e Confira a versão integral do conto "Auto-de-fé do sertão" ~ Diário do Moretti
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sábado, 12 de dezembro de 2015

Confira a versão integral do conto "Auto-de-fé do sertão"




AUTO-DE-FÉ DO SERTÃO

O diabo é a figura mais dramática da história da alma.
A sua vida é a grande aventura do mal. Foi ele que inventou
os enfeites que enlanguescem a alma,
e as armas que ensangüentam o corpo.”
Eça de Queirós, Prosas bárbaras

Por Marco Moretti

"Lúcifer", aquarela de William Blake - Fonte: Wkipedia

Ele é a mentira e o pai da mentira. O maior dos trapaceiros, o mais ardente dos sedutores. É a traição que se fez carne, o príncipe de todos os enganos, aquele que encanta iludindo, que inventa e destrói. Ele é a luxúria do amante e também a inveja da mulher rejeitada, o ódio dos deserdados e a sanha dos assassinos. Os homens o chamam por uma legião de nomes, a maioria nem presta falar. Coisarruim, tinhoso, canhoto mais o rabudo. Numa palavra, ele é o capeta.
Pois atrás dele saiu Getúlio mundo afora em busca furiosa, melhor dizendo, insana. De armas, somente a Bíblia que empunhava embaixo do braço, assim a modo de cartucheira, e a fé canina nos evangelhos que arrastava meio a contragosto atrás de si. Desde que se meteu nessa cruzada, escorreram sei lá quantos anos de andança molenga por tudo quanto era morro, roçado e campina. De noites e mais noites esquentando o sono na boca do fogo ou encharcando ossos debaixo de aguaceiros. Já vai longe a conta de quantos dias passou engolindo lama e curtindo pele ao sol. Basta dizer que comeu muita légua, buscando com braveza de inquisidor o demônio, mas esse teimava em escapar feito água entre seus dedos.
Mais de cem vezes Getúlio pensou que pensou ter visto aquele que ninguém avista. Jurou sentir cheiro de enxofre numa capela abandonada e com certeza dobrada imaginou ter enxergado pés de bode escapando debaixo da batina dum padre devasso. Mas não viu nem sinal dele em terreiros de macumba entupidos de fumaça, velas e ebós. Não, também não foi nas moradas das quengas que calhou de esbarrar em alguma pista. E foi assim, de fracasso atrás de fracasso, quando já ia de desistir da empreitada, que Getúlio avistou o maldito em pessoa. Onde? Ora, numa encruzilhada a meio caminho de lugar nenhum, onde mais?
Pelo menos era disso o que Getúlio dava fé e assinava embaixo. De diabo, aquele pedaço infeliz de carne humana não tinha muita parecença, não. Chifre e rabo, isso não tinha. Tampouco tinha tridente, capa preta ou coisas assim e assado de demônio. A olhar cru, não passava mesmo era de mendigo safado, desses que vagamundeiam por aí, calças estropiadas, barbicha curta, dura de nunca fazer, saco velho prenhe de tranqueiras. Para dizer com franqueza, esse aborto fracassado não levava cara nem jeito de criatura do mal. Estava mais era para um bichopreguiça esparramado na terra, encostado num tronco de árvore mal caído e brincando de cama-de-gato com um barbante fedido de sujo. Getúlio não quis saber de nada disso e foi logo soltando, com voz e jeitão de coronel:                
- Ó do caminho, você mesmo aí! O que faz sentado nesse trecho de tronco entalando passagem?
De resposta, o outro só precisou de esticar um olho, gesto que veio de mãos dadas com um sorriso cuspido, de marotice. Bastou-se no silêncio. Irritado, Getúlio escarrou nova ladainha:
- Anda, homem, vê se alevanta daí que eu tenho pressa!
Sem se abalar do lugar, o outro finalmente se coçou de responder e devolveu a impertinência noutro tom, em maneira de desafio:

- Se te desagrada meu modo
Peço desculpas e tudo mais
Mas daqui não saio jamais
Se antes não ficar provado
Que pode me vencer dobrado
Nessa peleja vibrante
Da língua mais o barbante.
Agora, vou logo avisando
Para você ir se preparando
Pois sou rival bem falante.

Ainda lambendo os versos nos beiços, ofertou a cama-de-gato com os braços esticados, assim dizer, de provocação. Getúlio, que conhecia as manhas e artimanhas do diabo, fechou carranca cheio de rabugice, mas remédio nem não tinha senão aceitar a contenda. Se saísse vencedor, melhor, teria o rabudo no papo. Caso contrário, bem, era coisa de nem pensar nisso. Desmontou do burrico que usava de montaria, arrumou o paletó, negro da cor de velório mas de corte impecável, ajeitou a gravata, arrumou o cabelo engomado e penteado à risca, e desceu a trilha de terra até ficar de cara e focinho com o vagabundo. Sem sucesso, tentou espantar a moscaria que zunzunava no lugar. Entrelaçou os dedos no cordame estendido e com delicadeza de moça rendeira foi desmontando o que o outro tinha armado. Com um pigarro afiou a língua, com outro sacou do verbo e devolveu:

- Nessa arte do repente
Atleta estou longe de ser
Mas quero ver me vencer
No papel de predicante
Já que nisso sou importante.
Só sei no que está escrito
No Evangelho de Jesus Cristo
Com ele converti muita gente
Pobre, bêbado e até doente
Agora todos oram ao bendito. 

Maltratando assim as palavras, tropeçando nos verbos e se esfolando nas sílabas, Getúlio versejou de volta ao mesmo tempo em que esticava adiante a cama-de-gato para ver se o outro largava de besteirada e confessava de uma tacada. O mendigo não se fez de rogado, não. Enredando molemente os dedos na teia de fios, foi desatando o entrelaçado com pressa de caramujo enquanto que ia tecendo nova estrofe:

- Pelo pouco que me foi dito
Vosmincê fala sem parada  
Feito leitor da Bíblia Sagrada
Que repete o que foi escrito
Sem saber se é verdade ou mito.
Será o caso que estou de frente
Com um padre, santo ou crente?
Aliás, seu rosto é parecido
Com o de um velho conhecido 
Já não nos vimos rapidamente?  

Dessa maneira meio insolente, meio debochada, largou a cama-de-gato para o outro se embrulhar nela. A cada vez ela vinha com desenho diferente, nuns caprichos de artista. Ora parecia tapete persa, de traçado cheio de arabescos, ora lembrava legítima renda portuguesa. Agora, saía a imitação de teia de aranha. Getúlio foi catando fio por fio, puxando daqui, estirando dali enquanto escarrava estrofe por estrofe:

- A dizer bastante francamente
Não tenho lá muita instrução
Mas sou pastor de profissão
E ao Senhor Deus temente
E confiando Nele somente
Me entreguei a essa caçada
Não atrás de um pecador de nada
E sim daquele que usa capa preta 
E que todos chamam de capeta.
Por acaso você o viu nessa parada?

- Isso pode ficar para adiante
Antes de tudo quero lhe dar
A razão por que não posso andar.
É tudo culpa de um acidente
Não sei se obra de um ente
Ou um capricho da natureza
Mas me atingiu com rudeza
Quando um raio inesperado
Caiu nesse tronco estragado
Me pegando aqui de surpresa

- Isso pode soar a casualidade
Mas pra mim, que sou crente,
Parece algo bem diferente
          Ninguém sofre infelicidade
          Sem a mão da divina vontade
          E nada de mal acontece
Para quem a Deus obedece
Portanto, para dizer sem arreio,
Pois não sou homem de rodeio,
Exijo que o seu crime confesse!

Dito isso, Getúlio ofertou com determinação de inquisidor o barbante, esticado nas pontas dos dedos como uma teia armada à espera de inseto curioso. Apanhado com as calças penduradas na mão, o outro escapou com um sorriso, desses de malícia, depois cavoucou nos bolsos até tirar uma guimba, surrada e maltratada de tanta usança. Com um piparote, jogou-a no ar e assim meio desajeitadamente apanhou com a boca antes que caísse no chão. Cutucou no saco mais um tanto até dar com uma caixa de fósforos de um palito só. Acendeu o cigarro, cuspiu uma baforada gostosa de causar inveja e assoprou a fumaça pelas fuças do pastor adentro, que engasgou e tossiu, mas procurou manter o ar sério. Passando dedo por dedo no cordel, o estranho foi se apossando da cama-de-gato com perícia de sedutor enquanto tecia nova versificação:

- Grave e injusta é tal acusação
Pois nada sei de crime algum
Seja aqui mesmo ou lugar nenhum
Fico longe de qualquer agitação
E tenho medo até de um facão
Nunca ousei tirar nada de ninguém
E muito menos já assaltei alguém
Basta perguntar a qualquer cidadão
E nenhum deles vai erguer a mão
Contra este infeliz joão-ninguém

- Aos tolos você pode enganar
Mas a mim, que conheço o mal
E sei separar o puro do imoral
Você não consegue me ludibriar
Nem a minha vontade arrancar
Para que não digam a meu respeito
Que não trago a justiça no peito
Um tempo pretendo lhe conceder
Para do crime se arrepender
E assim confessar o seu feito

- Como eu posso me confessar
De um crime que nem sei o nome
Terá sido com arma de porte
Ou será que para assassinar
Bastou apenas as mãos usar?
Me conte logo, meu bom pastor  
Qual o motivo de tanta dor
Foi uma questão de herança
Querela em torno de cobrança   
Ou um mero caso de amor?

- Sou homem de paciência curta
Portanto, vá desembuchando
Pois seu tempo está acabando
E quero fazer uma pergunta
Em que a resposta venha junta
Diga de uma vez o seu nome
Sem nem ocultar o sobrenome
         Se disser espontaneamente
Prometo perdoar incondicionalmente
         Até o seu crime mais enorme

-  Pode à vontade me indagar
Não tenho nada do que fugir
E de tudo isso só posso rir
Ainda mais quando ouço falar
Que você pretende me perdoar
É um interrogatório absurdo
Mas me recuso a ficar mudo
Se está interessado em saber
Então sem rodeios vou lhe dizer
Que me chamam de Zé Barbudo

Getúlio saboreou o momento como o jacaré antes de devorar o bezerro. Agora a sua presa tinha um nome, meio nem isso nem aquilo, é verdade, mas que vinha a calhar. Com essa miséria de evidência em mãos, o pastor preparou novo laço para apanhar sua vítima. Depois de espantar umas moscas, armou o barbante com jeitão de forca e esfregou no nariz pontudo do outro:

- Ora, nas Escrituras está dito
Que a árvore se conhece
Pelo fruto que nela cresce
Então, como um ser maldito
Pode gerar algo bonito?
Dessa forma, seu Zé Barbudo
Eu o acuso de quase tudo
De praticar ato imundo
E espalhar o mal no mundo
Já que assim age o Beiçudo

- Tome cuidado, meu caro
Com suas palavras ociosas
Que são mais perniciosas
Do que veneno de rato
Ou que mentir sobre um fato
Você diz que eu sou o diabo
Porém, nem mesmo tenho rabo
Tampouco eu trago tridente
Ou uso palavra indecente
Para espalhar por aí o pecado

- Está escrito em Mateus sete
Que o falso profeta se paramenta
De pele de ovelha como vestimenta
Pois o que nele tem sede
É um lobo voraz e inclemente
Por esse motivo, eu digo
Que na verdade de mendigo
Vosmincê tem muito pouco
Porém, de ladrão e louco
Aí, sim, se pode ver o Inimigo

Antes de dar tempo e tino ao outro de soltar a réplica, Getúlio deu o bote sobre ele sem querer saber de grito, de esperneio nem nada. Segurando o barbante firme desse jeito nas duas mãos, espremeu a garganta do Zé Barbudo com tanta força que ele foi avermelhando até ficar roxo. Babava, o infeliz, e sua baba escorria sobre a barbicha e regava a terra seca. Quanto mais se debatia para escapar, mais o pastor caprichava no garrote.

- Fale de uma vez, desgraçado
Não pense que pode me enganar
Ou aqui mesmo hei de te esganar
Eu conheço você lá do passado
Quando era órfão e abandonado
E vivia assim, sem eira nem beira
Dormindo na rua e batendo carteira
Até que você um dia apareceu
E com palavras doces me convenceu
A seguir na criminosa carreira  

- E-eu nem não sei do que você fala
Digo e repito, sou só um vagabundo
Conheço boa parte desse mundo
Levo uma vida simples e sem gala
Nunca que matei e nem levei bala
Você deve ter é se confundido
Veja, não levo jeito de bandido
Talvez a tua ira se aplacasse
Se vosmincê me explicasse
Tudo sobre esse tal ocorrido

- Demônio, não se faça de besta!
Eu era rapaz quando me recrutou
Mas tanto ensinou e tanto relutou
Que logo eu era como o capeta
Sempre metido em qualquer treta
Sem dó nem piedade eu matava
Impondo medo por onde andava
Com você aprendi a me drogar
E traficava em qualquer lugar
Se me ameaçavam, eu apagava  

- Tenha dó de mim, seu moço rezador
Usando assim esse barbante velho
Vosmincê vai negando o Evangelho
Pois em vez de agir como pregador
Está isso sim bancando o torturador
Ameaçando e me sufocando
Acusando, xingando e espancando
Como se eu fosse um cão sarnento
Prestes a dar o último alento
E cá no chão ficar estrebuchando

As palavras de Zé Barbudo não prestaram para nada a não ser para incendiar a ira de Getúlio. Usando o barbante para amarrar os pulsos do mendigo, ele arrastou o coitado de lá pra cá por uns sei lá quantos metros. Olhava para esta e praquela árvore, até que achou uma bem troncuda, assim nem não muito alta, nem muito baixa, mas de tamanho certo para trepar. Ou para atar o corpo gasto do vagabundo do mato. O outro protestava, dizia por favores e reclamava o porquê de tanta judiação. Getúlio fez ouvido de mercador e foi logo amarrando Zé Barbudo na árvore com firmeza e destreza de inquisidor.

- Poupe a tagarelice oca,
Pois a violência em ti conspira
E em seu coração inspira
A iniqüidade que sai de tua boca
De onde coisa útil sai pouca
Por causa do teu verbo afiado
Eu passei anos trancafiado
E nos vimos de novo na prisão
Você com o rosto de ancião
O nome, esse todo modificado

- Se não parar de falar sem pensar
Vai parecer que nem político
Que de sábio, prudente e crítico
Não se acha um sequer num milhar
Você me acusa do mal praticar
E de incitar a violência
Mas fale, sem maledicência
Se faz idéia do que isso seja
Sem que para tanto você veja
Nada além da própria vivência

 - Diabo, fala com dissimulação
Mas há fraude no seu interior
Tu maquinas e se acha superior
Enquanto eu faço pregação
E já ouvi muito dessa falação
Pois conheço bem a maldade
Já vi de perto sua fealdade
Quem a pratica é digno de dó
Ao termo da vida ficará só
E escravo será da brutalidade

Assim dizendo, o pregador foi ajuntando galhos ao pé da árvore, amontoando folhas secas, aprumando alguma. Logo ficou claro até para o mais besta o que ele meditava e premeditava. E se alguém aí ainda não atinou, vou logo falando, que ele ia era invocar fogaréu, dar de comer o Zé Barbudo às chamas. Fazê-lo arder na grelha dos seus pecados.

- Ah, veja só, seu moço rezador
Eu cá comigo tava matutando
Que maldade era sair matando
Agora vem você, todo prosador
Dizendo algo, assim, inovador
Por isso me diga com franqueza
Se falar e agir com dureza
É coisa que cabe a alguém
Ou é feito que está além
E a Deus pertence com certeza

- Não preciso o cérebro usar
Para essa questão responder
Basta lembrar o divino poder
Que puniu Caim por ousar
Um crime horrendo causar
Eis aí o grande castigo
De quem da Escritura é inimigo
Quando resolve nas mãos tomar
O que cabe a Deus tramar
Invocando mal muito antigo

Mal essas palavras secaram na boca de Getúlio, o pastor sacou de um isqueiro e tentou acendê-lo umas tantas vezes até que o fogo brotou cheio de apetite. Sem cerimônias nem rodeios de moça recatada, foi logo devorando as folhas, mastigando com voracidade os galhos secos, engolindo o ar enquanto vomitava uma fumaceira escura e malcheirosa, que foi invadindo as narinas sujas e marejando os olhos de Zé Barbudo.

-  Sendo assim, eu lhe indago
Quem faz mais mal nessa vida
Aquele que abusa da bebida
E não sobrevive sem um trago
Só tendo esmola como afago
Ou o sujeito que banca Deus
Pensando mesmo que são seus
Os destinos de todos os outros
Julgando e perdoando uns poucos
Torturando a esmo ateus e judeus

- Capeta, me fale qual a razão
Para vosmincê testar minha mente
Com essa tua língua de serpente
Usando de astuta argumentação
Para qual não há titubeação
Sem dúvida, é escolha fácil
Que pede resposta ágil
No primeiro não vejo maldade
Apenas lhe falta autopiedade
No outro, bondade é artigo frágil

- Então vosmincê faz coro comigo
Que se na tortura não mora o bem
Então é porque Deus está além
E quem dela usa contra um mendigo
Age assim por inspiração do Inimigo
Agora pense antes de responder
Pois do que fez pode se arrepender
Se tu não banca do mal o agente
Quando pensa estar sendo crente
Nesse suplício me fazendo arder

Getúlio engasgou na resposta pronta, entalou com duas estrofes na garganta e tossiu um punhado de versos mal acabados. Balbuciou, pigarreou, silenciou. Não tinha o que dizer. Por um mísero minuto, aquele pobre diabo havia conseguido fazer com que ele empacasse na dúvida, que vigiasse em volta para ver se pegava no pé da verdade. 

- Eu nem sei mais o que pensar
Teu palavrório me deixa tonto
E nem quero discutir esse ponto
Mas sou obrigado a confessar
Que de tanto vosmincê arrazoar 
Já começo a achar que há razão
Nessa tua insistente preleção
E que se o mal é o que eu faço
Então em verdade não passo
De pobre lacaio da perdição

Enquanto o pastor ia nessa lida, o mendigo sufocava envolto na fumaça negra. As chamas já iam engolindo o lenho e começavam a mastigar o tecido roto de seus andrajos. Tinham fome de carne e sede de sangue, que logo iriam saciar se Zé Barbudo não jogasse seus versos traiçoeiros nos ouvidos do pastor.

- Ora, pecador ou servo do tinhoso
A diferença está na aparência
Mas iguais ambos são na essência
Se um segue caminho pecaminoso
O outro, esse já nasceu odioso
O primeiro rouba, mata e mente
O segundo é o mal simplesmente
Para os dois, o mesmo martírio
Que é queimar como um círio
Qual deles és tu de corpo e mente?

- Quando a gente pratica o mal
Não importa se guiado pelo bem
Ou pelo desejo de salvar alguém
O resultado é sempre igual
Injustiça e sofrimento geral
Para quem tal injúria é autor
Só tem um jeito de pagar pela dor
Que é aplicar a lei de talião
Infligindo ao culpado a punição
Que aos inocentes queria impor

O fogaréu já ia de ferver as botas surradas de Zé Barbudo quando o pregador pulou sobre ele e o desamarrou de junto da árvore. Com um golpe decidido, o empurrou de cara no chão poeirento. Tomou em seguida a árvore nos braços e principiou uma rezaiada desesperada. Entre uma e outra mea culpa, enfileirava um “Pai Nosso” meio torto, parando de quando em vez para uma lamentação, um choraminguéu, um suspiro. Pensava, assim, preparar a vereda que o havia de levar Inferno abaixo. Surdas e cegas a esse palavreado chato, as chamas iam devorando com vontade seus sapatos, depois as meias e chegando em seguida às calças e ao terno impecável. Finalmente, atacaram o prato principal, a carne farta e ensebada do pastor, que consumiram com gosto e prazer, cuspindo o fedor desagradável de carne esturricada. Findo o repasto, tudo o que restava de Getúlio era sua carcaça fumegante e um punhado de cinzas que minutos antes tinha sido uma Bíblia.
   Zé Barbudo esperou o banquete terminar com paciência de pescador. Quando teve certeza de que seu algoz tinha evaporado no ar, o mendigo cuspiu uns torrões de terra e se ergueu. Sacudiu a poeirada da roupa imunda e chamuscada, vasculhou aqui e ali nos bolsos e achou outra bituca amarrotada. Ajeitou-a como pôde e, achegando-se aos restos ainda quentes do pastor, acendeu o cigarro neles. Despejou duas ou três baforadas de fumaça.

- Hasta la vista, meu bom amigo
Que esse castigo veio a calhar
Como uma mortalha de fiar
Mas não fique lá muito aflito
Como vosmincê tinha dito
No lugar onde tu vai ficar
Há muito com que se alegrar
Para um pastor é o paraíso
Cheio de pecador sem juízo
Pois agora o Inferno é o seu lar

Já ia se virando para seguir caminho quando viu esquecido no chão o seu barbante. Apanhou-o, meteu-o no bolso como quem agarra um troféu e seguiu caminho, dessa vez sem pé machucado nem nada para atrapalhar. 


São Paulo, 12 de dezembro de 2015 


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