e Leia a versão integral do conto "O Enigma da rosa" ~ Diário do Moretti
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sábado, 2 de julho de 2016

Leia a versão integral do conto "O Enigma da rosa"




O ENIGMA DA ROSA

Por Marco Moretti

“É absurdo não aceitarmos a vida como ela é
e deixar que o passado nos domine.”
Leon Tolstoi

"Rosas e jasmins" - detalhe - Quadro de Auguste Renoir - Fonte: Wikipedia

A primeira vez que deparei com Aurélio Machado foi num dos corredores da Biblioteca Mario de Andrade. Eu sei que esse não é o lugar mais apropriado para se estabelecer uma amizade duradoura, mas o fato inquestionável é que ele causou em mim uma impressão vívida, eloquente, como eu jamais havia experimentado antes com outra pessoa. Admirei-o imediatamente não tanto pelas qualidades de elegância e perfeita correção gramatical que exibia, mas antes pela tácita ausência de características que pudessem banalizá-lo. Não sei definir ao certo se foi o seu estilo simultaneamente rebuscado e arcaico, conquanto desprovido de afetação, que exerceram irresistível atração sobre o meu espírito ou se devo isso à sonoridade ritmicamente modulada de suas palavras e frases. Expressava-se de maneira deliberadamente antiquada, não como um cidadão do primeiro quartel do século XXI o faria, mas como se fosse a reencarnação de um poeta parnasiano dos idos de 1800... Desde o primeiro instante, flagrei sob a sua superfície um espírito afim tanto em gostos literários quanto em pensamentos e pontos de vista. Confesso que a companhia dele me agradava mais do que a maior parte de meus amigos de longa data e, com facilidade, eu não reclamaria em dissipar um dia inteiro ao seu lado. Embora seja uma verdade indiscutível que era ele quem exercia domínio sobre mim, e não contrário, eu nunca vi nisso razões para me aborrecer. Muito pelo contrário, deleitava-me em acompanhar os intrincados malabarismos verbais de seu discurso, a audácia de suas ideias, a beleza das imagens que evocava. A tal ponto que com freqüência gostava de ouvir repetidamente as suas frases e orações. Apenas lamento não tê-lo conhecido antes. Eu já passava dos 35 anos quando o avistei pela primeira vez, e a impressão que tive dele estava longe de ser promissora. Velho, empoeirado, gasto, vincado nas pontas. Esse era o estado com que se apresentava o volume de poemas “Sextante” numa das prateleiras de ferro da biblioteca, o primeiro livro que segurei de Aurélio Machado. Depois de devorá-lo com a avidez de um andarilho no deserto que clama por um oásis, empreendi uma busca frenética por todas as obras que levavam o seu nome na capa que me foi possível botar as mãos. Não me importavam em que condições ou quais livrarias ou sebos precisava revirar e, menos ainda, os preços que tinha de pagar para adquiri-los. Só o que interessava era sorver os seus escritos, admirar os mananciais de sabedoria que escorriam daquelas páginas feito mel para o meu cérebro estupefato.
Mas isso não bastava. Eu precisava, eu desejava, eu ansiava, com a obsessão de um terrorista fanático, conhecer o que fosse possível sobre o meu ídolo literário.
Uma fotografia em preto e branco um tanto apagada na segunda orelha de um de suas antologias de poesia, a que se seguia uma breve nota biográfica, era tudo o que me era dado saber a respeito dele. A imagem exibia um sujeito de magreza inenarrável, vestido em trajes que mais pareciam saídos de um filme antigo, paletó e calças escuras, de corte vitoriano, uma gravata de nó bem apertado e, completando a impressão geral de antiquíssima procedência, o sujeito portava uma bengala e usava um chapéu de feltro preto ligeiramente inclinado na cabeça. Esse conjunto emoldurava um rosto fino, de queixo proeminente e lábios finos, testa alta, e um olhar tímido, de arraigada melancolia, escondido sob as lentes de óculos de aros grossos, o que emprestava ao escritor um certo ar professoral. A monótona palidez era incapaz de disfarçar a funesta sombra de pesar que manchava as suas feições, delicadas e belas, no entanto. Não sei por que a foto, que exalava decadência e antiguidade, emanava uma incômoda desolação, como a que experimentamos ao visitar paragens ignotas no tempo e na memória. Cheguei a pensar que houvessem errado na edição e colocado um retrato errado, de outra pessoa qualquer, no lugar.
O texto logo abaixo em nada ajudava a esclarecer o enigma a respeito da existência daquele autor. Muito pelo contrário, contribuía para aprofundá-lo:

      Onde a luz do crepúsculo e as trevas do anoitecer se
     encontram, lá fez a sua morada Aurélio Machado. Es-
      critor consagrado com mais de dez  livros publicados,
      entre  coletâneas de  contos e  poemas selecionados,
      ele começou a carreira como jornalista no Diário Pau-
      listano, na década de 1980, para em  seguida  ascen-
      der à posição de editor-chefe  de uma  importante pu-
      blicação semanal. Durante a sua prolífica  carreira  li-
      terária, fez jus a  diversos prêmios, entre  eles um Ja-
      buti de Melhor Livro de Contos  por  “Recordações de
      Lugar Nenhum”, também lançado por  esta  casa edi-
      torial. Atualmente, trabalha em seu primeiro romance.

Era isso e nada mais, como diria o poeta americano. Esse lacônico perfil muito pouco acrescentava o que eu ansiava saber sobre aquela mente privilegiada. Não informava onde ele nasceu, quantos anos tinha na época em que lançou aquele livro, nem o título do romance que estava escrevendo. Pela data da edição da publicação – 1999 -, eu podia especular que Aurélio Machado ao menos teria nos brindado com um ou mais trabalhos até o momento em que tomei conhecimento de sua existência, apesar de eu não ter localizado nenhum lançamento de sua lavra desde o início do século. Se ainda vivia, ou onde, se continuava produzindo literatura ou tinha se aposentado e abandonado a árdua labuta da criação, eram indagações para as quais não existiam respostas fáceis.
Um passeio pela internet pouco revelou de substancial, com exceção de uma entrevista curta publicada em um site de duvidosa credibilidade. Nela, o escritor pontificava sobre as influências que sofreu e os seus gostos literários, que iam de Victor Hugo a Dostoiévski, passando por Maupassant, Eça e Dickens. E Machado, claro, que escritor não se diz influenciado pelo “Bruxo do Cosme Velho”? O texto resenhava bastante favoravelmente uma de suas antologias de contos, que o redator considerava imbuída de verve e autêntico vigor artístico, mas pouco ia além da trincheira dos elogios comedidos, limitando-se a compará-lo a um Bilac mais pelo preciosismo da escrita do que por qualquer afinidade temática que pudesse exibir com o sacerdote-mor do parnasianismo.
- Não era um gênio, em absoluto, se é o que quer ouvir – disparou, à queima-roupa, o editor-chefe responsável pela publicação de seus últimos trabalhos, um sujeito de ar blasé, cabelos malhados puxando para o branco, fumante inveterado que exalava fumaça por todos os orifícios – Aurélio era um excêntrico, um sujeito de hábitos peculiares. Percebi isso desde o primeiro dia em que ele entrou pela porta da minha sala. Diga, quem você conhece hoje em dia que ainda entrega manuscritos escritos com pena molhada em tinteiro? Que envia cartas pelo correio em vez de usar e-mail, que se recusa a ter celulares e que insiste em chamar bolso de algibeira ou que emprega termos do arco da velha como “por obséquio” e “data vênia”? Era um literato dado a arroubos temperamentais. Você sabe... – interrompeu a frase com uma tosse prolongada, que lhe tirou o fôlego, antes que retomasse a conversa – Um desses tipos que sonham com a glória no panteão dos grandes nomes da literatura nacional e se ressentem por não obterem, em vida, o reconhecimento a que se acham merecedores. Penso que ele gostava de se equiparar a um escritor maldito da estirpe de um... um Álvares de Azevedo (a comparação não é tão despropositada quanto se pode pensar, meu caro. Já observou com atenção o retrato dele?), mas mesmo isso é difícil de avaliar com certeza – parou, por um instante, meditando na frase que havia acabado de pronunciar, enquanto acompanhava com o olhar a fumaça do cigarro que subia, preguiçosa, em direção ao teto da sala – Era, acho, a forma que ele encontrou de compensar dentro de si as frustrações por uma vida inteira de fracassos literários que um prêmio como o Jabuti pouco serviu para amenizar. Sem querer bancar o psicólogo de botequim – acrescentou, com a voz cavernosa, que lhe emprestava a autoridade de um oráculo de Delfos – creio que foi isso que fez dele a figura melancólica e taciturna que perambulava, sempre metido em cores noturnas, pelos cafés e livrarias, um corvo encarapitado no limiar entre a solidão e o anonimato. Mas não me interprete mal, meu caro. Aurélio Machado não era alguém de que se pudesse sentir desprezo ou pena – balançou a cabeça devagar de um lado para o outro antes de pousar os olhos inquisidores em mim – Eu realmente gostava dele, como pessoa, quero dizer, e não apenas como escritor, e lamentei com sincero pesar quando soube de sua morte. Deixe ver... faz coisa de uns seis anos, mas não me pergunte em que circunstâncias. Só o que me foi dado saber é que ele sofria de uma doença crônica ou algo assim, mas nunca chegaram até mim os detalhes. Se o senhor fizer uma visita no Cemitério do Araçá ou o São Paulo ou outro qualquer, talvez calhe de localizar o túmulo dele, se é que chegou a ser enterrado em algum buraco, é claro – e deu por encerrada a entrevista com um sorriso debochado.
Naturalmente, eu não esperava que aquele homem de ares desagradáveis fornecesse alguma pista substancial que me ajudasse a erguer o véu de mistério que cercava a existência e a personalidade de meu escritor favorito. Ao menos, me ajudou a compreender o que ele não era, ou não pretendia ser. Que Aurélio escrevia com o desejo de fazer um nome a ser lembrado eras a fio no mundo das letras era evidente pela escolha deliberada por um estilo literário deveras incomum e bastante ultrapassado para os padrões de nossos tempos. Para outra espécie de escritor, aquele que busca o sucesso financeiro antes de tudo, que produz um livro novo atrás do outro como quem vai ao banheiro fazer as necessidades, e que anseia pela badalação das colunas sociais com o mesmo ardor de ver os seus títulos transformados em filmes ou séries de televisão, essa opção pelo traço pessoal, o desejo de impor uma voz peculiar ao lado e acima das outras, constitui um deliberado suicídio artístico.
Mas que tipo de homem faria isso em sã consciência e que não fosse um insano escapado do Arkham[1]? Somente alguém, digo eu, que alimentasse um desgosto imenso, senão pela vida, pela forma de vida a que os tempos modernos nos condenaram, fria, rotineira, desprovida de atrativos estéticos e intelectuais, banal, vulgarmente banal. A incógnita que permeava essa conclusão em uma bruma de incertezas se adensava quanto mais eu prospectava a respeito do autor e das circunstâncias de sua vida (e de sua morte), e os números gravados na lápide cinza que exibiam o seu nome completo e que a muito custo localizei no Cemitério da Lapa serviam apenas para lançar mais dúvidas na fogueira das indagações que me afligiam:

1964* - 2007+

 Um sujeito que pouco havia passado dos 40 anos de vida certamente não era candidato óbvio a se considerar um nostálgico dos tempos de outrora. Ele jamais poderia ter conhecido a efervescência cultural dos anos 1950, nem presenciado a revolução empreendida pelos modernistas três décadas antes ou qualquer outro modo de vida que o antecedeu. O que eu quero dizer é que ele não vivenciou aquelas épocas que pairam no nosso horizonte imaginário como torres de marfim impecavelmente polidas de um mundo em perfeita harmonia de matéria e espírito. De forma alguma ele poderia ter experimentado, em primeira mão, a vida em ritmo de bonde puxado a cavalos, de cordiais e instigantes conversas em torno de mesas de bolos e chás em elegantes confeitarias no centro da cidade, das competições de natação no rio Tietê, do cavalheirismo bem comportado dos rapazes de chapéu de palha perante as damas que ainda sabiam agir como tal. “Quem hoje em dia ainda entrega manuscritos escritos com pena molhada em tinteiro?” Não, nada disso ele poderia ter presenciado fora do âmbito de sua hipertrofiada mente. Ou sofreria ele do delírio de se crer habitando aqueles tempos que o vento, há muito, tratou de levar consigo quando o motor à combustão principiou a entupir as nossas narinas de fumaça?
Das escassas certezas que eu podia dispor a respeito da personalidade do autor de “Náufragos da Medusa” estava a de que, apesar de tudo, ele foi amado por alguém. E continuava sendo, se o botão de rosa já meio murcha depositado ao pé de sua sepultura significasse alguma coisa. Em vez de me ocupar em desvendar a identidade do estranho “benfeitor”, preferi me ocupar com a busca de outras informações sobre Aurélio Machado.
Por intermédio dos registros da própria administração do cemitério, foi relativamente simples obter o nome e o endereço do único parente vivo dele que era possível localizar. Há muitos anos o irmão mais velho do escritor morava no litoral, em São Vicente, e, conquanto todas as minhas tentativas de contatá-lo por telefone redundaram em fracasso, encontrá-lo pessoalmente se mostrou tarefa menos árdua. Flagrei um sujeito gordo, de enormes papadas que desmoronavam umas sobre as outras no pescoço grosso, e formavam inúmeras corcovas com as pelancas que se esparramavam em torno do corpanzil rotundo e suarento, aboletado com esforço numa cadeira de madeira, de angustiante precariedade, prostrado diante de um copo de cerveja cheio até a boca em um bar de esquina.  
Mal me apresentei e expus a intenção de interrogá-lo sobre o irmão ilustre, o cidadão fez uma carantonha de desagrado e espremeu as sobrancelhas grossas feito taturanas numa expressão de inegável ceticismo. Olhando-me de soslaio, como se desconfiasse de minha sinceridade e tentasse perscrutar, varando os meus olhos, o que se passava em meu cérebro, inverteu o jogo e passou a me indagar a respeito dos meus propósitos:
- O que foi, o Aurélio deixou uma dívida pra eu pagar? Ou ele andou se envolvendo em alguma enrascada e me meteu junto nessa? Olha, já vou adiantando que não tenho nada a ver com as maluquices que ele aprontou e nem quero saber de encrenca pro meu lado. Sim, porque nos últimos tempos ele andava tão esquisito que a gente fica se perguntando se tinha algum problema mental – diante do meu olhar de espanto, ele jogou a cabeçorra para trás num riso nervoso, carregado de cinismo – Ora, vai me dizer que não sabia disso, das doideiras que ele aprontou? Eu poderia ficar aqui a tarde e a noite inteiras e o dia de amanhã todo falando que não conseguiria esgotar a contabilidade de coisas sem sentido que ele cometeu. E se pensa que eu estou exagerando, pode perguntar pra ex-mulher dele, aquela arrogante. Sim, ela ainda tá viva, mas não me pergunte onde mora. Acho que em São Paulo mesmo, não tenho certeza. Depois que o meu irmão morreu, e até mesmo uns anos antes, a gente já nem se falava direito. Você sabe como são essas coisas de família... Heranças, partilhas, isso mata qualquer fraternidade que se possa ter, não concorda? – parou um instante para virar um gole da cerveja goela abaixo, e deixou respingar um pouco do líquido dourado na camiseta velha e rasgada, antes de retomar o fôlego – Tem certeza que não quer um pouco? Esse calor tá de amargar... Bem, como o senhor preferir. Agora que mencionei isso, lembrei que o Aurélio não gostava muito de beber... cerveja, pelo menos. Preferia vinho, conhaque e outras coisas de gente esnobe, mas não era chegado em cerveja. Ele sempre foi meio estranho mesmo. Espere, não quero que tenha a ideia errada de que o meu irmão sempre foi desse jeito... como eu posso dizer? Excêntrico. Absolutamente. É verdade que, quando criança, ele preferia a companhia de si mesmo, inventando lá com os seus botões umas aventuras imaginárias no espaço ou no fundo do mar ou se fantasiando de Zorro e coisas assim. Que ele não gostasse de futebol, de empinar pipa e das outras atividades que as crianças normalmente adoram, já dá uma noção de como ele era um E.T. entre a molecada da rua. Lembro bem que ele lia sem parar, com a sanha de um condenado. De tudo. Primeiro, foram os gibis, depois, vieram os livros, cuja dedicação ele dividia com os seriados de tevê e os filmes que não se fartava de ver. Teve uma época que não desgrudava da televisão e podia passar semanas inteiras trancafiado no quarto até os olhos arderem – Foi nesse ponto que ele meneou negativamente a cabeça, como se uma lembrança desagradável nublasse os pensamentos – Penso que foi isso que contribuiu pra deixar ele daquele jeito. Quieto, avesso a amizades (não lembro de ele ter nenhum amigo), solitário, falando sozinho pelos quatro cantos. E na adolescência não mudou muito, não. O Aurélio tinha uma dificuldade imensa em arranjar namorada, e acho que só teve mesmo uma única paixão naquela fase, por uma vizinha que conhecia desde pequeno e que compartilhava com ele de suas doidices. Com exceção dela, não me recordo de nenhuma outra garota que tenha cruzado a sua vida, pelo menos até que ele conheceu a sua mulher. Ao contrário do que se pode pensar, o casamento fez bem pro infeliz. Pelo menos, tirou ele daquele casulo de devaneios em que vivia e o lançou bem no meio da arena do mundo, entregue às feras na luta pela sobrevivência. Sabe como é, o dever de pagar as contas, de sustentar esposa e ter o que comer faz com que a gente deixe pra lá as fantasias da infância e passe a habitar a realidade. Era inevitável que ele se ressentisse disso, das obrigações da vida adulta, eu digo, e tenho certeza que foi o que o levou a ficar daquele jeito – quando perguntei a que “jeito” ele se referia, o homem fez um muxoxo de escárnio, entornou outro gole de cerveja e, após limpar os beiços úmidos com as costas da mão hirsuta, prosseguiu – Não pense que as coisas aconteceram logo que o Aurélio casou. Talvez o fato de que eles não tiveram filhos em mais de 30 anos de convivência tenha contribuído pro colapso que afinal se abateu sobre a sua mente, mas também é provável que o transtorno (acho que posso chamar assim, não é?) estivesse em gestação dentro dele desde sempre e fosse algo inevitável, sei lá, não sou entendido nesses assuntos, como o senhor sabe. Mas todo mundo que o conhecia de perto, e não estou me referindo apenas a mim ou à ex-mulher dele, mas aos poucos conhecidos e alguns primos nossos, acabou por notar as mudanças que começaram, lá pelas tantas, a afetá-lo. A família comentava, sabe, não na frente dele, claro, mas de vez em quando se perguntavam, sussurrando pelos cantos, rindo entredentes, o que estava sucedendo com o meu irmão. Graças a Deus a minha mãe não estava mais viva pra ver isso, ou teria tido um desgosto daqueles.
Quando apertei o cerco para saber exatamente qual a natureza desse “transtorno”, o sujeito saiu-se com subterfúgios e hesitou antes de balbuciar coisas um tanto tolas, sobre as quais não vi muito sentido na ocasião: “refugiou-se do mundo”, “buscou a proteção do passado”, “enclausurou-se num porão de fantasmas”. Depois, migrou a prosa para outras esquinas, outros assuntos, e, quando dei por mim, estávamos nos despedindo diante do prédio onde ele morava em uma rua transversal à avenida da praia.
Não posso dizer que a conversa tenha sido um completo desperdício de tempo. Pincei algumas informações daquele emaranhado de reminiscências a que o obeso sujeito se dignou a fornecer e encontrei uma janela entreaberta por intermédio da qual foi possível vislumbrar o quarto escuro e abafado da mente de Aurélio Machado. Como um detetive à procura da solução para um mistério, debrucei-me novamente sobre os escritos deixados por ele. Nenhum diário ou correspondência eram, provavelmente, tão ricos em detalhes sobre a sua personalidade quanto os versos das poesias ou as frases cheias de malabarismos verbais que ele teceu. Bastava que eu tivesse olhos para ver.
Com a clareza de uma noite de lua cheia, distinguiam-se duas fases em sua obra, que as temáticas e os estilos distintos ressaltavam como uma indelével marca d’água. O período inicial deve ter começado em algum momento de sua mocidade, por volta dos 20 e poucos anos, creio eu. A ingenuidade, a singeleza e os arroubos sentimentais, por vezes exagerados, que emanavam das composições poéticas denunciavam a impetuosidade da juventude despreocupada com o futuro e virgem de vivências. Depois de um hiato de alguns anos, os três últimos volumes, todos antologias de contos, pois as poesias tinham ficado para trás, vinham carregados de amargor, impregnados de uma bile ácida, que se recusava a poupar a humanidade por seus vícios e erros. Era como se um magistrado implacável houvesse se apoderado de sua pena e o obrigasse a proceder a um julgamento em última instância de nossos piores pecados. Nada nem ninguém parecia escapar ao seu olhar inquisitivo, um Minos [2] decidido a condenar crianças e velhos, homens e mulheres à sua imaginária crueldade. A mudança de tom era demasiado radical para não ser notada. Deduzi, bastante razoavelmente, que algo dramático, algo terrivelmente revoltante, havia ocorrido em sua vida para justificar essa mudança de estado de espírito.
Imaginei que uma explicação convincente para isso poderia ser dada no hospital em que ele passou os últimos momentos. Casualmente, o irmão de Aurélio Machado mencionou que ele morreu na ala de doenças respiratórias do Emílio Ribas e tratei de dar um pulo até lá na esperança de que pudesse arrancar um indício qualquer daquele novelo desencontrado de pistas. Foi a enfermeira mais experiente do lugar quem ajudou a engrossar o caldo daquele mistério quando disse que o escritor “não morreu naturalmente”:
- Ou melhor, não morreu como uma pessoa comum nos dias de hoje. Isso porque quase ninguém mais morre de tuberculose, meu senhor, desde que seja medicado a tempo. É lógico esperar que qualquer um que sofra desse mal queira ser devidamente tratado. Mas o caso desse paciente foi diferente, foi... esquisito, se posso dizer assim - Quando perguntei por que, ela estalou a língua e pareceu lamentar o incidente - Ele simplesmente se recusou a aceitar o tratamento. Nem por decreto quis tomar os medicamentos que poderiam curá-lo. Veja bem, eu lido todo dia com Testemunhas de Jeová e crentes desse tipo, mas esse não foi o caso dele. Absolutamente. O que aconteceu é que o sr. Machado se negou a aceitar qualquer tipo de ajuda que viesse da ciência moderna. Nem pudemos entubá-lo ou ligá-lo aos aparelhos quando o seu estado de saúde se agravou. “Nada de máguinas”, ele berrava. Não aceitava esses cuidados e dizia que preferia que usássemos “sanguessugas” – ela deixou escapar um riso nervoso - Sim, sanguessugas, em pleno século XXI, onde já se viu um absurdo desses? Bem, no final das contas, ele definhou e morreu porque preferiu que fosse desse jeito e de nenhum outro. Muito, muito estranha essa história.     
As circunstâncias incomuns da morte de Aurélio Machado, para além do mero absurdo da situação, atestavam uma acentuada deterioração das faculdades mentais do escritor cujas causas eu procurei elucidar. Os meus passos investigativos me conduziram novamente ao pé de sua sepultura. Durante semanas, peregrinei até aquele lugar sem nem saber direito por que. Perdia-me, durante horas, diante da lápide com a resignação de um arqueólogo perante a esfinge de Gizé, na esperança de que o granito cinzento pudesse responder algumas das indagações que nublavam a minha mente. A resposta inesperada aos meus anseios veio na forma de uma visitação repentina. Uma mulher, de uns 60 anos, trajando um vestido azul escuro simples de alças, que se ajustava ao corpo esbelto na cintura e nos ombros, uma bolsa parda, sapatos de salto alto da mesma cor, os cabelos presos na nuca em um coque rebuscado e modos discretos que se harmonizavam com o rosto bem desenhado, de maçãs altas e olhos vivazes, surgiu certa manhã carregando um botão de rosa, que depositou com invulgar delicadeza ao lado da laje. Em seguida, demorou-se alguns minutos de pé, cabisbaixa, os olhos fechados no que julguei ser uma oração silenciosa. Não ousei interrompê-la naquele momento, e pacientemente quedei a certa distância observando-a com atenção enquanto ela fazia o sinal da cruz, dava meia-volta e caminhava em direção ao portão de entrada.
Segui-a sem muita pressa, tanto para evitar que me notasse quanto para me dar tempo de estudá-la detidamente, e por longos instantes me debati com a dúvida se devia abordá-la ou não. Só me resolvi quando a senhora ganhou a calçada e parou sob a proteção do ponto de ônibus. Era um dia de sol forte, cáustico, e o ar modorrento conspirava para acirrar a minha ansiedade. Um pigarro desconcertado, um pedido de desculpas e duas frases de apresentação depois, ela relutantemente concordou em responder aos meus questionamentos. E, mesmo assim, o fez com certa reserva, pelo menos no começo, antes que a minha franqueza ou a aparente honestidade de minhas intenções derrubasse as últimas resistências que pudesse ter com relação a mim.
- Não lembro do meu marido reclamar uma só vez do nosso casamento – principiou a dizer, mercadejando olhares entre mim e os ônibus que passavam – Quer dizer, pelo menos nos primeiros dez ou quinze anos depois que subimos ao altar, tudo transcorreu como deve acontecer entre um homem e uma mulher que trocam alianças. É claro que nem tudo era um mar de rosas, havia discussões, mas não tão acaloradas que descambassem para o desrespeito, e a sempre presente falta de recursos era antes um estímulo para que nos ajudássemos um ao outro do que um pretexto para o afastamento. Mas penso que isso seja assim mesmo com todo o mundo. O senhor é casado ou já foi? Desculpe a indiscrição, moço, mas se tem uma esposa, faz ideia do que estou falando. Éramos jovens, despreocupados, um tanto irresponsáveis, como se pode imaginar, e isso tanto pode ser uma virtude quanto um problema, depende do ponto de vista. Ah, me perdoe, mas o meu ônibus está chegando – ela interrompeu o que estava dizendo. Perguntei, então, se não haveria inconveniente em acompanhá-la, para prosseguirmos com a conversa – Onde estávamos, ah, sim, o nosso casamento... – retomou a mulher, enquanto se acomodava no assento – Só posso descrevê-lo numa palavra: maravilhoso. Mas isso, faço questão de explicar, nos primeiros anos. Depois, tudo mudou. Não eu ou a vida que levávamos. Ele, foi ele quem passou a agir de uma forma estranha. Não de repente, de uma hora para a outra, mas pouco a pouco uma mudança se operou nele. A princípio, não liguei muito para aquilo que eu achei que fossem apenas manias excêntricas. Coisas da idade, o senhor entende. No modo de falar e de se comportar, pra começar. Um jeito todo empolado de dizer as coisas, que não era próprio dele. Uma educação sem arestas, que já não se vê nestes tempos. É como se, dia a dia, ele não fosse mais ele, pelo menos não o Aurélio que eu conhecia. Aos poucos, também mudou de hábitos. Deixou de usar certas coisas, como o micro-ondas e a geladeira, e até se recusava a assistir televisão. Daí por diante, implicava com qualquer alimento industrializado. Leite pasteurizado, refrigerantes, comida congelada, isso tudo passou a ser proibido dentro de casa. Com o tempo, se desfez do computador e os outros aparelhos eletrônicos que tínhamos. Demos adeus aos rádios e aos telefones celulares. Na verdade, qualquer tipo de telefone foi banido. Quando eu me dei conta de que as coisas seguiam pela ladeira abaixo da insanidade, insisti para que ele marcasse uma consulta com um psicólogo, mas isso apenas despertou nele uma reação extremada. Saiu bradando que essa gente não sabia nada, que eram um bando de enganadores e que essa história de “psicologia” não passava de “modismo da modernidade”. Pode ser que ele tivesse razão, eu não sei. Seja como for, o estado dele foi se agravando até chegar ao ponto em que se recusou a por os pés em automóveis ou ônibus ou outro veículo motorizado. Dizia que preferia caminhar até as solas dos sapatos furarem a entrar numa daquelas “máquinas do diabo”. Você pode imaginar que todos os meus esforços para trazê-lo de volta à razão de nada adiantaram. Mas isso não foi nada comparado ao que ele deu de fazer depois de um tempo – a mulher fez uma pausa demorada, creio que para ordenar as recordações e dar-lhes um mínimo de coerência – Aconteceu num dia de calor como este. Lembro bem disso justamente porque estava anormalmente quente e ele me apareceu em casa usando uma sobrecasaca pesada de tecido grosso, com camisa de abotoaduras, colarinho engomado, calças de risca de giz, um chapéu das antigas e uma bengala de madeira entalhada na empunhadura. Com o acréscimo posterior de um bigode bem aparado e um corte de cabelo antiquado, tornou-se o perfeito retrato de um cavalheiro vitoriano, daqueles que a gente só vê em filmes ou novelas de época. Você deve ter visto as fotos dele usando esses trajes. Pois foi desse jeito que, dali em diante, ele se apresentava onde quer que fosse. É como se ele tivesse abdicado das coisas de nosso tempo e escolhido empreender sozinho uma viagem só de ida para algum ponto do século XIX. Se o senhor me perguntar o que ocasionou essa transformação tão peculiar, moço, eu não saberia dizer – em seguida, pareceu reconsiderar a última afirmação - Ou, talvez, eu até tenha uma vaga ideia das motivações. Veja bem, eu não estou dizendo que foi isso com toda a certeza, eu nem poderia afirmar sem sombra de dúvidas que algo assim é possível, mas o fato inegável é que o Aurélio nutria uma arraigada indignação contra as injustiças e os erros do mundo. Tratava-se mais de um sublime desencanto com a natureza humana, com a maneira com que nos comportamos uns com os outros e todas essas coisas que lemos e vemos diariamente nos jornais e na televisão. Olhando em retrospecto, os sintomas sempre estiveram presentes, bastava prestar atenção na irritação crescente, no nervosismo latente que de vez em quando irrompia em explosões de ira contida. Penso que, para alguém como ele, que sempre preferiu se evadir desta realidade para um território lá só dele, feito de imaginações e fantasias particulares, ser obrigado a conviver com a ignorância, a violência, a miséria, a frieza nas relações humanas, o esquecimento dos valores éticos e morais de outrora, a desconsideração pelos problemas mundanos e, sobretudo, a crescente falta de educação dos tempos modernos deve ter sido uma decepção e tanto. Talvez, na mente dele, no dilema entre encarar de frente o regresso da nossa sociedade à barbárie e trajar uma armadura reluzente, usar um capacete de latão na cabeça e empunhar uma lança para enfrentar moinhos de vento, a segunda e estranha opção foi a melhor saída. Chame de nostalgia por um tempo em que ele gostaria de viver, de loucura ou como preferir – lançou as últimas palavras acompanhadas de um sorriso embaraçado, como se pretendesse se desculpar pelo comportamento excêntrico do ex-marido - Mas isso, é claro, meu rapaz, é apenas conjectura de minha parte. Nós nunca saberemos ao certo o que o levou a se tornar uma relíquia viva, uma lembrança patética de épocas mais ordeiras e civilizadas.         
            Não acompanhei a mulher até em casa. Preferi descer uns dois pontos depois, um tanto incomodado com o que ela disse. Ou, antes, com o que deixou de dizer. Saí da conversa com a cabeça tão enxameada de dúvidas quanto entrei. Era então e continua sendo até hoje difícil para eu compreender como alguém poderia mudar radicalmente o próprio estilo de vida, adotar os modos de vestir, falar e, ainda mais que isso, de pensar, de um mundo que não era dele e talvez nunca tenha existido.
            Sem que eu percebesse, caminhei a esmo quarteirões e horas a fio até deter os passos novamente em frente ao cemitério em que Aurélio Machado jazia. Não sei dizer que mão invisível me conduziu de volta àquele lugar, mas, seja como for, a visão da lápide lisa de alguma forma apaziguou o meu espírito. Aquele prisioneiro de um tempo que não o reconhecia continuava sendo para mim uma esfinge insondável, e as palavras que deixou nos livros antes ajudavam a ocultar do que a desvelar o enigma de sua existência. Nenhum dos depoimentos que ouvi, nenhum mesmo, ajudou a abrir uma brecha sequer na opaca muralha de segredos que se erguia em torno do escritor, de suas idiossincrasias, temores e desejos. Ao menos agora eu conseguia compreender (mas não justificar) a atitude dele perante os métodos clínicos usados para evitar a sua morte. É provável que o botão de rosa deixado ali pela ex-mulher encerrasse a chave para esse mistério. Súbito, me dei conta que não a inquiri a respeito do significado daquele gesto. Mas isso tinha pouca importância. O que quer que a flor quisesse representar constituía para mim uma pobre tentativa de explicar o que não tem nem nunca terá explicação.

02 de julho de 2016






[1] Asilo Arkham, o hospício das histórias em quadrinhos onde ficam encarcerados os vilões loucos do Batman.
[2] Semilendário rei de Creta, que Dante escalou na “Divina Comédia” para ser um dos juízes dos mortos no Inferno.

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