alguns poderiam se referir como um dom, mas que, dadas as circunstâncias do local de seu nascimento e criação, semelhava mais a uma atávica maldição bíblica. Já ao primeiro vagido, logo ao deixar o ventre materno, a voz saíra-lhe daquele jeito, mas desafinada o bastante para ferir os ouvidos da parteira com sua aguda estridência.
- Filhote de cruz-credo! – protegeu-se ela por trás do sinal-da-cruz.
Quase que de imediato, as benzedeiras foram chamadas para, com suas rezas e rituais, purgá-lo do que os vizinhos chamavam à boca pequena de “coisa ruim”. Orações, mandingas e simpatias de nada adiantaram e o menino prosseguiu na lenta marcha rumo a uma vida eivada de sofrimentos enquanto toda a sua Uberaba natal, provinciana e supersticiosa, lamentava a terrível sorte que os fados lhe haviam confiado.
      Falar, falar como uma pessoa normal, isso Amadeu jamais aprendeu. Era, por natural predisposição, incapaz de soletrar uma palavra, uma só letra que fosse, quanto mais manter conversação decente. Tudo o que conseguia produzir com as cordas vocais era aquele som arranhado semelhante ao do violino. Da estupefação inicial, os pais, irmãos, agregados e compadres passaram para a curiosidade mórbida, a mesma que move a plebe a espiar uma aberração de circo, a exibição de um gêmeo siamês ou algo do gênero, e de “monstruosidade” era por alguns apontado, enquanto servia de combustível para todo o tipo de piadas de mau gosto, dessas que se costumam contar em mesas de bar.
- Dizem por aí que a mãe dele engoliu uma corneta quando estava grávida!
- Nada disso, foi mesmo um pintassilgo que ela comeu no almoço! – riam-se os cachaceiros desocupados.
Os ouvidos daquela gente, embotados por uma vida inteira alimentada por músicas lastimáveis e canções deploráveis, antepunha em suas mentes tacanhas uma viseira intransponível à apreciação do talento inato da criança, que só permitia comparação, mesmo nas condições rudes em que Amadeu cresceu, a um virtuose de gênio. Antes, foi com doses crescentes de repulsa que suportavam o “barulho” de sua voz aguda, extremamente aguda.
      Todo o esforço se fez e foi pouco para “emendá-lo”, no dizer da mãe, termo que traduzia-se, as mais das vezes, em surras homéricas, de cinta de couro com fivela de bronze na extremidade. Porém, tudo o que logravam era arrancar-lhe sangue e dentes da boca esfolada. Mesmo os entes mais próximos eram incapazes de compreender, mergulhados que estavam nas trevas da mais irredimível ignorância, que o garoto não era do jeito que era por vontade própria, por “turronice”, mas por ter nascido assim. Houvesse tido outra sorte, brotado no seio de uma família diferente, sob outro teto, em circunstâncias diversas, quem pode dizer o que o destino lhe teria reservado? Que realizações, que grandes sucessos e feitos enormes o aguardariam nas esquinas de uma vida alternativa? Mas ali, relegado aos limites estreitos das paredes de taipa de um recanto em que as luzes da civilização jamais brilharam a não ser por poucos e esparsos instantes, que esperança tinha ele de cumprir seu manifesto potencial?
      Os pais preferiam vê-lo como um estorvo do que por aquilo que de fato era, um prodígio, possuidor de uma dádiva divina que a poucos é outorgada. Acharam logo uma solução radical e trataram de amordaçá-lo, amarrando-lhe lenços embebidos em pimenta malagueta na boca, na vã esperança de “curá-lo” dessa hediondez. Contudo, toda vez que se viam obrigados a desamordaçá-lo para que pudesse comer e beber, os trinados voltavam a escapar da garganta do jovem, como pássaros aprisionados que tornam a voar mal é aberta a gaiola que os contém. Por mais que o pai e a mãe se esfalfassem, por mais que o castigassem de todas as formas concebíveis a um ser humano, um fato óbvio parecia fugir-lhes ao raciocínio, o de que nem as preces mais fervorosas das comadres, as promessas sinceras, os rigores das penitências impostas pelos padres são capazes de mover um milímetro sequer a natureza humana de seu curso.
      Assim, diante da flagrante impossibilidade de mudar o filho, senão em sua essência, ao menos na superfície, decidiram de comum acordo exilá-lo de seu convívio. Já que não podiam “corrigi-lo”, ao menos que ganhassem algum dinheiro com ele. Amadeu foi, assim, entregue aos cuidados de um carroceiro velho e pinguço que de quinzena em quinzena dava de passar pelas portas das casas recolhendo panelas velhas, fogões quebrados e toda a sorte de bugigangas, para que se encarregasse de levá-lo para bem longe de seus ouvidos, para um lugar onde não mais oferecesse constrangimento à família e seguisse sua própria e bizarra estrela.
      Consumado o trato, o menino, encarnação mais esquálida do José bíblico, passou a acompanhar o homem em suas andanças sem rumo certo e nunca mais viu ou ouviu falar dos pais e irmãos. Também ao velho desgostavam os sons de sua voz e por conta dessa repulsa evitava Amadeu de se pronunciar, preferindo fingir-se de mudo em sua presença. Somente na solidão das horas mortas da noite, quando a melancolia o assaltava, é que se permitia emitir algumas notas sorrateiras, e ainda assim tão baixas, tão esmaecidas pelo medo, que se confundiam com o cricrilar dos grilos. Mesmo com todo o fardo de vicissitudes que lhe pesava nas costas, saíam esses arremedos de partituras encharcados de esperança, e não de tristeza, como seria de se esperar. Um espírito menos resistente teria sucumbido ao desespero atroz. Ele, não. Por mais incompreendido, espezinhado, humilhado e desprezado que tivesse sido, o jovem prosseguia confiante.
      Quando tempos mais difíceis se anunciaram, os dois companheiros migraram para a cidade grande na vã ilusão de que lá obteriam ganhos mais substanciais. Às vicissitudes de uma existência por seu natural sofrida, magra de luxos, somaram-se a indiferença dos transeuntes e a perfídia dos demais carroceiros. As insuportáveis dificuldades que sobre ambos recaíram, o velho reagiu da única forma que sabia e conhecia: encharcando-se de pinga até converter-se em um potencial coquetel molotov, que em dias menos propícios inflamava-se de frustrações e ódios até a medula e, quando não dava de espancar o jovem, saía no braço com os sem-teto seus concorrentes sem que propósito algum se divisasse em suas bravatas. Em um desses rompantes de bebedeira exacerbada, provou nos próprios ossos a segunda lei da termodinâmica aplicada como resposta à própria violência desmedida e terminou os dias estrebuchando no alto de um nauseabundo amontoado de lixo.
      Além das cicatrizes e hematomas distribuídos parcimoniosamente pelo corpo franzino, Amadeu herdou do velho bebum a carroça e o par de sapatos estropiados, rasgados, mas ainda assim melhores do que as solas calejadas dos pés nus. Assumiu assim o encargo de carroceiro e passou a disputar o asfalto com as motocicletas, os automóveis e os ônibus. Bem ao contrário do que se pode imaginar, a tristeza passava ao largo de sua alma, e em vez de infelicidade era exultação o que sentia agitar-se nas entranhas. Nem poderia ser diferente. Pela primeira vez na vida, experimentava o sabor de uma liberdade irrestrita, ilimitada como os espaços profundos, jamais suspeitada pelos homens de terno e gravata que mal se apercebiam de sua existência, e como um neutrino, invisível, intangível, percorria com a extrema desenvoltura de um fantasma as ladeiras e viadutos da cidade. Talvez mais importante do que tudo, podia agora, finalmente, dar vazão à sua singular voz, soltá-la do casulo da intolerância em que havia se recolhido para bater as asas, alegres, coloridas, tênues como as de uma borboleta mas ainda assim admiráveis, ao sabor de sua vontade implacável, sem temer que as mãos rudes daqueles que não o compreendiam o surrassem como a um cão sarnento.
      Como era de se esperar, as expressões de espanto e deleite passaram a se misturar nos rostos das pessoas e uma mancha de satisfação perpassava-lhe o espírito toda a vez que se animavam a aplaudi-lo efusivamente. Com o tempo, treinou os ouvidos e educou a voz o suficiente para execuções mais elaboradas, que mesmo um músico experiente encontraria dificuldade em realizar. Desnecessário dizer que tão analfabeto era em leitura e escrita quanto no conhecimento de música erudita. Bach, Beethoven, Schubert eram para ele nomes desprovidos de qualquer significado. Se um dia chegou a escutar uma sinfonia de Mozart, isso não deixou impressões mensuráveis em seu caráter e seria incapaz de identificar uma nota que fosse de suas composições. Cantava, se é que se pode empregar essa expressão, intuitivamente, como um passarinho, sem a mínima noção da soberba preciosidade que representava. Como a maioria dos prodígios, não tinha consciência da própria grandeza. Era naturalmente dotado e naturalmente genial.
      Justamente nesse caldo explosivo de características únicas é que se aninhava o germe de sua perdição. Fosse o rapaz menos suscetível a atrair as criaturas mais desprezíveis que o Criador já engendrou, como um ímã que puxa para si as limalhas de ferro, seu destino teria sido diferente. Certamente, menos atribulado e eivado de tropeços.
      Houve até quem se dispusesse a desafiá-lo. Um rapazote de cara amarrotada e ares de esperteza certa vez ousou interrompê-lo em uma de suas mais concorridas exibições. Supunha erroneamente o vivaldino que Amadeu não passava de hábil imitador de sons, como ele próprio era e já o demonstrara em um sem número de oportunidades, e principiou a macaquear alguns sons aleatórios. Reproduzia com naturalidade toda a sorte de instrumentos, de flautas a violas da gamba, de oboés a pandeiros, e não havia quem não dissesse que pecava somente pela perfeição. Com igual habilidade era capaz de mimetizar o cantar dos pássaros e o ruído dos mais variados objetos, de chaleiras fervendo e trens apitando ao ranger das portas.
      Vendo que a maioria das pessoas passara a ignorá-lo solenemente, Amadeu fez menção, literalmente, de puxar a carroça do lugar, mas seu rival o deteve e fez questão de provocá-lo para uma espécie de concurso de virtuosidades. Ainda que relutante, mais resolvido a recolher-se na timidez que em concorrer pelo prestígio como dois cavalos disputando, pescoço a pescoço, o grande prêmio, o jovem prodígio aceitou tomar parte no jogo.
      O desafiante, então, principiou a executar o primeiro movimento do minuetto da Sinfonia dos Brinquedos[5] completo, e a quem se dispusesse a prestar atenção detidamente era como se uma orquestra inteira estivesse no local. Amadeu respondeu encetando o allegretto da mesma composição, que conhecia de ouvido, limitado, obviamente, pelo samba de uma nota só de sua voz aguda. Dessa forma, os dois sucederam-se na apresentação em graus crescentes de qualidade e diferentes em intensidade, superando-se a cada vez com surpreendente maestria e teriam terminado a competição rigorosamente empatados se ao final o provocante rapaz não houvesse sucumbido ao desgaste que a disputa o conduzira, arfando sem ar de cócoras no meio-fio, à beira da sufocação. O que este era capaz de imitar empregando recursos artificiais, embora notáveis, Amadeu fazia sem despender qualquer esforço, graças aos seus talentos inatos. O que para um era artifício, para o outro era a natureza em estado bruto.
      Esses mesmos dons não demoraram a despertar a atenção de um malandro de carteirinha chamado Zacarias. Seco como uma romã madura no pé, os olhos, dois furos pretos encravados no rosto passado, era uma figura intrinsecamente desprezível, de modos bruscos e falas intumescidas de palavrões os mais coloridos. Com a maestria de um conde chupador de sangue, acercou-se de sua vítima com os aparatos habituais, uma lábia ao mesmo tempo ferina e sedutora e um olhar de enganadora confiança. Atacou a jugular palpitante em que fluía o sangue das ilusões juvenis de Amadeu com a sanha de um vampiro decidido a fincar as presas afiadas na carne macia dos ingênuos sonhos embrionários do rapaz. Derramando em seus ouvidos o veneno das promessas enganadoras, Zacarias convenceu-o, ao cabo de uma insistente pregação, a oferecer os seus doces trinados à apreciação dos transeuntes embasbacados, enquanto, sorrateiramente, se ocuparia em surrupiar dos bolsos e bolsas generosas quantias em moedas, notas e, quiçá, relógios e jóias, que repartiriam entre ambos em proporções iguais.
      - Confie em mim, rapaz – dizia o larápio – Juntos, a gente vai formar uma dupla e tanto. Com esse seu... dom e o meu tino pros negócios, temos um futuro brilhante à nossa frente. Não está vendo, não consegue ver? Não há limites para o que a gente pode fazer se trabalharmos lado a lado, como sócios. Vamos ficar ricos, podres de ricos, mais que isso, a gente vai ser famoso, não é isso o que você quer? Pois então, deixe as preocupações cá comigo, faça o que eu falo e nada tema!
      Feito o acerto, fincaram pé na principal praça da cidade, estrategicamente assombreados pelas altas e imponentes torres góticas da igreja matriz, com um lenço xadrez aberto aos pés e uma expressão de resignada penúria estampada no rosto. Mal Amadeu soltou a voz em meio à turba, dúzia e meia de passantes dignou-se a estacar os passos para admirar a sua arte. Na maioria, curiosos tão desprovidos de dinheiro quanto de sensibilidade para apreciar o que ouviam. Como o flautista de Hamelin conduzindo os ratos hipnotizados para a perdição, o jovem encantava a multidão com o melodioso som de violino que escapava dos lábios, ao mesmo tempo em que Zacarias roía-lhes os pertences.    
          A féria do primeiro dia foi promissora. Ganhos ainda maiores estavam prometidos para os dias consecutivos, e Zacarias esfregava as mãos de satisfação, já dando largas à imaginação e delirando com conquistas ainda mais ousadas, uma participação em um programa de auditório dominical na tevê, viagens, patrocinadores e o que mais sua ambição desmedida lhe outorgasse. De fato, a prosperidade abriu as asas sobre os dois sócios, cumulando-os com riqueza farta para os seus humildes padrões. Meses se passaram sem que o azar ou a polícia dessem as caras para estragar o lucrativo negócio. Apenas uma vez foram apanhados em flagrante por um sujeito menos desavisado, e seus esqueletos teriam sido lançados na mais funda das celas se não tratassem de dar no pé para bem longe. Após uma ou duas semanas de autoimposto ostracismo, retomaram a atividade com ambição redobrada. O quanto quiseram e o quanto puderam, assaltaram os bolsos dos incautos até as fronteiras do escândalo.
      A natureza, forçada a exceder-se além de suas fronteiras pela ganância que não conhecia limites de Amadeu e seu “empresário”, deu o troco ao fim e ao cabo de um par de meses. Os primeiros sinais de alerta de que algo não ia bem com as cordas vocais do pequeno prodígio manifestaram-se em uma rouquidão fora de hora, inesperada. Como nenhum dos dois deu ouvido a esses sintomas, prosseguiram alegremente em sua sinuosa descida ao abismo. Logo, era o próprio rendimento do negócio que já não prosperava. As notas fraquejavam, saíam, por assim dizer, anêmicas da garganta, sem forças sequer para tamborilar os tímpanos e, por mais esforços que se fizessem para amenizar o problema, os gargarejos de água e sal e as compressas de água morna com vinagre só serviram para adiar o desastre inevitável, não para rechaçá-lo.
      O fim dessa ópera, que se encerrou não com um retumbante finale mas com o cerrar das cortinas do mutismo mais abjeto, deu-se em uma manhã chuvosa de maio. A situação, que não ia bem das pernas, com a frequência dos “clientes” cada vez mais escassa em grande medida pelo raquítico desempenho de Amadeu, desandou de vez quando ele se viu incapaz de escarrar um ínfimo som sequer. Por mais que fosse buscar no fundo do peito o ar para vibrar as cordas vocais, somente o silêncio foi capaz de produzir. Tossiu, forçou, mas nada. Era o fim anunciado, aquele pelo qual tanto temera e tanto aguardara.
      O desespero apossou-se de Zacarias, que a todo custo tentou recuperá-lo. Das ameaças vãs partiu sem demora para os xingamentos, e dos tapas aos murros e pontapés não foi preciso mais que um passo.
      - Fale, desgraçado! Por que não quer falar? Abre essa tua boca e canta, vai! – admoestava, quase implorando, ele - O que foi que eu te fiz pra você fazer isso comigo, sócio? Não te tratei como um irmão? Não cuidei de você quando mais precisava? E é desse jeito que me retribui, me deixando na mão? Sabe o que vai acontecer com a gente se não melhorar, sócio? Tem alguma vaga ideia? Anda, moleque, cospe dessa sua garganta a música que vai fazer a gente ficar milionários! Pelo amor de Deus, homem, desembucha!
Ao constatar, intumescido de raiva, que o rapaz não era mais capaz de emitir um único som sequer e que a galinha dos ovos de ouro havia se exaurido, surrou-o até se cansar para depois abandoná-lo, salpicado de sangue, em uma sarjeta fétida. Desconsolado e coberto de hematomas até os ossos, o menino, agora mergulhado na mais hedionda mudez, ainda uma vez foi atrás do ex-companheiro, mas foi recebido com pedradas e repelido com a rudeza peculiar a Zacarias.
      Descartado como um bago de laranja chupado e incapaz de vislumbrar uma ponte de perspectivas que o conduzisse aos campos elísios da almejada felicidade, Amadeu retomou aos antigos afazeres com a costumeira resignação dos vencidos. Havia capitulado a mais um embate com esse inabalável, implacável e invencível adversário a que todos chamam de vida, e não hesitaria em apostar a cabeça com o diabo em como outros mais duros, mais atrozes, viriam. Assim, recolheu a carroça que passou a ser a sua única garantia de sobrevivência, há meses esquecida em um beco fétido e por capricho da Providência ainda intacta, e saiu a catar os detritos da humanidade pelas calçadas da cidade.
      Encontrou pela frente um inverno rigoroso, úmido e de ventos cortantes, que açoitava sem piedade seu corpo franzino e contribuiu com generosas cotas de friagem para piorar o estado de sua garganta. Devido às condições extremas daqueles dias, o jovem perdeu toda a capacidade de se comunicar oralmente e era apenas por intermédio de sinais e expressões faciais que exercitava a esparsa, ainda que necessária, comunicação. Reduzido a um nada, tornou-se joguete das intempéries, como uma folha morta carregada pela vontade inconstante das brisas gélidas.
      Por mais preocupante que fosse a situação, Amadeu prosseguiu em sua faina diária, afeito já às vicissitudes. Protegendo-se como lhe permitiam as forças recalcitrantes, cobrindo-se à noite com fatias amontoadas de caixas de papelão e de dia com um cobertor de lã puído infestado de piolhos, pulgas e carrapatos, experimentou aos poucos pronunciada melhora nas cordas vocais. Em pouco tempo, as dores eram coisa do passado e principiou a arranhar alguns timbres, entremeados a tosses catarrentas gradualmente menos constantes. Contudo, sua voz prodigiosa e única estava a um continente de distância dos dias de glória, quando sozinha era capaz de mesmerizar multidões com sua graça e beleza.
      A primavera chegou e com ela renovou-se a promessa de ares frescos e reanimadores. A vivacidade do menino renasceu com o mesmo brilho de outrora. Havia ele reatado os votos de alegria com a vida e feito as pazes com o passado de dores. Embora evitasse entoar qualquer som, o mínimo acorde que fosse, bastava-se no entusiasmo contagiante com que guiava a carroça pelas ladeiras apinhadas de gente subindo e descendo, e um sorriso, antes tímido, agora esboçava-se com menos pudor no rosto sujo.
      Foi em uma terça-feira corriqueira sob todos os aspectos, embora permeada por insuspeitada agitação entre os vendedores ambulantes, que o jovem avistou, ainda mergulhado no poço lamacento de sua autocomiseração, a figura esbelta e irresistivelmente bela de uma jovem florista sentada no beiral de um viaduto. Os cabelos curtos cacheados emolduravam um rosto faceiro, em que se insinuavam os traços débeis dos lábios finos e deliciosamente marcados por covinhas nas laterais, encimados por um nariz arrebitado de dimensões modestas, como o seu olhar profundo sob as sobrancelhas desenhadas com esmero. A natureza havia sido pródiga com a moça ao dotá-la de atributos calculadamente precisos, como só o cinzel de um Rafael em seus momentos mais inspirados ousaria competir. Não era particularmente esfuziante, nem exibia seios ou coxas fartas para o deleite dos marmanjos, mas justamente em sua recatada beleza é que residia a aura de encanto que envolveu Amadeu de maneira ao mesmo tempo tão suave e firme.
      O contato inicial, evitado por ela a todo custo, consumou-se em uma troca de olhares maldisfarçados, acompanhada muito de perto de uma explosão de sorrisos de ambos. Naquele dia, porém, isso foi tudo o que o rapaz logrou arrancar daquela garota, cuja mera lembrança assombrou-o pelo morrer do dia e o anoitecer, assediando-o com pensamentos de proibida lascívia na madrugada prenhe de calores excitantes que a todo o custo não o deixaram conciliar o sono.
      Ao amanhecer, mais disposto do que nunca, retornou ao local em que a vislumbrara na esperança de reencontrá-la e travar um contato mais imediato. Contudo, tão logo chegou ali a decepção estampou-se em seu rosto com o peso de uma mortalha sendo colocada sobre um defunto. A moça não se encontrava em lugar algum que sua vista pudesse alcançar. Espantado a ponto de encharcar os olhos de lágrimas, percorreu toda a extensão do viaduto perscrutando cada recanto na esperança vã de localizá-la. Esperou, esperou e esperou e tornou a esperar enquanto as areias do tempo escorriam vagarosa e dolorosamente, sem que captasse qualquer sinal dela. Então, ao entardecer, retirou-se acabrunhado para o seio do próprio desânimo, reconfortando-se somente com a lembrança daquele olhar ensolarado que havia iluminado sua existência de forma tão avassaladora no dia anterior. Chegou a indagar-se se não teria sido uma aparição celestial, um engano dos sentidos, um ludibrio da razão fora dos eixos.
      Ao chegar de volta ao beco que lhe servia de morada, no entanto, a surpresa sobrepos-se à tristeza quando se deparou com a jovem encostada, de pé, a um poste, aparentemente já cansada de esperá-lo. Sem medir as atitudes intempestivas, Amadeu largou a carroça de lado e correu ao encontro da moça que o consumia da cabeça aos pés com os olhos grandes como duas ameixas. Meio sem jeito, enroscando nas próprias pernas bambas, aprumou-se como podia ao parar à sua frente e esboçou um fiapo de sorriso que foi instantaneamente correspondido. Encorajado por essa fugidia reação, o rapaz inspirou fundo e tomou a atitude mais audaciosa de sua mirrada vida até aquele momento: pegou a mão direita da moça e afagou-a com todo o carinho que poderia ofertar, e como retribuição mereceu um terno, ainda que pudico, beijo na bochecha, que o encheu de contentamento como jamais conhecera e fez seu coração vibrar como um diapasão estimulado por uma nota de aguda felicidade.
      A partir desse dia, por mais necessidades que experimentassem, por piores que fossem os vendavais do destino que os açoitassem, por tantos mares bravios da mesquinhez humana quantos navegassem, não se permitiram perder um ao outro de vista e já não sabiam viver tão longe a ponto de o esquecimento ofuscar-lhes os corações. Amadeu reconciliou-se com as muitas vocações que preenchiam sua alma e a voz, potente, bela, indomável em sua natureza bravia, voltou a jorrar a plenos pulmões nos ares enfumaçados, irrompendo nos ouvidos da multidão alienada como as águas de uma represa invadindo um vale silencioso. O andamento de sua vida, agora, não mais era dominada pelo ritmo lento, modorrento, de um adágio, mas adquirira a energia e o colorido da insensatez desprovida de limites que costuma acometer os apaixonados, e cuja mais próxima descrição musical seria a de um allegro vivace.
      Mas em nenhuma ocasião essa irreprimível sensação de felicidade fazia-se notar com mais força do que naqueles momentos, porquanto breves fossem em sua duração, eternos eram em sua intensidade, em que ele depunha a carroça no chão e sentava-se ao lado de sua amada sobre a mureta do viaduto. De mãos dadas, os dois regalavam-se com demonstrações de afeto que pareciam não querer ter fim, derramavam-se sem cessar em beijos recatados e olhavam-se enternecidos no fundo dos olhos. Quase sempre, Amadeu exprimia a sua paixão pela jovem florista entoando o mais alto e o mais impetuosamente que podia os acordes de uma composição que até os anjos do céu se prostrariam para ouvir. Nessas horas, ele se deixava esquecer do mundo e tudo o que nele habita e contentava-se em ser apenas ele mesmo, como um sabiá que não deseja nem talvez saiba ser outra coisa.
A única nota que repercutia em seu coração era o da gratidão, sim, pois, pela primeira vez desde que saíra do ventre da mãe, encontrou alguém que não o rejeitava por causa dos dons extraordinários e tampouco queria deles se aproveitar. Em vez disso, a florista o havia aceitado como era, e parecia não só apreciar o seu sublime talento como amá-lo justamente por isso. Infelizmente, essa última constatação era tão verdadeira quanto um stradivarius falsificado, não passava de uma ilusão habilmente construída pela mente do carroceiro e somente por ela, pois o fato, ignorado por ele, é que a jovem não só era incapaz de se deleitar com a voz de seu namorado como era inteiramente indiferente a ela. Isso porque, sem que Amadeu soubesse e sem que ninguém tivesse a coragem de contar-lhe, a bela florista de olhos amendoados era e sempre fora, desde o nascimento, completa e irremediavelmente surda.

São Paulo, 03 de setembro de 2016


          




[1] George Gershwin (1898-1937), músico e compositor norte-americano, autor de obras como Rhapsody in Blue e An American in Paris.      

[2] Noel Rosa (1910-1937), sambista carioca, autor de várias canções famosas de Carnaval, como a marcha Pierrô Apaixonado.    

[3] Frank Sinatra (1915-1998), famoso cantor e ator norte-americano.

[4] Famoso maestro e violinista israelense.

[5] Atribuída a Leopold Mozart, pai de Wolfgang Amadeus, e composta provavelmente em 1786.

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