e Leia a primeira parte do conto "O Milagreiro do agreste" ~ Diário do Moretti
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sábado, 2 de janeiro de 2016

Leia a primeira parte do conto "O Milagreiro do agreste"




O MILAGREIRO DO AGRESTE
Parte 1

Por Marco Moretti

 “A vida (...) é uma história contada por um idiota,
cheia de som e fúria, e que não significa nada.”
William Shakespeare, Macbeth

"Espantalho", obra de Cândido Portinari - Fonte: Wikipedia

A um dia de viagem a pé de Juazeiro, à esquerda da última curva do Vazabarris, largada em um rincão qualquer do nordeste, fica Milagres, uma cidadezinha amaldiçoada por Deus que, de tão insignificante, nem sequer merece lugar nos mapas. Às suas portas, a carcaça de um bezerro jaz no solo estéril, qual fóssil pré-histórico, invocando sinais das cruzes e aves-marias nos forasteiros e invasores que por ali se aventuram. Desse vilarejo tão tristonho e sem graça, habitado por um punhado de almas condenadas ao sofrimento e à fome, erguia-se uma cantoria prenhe de fé:   
- “Rainha de eterna glória/ Mãe de Deus, doce e clemente/ Dai-nos água que nos molhe/ Dai-nos pão que nos sustente.”
A cantilena já durava um par de horas, o vozerio disperso ao vento se esfolando nos galhos mortos das macegas, batendo de encontro às pedras duras e suspirando inerte na terra seca. Mas nada disso espantava o punhado e meio de romeiros que seguiam na procissão debaixo do sol ardido do meio-dia. Firmes no cantar monótono, davam mostras de fé ao Altíssimo batendo com os pés descalços e esqueléticos no chão esturricado. À frente, conduzindo a fila em V e segurando altaneira a cruz feita de dois tocos de madeira precariamente atados, adiantava-se Maria José, os olhos injetados e esbranquiçados pregados no céu, à procura de um fiapo de nuvem, um relampejar frouxo, um sinal qualquer de chuva. Tudo o que colhia, contudo, era a baforada do ar quente que zanzava pelas parcas ruelas de Milagres e vinha esbofetear seu rosto de traços fortes, quase viris.
Se não era a estiagem implacável que castigava há meses sem conta a cidadezinha esquecida que iria esmorecê-la, não seria essa brisa infernal que a faria entregar os pontos. Muito pelo contrário, servia para dar-lhe a convicção de que estava enfrentando Satanás em pessoa e por essa razão não deveria sucumbir ao pecado de duvidar do poder do Senhor seu Deus. Nem permitir que duvidassem, mesmo que para isso tivesse de apelar para ameaças sobrenaturais e imprecações de toda espécie. Determinada como um bode velho, teimosa feito um jegue, Maria José fazia as vezes de vigário naquele lugarejo que parecia ter sido abandonado pelas hostes celestiais desde o dia seguinte da Criação.
Não era pastora, nem tinha intento de fundar Igreja nova. Era devota de coração contrito, dessas que com todo fervor se dedicam ao ministério da Palavra, arrastando atrás de si um punhado de irmãos e irmãs de fé. Erguendo a voz forte, enfileirava benditos e rezas sem-fim entre uma ladainha e outra:
- “Rainha de eterna glória/ Mãe de Deus, doce e clemente/ Dai-nos água que nos molhe/ Dai-nos pão que nos sustente.”
A mais ardorosa de suas seguidoras era Bernadete. Vinha logo atrás de Maria José, acompanhada de seu próprio séquito de filhos maltratados. Seis meninos, seis bocas famintas, seis formas esquálidas que se arrastavam fantasmagoricamente na barra da saia da mãe, olhares mudos voltados para o nada. Seu silêncio contrastava com o vigor de Bernadete, que mesmo do alto de seu meio século de existência cantava com devoção de moça a litania encruada, ansiando por um pouco de água. Água que lavasse a idade de seus cabelos secos, as rugas do rosto, a pele crestada do corpo.
Seguia a procissão com passos militares tendo o marido a tiracolo, o bondoso João Evangelista, motivo de chacota de toda a cidade, que preferia chamá-lo pelo apelido menos honroso de João Beberrão. Um pedaço de trapo atropelado pela vida, um maneta miserável devotado a uma única causa, a garrafa. Sua existência era uma contabilidade de negações. Nunca teve emprego que prestasse, nunca juntou fortuna, nunca foi amado pelas mulheres. Não era de água que tinha sede, mas de cachaça, e cachaça em abundância. Mesmo trocando os passos, as pernas cambaleantes, calava por vezes na carraspana, para logo em seguida erguer a voz aos céus, cutucado pela esposa severa, com quem fazia coro:
- “Rainha de eterna glória/ Mãe de Deus, doce e clemente/ Dai-nos água que nos molhe/ Dai-nos pão que nos sustente.”
Rosário, a última nesse exército de desvalidos, orava com menos ardor que os demais. Não porque não tivesse pelo que rezar nem por falta de fé. Era por desânimo mesmo. Já tinha passado da idade de moça casadoura e via o tempo esvair-se das mãos sem nunca ter tido um pretendente que se dispusesse a arrancar-lhe a virgindade. Culpava a si mesma pelas tentativas fracassadas, pelas esperanças desfeitas. Ou melhor, culpava isso sim o nariz adunco e desproporcional, o rosto desajustado, o corpo descarnado feito pau de vira tripa. Tinha sede de beleza, e por isso cantava baixo, mais para si mesma do que a Deus:
- “Rainha de eterna glória/ Mãe de Deus, doce e clemente/ Dai-nos água que nos molhe/ Dai-nos pão que nos sustente.”
Entoando assim essa cantoria insuportável, o cortejo atravessou as ruas, observado apenas pelos casebres decrépitos, pelos gravatás amarelados no chão de terra batida e por uma dupla improvável de amigos inseparáveis. Josué e Isaías mantinham uma simbiose de tubarão e rêmora, em que o cantador cego contava com o garoto de 12 anos para lhe descrever as coisas que via. Em retribuição, Josué servia de lombo de jumento para o menino aleijado, carregando-o de cá para lá numa cesta de vime atada às costas com uma correia de couro. Sentados na fonte seca da praça central e sem mais nada de útil para fazer naquele dia quente, iam eles acompanhando a procissão com olhos e ouvidos colados.
- Agora eles tão dando a volta na praça pela quarta vez - relatava Isaías para o amigo.
- Pensei que era a terceira. Aposto minha cabeça com o diabo que você tinha dito que era a segunda da última vez. - retrucou Josué, atento ao que se sucedia.
- Tá variando, é, homem? É a quarta, tenho certeza.
- Até quando essa doida vai continuar com essa besteirada? Pois não vê que nem com reza brava tem jeito de chover nessas bandas? É ruim, hein?
- E pra Deus há de ser isso de impossível? – desafiou o menino.
- Ora, lá vem você com essa tramela. Pois se existisse um deus a gente ia tá aqui, nessa secura danada? Deixa de ser besta, moleque!
- Sei lá, mas que não tá com cara de que vai parar tão cedo, ah, não tá não...
- E agora, o que tão fazendo?
- Tão virando pra cá. Acho que vão começar outra-- - disse o menino, estancando as palavras na boca. Antes que pronunciasse outra sílaba, uma lufada de vento estapeou-lhe o rosto, amordaçando-o. Mas essa não chegou de mansinho como as outras. Veio determinada, acompanhada de uma poeirada danada que durou minutos para baixar. Quando a arruaça sossegou, a procissão continuava impassível no lugar, imóvel como a mulher de Lot.   
- Peraí – exclamou Isaías, depois de tossir e cuspir uns torrões de terra.
- O que foi? Diz, garoto, o que foi? - perguntava o cantador, curioso.
- Tem alguém no meio do caminho.

Continua na próxima semana



      

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