e Confira a versão completa do conto "Meu Querido mar" ~ Diário do Moretti
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sábado, 14 de novembro de 2015

Confira a versão completa do conto "Meu Querido mar"




MEU QUERIDO MAR

“Se um dia olhar para o céu e não te ver,
é que sou a onda do mar e não consigo te esquecer,
sou feliz do teu lado sem do seu lado estar”
Carlos Drummond de Andrade
Por Marco Moretti

"A Tempestade" ou "O Naufrágio", quadro de William Turner - Fonte: Wikipedia

Um colosso de mar aquele. Era impossível abarcá-lo num único olhar. Tão amplo que parecia abranger o céu, abraçar o mundo todo. À noite, chegava a tocar o infinito e engolia as próprias estrelas. De Aldebarã a Betelgeuse, de Sírio a Canis Majoris[1], todas atapetavam o negrume de seu mistério. De dia, acolhia sorridente o sol. Uma tamanha vastidão que, diante dele, todas as coisas se apequenavam, perdiam o significado, esfarelavam-se. Os barcos de todos os tamanhos e todos os calados, os pesqueiros, os transatlânticos, os petroleiros, vistos assim, a distância, balouçando docemente ao sabor da maré, eram pouco mais do que folhas vagando a esmo sobre a imensidão líquida. O azul profundo das águas, claras na superfície, escuras, quase sinistras, em seus abismos ignotos, guardava segredos inenarráveis. Era como uma enorme boca escancarada, a goela de um leviatã pronta para engolir o universo. O bramido de suas ondas, o rugir de um Adamastor [2] enraivecido. Grandioso, o mar. De meter medo em quem ousasse desafiá-lo.
Mas não para o jovem Tião. O mar, para ele, era simplesmente isso, uma enormidade, que não tem explicação, nem razões, só era. Existia por existir, pronto. Na verdade, na cabeça do garoto, o mar nem sequer era uma coisa, mas um sentimento, uma emoção, um estado de espírito. O baú debaixo da cama onde guardamos os nossos brinquedos favoritos. A Disneylândia para quem nunca foi à Disneylândia. Um amigo, querido e afetuoso, que ele corria a encontrar todos os dias, depois de cabular as aulas e vadear com os colegas pelas feiras e pelos mercados de peixe da cidade. Um companheiro fiel de todas as horas. Bastava buscá-lo e podia ter a certeza de que o encontraria lá, no mesmo lugar, à sua espera, embora nem sempre calmo, nem sempre tranquilo. Dias havia em que as suas águas pareciam remoer uma raiva indigesta, explodiam numa ira incontida na ressaca que as fazia se esboroarem contra os muros da avenida à beira mar.
O menino não ligava para isso. Sabia que o seu amigo era genioso, um grandalhão desajeitado que de vez em quando explodia em fúria temperamental por qualquer bobagem. Nesses momentos, ele podia causar danos consideráveis, provocar naufrágios, arrasar lugarejos inteiros, matar gente. Porém, Tião também tinha a plena consciência de que o mar jamais fazia essas coisas de propósito. Ele não era essencialmente mau e tampouco intrinsicamente perigoso. Ao menos, não para ele. De alguma maneira que não compreendia direito, o rapaz sentia-se seguro nele. Era como se as ondinhas que estapeavam o seu corpinho franzino, subnutrido, não passassem de afagos de alguém que lhe quisesse bem. Outras crianças podiam ter cachorrinhos ou gatos de estimação para brincar ou para matar o tempo. Para ele, o mar era o melhor amigo que poderia escolher, a melhor alma que já havia conhecido, o melhor conselheiro para toda uma vida. Melhor até do que o próprio pai.
Nâo que o seu Salvador fosse uma pessoa ruim por natureza, displicente ou que o maltratasse em excesso. Era apenas um homem muito ocupado, irritadiço, com pouca ou nenhuma disposição para educá-lo com palavras afáveis e gestos de bondade. Rude ele era, e podia se mostrar intransigente nas ocasiões em que precisava botar algum juízo na cabeça do filho. Nessas horas, a mão pesada e hirsuta era a mais branda das punições. Pouco se lhe dava, àquele senhor, a forma com que tinha de educar o menino, desde que ele o obedecesse e cumprisse os deveres da escola e o deixasse em paz para cuidar dos fregueses do “Netuno”, um boteco malcheiroso e barulhento no Boqueirão. Para o seu Salvador, o que o garoto fazia quando não estava sob as suas vistas severas era problema lá dele, desde que evitasse se meter em brigas ou aprontasse alguma arte.
Por arte, podia-se entender tudo o que um moleque comum é dado a fazer nas horas de vadiagem, de brinquedos inofensivos a jogar a bola no campinho de terra batida, de apostar corrida em um pé só a empinar pipa. Ou tomar banho no mar. A esse prazer nem Tião nem os amigos mais próximos negavam-se a se poupar. Contudo, havia uma importante diferença de grau entre eles. Enquanto para Clodoaldo e Romário mergulhar nas águas que faiscavam ao sol não passava da mais pura e descomprometida diversão, para Tião aquilo constituía uma espécie de ritual religioso diário, o equivalente a frequentar o culto todos os domingos ou como quer que se queira entender a prática. Para o garoto, brincar nas águas salgadas havia se tornado um hábito arraigado no mais fundo recanto de seu ser, tanto quanto escovar os dentes, e não importava nada se o tempo se negasse a colaborar. Fizesse calor ou frio, chuva ou sol forte, sempre se podia ter a certeza de que ele nunca faltaria ao encontro na hora e local marcados.
Naquela terça-feira de um dia nublado de março as coisas não foram diferentes. Ao lado de seus fieis escudeiros, Tião agiu como de costume. Nem bem os seus pezinhos mulatos afundaram na areia fofa, ele correu até a extremidade da praia e encarapitou-se feito um sagui nas pedras um tanto afiadas que as espumas das ondas lambiam com incomum vigor. A ressaca estava particularmente intensa naquela manhã, um presságio que os garotos preferiram ignorar. O aspecto pouco convidativo do oceano em nada pareceu demover os garotos de suas disposições para o risco. Muito pelo contrário, as águas revoltas agitavam neles a paixão pela aventura e precipitar-se do alto dos rochedos para bem dentro das entranhas daquela Caribdis[3] representava a suprema audácia de jovens ansiosos para provarem a si mesmos a coragem que imaginavam possuir.
Quando os três se achavam prontos e dispostos a desafiar os seus destinos, lançaram-se de cabeça encosta abaixo, não sem antes incitarem-se mutuamente com exortações do tipo “você primeiro”, “no três a gente pula”, “já!”. Se uma câmera ultra-lenta tivesse a oportunidade de filmá-los, iria capturar a ligeira hesitação na troca de olhares cúmplices entre Clodoaldo e Romário antes do salto fatídico e nenhum tremor, nenhum piscar de olhos, nem o menor vacilo manchando a impetuosidade de Tião. Atirou-se, o menino, de peito aberto no ar, confiante de que o amigo o acolheria em seu abraço líquido.
Afundou uns bons três metros antes de voltar à tona. Naquele ponto, ele sabia pela experiência de seus 10 anos, que o mar não dava pé, mas isso era o mesmo que tentar intimidá-lo na hora de dormir com uma tola alusão ao bicho-papão. Aí estava exatamente a graça do jogo. A noção do perigo o excitava a nadar com mais vivacidade e determinação para longe da costa, o que o rapaz fez com admirável disposição. Talvez pressentindo uma tragédia (ou diante do medo palpável de uma surra bem dada), os amigos gritaram para que ele voltasse, insistiram para que não se distanciasse muito da praia. Foi o mesmo que tocar fogo num monte de jornal velho. Tião fez-se surdo aos apelos e bateu as pernas magras para longe deles com gosto redobrado.
A cada braçada, ia se miniaturizando até ficar reduzido a um ridículo ponto negro no horizonte. Varava as ondas encapeladas com a alegria de um Espadarte, alternadamente saltando e submergindo feito um bailarino no Bolshoi em meio à execução de uma dança frenética. Não precisava de orelhas pontudas ou asas nos pés para se sentir o monarca absoluto dos oceanos, sentia-se seguro, confortável como um viajante que retorna para casa após uma longa estada em um lugar longínquo. Medo era uma dessas palavras que, naquelas circunstâncias e naquele estado, ele simplesmente desconhecia o significado. Naturalmente, acabou pagando um preço alto por conta dessa altaneira negligência.
Uns vinte minutos depois de se refestelar à vontade ao sabor da correnteza decidiu bater uma aposta consigo mesmo de que conseguiria mergulhar mais fundo e prender a respiração por mais tempo do que jamais conseguira. Subiu uma última vez à superfície para tomar ar e, logo depois, afundou como uma pedra. À medida que devassava as profundezas, a escuridão o amortalhou até quase cegá-lo. Mas o rapaz não se importou com isso, como não se importou com os chamados estridentes dos amigos, seguramente estacionados à margem dos afiados rochedos. A uma profundidade que suplantava a sua mera capacidade de suportar o peso da massa de água acima, o silêncio pareceu isolá-lo do resto do mundo.
Tião já não estava no âmago de um mundo submarino habitado por formas de vida que podia facilmente reconhecer. Seria mais exato e honesto dizer que ele se encontrava perdido em uma região estranha feita de sombras semoventes, um recanto particular do universo habitado apenas por ele mesmo e... por uma outra presença, diáfana e impalpável, mas tão real quanto um fragmento de coral. Mais do que capturá-la com os sentidos, o menino a pressentiu, viva, palpitante, ao mesmo tempo onipresente e discreta, em cima, embaixo, por todos os lados. Inconscientemente ou não, ele intuiu que a entidade (vamos chamá-la assim por ora) não lhe queria mal e estava ali, antes de tudo, para protegê-lo. Do que ou de quem eram indagações inúteis a serem feitas naquele momento.
A eternidade de uma manhã e uma tarde inteiras escoou com vagar sem que a figura de Tião viesse a aliviar a angústia dos dois companheiros ou do pai. Assim que a notícia do desaparecimento do filho no mar turbulento o arrancou das ocupações diárias no “Netuno”, seu Salvador não perdeu tempo para correr até a praia. Teria percorrido a distância da Terra à Lua num átimo se isso fosse de alguma valia para trazer o filho de volta, são e salvo. Os guarda-vidas e bombeiros revezavam-se nas buscas com os policiais que patrulhavam as águas em Jet-skis e uma dezena de voluntários que se dispuseram a ajudar, num esforço que resultou vão. À medida que o crepúsculo roubava ao sol a claridade baça, tragava também as esperanças de que a criança fosse encontrada com vida.
A noite se instalou com o peso de toneladas de chumbo sobre a cabeça de seu Salvador, mas nem ele nem Clodoaldo ou Romário arredaram pé da praia. Mesmo com as buscas momentaneamente suspensas, eles permaneceram acordados a madrugada toda, indo e voltando do Boqueirão à ponta da praia sem parar sequer para tomar fôlego. Contudo, por mais que tentassem perscrutar o horizonte líquido na tênue esperança de vislumbrar o rapaz, a escuridão de um céu nublado e sem lua se negava teimosamente em colaborar com os seus esforços.
Na manhã do dia seguinte, logo que os primeiros raios do sol tingiram de branco a extensão arenosa, uma forma esquálida à beira d’água, tão mirrada que parecia se confundir com um graveto levado pela maré, foi avistada a uma centena de metros pelo olhar arguto de Romário. O alarme foi dado com insistente veemência e teria corrido o globo duas vezes se o seu Salvador e um punhado de pessoas não acorressem ao local.
Era Tião, disso o pai tinha a certeza antes mesmo de espremer os dez metros que o separavam do local em meros três segundos. O menino estava de bruços, o rosto enterrado na areia úmida, os braços paralelos ao corpo, inerte. Esbaforido, quase afogado de desespero, seu Salvador caiu de joelhos ao lado do filho e o abraçou dissolvido em lágrimas. Mesmo então, não sentiu a pulsação do coração no peito, nem o leve vai-vem do peito arfando. Esfregou os seus pulsos, freneticamente. Chamou pelo nome do menino infinitas vezes e embargado de emoção lamentava e se culpava e ai, minha Nossa Senhora e não dá pra suportar tanta angústia e... E coisa alguma aconteceu. O rapaz não reagia, não respondia, não nada. Nervoso, desesperado, seu Salvador pôs-se a sacudi-lo convulsivamente, a estapeá-lo, a xingá-lo de todos os nomes que o seu parco vocabulário lhe permitia, talvez porque achasse que, na marra, quando não fosse pelas súplicas, poderia trazer de volta àquele pedaço de carne a vida.
Ninguém ficou mais surpreso nem menos aliviado do que o pai quando o garoto mexeu a cabeça e começou a tossir e a regurgitar a água salgada. Antes que os guarda-vidas o socorressem, Tião já havia voltado a respirar com regularidade e recobrava, pouco a pouco, a consciência.
- C-cadê ele? – foi só o que teve forças para dizer mal abriu os olhos amendoados e pouco acostumados à claridade da manhã e deparou com o rosto duro e tenso de seu Salvador encarando-o com um misto de incredulidade, raiva contida e incompreensão.
Essas três sensações continuaram a digladiar entre si como Athos, Porthos e Aramis [4] no espírito do pai muito tempo depois que ele carregou o filho de volta para casa, no andar de cima do “Netuno”, e o encerrou no quarto único que dividam. Esse gesto tanto podia ser interpretado como uma precaução quanto um castigo merecido ao menino. Que ele ficasse uma semana inteira trancafiado sem poder sair de casa, eis uma punição que ao menos devia botar um juízo naquela cabecinha, pensava o homenzarrão. Mesmo se quisesse, seu Salvador não saberia agir de outro modo. Essa era a forma, a única forma, que sabia lidar com as indisciplinas do garoto. E por muito pouco não o submeteu a uma memorável surra de cinta, coisa que a sua curta paciência o inclinava a fazer mas que, ao menos por ora, ele soube refrear com ambas as mãos firmemente agarradas aos arreios de sua consciência.
Tião não pareceu se importar com esse tratamento e, ao menos nos primeiros dias, estava se sentindo debilitado e ainda sob os efeitos do choque que o seu quase afogamento provocou em sua mente. Talvez fosse em razão disso que pouca disposição demonstrou em se alimentar, falar ou mesmo assistir os desenhos que gostava na televisão. A possível explicação para o comportamento vagamente distante, vagamente contemplativo até quase alcançar a catatonia da criança, atendia por um nome querido e, agora, próximo de seu coração: o mar.
Bem no fundo da alma, o menino tinha recordações difusas da sucessão de acontecimentos que transcorreram desde que afundou nas profundezas de águas salgadas. Eram flashes, apenas isso, que vez por outra iluminavam o seu cérebro como um caleidoscópio de figuras coloridas recortadas a esmo. Figuras feitas de impressões, mais do que imagens, vívidas e palpáveis, que pareceram invadi-lo como se alguém ou alguma coisa quisesse estabelecer um contato com ele. Mesmo quando perdeu os sentidos e permaneceu flutuando ao sabor da correnteza, cercado pelos cardumes de cavalas, sargentinhos e lulas que bailavam à sua volta, ele conseguiu sentir uma presença amistosa acolhendo-o, protegendo-o, preocupada em mantê-lo vivo. Naquelas horas em que esteve submerso, quase pode perceber uma tentativa dessa estranha entidade em se comunicar com ele. O rapaz não sabia como explicar isso direito, mas intuía que se tratava de uma espécie completamente diferente de linguagem não-verbal, incapaz de ser compreendida que não fosse pela emoção em seu estado bruto.
Fosse o que fosse que aquilo representasse, imprimiu nele um sentimento de paz, uma sutil sensação de segurança que jamais havia conhecido antes entre os amigos e muito menos com o pai. Ainda assim, não era algo inteiramente estranho. Ele já tinha sentido isso antes, anos e anos no passado, embora não soubesse dizer quando e onde exatamente. Que significado podia ter esse incidente para a sua existência, só cabia a Tião especular àquela altura, mas de uma coisa ele estava convicto. A qualquer custo e, apesar das severas ameaças de castigo paterno, precisava, urgia, reviver essa experiência insólita.
Liberto do limbo da prostração alguns dias depois, o rapaz esperou com inquieta resolução o pai adormecer, a meio caminho da madrugada, para se esgueirar até a janela da área de serviço e dali escorregar pelo cano da água da chuva até o quintalzinho nos fundos do bar. Com a perícia de um equilibrista de circo, trepou no muro de metro e oitenta e dali saltou para a casa adjacente. O corpo franzino e leve facilitou a tarefa de chegar rapidamente à rua de trás sem provocar o mínimo ruído.
A praia, deserta àquelas horas mortas, parecia aguardá-lo com paciência resignada. O ronronar das ondas quebrando regularmente na praia era o chamado que a sua mente imberbe esperava escutar. Sem se preocupar em tirar o calção, correu a abraçar as águas. Desejava, ansiava sofregamente por aquele encontro como um bebê ergue os bracinhos em busca do amparo da mãe. A água estava fria, mas isso não arrefeceu em nada o seu ânimo. Batia com as pernas magras numa alegria que só um menino é capaz de compreender.
Finalmente, após saciar a vontade que o constrangia, respirou fundo o quanto pode e mergulhou, decidido a ir até onde os seus pulmões lhe permitissem. Lá, e somente lá, isolado do mundo exterior, dos homens e de seus problemas cotidianos, Tião se sentia verdadeiramente livre. Deixou-se carregar ao sabor da correnteza para onde ela quisesse levá-lo, despreocupado com tudo o mais que não fosse o reencontro com o seu querido e velho amigo.
Gradualmente, qual uma sombra que se insinua pelas laterais de nossa vigília, uma presença poderosa se fez sentir ali bem próximo dele. A princípio, o menino experimentou um leve tremor, acompanhado do receio de que um predador marinho pudesse estar à espreita. Essa sensação se dissipou de sua alma assim que uma espécie de tepidez indefinida aqueceu o seu corpo, envolvendo-o por todos os lados. Era ele.
Um pensamento imediato o assaltou. E se ele lhe fizesse mal mesmo sem querer? Talvez não tivesse a ideia, ou a noção, da fragilidade e pequenez humanas. Quase no mesmo instante em que esse temor se esboçou, uma resposta, ou como se queira chamá-la, veio em socorro de seu pânico. “Não se preocupe”, ou algo assim, foi o que Tião pressentiu nos meandros da mente. A frase, propriamente, nunca chegou a ser proferida dessa maneira, clara e objetiva. Na verdade, nem sequer foi dita por intermédio de palavras audíveis e compreensíveis. Antes, era um sentimento que se insinuou nele, quase imperceptível de tão sutil.
Mas era real, e não fruto de sua imaginação exacerbada, disso o garoto tinha absoluta certeza. Demorou um instante para ele formular outro enunciado, a respeito da paz de espírito que vivenciava naquelas paragens, e que foi prontamente respondido por algo que poderia ser traduzido por “Pode ficar por quanto tempo quiser”. O menino só não prosseguiu na conversa porque teve de voltar à superfície para recuperar o fôlego.
Aquilo ia além do que os seus mais loucos delírios podiam conceber. Pela primeira vez na vida, tinha a certeza de que possuía um amigo de verdade, um amigo fiel e disposto a acompanhá-lo para sempre, que nunca lhe causaria dano, ao menos não intencionalmente. O mar passou a ser, em sua cabeça, aquilo que o mundo da terra firme, e sobretudo o mundo dos adultos, conturbado, conflituoso, caótico, estava longe de ser: a afirmação da existência plena, desprovida das amarras mesquinhas que nos atam ao trabalho, aos estudos, às obrigações. Dali em diante, quando queria transcender o tédio de uma infância sem sentido, o sofrimento ou qualquer sentimento incômodo, era ao mar que Tião iria recorrer. Aquela imensidão azul-escura se tornou, por assim dizer, o melhor confidente e o mais confiável conselheiro que um menino poderia sonhar em ter.
O fato de o pai terminantemente tê-lo proibido de sequer relar com os dedos na água do mar não o preocupou muito, assim como não o incomodava sair todas as noites às escondidas para o encontro marcado com o amigo. Nem mesmo a escuridão das profundezas o intimidava. Bastava fechar os olhos, buscar a calma interior e se conectar às sensações que o enredavam com a delicadeza de uma teia de aranha batida pelo vento. Somente ali sentia o seu eu diminuto se dissolver no todo gigantesco. De certa forma, aquele lugar era o mais próximo que ele podia chegar de sentir a natureza viva, pulsante, abrangente do cosmo. Ou se conectar espiritualmente com Deus.
Dizer que os dois conversavam alguma coisa ou que simplesmente trocavam ideias da mesma forma que duas pessoas que se sentam em uma mesa num bar seria um exagero indesculpável. Havia, sim, uma troca, ou, antes, uma simbiose moldada por sensações, emoções e sentimentos mais ou menos definidos, e isso é o mais próximo que podemos chegar de descrever o liame de afeições que ligava um ao outro. É verdade que, em determinados e bem limitados instantes, Tião juraria de pés juntos que era capaz de perceber pensamentos absolutamente estranhos invadindo a sua mente. Nessas ocasiões, muito raras na verdade, quase seria possível formular essas impressões, se podemos chamá-las assim, em formas bem definidas e perfeitamente inteligíveis de palavras e frases.
Não se tratava, desnecessário dizer, de elucubrações profundas nem demasiado abstratas ou complexas demais para o entendimento do garoto, como se algum Agostinho ou Pascal [5] estabelecesse um colóquio com ele. Pouco iam, esses fragmentos dispersos de discursos, além do trivial e estavam mais próximo dos questionamentos de uma criança que acabou de aprender a falar do que com a verborragia de um pensador preocupado em dar solução aos problemas humanos. “O que significa morrer? Me explique”, “Gosto de você, estar ao seu lado me faz bem, acalma os meus ânimos”, “Para o que serve brincar? É alguma coisa que se faz por obrigação” e “Tempo? Eu não sei o que é isso. Pode me mostrar o que é?” eram algumas das habituais interrogações que o companheiro líquido do menino fazia, aparentemente inconsciente de que, quase sempre, eram impossíveis de serem explicadas, ao menos através de um discurso que não apelasse para belas e efusivas metáforas fantasiosas. Mas isso, como já foi dito, não era usual. O mais comum era que o mar entoasse uma canção para o menino, uma melodia suave, terna, composta não de sons, mas de sensações quase imperceptíveis que somente eles eram capazes de experimentar e que abrangiam uma gama variada de sentimentos que iam da afeição ao amor desapegado. Quando as fases da lua deixavam agitado o humor do mar, era Tião quem se encarregava de apaziguar as marés intranqüilas, e o fazia simplesmente estando lá, um pedaço de folha sossegadamente deixando-se carrear ao sabor das ondas.
Longe de se preocupar com o que pudesse lhe ocorrer, o rapaz se excedia nas ousadias. Nadava cada vez mais longe e mergulhava com avidez crescente no intuito de superar os seus próprios limites, ou aqueles que lhe impunham a natureza e a prudência. Como se respeitassem uma determinação emanada de um imperador austero, os animais marinhos, mesmo aqueles que poderiam representar alguma ameaça, docilmente se deixavam envergar pela obediência ao ditame supremo de deixar o menino em paz consigo mesmo. Jamais fariam mal a ele como em hipótese alguma ousariam contrariar a vontade do oceano onipotente que dominava e supria as suas vidas. Assim, dono de uma liberdade que desconhecia quaisquer restrições, Tião perdeu-se na negligência.
Um descuido, como se verá, que lhe custou caro. Mais ou menos um mês depois de seu quase afogamento e do confinamento forçado em casa, o menino prorrogou as suas brincadeiras com o amigo aquoso por um período maior do que podia e devia se permitir. Voltou a entrar em casa, como vinha fazendo, pela janela da área de serviço. Não teve problemas em encontrar o caminho até o quarto e enfiar-se sorrateiramente na cama, auxiliado pela claridade pálida da manhã que já ameaçava o horizonte. Rendido pela exaustão, adormeceu quase imediatamente após afundar os cabelos crespos molhados no travesseiro.
Não foi nesse momento que o seu Salvador notou as poças de água na cozinha e no corredor que dava para o banheiro, mas uns bons três quartos de hora depois, quando se levantou para abrir o “Netuno”. Normalmente, Tião tomava o cuidado em não deixar “pistas” que pudessem incriminá-lo, e tratava de secar os rastros que deixava atrás de si tão logo punha os pés molhados dentro de casa. Mas, naquele dia em particular, se encontrava cansado ao extremo para se preocupar com esse detalhe. Além disso, achou que o pai estaria ocupado demais para notar algo. E talvez tivesse razão em pensar assim, pois o homem parecia mais preocupado com o relógio da cozinha e em se aprumar do que em desconfiar das desobediências do filho.
A meio caminho da descida até o boteco, lembrou que tinha se esquecido de apanhar uns panos de chão limpos que deixou secando no varal, deu meia-volta na escada e voltou a entrar em casa. Somente então percebeu as poças de água sob o beiral da janela. Seguiu o rastro líquido até o quarto e sequer precisou se aproximar da cama para deduzir do que se tratava. Como se precisasse de uma evidência definitiva que o tribunal de sua razão exigia, passou a mão pelo travesseiro em que o filho ressonava e a indignação de um deus irado assomou ao rosto de barba malfeita.
Compreensão, eis uma palavra que aquele homem embrutecido pelos desencantos e curtido pela falta de sorte desconhecia. Para alguém como ele, paciência era uma virtude além do que podia se permitir manifestar. Uma ferida encruada como uma crosta, dura e áspera, fruto das decepções da existência, havia se formado em torno de seu coração e há muito o tolhia de experimentar qualquer espécie de terna compaixão fosse por quem fosse. Mesmo em se tratando do filho, dispunha de escassas reservas de entendimento para educá-lo de maneira adequada. A única psicologia que sabia e podia aplicar era a que reluzia com o brilho bronzeado da fivela de cobre do cinto da calça.
- Seu moleque desavergonhado! – grunhiu com a voz cavernosa – Então não adianta falar, que tu não toma jeito mesmo, né?! – surpreendido pela explosão de indignação do pai, o menino acordou assustado e de um salto pôs-se de pé, erguendo os braços magros acima da cabeça para se proteger dos safanões – Me fazendo de idiota bem debaixo do meu nariz! Parece que só tem um jeito de botar um pouco de juízo nessa cabeça!
De nada adiantaram os protestos de Tião ou o tom suplicante com que procurou demover seu Salvador de aplicar um castigo exemplar em seu lombo. O homem parecia um possuído. Arrancou o cinto da fivela e saiu com ele a chibatear as costas e a bunda do garoto, que a todo custo tentou escapar da ira paterna. Quanto mais o menino gritava, mais o homem se esfalfava em surrá-lo. A certa altura, já não sabia nem direito por que o fazia, se era pela desobediência, pela impertinência, pelo risco que o filho correu ou pelo simples prazer em descarregar a raiva no corpo franzino. Estapeava e esmurrava e chutava e começava a gostar disso.
- Eu não te disse pra não voltar lá? Eu não mandei? Eu proibi você de por os pés naquele maldito mar. Mas você não me escutou, não deu a mínima pro que eu falei. Zombou de mim. Riu da minha cara. Achou que eu não tava falando sério, é? Achou?
Pai e filho iniciaram então uma perseguição alucinada pelos quatro cantos da casa. O homenzarrão regurgitando toda espécie de xingamentos e promessas de atos violentos que iam de “filho de uma égua” a “eu te arrebento as fuças”, enquanto o rapaz procurava se proteger por trás de um guarda-roupa, de uma poltrona, de uma mesinha de centro, até que se meteu no banheiro dos fundos e correu o trinco da porta.
- Abre essa porcaria! Anda, aprenda a ser homem, moleque! Sai daí que eu vou te mostrar a não me fazer de besta! – ameaçava, urrava e voltava a ameaçar o homem, que só faltou soprar no esforço para por abaixo a porta. Por mais que os potentes murros que dava na madeira parecessem sacudir a casa toda e a algazarra pudesse ser ouvida até mesmo da rua em frente, o menino se manteve resoluto, coalhado de hematomas, encolhido no mirrado espaço entre a privada e a pia, tremendo de terror.
Ao custo de muitos socos e pontapés, o trinco começou a ceder. Um a um, os parafusos foram se soltando até que a porta escancarou de vez, despedaçada em duas metades, com um estrondo pavoroso. Cinto em punho, como o chicote de um adestrador de leões, seu Salvador, bufando feito um touro bravio, avançou com passo firme decidido a concluir o serviço sujo.
O lugar, porém, estava vazio.
Tião deslizou para o lado de fora da janelinha do banheiro, pequena demais para um adulto atravessar, mas suficientemente larga para dar passagem ao seu esqueleto, e caiu sobre os sacos de lixo no quintal. Tão rápido quanto havia escapado do banheiro, em dois pulos estava sobre o muro e dali galgou os telhados das casas vizinhas. No instante de um relâmpago, corria esbaforido, as lágrimas rolando no rosto, amargurado, em direção à praia e ao abraço do único amigo de verdade com quem podia contar naquela hora.
Seu Salvador pareceu adivinhar o propósito do filho e correu em seu encalço, o mais rapidamente possível que lhe permitiam as pernas gordas e mal acostumadas a exercícios. Desceu a escadaria atabalhoadamente, quase tropeçando nos próprios pés, ganhou a rua e, meio que sem direção certa, chegou à praia a tempo de deter o filho pelo braço direito quando ele se preparava para se lançar ao encontro das ondas.
- Onde é que tu pensa que vai, desgraçado? Vem cá antes que eu te arranque o couro.
- Não, me solta! Me solta! – retrucou Tião, fazendo força para se libertar – Quero ir com o meu amigo!
- Amigo?! Do que é que cê tá falando, infeliz? – indagou o pai, olhando intrigado o rapaz.
- Me deixa ir embora! Só lá – apontou o vasto oceano com um aceno – eu sou feliz!
- Cê vai é fazer o que eu to mandando e dessa vez não quero ser desobedecido, tá escutando? Ou vou te deixar trancado no quarto por um ano inteiro e não tem choro nem vela que vá te tirar lá de dentro!
O menino protestou e se debateu alucinadamente enquanto o pai tentava arrastá-lo de volta para casa. Uma pequena multidão se reuniu em torno dos dois para assistir à cena deprimente quando um tremor na areia, seguido de um potente bramido, como se mil cachoeiras despenhassem de uma só vez, se fez sentir. Todas as cabeças e todos os olhares se voltaram para o mar.
Subitamente, as águas recuaram uns quinhentos metros, deixando à mostra a superfície nua do fundo do mar, com dúzias de garrafas de plástico, sacos de lixo e todo o tipo de sujeira que os seres humanos costumam produzir espalhados de um lado a outro. A impressão de que o mar havia se afastado para avançar com toda a força praia adentro, feito uma cobra que se encolhe antes de dar o bote, era não só provável mas bastante palpável. Por alguns instantes, a barreira líquida foi represada a uma considerável distância, numa cena grandiosa e terrível, digna de um filme de DeMille [6]. Nenhuma cabeça se mexeu, nenhuma perna se moveu, nenhum olho piscou. Por um demorado tempo, todos que estavam na praia permaneceram imóveis como estátuas de cera. Então, subitamente e sem qualquer aviso, a maré avançou, bramindo furiosa, arreganhando as presas brancas com o ímpeto de um Leviatã.
Um desespero de Deus nos acuda tomou conta das pessoas que estavam na areia. Ignorando a razão daquilo ou sequer preocupadas com isso naquele momento, saíram aos gritos, aos berros, aos urros, em disparada rumo à avenida beira mar, atropelando-se, pisoteando umas às outras, caindo e se levantando de novo no esforço de vencer a distância que as separava da segurança do asfalto.
Seu Salvador observava a cena, pasmo, imobilizado pela incredulidade. Aquilo ia além de seus mais delirantes devaneios. Instintivamente, afrouxou o pulso do filho, que, enfim, se viu livre e correu de encontro às ondas agitadas. O pai ainda fez menção de ir atrás dele, mas deteve-se nem bem deu umas duas passadas. Recuou, sem se virar, esforçando-se para sair da paralisia que o condenava a se movimentar com a lentidão de um bicho-preguiça agarrado a um galho de árvore. Mas, então, se deu conta do risco de morrer afogado e aos poucos apressou o passo.
Em contrapartida, Tião executava o movimento exatamente inverso, um sorriso de alívio borrando o rostinho machucado. Apressava-se ao encontro das águas, ansiava por mergulhar nelas, perder-se naquele mundo escuro e seguro, aninhar-se no ventre líquido do amigo querido qual um feto encerrado no útero materno.
A última imagem que do filho teria seu Salvador foi da maré implacável engolindo-o e prosseguindo em sua sanha destrutiva até quase ultrapassar a barreira de concreto e invadir as ruas com a fúria de mil leviatãs. Somente se deteve ao pé das escadas que davam para a avenida e por muito pouco não arrastou consigo o homem e meia dúzia de outras pessoas. Depois de debater-se, nervoso, contra o costão de pedra, por mais alguns minutos, gradualmente o mar pareceu se aquietar e voltou a recuar até o ponto habitual. Pelo caminho, deixou um rastro de objetos que havia carregado consigo em sua fúria, mas nenhum sinal do garoto. Nem naquele dia, nem nunca mais, se soube o que aconteceu com ele. Por toda a sua vida, o pai vagou por aquele litoral todos os dias, ora fustigado pelo calor inclemente, ora encharcado pelas chuvas, perdido em devaneios loucos, bradando em vão o nome do filho contra o vento, sem jamais avistá-lo ou ao menos encontrar um sinal ínfimo dele.

São Paulo, 14 de novembro de 2015








[1] Algumas das maiores estrelas conhecidas no universo.
[2] Gigante mítico mencionado por Camões em “Os Lusíadas” e por Fernando Pessoa no poema “O Mostrengo”.
[3]  Monstro marinho da mitologia grega, sempre citado ao lado de Cila. As duas criaturas personificavam o perigo dos redemoinhos e das rochas para os navegantes que passavam pelo estreito de Messina, na Itália.
[4]  Os famosos três mosqueteiros do romance homônimo de Alexandre Dumas.
[5]  Santo Agostinho (354-430), filósofo cristão muito influente na Idade Média. Blaise Pascal (1623-1662), foi um físico, matemático e teólogo francês.
[6]  Cecil B. DeMille (1881-1959), diretor de cinema americano, famoso por épicos bíblicos como “Os Dez Mandamentos”.

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