e Confira a versão completa do conto "Pelo Buraco da agulha" ~ Diário do Moretti
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sábado, 26 de março de 2016

Confira a versão completa do conto "Pelo Buraco da agulha"




PELO BURACO DA AGULHA

Por Marco Moretti

Vivemos numa plácida ilha de ignorância
rodeada por mares tenebrosos de infinidade.”
H.P. Lovecraft

"Buraco Negro", obra de Orestes Grediaga - Fonte: Wikipedia

A brisa morna da manhã de primavera passeava displicente pelos cabelos remanescentes de Carlos, abrindo, no espaço entre as laterais grisalhas e a calva superior, sulcos mais ou menos profundos. Não que ele se importasse muito com isso. Na verdade, já não se importava com essas pequenas coisas nem com nada que pudesse aborrecê-lo. Quando um homem chega à meia idade com dois casamentos desfeitos, um negócio falido, uma montanha de dívidas tão grande quanto o Everest a pesar nas costas e dois pares de filhos para sustentar, não é uma simples aragem insistente e chata que irá contribuir para piorar o seu humor. Para falar a verdade, ele nem sequer se dava conta do vento. O que realmente absorvia a sua atenção e o fazia divagar incerto pelos corredores do tempo e da memória era a enorme cratera que se escancarava aos seus pés.
Carlos equilibrava-se precária e perigosamente à borda do buraco, que parecia fitá-lo como o olho solteiro e negro de um imenso Ciclope 1. O círculo irregular media pouco mais do que 15 metros de diâmetro e, lembrava deveras um globo ocular gigante enterrado no meio do terreno arenoso, cercado de um capim rasteiro que teimava em não crescer além de um palmo de altura. A “pupila”, ou aquilo que mais se assemelhava a uma, consistia num segundo bordo proeminente a uns 50 centímetros sob a superfície, e que percorria todo o perímetro interior. Abaixo dessa linha limítrofe, apenas as trevas do abismo ousavam desafiá-lo.
A escuridão, tão negra quanto pode ser uma bacia de piche, sem quaisquer nuances ou meios tons que a aliviassem, penetrava abruptamente naquela ferida na terra. Da claridade externa da manhã ensolarada passava-se, num repente desprovido de transições, para a região das sombras eternas, tão frias e compactas, que era como se a própria luz tivesse sido engolfada por elas. Nenhum brilho, o mínimo reflexo abrasivo, escapava daquele fosso aparentemente sem fundo. Não, era inútil perscrutar a sua inviolável profundidade. Tanto podia ter inofensivos poucos metros quanto centenas de milhares de quilômetros e, quem sabe, chegar até ao âmago incandescente da Terra ou aos portões aferrolhados do Inferno. Carlos não conseguia escapar da inelutável atração que aquela horrenda cova exercia sobre ele, e mesmo assim esforçava-se em rechaçar a impressão de que poderia ser tragado por ela. O que, agora se recordava com clareza, esteve bem perto de suceder muitos anos antes.
            Numa época menos atribulada e carregada da inocência com sabor de algodão doce e maçã do amor de sua meninice. Aos sete anos, Carlos, ou Carlinhos como carinhosamente costumava ser chamado, era um garoto tão comum e desprovido de encanto quanto um moleque pode ser, magrelo como outro qualquer, encardido como outro qualquer, imaginativo como outro qualquer. Um pouco mais tímido do que a maioria dos rapazes de sua idade, ele preferia o aconchego da companhia dos gibis e dos desenhos animados na televisão à rumorosa gritaria dos amigos nos campinhos improvisados de futebol. O jogo de bola não o atraía, como também não o atraíam as brincadeiras de rua, os pega-pegas, os esconde-escondes, e, menos ainda, as tediosas lições de casa. Sempre que podia, passava as manhãs bocejando na sala de aula e as tardes enfurnado no quarto, no segundo andar do sobrado um tanto velho onde morava, ou pendurado no balanço do quintal, entretido em fantasiar alguma aventura exuberante por galáxias desconhecidas. As brincadeiras favoritas, ele as fazia sozinho com os companheiros prediletos, um boneco de plástico do Topo-Gigio 2, o robô meio desmantelado de “Perdidos no Espaço3 e uma miniatura de ferro bastante desgastada do Batmóvel 4.
            Somente uma coisa detinha o poder de arrancá-lo daquele Sítio do Pica-pau Amarelo particular em que gostava de se isolar. Os chamados estridentes da mãe, dona Alaíde, matrona de poucos atributos naturais, entre os quais não se incluíam tino e paciência em doses suficientes para aturar as traquinagens do filho caçula. A alegre alienação a que ele gostava de se render eram para ela um constante lembrete de que devia zelar pelo futuro do menino com constante e enérgica determinação, da mesma forma que o condutor de uma carroça jamais deve se fartar de chibatear a animália que a conduz. Talvez fosse isso a manifestação de um amor enjoativo e possessivo, de ciúmes exagerados, de uma exaltada porém terna impaciência com o jeito nerd dele de ser. Ou talvez fosse o sinal distintivo de uma neurose exacerbada que esculpiam em seu rosto os traços de uma severidade implacável de Megera indomada.
            - Carlinhos! Larga esse balanço e venha já aqui – chamou ela da porta da cozinha que abria para o quintal – Toma, dá um pulo até a venda do seu Vicente e compra o que está nesta lista – disse, empurrando-lhe um pedaço de papel de padaria com meia dúzia de itens rabiscados – E vê se não demora, que eu preciso disso pra fazer o bolo – advertiu.
            - Posso levar o Topo Gigio comigo?
            - Que seja, cáspite, mas anda logo.
            Carlinhos voltou para o quintal para apanhar o boneco que havia deixado ainda há pouco no chão, ao lado da trave do balanço, mas não encontrou nenhum sinal dele. Olhou em volta, perto do tanque de lavar roupas, ao pé do limoeiro, e nada. Postou-se no meio do terreno, coçando o cocuruto, tentando entender como o ratinho podia ter desaparecido em pleno ar, e teria permanecido ali parado por toda a eternidade se dona Alaíde, já às raias da histeria, não o despertasse do torpor dos pensamentos.
            - O que é que você está esperando, menino? Vai de uma vez até a venda, praga!
            De nada adiantaram os resmungos do garoto. A mulher fez ouvidos moucos a eles e o despachou com ameaças nem um pouco veladas de um castigo dolorido no lombo. Àquela altura, nem a mãe, nem o filho podiam saber, mas o sumiço do brinquedo foi o pontapé inicial dos estranhos e trágicos acontecimentos que tomariam rumos imprevistos e extraordinários nas semanas seguintes.
            Foi precisamente três dias depois que outro sumiço, ou perda, cuidaram de vincar de rugas de preocupação o rosto magro e austero da altiva senhora.
            - Moleque, onde você botou a bacia de lavar roupa? Eu te mato, se fez alguma coisa com ela! – berrou ela lá do canto da área de serviço.
Carlos apressou-se em protestar que não tinha mexido na bacia. É verdade que por vezes ele costumava usá-la para brincar de submarino voador, já que o formato do objeto, levemente ovalado e com o brilho metálico do alumínio, o fazia lembrar um veículo futurista, mas desta vez ele não estava mentindo. Há tempos não via sinal dele.
            - Não interessa – respondeu a mulher, ríspida – Encontre essa bacia e traz pra cá, se mexe! - e arrematou com a ameaça de que, se não encontrasse, iria ficar sem o jantar.
            Foi apenas então, e quase por acaso, que o menino deparou com o que depois consideraria o primeiro sinal de estranheza na tranquila paisagem de sua curta existência até então. Ao procurar pelo utensílio, notou, ou jurou notar, uma rachadura no chão do quintal. Uma espécie de rasgo no tecido da terra que media não mais do que alguns palmos de extensão e quase meio metro de largura. Mal se recordava de tê-lo visto antes. Não, tinha a certeza de que não estava lá na semana anterior. E o tamanho, coincidência ou o que se preferir pensar, era aproximadamente o mesmo da bacia desaparecida.
            Nenhum desses detalhes foi omitido nas tantas vezes em que se viu obrigado a repetir que não tinha dado cabo do utensílio. Dona Alaíde, claro, acreditou nessas explicações tanto quanto seria capaz de crer na Mula-sem-cabeça e o repreendeu com, vigor redobrado, a toda hora em que ele insistia nessa história. Naquela noite, Carlinhos foi para debaixo dos lençóis com a barriga roncando, mas na manhã seguinte acordou com outra espécie de sensação de vazio a incomodar a boca do estômago.
            A Isabel, a sua vizinha e uma das poucas amigas com quem se dignava a brincar, apareceu no portão de madeira verde de sua casa toda chorosa e apreensiva.
            - A Índia desapareceu! Deve ter fugido no meio da noite, não sei direito! Por acaso ela não veio brincar no seu quintal, dona Alaíde? – rogou a jovem, a voz aguda, oriunda do andar de baixo, soava abafada, quase angustiada.
            - Não, eu não vi a sua cachorra – parece ter sido a resposta resmungada da mãe. Ante a insistência da garota, de que desse uma olhada no quintal, dona Alaíde reagiu com a sua habitual dose de fel.
            - Se eu por acaso tivesse visto, teria entregue ela pra carrocinha, menina – despachou a mulher, ainda irritada com o sumiço da bacia no dia anterior, e cuidou de dispensar Isabel com um gesto brusco – Agora, me dá licença, que eu tenho que sair pra fazer a feira.
            A mãe podia ser contundente o quanto quisesse, mas Carlos tinha o palpite de que havia algo mais no ar e estava disposto a investigar. Não que ele morresse de amores pela fêmea de pastor-alemão que em inúmeras oportunidades correu em seu encalço para mordê-lo. Apenas achava que o destino dela talvez estivesse, de alguma maneira, intrinsicamente ligado ao de seu boneco e ao da bacia de alumínio. Ainda de pijama, esperou a mãe bater a porta para correr escada abaixo e precipitar-se ao quintal. Ali estava, bem no meio do terreno.
            A fenda, que há menos de 24 horas limitava-se a meros centímetros, agora tinha um metro e meio ou dois de comprimento, e sua boca começava a escancarar-se num vão de quase dez passos. De um lado, estendia-se obliquamente, num trajeto sinuoso, até o muro que dava para a marcenaria no quarteirão de trás, e, do outro, até bem perto do portão de madeira da entrada. O garoto agachou-se na beirada e perscrutou o interior, na tentativa de vislumbrar alguma coisa. Mas a negritude, ali, era tamanha que nenhuma forma era perceptível. O mais terrificante, contudo, não foi isso. Quando se esforçava para chegar mais perto da borda, sem querer esbarrou numa pedrinha, que rolou para baixo. Ao contrário do habitual som de algo se precipitando entre as rochas, não escutou absolutamente nada. Era como se a pedra tivesse deixado de existir no momento mesmo em que despencou naquele vazio escuro.
            Instintivamente, o rapaz recuou, um calafrio rasgando a espinha de alto a baixo. Somente então reparou nas marcas que margeavam a cova. Nítida e distintamente, o rastro das patas de cachorro cravadas na terra se disseminavam aqui e ali e pareciam se esvanecer no meio do nada próximo à fissura.
Por mais que não passasse de uma criança de sete anos, por mais que tivesse somente uma vaga noção das coisas do mundo, era sagaz e tinha visto filmes de mistério o bastante para saber o significado daquilo, mas não ousava pensar nisso, e na verdade procurou afastar a ideia da mente, apressando-se de volta para o quarto e enfiando a cabeça debaixo do travesseiro, trêmulo de medo. Quando, enfim, se acalmou, tinha certeza do que estava acontecendo. E também do que devia fazer.
            O pai costumava guardar as ferramentas num quartinho adjacente à área de serviço. Carlinhos já o tinha visto diversas vezes remexer a terra com a pá, então, não teve dificuldades em achá-la.  Com ela e um baldinho de lata em mãos, começou o árduo trabalho de tapar o buraco, uma tarefa que se mostrou mais fácil planejar do que realizar.
            Retirou a terra de onde podia. De trás do limoeiro, do lado do balanço, sob o muro. Meia hora nessa faina nem de longe foi o bastante para convencê-lo de que se tratava de uma empreitada fadada ao fracasso. Duas horas depois, já tinha perdido a conta da quantidade de terra que havia lançado cova abaixo e, mesmo assim, parecia não surtir efeito algum. Era como se o buraco fosse uma imensa e ávida bocarra, que engolia sem parar tudo e qualquer coisa que caísse nele. Súbito, Carlinhos deu-se conta de outro fato estarrecedor. Quanto mais se esfalfava para tapar a fenda, maior ela ficava. Sim, estava crescendo a olhos vistos e agora se abria num vão arredondado de cinco metros de diâmetro.
            Largou a pá, atônito, antes sequer que pudesse sentir a dor lancinante na orelha esquerda.
            - O que você está fazendo, menino? Que arte você aprontou desta vez? – tonitruou a voz de dona Alaíde, dando um puxão vigoroso no lóbulo do filho – Ah, espera só até o seu pai chegar! Vai levar uma surra daquelas! – bradou, e mandou-o para dentro de casa com dois gestos ameaçadores e um olhar furibundo.
            Nos dias que se seguiram a esse incidente, nada muito dramático sucedeu e aparentemente a greta tinha cessado de crescer. Demorou esse tempo todo para que um funcionário da prefeitura, o rosto carcomido pela indolência, as mãos feridas de nada fazer, os cabelos sebosos, se dignasse a aparecer para averiguar o tamanho do estrago. Depois de percorrer duas vezes o perímetro da fissura, andando a passos modorrentos e tentando espiar o fundo com o olhar enfastiado e desinteressado, fez um breve relatório do problema. Na opinião algo despreocupada dele, tratava-se de uma infiltração no subsolo da casa, quase certamente provocada por uma tubulação rompida, ou um lençol d’água há muito esquecido que resolveu dar sinais de vida. “Nesses casos, não há como ter certeza absoluta”, assegurou, arrastando os esses com a voz roufenha, e arrematou que, para ter uma ideia mais precisa da causa (e da solução a ser adotada), só havia uma maneira, e prometia ser difícil.
            Munido de uma escada de corda com degraus de madeira, uma picareta e uma lanterna, o homem arrancou do mais recôndito da alma a vontade pouco firme de descer pela fenda até onde a fundura lhe permitisse. Meio desajeitadamente, mas sempre sem pressa, como se todo o tempo do mundo estivesse de joelhos perante ele, desenrolou a escada na beirada e começou a penetrar na escuridão, apoiando com cautela os pés nos tocos de pau. Nos primeiros dez minutos, dona Alaíde e Carlinhos, atentos a cada ínfimo ruído que ele pudesse emitir, ainda conseguiam ouvir, abafada, a respiração arfante dele, seguida de frases entrecortadas: “Até aqui, tudo em ordem”, “Não consigo ver nada”.
Mas, aos poucos, mesmo esses breves sinais de vida foram se tornando escassos, até que cessaram por completo. A mulher aguardou por angustiantes cinco minutos antes de gritar na direção do fundo:
            - Está tudo bem aí, moço? Moço?! Oláá?!
            A resposta acabou não vindo, e os dois, mãe e filho, cuidaram de puxar apressadamente a escada. A corda estava frouxa, absolutamente desprovida de peso, e eles nem sequer precisaram conferir a extremidade vazia para concluírem o que tinha sucedido com o infeliz funcionário público.
            Dessa vez, foi dona Alaíde quem sentiu um arrepio eriçar os cabelos da nuca. Bastante abalada, puxou o garoto pelo braço e, andando depressa, quase correndo, meteu-o pela porta da cozinha adentro e entrou logo em seguida, esbaforida, como se alguém ou alguma coisa os perseguisse. Tratou de fechar os ferrolhos, girou a chave na fechadura e interpôs todo o tipo de obstáculo entre eles e o buraco que conseguiu por a mão.
            - De agora em diante, se você puser os pés nesse quintal de novo, eu te mato! – ameaçou ela erguendo o dedo indicador rente ao nariz do filho – O seu pai vai saber o que fazer, com certeza, vai.
            O menino limitou-se a assentir com a cabeça, e não teve coragem de retrucar. Também ele estava assustado. Tanto quanto a mulher, não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo, e em sua imaginação de criança tanto podia ser um evento passageiro quanto um perigo de proporções cósmicas. Correu para o único lugar seguro que conseguiu conjurar na memória, o quarto, e fechou a porta com força. Empertigou-se sobre a escrivaninha que ficava bem abaixo do batente da janela que dava para o quintal e resolveu manter, empoleirado lá em cima, um monitoramento resoluto do buraco, que parecia crescer com a velocidade de uma bolha assassina 5. Do alto, era possível auferir a extensão que o desastre havia adquirido. Certamente, era agora um colosso devorador de homens e coisas com pelo menos 10 metros de abertura em seu ponto mais largo. A prosseguir nesse ritmo, pensou o rapaz, logo engolfaria a casa inteira em questão de dias... ou horas.
O garoto teve uma noite agitada, dessas em que se vira e revira sob os lençóis, sem que se consiga cerrar as pálpebras. Agora, o temor pelos castigos prometidos em tom majestático pela mãe eram irrisórios frente ao medo em estado bruto o que o inquietava. As pernas tremiam debaixo do lençol, e o suor escorria copiosamente pelo corpo todo. O sono o acolheu ao cabo de várias horas com um pesadelo inenarrável. Uma gigantesca mancha escura, disforme e de contornos vagos e mutantes, o perseguia pelas ruas, descendo as ladeiras, cruzando as praças, devastando tudo, devorando animais, pessoas, latas de lixo, postes e o que mais ousasse interpor-se no caminho.
As imagens oníricas eram tão vívidas, tão avassaladoramente realistas, que ele demorou um bom tempo para decidir se o tremor que sacudiu a sua cama, o quarto e a casa inteira era real ou fruto da imaginação.
            Acordou sobressaltado, o móbile de Spitfires 6 de plástico pendurado no teto chacoalhando freneticamente sobre a sua cabeça. As portas do guarda-roupa abriam a fechavam, derrubando no chão pilhas de revistas em quadrinhos, livros e brinquedos. Era como se os objetos tivessem subitamente adquirido vida, e estivessem gritando em desespero para ele, incitando-o a agir para salvá-los de um destino fatídico.
            Dona Alaíde invadiu o quarto, o pavor deformando o rosto em uma máscara medonha. Tão transtornada se achava, que era incapaz de proferir uma só palavra que fosse. Antes que Carlinhos se desse conta do que acontecia, ela o puxou da cama com toda a força e o empurrou escada abaixo, com pijama e tudo. Rachaduras com uma polegada de largura varavam as paredes como relâmpagos rasgando o concreto. O reboco despencava sobre as cabeças dos dois aos pedaços, descascando a superfície lisa e expondo os tijolos, que se esfarelavam feito castelos de areia na praia. As luzes acendiam e apagavam, e não havia móvel que não balançasse, nem madeira que não rangesse e se quebrasse. Enquanto se precipitavam para a rua, mãe e filho foram surpreendidos por um estrondo terrível. Era como se o próprio mundo estivesse partindo ao meio.
            De repente, a casa inteira começou a vir abaixo. Qual um castelo de cartas, o sobrado desabou fragorosamente. A mãe teve tempo apenas de empurrar o filho pela passagem apertada que a janela da sala de estar permitia. Ela mesma foi apanhada pela avalanche de alvenaria, gesso, vigas e lustres que despencou sobre a sua cabeça. Seu último suspiro de vida foi um lampejo de ternura lançado em direção ao filho com os olhos marejados, como se procurasse se desculpar por todas as humilhações, broncas e castigos infligidos a ele, e que durou toda a brevidade de um átimo de segundo. Uma imensa nuvem de poeira e destroços ocupou o espaço até então ocupado pela casa.
            A salvo na calçada, Carlinhos procurou se proteger da artilharia de pequenos e grandes escombros que voavam desatinadamente cobrindo a cabeça com os braços magros. Somente muito depois que o bramido da construção em colapso abrandou foi que ele teve coragem de voltar o olhar para o antigo lar. Assim que a bruma escura que cobria o terreno se dissipou, o que não levou menos do que meia hora, o garoto contemplou, horrorizado, a imagem que ficaria para sempre gravada em seus pesadelos.
            A cova atingia absurdas dimensões e havia tomado conta de toda a propriedade. Nem a casa, nem o quintal, nem sequer os muros existiam mais. No lugar deles, o desolador vazio. O dormitório em que ele gostava de passar horas se entretendo com as suas fantasias mais desvairadas, a cama, a televisão, os bonecos, a bicicleta, a geladeira da cozinha, o sofá, a máquina de lavar roupa, o balanço e até a sua própria mãe tinham desaparecido por completo sem deixar vestígios. O buraco engolira tudo, e agora se abria no chão como a bocarra de um monstro insaciável, à espera, paciente, de algo novo para devorar, quem sabe um filhote de passarinho, uma folha de árvore dispersa ao vento, ou um menino por demais curioso.

São Paulo, 26 de março de 2016

1.Gigante canibal da mitologia greco-romana, que ameaçou devorar Ulisses e sua tripulação no poema épico “A Odisseia”, de Homero.
2. Um camundongo que foi personagem de uma série de TV muito popular nos anos 1960 e 1970.
3. Seriado de ficção científica exibida na televisão nos anos 1960.
4. O carro do super-herói Batman nos gibis e na série de TV da década de 1960.
5. Criatura alienígena do filme homônimo de terror dos anos 1950.

6. Aviões de caça britânicos da Segunda Guerra Mundial.


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