e Maio 2016 ~ Diário do Moretti
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sábado, 28 de maio de 2016

Confira a íntegra do conto "O Náufrago do Rio dos Tubarões"




O NÁUFRAGO DO RIO DOS TUBARÕES

Por Marco Moretti

“Esta carne, que vos dou,/ Insensatos, é a vossa/
E na minha medula está/
Cravada a marca de vossos ancestrais./
Vinde, vinde, a cada mordida/ Vossa boca poderá saboreá-los”
Johann Wolgang von Goethe – Canção de morte
de um prisioneiro brasileiro

"O Homem Desesperado", obra de Gustave Courbet - Fonte: Wikipedia

            Havia duas ou três coisas sobre as quais o jovem Jean-Luc Dupont desconhecia a seu próprio respeito. Uma delas é que possuía uma memória prodigiosa, capaz de rememorar com exatidão cartesiana cada um dos 150 salmos da Bíblia. Outra é que nadava com a destreza de um peixe. O terceiro e não menos importante atributo é que era dono de uma carne tenra e saborosa. Essa qualidade se revelaria fatídica ao cabo de alguns dias. Guardemos, pois, esse fato em nossas lembranças e não indaguemos dele até o momento oportuno. Quanto às demais características, serviram-lhe galhardamente para sobreviver a um naufrágio ocorrido nas costas brasileiras. Para os trópicos havia se dirigido, oriundo da Europa, com o intuito de integrar a colônia reformista francesa montada na Baía de Guanabara pelo infame comandante Villegagnon[1], quando uma borrasca atingiu a nau em que viajava, levando-a a pique.
            Dupont teria perecido então não fosse a vontade férrea em sobreviver, somada à crença vigorosa em um Deus provedor. Tendo por salva-vidas apenas um fragmento partido do leme, permaneceu à deriva por vários dias, sendo levado ao sabor das águas e das correntes oceânicas para o sul do continente, uma região ainda pouco explorada pelos europeus de qualquer plumagem. Foi quando seu conhecimento bíblico e a habilidade aquática revelaram-se úteis. A recitação ininterrupta e repetida dos salmos salvou-lhe da insanidade na mesma proporção em que a inesperada capacidade de nadar impediu que se afogasse em meio às ondas bravias que o açoitavam. Ou que se convertesse em alimento de tubarões. Apesar da obstinada persistência em manter-se vivo, acabou por sucumbir ao esforço e à fraqueza e desfaleceu ainda agarrado ao lenho que o mantinha à tona. Assim desacordado, foi acolhido pela desembocadura de um rio não muito largo nem muito fundo, que tratou de entregá-lo às margens de uma enseada légua e meia terra adentro, onde meia dúzia de mulheres índias ocupavam-se com seus afazeres diários.
            Ao avistar o corpo inerte do rapaz boiando na água, retraíram-se, a um primeiro impulso, com medo de que se tratasse de um tubarão desgarrado, como os que costumavam freqüentar aquele rio, acertadamente batizado pelos tupiniquins de Peru-hybe[2]. Ao constatar que não passava de um ser humano, amontoaram-se à sua volta, admiradas com sua aparência, radicalmente diferente do que estavam acostumadas a ver. Os trajes, ainda que esfarrapados, despertaram curiosidade, e o nariz proeminente fincado no alto do rosto comprido, a pele alva e o aspecto físico franzino geral provocaram frêmitos pronunciados nas mais jovens. Nada que se comparasse ao assombro que expressaram diante do gemido profundo que emitiu segundos após ser avistado, prova cabal de que continuava com vida. Em pânico, largaram os potes e cuias de barro e correram a chamar os homens da aldeia em seu auxílio.
            Os guerreiros acorreram prestes, munidos de suas bordunas, seus arcos e flechas, prontos para perfurar e estraçalhar o crânio do forasteiro caso tentasse algo. Olharam-no não menos curiosos que as mulheres, e um deles, franzindo o cenho, antecipou-se aos demais e fustigou-o com a ponta de uma flecha, ao que Dupont reagiu com um lamento doloroso. A manifestação provocou reações desencontradas e uma discussão alçou-se entre os indígenas, resolvida tacitamente quando um deles, por sinal o mais robusto, gritou mais alto, ordenando aos outros que retirassem o estrangeiro da água e o amarrassem a um tronco com cordas feitas de raízes.
            A tudo o francês permaneceu alheio, entregue ao confortador abraço de Morfeu[3]. Portanto, não viu quando o carregaram atado a um pau, feito porco do mato, dezenas de metros floresta adentro. Tampouco viu quando a taba dos índios tupiniquins engalanou-se para recebê-lo. O alvoroço contagiou crianças, moços e velhos, que saíram de suas ocas para assistir à chegada do estranho visitante. Dupont continuava desacordado quando o levaram para dentro de uma das choças e o depositaram sobre uma rede suspensa a alguns palmos de altura do chão de terra batida. Se estivesse desperto, teria presenciado o olhar de curiosidade que acompanhou sua procissão pela aldeia. Talvez tivesse até notado aqui e acolá alguns sorrisos maledicentes nas mandíbulas grotescamente decoradas com ossos atravessados no queixo, e contagiantes expressões de euforia e desmesurado prazer ante a sua chegada triunfal. A considerar os olhares de desejo que as moças lhe voltavam e ao lamber dos beiços das matronas, era como se um festim estivesse prestes a começar e ele fosse o convidado de honra. “Remiurama”, gritavam repetidamente. Contudo, só logrou acordar muitas horas depois, quando a lua já ia alta.
            Recobrou os sentidos com um susto, ou melhor dizendo, com um tombo. Ao se debater, ainda pensando estar em alto-mar, a rede emborcou e ele caiu de bruços no chão, fungando um punhado de terra com as fuças pronunciadas. Porém, Dupont não se permitiu lançar um impropério sequer. Isso seria impensável a um pastor huguenote[4] de seu molde e corte. Antes, preferia em tudo enxergar a vontade inefável de Deus, e interpretava até os mais atrozes sofrimentos como provações ao seu caráter. Caráter esse rigorosamente reto e sem arestas, talhado a ferro e fogo pela leitura atenta das Escrituras. Como resultado desse esforço sobre-humano, exibia uma austeridade moral sem concessões, que em última instância era a maneira que havia encontrado para compensar a aparência imperfeita e desproporcional com que Deus o havia agraciado. Desse contraste entre o interior ilibado e o exterior corrompido resultou a fé inabalável de que estava predestinado a cumprir um grande destino nestas terras bárbaras.
            O som de sua queda não passou despercebido de seus captores, e logo um dos indígenas, que posteriormente revelou ser o pajé da taba, adentrou a cabana. Com um longo cajado de madeira encimado por penas de papagaio na ponta, o ancião, corpo pintado de jenipapo, postou-se diante do francês e passou a inquiri-lo em sua língua, que para o estrangeiro soou tão incompreensível quanto o idioma de Montaigne soaria a um babuíno. Porém, os gestos alargados e a expressão de cólera no rosto do selvagem denunciavam um certo mal-estar com sua presença, arriscaria dizer uma hostilidade incontida. O europeu deduziu que isso devia-se provavelmente ao fato de não ser nem se parecer com os portugueses, aliados dos tupiniquins naquelas paragens. Isso significava, para o pajé, que estava associado à raça rival dos tupinambás, o que o qualificava como inimigo natural a ser exterminado.
            Essa tese não se sustentou por muito tempo e veio abaixo poucas horas depois. Em seu íntimo, o jovem se preparava para ser martirizado na arena indígena e servido de alimento às feras tropicais quando, para sua surpresa, foi brindado com uma profusão incessante de alimentos. A maioria dos legumes, frutas e carnes era completamente desconhecida de seu olhar, olfato ou paladar europeu. Vinham em levas de cabaças de barro carregadas de bananas da terra, mamões e peixes, acompanhadas de bolos de aipim e mandioca. Embora esfomeado e enfraquecido, ignorou solenemente os apelos de seu estômago. Ao menos em parte, esforçando-se para consumir apenas o necessário para manter-se de pé. A cornucópia daquela orgia culinária, que se estendeu pelos dias seguintes, sem que de nada adiantassem suas manifestações de protesto com gestos de mãos e braços, levou-o a erguer uma barreira de orações contra a tentação da gula que o acometia, escorada nos fundamentos de sua intransigente determinação religiosa.
            Em sua mente protestante, aquilo bem podia ser o Jardim do Éden terrestre, com todas as delícias que estavam reservadas a bem-aventurados como ele, como o terceiro círculo do Inferno[5]. Porém, não tardou para que sua sensibilidade dialética se impusesse, levando-o a interpretar esse banquete como novo sinal enviado pelo Criador. Muito provavelmente, um sinal para que exercitasse a virtude perante os excessos que açoitavam ininterruptamente três de seus mais vulneráveis sentidos. Se assim fosse, o domínio sobre os instintos seria então testado ao limite de suas possibilidades com nova e surpreendente oferta dos índios exatos sete dias após a sua chegada.
            Logo pela manhã, foi despertado pela entrada na oca de uma linda garota indígena. Ela penetrou o lugar em silêncio, e furtivamente esgueirou-se até a rede, depositando a mão em seu peito sob a camisa semiaberta. Um tanto assim mais baixa que ele, de olhos e cabelos escorridos cor de azeviche e pele acobreada, era a própria visão do pecado para um huguenote puritano da sua estirpe. Sobretudo porque trazia expostas as vergonhas, todas muito verdes e muito frescas. Ante o toque macio de seus dedos finos e ornados de pinturas, o francês acordou sobressaltado e persignou-se, incrédulo diante daquele espetáculo, para ele, nada menos que satânico. A palavra que se recusou a escapar de sua garganta e enfurnou-se em seu peito era sacre coeur.
            Aquela Lilith[6] tupiniquim que se apresentava escandalosamente nua ao seu olhar aparvalhado era uma provação viva à sua capacidade de manter-se fidedigno aos princípios morais que tanto defendia. Em vez de cobrir os olhos com repugnância, exultou diante da tentação que Deus colocava em seu caminho. Sentiu-se o próprio João Batista ante Salomé e se regozijou com o papel que lhe cabia cumprir nesse drama. Contudo, quando a jovem avançou sobre ele, fazendo menção de entregar-se aos impulsos naturais que não deixavam de acometê-lo, o rapaz rapidamente pôs-se de pé e recuou, aterrorizado. Por mais que a cunhã insistisse, ele estava disposto a resistir até o último suspiro às suas investidas. Capitular aos desejos nesse momento seria o mesmo que rasgar as Escrituras, atear fogo às negras vestes protestantes, trair sua própria raison d’etrê. Encurralado diante do mal, recorreu à única arma que dispunha, a arma suprema ao seu alcance:
            - “Ainda que as águas tumultuem e estuem e venham abalar os montes, está conosco o Senhor dos exércitos, nosso protetor é o Deus de Jacó.”[7]
            Assim começou ele a proferir as orações do Saltério, de olhos fechados, enquanto recuava cada vez mais até parar de encontro à parede de palha da oca. Quando abriu os olhos, a jovem havia desaparecido como por artes do demo.
            Dupont soltou um suspiro de alívio, e rezou fervorosamente outras tantas estrofes salmísticas em agradecimento. Enquanto rezava, uma idéia suspeita, uma idéia asquerosa e malcheirosa, inoculou-se em sua mente. Se estava predestinado a cumprir os desígnios do Senhor, quem era ele para almejar resistir-lhe as provocações? Deixar-se carregar para o seio do pecado não seria uma maneira de melhor acatar sua vontade suprema? Porém, se assim agisse, se chafurdasse na lama da lascívia, não estaria incorrendo no mesmo erro dos papistas[8], que a todo mal se entregam para depois se redimirem no ato da confissão a fim de poderem errar novamente de alma purificada, num círculo vicioso interminável?
            Esse e outros aspectos da religião de Roma eram-lhe insuportáveis. De todos os rituais da Igreja Católica, porém, o que desprezava do mais profundo desvão de sua alma era certamente o da Eucaristia. Que se consumisse a hóstia celebrada como representação do corpo de Jesus Cristo, isso para ele era não só aceitável como desejável. O que não podia compreender era a noção de transubstanciação para os católicos implícita nesse ato. A idéia de que a hóstia se convertesse literalmente na carne do Messias ao ser consumida em nossas entranhas mais do que o indignava, era repugnante, era indecoroso, era canibalismo.
            Quis a Providência que o jovem não chegasse aos termos de seus questionamentos, pois no momento seguinte outra rapariga em flor adentrou a oca. Repelida com igual veemência que a primeira, foi seguida de uma terceira, e quarta ofertas, todas das mais variadas idades, formas e encantos. Posteriormente, deduziu que se tratavam das filhas e irmãs do pajé. Ao cabo, quando principiava a fraquejar em sua determinação, reagiu recitando o poderoso e sempre infalível Salmo 91.
            Depois dessas tentativas infrutíferas, parece que os selvagens resignaram-se e desistiram de procurar agradá-lo. Por mais uma semana, o rapaz permaneceu sozinho em sua choça, sem que fosse incomodado com nenhuma outra visita intempestiva.
            Nesses dias de expectativa, entregou-se ao que melhor sabia fazer: orar. Orou e jejuou contrita e fervorosamente, até que numa bela manhã de domingo (ao menos é o que supunha) uma comissão de velhas, gordas e engorduradas mulheres índias, lideradas pelo pajé, agora alegre e expansivo, invadiu a oca e o agarrou à força pelas mãos e pés, levando-o com muita pompa e circunstância.
            Do lado de fora, um cenário ao mesmo tempo magnífico e estarrecedor estava montado à sua espera. Em redor do centro da taba, dezenas de pessoas acorreram das oito ocas que formavam a aldeia. Outras mais afluíam das aldeias vizinhas, e formavam um impressionante cordão de selvagens, todos muito ornados como se fossem a uma batalha. Ou a uma festa. O que de fato, como o francês logo constatou, era a cerimônia que estava prestes a começar. Uma festança, ou melhor, um banquete ritual com muita música e dança, regado a uma beberagem de alto teor alcoólico, chamada pelos indígenas de cauim. Consumido indistintamente por todos com muita avidez, esse aguardente era distribuído generosamente em vasilhas de cerâmica repletas até a boca. Até mesmo Dupont foi convidado a experimentá-lo. Convidado não é bem o termo, o certo seria dizer “forçado”.
            Logo, viu-se tomando grandes goles de cauim, que tiveram por efeito imediato acalmar os nervos e abrir sua consciência para uma nova perspectiva. A contragosto entregue à embriaguez, logo passou a rir e a divertir-se, misturando-se com os selvagens em suas cantorias e farras. Foi somente então que a luz se fez ante seus olhos. Como Paulo na estrada de Damasco, o rapaz ficou momentaneamente cego com a claridade da revelação que subitamente irrompeu em seu cérebro, varrendo as trevas do medo e ofuscando-o com a verdade irretorquível. Agora compreendia tudo, todo o calvário a que fora submetido naquelas semanas.
As provações e tentações impostas pela fartura de alimentos e as oferendas das cunhãs não passavam de um teste de fogo, para constatar até que ponto ele se manteria íntegro e se sucumbiria ou não aos apelos de Lúcifer. Superados os obstáculos que lhe foram impostos, estava finalmente sendo admitido nos seio da tribo, como amigo, aliado ou coisa ainda mais significativa. Sim, pela recepção calorosa que lhe faziam, pelo festim barulhento que os selvagens haviam preparado em sua homenagem, ele só podia estar sendo saudado como novo cacique tupiniquim, com todas as honrarias e deferências que sua nova posição exigia. Finalmente, estava prestes a contemplar o destino manifesto que Deus lhe reservara como governante daqueles selvagens incréus, como um farol a apontar-lhes o caminho que iria arrancá-los da barbárie e conduzi-los em segurança para a cristandade.
Essa certeza arraigou-se em sua alma, e ele se entregou sem mais reticências aos festejos, que acreditava piamente serem voltados à sua entronização como amo e senhor. Ria e cauinava desprendido. Não se importou sequer quando arrancaram-lhe as vestes e o conduziram até um monte de terra em frente à oca do pajé. Ali foi colocado de joelhos e uma das velhas lambuzadas aproximou-se com uma lasca de cristal e raspou-lhe as sobrancelhas, a barba e os poucos pêlos do corpo.
“Estão me preparando para a cerimônia de coroação”, refletiu ele, que achava tudo muito pitoresco e divertido.
Totalmente depilado e nu até as ventas, as índias o pintaram com tintas alegres por todo o corpo. Foi então levado para a frente de outra choça, a mais dilatada da taba, onde meia dúzia de maracás alinhavam-se diante da entrada. Acertadamente, o rapaz deduziu serem os ídolos tupiniquins, idéia que caía mal em sua sensibilidade calvinista. Amarraram aos seus pés um chocalho de conchas e puseram em sua cabeça um araçoiá, espécie de cocar feito com penas de papagaio, e que o francês julgou ser sua coroa. Em seguida, as mulheres, em uníssono, principiaram a cantar e a dançar, e fizeram sinais para que as acompanhasse, batendo os pés no chão ao compasso de sua música bárbara.
A dança atravessou a noite toda até o nascer-do-sol, que tingiu o céu de tons avermelhados e púrpuras, o que ajudou a dar à cena um colorido inusitado. Dupont já não se agüentava mais em pé e a exaustão ameaçava derrubá-lo quando da choça saiu um índio alto e corpulento. Na verdade, era o homem mais forte de toda a aldeia, não por acaso o mesmo que o havia resgatado do rio, ainda desfalecido. Agora trazia incrustado no rosto algumas pedras verdes e usava um colar de contas brancas, o boyra. Pintado da cabeça aos pés de cinza, vestia um manto de penas e empunhava um tacape de madeira, a que os indígenas chamavam de ibirapema.
As mulheres forçaram o rapaz a ficar novamente de joelhos, ao que ele não opôs resistência. Como um vassalo prestes a ser sagrado cavaleiro, baixou a cabeça, pensando:
“Eis o momento supremo. Agora receberei o cetro real, com o que serei coroado rei desse povo inculto. Irei converter a todos à única e verdadeira fé...”
O jovem não teve tempo de concluir o pensamento. O golpe da borduna, desferido pelo carrasco, fendeu-lhe o crânio na altura da nuca e ele caiu para frente, instantaneamente morto. Os miolos, ainda quentes de tanto pensar, esparramaram-se pelo chão misturados ao sangue, que ensopou a terra seca enquanto a malta selvagem corria para recolhê-lo em vasilhames e a besuntá-lo em seus corpos e órgãos genitais, avançando sobre seu corpo inerte com a voracidade de uma alcateia de lobos famintos. A um canto da praça central, a grelha era preparada para consumir sua carne, tenra e saborosa. O banquete durou a noite inteira e só terminou quando o último pedaço de suas vísceras foi devorado pelo último dos tupiniquins. Finalmente, Jean-Luc Dupont havia encontrado o destino pelo qual tanto havia ansiado.
           
São Paulo, 04 de junho de 2016










[1] A França Antártica, que teve vida curta, entre as décadas de 1550 e 1560.

[2]  “Rio dos Tubarões”, em tupi-guarani.

[3] Deus do sono na mitologia grega.

[4] Huguenotes, seguidores franceses das regras religiosas de Calvino.

[5] A região reservada aos glutões, segundo Dante Alighieri na Divina Comédia.

[6] A primeira mulher de Adão, na antiga tradição hebraica.

[7] Salmos 45, 4

[8] Os católicos.

sábado, 21 de maio de 2016

domingo, 15 de maio de 2016

Leia a versão integral de "Robinson Crusoé e a estranha lógica do capitalismo", a resenha crítica do clássico "Robinson Crusoé", de Daniel Defoe





ROBINSON CRUSOÉ E A ESTRANHA LÓGICA DO CAPITALISMO

Por Marco Moretti

Frontispício de uma das primeiras edições de "Robinson Crusoé" - Fonte: Wikipedia

O recente êxito do filme “Perdido em Marte”, em que Matt Damon se torna náufrago no planeta vermelho depois que os seus companheiros astronautas o abandonam à própria sorte e ele é obrigado a se virar nos trinta para sobreviver com pouco mais do que engenho e uma dose generosa de força de vontade, traz de volta ao gosto popular uma antiga história para a qual a literatura já dedicou um de seus maiores e mais duradouros clássicos. Contudo, enquanto o longa-metragem dirigido por Ridley Scott (de “Alien, o Oitavo Passageiro” e “Gladiador”) é uma ode à capacidade humana de superar as adversidades perfeitamente adequada aos anseios individualistas do início deste novo milênio, para essa mesma sensibilidade ocidental politicamente correta o romance “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe (1660-1731), publicado originalmente em 1719, é um atentado ético e moral. Naturalmente, isso não abala em nada o prestígio dessa obra-prima da literatura inglesa, que prossegue sendo uma das maiores criações da humanidade, mesmo quase três séculos depois de ter sido originalmente publicada.
Ao analisarmos “Robinson Crusoé”, não se pode perder de vista o fato de que o contexto político e cultural da época em que ele foi escrito era profundamente diferente do nosso.  O escocês Defoe viveu no auge do absolutismo inglês, época política conturbada e marcada pela centralização do poder nas mãos do monarca e da supremacia do Estado sobre a vida dos indivíduos, fato bastante ressaltado em uma obra famosa do século XVII, O “Leviatã” (1651), de Thomas Hobbes.
Se em seu livro Hobbes faz a defesa do poder real absoluto, Defoe investe na direção inversa, e com a história do náufrago que sobrevive sozinho durante mais de 20 anos em uma ilha, expõe o teorema de uma corrente filosófica e política em voga em sua época, o liberalismo. Professado originalmente por John Locke em livros como “Os Dois tratados sobre o governo” (1689), o liberalismo deflagrou a ode ao individualismo como único antídoto contra a onipresença do Estado. Crusoé, assim, é mais que o mero personagem de romance de aventuras que a tradição nos legou. Ele é a personificação do espírito liberal, ou melhor dizendo, a prova viva de que o indivíduo prescinde do Estado para sua subsistência.
Visto bem de perto, o romance, que na ocasião do lançamento tinha um título mais longo e pomposo, “A Vida e as Estranhas e Surpreendentes Aventuras de Robinson Crusoé de York, Marinheiro”, posteriormente reduzido para o mais palatável “As Aventuras de Robinson Crusoé”, é menos um romance de aventura do que uma metáfora elaborada da própria vida de seu autor e uma crítica ácida à sociedade da época, em que seguiu as pegadas de outro famoso escritor de língua inglesa do século XVIII, Jonathan Swift, cujo “As Viagens de Gulliver” é, antes de tudo, uma demolidora sátira do império britânico então em expansão.
Ele próprio comerciante, em certa ocasião dono de uma perfumaria, uma mercearia e uma fábrica de tijolos, levou uma vida empreendedora em que chegou a viajar por toda a Inglaterra e até para o exterior, da Alemanha à França. Depois de morar algum tempo na Espanha e na Suíça e conhecer alguma prosperidade, Defoe viu-se em dificuldades financeiras e duas vezes, em 1692 e 1703, foi à falência. Perseguido por dívidas, viu-se obrigado a permanecer encarcerado em sua própria casa em Bristol durante a semana e somente aos domingos se sentia à vontade para circular livremente (aproveitando-se de uma antiga lei britânica, segundo a qual nenhum devedor podia ser perseguido pelos credores aos domingos, o Dia do Senhor). Durante muitos anos, portanto, o escritor deve ter se sentido um “náufrago” entre os seus compatriotas, sozinho e isolado do mundo exterior pelo rigor da lei.
Mas ele foi também um náufrago político. Filho de um chapeleiro fiel à fé de seu ancestrais, os puritanos integristas, e “dissidente”, como eram chamados os partidários de Oliver Crommwell, contrários à Coroa, Defoe pagou por toda a vida esse pecado involuntário. Mesmo proibido, pela postura religiosa e política do pai, de freqüentar a universidade para se tornar pastor, ele recebeu educação esmerada dos amigos de família, o que seria de grande valia anos depois, quando ingressou no jornalismo.
Foi somente em 1683 que abandonou o sobrenome original do pai, Foe, e adotou o Defoe, como uma maneira de ressaltar a sua ascendência flamenga e de afrontar os adeptos do regime absolutista. Opositor ferrenho do rei Jaime II, um déspota, saudou com entusiasmo a chegada e a subida ao trono inglês do holandês Guilherme III de Orange, em 1689, no seio da chamada “Revolução Gloriosa”. Os seus panfletos cheios de raiva e mordacidade conquistaram a simpatia dos “whigs”, os membros do partido liberal ligados aos “dissidentes”, na mesma proporção em que granjearam inimigos poderosos entre os “tories”, os políticos conservadores, aliados da Igreja anglicana. Com a morte de Guilherme III, uma violenta disputa política pela sucessão do rei opôs os dois grupos e, novamente, os liberais saíram derrotados da contenda.
Inconformado, o escritor publicou, em 1702, um de seus manifestos mais virulentos, “O Caminho mais curto com os dissidentes”, em que atacava frontalmente a Igreja anglicana. Como resultado, ele foi condenado a um ano de prisão. Apesar dos protestos de centenas de pessoas, que saíram às ruas para exigir a sua libertação, a pena foi mantida. Quando finalmente foi solto, a sua postura passou a ser a de um cinismo de ocasião. Pressionado pelas dívidas e pela desavenças políticas, dedicou-se a escrever para quem pagasse melhor, e sua opinião era igualmente disputada entre os tories e os whigs. Por volta de 1714, tomado de profunda desilusão, trocou o jornalismo pela literatura, quando começou a produzir as obras que o tornariam célebre no mundo todo. “Robinson Crusoé” foi escrito nessa fase de desencanto com a política e a vida pública e pode ser visto como um acerto de contas com a política e a religião de seu tempo.
Foi nessa época que Defoe exilou-se da sociedade, pressionado pelas dívidas, e só se permitia sair aos domingos para almoçar na pensão Leão Vermelho ou freqüentar o culto dominical. Por essa razão, passou a ser conhecido, um tanto pejorativamente, pela alcunha de “Gentleman Sunday”, ou “Cavalheiro Domingo”. Numa dessas visitas ao Leão Vermelho, ele travou conhecimento com um sujeito excêntrico, que se vestia de pele de cabra e usava gorro e botas feitas do mesmo material, e que os locais consideravam um “selvagem”. Na verdade, Alexander Selkirk era escocês como Defoe e filho de um próspero artesão de peles. Da mesma forma que o escritor, Selkirk fez-se ao mar ainda na juventude.
Foi num desses encontros dominicais com Daniel Defoe, com quem compartilhava o fervor religioso, que Selkirk relatou a sua mais extravagante aventura. Descontente com vida em terra firme, o jovem aventureiro embarcou, anos antes, num navio de corsários, o “Cinco Portos”, que pretendia realizar pilhagens na costa oeste da América do Sul. Quando navegavam no arquipélago Juan Fernández, no Pacífico, a 650 km da costa do Chile, descontente com o autoritarismo do capitão do navio, Selkirk pretendeu liderar um motim a bordo. Como o gesto não surtiu o efeito desejado, ele desembarcou voluntariamente numa das ilhas, a Más a Terra, que costumava ser usada como escala pelos navegantes dos mares do sul (e que hoje, rebatizada de “Ilha de Robinson Crusoé”, se tornou, juntamente com o arquipélago do qual faz parte, parque natural chileno e reserva de biosfera da Unesco) na esperança de que outro navio corsário, que vinha na esteira do “Cinco Portos” a poucos dias de distância, o resgatasse.
No entanto, Deus ou o acaso quiseram que as coisas corressem de maneira diversa da pretendida pelo arrojado marinheiro. A outra embarcação jamais chegou e Selkirk se viu abandonado na ilha apenas com um fuzil, uma carga de chumbo e pólvora, umas poucas ferramentas, além de um punhado de roupas e objetos pessoais, como a Bíblia de Edimburgo e um volume de salmos. Como o local dispunha de cabras em relativa abundância, ele fez delas o seu alimento principal e montou um cercado para elas. Alojou-se numa caverna no alto de um platô de onde divisava toda a ilha e tratou de montar ali a sua casa, com cama, quarto e cozinha. Aprendeu a plantar e a extrair pimenta de plantas trepadeiras e fabricou sozinho toda a sorte de utensílios. Foi nessas condições difíceis que Selkirk sobreviveu por longos e extenuantes cinco anos, até ser encontrado e resgatado por um navio inglês, o “Duke”, e levado de volta à Inglaterra.
Daniel Defoe não foi a primeira pessoa a ouvir a narrativa de Selkirk. Um ano antes, ele a contou  para o ensaísta Richard Steele, que a transpôs nas páginas do jornal “The Englishman” e garantiu ao aventureiro uma breve notoriedade. Naturalmente, Defoe viu nessa história muito mais do que o relato de um sobrevivente às agruras do destino e vislumbrou nela a oportunidade de expor as suas concepções políticas e religiosas. Ele a recontou segundo os seus próprios parâmetros, mudando a ilha de localização, do Pacífico para as proximidades do litoral norte do Brasil, transformando o marinheiro num náufrago, recheando a aventura com perigos mais palpáveis do que as intempéries, como nativos antropófagos e doenças e, claro, dando-lhe por companheiro o índio Sexta-feira.
Ao contrário do que se pode imaginar, esse personagem também foi inspirado numa pessoa real, o índio misquito Will, que foi esquecido pelo capitão de uma embarcação na mesma ilha de Selkirk, mas muitos anos antes, entre 1681 e 1684. Outra alteração importante saída da pena do escritor foi o nome dado ao personagem. No lugar de Alexander, ele optou por Robinson, um nome muito comum na Escócia, como “José” entre nós, o que serviu para reforçar o caráter comum do personagem, e, para o sobrenome, foi buscar inspiração num colega de escola que havia se tornado ministro, um certo Crusoé.
 Aprofundando o realismo inaugurado na literatura com o “Dom Quixote” de Cervantes, Defoe dotou seu herói de atributos meramente humanos. Em sua ficção, não há lugar para os semideuses da mitologia greco-romana, os Aquiles, Ulisses e Enéas auxiliados pelos deuses. Robinson Crusoé é humano, diria que demasiadamente humano. Ele padece temores, tristezas, alegrias, como qualquer um de nós. Em determinado trecho do livro, chega a adoecer com uma febre avassaladora que o deixa prostrado. E, como qualquer ser humano comum, também tem sua cota de defeitos e imperfeições. Pelo menos, aos nossos olhos de ocidentais do século XXI.
É curioso como Defoe pinta Crusoé como um rebelde sem causa, determinado a contrariar todas as disposições do pai e fazer-se ao mar, mesmo com os maus presságios que o cercam. Entre suas várias andanças, vem dar com os costados no Brasil, onde se estabelece como próspero Senhor de Engenho na Bahia e chega até a se tornar mercador de escravos negros. Ato involuntário ou não, o autor faz com que o personagem naufrague justamente quando parte para a África com o intuito de apresar escravos a fim de revendê-los na América do Sul.
Fazia parte da lógica mercantilista daquela época que um herói moderno, pelo menos segundo a concepção inglesa, fosse um capitalista sedento de lucros, um homem de negócios acima de tudo, que reflete em seus atos e pensamentos a ética própria desse sistema econômico, então lutando para se estabelecer sobre os resquícios feudais que ainda imperavam no continente europeu. E a ética protestante capitalista, saqueando a feliz expressão de Max Weber, não é outra senão a da conquista, domínio e exploração de novas terras e, sobretudo, povos considerados inferiores. A mesma concepção que levaria os europeus, mais de cem anos depois, à aventura do neocolonialismo.
Crusoé encarna à perfeição esse espírito. Na verdade, ele sintetiza, em sua narrativa, o próprio ciclo dos descobrimentos iniciado por portugueses e espanhóis e que então prosseguia sob o comando de ingleses e holandeses. A princípio, como um Adão expulso do Jardim do Éden, mas sem uma Eva que lhe faça companhia, ele se instala em sua ilha como um descobridor. Após o reconhecimento da região, ele passa a modificar o ambiente em torno e a reproduzir na ilha as mesmas condições de vida burguesas que tinha em sua terra natal.
Mais que uma cópia, Defoe deixa claro que se trata de uma paródia do modo de vida britânico. Isso fica claro por detalhes como o traje que o próprio personagem confecciona a partir de materiais locais, e que inclui até sombrinha com folhas de palmeira. O náufrago chega a construir até uma casa de verão do outro lado da ilha. Posteriormente, ele vai se referir à ilha como o seu pequeno reino, seu senhor por direito divino. Pode-se ver aí outra paródia sutil de Defoe contra o princípio do direito divino dos reis.
Finalmente, a etapa final e inevitável desse processo de dominação se dá quando Crusoé encontra o nativo Sexta-Feira. Em condições normais, um homem do século XXI de bom senso que se encontrasse afastado de qualquer contato humano por duas décadas ficaria maravilhado com o fato e certamente faria do índio seu companheiro. Em vez disso, e novamente seguindo a lógica do discurso capitalista eurocêntrico imbuído em todo o romance, a primeira coisa que Crusoé faz é transformar o benevolente e servil Sexta-Feira em seu escravo. Não satisfeito em fazer do selvagem seu criado, o herói ainda inicia um processo “civilizador”, procurando convertê-lo, primeiramente, ao cristianismo, e em seguida ensinando-lhe a língua e os costumes de sua terra. Novamente, aqui, podemos enxergar uma paródia, não só do processo colonizador europeu na América como do próprio sistema de classes britânico.
Curioso, nesse processo, é que Crusoé migra de reles homem comum do início do livro para se tornar praticamente um semideus ao seu termo, com poderes de vida e morte sobre a ilha e seus habitantes. Contudo, no lugar de aderir a um materialismo ateísta, que o faria pairar sobre a natureza primitiva e revolta, o que seria a conseqüência lógica desse processo, Defoe dá um passo atrás e instila em seu texto um espírito de piedade cristã que vem contradizer, aparentemente, mas só aparentemente, a auto-suficiência do herói.
Esse misticismo só vem reforçar a tese de que sua aventura é uma síntese do colonialismo europeu dos séculos XVI e XVII, e que encontra justamente no Deus cristão, sobretudo protestante, o respaldo e a justificação de seus atos. Com sua fé cada vez mais intensa na vontade divina no decorrer do relato, Crusoé sublinha, assim, o caráter de predestinação dos europeus em sua “missão” de conquistar novas terras e novas civilizações.






sábado, 7 de maio de 2016

Leia a versão completa do conto "O Homem partido"




O HOMEM PARTIDO

Por Marco Moretti

“Em vão espero as desintegrações e os símbolos
que precedem o sonho”
Jorge Luis Borges

Obra de René Magritte - Fonte: Wikipedia

            Seja bem-vinda à minha vida, onde tudo dá errado. Pense em alguém que durante toda a existência perseguiu os seus sonhos sem jamais alcançá-los e talvez você tenha um vislumbre do que eu sou. Sabe aqueles homens que se destacam pela simples presença física, pelo poder carismático que emana do olhar magnético, do jeito de falar, de andar, das roupas elegantes que usa e dos carros possantes com que desfila pelas ruas? Pois bem, Constantino Hermes de Souza é a versão antimatéria desse tipo de pessoa. Acho até que, se um sujeito desses esbarrasse em mim, nós dois nos desintegraríamos numa explosão. Desde que me entendo por gente, só o que tenho ouvido ad nauseam são palavras de repreensão, de ordens dadas displicentemente, de humilhações públicas e privadas desprovidas de cerimônia. Se alguma vez recebi um elogio por qualquer ato que tenha cometido, não me lembro. A recordação mais tenra a respeito e que me vem à memória foi quando eu tinha oito anos e os meus amigos de brincadeira aprontaram uma com o zelador do prédio onde morávamos. Não vem ao caso relatar os detalhes do incidente, nem que o estrago dele decorrente acarretou um ressarcimento considerável em dinheiro para os bolsos de nossas famílias, basta saber que foi relativamente sério, ou ao menos grave o suficiente para gerar uma carta de reclamação do condomínio a todos os responsáveis. Como era previsível, o meu pai, um senhor de expressões severas e modos ainda mais severos, não perdeu tempo em disparar contra mim meia dúzia de acusações disparatadas. Foram inúteis todas as minhas tentativas de jurar inocência, e garanto a você que não tive, nessa ocorrência em particular, qualquer participação, involuntária que fosse. De nada adiantou o álibi de que eu estava na escola no dia e horário indicados no comunicado (o que era verdade), nem que eu nada tinha a ver com as ações de meus companheiros (o que era mentira, afinal, eu sabia o que eles planejavam muito tempo antes, mas preferi manter silêncio). O resultado, como costumava acontecer, foi desmedido e injusto. O resumo da história é que na noite daquele dia fui dormir com o traseiro pelando e a sensação inamovível de que somente eu tinha sido o sacrificado no altar dos pecados da infância. Nos 40 e tantos anos decorridos desde esse acontecimento, meu destino foi invariavelmente o mesmo em todas as circunstâncias da vida, da juventude à maturidade. Parece que servi sempre e sempre de bode expiatório para as frustrações e recalques da humanidade, o Jó das (más) consciências alheias. Afinal de contas, alguém tem de levar a culpa pelos erros dos outros, não é? E isso inclui mãe, irmão, tios e primos, colegas de trabalho, chefes e, também, a minha dileta esposa.
            Veja bem, longe de mim fazer o julgamento antecipado da alma de Yolanda, só irei me limitar a narrar a maneira dela de ser, e tampouco pretendo me deter nos frequentes ataques de nervos, nas inúmeras frases ofensivas que diariamente ela me dirigiu em nossas quase três décadas de casamento, isso sem mencionar a absoluta ausência do mínimo traço de carinho que pudesse dispensar a mim. É verdade que não tivemos filhos, e que a nossa relação foi muito mais o acomodamento de duas existências solitárias que se chocam uma contra a outra ao acaso e assim ficam até que a morte, ou as dívidas, venham a separá-las. Amor, eis um termo que entre nós era tão alienígena quanto uma bactéria vinda do espaço. Se o que tivemos em comum nesse tempo todo de convivência pode ter uma definição, é o de um conflito tão duradouro e constante quanto entre judeus e palestinos. Sim, porque se havia alguma coisa de absolutamente certo entre nós é que jamais, em momento algum, chegamos a concordar com o que quer que fosse. Se eu gostava de carne assada, ela teimava em querer massas, se eu adorava passar horas a fio lendo livros, ela fazia questão de odiar e desprezar qualquer coisa escrita que não fossem as suas inseparáveis revistas de fofocas de celebridades. Quando uma dessas discordâncias se tornava aguda, explodíamos, ambos, em extenuantes discussões e brigas que só não chegaram às raias de fato porque eu, em 11 em cada dez vezes, me retirava com um sonoro bater de porta para o recesso mais ou menos seguro do quarto de dormir e a deixava do outro lado a esbravejar feito uma megera ensandecida. Como seres em tão completo desacordo de ideias e hábitos puderam conviver anos a fio sob o mesmo teto continua sendo um completo mistério para mim, mas o fato é que assim foi.
            Ei, vai com calma, Niceia, desse jeito você me machuca. Sim, eu sei, não tem outro jeito de consertar isso, e tenho certeza que você está fazendo o melhor que pode pra aliviar a minha dor, mas, por favor, tome cuidado. Como sabe, o meu estado já é lamentável o suficiente pra que eu sofra ainda mais sob a ponta afiada dessa agulha de costura.
Não que padecer, sob aflições de quaisquer espécies, seja propriamente uma novidade pra mim. Mas duvido que ser humano algum tenha tido jamais a oportunidade de experimentar o tipo de... desconforto, de abjeta humilhação, que eu fui obrigado a suportar sob as chibatadas verbais de meu antigo chefe.
            Se você quiser conhecer o rosto do mais sádico e inclemente algoz que pisou neste mundo, então eu terei todo o prazer de apresentá-la ao Dr. Faustino. Faustino Germano, esse o nome da fera. Sob a superfície arredondada e pegajosa de seu corpo avantajado, esconde-se um espírito em que a crueldade é mais do que mera metáfora. Aposto que, se vivêssemos em outro momento, e se as circunstâncias de sua criação assim o determinassem, ele teria feito uma brilhante carreira como carrasco em um campo de concentração nazista.
            Aquelas bochechas caídas de sabujo e aqueles olhos frios encimados por duas taturanas negras ainda me perturbam as noites de sono, dá pra acreditar? Não faz ideia de como eu rezei pra nunca mais vê-lo ou sequer ouvi-lo, até porque a voz cavernosa, abafada, daquele homem é dessas que evocam em nós ancestrais temores. Chego a pensar que certas pessoas devem ter sido criadas em estrebarias, mas no caso do Dr. Faustino isso seria uma ofensa para com os pobres quadrúpedes. Ele é a espécie de sujeito que vive à procura de um alvo em quem descarregar as decepções de uma vida inteira de mediocridade. E faz isso com a precisão e a frieza de um atirador de elite postado no alto de um prédio. Os modos enganadoramente polidos, a expressão de enfado, o sorriso de lagarto de dentes amarelados dobrados para a frente são incapazes de ocultar o desprezo que ele sente pelos semelhantes. Que não se tenha ilusões quanto a isso. Eis um crápula sem qualquer pejo de passar por cima dos outros com a delicadeza de um tanque Sherman[1], desde que receba um tapinha camarada nas costas e algumas palavras de incentivo ao pé do ouvido (e, óbvio, uma soma generosa em dinheiro vivo pra servir de estímulo).
            Com uma pessoa dessas, não há zonas cinzentas, sobretudo quando no outro prato da balança está sentado um subordinado. Então, pode-se contemplar em toda a pompa e glória o seu gosto exclusivo em dilacerar a alma alheia, em estraçalhar os egos com as mãos nuas, como um esfomeado que destrincha um frango e o devora avidamente, para, em seguida, pisotear as dignidades até nada restar do infeliz. Eu sei disso porque estive lá, sob as suas garras, eu vi e senti na pele esse implacável moedor de carne humana em ação. Fui a sua vítima preferencial. Depois de comer o pão que o diabo amassou sob o jugo daquele tiranete, nunca mais ousei rir daqueles que creem na existência do coisa-ruim, e se há uma prova maior da perversidade a que podem chegar os homens, eu, sinceramente, ignoro.
            Como vê, minha cara, entre a histeria de minha mulher e o prazer mórbido de meu chefe em demolir os outros, eu me encontrava na confortável posição de estar à mercê de ambos, bem onde eles me queriam, um cordeiro pronto pra pagar por suas vaidades. Mas acho que já falei disso, não é? Estou começando a me repetir... Seja como for, nem mesmo um burro de carga suporta o açoite impunemente. Eu creio que foi mais ou menos isso o que aconteceu comigo. Hein? Como tenho certeza de que essa hediondez que afligiu o meu rosto e dilacerou o meu ser e que me obrigou a me esconder sob essas bandagens imundas como uma múmia saída de um sarcófago se deve ao esforço conjunto daqueles dois pra me destruir? Ora, eu já vivi o bastante pra conhecer a natureza humana. A que mais devo esse estado deplorável em que me encontro a não ser ao sofrimento sistemático, ao choro que me obriguei a engolir, aos soluços que afoguei ainda na garganta, à raiva muda que calei nas entranhas durante anos, não dias nem semanas, mas anos, em tão grande número que sequer consigo contá-los com os dedos das mãos? Só isso pode explicar a lenta deterioração que principiou a me corroer de dentro pra fora e cujos primeiros e tímidos sinais eu somente me dei conta faz poucos meses.
            Como eu podia suspeitar que a coceira ininterrupta por todo o corpo que passou a me acometer nas altas horas da madrugada era algo mais sério do que uma alergia provocada por um alimento qualquer, do leite, da carne, de uma inocente fatia torrada de pão, ou tudo isso combinado? Se a minha costumeira displicência não houvesse me distraído, provavelmente eu teria despertado a tempo da complacência e agido pra evitar o pior. Em vez disso, o que foi que eu fiz? Recostei-me tranquilamente à poltrona e assisti com a passividade de uma estátua as hordas crescentes da praga a me devastar.
            Entretanto, até nessa hora aqueles dois tiveram o seu quinhão de participação. Quanto mais a irritação da epiderme me assolava, espalhando a vermelhidão pelos braços, pelo peito, pelas costas, com tanto mais repugnância eles voltavam o olhar pra mim. Yolanda estrangulava na garganta a ojeriza que experimentava, mas era incapaz de trancafiar a língua diante de minha situação. Quando não eram expressões de asco, eram as recorrentes palavras de censura por eu não me cuidar. “Olha só pra você, homem, o que parece...? Ah, sei lá, não quero nem pensar nisso. Está esperando o que pra procurar um doutor?” E se isso, Niceia, parece ofensivo, saiba que nem de longe se aproxima do tratamento que o Dr. Faustino se esfalfava em me dispensar. Diante de toda a repartição, no momento em que os olhares de meus colegas se erguiam detrás das pilhas de processos ou das telas de computador, encenava ele as mais inenarráveis cenas de assédio moral. Não fazia isso aos sussurros, como um devoto que confessa os pecados ao pé da orelha do padre no fundo da sacristia. De forma alguma. Ele preferia exibir o seu natural pendor para o drama, exagerando na entonação, nos gestos e nos olhares arregalados, no esforço pra criar uma grotesca pantomima de humilhação. Em seguida, me atropelava com ameaças veladas e outras não tão veladas assim, como se toda a minha existência dependesse de sua magnanimidade. “Acha que irei tolerá-lo nessas condições, Constantino? Pensa, por acaso, que não há um limite pra minha paciência? Olhe lá, hein, posso exonerá-lo por improbidade no serviço público se não tratar desse seu... problema, ou seja lá o que isso for. E é melhor que não seja contagioso...!” E nunca se dispunha a completar a frase. Deixava-a pendurada sobre a minha cabeça, como uma espada de Dâmocles [2] pronta pra ser baixada ao meu menor descuido.
            Mas não pense que essas sessões públicas de aviltamento tiveram o efeito imediato de me intimidar. Confiante na minha capacidade de recuperação daquilo que julguei se tratar de mera alergia passageira, inofensiva pra todos os propósitos, atrelei uma certa negligência à suprema despreocupação com que passei a encarar a coisa. Quanto mais Yolanda, o Dr. Faustino e as outras pessoas cobravam uma atitude, tanto mais eu protelava a ida ao médico, e comecei mesmo a achar graça, cá comigo, da exasperação que faziam questão de expressar em histéricas demonstrações de impaciência.
            Bem, isso até que o meu estado físico geral pareceu se deteriorar pra algo que eu não saberia, e nem agora sei, definir direito. Semanas depois das primeiras manchas terem despontado na pele, começou a se alastrar pelas falanges dos dedos, pela virilha, pelas comissuras dos lábios e até nos sulcos profundos que vincam a minha testa uma crescente rede de rachaduras. Qual uma teia de aranha que aos poucos se dissemina pelas paredes úmidas de um quarto e com o tempo envolve tudo, essas fissuras foram se multiplicando, conquistando milímetro a milímetro da superfície de meu corpo até que não restasse um único espaço intacto. Você pode imaginar quão grotesco eu me tornei, e a partir de determinado momento eu parecia a versão medonha de uma boneca de porcelana trincada.
            Foi nesse ponto, quando a mera visão de meu ser provocava aversões e reações desencontradas de fascínio e pavor em quem quer que por acaso deparasse comigo, que eu decidi, enfim, consultar um dermatologista. Não que eu ache que... Ai!
            Devagar com a agulha, Niceia. Já não basta o tanto que tenho passado e você ainda quer me furar que nem uma peneira? Mais cuidado, por favor. Isso, assim é melhor.
            Onde eu estava? Ah, sim, por força e desgraça de meu estado, acabei batendo às portas de um especialista. Mas logo que pus os pés no consultório, uma sala pequena e abarrotada de livros e estantes empoeiradas, e fitei aquele rosto magro e desinteressado, a boca fina e apertada com a firmeza de um zíper, encimada por um bigode grisalho torto e mal aparado, me dei conta de que o meu caso era daqueles que cobravam uma solução que aquele doutor insignificante e bolorento, afundado em sua desproporcional poltrona de couro rasgado e entrincheirado por trás da pesada mesa de madeira entalhada, seria incapaz de fornecer. Ainda assim, esforcei-me para confiar em suas duvidosas habilidades em encontrar uma cura e pus-me a ouvi-lo pacientemente por excruciante meia hora. O médico enredou-me em um emaranhado de explicações técnicas das quais somente ele e Deus conseguiam entender uma só palavra, e desconfio que, em certos trechos, apenas Deus era capaz de saber do que ele falava.
            Resumindo aquele palavreado que me soava tão barroco e sem sentido quanto um sermão de Vieira [3], ele me ofereceu a dádiva de sua suprema capacidade em resolver o meu problema com um ar de tedioso desdém pelos males alheios disfarçado pelo irritante hábito de piscar incessantemente a cada frase asmática entrecortada por longos e arranhados suspiros. Sem saber direito como nem por que, ele encerrou a consulta como costumam fazer todos esses curandeiros de plantão: com o receituário básico de dois comprimidos tomados em diferenças de tempo rigorosamente medidas, além de uma pomada milagrosa que, garantiu ele, “aliviaria a coceira e, após uma dúzia de esfregadas de três em três horas”, começaria a mostrar resultados. Sempre solícito, fez questão de se despedir de mim à porta do consultório com um misto de satisfação e sorriso malicioso, que fazia o bigode mal ajambrado parecer ainda mais feio, e tingia o seu semblante com uma mancha de cinismo. “Se seguir o tratamento, tudo estará resolvido em pouco tempo, você vai ver”, disse, e, ao menos naquele momento em que eu me encontrava desesperadamente sedento por uma ajuda redentora, as suas palavras soaram sinceras, ou sinceras o bastante para que eu me fiasse nelas.
            A despreocupação pode, por vezes, ser a melhor companheira de todas as horas das contrariedades. Passei a acreditar piamente que, em questão de dias, no máximo uma semana, estaria livre daquelas chagas. Eu disse acreditar? Pois esse é um verbo deveras acertado. A fé, e somente ela, é capaz de explicar a devoção com que nos entregamos às prescrições dessa raça de pajés, mesmo quando eles parecem não ter noção alguma do que estão tagarelando. Estou dizendo tudo isso pra que não pense, querida Niceia, que agi com a suprema imprudência de um tolo. Não, nada disso. Procurei seguir, caninamente, cada vírgula e ponto das orientações que o bom doutor estipulou na receita escrita lá com aquela letra maledeta dele. Nesses assuntos, costumo ser bastante cuidadoso. O resultado? O pior que se pode imaginar.
            Nem em meus piores pesadelos eu poderia prever a tragédia que estava reservada a mim. Às vezes, acho que fui vítima de alguma aposta envolvendo Deus e o chifrudo pra ver quem consegue perder a minha alma primeiro. Dado o meu quinhão de sorte, já devo estar na zona de rebaixamento dessa disputa.
            Os medicamentos que usei não apenas tiveram pouco efeito, como acho que conseguiram piorar o que já estava ruim. A princípio, até parecia que estavam dando resultado. A descamação amenizou bastante, e em alguns pontos, sobretudo nas pernas e nos braços, praticamente desapareceu. Também a vermelhidão regrediu até quase se tornar uma irritação insignificante nas extremidades dos dedos, nas pontas dos cotovelos, nos joelhos e no rosto. A coceira, porém, persistiu, ainda que sensivelmente menos atroz. Por esses motivos, nutri em meu íntimo a sincera convicção de que a cura despontava na curva da próxima esquina. Bem, essa ilusão durou pouco, bem pouco, na verdade.
            Nem uma semana transcorreu quando as primeiras e horrendas feridas começaram a irromper pelo corpo todo, como mil bocas de vulcões prestes a despejar a suas massas de magma incandescente. Eram úlceras enormes, algumas com mais de uma polegada de tamanho, repugnantes de ver e dolorosas, ah, como doíam, você não faz ideia. De nada adiantou aumentar a quantidade e a variedade das pomadas antialérgicas. Pelo contrário, parecia até que, quanto mais unguentos eu passava sobre os ferimentos, piores eles ficavam. Rapidamente, as chagas foram se avolumando como bolhas purulentas esverdeadas, que davam a estranha impressão de um campo minado espalhado pela pele esbranquiçada. E, quando secavam, transformavam-se em cascas amarronzadas que logo cobriam cada centímetro quadrado do corpo. Nem sequer os lóbulos das orelhas ou a ponta batatuda de meu nariz permaneceram incólumes. Pra você ter uma ideia, tão horrendas eram que até Yolanda, do alto de sua constante indignação, começou a sentir uma certa pena de minha condição.
            Ela até tentou me convencer a procurar outro médico e, quando eu me recusei com a turronice de um jegue, fez de tudo pra me arrastar até uma estação de tratamento. “Dizem que em Águas de Lindoia existem excelente banhos de imersão que já resolveram problemas mais graves que o seu”, rogou ela, com tanta insistência e de forma tão persuasiva, mencionando centenas de casos de comadres que se restabeleceram de males dignos de um leprosário, que acabei por ceder, menos pra arriscar a sorte do que pra me ver livre de sua persistente aporrinhação. Tirei uma semana de licença médica da repartição (sob os resmungos do Dr. Faustino) e me hospedei com ela num hotel meio decadente naquela cidadezinha sorumbática povoada por uma velharia intragável. Suportei estoicamente as sessões diárias de banhos em águas radioativas. Ouvi com paciência infinita as ladainhas sobre os efeitos curativos daquele tratamento. Bebi uns dois Atlânticos daquelas águas que diziam curativas com a sofreguidão de um beduíno perdido no deserto por anos a fio. Pra não dizer que o resultado foi uma completa nulidade, expeli uma pedra do rim pouco maior do que a cabeça de um alfinete quando urinava no chuveiro. E foi só.
O verdadeiro tormento começou depois que regressamos da viagem. Ao contrário do que você pode pensar, eu sinceramente duvidava que o meu estado pudesse se agravar. Na pior das hipóteses, o problema permaneceria estacionado numa vaga apertada entre a esperança à frente e o desânimo imediatamente atrás. Ah, quão equivocado eu estava, minha querida, e nem podia suspeitar que a tragédia se abateria num dia normal de trabalho, uma segunda-feira, acho, em que a carranca do Dr. Faustino se encontrava amarfanhada além da fealdade costumeira dele.
Não acredito que tenha sido isso o que (literalmente) precipitou os acontecimentos, mas duvido que alguém há de me convencer que a habitual humilhação diária de meu chefe tenha deixado de contribuir para o agravamento da situação. Li em algum lugar que o nome pra isso é “efeito psicossomático”, que é quando a mente da gente afeta o corpo de maneira anormal, exagerada. Dizem que muitos cânceres são provocados por problemas mal resolvidos da infância e coisas assim. Bem, como eu ia dizendo, tenha ou não uma relação direta com o que houve, o fato é que no momento mesmo em que o Dr. Faustino me passava um sabão em altos brados, como sempre para a satisfação da repartição inteira, as minhas mãos e pés começaram a tremer convulsivamente. O suor frio escorria da nuca para as costas e a camisa e as calças se converteram numa esponja úmida. A pele, que vinha se desfazendo em escamas em estágio adiantado, começou a coçar ainda mais violentamente, sobretudo no dedo indicador. A impressão é que, quanto mais eu tentava aliviar a coceira, pior ela ficava. Cheguei a imaginar se não existiria um formigueiro em frenética atividade debaixo da epiderme. A coisa atingiu um nível tão insuportável que eu comecei a me desesperar, mas não podia arredar pé da frente de meu volumoso superior, que insistia em me repreender por um erro ridículo, mas que ele conseguiu transformar em um crime tão grave quanto se eu tivesse executado uma pessoa em praça pública. Talvez a força com que eu esfregava o indicador, ou a minha condição debilitada, ou sei lá mais o que, fizeram com que a ponta do dedo se soltasse e caísse no chão, como uma fruta podre que se desprende de um galho de árvore. Ele rolou até esbarrar no bico do sapato do Dr. Faustino.
      Tanto ele quanto eu permanecemos paralisados, em estado catatônico, pasmos com aquela cena. Lembro de ele ter piscado uma e várias vezes e apertado as sobrancelhas de taturana, aparentemente incrédulo. Quase ao mesmo tempo, como se houvéssemos ensaiado à exaustão, nós dois dirigimos o olhar para o dedo no chão. Em seguida, lógico, esquadrinhamos a mão esquerda, de onde ele havia caído. Novamente, feito dois autômatos em perfeita sincronia, esboçamos expressões mútuas de espanto ao constatarmos que nem um pingo de sangue escorria do lugar antes ocupado pela falange. Era como se uma parte de mim simplesmente tivesse se desprendido do resto do corpo. Eu não estava menos intrigado, e talvez essa seja a melhor palavra pra definir o que eu sentia naquele momento. A minha mente patinava, girava em falso, como os mecanismos em uma máquina defeituosa, tolhendo qualquer gesto. Essa reação, ou melhor, falta de reação, apenas serviu para inflamar ainda mais o temperamento do Dr. Faustino. “Que espécie de brincadeira de mal gosto é essa, Constantino?”, esbravejou ele, decidido a avançar sobre o meu pescoço com a gana de um assassino em série. Quanto a mim, limitei-me a gaguejar, a engasgar e a empalidecer, não necessariamente nessa ordem. Apressadamente, tratei de apanhar o dedo do chão, envolvi-o em um lenço e meti no bolso do paletó, ao mesmo tempo em que recuei, tropeçando nas pernas bambas e balbuciando vagas explicações que, no final das contas, não explicavam nada.
Em estado de perfeita humilhação, rastejei com a morosidade de uma lesma de volta pra casa. Durante todo o percurso, no metrô, no ônibus, na ladeira molhada de chuva, fui deixando pelo caminho os meus restos. Eis a contabilidade da minha desgraceira: a unha do polegar direito, um canino, o lóbulo da orelha esquerda, um chumaço de cabelos. A unha e o pedaço da orelha eu me dei ao trabalho de recolher, as outras partes, bem, a essa hora devem estar entupindo uma boca de lobo. Cheguei em casa em completo desalento, segurando o nariz, que ameaçava despregar do rosto, e sentindo já o dedão do pé direito solto dentro do sapato. Confesso, Niceia, que eu não sabia, como até agora não sei direito, o que fazer. Entre os pensamentos absurdos que atravessaram o meu cérebro como relâmpagos numa noite tempestuosa, o menos inverossímil era dar cabo da vida, o mais radical, colar as partes que haviam caído com uma supercola. Felizmente, tão logo essa ideia despontou, tive o bom senso de descartá-la pelo ridículo que representava.
Ao presenciar o meu estado deplorável, Yolanda saltou da eterna censura ao desespero com a desenvoltura do hipopótamo no balé dos animais de Fantasia[4]. Francamente, não sei se eu preferiria que ela continuasse a me admoestar pelas coisas que eu fazia do que pelas coisas que não fiz pra evitar aquela tragédia. Foi por insistência dela que comecei o périplo de visitar um médico após o outro, de me internar pra realizar intermináveis exames que iam de raios X a cutucadas dolorosas e invariavelmente redundavam numa completa perda de tempo e paciência.
A certa altura, eu mesmo já começava a duvidar da eficácia dos métodos científicos e cogitava apelar pra minha vizinha macumbeira, cujas sessões de “cura espiritual” regadas a uma rezaria insuportável tinham bom crédito entre os moradores da rua. Dizia-se, até, que ela (ou o guia espiritual ou como preferir chamar a essa pajelança) dispunha de bom trânsito nos andares superiores, a ponto de invocar entidades poderosas capazes de efetuar curas que nem um milagreiro do sertão faria melhor. Assim, novamente cedi o meu abatido corpo à terapêutica do xamanismo. Afinal, se era pra me submeter aos cuidados de um curandeiro, que ao menos fosse um exemplar autêntico. Me pergunto, Niceia, de que fontes obscuras de minha mente retirei a dose de boa vontade pra suportar aquele espetáculo de crendice ensandecida. Porque, se alguém me disser que fumaceira soprada nas fuças pode surtir qualquer efeito além de uma crônica dor de cabeça, eu alegremente me lançaria à boca de um vulcão fumegante.
Não é difícil deduzir que nada disso deu resultado. Daquela cantoria estridente, a única certeza que adquiri foi a de que existem coisas piores do que a tortura por choques elétricos aplicados aos bagos. Só me restava resignar-me ao destino, e contava que ele fosse um tanto assim mais benevolente comigo do que tinha sido nessas décadas de vida infeliz. Mas nem sequer isso era algo que eu podia esperar das velhas fiandeiras que detinham nas mãos retorcidas e enrugadas os fios de meu futuro, pois dia a dia eu ia desmoronando um pouco mais.
Incapaz de me entregar ao julgamento inescapável do Dr Faustino e de meus colegas de trabalho, ansioso por um socorro que jamais viria, e com plena consciência da repulsa crescente de minha esposa, recolhi-me ao fundo escuro e silencioso de meu quarto, onde encontrei o refúgio para as aflições que me consumiam entre a parede e a porta do guarda-roupa, encolhido no espaço mirrado ao lado da cama e do criado-mudo. Lá, afastado de tudo e de todos, eu esperava que ao menos um véu de esquecimento me isolasse da intolerância viral que acometia os que me cercavam.
      Como?! Se eu tinha coragem de me olhar no espelho? É claro que não. Uma vez, apenas uma vez, flagrei a minha imagem, refletida, num relance, na tampa prateada de um porta-joias de prata perdido entre os pentes e colares dispostos sobre o tampo da cômoda em frente à cama. Não pude acreditar que aquela criatura grotesca, desfigurada além da compreensão humana, fosse eu. Era como se eu assistisse a um daqueles velhos filmes de terror da Universal [5], o rosto disforme, carregado com uma maquiagem repulsiva. Sem o nariz e a orelha direita, praticamente desprovido de cabelos e a mandíbula mantida no lugar graças a um fiapo de pele, eu era o próprio Lon Chaney[6], condenado a interpretar um monstro que nem ele teria ousado. Ora, não quero perturbá-la com a descrição pormenorizada da minha hediondez, cara Niceia. Basta dizer que o mero vislumbre da deformidade estampada sobre a face e o corpo em frangalhos, o que me deixava parecido com um daqueles bonecos que as crianças adoram desmontar e remontar ao acaso, foi o bastante pra me arrastar ao paroxismo do horror.
Num misto de raiva e impotência, lancei-me a devastar tudo o que havia na cômoda, no criado-mudo, no quarto. A sanha destrutiva só parou quando a mão esquerda despregou do pulso e voou junto com uma cadeira que joguei de encontro à parede. Não consegui suportar mais um minuto daquele martírio, e caí de joelhos, aos prantos, abraçado à mão seccionada. O que estava acontecendo comigo? Por que, de uma hora para a outra, eu tinha me transformado numa espécie de versão em carne e osso de uma pintura cubista? Roguei a um deus, qualquer que fosse ele, para que me poupasse e acho que, se não fosse pela minha inata capacidade para encarar os fatos com certo sarcasmo, eu teria enlouquecido ali mesmo.
Em vez disso, uma ideia luminosa socorreu-me da insensatez. Dei-me conta de que aquele flagelo era exatamente o que eu precisava para me libertar das antigas amarras que me prendiam a uma vida de regras e obrigações esclerosadas, idiotas e absurdas. Disforme como me encontrava, eu já não tinha de me esforçar para ser aceito, respeitado, amado. No lugar de me esfalfar para erguer uma inútil barricada contra a pulverização, decidi abandonar-me à desagregação, ao lento e sossegado acabar-se, ao crepuscular movimento em direção ao nada.
Yolanda? Bem, ela fez o que sabia fazer melhor nessas situações. Bradou e me amaldiçoou feito uma sacerdotisa louca do lado de fora da porta e, quando a voz secou, passou a esmurrar a madeira até esfolar a mão e, quando isso também não deu em nada, abandonou-me à minha própria sorte e não mais a vi nem a ouvi, o que, naquelas circunstâncias, não sei dizer se era algo preocupante ou uma bênção.
Como eu ia dizendo, resolvi reagir da maneira que podia e sabia aos caprichos da Providência. Primeiro: vasculhei as gavetas da cômoda e do criado-mudo em busca de bandagens, gazes, toalhas ou qualquer trapo que pudesse usar. Segundo: com extremo cuidado, para evitar que outras partes de meu corpo se despregassem, comecei a envolver as extremidades dos membros, os dedos das mãos e dos pés, e depois os braços, a pernas e o tórax e, por fim,  o corpo inteiro em tiras de pano. A última etapa reservei para a cabeça. Fui enrolando as bandagens em torno da nuca e desci, camada por camada, até chegar ao pescoço. Prendi as pontas com pedaços de esparadrapo e, ao cabo de meia hora, parecia a múmia de Tutancâmon.
Não queria que ninguém me visse daquele jeito. Nem mesmo a minha mulher. Se até eu sentia repulsa de minha aparência, o que dizer dos outros? Sem perceber, havia me transformado no horror que as pessoas temem encarar. Obviamente, a única saída era ir embora, abandonar tudo e partir pra um destino ignorado, onde ninguém me conhecesse e eu pudesse, ao menos pela derradeira vez, me recostar em um beco úmido e deixar que a vida escoasse lentamente.
Esperei o anoitecer e ganhei as ruas desertas ainda preocupado em não ser avistado e reconhecido. A princípio, vaguei sem destino certo, com a única preocupação de manter-me a salvo de olhares curiosos. A solidão e a incômoda sensação de inadaptação acabaram me empurrando em direção às regiões menos frequentadas da cidade, habitadas por aqueles que jamais estranhariam a minha presença. Encontrei abrigo sob a estrutura de concreto de um viaduto e tive de disputar espaço com meia dúzia de moradores de rua e viciados em crack. Eles não me criaram problemas. Na verdade, assim que depararam com a figura ameaçadora que não sabiam bem se era um homem ou uma criatura saída das páginas amareladas de uma história em quadrinhos da E.C.[7], preferiram me deixar em paz. Não se importaram que eu disputasse com eles os restos de comida que os transeuntes jogavam nas calçadas e latas de lixo. Eu devia parecer tão repulsivo que até os cachorros me evitavam. Pra evitar transtornos, mudei os hábitos e passei a dormir durante o dia e a sair na alta madrugada, quando somente os jovens bêbados e os poucos desocupados teimam em circular.
Foi assim que passei essas duas últimas semanas, Niceia, perambulando pelas vielas pouco iluminadas, dormindo nos becos imundos ocupados apenas pelos ratos e baratas, ao amparo do vento frio e seco e do desprezo alheio.
Mas apenas ontem à noite é que senti mais agudamente a dor que principiou na virilha e em seguida subiu pelo abdômen. Era tão intensa, tão agonizante, que eu mal conseguia respirar. Senti como se eu estivesse sendo rasgado ao meio e, para a minha surpresa e absoluto horror, tratava-se exatamente disso. Quando desenrolei às pressas as bandagens que me envolviam, constatei, abismado, que uma espécie de rachadura se abria entre as pernas e, como uma serpente rastejante sob o sol do deserto, se dirigia para a espinha e dali rumo ao crânio.
Se a fissura continuasse a aumentar naquele ritmo, pensei, em poucas horas não restaria nada de mim além de um punhado de problemas. Diante do que eu estava passando, o termo “crise existencial” adquiriu um novo significado... Saí então correndo pelas ruas em completo desatino, trombando com quer que tivesse o azar de atravessar a minha frente. Tropecei e rolei uma e várias vezes, o que me deixou ainda mais estropiado, o braço esquerdo pendurado, literalmente, por um fio. Naquele momento, eu era a monstruosidade encarnada. Só posso atribuir a um desses acasos felizes (não, sem ironia), que você estivesse bem aqui, bem nesta esquina, bem no caminho de meus pés.
Entre tantas pessoas neste mundo, as chances de eu me deparar com alguém como você, Niceia, uma costureira de mão cheia, são quase tão escassas quanto se eu acertasse sozinho o prêmio de Natal da loteria com apenas um bilhete. Isso não é mero capricho do destino, são os deuses da fortuna finalmente mostrando os dentes pra mim.
Bom, agora você já sabe o resumo da ópera das minhas agruras. Assim que acabar de costurar esse último pedaço de mim, estarei de novo inteiro, pronto pra retomar a vida de onde parei. Mas, dessa vez, sem chefes tirânicos, sem esposas histéricas. Só nós dois, minha querida, sozinhos contra o mundo.
Nem ligo se eu mais pareço uma colcha de retalhos ambulante, cheio de costuras espalhadas pelo corpo todo. Agora, pelo menos, já posso me livrar desse monte de pano pra voltar a andar por aí como um homem de verdade. As minhas mãos estão inteiras de novo. Nem uma unha faltando. As pernas, os braços, que belo trabalho você fez com eles. Pareço até melhor do que antes... Espere um pouco... O que é isso aqui embaixo? Não estou entendendo...? Como assim, você não encontrou? Mas estava aí, sempre esteve, eu tenho certeza disso! Eu não acredito que você pos isso no lugar! O que foi que você fez, Niceia? O que foi que fizeram comigo?! O que foi...?

São Paulo, 07 de maio de 2016






[1] Veículo blindado usado pelo exército americano na Segunda Guerra Mundial.

[2] Lendária espada que pendia sobre a cabeça de Dâmocles, nobre da corte do tirano Dioinísio, de Siracusa, e que passou a representar figurativamente qualquer sentimento de danação iminente.

[3] Padre Antônio Vieira (1608-1697), orador sacro do período barroco no Brasil e em Portugal.

[4] Clássico do desenho animado com sketches de composições clássicas criado pelos estúdios Walt Disney em 1940.

[5] Conhecido estúdio de cinema de Hollywood, que nos anos 1930 e 1940 se notabilizou pelos clássicos de terror estrelados por criaturas como Frankenstein, Drácula, o Homem Invisível e o Lobisomem.

[6] Astro da época do cinema mudo, conhecido como “o homem das mil faces” por seus papeis de personagens deformados ou desfigurados em “O Corcunda de Notre Dame” e “O Fantasma da Ópera”, entre outros filmes.

[7] Editora de gibis de terror muito populares nos anos 1950 nos Estados Unidos, como “Contos da Cripta”.

 
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