e Leia a versão integral de "A Menina dos sapatinhos de rubi", o making of do filme "O Mágico de Oz" ~ Diário do Moretti
Facebook

domingo, 3 de janeiro de 2016

Leia a versão integral de "A Menina dos sapatinhos de rubi", o making of do filme "O Mágico de Oz"




A MENINA DOS SAPATINHOS DE RUBI


Por Marco Moretti

O Homem de Lata (Jack Haley), Espantalho (Ray Bolger), Dorothy (Judy Garland)
e o Leão Covarde (Bert Lahr) em cena de "O Mágico de Oz" - Fonte: Wikipedia

            Deve-se a uma jovem de pele pálida e aos seus sete pequenos protetores a melhor versão cinematográfica das aventuras da menina Dorothy & Cia. na terra de Oz, o musical de 1939 estrelado por Judy Garland, “O Mágico de Oz”. O estrondoso sucesso de bilheteria do primeiro desenho animado de longa-metragem da história, “Branca de Neve e os Sete Anões”, lançado em 1937 pela Disney, provocou tremores sísmicos em toda Hollywood, que não deixaram de ser sentidos nem mesmo pelo maior estúdio da época, a poderosa Metro Goldwyn-Mayer, espécie de Rede Globo da Meca do cinema, que se orgulhava de possuir em seus quadros mais estrelas do que havia no céu. O chefão da MGM, o lendário Louis B. Mayer, ficou obcecado com a ideia de suplantar o êxito dos estúdios de Mickey Mouse a qualquer custo e encarregou o seu chefe de produção, Mervyn LeRoy (recém-empossado no cargo e ainda se esforçando para ficar à altura de seu antecessor, o brilhante e talentoso Irving G. Thalberg, que havia falecido um ano antes vítima de pneumonia), de encontrar um projeto que correspondesse às suas ambições. Com o apoio de seu produtor musical, Arthur Freed (que anos depois ficaria encarregado de sua própria unidade de produção no estúdio e seria responsável por algumas das maiores obras-primas do gênero musical do cinema, como “Sinfonia em Paris”, “A Roda da Fortuna” e “Cantando na Chuva”), LeRoy não perdeu tempo para propor a Mayer que filmassem uma nova versão dos livros de L. Frank Baum, o criador de “O Mágico de Oz”, do qual ele era fã desde a infância. Nova porque, desde os primórdios do cinema, a criação literária de Baum já havia sido levada às telas diversas vezes e mereceu até um desenho animado de curta-metragem em 1933. O próprio autor chegou a produzir, escrever e dirigir ele mesmo uma série de filmes mudos baseados em sua obra.
            Espécie de Monteiro Lobato americano, Lyman Frank Baum (1856-1919) fez de tudo um pouco na vida, foi ator, dramaturgo, editor de jornais e caixeiro viajante, entre outras atividades, antes de se dedicar à literatura. Aos 44 anos, já havia se consagrado com um livro de versos para crianças, “Father Goose: His Book”, que escreveu em 1899 para entreter os quatro filhos e seus amigos, quando empreendeu a sua maior criação. Diz-se que o nome do personagem-título foi sugerido casualmente ao escritor quando ele passava os olhos pelo seu fichário, em que uma plaqueta avisava: “Arquivos de O a Z”. Publicado em maio de 1900, “The Wonderful Wizard of Oz” (“O Maravilhoso Mágico de Oz”) gradualmente caiu no gosto das crianças (e de alguns adultos com alma infantil) a ponto de se tornar um grande êxito editorial. Menos de três anos depois, ganhou uma bem-sucedida versão musical na Broadway, que por quase uma década excursionou pelo país. O êxito da obra permitiu a Baum se estabelecer como prolífico escritor em tempo integral e de sua pena saíram, nos anos seguintes, 13 outros volumes com novas aventuras da pequena Dorothy, o seu cãozinho Totó e os três fieis companheiros, o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão Covarde (depois da morte de L. Frank Baum, outros autores deram continuidade às histórias, e hoje o montante delas é de mais de 40 títulos, isso para ficar apenas no âmbito da literatura propriamente dita, sem falar em outras mídias impressas, como gibis e livros para colorir).
            No final da década de 1930, portanto, “O Mágico de Oz” era uma instituição bem estabelecida na cultura infanto-juvenil americana quando a Metro resolveu transformá-lo na resposta, em forma de musical, ao primeiro longa da Disney. Imediatamente, Mayer tratou de comprar os direitos de adaptação, que pertenciam ao maior dos produtores independentes de Hollwyood e um dos fundadores do estúdio do leão, Samuel Goldwyn. Em 1934, o próprio Goldwyn havia planejado filmar o livro com W. C. Fields, um dos cômicos mais populares da época, no papel do mágico, e a ex-estrela do cinema mudo Mary Pickford (com 40 anos na época!) como Dorothy. Como veremos adiante, embora Pickford, para a nossa felicidade, tenha sido descartada por razões mais do que óbvias, Fields voltou a ser cogitado para o papel-título quando a produção efetivamente teve início.
            A elaboração do roteiro passou pela mão de 14 diferentes pessoas, embora o tratamento final tenha sido assinado por apenas três, Florence Ryerson, Edgar Allan Woolf e Noel Langley. Foi o último quem teve algumas das ideias mais felizes e que acabaram sendo incorporadas definitivamente à história final, como os sapatinhos de rubi usados por Dorothy (no livro eles são prateados), o macete de transformar os três empregados da fazenda em que a menina vive, na trama-moldura que abre e fecha o filme, na versão carne-e-osso de seu trio de amigos da Terra de Oz, e a frase emblemática pela qual o longa-metragem é lembrado hoje: “não há lugar como o nosso lar”. Para a sorte futura do filme, certas ideias inicialmente incorporadas ao roteiro foram depois abandonadas. Entre elas, uma subtrama envolvendo a tentativa da Bruxa Má de conquistar a Cidade Esmeralda, matar o mágico e fazer de seu filho o rei de Oz. Outras sugestões esdrúxulas descartadas que talvez se encaixassem melhor numa versão dirigida por Tim Burton incluíam um caso amoroso entre Dorothy e um fazendeiro (mais tarde transformado no Espantalho) e a luta de um feroz dragão, posteriormente substituído por um gorila e, finalmente, um leão, com o Leão Covarde. Com a edição final a cargo do próprio Freed e o letrista escolhido para compor as canções do filme, E.Y. Harburg, a produção passou para o estágio seguinte, a escolha do elenco.
            Quando os executivos da MGM perceberam que o custo inicialmente previsto para o longa-metragem remontaria a 2 milhões de dólares, uma fortuna exorbitante para a época, imediatamente pressionaram Louis B. Mayer para que ele obtivesse emprestado da 20th Century Fox a estrela-mirim daquele estúdio, Shirley Temple. A decisão era compreensível. Na época com menos de 10 anos, Temple reinava absoluta como um manancial de inesgotável bilheteria para a Fox, e os filmes que ela estrelava superavam a arrecadação somada de todas as grandes estrelas de Hollywood, incluindo nessa contabilidade Clark Gable, Bette Davis e Gary Cooper. Freed enviou o seu braço-direito, Roger Edens, até o estúdio rival para testar a voz da jovem estrela. O resultado foi decepcionante (“As limitações vocais dela são insuperáveis”, declarou Edens) e, diante de exigências descabidas da Fox para permitir o empréstimo de sua maior estrela, a Metro resolveu abandonar a ideia e procurar em suas próprias dependências uma jovem que pudesse substituir Temple (como prêmio de consolação, a Fox deu a ela a oportunidade de estrelar o seu próprio conto de fadas infantil, “O Pássaro Azul”, de 1940, o primeiro fracasso de sua carreira).
            Desde o começo, Freed tinha em mente a sua escolha particular para encarnar Dorothy. Uma jovem e talentosa cantora e atriz, dona de uma voz celestial, e que ainda não havia tido uma real oportunidade no estúdio. Seu nome: Frances Ethel Gumm, mas o mundo passaria a conhecê-la, a partir de então, simplesmente, como Judy Garland.  
             Tendo começado no mundo do vaudeville aos dois anos, quando ficou conhecida como “a garotinha da voz poderosa”, Garland podia ser considerada uma veterana experiente na época em que os produtores de “O Mágico de Oz” voltaram os seus olhares para ela. A adoção do nome artístico, aos 15 anos, foi decisiva para trilhar a estrada de tijolos amarelos que a levaria ao estrelato. Ela já estava sob contrato com a MGM há três anos e havia demonstrado cabalmente os seus talentos tanto como cantora e dançarina como atriz de comédia e drama. A princípio relutante, o chefão do estúdio foi convencido por LeRoy e Freed de que, com uma leve diminuição de peso e um penteado, maquiagem e roupas apropriadas, ela se encaixaria perfeitamente no papel da garotinha do Kansas.
            Uma vez definida a heroína do filme, os demais papeis foram preenchidos com nomes residentes da própria Metro. Nos primeiros tratamentos do roteiro, uma subtrama pretendia revelar a transformação de um certo Grand Duke Alan, da Terra de Oz, no Leão Covarde, por obra de um encantamento da Bruxa Má. Alan seria interpretado pelo tenor Kenny Baker, mas, quando o papel foi eliminado nas revisões posteriores do roteiro, restou apenas o Leão Covarde. Por um breve momento, discutiu-se se o personagem deveria ser interpretado por um homem fantasiado ou pelo próprio animal símbolo do estúdio, Leo, um leão de verdade, que seria dublado. Decidiu-se pela primeira alternativa, e coube ao letrista E.Y. Harburg sugerir o nome do gênio da comédia nos palcos e nas telas Bert Lahr para vestir a fantasia peluda.
            Originalmente, o ex-caixa de banco e ex-vendedor de aspiradores de pó Ray Bolger foi escalado para ser o Homem de Lata. Mas ele mesmo se via como o Espantalho, graças à atlética mistura de graciosidade e vitalidade que era capaz de demonstrar nos números de dança. Foram necessárias insistentes súplicas dele e da esposa para que Mayer finalmente concordasse em lhe dar o papel.
            No lugar do Homem de Lata, Buddy Ebsen, que já havia atuado num número musical ao lado de Judy Garland em “Broadway Melody de 1938”, era a escolha natural. Alto, desajeitadamente cômico e carismático (na década de 1970, ele se tornaria célebre encarnando um famoso detetive numa série de tevê, Barnaby Jones), Ebsen parecia a escolha perfeita, não fosse um grave problema que por pouco não o levou para o túmulo mais cedo. Ele chegou a filmar algumas cenas vestido como o Homem de Lata quando o pó de alumínio usado na maquiagem penetrou nas vias respiratórias e, certa noite, sofrendo de uma aguda asfixia que o impedia de respirar, teve de ser levado às pressas para um hospital. A recuperação levaria meses e a Metro preferiu substituí-lo sem mais explicações, o que o deixou perplexo. Jack Haley, comediante da Broadway e tomado de empréstimo da Fox, nada sabia a respeito do problema de Ebsen quando o chamaram para vestir a armadura do Homem de Lata. Para evitar que ele também sufocasse, os maquiadores do estúdio trocaram o pó de alumínio por uma pasta do mesmo produto e assim o problema foi resolvido.
            Ed Wynn, um popular comediante de rádio, Wallace Beery, conhecido por suas interpretações de “malvados favoritos”, e o mencionado W.C. Fields, que vinculou a sua aceitação a um vultoso aumento salarial, foram os principais nomes cogitados para viver o personagem-título, antes que a decisão recaísse em Frank Morgan, um veterano do estúdio (na verdade, Morgan, desde o início o preferido de Arthur Freed, encarnou outros quatro papeis no filme, além do Mágico de Oz: o Professor Marvel, na narrativa-moldura, o porteiro e o guarda da Cidade Esmeralda e o cocheiro que guia os cavalos que mudam de cor a todo momento). Freed também queria a atriz da Broadway Fanny Brice no papel de Glinda, a Fada Boa, mas teve de se contentar com a insossa Billie Burke, de 53 anos.
            Não menos complicada foi a escalação daquela que se tornou a personagem mais marcante do filme. A ilustração consagrada nos livros de Baum, de autoria de W.W. Denslow, mostrava a Bruxa Má como uma espécie de duende com tranças, chapéu de Quaker e babados ridículos. Os produtores concordaram que deviam seguir outra linha. Inspirado na Madrasta de “Branca de Neve” e sob os protestos de Freed, LeRoy propôs que optassem por uma bruxa exuberantemente bela e vagamente sedutora, papel para o qual a atraente Gale Sondergaard, que havia ganhado no ano anterior o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua interpretação em “Adversidade”, dirigido pelo próprio LeRoy, parecia se encaixar com perfeição. Contudo, os primeiros testes fotográficos com a atriz vestida em roupas negras de cetim logo provou que o produtor estava equivocado e que uma Bruxa Má tinha de ser mesmo inapelavelmente feia, como a do longa-metragem da Disney. De nada adiantou a tentativa de “enfear” Sondergaard com uma maquiagem pesada e nariz postiço, e a atriz acabou se cansando da história e recusou o papel.
            Um desfecho que acabou sendo favorável para uma ex-professora do Jardim de Infância e atriz regular em pequenos mas inesquecíveis papeis de megeras cômicas, Margaret Hamilton. Com 36 anos na época e, segundo as más línguas, com o physique du role correto, Hamilton só precisou de uma prótese no nariz e de uma maquiagem feita com base em cobre para dar à pele um tom esverdeado (que levou meses para ser removida de sua pele após as filmagens terminarem) para roubar a cena como a perversa Bruxa Má do Oeste, o papel de sua vida.
            Faltava, ainda, um “pequeno” mas não menos significativo acréscimo ao elenco do filme. Se “Branca de Neve” contava com 7 graciosos anões, Louis B. Mayer estava resolvido a oferecer às plateias um número muito maior. Não apenas 7, nem 20, mas uma cidade inteira de “pessoas pequenas”. Para ser exato, 124 anões de carne e osso (ao lado de oito crianças, que foram usadas para preencher alguns espaços nos cenários do Estúdio 27) foram contratados pelo empresário Leo Singer em diversos circos e espetáculos de vaudeville de diversas partes do país e até do exterior e levados para a Califórnia. Apelidados de “Anões cantores”, os intérpretes dos divertidos Munchkins deram mais dores de cabeça ao estúdio do que se poderia imaginar dado a sua baixa estatura. Para começar, muitos deles eram beberrões inveterados e possuíam um vigor sexual insuspeito (nem Judy Garland e sua mãe escaparam das investidas dos ousados anões). Consta que eles empreendiam homéricas orgias no hotel onde ficaram hospedados, em Los Angeles, conquanto muitas dessas histórias não passem de lenda hollywoodiana. O que é certo é que o salário deles, de 35 a 75 dólares semanais, conseguiu ser inferior até mesmo ao do cachorro escolhido para ser Totó, na verdade uma cadela de nome Terry, que recebia polpudos 125 dólares por semana.
            Passada a complicada fase de pré-produção, com o esboço e a construção dos extensos cenários, que incluíam a cidade dos Munchkins, a Cidade Esmeralda, a Câmara do Mágico de Oz, o castelo da Bruxa Má, a casa e as cercanias da fazenda dos tios de Dorothy no Kansas, além de diversas porções de florestas e o esfuziante campo de papoulas, tudo feito exclusivamente nos estúdios da Metro (muitos cenários, a cargo de Cedric Gibbons, nem chegaram a ser inteiramente construídos. Alguns combinavam estruturas em tamanho natural com maquetes e o emprego de pinturas no vidro, conhecidas como matte painting, técnica empregada até mesmo em “Guerra nas Estrelas”, de 1977, e muitos outros filmes até hoje), Judy Garland, Bolger, Lahr e Ebsen (antes de ser substituído por Haley) passaram quatro dias gravando o playback de seus números musicais, que depois seriam sincronizados com os números filmados de canto e dança (curiosamente, Adriana Caselotti, a atriz e cantora que dublou Branca Neve no desenho da Disney, foi contratada para emitir alguns trinados numa das canções, “If I Only Had a Heart”).
            Finalmente, as filmagens propriamente ditas tiveram início em 13 de outubro de 1938, sob a batuta de Richard Thorpe, um artesão conhecido por sua presteza no estúdio. Durante duas semanas, Thorpe chegou a filmar algumas cenas nos milharais do Kansas e no castelo da Bruxa Má até que ocorreu o mencionado problema com o pó de alumínio que intoxicou Buddy Ebsen. Enquanto procurava resolver o problema, LeRoy assistiu aos copiões (a primeira versão ainda bruta das filmagens, sem cortes e sem som) e ficou tão decepcionado com o que viu que resolveu demitir o diretor. Na visão do produtor, faltava ao filme a qualidade infantil que a história pedia.
            No lugar de Thorpe, entrou o conceituado George Cukor (que anos depois realizaria a melhor versão de “Nasce uma estrela”, estrelada justamente por Judy Garland), que já estava escalado para a direção do maior blockbuster da época, “...E o Vento levou” e, portanto, não poderia permanecer em definitivo. Contudo, enquanto não assumia o leme do melodrama da Guerra de Secessão de Scarlett O’Hara, Cukor concordou em dar um auxílio a LeRoy e Freed em “O Mágico”, mas por apenas duas semanas. Embora curta, a permanência dele foi decisiva para erigir o encanto do longa-metragem. Em primeiro lugar, Cukor achou ridícula a maquiagem de boneca Emília de Judy Garland, com roupa de um colorido berrante, pintinhas no rosto e uma horrenda peruca loira cacheada e decidiu mudar tudo. O único elemento que permaneceu foram os famosos sapatinhos de rubi. Na acertada interpretação do cineasta, a personagem devia se parecer com uma menina do meio-oeste americano de verdade, não ser uma figura caricata. Somente assim as suas aventuras com anões, leões e espantalhos falantes, macacos voadores e bruxas na fantástica Terra de Oz poderiam ter a chance de ter alguma “verossimilhança”. Outras alterações significativas também foram feitas nas maquiagens de Bolger (cuja primeira versão de Espantalho era tão medonha que garantiu a ele o apelido de “Múmia de Oz”) e Hamilton.
            As filmagens foram retomadas no começo de novembro daquele ano, agora sob o comando do temperamental e enérgico Victor Fleming. O realizador, que não muito depois também substituiria Cukor em “...E o Vento levou”, era conhecido por ser um “diretor de homens”, amigo pessoal de Clark Gable e aficcionado em pescarias e caçadas. Aparentemente, a escolha mais equivocada para dirigir um filme voltado para crianças. No entanto, para a surpresa de muita gente, o durão Fleming (que se exasperava com frequência com a falta de disciplina dos anões) não só se mostrou capaz de converter a história de Baum numa obra encantadora (ele dizia que aceitou fazer o filme para as duas filhas pequenas) como enfrentou os complicados desafios técnicos que a produção exigia com extrema competência ao mesmo tempo em que a manteve nos limites estritos do cronograma e da verba.
            Com Fleming, também Jack Haley juntou-se à produção trocando de lugar com Ebsen. No entanto, a rotina no estúdio estava longe de ser um conto de fadas. Os atores que interpretavam os amigos fantasiados de Dorothy eram obrigados a passar longas e excruciantes horas sob os cuidados da equipe de maquiagem, liderada pelo craque Jack Dawn, que dois anos depois ficaria a cargo de dar o rosto medonho do Sr. Hyde a Spencer Tracy na primeira versão em cores de “O Médico e o Monstro” (também dirigida por Victor Fleming). Durante a filmagem, todos eles tiveram o seu quinhão de sofrimento. Ray Bolger se queixou de que a máscara de borracha do Espantalho tapava os seus poros e o impedia de respirar. Pode-se imaginar o sufoco que Bert Lahr era obrigado a passar sob a pesada fantasia do Leão Covarde. Além do calor insuportável que era obrigado a sofrer sob os refletores, o ator também sofria de flatulências e teve de fazer uma dieta rigorosa para minimizar os efeitos. Jack Haley, por sua vez, só podia descansar de pé, encostado a uma tábua reclinável, já que a armadura do Homem de Lata praticamente o deixava imobilizado.
            Incidentes, alguns quase fatais, também marcaram essa fase da produção. Além do problema com o pó de alumínio que tirou Buddy Ebsen do elenco, Margaret Hamilton sofreu dois acidentes nada agradáveis. Eles ocorreram nas primeiras cenas que a atriz filmou, quando da aparição da Bruxa Má na cidade dos Munchkins. Ao final de uma tomada, Hamilton fazia um volteio e desaparecia em meio a uma fumaceira colorida. Na verdade, a atriz descia por um elevador no chão do palco, mas ele foi tão rápido que o pé dela ficou preso. Na refilmagem da mesma cena, os fogos que detonavam a fumaça queimaram o rosto e uma das mãos de Hamilton, cobertas com a maquiagem a base de cobre, e por pouco ela não teve de ser levada às pressas para um hospital.
            Antes de partir definitivamente para os cenários de Tara, em “...E o Vento...”, Fleming realizou todas as cenas feitas em technicolor, aquelas que se passam na Terra de Oz, e que respondem por mais de 90% da metragem do filme (mesmo envolvido na realização da megraprodução de David O. Selznick, o diretor arranjou tempo para supervisionar os efeitos especiais e a montagem final de “O Mágico”, reduzindo a sua metragem de aproximadamente 120 minutos para palatáveis 100 minutos). Após a sua saída, um quarto diretor, de fama internacional e um dos grandes nomes do cinema, foi chamado para tocar a sequência de abertura e de finalização, em preto e branco. Portanto, coube ao não creditado King Vidor (diretor de obras-primas como “Aleluia”, o primeiro filme com elenco totalmente negro da história, e “A Turba”, um drama social clássico) a responsabilidade de filmar aquela que se tornaria a sequência musical emblemática de “O Mágico de Oz”.
            A ideia para a canção, inicialmente intitulada “I’ll go over de rainbow”, depois “On the side of the rainbow” e finalmente “Somewhere over the rainbow”, partiu do compositor Harold Arlen. Ele e o letrista Harburg já haviam composto a quase totalidade das canções do filme e ainda precisavam de uma para a sequência de Judy Garland no Kansas. A melodia ocorreu subitamente a Arlen quando ele e a mulher certa noite se dirigiam para um cinema (embora uma outra versão contada pelo letrista dá conta de que a composição nada mais era do que a forma com que Arlen costumava chamar o cachorro, o que sempre foi veementemente negado pelo músico). Ira Gershwin, o maior compositor americano da primeira metade do século XX, sugeriu algumas alterações no ritmo e Harburg então trabalhou com a letra partindo do princípio de que Dorothy, como mostrado no filme e várias vezes mencionado no livro de Baum, vivia em um lugar desolado e desprovido de flores por causa da seca e o único elemento colorido que ela era capaz de entrever naquele cenário cinzento era o arco-íris. Hoje é impensável imaginar “O Mágico de Oz” sem “Over the rainbow”, contudo, o número musical não agradou de imediato aos produtores e por pouco não ficou de fora do longa-metragem. Depois do segundo preview do filme ele chegou a ser cortado, sob a alegação idiota de que deixava a história mais lenta e que não era lá muito digno mostrar a estrela da Metro cantando ao lado de um monte de feno (sic). Foi necessária a firme intervenção de Arthur Freed para que a sequência fosse integralmente restaurada.  
            Outros números musicais filmados não tiveram a mesma sorte e foram sumariamente limados. Anos atrás, alguns deles foram descobertos quase por acaso nos cofres da MGM. O mais espetacular e divertido, “If I only had a brain”, em que o Espantalho saía voando pelo estúdio por força do vento, foi filmado duas vezes. Uma sob o comando não muito inspirado do coreógrafo oficial do filme, Bobby Connolly, e a outra, pelas mãos do lendário e não creditado Busby Berkeley. A justificativa, incompreensível, é que a sequência deixava o filme mais lento. Outro número que ficou no chão da sala de edição foi “The Jitterbug”, uma peça em que Dorothy e os seus companheiros começavam a dançar um boogie-woogie depois de serem picados por um mosquito. No decorrer dos anos, várias hipóteses foram levantadas para explicar a eliminação desse número, a mais estranha delas é que as pessoas presentes no primeiro preview se deixavam contagiar pelo ritmo e saíam dançando pelo cinema. O curioso é que a cena imediatamente anterior ao número musical, em que a Bruxa Má diz aos Macacos Voadores que irá enviar um inseto contra Dorothy & Cia., foi inexplicavelmente mantida no filme. 
            Enquanto a edição final corria a todo o vapor e a produção do longa avançava 1939 adentro, a equipe de efeitos especiais, liderada por Arnold Gillespie, se esfalfava para dar conta dos complexos efeitos especiais. O mais espetacular, sem dúvida, foi a sequência do tornado que levanta a casa de Dorothy nos ares e a leva para a Terra de Oz. Para filmá-la, os técnicos criaram a maquete da fazenda e da paisagem desolada do Kansas e sobre ela puseram um cone feito de musselina que corria sobre um trilho para dar a impressão de que o furacão se movimentava. Um ventilador foi empregado para soprar a areia e completar a ilusão. Para a cena em que a casa de Dorothy é levada para o alto uma maquete foi jogada do alto do estúdio em direção ao chão, pintado com nuvens e com gelo seco para simular o céu tempestuoso, e depois projetada de trás para a frente no filme, para dar a impressão que o casebre se elevava.
            Ao menos quanto à qualidade da produção, a Academia de Hollywood chegou a reconhecer os méritos do longa-metragem e, na cerimônia do Oscar de 1940, “O Mágico” foi indicado em diversas categorias, inclusive para Melhor Filme. Mas aquele foi o “ano miraculoso” do antigo sistema de estúdios hollywoodiano. Estavam no páreo obras-primas do quilate de “No Tempo das diligências”, de John Ford, “Ninotchka”, de Ernst Lubitsch, “A Mulher faz o homem”, de Frank Capra, e “O Morro dos ventos uivantes”, a versão de William Wyler. Sobretudo, 1939 foi o ano de “...E o Vento levou” e aí não deu para ninguém. O blockbuster passado na Guerra de Secessão abocanhou os principais prêmios, inclusive os de Melhor Filme e diretor, justamente para Victor Fleming.
            Mesmo assim, “O Mágico de Oz” não saiu da premiação de mãos abanando. O compositor Herbert Stothart (veterano de importantes filmes da Metro como “ O Grande Motim”, de 1935, e “A Dama das Camélias”, de 1937) venceu Max Steiner, de “...E o Vento...”, na categoria de Melhor Trilha Sonora Original, e os músicos Arlen e Harburg levaram para casa o Oscar de Melhor Canção, quem diria, por “Over the rainbow”. Uma terceira estatueta, especial e de tamanho menor (e por isso apelidada de “Oscar Munchkin”), foi entregue a Judy Garland por seu colega e amigo Mickey Rooney.
            O que parece ter passado despercebido da crítica da época e que somente hoje pode ser apreciado devidamente foi a velada referência que o filme fez ao contexto político internacional da época. Embora já presentes na obra original de Baum, é verdade, as aventuras de Dorothy na Terra de Oz adquiriram outra conotação, talvez não intencional, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. É assim que alguns especialistas atuais interpretam os personagens do filme como símbolos das nações envolvidas no conflito. O Leão Covarde encarnaria a Inglaterra, o Homem de Lata ou o Espantalho, a França, e o Mágico de Oz, o próprio Tio Sam, ou os Estados Unidos. Quanto à Bruxa Má do Oeste, tanto podia significar a Alemanha de Hitler quanto a União Soviética de Stálin, dependendo do gosto do freguês. Sob esse ponto de vista, “O Mágico de Oz” seria uma metáfora política para a solução da crise mundial daquela época, em que Dorothy, a perfeita encarnação do espírito ingênuo e otimista dos americanos flagelados pela Grande Depressão, é o modelo que o mundo deveria seguir em sua estrada de tijolos amarelos para chegar à paz e a à prosperidade, simbolizados, segundo essa interpretação, pela esfuziante Cidade Esmeralda e sob a sábia proteção do Tio Sam (o próprio Mágico).
Todos esses predicados, contudo, não se traduziram imediatamente em um sucesso nas bilheterias. Ao contrário do que se pode pensar, quando de seu lançamento, em agosto de 1939, o musical faturou apenas 3 milhões de dólares, pouco mais do que os 2,8 investidos na produção. Talvez a razão desse fraco desempenho se deva ao pesado clima político da época (estávamos às vésperas da Segunda Guerra Mundial), não muito satisfatório para filmes escapistas e otimistas. Somente quando foi relançado nos cinemas, dez anos depois, é que “O Mágico de Oz” começou a realmente trilhar a estrada de tijolos amarelos do sucesso, e, quando se tornou o primeiro filme do cinema a ser exibido na televisão americana, em 1956, é que ele finalmente ganhou o status de clássico irretocável.
Desde então, essa aura mítica só aumentou. Nos anos 1970, um musical da Broadway transpôs para a Nova York daquela época a história de Dorothy e seus amigos, agora contada exclusivamente com atores negros. A versão cinematográfica de 1978, dirigida por Sidney Lumet e com Diana Ross (como Dorothy) e Michael Jackson (como o Espantalho) encabeçando o elenco, e com a ilha de Manhattan fazendo as vezes da Cidade Esmeralda, teve resultados constrangedores. Sete anos depois, a Disney empreendeu um “O Mundo Fantástico de Oz”, de triste memória. Em 2013, “Oz: Mágico e Poderoso”, também produzido pela Disney e dirigida por Sam “Homem-Aranha” Raimi, pretendeu ser a “prequel” do clássico, mas não se saiu lá muito bem nas bilheterias. Entretanto, a influência do filme de 1939 vai muito além dessas experiências desastradas. Filmes de prestígio como “Zardoz”, de John Boorman (cujo título é uma corruptela de “Wizard of Oz”), de 1974, e “Coração Selvagem”, de David Lynch (que incluía até “inserts” das cenas dos sapatinhos de rubi de “O Mágico”), de 1990, prestaram tributo ao clássico dos anos 1930. Menos alardeada é a adoração que o mais desconcertante escritor de ficção científica da história, Philip K. Dick, nutria pela obra de Baum e, naturalmente, pelo musical de 1939. O mote da “Volta para o lar” que move Dorothy & Cia. pela estrada de tijolos amarelos pode ser detectado em obras tão díspares quanto o western fordiano “Rastros de Ódio”, dos anos 1950, até o “E.T., o Extraterrestre”, de Spielberg na década de 1980. Mesmo o maior clássico dos tempos modernos, “Guerra nas Estrelas”, de certa maneira homenageou o musical nas figuras de Chewbacca e C3PO, referências ao Leão Covarde e ao Homem de Lata, respectivamente, que não passaram despercebidas a ninguém. Até em propagandas de TV os personagens de Baum podem ser vistos com frequência nos dias de hoje.
Mas a idolatria a “O Mágico de Oz” tampouco se esgota nas citações cinematográficas. Ela se estende a todo tipo de memorabilia, de bonecos e CDs com a trilha musical do filme a fantasias e máscaras de Carnaval. No início dos anos 1970, a Metro, já falida, teve as suas instalações desmontadas e o seu riquíssimo espólio leiloado. Na ocasião, itens de eterna veneração como a fantasia do Leão Covarde e um dos cobiçados sapatinhos de rubi (na verdade, sete versões deles chegaram a ser feitas para o filme original) foram arrematados a preço de banana. Um ano atrás, a mesma fantasia do Leão foi vendida em um novo leilão pela bagatela de 3,1 milhões de dólares e, há cerca de um mês, o vestido usado por Judy Garland alcançou1,56 milhão numa Casa de Leilões em Nova York. Na comemoração dos 50 anos de lançamento do clássico, em 1989, uma famosa joalheria fez um sapatinho como o usado por Judy Garland, mas incrustado com rubis de verdade. Pode-se imaginar que o valor estimado ultrapassa qualquer escala. Como se vê, o fascínio de “O Mágico de Oz”, mesmo passado quase 80 anos de sua realização, está longe de acabar.

             3 de janeiro de 2016






0 comentários:

Postar um comentário

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Blogger Templates