e Conheça "O Peabiru e o caminho perdido dos índios", a introdução ao meu livro "Os Conquistadores" ~ Diário do Moretti
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Conheça "O Peabiru e o caminho perdido dos índios", a introdução ao meu livro "Os Conquistadores"




O PEABIRU E O CAMINHO PERDIDO DOS ÍNDIOS

       Por Marco Moretti

"Índios Puris", pintura de Julio Ferrario mostrando indígenas trilhando
o caminho do Peabiru - Fonte: Wikipedia

A
           
 ideia de que uma estrada feita em épocas pré-Cabralinas e composta de um emaranhado de ramificações que se espalham pelo interior do território brasileiro representa improváveis possibilidades. Contudo, há sólidos indícios, emanados das crônicas dos primeiros exploradores do Brasil e de períodos bem posteriores, de que esse caminho é mais do que mero exercício de imaginação exacerbada. O Peabiru, nome com que os indígenas davam a essa trilha, ajudou o espanhol Alvar Nuñes Cabeza de Vaca a alcançar Assunção, no Paraguai, no século XVI, e foi por ele que os bandeirantes de Antônio Raposo singraram em seu propósito nada honroso de atacar as missões do Guairá e apresar os índios que ali viviam, no século XVII. Portanto, ao contrário da figura lendária de Sumé, de que só nos restam como duvidosas provas algumas pegadas nas pedras e o relato fantasioso dos silvícolas, o caminho do Peabiru existiu de fato e alguns de seus trechos ainda hoje podem ser avistados no Paraná e outras poucas regiões.
            A propósito, a mesma tradição que relata o mito do herói civilizador de cabelos e olhos claros (ou São Tomé em pessoa, como queriam os religiosos) assegura também que foi Sumé e ninguém mais o responsável pela criação dessa estrada. Essa afirmação dos índios, porém, bate de frente com a pura lógica. A extensão do caminho era prodigiosa e custa a crer que pudesse ser obra de um único homem, santo ou não. “...E corre esse caminho por toda aquela terra... ininterrupto desde o Brasil. Chamam-no de Caminho de São Tomé [sic]”, atestou o padre Antônio Ruiz de Montoya. Todos os cronistas concordam que ela começava (ou terminava) no litoral de São Paulo, na atual cidade de São Vicente, com uma bifurcação oriunda de Cananeia, subia a serra do mar e seguia o planalto paulista adentro, atravessando o local em que
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hoje se encontra a capital (e passando por marcos bastante conhecidos nos dias atuais, como o Pátio do Colégio e a Rua Direita, no centro, para depois cruzar o Vale do Anhangabaú e seguir pela rua da Consolação e a avenida Rebouças, chegando a Pinheiros e além) e se espalhando pelo oeste, tomando o rumo de Botucatu, Sorocaba e além. Nesse ponto, supõe-se, o caminho se dividia em vários ramos. Um deles desviava para o sul e chegava ao Paraguai. Outro, talvez o mais numeroso, parecia se estender pelo Mato Grosso, cruzando o Pantanal, na altura da Cadeia do Amolar, no extremo oeste, e talvez chegasse ao sopé da Cordilheira dos Andes.
            Um jesuíta peruano, Pedro Lozano, descreve a trilha nestes termos: “Tem oito palmos de largura, em cujo espaço só nasce erva muito miúda, que se distingue de todas as demais dos lados, que, pela fertilidade, cresce a meia vara [cerca de um metro]”. A etimologia do nome Peabiru talvez nos ajude a esclarecer a natureza dessa estrada: em tupi, “pe”, caminho, e “abiru”, grama amassada, ou em guarani, a conjunção pia, ou bia, pe, e ybabia, significa “caminho que leva ao céu”. Outra interpretação menos poética sugere quem foram os engenheiros que a abriram: caminho real ou caminho para o Biru (Peru). Que os incas, que viviam no altiplano peruano e boliviano, eram exímios construtores de estradas, é uma afirmação que dispensa confirmações. A estrada real incaica, que percorre centenas de quilômetros e é feita de pedras exatamente justapostas, ainda hoje é uma das grandes maravilhas do mundo, tanto quanto os vastos templos, edifícios e construções erigidos por aquele povo notável. Pode-se supor que o Peabiru não passasse de um ramo da estrada real incaica e fizesse a interligação do Pacífico com o Atlântico.

            E talvez tenha sido por essa estrada real que a corte inca, fugindo da sanha homicida e da cobiça desmedida dos espanhóis, deixou a capital, Cuzco, carregando o lendário tesouro perdido inca e o fabuloso Disco do Sol, história que deixarei para o próximo post.


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