e Confira a versão completa do conto "O Milagreiro do agreste" ~ Diário do Moretti
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sábado, 27 de fevereiro de 2016

Confira a versão completa do conto "O Milagreiro do agreste"




O MILAGREIRO DO AGRESTE

Por Marco Moretti

 “A vida (...) é uma história contada por um idiota,
cheia de som e fúria, e que não significa nada.”
William Shakespeare, Macbeth

"Espantalho", quadro de Cândido Portinari - Fonte: Wikipedia

A um dia de viagem a pé de Juazeiro, à esquerda da última curva do Vazabarris, largada em um rincão qualquer do nordeste, fica Milagres, uma cidadezinha amaldiçoada por Deus que, de tão insignificante, nem sequer merece lugar nos mapas. Às suas portas, a carcaça de um bezerro jaz no solo estéril, qual fóssil pré-histórico, invocando sinais das cruzes e aves-marias nos forasteiros e invasores que por ali se aventuram. Desse vilarejo tão tristonho e sem graça, habitado por um punhado de almas condenadas ao sofrimento e à fome, erguia-se uma cantoria prenhe de fé:   
- “Rainha de eterna glória/ Mãe de Deus, doce e clemente/ Dai-nos água que nos molhe/ Dai-nos pão que nos sustente.”
A cantilena já durava um par de horas, o vozerio disperso ao vento se esfolando nos galhos mortos das macegas, batendo de encontro às pedras duras e suspirando inerte na terra seca. Mas nada disso espantava o punhado e meio de romeiros que seguiam na procissão debaixo do sol ardido do meio-dia. Firmes no cantar monótono, davam mostras de fé ao Altíssimo batendo com os pés descalços e esqueléticos no chão esturricado. À frente, conduzindo a fila em V e segurando altaneira a cruz feita de dois tocos de madeira precariamente atados, adiantava-se Maria José, os olhos injetados e esbranquiçados pregados no céu, à procura de um fiapo de nuvem, um relampejar frouxo, um sinal qualquer de chuva. Tudo o que colhia, contudo, era a baforada do ar quente que zanzava pelas parcas ruelas de Milagres e vinha esbofetear seu rosto de traços fortes, quase viris.
Se não era a estiagem implacável que castigava há meses sem conta a cidadezinha esquecida que iria esmorecê-la, não seria essa brisa infernal que a faria entregar os pontos. Muito pelo contrário, servia para dar-lhe a convicção de que estava enfrentando Satanás em pessoa e por essa razão não deveria sucumbir ao pecado de duvidar do poder do Senhor seu Deus. Nem permitir que duvidassem, mesmo que para isso tivesse de apelar para ameaças sobrenaturais e imprecações de toda espécie. Determinada como um bode velho, teimosa feito um jegue, Maria José fazia as vezes de vigário naquele lugarejo que parecia ter sido abandonado pelas hostes celestiais desde o dia seguinte da Criação.
Não era pastora, nem tinha intento de fundar Igreja nova. Era devota de coração contrito, dessas que com todo fervor se dedicam ao ministério da Palavra, arrastando atrás de si um punhado de irmãos e irmãs de fé. Erguendo a voz forte, enfileirava benditos e rezas sem-fim entre uma ladainha e outra:
- “Rainha de eterna glória/ Mãe de Deus, doce e clemente/ Dai-nos água que nos molhe/ Dai-nos pão que nos sustente.”
A mais ardorosa de suas seguidoras era Bernadete. Vinha logo atrás de Maria José, acompanhada de seu próprio séquito de filhos maltratados. Seis meninos, seis bocas famintas, seis formas esquálidas que se arrastavam fantasmagoricamente na barra da saia da mãe, olhares mudos voltados para o nada. Seu silêncio contrastava com o vigor de Bernadete, que mesmo do alto de seu meio século de existência cantava com devoção de moça a litania encruada, ansiando por um pouco de água. Água que lavasse a idade de seus cabelos secos, as rugas do rosto, a pele crestada do corpo.
Seguia a procissão com passos militares tendo o marido a tiracolo, o bondoso João Evangelista, motivo de chacota de toda a cidade, que preferia chamá-lo pelo apelido menos honroso de João Beberrão. Um pedaço de trapo atropelado pela vida, um maneta miserável devotado a uma única causa, a garrafa. Sua existência era uma contabilidade de negações. Nunca teve emprego que prestasse, nunca juntou fortuna, nunca foi amado pelas mulheres. Não era de água que tinha sede, mas de cachaça, e cachaça em abundância. Mesmo trocando os passos, as pernas cambaleantes, calava por vezes na carraspana, para logo em seguida erguer a voz aos céus, cutucado pela esposa severa, com quem fazia coro:
- “Rainha de eterna glória/ Mãe de Deus, doce e clemente/ Dai-nos água que nos molhe/ Dai-nos pão que nos sustente.”
Rosário, a última nesse exército de desvalidos, orava com menos ardor que os demais. Não porque não tivesse pelo que rezar nem por falta de fé. Era por desânimo mesmo. Já tinha passado da idade de moça casadoura e via o tempo esvair-se das mãos sem nunca ter tido um pretendente que se dispusesse a arrancar-lhe a virgindade. Culpava a si mesma pelas tentativas fracassadas, pelas esperanças desfeitas. Ou melhor, culpava isso sim o nariz adunco e desproporcional, o rosto desajustado, o corpo descarnado feito pau de vira tripa. Tinha sede de beleza, e por isso cantava baixo, mais para si mesma do que a Deus:
- “Rainha de eterna glória/ Mãe de Deus, doce e clemente/ Dai-nos água que nos molhe/ Dai-nos pão que nos sustente.”
Entoando assim essa cantoria insuportável, o cortejo atravessou as ruas, observado apenas pelos casebres decrépitos, pelos gravatás amarelados no chão de terra batida e por uma dupla improvável de amigos inseparáveis. Josué e Isaías mantinham uma simbiose de tubarão e rêmora, em que o cantador cego contava com o garoto de 12 anos para lhe descrever as coisas que via. Em retribuição, Josué servia de lombo de jumento para o menino aleijado, carregando-o de cá para lá numa cesta de vime atada às costas com uma correia de couro. Sentados na fonte seca da praça central e sem mais nada de útil para fazer naquele dia quente, iam eles acompanhando a procissão com olhos e ouvidos colados.
- Agora eles tão dando a volta na praça pela quarta vez - relatava Isaías para o amigo.
- Pensei que era a terceira. Aposto minha cabeça com o diabo que você tinha dito que era a segunda da última vez. - retrucou Josué, atento ao que se sucedia.
- Tá variando, é, homem? É a quarta, tenho certeza.
- Até quando essa doida vai continuar com essa besteirada? Pois não vê que nem com reza brava tem jeito de chover nessas bandas? É ruim, hein?
- E pra Deus há de ser isso de impossível? – desafiou o menino.
- Ora, lá vem você com essa tramela. Pois se existisse um deus a gente ia tá aqui, nessa secura danada? Deixa de ser besta, moleque!
- Sei lá, mas que não tá com cara de que vai parar tão cedo, ah, não tá não...
- E agora, o que tão fazendo?
- Tão virando pra cá. Acho que vão começar outra-- - disse o menino, estancando as palavras na boca. Antes que pronunciasse outra sílaba, uma lufada de vento estapeou-lhe o rosto, amordaçando-o. Mas essa não chegou de mansinho como as outras. Veio determinada, acompanhada de uma poeirada danada que durou minutos para baixar. Quando a arruaça sossegou, a procissão continuava impassível no lugar, imóvel como a mulher de Lot.   
- Peraí – exclamou Isaías, depois de tossir e cuspir uns torrões de terra.
- O que foi? Diz, garoto, o que foi? - perguntava o cantador, curioso.
- Tem alguém no meio do caminho.
- Como assim? Alguém quem? Desembucha, moleque!
- Sei lá. É alguém, oxente. Um moço que nunca vi por essas redondezas, não sabe? Um moço... esquisito.
- Esquisito como?
- Nem adianta dizer. Não parece com coisa alguma que eu tenha visto nessa vida. Nem leva jeito de gente normal...  
Lançando mão de meia dúzia de substantivos mal-ajambrados e adjetivos esfarrapados, Isaías até que tentou descrever para o amigo a figura estranha que havia aparecido no meio da praça, trazido pelo vento e pela poeirada. Devia ter idade avançada, pois era quase careca, com cãs e sobrancelhas esbranquiçadas. Essa impressão era reforçada pelo corpo magro, magro de dar dó. Tão esquálido que como vestimenta contava apenas com um lençol de linho em andrajos, um par de sandálias puídas e uma placa de madeira pendurada no pescoço, onde não se lia nada. Ou melhor, lia-se qualquer coisa que ninguém ali havia de entender, já que ninguém em Milagres dominava o ofício da leitura e da escrita.
- Aposto minha cabeça com o tinhoso que é desses vendedor que andam por aí. O que ele tá fazendo? Tá dizendo alguma coisa? Hein, hein? – quis saber Josué, espichando a língua de curiosidade.
- Não tá fazendo nada, não. Apareceu que nem um fantasma e tá parado no meio da praça. Xii...
- O que foi agora?
- A Maria José resolveu de ir prosear com ele. Não consigo escutar o que tão dizendo, mas não parece ser coisa que preste. Acho que ela tá mandando ele sair do caminho.
- Eh, eh, agora é que a cobra vai fumar... E o sujeito, o que é que respondeu?
- Hmmm... nada. Só tá lá, parado, com os olhos grudado na cara dela e sorrindo dum jeito engraçado. E quanto mais a Maria José fala e se descabela, menos ele desprega o olhar dela.
- Aposto minha cabeça cum o capeta que ele não vai arredar pé nem com todas as maldições da bruxa! – comentou rindo o outro, imaginando a cena.
- O negócio tá esquentando. A mulher tá ficando enfezada, vermelha de roxa, e você sabe como essa jararaca fica quando tá nos cascos!
- Vixe, da última vez que se meteu comigo levou foi uma bengalada nas fuças, tá lembrado?
- Xiii... ela tá parecendo onça do mato de tão brava que só falta espumar! E de nada tá adiantando tanta barulheira, pois o sujeito não tá com jeito de se abalar dali nem se Jesus descesse dos céus na frente dele.
- Só vendo com meus próprios olhos pra poder crer nisso, rê, rê!
- Pois pode parar de duvidar, Josué, que tão segurando a Maria José antes que ela dê com a cruz na cabeça do coitado...
- É, tô até vendo ele lá parado com aquela cara de besta, o sorriso tonto pregado no rosto...
A princípio, Isaías achou que estava ouvindo besteirada, dessas que chegam nos nossos ouvidos quando estamos dormindo e ficam rondando e zunindo que nem mosquito chato até a gente espantar com um tapa no ar. Mas depois de olhar para o companheiro umas tantas vezes, não conseguiu acreditar no que estava sucedendo.
- E desde quando você vê alguma coisa, homem? Tá mangando de mim, é, Josué?
- Você deixe de ser besta, moleque, que eu tô falando sério. Pois posso te jurar por esses olhos que a terra há de comer que estou enxergando tudo, tintim por tintim. Até as dobras dos trapos dele tô podendo ver! E a placa pendurada no pescoço, e cada fio de cabelo da bruxa, a perna manca e o braço torto dela, e a cruz, e o que mais você quiser que eu diga!
- M-Mas como isso é possível, homem de Deus? – indagou incrédulo o menino.
- Sei não, mas tô vendo tudo claro, claro como água cristalina. As minhas mãos encardidas, meus pés cheios de calo, minha roupa esfarrapada. Menino, tô tão feliz que tenho vontade de sair cantando! – disse o cantador, passando a mão na viola e versejando de improviso, numa explosão de alegria que ninguém jamais tinha visto:

- Na escuridão
seguia um cantador
até que um dia
com muito ardor 
ele a tudo enxergou
a vida cheia de cor

Josué saiu dançando e cantando em voz alta no meio da praça, chamando a atenção de todos e ajudando a dissolver a procissão, que já nem sabia mais para que lado seguia. Bernadete fez o sinal da cruz, recolhida de medo. Outros tantos olhavam estupefatos. João Beberrão deixou escapulir uma gargalhada e aproveitou para emborcar um bom gole da cachaça que trazia em uma garrafinha escondida no bolso do casaco. Apenas Isaías reagiu, depois de alguns segundos abestalhado.
- Volta aqui, Josué! Onde é que você vai, homem de Deus?!
Em êxtase, Josué não deu ouvidos ao companheiro de infortúnios. Girava e rodopiava, rodopiava e girava, feito barata tonta, cego de alegria. Olhava cada pedra no caminho, cada catingueira, cada rosto que topasse com a curiosidade de uma criança diante de um brinquedo novo. Isaías ainda tentou chamá-lo umas tantas vezes, mas suas súplicas se perderam no ar quente. Aflito, o menino remexia o corpo, ansiando por ir atrás dele. Inclinava-se para a frente e para os lados, amaldiçoando as pernas por não obedecê-lo. Sacudia o tronco com tanta intensidade que acabou perdendo o equilíbrio e veio abaixo, esparramando a cara no chão gretado, recheando as fuças de terra.
Fez-se silêncio sepulcral.
Ninguém ousou dizer palavra ou sequer se abalar até ele. Josué estancou a folia. Bernadete se benzeu umas tantas vezes. Rosário fez menção de ajudá-lo a se erguer antes de se recolher à sua insignificância diante do olhar severo de Maria José. Mas Isaías não carecia auxílio nem compaixão. Sozinho, foi se levantando do solo com ajuda das próprias pernas, bamboleantes e trêmulas como as de um cabrito recém-nascido. Ora hesitante, ora confiante, finalmente fincou pé no chão. Por um tico assim de minuto, quase que desabou novamente, mas recuperou o equilíbrio. Varreu a terra da camiseta e do calção e deu um passo tímido, “mas um passo de gigante”, diriam depois pelos quatro cantos de Milagres. Seguiu-se outro passo e mais outro e logo o garoto abocanhava espaço com voracidade.
Tudo tinha sucedido tão rápido que ninguém sabia o que atinar de tantos prodígios. Impossível apontar quem foi o primeiro a pronunciar a palavra, mas nem bem foi proferida espalhou-se como fogo no mato seco entre a população crédula, entrando em todos os ouvidos, saindo por todas as bocas, repetida em coro por todos que haviam testemunhado o ocorrido: “Milagre”. “Milagre em dobro.” “Bendito seja o Altíssimo!” E assim, aproveitando a ladainha, a cantoria recomeçou na praça da matriz com fervor redobrado. Mas agora era uma cantilena de louvação.
Em êxtase, a multidão ergueu Josué e Isaías e carregou os dois em derredor da praça como se fossem duas oferendas a Nosso Senhor, para triunfo do primeiro, emoção do segundo e profunda irritação de Maria José. Cansada de praguejar contra aquela “idolatria” tola e sem sentido, ela enfiou o rosário no bolso da saia florida, meteu a Bíblia debaixo do braço são e bateu com as pernas mancas para casa. Não ficou para ver a exaltação do cantador e de seu companheiro aleijão.
Tampouco presenciou a entronização do desconhecido como figura divina na cidade. Bastou o mesmo tanto que levou para considerar os milagres de Josué e Isaías para o povaréu ungir o forasteiro “padroeiro dos desvalidos”, “santo milagroso” e, por conta e vez do arrebatamento de Rosário, de “filho de deus reencarnado” em pessoa, cheiro e sombra. Não demorou nada para que a praça da matriz se convertesse nas horas seguintes em altar de ofertório improvisado, com o abobalhado mas sempre sorridente “enviado do céu” instalado no centro de um alvoroço de objetos religiosos que se amontoavam em uma pilha crescente, de terços e cruzes de madeira a imagens e estatuetas.    
Exaltada pela fé, a cantoria aumentou em fúria, transformando-se numa orgia mística e se espichando em uma procissão que se estendeu pela tarde e noite adentro, alumiada pelo brilho amarelado das velas e lampiões a óleo. No dia seguinte, ganhou proporções ciclópicas, transbordando os limites do vilarejo. A pé, montados em jegues ou carregados, os romeiros começaram a chegar vindos de todos os quadrantes, das vilas próximas e até das mais distantes, atraídos pela palavra de milagres e prodígios. Eram de todas as idades e sexos, e traziam as chagas e desgraças expostas a céu aberto em seus corpos seminus, fustigados pelo calor do sol e torturados pela secura dos tabuleiros do sertão. Vinham em busca de uma cura, um alívio, um feito que desatolasse suas vidas da dor e do sofrimento.
Algumas dessas almas conseguiam a graça desejada. Muitas outras pessoas, contudo, ficavam de mãos abanando, com o coração aperreado de não conquistar o que desejavam. João Beberrão, por exemplo, acordou certa manhã e deparou-se, estupefato, com uma mão esquerda novinha em folha, sem rugas ou cicatrizes, nascida no que antes era um toco de braço. Perfeita, com a exceção de que tinha seis, e não cinco dedos. A princípio, João estranhou-se, resmungou por alguns dias, mas logo se acostumou com a nova mão. Foi enxergando vantagens nela, e acabou comemorando do único jeito que sabia: encharcando-se de aguardente até desfazer-se na embriaguez.
Havia ainda aquelas pessoas que obtinham algum prêmio, uma bobagem qualquer que abrandasse seus corações. Uma dessas acontecia de ser Rosário. Encurralada entre o desejo íntimo e jamais revelado por um marido e o olhar intolerante de Maria José e Bernadete, que abjuravam qualquer manifestação de fé no estranho, ela orava às escondidas, envergonhada de confessar sua crença no “emissário do Altíssimo”. Eram rezas mudas, temerosas, que ela só ousava fazer no escurinho do quarto na hora de dormir ou enquanto preparava a comida e ajeitava a casa.
Tanto orou, tanto insistiu, que foi atendida. Melhor dizendo, foi ouvida. Aconteceu que uns dois ou três dias depois dos milagres de Josué e Isaías abalarem Milagres um cãozinho sarnento, de pêlos malhados e encardidos e olhar triste mas amistoso, foi dar na porta da casa de Rosário. A beata, em sua faina matutina de varrer a calçada, bem que tentou espantá-lo com umas tantas vassouradas, mas seu esforço foi derrotado pela insistência do animal, que recuou alguns metros, deu voltas e mais voltas até sentar-se, rabo abanando. Rosário jogou um pedaço de pão velho na esperança de que se satisfizesse com ele e fosse embora, mas nem isso adiantou. O cãozinho permaneceu imóvel e enigmático diante de sua porta como uma esfinge no deserto. Rosário mudou de estratégia, escondeu o olhar e foi-se a seus afazeres. Porém, tão logo saía para fazer qualquer tarefa, lá estava ele, olhar carente pregado nela. Para onde quer que perambulasse, ia o animalzinho acompanhando-a a distância. Mas Rosário fazia que não ligava, antes começou a gostar da companhia e aos poucos foi que foi se deixando vencer por uma afeição tímida, mas sincera.
- Olha só a Rosário de amigo novo. Esse pelo menos não vai deixar ela esperando na porta da igreja. – riu-se João Beberrão sentado na porta de casa, secando a última garrafa, não se cansando de admirar a nova mão que Deus lhe dera, ao mesmo tempo em que observava Rosário e sua sombra de quatro patas passarem.
- E você em vez de cuidar da vida dos outros, por que não vai buscar umas mandioca pra eu dar um pouco do que comer pras crianças? – gritou Bernadete lá de dentro, botando as achas de madeira seca para esquentar o fogo – Anda, traste inútil!
Demorou bem uns dez minutos para João Beberrão se coçar e assustar a preguiça, mais uns cinco minutos para andar cambaleando até o quintal e sei lá quantos minutos para voltar. Irritada com a mudice do marido, Bernadete cansou a língua de chamá-lo até que decidiu-se a ver o que sucedia. A passos firmes, foi até o quintal, esquentando a garganta para passar uma chamada no marido, certamente despencado no chão, bêbado. Chegando lá, foi ela quem despencou no chão, e não de braveza. Pois bem no meio do terreiro, lançando sua sombra sobre Bernadete, erguia-se um pé de mandacaru mais alto que três partidos de cana-de-açúcar empilhados um a um. Devia de ter brotado do nada, no meio da noite, e cresceu apressado, com os galhos voltados para o alto, suplicantes.
- Eu sabia que um dia tanta pinga havia de me fazer mal... – balbuciou João Beberrão, sentado ao pé da árvore.
- Virge Maria mãe de Deus – repetia sem despregar os olhos da árvore Bernadete, cobrindo-se de sinais da cruz.
À estupefação dos dois veio juntar-se a folia dos filhos, que macaqueavam em volta da árvore aos gritos e pulos, folia que serviu para tirar Bernadete do transe e espantá-los para dentro de casa. Em seguida, despachou uma chacoalhada no marido, ainda encantado com a árvore.
- Ta olhando o quê, homem? Coisa assim não enche bucho. Vai catar as mandiocas, vai!
Reclamando sapos e cobras, João Beberrão se enfiou pela roça mirrada à cata de uns pés de mandioca. Bernadete ainda deixou escapar uma olhada para a árvore antes de ajeitar o vestido e voltar para a cozinha, arrastando atrás de si um pensamento desaprumado: “É um milagre, isso é que é”. Acontece que não era bem esse o milagre que ela há tanto esperava. De que serventia tinha aquela árvore plantada no meio do quintal? Nem para dar do que comer prestava, e tinha uma sombra tão mirrada que mal cabia em um palmo de terra. A juventude estragada, a beleza apodrecida, essa mandacaru nenhum do mundo havia de trazer de volta. “Só pode ser coisa do milagreiro”, ruminou entredentes, arraivada.
Bernadete não era a única descontente na cidade. Para cada feito do milagreiro, outros tantos saíam tortos, esquisitos ou simplesmente não vingavam. Ora eram três pernas que brotavam no corpo de um velho coxo, ora era um bezerro que nascia com duas cabeças ou uma plantação de rosas sem botões. Logo, uma onda de indignação deu de crescer na mesma proporção com que se multiplicavam os milagres malfeitos. Bastou um tanto assim para assanhar a língua viperina de Maria José, que não tardou a abandonar o exílio auto-imposto e sair às ruas, empunhando o nariz aquilino adiante, decidida a atiçar a multidão contra o falso santo.    
- É isso o que vocês chamam de milagre? – ria-se ela, enchendo a boca de maldades – É isso que tanto oraram ao Nosso Senhor Jesus Cristo? Que Deus é esse que deixa esses troços malfeitos sucederem assim?
Ante a resposta muda do povaréu que a cercava encharcado de raiva, Maria José prosseguiu ainda com mais determinação, plantando aqui e ali as sementes da discórdia e regando-as com sua oratória odiosa:
- Pois eu digo a vocês que não! Esse não é o Deus de Abraão, de Isaac e Jacó! Nada disso, minha gente! Esse é um falso Deus, que troça e gargalha dos desvalidos.
Cada palavra perfurava os corações daquela gente humilde, acendendo uma faísca de raiva, que foi se espalhando feito rastilho de pólvora. Das bocas antes caladas principiaram a vazar suspiros de ódio, e dos olhos secos, uma ira contida.
- Um Deus de mentira que sequer atendeu às nossas preces. Cadê a água por que tanto oramos? Pois eu digo que a única água que esse infeliz, esse milagreiro de araque, há de trazer para essas bandas é a das nossas lágrimas! E o que é que a gente há de fazer com esse enganador, esse... esse coisarruim? Esse tinhoso?
Antes que a resposta escapasse do meio da multidão, uma voz conhecida se ergueu acima do burburinho pedindo calma.
- Devagar com essa prosa, dona Maria José! – Josué berrou, abrindo uma picada no meio da turba em direção da beata – Pois acho que a senhora ta é exagerando nessa balada. Esses olhos, quem fez eles enxergarem, hein?
- É, e as minhas pernas, como é que voltaram a prestar? – completou Isaías, que seguia na senda do amigo cantador.
 - Ora, pois foi obra do Deus verdadeiro! – respondeu Maria José, dedo em riste apontado para o milagreiro, que, alheio a tudo, continuava sentado no centro da praça, de sorriso bobo e olhar parado – Não aquele ali, aquele impostor, mas daquele que reina no Céu! E sabem o que as Escrituras guardam para os falsos profetas? – bradou ela, batendo na Bíblia puída que erguia com o braço torto – Isto!
Maria José varreu o chão poeirento com os olhos, catou uma pedra do tamanho de um limão e já ia de atirá-la contra o milagreiro quando alguém segurou seu braço erguido no meio do ar.
- Devagar com o andor! – foi logo avisando Josué - Eu aposto minha cabeça com o capeta que esse homem não é falso profeta coisa nenhuma. Menos ainda carece de ser homem santo ou coisa que o valha!
- Ele há é de ser a encarnação do divino! – conclamou Isaías, abrindo caminho no meio da aglomeração.
- Como ousam, seus... ímpios? – vociferou Maria José, debatendo-se inutilmente para se desvencilhar do cantador – Que o céu caia na minha cabeça nesse minuto mesmo se essa coisa de nada aí é quem vocês dizem que é!
- Pode duvidar das minhas palavras, mulher, pode duvidar até dos seus olhos, mas não pode duvidar dos atos dEle! Mas se mesmo assim minhas palavras não acham guarida no seu coração, eu hei de propor um desafio a você!
- Que desafio o quê, cão dos infernos?
- Água é o que a gente carece, não te parece? Pois aposto minha cabeça com o diabo que o milagreiro há de trazer água pra essas terras esturricadas. Água pra lavar esse monte de besteirada que tu andou plantando na cabeça desse povo!
Maria José nem achou o que dizer. Muito menos sabia o que pensar da proposta do cantador, tão estapafúrdia parecia. Nem chegou a balbuciar qualquer bobagem quando Isaías completou:
- Se a gente estiver errado, o que é que você tem a perder?
- Ora, veja... guardem bem as minha palavras, seus filhos de uma égua. Se não aparecer água nessa cidade em três dias como vocês juram de pés juntos, eu hei de transformar esse milagreiro em pó, pelo poder do Santíssimo!
Josué não fez que sim nem que não, mas bastou isso para botar a cidade de olhos pregados no céu nos três dias seguintes. Todos buscavam um farrapo de nuvem, um relâmpago desgarrado, um sinal qualquer que a chuva vinha se achegando. Uma simples garoa já bastava para aplacar a sede de Milagres e afogar a raiva incontida de Maria José. Uma quietude esquisita caiu sobre o lugarejo e ninguém mais tinha disposição para nada. Bernadete esqueceu a faina da casa e descuidou da filharada. Rosário deixou as rezas para lá. Até mesmo João Beberrão deu um descanso para a cachaça. Mas o primeiro dia chegou e se arrastou devagar até o crepúsculo, sem trazer boa nova. O segundo dia nasceu banhado de esperanças, que foram minguando até que a lua despontou no horizonte. O terceiro e último dia passou como um anjo da morte que se abatia sobre aquele pedaço de mundo. As horas corriam velozes. Não, o certo é que corriam desesperadas, apressadas. Quando afinal o entardecer cedeu lugar à noite mais negra e o desassossego cobriu os olhos de toda a cidade, Maria José arreganhou os poucos dentes apodrecidos em um sorriso malévolo.   
.- Olhem bem, seus cabras da peste! Olhem bem com seus próprios olhos e testemunhem o poder do Deus verdadeiro! Os ímpios se calaram. A voz dos pecadores ninguém mais há de ouvir! Onde a água? Onde o milagre? Onde a santidade? Está nas Escrituras que o mal se corta pela raiz e o falso profeta deve de ser castigado sem dó nem piedade! Pois eu digo, bando de imprestáveis: que se cumpram as Escrituras!
Vendo que ninguém a seguia em sua fúria desembestada, ela mesma tratou de executar a lei divina. Apanhou um pedregulho do chão e o lançou contra o milagreiro. A pedra o atingiu de raspão na testa e um fio de sangue começou a escorrer pelas têmporas. Nada disso parecia afetá-lo, e lá prosseguia ele com seu sorriso cândido, como se nada estivesse sucedendo. Para o povaréu ali reunido por força e obra da pregação de Maria José, o sorriso nada tinha de cândido nem de ingênuo. Levava mais jeito de gozação, como se estivesse rindo da fé de todos eles.
Nessa dança macabra, a desesperança trocou de lugar com a raiva e essa saiu de mãos dadas com a indignação. Enraivada, Maria José pegou de outra pedra e tacou no Milagreiro. Dessa vez, ele foi atingido em cheio bem no meio dos olhos e caiu desmaiado. Era o sinal que faltava para que a turba despejasse uma chuvarada de pedradas, que despencou sobre o falso santo como um castigo divino.
Josué e Isaías bem que tentaram gritar, conter a multidão, mas ninguém lhes deu ouvidos. Foram empurrados, derrubados, chutados e pisoteados e por pouco não tiveram o mesmo destino do forasteiro. Maria José ria, alucinada, enquanto executava uma dança frenética, pulando em estado de êxtase em meio às pedras que voavam. Logo, as pessoas já iam de atirar qualquer coisa que tivessem às mãos, fossem pedaços de pau ou torrões de terra seca. A fúria apoderou-se até mesmo de João Beberrão, que aproveitou-se de sua nova mão com seis dedos para atirar três pedradas de cada vez. Uma poeirada danada se alevantou no meio da praça, cobrindo tudo e avançando por cima da multidão, sem deixar espaço por onde espiar. Quando baixou, o apedrejamento ensandecido tinha terminado. O vento quente tratou de soprar para longe a raiva que ainda restava, e a turba foi avançando devagar, olhos projetados adiante, para ver o que era feito do milagreiro.  
No lugar em que ele tinha o hábito de sentar, onde as pessoas vinham em procissão buscar sua bênção, erguia-se agora uma pilha de metro e meio de pedras, paus e terra. Quase nenhum sinal, praticamente nenhum rastro, denunciava sua infeliz existência. A única testemunha muda de seu destino era a placa de madeira que ele trazia pendurada no peito, aquela que ninguém entendia de ler, e que jazia sobre o monte de entulhos feito uma lápide.
Assim meio sem graça, meio abestalhada, a turba foi se dissolvendo, silenciosa. Um a um, foram rastejando de volta para suas tocas, tratando de enfiar a cabeça em seus afazeres, cuidar das suas vidas. Nem Maria José restou para contar a história. De um minuto para outro, a praça estava vazia, como se ninguém se atrevesse a botar os olhos para trás, com medo de cutucar suas consciências com o mal que tinham acabado de cometer. Melhor era esquecer o sucedido, largar de lado, se esconder da própria vergonha.
O corpo sem vida do milagreiro ficou jogado ali, soterrado sob a montanha de pedras e ira, para mais de hora. Nem os cachorros e muito menos os urubus atrás de carniça ousavam de se achegar. Já ia nascendo o sol quando Josué e Isaías ganharam coragem de fazer o serviço que ninguém mais queria encarar, que era dar enterro cristão para o infeliz. Se era o Senhor reencarnado ou embusteiro, ninguém havia de tirar esse direito dele, sob pena de sofrer o suplício eterno.
A quatro mãos, foram tirando os pedregulhos e pedaços de pau até desencavá-lo. Em seguida, enrolaram-no em um trapo encardido, o único que encontraram, pegaram pela cabeça e pelos pés e o carregaram para longe da praça. Devagar cruzaram a cidade, tomando o rumo do cemitério, que ficava na escarpa de um morro próximo. Ali chegando, descansaram um tanto de nada e logo se puseram a cavar um buraco em que metê-lo. Iam se revezando na labuta com tanto empenho, ora um, ora outro enfiando fundo a pá na terra, que mal se deram conta quando toparam com algo inesperado, improvável, impossível: um olho d’água.
Uma água barrenta, dessas que nem presta de beber, mas que foi cuspindo sem parar da terra escavada. Josué e Isaías nem não sabiam se era caso de rir ou se assustarem. Tentaram porque tentaram estancar a aguada, mas seus esforços de nada valeram. Logo, a cova transbordava de água, que escapava aos borbotões, encharcando o solo sedento e escorregando encosta abaixo.
Quando atinaram com o que sucedia, os dois se abalaram tropeçando e rolando até o vilarejo. Entraram pelas ruas se esgoelando de gritar e saíram batendo em tudo quanto é porta que encontravam, mas ninguém quis emprestar ouvido à gritaria e tampouco se estorvar com o dilúvio que vinha rolando colina abaixo.
Quando a enxurrada encontrou a cidade, nenhum aviso mais prestava, nem havia de servir palavra de socorro ou consolação. Só sobrava bater no peito e amaldiçoar a desdita. As águas chegaram com fúria, cheias de vontade, e iam empurrando tudo que viam pelo caminho. Nenhuma árvore era resistente o bastante que ficasse de pé nem cabrito ágil o suficiente para não ser arrastado. Galhos secos de cajueiros, carcaças de cobras e lagartos iam sendo tragados nas mesmas ondas que engoliam os casebres de taipa e sua gentarada.
  Em meio a esse fim de mundo de dar dó, um que outro logrou escapulir da danação que a tudo sorvia. Apanhada na voragem, Rosário tentou se assegurar na vassoura, mas a correnteza a arrancou com rudeza das mãos descarnadas. Insana de tanto desespero, a solteirona principiou de se debater, esperneando e berrando freneticamente, o que só arruinzou as coisas. Encharcada de medo, prestes a se afogar, foi salva pelo amigo fiel de quatro patas, que nadou em seu socorro. Com os dedos da dona tresloucada enterrados nos pêlos, o cachorro bateu patas até alcançar o telhado da igreja, a única estrutura que mal se suportava de pé em meio à cheia. E lá ficou Rosário, abraçada ao animal e às suas rezas, agradecendo ao Altíssimo pela bem-aventurança.
Sorte igual não teve Bernadete. Vinha de arrancar uns pés de mandioca da roça quando a enchente a pegou de jeito. Nem teve tempo de gritar e encomendar alma. Só sobrou tempo para se agarrar à única coisa por perto que teimava em desafiar a força das águas: o mandacaru gigante. Mas nem nisso desfrutou de sorte, a infeliz. Segurou-se o quanto pôde num galho fraco, que não agüentou o peso e partiu-se, perdendo-se na enxurrada e levando Bernadete consigo. Para trás, ficaram João Beberrão, que abraçou o mandacaru e com a nova mão esquerda susteve a filharada, ajudando-os a se empoleirarem nos galhos mais altos da árvore.
 A violência da aguada não conhecia limites. Aquela mulher se espichou para agarrar o bebê, que foi engolido pelo turbilhão. Entre a multidão de gente e corpos que iam se deixando arrastar na correnteza desatinada, dois lutavam para ficar à tona. Segurando firme o amigo cantador, Isaías batia as pernas a jeito de nadador experiente, ao passo que Josué ia ditando a rota, olhando à frente em busca de porto seguro. Foi quando avistou um pedaço de madeira, um resto de mesa ou sei lá o quê em que podiam se agarrar. Assim que puseram pé na balsa improvisada e recuperaram o fôlego, o cantador exclamou:
- Aposto minha cabeça com o diabo que isso foi obra do milagreiro.
- É, e dessa vez você há de ganhar essa aposta, homem! – retrucou Isaías, e os dois desataram a rir até se fartarem.
De Maria José, não se viu nem ouviu notícia de vida. Sua casa, como tantas outras, foi varrida pelas ondas e com ela se foram a Bíblia puída, os terços e as ladainhas cansadas. Quando o dilúvio finalmente cansou de cobrar almas, Milagres tinha sido engolida pelo sertão que virou mar. Aqui e ali, os sobreviventes da tragédia oravam aos céus agradecendo a salvação, que só havia de ser obra do divino. E, entre os destroços e as carcaças de homens e animais que entulhavam as águas, ia à deriva o corpo do milagreiro, enrolado no sudário sujo e ostentando no peito a placa de madeira apodrecida com as palavras que ninguém sabia ler.
São Paulo, 06 de fevereiro de 2016




      

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