e Confira "O Herói colonizador dos índios brasileiros", a lenda de Sumé, o maior herói dos nossos índios ~ Diário do Moretti
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domingo, 13 de dezembro de 2015

Confira "O Herói colonizador dos índios brasileiros", a lenda de Sumé, o maior herói dos nossos índios




O HERÓI COLONIZADOR DOS ÍNDIOS BRASILEIROS

    Por Marco Moretti

Capa do meu primeiro romance, "Eu, Sumé", que
conta a possível história desse personagem lendário

           Também pelo território de nosso país perambulou, em tempos idos, um personagem em tudo e por tudo semelhante ao Viracocha incaico e ao Kukulkan maia, de tez pálida, olhos claros e barba e cabelos loiros e compridos. A esse enigmático personagem, os nossos indígenas deram o nome de Pay (Grande Sacerdote) Sumé. Assim como os seus congêneres no restante do Novo Mundo, Sumé teria chegado ao Brasil vindo do oriente, pelo mar. Ao aportar nas praias tupiniquins, reza a lenda que ele passou a ensinar aos silvícolas muitas práticas agrícolas e culinárias, como o plantio da mandioca e a fabricação da farinha, além de instituir leis e regras de comportamento moral e ético que proibiam, entre outras práticas, a guerra e a antropofagia. É curioso lembrar que seres com esse mesmo nome ou aparentados a ele perambularam por outros rincões da América: Zemi, no Haiti, e Zamna ou Zamima, na América Central.
            Conforme as histórias narradas pelos indígenas aos primeiros europeus que por aqui chegaram no início do século XVI, esse Sumé teria, por algum motivo, despertado a ira de algumas tribos indígenas e por essa razão foi rechaçado de volta para o mar. Num relato certamente exagerado e fantasioso, contavam os selvagens que as setas disparadas contra ele eram desviadas e que o mar recuou diante dele assim que pôs os pés nas águas. Seja como for, o “deus branco” de nossos índios foi embora prometendo que outros como ele um dia voltariam.
            Não foram poucos os cronistas daqueles primeiros tempos que assinalaram a passagem de Sumé pelo Brasil. Impressionado com a memória dele entre os tupinambás, o alemão Hans Staden o menciona de passagem em seu livro, “Viagem ao Brasil”, e o descreveu como um “misterioso personagem que, é tradição, veio do lado do mar e nessa direção desapareceu depois que, molestado por alguns, se desgostou e deu por terminada a sua missão...”. O

francês Jean de Lery, por exemplo, ficou admirado com o respeito que os tamoios da Baía da Guanabara dedicavam a essa figura. “Graças ao Sumé eles conhecem a ideia de um deus único”, escreveu ele.
            Talvez tenha sido esse último aspecto religioso que levou os jesuítas que primeiro fincaram sua cruz por aqui a interpretá-lo oportunamente segundo a ótica de sua fé. Para esses religiosos, a similaridade sonora e gráfica do nome Sumé só podia indicar que se tratava do próprio Apóstolo São Tomé. Na “Legenda Áurea”, coleção de biografias de santos escrita na Idade Média, consta que São Tomé ficou conhecido como o “apóstolo peregrino” por ter difundido a palavra e os ensinamentos de Cristo pelo mundo todo. Isidoro, um antigo cronista, informa que Tomé teria cristianizado partos, medos, persas e outros povos, e os portugueses, ao abrirem o caminho das Índias com Vasco da Gama, davam como certa a crença dos indianos em São Tomé, que, segundo algumas tradições, estaria enterrado naquela região do extremo oriente.
            Como não poderia deixar de ser em relatos lendários, não são poucas as evidências físicas da passagem desse personagem pelo nosso país. Já em 1515 a “Nova Gazeta da Terra do Brasil” fazia referências às pegadas de “São Tomé”, que os índios mostravam aos portugueses. No livro “Conquista Espiritual”, o jesuíta Antônio Ruiz de Montoya atesta que “é fama constante entre os moradores portugueses e entre os nativos (...) que o Santo Apóstolo [São Tomé] começou a sua marcha desde a ilha de Santos, situada ao sul, em que hoje se veem rastros indicadores deste princípio de caminho ou vereda, ou seja, nas pegadas que o Santo Apóstolo deixou impressas numa grande penha, localizada no final da praia, onde desembarcou em frente da barra de São Vicente...” Até mesmo o patrono da Companhia de Jesus no Brasil, Manoel da Nóbrega, fez menções às pegadas deixadas por esse personagem em sua “Carta das terras do Brasil”, de 1549: “Dizem eles que São Tomé, a quem eles chamam Zamé (sic), passou por aqui e isto lhes ficou por dito de seus antepassados, e que suas pegadas estão sinaladas junto de um rio; as quais eu fui ver por mais certeza da verdade e vi com meus próprios olhos, quatro pisadas mui sinaladas com seus dedos...” Em meu primeiro romance,

“Eu, Sumé”, publicado em 2011 pela Editora Novo Século, procurei usar todas essas referências, espalhadas de norte a sul de nosso país, para criar uma narrativa ficcional em torno das aventuras desse herói mítico.

As pegadas nas pedras, contudo, não são as únicas evidências de sua passagem por estas bandas. As narrativas esparsas dão conta de que Sumé seria também responsável por abrir um extenso caminho que outrora atravessava boa parte do nosso território, o Peabiru. Contudo, essa trilha, bem traçada no chão de terra batida, realmente existiu, e disso dão prova os relatos dos primeiros viajantes do Velho Mundo que por aqui se aventuraram. Mas isso é assunto para o próximo post.



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