e Confira a análise da obra de Frank Miller ~ Diário do Moretti
Facebook

domingo, 24 de janeiro de 2016

Confira a análise da obra de Frank Miller




UM GÊNIO CHAMADO FRANK MILLER

Por Marco Moretti

Frank Miller - Fonte: Wikipedia

De todos os grandes criadores dos quadrinhos, Frank Miller certamente ocupa um lugar de destaque no panteão formado por uns poucos mestres como Will Eisner, Jack Kirby, Carl Barks, Lee Falk e Alex Raymond. O nome de Miller evoca em nós um divisor de águas na história dos gibis, sobretudo os de super-heróis, cuja trajetória pode ser dividida em antes e depois dele.
Não há exagero algum nessa afirmação. Ainda nos anos 70, Miller elevou o gênero a um patamar até então impensável. Se é verdade que os super-heróis já vinham merecendo atenção da crítica desde os anos 60, quando serviram de inspiração para artistas plásticos do porte de Andy Warhol, não é menos verdade que foi Miller quem deu o peso autoral que lhes era negado desde suas origens, na chamada Era de Ouro dos anos 30.
Ele fez isso mergulhando fundo na psique dos personagens, a começar pelo Demolidor, cujo título original assumiu em 1979. Como observou o estudioso de quadrinhos Les Daniels, a Marvel já havia deixado sua marca editorial ao expor os problemas encontrados por indivíduos que adquirem poderes inesperados e bizarros, mas foi Miller quem deu o passo adiante, sondando as motivações ligeiramente insanas que os levam a combater o crime. Sem o quê, não mereceriam o título de super-heróis.
Ele percebeu que a única maneira de tornar esses personagens verossímeis para o leitor era escorando as tramas firmemente na realidade. Em vez de invocar cientistas malucos ou alienígenas invasores, Miller optou por situar as aventuras do Demolidor num contexto de violência urbana, de um realismo muitas vezes cru e sem concessões. Todo leitor há de se lembrar das cenas de Karen Paige, a namorada de Matt Murdock, se drogando, ou das seqüências de luta corporal que o herói travava com os agentes do Tentáculo.
Enquanto alguns criadores trilham o caminho do hiper-realismo em seus trabalhos, tanto no plano do roteiro quanto no da arte, Miller preferiu seguir o caminho oposto, fazendo com que suas histórias adquirissem um certo sabor cartunesco, simultaneamente mais simples e profundo. “Eu quis usar um estilo em que o leitor tinha de fazer boa parte do trabalho”, explicou ele certa vez, “em que um par de traços e uma sombra negra se tornassem um rosto expressivo na mente do leitor”.
Rotulado de expressionista por muitos, Miller aprofundou esse estilo em seus trabalhos posteriores, mais autorais, como na consagrada série Sin City. Ali a estilização chega ao auge, e ele só precisa de alguns rabiscos, um jogo de claro-escuro, para contar toda uma cena ou exprimir a angústia de um personagem.
Essa estilização vem acompanhada da fragmentação da narrativa, um processo que não é exclusivo dele, e que pode também ser encontrado em seus colegas Alan Moore e Neil Gaiman. Miller quebrou a linearidade dos gibis ao levar para os quadrinhos uma montagem cinematográfica que se esforça muitas vezes em reproduzir a câmera lenta, um recurso tão empregado pelo cineasta Sam Peckinpah em filmes como Meu Ódio será a Tua Herança e Os Implacáveis. Exemplo disso é a famosa cena do assassinato dos pais de Bruce Wayne no clássico O Cavaleiro das Trevas, em que quase é possível sentir o arrastar do tempo enquanto as contas do colar da Sra. Wayne se despedaçam e caem ao chão.
Outro ponto interessante em Miller é que é impossível dissociar sua arte de sua escrita. Quantos criadores de quadrinhos deixaram páginas de diálogos tão memoráveis? Sem cair no equívoco comum de resvalar para a pseudoliteratura, em que uma incontinência verbal vazia de sentido muitas vezes ocupa balões e mais balões, ele soube construir falas e narrativas saborosas e contundentes, prenhes de significado.
Por esse breve inventário das qualidades e inovações implantadas por Miller, que por si só daria um livro inteiro, ouso dizer que o seu pior ainda assim é bem superior ao que de melhor muitos outros criadores tão incensados pela crítica conseguem produzir.


Texto originalmente publicado na revista Wizard número 52.

0 comentários:

Postar um comentário

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Blogger Templates