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domingo, 6 de dezembro de 2015

Leia a versão completa de "A Saga da família Robinson espacial", a história do seriado "Perdidos no Espaço"






A SAGA DA FAMÍLIA ROBINSON ESPACIAL

Por Marco Moretti

O elenco completo da série de tevê dos anos 1960 "Perdidos no Espaço"
Fonte: Wikipedia

Há exatos 50 anos partia para o espaço sideral a primeira família a viver fora do planeta Terra. O seu destino, um planeta na órbita da estrela Alpha Centauri, a 4,5 anos-luz de distância do nosso sol. Um destino que os intrépidos exploradores do cosmo jamais alcançaram, pois uma tempestade de meteoros (e a sabotagem perpetrada por um agente inimigo do mundo livre) desviou da rota a espaçonave em forma de disco voador em que eles viajavam. Desde então, eles se encontram vagando a esmo por “galáxias desconhecidas”.
Naturalmente, essa aventura e os seus protagonistas só existiram na cabeça dos roteiristas de Hollywood e no espaço limitado das telinhas de televisão de tubo mundo afora. Ao estrear na rede americana CBS, em setembro de 1965, “Perdidos no Espaço” (“Lost in Space”, no original) estava destinado a se tornar um dos seriados de ficção científica de maior sucesso daquela década, eclipsando até mesmo o seu rival mais ilustre, “Jornada nas Estrelas”, que somente iria ao ar um ano depois e cuja merecida notoriedade viria mesmo na década seguinte. Para as novas gerações, os efeitos especiais jurássicos de “Perdidos no Espaço”, os roteiros bobinhos e o tom de fantasia “camp” francamente histriônico podem soar hoje irremediavelmente datados e infantis, mas, para as gerações mais velhas como a minha, a série conserva quase intacta o seu encanto de aventura descomprometida.
Inútil buscar nessa antiga produção as discussões sobre temas sérios tais como preconceito racial e Guerra Fria disfarçadas em enredos de ficção científica de “Jornada” ou a profundidade filosófica e a extraordinária qualidade artística de “Além da Imaginação”. Tudo o que “Perdidos no Espaço” sempre se propôs a oferecer foram histórias imbuídas do espírito dos livros de Júlio Verne (embora sem o brilhantismo e a originalidade do autor de “Viagem ao redor da Lua”) e de Edgar Rice Burroughs (o criador de Tarzã e das sagas espaciais de John Carter em Marte) e de tiras dominicais estilo Buck Rogers e Flash Gordon, dos anos 1920 e 1930. Uma diversão para toda a família, na linha dos longas-metragens da Disney, era tudo o que almejava o seu criador, o prolífico Irwin Allen (1916-1991).
            Ex-jornalista e ex-agente literário, Allen pretendeu ser uma espécie de êmulo de Cecil B. DeMille (leia a biografia desse produtor/diretor no meu blog), o grande criador de espetáculos bíblicos de Hollywood, tanto no escopo de suas produções visionárias quanto no maniqueísmo dos roteiros e dos personagens estereotipados. Mas, enquanto o realizador de “Os Dez Mandamentos” tomava a Bíblia como guia, Irwin Allen se deixava levar pelo seu insuperável pendor pelas histórias pueris. Na década de 1950 ele começou a por em prática esses pressupostos quando passou para a produção de longas-metragens e trafegou por alguns dos grandes estúdios da Meca do Cinema, como a RKO (“Double Dynamite”, de 1951, estrelado por Frank Sinatra), Warner (com uma produção ao mesmo tempo pretensiosa e cômica a respeito de passado da raça humana, “A História da Humanidade”, de 1957) e a Metro Goldwyn Mayer (“O Grande Circo”, de 1959, espécie de plágio mal disfarçado de “O Maior espetáculo da Terra”, de DeMille). Mas foi mesmo na 20th Century Fox que Irwin Allen se sentiu confortável para produzir e dirigir os filmes e seriados que o tornaram famoso.
            O seu projeto inicial nesse estúdio e a sua primeira incursão no reino da ficção científica e da fantasia foi “O Mundo perdido”, de 1960, estrelado por Claude Rains (de “Casablanca”), Michael Rennie (famoso por interpretar o alienígena Klaatu, de “O Dia em que a Terra Parou”, o clássico de fc de 1951, e que depois faria uma memorável participação em “Perdidos no Espaço”, no papel-título do episódio “O Colecionador”, na primeira temporada) e David Hedison (que quatro anos depois viveria o capitão Lee Crane em uma das séries de TV mais cultuadas de Allen, “Viagem ao fundo do mar”), a mais medíocre versão da obra de Sir Arthur Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes) e que pretendia pegar carona no imenso sucesso da adaptação para as telas do livro de Júlio Verne “Viagem ao centro da Terra”, feita no ano anterior.
            Decidido a deixar o seu nome gravado nos anais de Hollywood como o legítimo sucessor de DeMille, Allen lançou em 1961 “Viagem ao fundo do mar”, o longa-metragem estiloso protagonizado por Walter Pidgeon (de “O Mundo Proibido”) e Peter Lorre (que décadas antes havia deixado a sua marca na história do cinema como o psicopata de “M, o Vampiro de Dusseldorf”, de que já falei em um post aqui no blog) e que seguia a linha das aventuras marinhas inaugurada por “Vinte mil léguas submarinas”, a clássica adaptação de outro livro de Verne feita pela Disney em 1954. Dessa vez, o êxito nas bilheterias das aventuras do submarino Seaview foi tão expressivo que motivou a Fox a bancar a criação do seriado de TV homônimo e que antecedeu a realização de “Perdidos no Espaço” em um ano. Em 1962, o produtor/diretor tornaria explícita a sua veneração por Verne ao fazer a adaptação pouco inspirada do primeiro romance publicado pelo escritor francês, “Cinco semanas em um balão”.
            Depois dessa produção, as telonas dos cinemas só veriam o nome de Irwin Allen nos créditos uma década depois, quando ele produziu o filme que daria início à onda de filmes-catástrofe (em mais de um sentido, segundo as más línguas), “O Destino do Poseidon”, a dramática história do navio de passageiros que vira de cabeça para baixo ao ser atingido por um tsunami, estrelado por nomes estelares como Gene Hackman e Shelley Winters. Esse longa-metragem e o seguinte, “Inferno na Torre”, de 1974, quase uma tragédia grega a respeito de um arranha-céu em chamas, com Paul Newman e Steve McQueen nos papeis principais, ajudaram a forjar a alcunha com que Allen passou a ser conhecido a partir de então: “O Mestre do Desastre”. Todos esses sucessos de público (mas absolutamente não de crítica) ajudaram a sedimentar a impressão de que Irwin Allen se notabilizou apenas pelos grandes espetáculos, mas não se deve esquecer que ele chegou a ganhar um Oscar pelo roteiro e pela produção do documentário “O Mar que nos cerca”, em 1952. Em toda a sua carreira, ele mereceu 12 indicações ao Oscar e levou para casa cinco estatuetas.
            Entre “Cinco semanas e um balão” e “Poseidon”, o produtor/diretor enveredou para a mídia que mais rapidamente se desenvolvia na época, a televisão, onde realizou em sequência quatro séries de fc relativamente bem-sucedidas no que diz respeito à audiência, começando por “Viagem ao fundo do mar” e seguido por “Perdidos no Espaço”, “Túnel do Tempo”, em 1966, e “Terra de Gigantes”, em 1968. Ele ainda faria um quinto seriado nos anos 1970, “A Família Robinson”, mas esse não era de ficção científica. Aliás, a adaptação para a TV da história dos “Robinsons Suíços”, o famoso livro de aventuras de Johann David Wyss, publicado em 1812, e que já havia rendido duas bem-sucedidas versões para o cinema, uma em 1940 e outra em 1960, essa a cargo da Disney, já estava na cabeça de Irwin Allen quando ele resolveu procurar um sucedâneo televisivo para as aventuras do submarino nuclear Seaview, cujos episódios iam de vento em popa em meados de 1964.
            Duas contingências históricas fizeram com que a concepção do projeto mudasse radicalmente de uma aventura tradicional de náufragos nos mares do sul para a saga de uma família perdida no espaço sideral. A Guerra Fria entre os Estados Unidos e a então União Soviética, e a sua consequente extensão, a corrida espacial, que opôs americanos e russos numa frenética disputa para ver quem chegava primeiro à Lua. Foi assim que Allen levou à rede de tevê americana CBS o conceito de uma família de astronautas composta pelo pai, John Robinson, professor de astrofísica, a mãe, Maureen, bioquímica especializada em medicina espacial, e os filhos Judy, Penny e Will, além do Dr. Donald West, um jovem cientista responsável pela escolha do planeta que o grupo deveria colonizar, na órbita da estrela Alpha Centauri, a vizinha imediata do sol. É interessante observar que a ideia subjacente ao novo seriado, a de que, no (então distante) ano de 1997 a Terra se encontraria superpovoada e ameaçada pela fome e as catástrofes ambientais e por isso a nossa espécie teria de procurar um novo mundo para viver, soa bastante moderna para os padrões atuais (tema que também foi abordado no recente e excelente “Interestelar”, de Christopher Nolan).
            A emissora gostou desse conceito e encomendou ao produtor a realização de um episódio-piloto. Inicialmente, o seriado se intitularia “Space Family Robinson” (“Família Robinson do espaço”), mas, em algum momento antes do final de 1964 ele foi rebatizado pelo nome que conhecemos hoje, “Perdidos no Espaço”. Uma das explicações para essa mudança é que já havia uma “Space Family Robinson” num gibi popular publicado na época pela editora Gold Key. Outra razão alegada para a mudança gira em torno do boato de que a Disney havia patenteado esse título para um longa-metragem que pretendia fazer. Mas o motivo mais plausível para a alteração do nome do seriado é bem mais prosaico e menos honroso para a memória de Allen. Consta que um roteiro com esse mesmo nome, de autoria de um certo Ib Melchior, e que tratava de uma família Robinson que se perde no espaço após atravessar uma tempestade de meteoros quando se dirigia para um planeta distante a fim de colonizá-lo, havia sido submetido à CBS no início daquele mesmo ano. Diante da ameaça de processo por plágio movida pelo advogado de Melchior, a emissora alegou que desconhecia o roteiro, mas, por via das dúvidas, resolveu modificar o nome de sua série duas semanas após.
Essa não foi a única vez em que Allen esteve envolvido nesse tipo de polêmica. Ainda durante a preparação do episódio-piloto, ele e a sua equipe foram procurados por um produtor que tinha ideias próprias para uma série de ficção científica espacial, e que envolvia uma nave estelar e um certo alienígena de orelhas pontudas. Polidamente, a CBS disse que não estava interessada na proposta de Gene Roddenberry para o que viria a se tornar “Jornada nas Estrelas”, pois já tinha o seu próprio projeto de seriado do gênero. Mesmo assim, o conceito do teletransporte da nave Enterprise foi saqueada e devidamente usada em alguns episódios da primeira temporada de “Perdidos no Espaço”. Ninguém nunca disse que os executivos de Hollywood primam pela lisura e honestidade.
            Seja como for, a produção do episódio-piloto prosseguiu para a etapa seguinte, a feitura do roteiro. Dele se encarregou o roteirista Shimon Wincelberg, segundo o qual “ele [Allen] traz um maravilhoso senso de diversão infantil e alegria para uma história”. Em linhas gerais, a história narrava a épica partida da família Robinson e o jovem cientista Dr. West para o espaço a bordo da nave espacial em forma de disco voador Gemini 12 (Gemini era o nome do projeto e das cápsulas que a Nasa usava então para preparar os astronautas para a missão Apollo subsequente, e que levaria o homem até a Lua). O objetivo da expedição era colonizar um planeta distante na órbita de nossa estrela vizinha, Alpha Centauri. A meio caminho de seu destino, porém, uma tempestade de meteoros desviava a espaçonave do curso e eles acabavam caindo em um planeta alienígena cheio de monstros e ameaças climáticas (ao menos nisso “Perdidos” se mostrou profético, ao mostrar um planeta em órbita muito elíptica em torno de seu sol, o que provocava bruscas alterações de temperatura, o que na época era descartado pelos cientistas como uma impossibilidade mas hoje já se sabe que existe graças às modernas descobertas de planetas exo-solares), e lá ficariam, como náufragos siderais, pelas temporadas seguintes.
            Para fornecer a necessária verossimilhança à produção, Allen reuniu alguns dos técnicos mais competentes que tinha à mão e que o acompanhariam por toda a vida, a começar pelos diretores de arte Jack Martin Smith e William Creber, este último depois substituído pelo nipo-americano Robert Kinoshita (responsável pelo design da nave espacial C-57D, também um disco voador, do clássico de fc dos anos 1950 “O Planeta Proibido”); o figurinista Paul Zastupnevitch (que criou os trajes prateados usados pelos astronautas, tão duros que os atores sequer conseguiam sentar e se viram obrigados a descansar apoiados em pranchas verticais inclinadas); o diretor de efeitos especiais da Fox, L. B. Abbott, e sua equipe; e o oscarizado diretor de fotografia Winton C. Hoch. O escopo da produção, que incluía a construção de vastos cenários de um mundo alienígena (para o qual foram empregados dois dos maiores estúdios da Fox), o interior e o exterior da Gemini 12 (que nesse estágio possuía apenas um único andar, composto por paineis com luzes brilhantes, uma redoma de vidro que servia como uma espécie de mapa tridimensional para traçar a rota da espaçonave, o astrogatório, e seis tubos verticais em que os viajantes do espaço hibernariam em sua longa jornada, prevista para durar 98 anos), os diversos equipamentos empregados pelos aventureiros (entre os quais uma mochila a jato desenvolvida para o programa espacial americano pela Bell Laboratories e que realmente funcionava, operada em algumas cenas por um piloto que fazia as vezes de John Robinson ou do Dr. West) e a criação do veículo usado pela pioneira família (um land rover “Snow Cat” modificado com a incorporação de amplas janelas de plexiglass e uma armação de ferro), exigia pesados investimentos que só foram possíveis graças a uma parceria entre a 20th Century Fox Television, a CBS e o apoio de Red Skelton (um ator cômico muito popular nos idos de 1940 e 1950), que apareceria nos créditos sob o pseudônimo de Van Bernard.
            Mesmo assim, os altos custos da produção obrigaram Irwin Allen a reconsiderar a sua decisão de filmar o piloto em cores, realizando-o em preto e branco mesmo, o que não era algo incomum na ocasião. Mesmo assim, prevendo que “Perdidos no Espaço” seria vendido e futuramente poderia ganhar cores vivas e vibrantes, ele rodou algumas sequências de efeitos especiais em eastmancolor, como as da queda da nave no planeta alienígena (feito em locação em Red Rock Canyon, nos arredores de Los Angeles, com um modelo que escorregava por fios estendidos em uma suave inclinação para simular um pouso dramático), os voos da mochila a jato e o carro em movimento no deserto, também feitas em cenários naturais. O que servia bem aos propósitos econômicos do produtor e se constituiria prática recorrente em suas séries, a reutilização de cenas filmadas anteriormente ad nauseam.
            A primeira pessoa a ser convidada a integrar o elenco da nova série foi June Lockhart, famosa na época pelo seriado “Lassie” (1958-1964) e que Allen escalou como Maureen Robinson após assistir a uma impressionante atuação dela num episódio da primeira temporada de “Viagem ao fundo do mar”, “O Fantasma de Moby Dick”. Bem ao contrário da bem comportada mãe de família que encarnou tanto em “Lassie” quanto em “Perdidos”, na vida real Lockhart era uma roqueira fanática e costumava frequentar baladas muito agitadas da noite de Los Angeles.
Para o papel do Professor John Robinson, a escolha recaiu em Guy Williams, então no auge da fama pelo papel-título do seriado pelo qual hoje é mais carinhosamente lembrado, “Zorro”, uma produção dos estúdios Disney. Nos anos 1970, a fama como o herói encapuzado fez com que Williams (filho de imigrantes italianos e cujo nome verdadeiro era Armando Catalano) fosse convidado por ninguém menos que Evita Peron para visitar a Argentina. O ator gostou tanto do nosso país vizinho que se mudou para lá, onde abriu uma churrascaria e morreu de um ataque cardíaco em 1989.
Mark Goddard, na ocasião um rosto popular em papeis de pistoleiro em seriados de faroeste como “Johnny Ringo” e “Rifleman”, ficou com o papel do atlético Dr. Donald West. Uma jovem atriz norueguesa chamada Marta Kristen, que chegou a ser testada para estrelar “Lolita”, a célebre e polêmica versão do livro de Vladimir Nabokov feita por Stanley Kubrick, deu corpo e beleza à jovem Judy Robinson. Por determinação de Irwin Allen, o relacionamento amoroso entre a filha mais velha dos Robinsons e West, durante toda a duração da série, jamais passaria do estágio platônico e os dois nem sequer chegariam a trocar um único e casto selinho.
Com exceção de Lockhart e Williams, os dois atores que mais desfrutavam de alguma fama na metade dos anos 1960 eram Angela Cartwright e Billy Mumy, respectivamente os intérpretes de Penny e Will Robinson. Angela já havia aparecido em diversos anúncios e participado do seriado “Make room for daddy” antes de fazer parte do elenco do longa-metragem de maior sucesso de sua carreira, “A Noviça rebelde”, como uma das filhas de Christopher Plummer, naquele mesmo ano de 1964. Billy era quase um veterano da televisão, tendo participado de importantes episódios de séries como “Alfred Hitchcock Presents” (no antológico “Bang, you’re dead”, em que atuou ao lado de Marta Kristen), duas vezes em “Além da Imaginação” (leia em meu blog a história desse seriado) e diversas outras produções televisivas. Fortemente influenciado por June Lockhart em sua paixão pela música pop, anos depois Mumy se tornaria líder de uma banda de rock e roteirista de histórias em quadrinhos, entre as quais uma série de gibis, nos anos 1990, que dava continuidade às aventuras da Família Robinson.
“No Place to Hide” (em tradução livre, “Nenhum lugar para se esconder”), o nome que foi dado ao episódio-piloto, levou 22 dias para ser filmado, em dezembro de 1964. O próprio Irwin Allen se encarregou da direção, que consumiu 600 mil dólares e envolveu a produção de intrincados (para a época) efeitos especiais, como uma chuva de meteoros, a travessia do carro por um mar tempestuoso (feito com uma miniatura num tanque do estúdio) e a aparição de um gigante ciclópico, vivido por um jogador de futebol americano, entre outras ameaças que punham em risco os Robinsons. Com 55 minutos de duração, o filme narrava a épica viagem da família de astronautas e o seu cientista pelo espaço, o acidente com os meteoros e o pouso forçado em um planeta hostil e habitado por gigantes e devastado por bruscas mudanças climáticas. Os executivos da CBS gostaram imensamente do resultado e, no início de 1965, deram o sinal verde para que Allen desse prosseguimento à série. A essa altura, Allen e o editor Tony Wilson chegaram à conclusão de que “Perdidos no Espaço” precisaria ter um personagem irritante que criasse constantes problemas para os pioneiros do espaço, caso contrário, o programa ameaçava se tornar repetitivo e previsível.
Foi então que entrou em cena o infame Dr. Zachary Smith. Descrito como uma espécie de Long John Silver, o pirata divertidamente vigarista do clássico romance “A Ilha do Tesouro”, de Robert Louis Stevenson, o Dr. Smith deveria interagir com o jovem Will Robinson ao mesmo tempo em que atuaria como sabotador da expedição em nome de uma jamais mencionada potência estrangeira. O vilão encarnaria assim o medo presente no espírito do público americano naqueles dias da Guerra Fria pós-Crise dos Mísseis de Cuba. Na visão de Allen, Smith forneceria um pretexto mais dramático para que os Robinsons se perdessem no espaço e de alguma forma deveria permanecer a bordo da nave espacial como um clandestino. Ao menos nos primeiros episódios, pois o plano inicial era eliminá-lo logo que os astronautas descessem no planeta alienígena.
Para a nossa satisfação perpétua, a feliz escolha do intérprete para viver o maquiavélico doutor alterou esse prognóstico. Outros nomes foram considerados para o papel antes da escolha recair sobre o experiente Jonathan Harris, ator de meia-idade de musicais e peças da Broadway, algumas ao lado de astros como Marlon Brando, e que na ocasião participava de seriados como “O Terceiro Homem” e episódios de “Além da Imaginação” e “Bonanza”, entre outros trabalhos. Por ser o último nome do elenco a ser escalado, o ator imaginou que merecia um destaque especial e propôs a Allen que o apresentassem como “Astro Especialmente Convidado”. O produtor objetou que isso poderia levar os espectadores a pensarem que ele não regressaria nos episódios seguintes, mas Harris bateu o pé e o crédito permaneceu da forma como ele sugeriu.
Inicialmente um personagem sinistro e indubitavelmente maléfico, plano, sem qualquer traço de empatia, reforçada por uma maquiagem pesada, o Dr. Smith ganhou aos poucos, graças à capacidade histriônica do ator, um ar de divertida e cândida malignidade, mais ou menos como um Malvado Favorito de sua época, que o levou a ofuscar o restante do elenco a tal ponto que praticamente roubou o seriado só para si da segunda metade da primeira temporada em diante. No Brasil, o Dr. Smith ampliou ainda mais a sua gama de maldade cômica graças à soberba dublagem do saudoso Borges de Barros, o humorista e dublador brasileiro também responsável pela voz de outros ícones da tevê e do cinema em nosso país, como o Moe de Os Três Patetas, o Pinguim do seriado dos anos 1960 do Batman e o Fred Flintstone do clássico desenho da Hanna-Barbera.
Como Long John Silver tinha um papagaio que lhe servisse ao mesmo tempo de consciência e assecla, o Dr. Smith também deveria ganhar o seu comparsa. Foi assim que Allen pediu a Robert Kinoshita que criasse um Robô de Controle Ambiental, que deveria ser empregado pelos viajantes siderais para avaliar as condições atmosféricas do novo planeta para sustentar a vida humana. Com um domo de vidro no alto e braços sanfonados com garras preênseis, o Robô, como simplesmente passou a ser chamado (mas, nos bastidores, Jonathan Harris lhe deu um apelido, Claude), ganhou vida na atuação inspirada de Bob May, um dublê da Fox. A voz metálica e poderosa (a original, naturalmente), contudo, foi fornecida por um antigo locutor de rádio chamado Dick Tufeld (que também foi o narrador em off do episódio piloto original).
O Robô conseguia se mover apenas em linha reta, e era puxado de um lado para o outro por intermédio de cabos estirados no chão e disfarçados sob a areia nas sequências “externas” (quase sempre feitas em estúdio), embora, às vezes, quando o corpo do robô aparecia em cena apenas da cintura para cima, ele era filmado sem a parte de baixo (em algumas tomadas rápidas, é possível ver as pernas de Bob May). Se o design do Robô da família Robinson lembra o de um outro homem artificial do cinema antigo, Robbie, do já mencionado “O Planeta Proibido”, isso não é mero acaso, já que Kinoshita foi quem concebeu ambos (Robbie e o Robô, a propósito, se encontraram em um dos episódios da primeira temporada de “Perdidos no Espaço”, “A Guerra dos Robôs”, e Robbie ainda teve uma participação especial no episódio inaugural da terceira temporada, “Os Condenados do Espaço”). Hoje, é inimaginável conceber “Perdidos no Espaço” sem esses dois “passageiros” de última hora (havia ainda um outro membro do elenco, a macaquinha alienígena Debbie, que se tornou a mascote de Penny, e que vira e mexe mordia os atores).
Foi para melhor acomodá-los que o deque inferior da nave espacial dos Robinsons foi criado. Esse expediente também teve um propósito prático, pois permitiu que Irwin Allen filmasse o novo primeiro episódio da série com as cenas iniciais com os dois separadas daquelas já realizadas para o piloto em que eles não apareciam e que, portanto, podiam ser reaproveitadas com uma edição inteligente, sem a necessidade de serem refilmadas. Outras duas alterações significativas foram feitas antes da série finalmente ser levada ao ar. A espaçonave deixou de ser “Gemini XII” para se tornar “Júpiter 2”, a fim de evitar confusões com o programa espacial da Nasa, ganhou um elevador ligando os dois níveis e trens de pouso retráteis para pousar, e Don West mudou de status de doutor para major.
Assim, cenas adicionais escritas pelo roteirista Shimon Wincelberg e dirigidas por Tony Leader foram realizadas para que fosse aprontado o novo episódio inaugural, intitulado “O Clandestino teimoso”. Nessas sequências, é explicado como o Dr. Smith, agente secreto de uma potência estrangeira inimiga dos EUA, mas que podemos deduzir se tratar da então União Soviética ou um de seus satélites, entra clandestinamente a bordo do Júpiter 2 antes da decolagem com o intuito de programar o Robô para sabotar a espaçonave logo após a partida e, inadvertidamente, acaba ficando preso e é levado junto com os pioneiros do espaço. Outro acréscimo nada desprezível foi a trilha sonora, assinada por um jovem e promissor músico chamado então Johnny Williams, e que viria a assinar os scores de quase todos os longas de Steven Spielberg, incluindo “Tubarão”, “Caçadores da Arca Perdida” e “E.T.”, além das músicas de “Superman – O Filme” e, é claro, “Star Wars” (embora algumas faixas incidentais, de autoria de outros nomes, como Bernard Herrmann, o preferido de Alfred Hitchcock, tomadas de empréstimo de outros filmes, fossem empregadas).  “O Clandestino teimoso” foi ao ar em setembro de 1965, e seu sucesso garantiu a sobrevivência de “Perdidos no espaço” por três temporadas.
Com a inclusão do “vilão permanente”, a série se tornou uma espécie de metáfora para a condição do americano médio nos anos 1960, ameaçado pela infiltração dos “agentes de Moscou” em seu país, que a paranóia da Guerra Fria insistia em martelar na mídia, e que tem no Dr. Smith uma de suas caricaturas mais memoráveis. Sob essa óptica, pode-se enxergar “Perdidos no Espaço” como uma alegoria da família americana típica dividida entre duas forças antagônicas, de um lado o anjo protetor, não por acaso um militar, representante do governo dos EUA, personificado pelo Major West. Do outro, o demônio tentador, ambicioso, egoísta e sempre pronto para trair os seus benfeitores, o Dr. Smith, cuja influência recai principalmente sobre o jovem e cândido Will. Nesse contexto, o filho caçula dos Robinsons é quase um Pinóquio que, para se tornar um homem de verdade no futuro, tem de aprender a lidar com as suas próprias falhas (personificadas nas vilanias de Smith) e virtudes (personificadas na bravura do Major West e no bom senso do Professor Robinson) e que tem no Robô a versão mecanizada do Grilo Falante. Tudo isso poderia ter sido explorado com muito mais profundidade se o rumo do seriado não tivesse sido alterado drasticamente e, em vez de Alpha Centauri, os pioneiros não tivessem ido parar no mundo psicodélico que dominava aquela década.
Muito do episódio piloto foi reaproveitado nos primeiros cinco episódios, justamente os melhores de toda a série. A pegada épica e aventureira desses episódios dá um vislumbre do que “Perdidos no espaço” poderia ter sido se essa abordagem mais “séria”, digamos assim, tivesse continuidade, o que, infelizmente, não foi o que sucedeu. Rapidamente, o seriado resvalou para um tom “camp”, de autoparódia e de franca infantilidade, com aparições de criaturas esdrúxulas e fabulosas que iam de dragões e cavaleiros medievais em armaduras a sapos em forma humana e piratas e cowboys espaciais que determinou para sempre o seu status como uma espécie de “Sítio do Pica-pau amarelo” espacial.
Dois fatores explicam essa mudança de tom. Em primeiro lugar, “Perdidos no Espaço” teve de encarar a concorrência pesada de outro seriado de enorme sucesso que era transmitido no mesmo horário, nas manhãs de sábado, em outra emissora, o “Batman” de Adam West e Burt Ward, cujo estilo francamente paródico foi decisivo para alterar o rumo das aventuras da família Robinson. Mas como “Batman” só estreou um ano depois de “Perdidos no Espaço”, a outra razão para que o seriado se deteriorasse foi o próprio Irwin Allen. Não se sabe bem por que, mas o produtor e diretor parecia se desinteressar muito rapidamente de suas criações televisivas assim que outros projetos lhe ocupavam a mente, e ele as abandonava à própria sorte, sem se importar muito com a repetição de histórias e a maldição dos “monstros da semana”, que já havia selado o destino de sua outra produção à época, “Viagem ao fundo do mar”. Essas características mescladas de filme de terror B e de sitcoms se aprofundaram na segunda temporada, agora em cores berrantes. Além disso, o seriado passou a se concentrar cada vez mais na trinca Smith-Will-Robô, deixando de lado os outros componentes do grupo, e a própria atuação de Jonathan Harris foi se tornando cada vez mais exagerada e caricata, o que contribuiu para aniquilar qualquer resquício de credibilidade que o seriado ainda pudesse ter.
Somente na terceira e última temporada algo do tom grave dos primeiros episódios foi recuperado, em episódios um tanto sinistros como “O Homem Antimatéria”, em que o Professor Robinson é substituído por sua versão do universo antimatéria, “Visita a um planeta hostil”, em que os astronautas voltam à Terra em 1947, e “Alvo: Terra”, em que a família Robinson, com exceção de Will, é trocada por avatares alienígenas. Também nessa temporada surgiu o último e mais legal dos “gadgets” da série, a cápsula, quer servia para levar os astronautas a pousar e sair de planetas sem a necessidade do Júpiter 2 pousar e decolar a toda hora (problema que “Jornada nas Estrelas” resolveu com a invenção do teletransporte). Uma quarta temporada estava programada para ser realizada quando, subitamente, o seriado foi cancelado. O que determinou o cancelamento foram os baixos índices de audiência, que chegaram ao seu ponto mais extremo com o episódio mais infame e medíocre de todos, até mesmo para os padrões cômicos da série, “A Grande rebelião vegetal”. A história, em que o vilão da vez era uma cenoura humana, era tão ridícula que nem mesmo o elenco se agüentava e tinha de virar de costas durante as cenas para rir.
Eclipsada nos anos seguintes pelas outras séries do próprio Allen, como “Terra de Gigantes”, e pela crescente popularidade de “Jornada nas Estrelas”, “Perdidos no espaço” caiu no esquecimento. Embora propostas tivessem sido feitas para dar um desfecho à saga da família Robinson num longa-metragem ou num especial para a televisão, no final dos anos 1970, quando a ficção científica voltou a se tornar popular, graças ao êxito de “Guerra nas Estrelas”,  nenhuma delas se concretizou. Somente em 1998 foi realizado um longa-metragem parcialmente baseado nos primeiros três episódios da série, estrelado por William Hurt como o Professor Robinson e Gary Oldman como o Dr. Smith (e com participações especiais de alguns dos remanescentes do elenco original, como June Lockart e Mark Goddard). Mas o fraco desempenho do filme nas bilheterias impediu que ele ganhasse uma sequência. Há poucos anos, um piloto para uma nova série de tevê foi realizado, mas foi rejeitado. Este ano, em comemoração aos 50 anos da estréia da série, a Fox anunciou que, finalmente, uma nova versão televisiva de “Perdidos no Espaço” irá ao ar. Será que, desta vez, os viajantes do espaço chegarão a Alpha Centauri?


São Paulo, 06 de dezembro de 2015



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