e Leia a versão integral de "Robinson Crusoé e a estranha lógica do capitalismo", a resenha crítica do clássico "Robinson Crusoé", de Daniel Defoe ~ Diário do Moretti
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domingo, 15 de maio de 2016

Leia a versão integral de "Robinson Crusoé e a estranha lógica do capitalismo", a resenha crítica do clássico "Robinson Crusoé", de Daniel Defoe





ROBINSON CRUSOÉ E A ESTRANHA LÓGICA DO CAPITALISMO

Por Marco Moretti

Frontispício de uma das primeiras edições de "Robinson Crusoé" - Fonte: Wikipedia

O recente êxito do filme “Perdido em Marte”, em que Matt Damon se torna náufrago no planeta vermelho depois que os seus companheiros astronautas o abandonam à própria sorte e ele é obrigado a se virar nos trinta para sobreviver com pouco mais do que engenho e uma dose generosa de força de vontade, traz de volta ao gosto popular uma antiga história para a qual a literatura já dedicou um de seus maiores e mais duradouros clássicos. Contudo, enquanto o longa-metragem dirigido por Ridley Scott (de “Alien, o Oitavo Passageiro” e “Gladiador”) é uma ode à capacidade humana de superar as adversidades perfeitamente adequada aos anseios individualistas do início deste novo milênio, para essa mesma sensibilidade ocidental politicamente correta o romance “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe (1660-1731), publicado originalmente em 1719, é um atentado ético e moral. Naturalmente, isso não abala em nada o prestígio dessa obra-prima da literatura inglesa, que prossegue sendo uma das maiores criações da humanidade, mesmo quase três séculos depois de ter sido originalmente publicada.
Ao analisarmos “Robinson Crusoé”, não se pode perder de vista o fato de que o contexto político e cultural da época em que ele foi escrito era profundamente diferente do nosso.  O escocês Defoe viveu no auge do absolutismo inglês, época política conturbada e marcada pela centralização do poder nas mãos do monarca e da supremacia do Estado sobre a vida dos indivíduos, fato bastante ressaltado em uma obra famosa do século XVII, O “Leviatã” (1651), de Thomas Hobbes.
Se em seu livro Hobbes faz a defesa do poder real absoluto, Defoe investe na direção inversa, e com a história do náufrago que sobrevive sozinho durante mais de 20 anos em uma ilha, expõe o teorema de uma corrente filosófica e política em voga em sua época, o liberalismo. Professado originalmente por John Locke em livros como “Os Dois tratados sobre o governo” (1689), o liberalismo deflagrou a ode ao individualismo como único antídoto contra a onipresença do Estado. Crusoé, assim, é mais que o mero personagem de romance de aventuras que a tradição nos legou. Ele é a personificação do espírito liberal, ou melhor dizendo, a prova viva de que o indivíduo prescinde do Estado para sua subsistência.
Visto bem de perto, o romance, que na ocasião do lançamento tinha um título mais longo e pomposo, “A Vida e as Estranhas e Surpreendentes Aventuras de Robinson Crusoé de York, Marinheiro”, posteriormente reduzido para o mais palatável “As Aventuras de Robinson Crusoé”, é menos um romance de aventura do que uma metáfora elaborada da própria vida de seu autor e uma crítica ácida à sociedade da época, em que seguiu as pegadas de outro famoso escritor de língua inglesa do século XVIII, Jonathan Swift, cujo “As Viagens de Gulliver” é, antes de tudo, uma demolidora sátira do império britânico então em expansão.
Ele próprio comerciante, em certa ocasião dono de uma perfumaria, uma mercearia e uma fábrica de tijolos, levou uma vida empreendedora em que chegou a viajar por toda a Inglaterra e até para o exterior, da Alemanha à França. Depois de morar algum tempo na Espanha e na Suíça e conhecer alguma prosperidade, Defoe viu-se em dificuldades financeiras e duas vezes, em 1692 e 1703, foi à falência. Perseguido por dívidas, viu-se obrigado a permanecer encarcerado em sua própria casa em Bristol durante a semana e somente aos domingos se sentia à vontade para circular livremente (aproveitando-se de uma antiga lei britânica, segundo a qual nenhum devedor podia ser perseguido pelos credores aos domingos, o Dia do Senhor). Durante muitos anos, portanto, o escritor deve ter se sentido um “náufrago” entre os seus compatriotas, sozinho e isolado do mundo exterior pelo rigor da lei.
Mas ele foi também um náufrago político. Filho de um chapeleiro fiel à fé de seu ancestrais, os puritanos integristas, e “dissidente”, como eram chamados os partidários de Oliver Crommwell, contrários à Coroa, Defoe pagou por toda a vida esse pecado involuntário. Mesmo proibido, pela postura religiosa e política do pai, de freqüentar a universidade para se tornar pastor, ele recebeu educação esmerada dos amigos de família, o que seria de grande valia anos depois, quando ingressou no jornalismo.
Foi somente em 1683 que abandonou o sobrenome original do pai, Foe, e adotou o Defoe, como uma maneira de ressaltar a sua ascendência flamenga e de afrontar os adeptos do regime absolutista. Opositor ferrenho do rei Jaime II, um déspota, saudou com entusiasmo a chegada e a subida ao trono inglês do holandês Guilherme III de Orange, em 1689, no seio da chamada “Revolução Gloriosa”. Os seus panfletos cheios de raiva e mordacidade conquistaram a simpatia dos “whigs”, os membros do partido liberal ligados aos “dissidentes”, na mesma proporção em que granjearam inimigos poderosos entre os “tories”, os políticos conservadores, aliados da Igreja anglicana. Com a morte de Guilherme III, uma violenta disputa política pela sucessão do rei opôs os dois grupos e, novamente, os liberais saíram derrotados da contenda.
Inconformado, o escritor publicou, em 1702, um de seus manifestos mais virulentos, “O Caminho mais curto com os dissidentes”, em que atacava frontalmente a Igreja anglicana. Como resultado, ele foi condenado a um ano de prisão. Apesar dos protestos de centenas de pessoas, que saíram às ruas para exigir a sua libertação, a pena foi mantida. Quando finalmente foi solto, a sua postura passou a ser a de um cinismo de ocasião. Pressionado pelas dívidas e pela desavenças políticas, dedicou-se a escrever para quem pagasse melhor, e sua opinião era igualmente disputada entre os tories e os whigs. Por volta de 1714, tomado de profunda desilusão, trocou o jornalismo pela literatura, quando começou a produzir as obras que o tornariam célebre no mundo todo. “Robinson Crusoé” foi escrito nessa fase de desencanto com a política e a vida pública e pode ser visto como um acerto de contas com a política e a religião de seu tempo.
Foi nessa época que Defoe exilou-se da sociedade, pressionado pelas dívidas, e só se permitia sair aos domingos para almoçar na pensão Leão Vermelho ou freqüentar o culto dominical. Por essa razão, passou a ser conhecido, um tanto pejorativamente, pela alcunha de “Gentleman Sunday”, ou “Cavalheiro Domingo”. Numa dessas visitas ao Leão Vermelho, ele travou conhecimento com um sujeito excêntrico, que se vestia de pele de cabra e usava gorro e botas feitas do mesmo material, e que os locais consideravam um “selvagem”. Na verdade, Alexander Selkirk era escocês como Defoe e filho de um próspero artesão de peles. Da mesma forma que o escritor, Selkirk fez-se ao mar ainda na juventude.
Foi num desses encontros dominicais com Daniel Defoe, com quem compartilhava o fervor religioso, que Selkirk relatou a sua mais extravagante aventura. Descontente com vida em terra firme, o jovem aventureiro embarcou, anos antes, num navio de corsários, o “Cinco Portos”, que pretendia realizar pilhagens na costa oeste da América do Sul. Quando navegavam no arquipélago Juan Fernández, no Pacífico, a 650 km da costa do Chile, descontente com o autoritarismo do capitão do navio, Selkirk pretendeu liderar um motim a bordo. Como o gesto não surtiu o efeito desejado, ele desembarcou voluntariamente numa das ilhas, a Más a Terra, que costumava ser usada como escala pelos navegantes dos mares do sul (e que hoje, rebatizada de “Ilha de Robinson Crusoé”, se tornou, juntamente com o arquipélago do qual faz parte, parque natural chileno e reserva de biosfera da Unesco) na esperança de que outro navio corsário, que vinha na esteira do “Cinco Portos” a poucos dias de distância, o resgatasse.
No entanto, Deus ou o acaso quiseram que as coisas corressem de maneira diversa da pretendida pelo arrojado marinheiro. A outra embarcação jamais chegou e Selkirk se viu abandonado na ilha apenas com um fuzil, uma carga de chumbo e pólvora, umas poucas ferramentas, além de um punhado de roupas e objetos pessoais, como a Bíblia de Edimburgo e um volume de salmos. Como o local dispunha de cabras em relativa abundância, ele fez delas o seu alimento principal e montou um cercado para elas. Alojou-se numa caverna no alto de um platô de onde divisava toda a ilha e tratou de montar ali a sua casa, com cama, quarto e cozinha. Aprendeu a plantar e a extrair pimenta de plantas trepadeiras e fabricou sozinho toda a sorte de utensílios. Foi nessas condições difíceis que Selkirk sobreviveu por longos e extenuantes cinco anos, até ser encontrado e resgatado por um navio inglês, o “Duke”, e levado de volta à Inglaterra.
Daniel Defoe não foi a primeira pessoa a ouvir a narrativa de Selkirk. Um ano antes, ele a contou  para o ensaísta Richard Steele, que a transpôs nas páginas do jornal “The Englishman” e garantiu ao aventureiro uma breve notoriedade. Naturalmente, Defoe viu nessa história muito mais do que o relato de um sobrevivente às agruras do destino e vislumbrou nela a oportunidade de expor as suas concepções políticas e religiosas. Ele a recontou segundo os seus próprios parâmetros, mudando a ilha de localização, do Pacífico para as proximidades do litoral norte do Brasil, transformando o marinheiro num náufrago, recheando a aventura com perigos mais palpáveis do que as intempéries, como nativos antropófagos e doenças e, claro, dando-lhe por companheiro o índio Sexta-feira.
Ao contrário do que se pode imaginar, esse personagem também foi inspirado numa pessoa real, o índio misquito Will, que foi esquecido pelo capitão de uma embarcação na mesma ilha de Selkirk, mas muitos anos antes, entre 1681 e 1684. Outra alteração importante saída da pena do escritor foi o nome dado ao personagem. No lugar de Alexander, ele optou por Robinson, um nome muito comum na Escócia, como “José” entre nós, o que serviu para reforçar o caráter comum do personagem, e, para o sobrenome, foi buscar inspiração num colega de escola que havia se tornado ministro, um certo Crusoé.
 Aprofundando o realismo inaugurado na literatura com o “Dom Quixote” de Cervantes, Defoe dotou seu herói de atributos meramente humanos. Em sua ficção, não há lugar para os semideuses da mitologia greco-romana, os Aquiles, Ulisses e Enéas auxiliados pelos deuses. Robinson Crusoé é humano, diria que demasiadamente humano. Ele padece temores, tristezas, alegrias, como qualquer um de nós. Em determinado trecho do livro, chega a adoecer com uma febre avassaladora que o deixa prostrado. E, como qualquer ser humano comum, também tem sua cota de defeitos e imperfeições. Pelo menos, aos nossos olhos de ocidentais do século XXI.
É curioso como Defoe pinta Crusoé como um rebelde sem causa, determinado a contrariar todas as disposições do pai e fazer-se ao mar, mesmo com os maus presságios que o cercam. Entre suas várias andanças, vem dar com os costados no Brasil, onde se estabelece como próspero Senhor de Engenho na Bahia e chega até a se tornar mercador de escravos negros. Ato involuntário ou não, o autor faz com que o personagem naufrague justamente quando parte para a África com o intuito de apresar escravos a fim de revendê-los na América do Sul.
Fazia parte da lógica mercantilista daquela época que um herói moderno, pelo menos segundo a concepção inglesa, fosse um capitalista sedento de lucros, um homem de negócios acima de tudo, que reflete em seus atos e pensamentos a ética própria desse sistema econômico, então lutando para se estabelecer sobre os resquícios feudais que ainda imperavam no continente europeu. E a ética protestante capitalista, saqueando a feliz expressão de Max Weber, não é outra senão a da conquista, domínio e exploração de novas terras e, sobretudo, povos considerados inferiores. A mesma concepção que levaria os europeus, mais de cem anos depois, à aventura do neocolonialismo.
Crusoé encarna à perfeição esse espírito. Na verdade, ele sintetiza, em sua narrativa, o próprio ciclo dos descobrimentos iniciado por portugueses e espanhóis e que então prosseguia sob o comando de ingleses e holandeses. A princípio, como um Adão expulso do Jardim do Éden, mas sem uma Eva que lhe faça companhia, ele se instala em sua ilha como um descobridor. Após o reconhecimento da região, ele passa a modificar o ambiente em torno e a reproduzir na ilha as mesmas condições de vida burguesas que tinha em sua terra natal.
Mais que uma cópia, Defoe deixa claro que se trata de uma paródia do modo de vida britânico. Isso fica claro por detalhes como o traje que o próprio personagem confecciona a partir de materiais locais, e que inclui até sombrinha com folhas de palmeira. O náufrago chega a construir até uma casa de verão do outro lado da ilha. Posteriormente, ele vai se referir à ilha como o seu pequeno reino, seu senhor por direito divino. Pode-se ver aí outra paródia sutil de Defoe contra o princípio do direito divino dos reis.
Finalmente, a etapa final e inevitável desse processo de dominação se dá quando Crusoé encontra o nativo Sexta-Feira. Em condições normais, um homem do século XXI de bom senso que se encontrasse afastado de qualquer contato humano por duas décadas ficaria maravilhado com o fato e certamente faria do índio seu companheiro. Em vez disso, e novamente seguindo a lógica do discurso capitalista eurocêntrico imbuído em todo o romance, a primeira coisa que Crusoé faz é transformar o benevolente e servil Sexta-Feira em seu escravo. Não satisfeito em fazer do selvagem seu criado, o herói ainda inicia um processo “civilizador”, procurando convertê-lo, primeiramente, ao cristianismo, e em seguida ensinando-lhe a língua e os costumes de sua terra. Novamente, aqui, podemos enxergar uma paródia, não só do processo colonizador europeu na América como do próprio sistema de classes britânico.
Curioso, nesse processo, é que Crusoé migra de reles homem comum do início do livro para se tornar praticamente um semideus ao seu termo, com poderes de vida e morte sobre a ilha e seus habitantes. Contudo, no lugar de aderir a um materialismo ateísta, que o faria pairar sobre a natureza primitiva e revolta, o que seria a conseqüência lógica desse processo, Defoe dá um passo atrás e instila em seu texto um espírito de piedade cristã que vem contradizer, aparentemente, mas só aparentemente, a auto-suficiência do herói.
Esse misticismo só vem reforçar a tese de que sua aventura é uma síntese do colonialismo europeu dos séculos XVI e XVII, e que encontra justamente no Deus cristão, sobretudo protestante, o respaldo e a justificação de seus atos. Com sua fé cada vez mais intensa na vontade divina no decorrer do relato, Crusoé sublinha, assim, o caráter de predestinação dos europeus em sua “missão” de conquistar novas terras e novas civilizações.






2 comentários:

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Excelente o seu texto! Bem lembrado o Cervantes. Obras como o Quixote e Crusoé, sem dúvida, inovaram tirando o DEUS EX MACHINA da arte narrativa. Parabéns! Abraços!

Marco Moretti disse...

Obrigado, André, mais uma vez, pelas suas observações sempre pertinentes. Quixote e Crusoé, de maneiras diversas espelham o homem em momentos distintos da história, e têm em seus companheiros, Sancho Pança e Sexta-Feira, os contrapontos necessários para definir as suas personalidades.

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