e Leia a versão completa do conto "Os Obreiros da Terra" ~ Diário do Moretti
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sábado, 2 de janeiro de 2016

Leia a versão completa do conto "Os Obreiros da Terra"



OS OBREIROS DA TERRA

Por Marco Moretti

“É para concluir a Criação que nós servimos, mesmo que seja por intermédio do trabalho mais humilde de nossas mãos”
Padre Teilhard de Chardin

"Porfírio", pintura de Arcimboldo - Fonte: Wikipedia

              Um milhão de anos é tempo mais do que razoável para uma boa soneca. É bem verdade que Heródoto não passou toda essa eternidade dormindo, nem mesmo metade ou sequer um quarto desse período. Quer dizer, ao menos para ele, haviam decorrido somente 18 meses pelos padrões terrestres. Viajando a um átimo da velocidade da luz, o intrépido peregrino do universo percorreu a bagatela de trilhões de quilômetros até atingir o seu destino – Drake 289-X, um exoplaneta de massa e tamanho similares aos do nosso orbitando uma estrela na Constelação do Cisne – e voltar para casa. Agora que havia ultrapassado o limite exterior da órbita lunar e preparava-se para acenar um “Olá” aos seus conterrâneos, ele havia sido despertado de seu longo sono pelos mecanismos a bordo de sua diminuta espaçonave. “É bom ver essa paisagem familiar de novo”, suspirou, ainda mal recuperado de seu “repouso”, ao primeiro vislumbre do lado escuro da Terra.
              “Despertar” não descreve com exatidão o processo pelo qual a sua mente consciente regressou ao mundo dos vivos. Na verdade, é um termo muito pobre para explicar a natureza do estado, digamos assim, “cataléptico”, em que ele permaneceu durante a maior parte da ousada travessia. A razão para isso é que Heródoto jamais poderia “acordar”, no sentido humano que nós damos a essa palavra. A simples ideia de que pudesse dormir como qualquer mortal é absurda, já que ele não consistia de um organismo vivo como o entendemos, com veias, músculos, ossos e sangue, capaz de respirar, de se alimentar e se reproduzir. Para todos os propósitos, não passava de um construto artificial, um conglomerado de neutrinos mantido coeso no interior de uma armadura de energia, o artefato mil vezes menor que a cabeça de um alfinete e com milionésimos de um grama de peso que o transportava pelo vácuo ao sabor das ondas gravitacionais.
              Até mesmo o seu nome era irreal. “Heródoto” era apenas uma alcunha bastante carinhosa que os cientistas que o desenvolveram, no alvorecer do agora distante século XXIII, haviam dado a ele. Por razões óbvias, a nomenclatura de HRD3 deve ter parecido pouco simpática a algum técnico dado a jocosas associações, e dessa forma ele foi humanizado com o nome que o consagrou na história. A propósito, a referência ao “Pai da História” vai além da mera formalidade. O grego que apadrinhou o estudo dos eventos passados foi antes de tudo um incansável viajante, um geógrafo tão meticuloso quanto era um historiador arguto. E talvez esse tenha sido o motivo precípuo pelo qual HRD3 foi chamado de Heródoto. Como o seu ilustre antecessor, a missão de que foi encarregado destinava-se a desbravar novas e desconhecidas fronteiras, e o fez trilhando um caminho até as estrelas, num feito sem precedentes. Tecnicamente, isso o tornou o primeiro veículo interestelar efetivamente criado pelo homem.
              Em sua defesa, é preciso reconhecer que Heródoto cumpriu galhardamente as suas funções, que basicamente consistiam em um voo de reconhecimento do mundo “mais aparentado com o nosso”, no dizer de um dos fervorosos patrocinadores da expedição. O resultado da empreitada forneceu as informações esperadas a respeito da natureza daquele planeta, o único suficientemente idêntico ao nosso para suportar a vida como a conhecemos dentro do raio de algumas centenas de anos-luz. Que Drake 289-X possuía a combinação necessária de oxigênio, nitrogênio e hidrogênio para a manutenção de seres vivos, isso os satélites de sondagem profunda já haviam constatado aqui mesmo, a uma centena de quilômetros em torno da Terra. Também a temperatura amena e a existência de água líquida na superfície não constituíam surpresa. Caso tivessem vivido o bastante, os mais pessimistas e agressivos detratores do projeto teriam se deliciado com o fato de que Heródoto desmentiu a perturbadora hipótese para a qual fora concebido atestar. Com exceção de raquíticas espécies animais e uma exuberante cobertura vegetal que lhe dava uma coloração acentuadamente esverdeada, aquele planeta não possuía qualquer rastro, ínfimo que fosse, de inteligência desenvolvida. “Que enorme desperdício de matéria”, pensou ele na ocasião.
              Após dois anos esquadrinhando cada centímetro quadrado daquele pedaço de rocha no espaço, a nave acionou a ressonância gravitônica e voltou a surfar o cosmo de volta para o berço. Em sua solitária aventura de regresso, Heródoto teve tempo (e espaço) suficiente para experimentar uma indelével sensação de frustração, de meditar aprofundadamente no sentido de sua existência e da humanidade. Teve mesmo dificuldades em lidar com a aguda melancolia que lhe inspirava o vislumbre daquela vastidão vazia que o englobava. Em certo momento, acreditou com a convicção de um piloto kamikaze que seria mais útil aos seus propósitos e aos de seus criadores se assestasse o seu curso em rota de colisão com algum asteróide desgarrado, ideia que, felizmente, logo tratou de descartar.
              Que não se interprete essa reação desmedida e surpreendente de Heródoto como algo inusitado, já que seria um equívoco considerá-lo como um mero mecanismo, um simples robô um tanto aperfeiçoado. Conquanto a sua natureza física, como já se disse, fosse artificial, a culminação de todo o avanço tecnológico de nossa raça desde que o primeiro Homo sapiens rastejara para fora de uma caverna, em sua essência ele era verdadeiramente humano. O seu cérebro, ou, melhor, a sua mente, era a cópia exata, uma espécie de download baixado para o sistema nervoso central da microscópica nave estelar, dos padrões neurais do cientista-chefe encarregado de sua construção. Isso explica por que ele retinha de sua contraparte humana todo o conhecimento, bem como as lembranças de uma vida inteira e, em decorrência disso, de seus anseios e temores, de suas alegrias e fobias, de sua integridade moral, enfim. Estava apto, assim, a agir e a reagir conforme uma pessoa real. E, como ela, a ter desejos inconvenientes e a experimentar imprevisíveis emoções.
              A saudade era uma delas. Em mais de uma oportunidade Heródoto pôs-se a conjeturar qual teria sido o destino das pessoas que conheceu, das mulheres que amou, dos amigos que (o seu alter ego) teve. Nunca perdeu de vista a noção de que, singrando tão distantes mares no continuum espaço-temporal, todos eles eram agora para ele tão antigos quanto os fósseis de um T-Rex estavam para um homem da Era Vitoriana, mas lamentava sinceramente não ter a oportunidade de revê-los. Aqueles fugidios momentos que passaram juntos, e que a cada instante pareciam mais e mais efêmeros, eram como fotografias antigas e amareladas, ou como a luz de um astro distante que já é demasiadamente velha quando atinge as nossas retinas. “Até o meu eu original, a minha contraparte de carne e osso, virou um amontoado de cinzas a essa altura”, era um pensamento que com frequência o acometia. Ao mesmo tempo, porém, Heródoto considerava uma dádiva que essas recordações, os conceitos de finitude e morte e a própria consciência de seu criador continuassem existindo na mirrada nebulosa de partículas subatômicas que constituía o seu ser.
              Apesar ou devido a essas características demasiadamente humanas, o intrépido viajante logrou superar as piores expectativas e, se conseguiu evitar que a missão fracassasse antes de seu término, é porque havia uma consciência operando por trás do cortinado. Em última instância, foi essa consciência que o ajudou a manter a lucidez e estimulou a sua curiosidade quando a pura lógica binária de um computador jamais permitiria que ele confrontasse as mais absurdas situações. Em outras palavras, o seu bom humor, a sua disposição e, inclusive, o receio que o deixava por vezes precavido em excesso, foram os fatores determinantes para a sua sobrevivência no trajeto de ida até os confins do infinito e de volta à Terra.
              Agora que estava se aproximando do lar, ele se indagava por que diabos ninguém respondia ao seu chamado. Não havia recebido nenhum retorno às suas emissões neutrônicas, e os seus sensores tampouco haviam detectado qualquer sinal de vida ou movimento nos demais mundos do sistema solar, já extensamente colonizados quando ele tinha deixado as suas imediações. Heródoto sequer conseguiu monitorar as sete bases lunares, o enxame de laboratórios e estações espaciais e os três elevadores sub-orbitais que compunham a rede de presença humana na vizinhança do planeta. A cerca de 36 mil quilômetros de distância, era fácil perceber, mesmo ali, no lado noturno, que o nosso mundo havia mudado em demasia, tanto na geografia quanto na composição química do solo e da atmosfera, a ponto de se tornar quase irreconhecível. “Os políticos e os militares devem ter tido um trabalho danado nesse tempo todo para acertar as fronteiras nacionais”, refletiu, sem disfarçar uma ponta de ironia. O Estreito de Gibraltar, os Andes e o deserto do Saara literalmente sumiram do mapa e o Mediterrâneo agora não passava de um lago insignificante. Os grandes monumentos à capacidade humana, o Taj Mahal, Machu Picchu, a Torre Eiffel, o Cristo Redentor e o Obelisco da Tolerância há muito tinham virado pó. O que era esperado, depois de um hiato de um milhão de anos, uma cifra cujas implicações o pequeno artefato estava longe de ignorar.
              Ao pensar a respeito, o peregrino das estrelas foi, pela primeira vez, assolado pelo espectro da dúvida. O que teria acontecido à humanidade nesse imenso período? Era de se imaginar que ela tivesse evoluído a um ponto além de qualquer previsão, e isso era esperado, estava mesmo nos cálculos de seus criadores quando pela primeira vez se debruçaram para conceber a sua expedição. Um milhão de anos, como Heródoto sabia muito bem, era tempo suficiente para a natureza operar mudanças significativas em nossa espécie, moldá-la como barro úmido às suas extravagantes necessidades, alterá-la até o mais profundo de seu âmago até torná-la algo parcial ou completamente diferente do que podemos conceber.
              Uma dedução óbvia e um tanto quanto sinistra a que ele havia se permitido, lá atrás, quando chegou à estrela situada a 500 anos-luz da Terra, foi que a humanidade jamais logrou superar o limite dos 300 mil quilômetros por segundo da velocidade da luz. Em suma, viajado mais rápido do que ele conseguira. Se o tivessem feito, quando atingisse Drake ele depararia com os descendentes de sua linhagem terrena, mas nada disso ocorreu. “O fantasma de Einstein, o guarda de trânsito do universo, provavelmente continuou a assombrar o destino do homem durante milênios de tentativas fracassadas”, pensou, melancolicamente.
              Mas, se os seres humanos não tinham conseguido chegar às estrelas como pretendiam, o que teria havido com eles, afinal?
              A ideia de que um cataclismo cósmico devastador assolou a Terra em algum momento, como o choque de um cometa colossal, era tentadora, mas insuficiente para explicar por que a presença humana se desvaneceu também nos demais rincões do sistema solar. Explicações banais, tais como pestes e grandes surtos de fome, tampouco resistiam a uma análise séria. “É claro que eles podem ter sido obliterados por uma invasão alienígena”, raciocinou, embora essa hipótese soasse tão tola quanto improvável. “Ou partido quando a existência se tornou insuportável e se mudado para outro lugar... ou outra época.” Restava a explicação mais simples e óbvia, embora indesejável, de que a humanidade foi vítima de sua própria natureza predadora. Suplantada pelos seus instintos de ambição e cobiça, de egoísmo e soberba, teria assistido, impotente, ao esgotamento dos recursos do planeta enquanto definhava como espécie até ser tragada pelas insensíveis leis da evolução natural e desaparecido sem deixar vestígios de sua passagem. “Terá sido tudo em vão?”
              Fosse o que fosse que sucedeu à antiga raça dominante, o planeta que tinha sido o seu lar durante eras estava agora tão desprovido de vida inteligente quanto Drake 289-X. Aqui, como lá, subsistiam pequenas criaturas rastejantes e uma vegetação que não ia além das gramíneas. “Triste fim para um mundo outrora tão próspero”, constatou Heródoto, no instante em que o planeta emergia gradualmente da escuridão e deixava-se banhar pela luz branca e acolhedora da aurora.
              Foi somente ao vislumbrar a face iluminada que ele se deu conta, estupefato, do sentido de tudo. Da razão por que os seres humanos haviam florescido e fenecido aqui. Súbito, a sua mente neutrônica compreendeu o que havia para compreender. “É isso. Então todas as guerras, todas as revoluções, todas as perseguições políticas, as filosofias, as artes, as sucessivas gerações, as múltiplas etnias que surgiram e se foram, os avanços e retrocessos da ciência, as inúmeras religiões, as paixões e sofrimentos, a minha própria existência tiveram um propósito, afinal. Isso tudo tem o seu alfa e o seu ômega nessa coisa”, disse, abismado, mal crendo no que os seus sensores mostravam. Para ele, já não importava o destino final da humanidade, mas a pura e simples razão de sua existência, esculpida no decorrer de mais de um milhão de anos pela labuta humana. Inconscientemente, incansavelmente, como formigas que erguem um formigueiro sem saber o que ou por que estão fazendo, os homens de todas as épocas, desde os bárbaros pré-históricos até os nossos derradeiros descendentes, haviam obrado coletivamente para erigir a única marca que deixaram na Terra. A única marca capaz de distingui-los como espécie inteligente.
              Imediatamente abaixo de Heródoto, numa extensão de centenas de quilômetros que cobria mais da metade dos hemisférios norte e sul e se prolongava de leste a oeste, através de grande parte da superfície do planeta, exibia-se, irretocável, majestosa e enigmática, uma face. Um rosto gigantesco, o maior que o mais habilidoso artífice jamais ousaria criar, esculpido em cada montanha, vale, istmo e península. Um rosto anônimo, que podia ser o de qualquer um de nós. Ou o do Criador.
             

São Paulo, 02 de janeiro de 2016


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