e Leia a versão integral de "A Mulher que deu à luz a criatura de Frankenstein", a criação do livro "Frankenstein", de Mary Shelley ~ Diário do Moretti
Facebook

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Leia a versão integral de "A Mulher que deu à luz a criatura de Frankenstein", a criação do livro "Frankenstein", de Mary Shelley




A MULHER QUE DEU À LUZ A CRIATURA DE FRANKENSTEIN

Por Marco Moretti

Boris Karloff como o monstro de Frankenstein em 1931 - Fonte: Wikipedia

            Esqueçam o monstro de Frankenstein imortalizado no cinema por Boris Karloff no filme original de 1931. Esqueçam todas as versões e releituras da história da cultuada criatura construída com pedaços de defuntos feitas nos últimos 200 anos, pelo menos desde que a inglesa Mary Shelley (1797-1851) publicou o romance “Frankenstein: ou o Prometeu Moderno”, em 1818. O personagem que estava destinado a se tornar um dos quatro mais célebres monstros da literatura de horror (ao lado de Drácula, do Quasímodo, de “O Corcunda de Notre-Dame”, e do Mr. Hyde, de “O Médico e o Monstro”) do século XIX muito pouco ou nada tem a ver com a imagem icônica que hoje fazemos dele. A própria autora foi discreta em descrevê-lo de forma clara, e com toda a certeza a criatura que ela tinha em mente nem de longe se assemelhava ao brutamonte monossilábico de cabeça chata e eletrodos no pescoço com que nos habituamos a imaginá-lo. O Frankenstein (ou melhor, a criatura, pois Frankenstein, como se sabe, era o sobrenome de seu criador, Victor) da literatura vai muito além do que a besta enfurecida que adorava assustar os aldeões das telonas, da televisão, dos quadrinhos e dos games sugere. Trata-se de um personagem trágico em todos os sentidos, uma espécie de Adão de uma nova espécie de homem, torturado entre a permanência no ser e a ameaça do não-ser, uma criatura muito mais aparentada aos heróis de uma era trágica e romanticamente atormentada, que tinha nos deuses e semideuses gregos os seus modelos, como foi a Inglaterra e a Europa nos primórdios do século XIX, do que de seus sucessores na era moderna. Mais do que um mero livro confeccionado com o único propósito de assustar os leitores em noites chuvosas, “Frankenstein” é uma obra trágica, poética e filosófica, bem adequado, portanto, aos moldes literários de sua época.
            A história por trás da gênese desse clássico da literatura britânica é tão tumultuada, terrível e cativante quanto a própria trama do livro em si e daria um filme (que, aliás, já foi feito, “Gótico”, de 1986, pelas mãos do exagerado e barroco Ken Russell). Ela envolve quatro personagens, além, é claro, da própria autora: seu amante na época, Percy Bysshe Shelley, um dos grandes nomes da poesia inglesa; a meia-irmã de Mary, Claire Clairmont; o indomável e tempestuoso Lorde Byron, que sozinho deu o nome a toda uma corrente literária cuja vasta influência se fez sentir até mesmo no Brasil; e uma figura meio excêntrica e com inclinações mórbidas, o médico de Byron chamado John William Polidori. O drama em que esse quinteto esteve envolvido teve um momento exato (o verão de 1816) e um local preciso (uma vila italiana às margens do lago Genebra, na Suíça) para se desenrolar, mas os seus antecedentes e desdobramentos vão muito além desse limitado cenário.
            O melodrama ou farsa trágica que serviu de alicerce para o que viria a ser a narrativa de “Frankenstein” começou a ser desenhado, em cores fortes de paixão e desgraça, não aos pés do Mont Blanc, mas em Londres, no primeiro decênio do século XIX. Era ali que a jovem Mary Wollstonecraft Godwin vivia com o pai, o intelectual e tenaz defensor das causas humanitárias e progressistas William Godwin (1756-1829). Godwin era viúvo de uma mulher notável, Mary Wollstonecraft (1759-1797), que daria não só o nome à filha mas a sensibilidade artística e ousadia para abordar questões controversas. Ativista das causas femininas, um século antes que elas ganhassem corpo no mundo inteiro, a senhora Mary Wollstonecraft compartilhava com o marido bem mais velho a indignação pelas injustiças sociais e o tratamento desumano dispensado às mulheres e advogava o amor livre e o fim dos grilhões do casamento, ao menos em sua versão tradicional (é interessante notar que, assim como William e Mary Wollstonecraft, também há uma grande diferença de idade entre os pais do jovem Victor Frankenstein, no romance de Mary Shelley). Escritora de grande talento, autora de um livro seminal intitulado “A Vindication of the Rights of Woman”, até hoje adotado nos colégios ingleses, espécie de libelo pela liberdade feminina, Mary, contudo, não viveu para ver as suas ideias desabrocharem em movimentos de emancipação das mulheres e tampouco presenciou os esforços da filha para se tornar uma escritora reconhecida, um fato ainda raro naqueles idos. Enfraquecida no parto, a grande mulher morreu poucos dias depois de Mary Shelley vir ao mundo. A morte havia marcado a sua presença na vida da futura autora de “Frankenstein”. No decorrer dos anos, as duas se reencontrariam diversas vezes, como se verá.
            De muitas maneiras, essa tragédia primordial deixou sinais indeléveis na vida da garota, que cresceu à sombra da presença espectral da célebre progenitora, por quem parecia nutrir uma espécie de idolatria, movida pela admiração que sentia pelas ideias e comportamentos daquela mulher notável, que absorveu pela leitura constante e repetida de seus escritos. Talvez sentisse pela mãe que jamais chegou a conhecer um certo afeto espiritual, o que a levou, ainda menina, a fazer do local de sepultura da mãe o seu refúgio das conturbações do mundo exterior. Quando atingiu a adolescência, a jovem frequentemente levava para o cemitério de St. Pancras, na periferia de Londres, onde Mary Wollstonecraft estava enterrada, os seus livros e escritos, e se punha a ler e a escrever à sombra de um salgueiro que se debruçava sobre o túmulo. Esse hábito talvez tenha ajudado a sedimentar na futura escritora um gosto, que hoje nos parece mórbido, pela morte e a degradação, e serviu para moldar a fleuma e a reserva que caracterizaram a faceta visível de sua personalidade por toda a vida, embora, em certas ocasiões íntimas, pudesse se mostrar extrovertida e expansiva.
            Certamente, a influência do pai foi decisiva na composição de seu caráter e de seus gostos artísticos. William Godwin era frequentemente comparado ao filósofo francês Voltaire por conta de seus pensamentos radicais. Polímata inveterado, chegou a escrever três dezenas de livros que abrangiam assuntos os mais variados, que incluíam ciência política e escritos ficcionais, biográficos e ocultistas. Dois desses livros, um romance que tratava do homem como inimigo de si mesmo, “The Adventures of Caleb Williams”, escrito em 1794, e a história de um alquimista em busca da pedra filosofal intitulada “St. Leon: A Tale of the sixteenth century”, de 1799, parecem ter cativado a jovem Mary Shelley e é provável que foi a partir deles, particularmente do último, que ela tomou conhecimento de nomes ilustres da alquimia, como Paracelso e Alberto Magno. Como intelectual de prestígio na Inglaterra de sua época, Godwin reunia em sua casa a elite cultural do país, entre os quais se destacava o grande poeta Samuel Taylor Coleridge, cuja “Balada do velho marinheiro” forneceu a ambientação polar que serve de abertura e epílogo para “Frankenstein” (há até uma menção explícita a essa obra em várias partes do livro). Outro frequentador habitual da casa de Godwin era o químico Sir Humphry Davy, cujas pesquisas com eletricidade e substâncias gasosas inauguraram o campo da eletroquímica e, como se pode imaginar, também serviram de embasamento científico para o futuro romance de Mary.
            Mas o mais ardoroso admirador das ideias e da figura do velho Godwin era um jovem e incomum poeta de Oxford chamado Percy Bysshe Shelley. De natureza tempestuosa e dono de uma beleza pouco convencional, Shelley era uma dessas personalidades magnéticas, movido por uma vívida inteligência e animação incomuns. Ferrenho pacifista e ateu convicto numa época em que esse tipo de atitude era considerado uma heresia, foi expulso da famosa universidade britânica por suas posições radicais em defesa da libertação feminina e do amor livre, ideias que, como se percebe, também enxameavam a cabeça da jovem Mary. Inevitavelmente, esses dois espíritos afins estavam destinados a se relacionarem. Não se sabe exatamente quando eles se conheceram, mas é provável que isso tenha ocorrido em meados de 1814, quando Shelley foi convidado para jantar na casa de Godwin e passou a frequentá-la quase diariamente. Seja como for, é certo que em junho daquele ano o poeta e a moça começaram a se envolver, dominados por uma paixão intensa e que desconhecia limites.
            O fato de que Shelley era casado com Harriet Westbrook e tivesse tido com ela dois filhos não pareceu servir de empecilho para o tórrido romance. A verdade é que o casamento do poeta já havia ruído, ao menos no domínio restrito do lar, e ele talvez se sentisse autorizado a por em prática as suas teorias acerca do amor livre. Um detalhe inusitado nesse caso é que os amantes costumavam se encontrar no túmulo de Mary Wollstonecraft, em St. Pancras. Foi aos pés da lápide que os dois fizeram juras de amor eterno e planos secretos para uma fuga, o tipo de arroubo romântico bastante em voga naquela época.
            Na manhã de 28 de julho de 1814, Mary se juntou a Shelley em uma carruagem estacionada próximo da rua onde ela morava e os amantes partiram em direção ao continente. Contudo, não estavam sozinhos na empreitada. A meia-irmã de Mary, Claire Clairmont, filha de William Godwin com sua primeira esposa, Mary Jane Clairmont, seguiu com eles na conturbada jornada num barco pesqueiro pelo Canal da Mancha até Calais, na costa norte da França. Ao que parece, Claire teve mais do que uma participação involuntária na aventura e estava fadada a formar uma espécie de ménage à trois com os dois namorados. O destino do trio era a Suíça e a viagem deveria atravessar o território francês, onde Paris figurava como parada obrigatória, graças, em grande medida, à devoção apaixonada pela cidade que Mary Wollstonecraft professou em sua autobiografia. O périplo foi ainda mais complicado pela absoluta falta de recursos do grupo, o que os forçou a se abrigarem em hospedarias infestadas de ratos e a seguirem jornada nas condições mais precárias.
            Na vila de Neuchatel, na Suíça, os viajantes puderam presenciar em primeira mão a principal indústria da região. Exímios fabricantes de relógios há séculos, os suíços aproveitaram o seu know-how com engrenagens e mecanismos intrincados para desenvolver na região uma promissora indústria de autômatos. Foi ali que Mary Shelley viu pela primeira vez as maravilhas mecânicas em formas humanas, os andróides, capazes de executar diversas tarefas, que iam da realização de desenhos e da escrita à execução de músicas.
            Mal haviam permanecido um dia no lugar e a premente situação financeira do grupo obrigou Shelley a tomar uma decisão radical: regressar imediatamente à Inglaterra. Ou isso ou teriam de sobreviver do favor de estranhos nas ruas. À decisão intempestiva seguiu-se a escolha do caminho mais barato para o retorno, a descida do rio Reno de barco.  O Vale do Reno, uma região fronteiriça entre a Alemanha e a França, cercado de florestas e pontilhado de belas cidades e fortalezas medievais, forneceria não apenas o cenário para boa parte da ação do futuro livro de Mary, como serviria para dar o próprio nome à sua criação literária.
             Acompanhados por um grupo de estudantes da Universidade de Estrasburgo, os três peregrinos alcançaram, dias depois, a região entre Mannheim e Mainz, de onde se podia avistar, a distância de alguns quilômetros, um imponente castelo construído no alto da montanha Magnet. Naquela fortaleza, cercada de lendas de cavaleiros e dragões, os viajantes foram informados pelos estudantes que, cerca de um século antes, residiu um alquimista chamado Konrad Dippel. Filho de um pastor luterano, Dippel era interessado em teologia e em ocultismo e afirmou ter descoberto o chamado “princípio da vida”, capaz de regenerar os defuntos. O nome do castelo, em português, significa “O Rochedo (ou rocha) dos Francos”, em alemão, simplesmente Frankenstein.
            É uma questão em aberto se Mary e o seu amante chegaram a visitar o castelo, mas é indiscutível que as referências ao alquimista, a sua busca pelo “princípio da vida” e o próprio nome da fortaleza devem ter causado nela vívida impressão, a ponto de incorporá-los, de diversas maneiras, em seu romance.
            De volta à Inglaterra, Shelley e sua jovem amante tornaram pública a sua relação e tiveram de conviver com as consequências, entre as quais a menos complicada era a penúria em que passaram a viver. Harriet, a ex-esposa do poeta, os assediava constantemente para exigir a pensão para os filhos, e até o progressista William Godwin se recusou a dar-lhes abrigo, expulsando o casal de casa, desgostoso com toda aquela incômoda situação. Como se isso não bastasse, Mary engravidou e o filho do casal, William, veio ao mundo em janeiro de 1816 (em “Frankenstein”, William é o nome do irmão mais novo de Victor). Pressionados por todos os lados, Mary e Shelley, acompanhados do filho e da indefectível Claire, além de uma empregada, novamente fizeram as malas e partiram de volta para a Suíça, em busca de uma ilusória paz de espírito que esperavam encontrar em Genebra. Também pesou na decisão o fato de que eles poderiam viver melhor no continente do que na Inglaterra com os parcos rendimentos que possuíam.
            Foi assim que, no verão de 1816, os viajantes chegaram a uma adorável propriedade às margens do Lago Genebra, chamada Vila Diodatti. É nesse ponto que a meia-irmã de Mary Shelley deixa de ser uma coadjuvante apagada para assumir papel de destaque nessa trama. Algum tempo antes dessa segunda viagem, Claire se envolveu com o mais improvável dos amantes: o poeta com fama de maldito, sedutor de damas e transgressor, “Sua Satânica Majestade”, a alcunha com que gostava de ser chamado, Lorde George Byron.  
            A má fama se devia a uma sucessão de eventos controversos, que incluíam um estilo de vida no mínimo extravagante para a época. Viciado em ópio, devorador sexual incapaz de se conter diante de uma saia, Byron gabava-se de feitos que transitavam do macabro ao cômico, quando não do plenamente fantasioso, como o assassinato de uma amante turca infiel, a travessia a nado do Estreito de Bósforo e a relação incestuosa com a meia-irmã, além dos rumores de manter tórridos casos homossexuais. Portanto, para os padrões da época, não havia vícios que o lendário poeta não haja cometido. Foi para encontrá-lo em Genebra, o que aconteceu em maio de 1816, que Claire insistiu para que a irmã e o agora marido dela seguissem viagem até aquelas paragens.
            Um outro personagem havia acompanhado Byron até a Suíça, e sobre ele todos os fatos são dúbios e brumosos. Isso porque o médico particular de Byron, o italiano John Polidori, era uma figura em tudo ímpar, tanto no que dizia respeito à aparência quanto ao comportamento e gostos pessoais. Embora possuísse grande conhecimento médico e psicológico (para a época), Polidori também alimentava no espírito a ilusão de que era dotado de dons literários de monta e se arvorava a ser um poeta de segunda linha. Ao que parece pelos escritos de seus diários, o médico nutria pelo ídolo e mentor uma obsessão quase paranóica, e se esforçou para manter com ele uma relação exclusiva, que alguns interpretam como sendo de natureza homoafetiva. A reação de Byron às constantes investidas de Polidori era voltar-lhe um desprezo disfarçado por zombarias impiedosas. Com toda certeza isso contribuiu para levar o pobre projeto de poeta ao suicídio, anos depois.
            A improvável trupe viajou até as margens do Lago Genebra, onde se instalou em uma propriedade de dois andares, uns cinco ou seis quartos, cercada de vinhedos, com os Alpes ao fundo e o Monte Jura à frente, chamada Villa Diodati (na verdade, apenas Byron, Polidori e os criados passaram o verão ali. Os Shelley se hospedaram em uma casa vizinha, a Villa Chapuis). Foi ali que Byron comporia mais tarde o terceiro canto de sua obra “Childe Harold”, mas hoje ela é mais conhecida por ter sido o local da gênese dos dois maiores personagens de terror da história da literatura.
            Devemos a um dia tempestuoso de verão essa criação, cujos detalhes fazem hoje parte da lenda. Na tarde e no anoitecer de 16 de junho, o grupo se refugiou na casa de Diodati para se proteger da chuva, dos relâmpagos e da ventania que varria a região do lago. Não se sabe ao certo o que se passou naquele dia fatídico. Embora se refiram à data, os diários de Mary, Polidore e Claire contêm algumas lacunas que, dois séculos depois, serviram de alimento fértil para a imaginação desenfreada dos biógrafos e historiadores (e cineastas, como o mencionado Ken Russell). O que se sabe com relativa certeza é que, para espantar o tédio, Byron começou a ler um volume de contos de terror com o sugestivo título de “Fantasmagoria, ou Coleção de Histórias de Aparições, Espectros, Fantasmas etc”, seguido da recitação de “Christabel”, um poema inacabado de tons sobrenaturais escrito por Samuel Taylor Coleridge. No ponto mais dramático da leitura, um raio atingiu uma árvore ali perto, o que serviu de pretexto para que o assunto passasse a ser o galvanismo e as estranhas experiências de ressurreição de vermes e anfíbios empreendida por cientistas como Erasmus Darwin (avô do célebre criador da Teoria da Evolução) por intermédio da eletricidade. O episódio do raio que atinge uma árvore numa noite de tempestade certamente teve um grande impacto na mente da autora, que depois o inseriu em seu livro como pretexto para fazer com que Victor Frankenstein se interessasse pelo tema do galvanismo. Ao que tudo indica, o dia foi regado a doses generosas de bebida e ópio, o que levou Shelley a sofrer uma alucinação com uma mulher que tinha olhos em lugar de mamilos (segundo alguns estudiosos, contudo, tanto esse incidente quanto a leitura de “Christabel” teriam ocorrido dois dias depois, não naquela noite). Para fechar a noitada, Byron propôs que cada um dos hóspedes escrevesse uma história de fantasmas.
            Shelley chegou a produzir um texto, “Fragmento de uma História de Fantasma”, em que uma avó observa um fantasma feito de cinzas. Mas foram mesmo as obras de Polidori e Mary que permaneceram. Provavelmente tendo Lorde Byron em mente, Polidori começou a traçar as linhas de seu “O Vampiro”, que só seria publicado após três anos, e ainda assim assinado pelo ilustre poeta. Só muito tempo depois a autoria do médico sobre a obra foi reconhecida e “O Vampiro” se tornou um dos precursores do “Drácula”, de Bram Stoker, décadas depois (para mais detalhes, leiam o meu artigo sobre o livro “Drácula”, também publicado neste blog).
            Assim como aconteceria posteriormente com o lendário conde chupador de sangue, Frankenstein foi sugerido à sua jovem criadora por um pesadelo ocorrido naquela mesma noite de 16 de junho de 1816. A narração que descreve esse sonho continua viva e impressionante hoje como deve ter parecido à jovem naquela ocasião. “Quando pus a cabeça no travesseiro, não dormi, nem pude sequer pensar”, relatou ela na introdução da edição de 1831 do livro. “E eu vi”, prosseguiu ela, “o pálido estudante das artes nefandas de joelhos diante da coisa que ele queria juntar. Vi o odioso fantasma de um homem estendido, que então, sob o efeito de alguma poderosa máquina, mostrou sinais de vida, e se agitou com inquietação, fazendo um movimento estranho, apenas meio-vivo (...) [o estudante] adormeceu, mas ele acordou; abriu então os olhos; ali estava a coisa horrível, em pé ao lado do seu leito, abrindo as cortinas e fitando nele seus olhos amarelos, lacrimejantes e perscrutadores”.
            Daquela noite fatídica em diante, Mary se dedicaria à escrita de sua obra-prima. “Frankenstein” foi concluído de maneira relativamente rápida. Antes do final de 1816, a escritora dava os retoques finais no livro. Mas o caminho até a publicação, que só veio a acontecer em 1818, estava destinado a ser um vale de lágrimas. O próprio Byron predisse que a desgraça seria a companhia de todos os que se envolvessem com ele e, de uma maneira sinistramente profética, a morte violenta ou o suicídio marcaria as vidas de todos os hóspedes da Villa Diodati. Naquele mesmo ano de 1816, poucos meses após o retorno de Mary e o Shelley à Inglaterra, a meia-irmã mais velha da escritora, Fanny Imlay, cometeu suicídio emborcando meia garrafa de láudano. Outro suicídio, ainda mais devastador para o jovem casal, ocorreu em dezembro. No bairro de Kensington, também em Londres, a polícia encontrou em um rio o cadáver de uma mulher em avançado estado de gravidez. Tratava-se de Harriet, a ex-esposa de Shelley e mãe de seus dois filhos (para complicar a situação, em janeiro de 1817 Claire deu à luz uma filha ilegítima, que a própria mãe não sabia se era de Byron ou de Shelley).
A partir de então, a morte cortejou bem de perto a vida de Mary. Nos anos que se seguiram, ela engravidou mais de uma vez de Shelley, que agora havia oficializado o casamento com ela e, em quase todas as ocasiões, a pobre autora parecia condenada a enterrar os filhos. Abortos e mortes prematuras se tornaram uma constante em suas vidas. Talvez o maior choque tenha sido a perda do pequeno William, vitimado pela febre romana de 1819. Percy Florence, nascido naquele mesmo ano, foi o único filho do casal que vingou.   
Numa funesta comprovação da profecia de Lorde Byron, um a um os membros masculinos da trupe foi ceifado da vida. O primeiro a tombar foi Polidori, que em 1821 deu fim às tormentas psicológicas ingerindo uma dose generosa de ácido prússico. Mas o pior ainda estava por vir. Um ano depois, em julho de 1822, Shelley saiu para velejar com um amigo e um marinheiro ao encontro de Byron na costa italiana. Uma tempestade atingiu a embarcação próximo à Via Reggio e nenhum dos passageiros sobreviveu ao naufrágio. Dois anos depois, foi a vez do autor de “Childe Harold” sair de cena. Byron foi vitimado por uma febre que o afligiu na Grécia quando ele estava naquele país envolvido, de armas em punho, na luta dos gregos contra a dominação turca. Viúva e com Percy, o único filho de seu casamento que lhe restava, Mary Shelley permaneceu solteira até o resto da vida até falecer em fevereiro de 1851, com 54 anos.
É bem verdade que a maior parte dessas fatalidades ocorreram muito depois da publicação de “Frankenstein”, mas o prenúncio delas já era evidente no próprio espírito de Mary. Como vimos, desde cedo, a jovem autora manifestou uma personalidade discreta, com fortes traços de morbidez e uma depressão recorrente que pareceu ter herdado da mãe. Esse tipo de comportamento absolutamente não era incomum nos primórdios do século XIX, quando a primeira fase do romantismo, de características marcadamente melancólicas e trágicas, imperava. Como vimos, tanto Byron quanto Shelley, os dois maiores expoentes do período, possuíam o caráter que hoje costumamos denominar de “gótico”, uma combinação de um típico sentimento juvenil de inadequação ao mundo contemporâneo com o gosto por histórias sobrenaturais, e que ajudou a batizar essa corrente literária.
Mas não devemos nos apressar em considerar “Frankenstein” um mero representante do gótico na literatura inglesa. Apesar do clima soturno e das constantes referências à morte, a castelos medievais e a mistérios alquímicos, o livro também deve ser visto como a obra inaugural de um novo gênero literário, que então ainda não tinha nome e só seria devidamente batizado um século depois. O escritor americano Isaac Asimov acertadamente classificou a obra como o primeiro e legítimo exemplar da ficção científica. De fato, se nos atermos à definição mais genericamente aceita de fc, uma obra artística que elabora de forma científica ou tecnológica os nossos medos e desejos mais profundos, então não há dúvida de que “Frankenstein” se inscreve nessa corrente. Em contraposição ao “Drácula” de Bram Stoker, que é uma clássica peça de horror, o livro de Mary Shelley extrapola os limites desse gênero ao descrever a criação de um homem artificial por intermédio de métodos que, embora escassamente descritos, são indubitavelmente científicos (ainda que a base na qual a escritora tenha se servido, o galvanismo, já esteja há muito superada, isso não tem importância. O que vale é que ela se eximiu de lançar mão de explicações metafísicas ou sobrenaturais para trazer a criatura à vida. É por intermédio de máquinas e não de rituais ou invocações sobrenaturais que isso acontece).
O próprio romance parece consciente dessa mudança. Na juventude, Victor se sente atraído pela magia e pela arte de alquimistas como Agrippa e Paracelso. Depois, deixa esses autores de lado e se entusiasma com os mistérios da eletricidade, da matéria e da física. Finalmente, graças a um professor na universidade, aprende as primeiras lições de química e vislumbra a possibilidade de empregá-la para descerrar os mistérios da criação. A discussão entre a validade das duas abordagens científicas na investigação da natureza, a física e a química, era suficientemente relevante naquele início do século XIX para que Mary Shelley a representasse na disputa entre Victor, fervoroso defensor dos recursos da física, e o seu mentor, que prega a supremacia da química. Um exame apressado do livro pode nos levar à conclusão de que se trata somente de uma história de fracassos. Victor Frankenstein fracassa em sua tarefa de criar a vida a partir da morte, a criatura fracassa em seus esforços para se fazer aceito pela sociedade e amado pelo criador. No fundo, “Frankenstein” é profundamente conservador, e ressalta as possibilidades nefastas da ciência que ousa ir além dos limites da ética e do bom senso. Contudo, se dependesse apenas desse valor de face, o livro há muito teria sido deixado de lado.
Com relação ao papel que o marido de Mary teve no resultado final de seu romance, só nos cabe especular. A própria escritora anotou em seu diário que, em 14 de maio de 1817, Shelley corrigiu o livro, escreveu o prefácio e deu a última palavra. É fácil perceber que muitas das preferências literárias de Shelley e a sua influência sobre a jovem autora acabaram penetrando a tessitura do texto. O próprio subtítulo da obra, “O Prometeu Moderno”, já indicava a paixão dos poetas românticos pelas tragédias gregas que Shelley compartilhava com ardor infinito. Também é impossível não notar as recorrentes citações e alusões ao “Werther”, o clássico do romantismo do alemão Goethe, e ao “Paraíso Perdido”, de Milton, um dos livros de cabeceira do poeta. Mas a influência desse poema épico é mais profunda do que pode parecer. A narrativa da queda do homem no pecado e a sua expulsão do Jardim do Éden e a magistral personificação do orgulho e da revolta nesse Satanás que é um dos personagens literários mais fascinantes de todos os tempos forneceram o tema central do romance e ajudaram a moldar a personalidade conflituosa de seus protagonistas, tanto do criador quando da criatura. Certamente, o caráter solitário e atormentado da criatura criada com retalhos de seres humanos tem tanto da personalidade do marido de Mary quanto de Byron, e o seu desejo em ser aceito em uma sociedade que o repudia se adequavam ao que provavelmente os dois literatos sentiam na própria pele.
Não seria exagero dizer que a criatura de Frankenstein é um parente próximo do Heathcliff, o anti-herói atormentado de “O Morro dos Ventos Uivantes”, outro exemplar do gótico do século XIX (o caso de amor de Heathcliff e Catherine, naquele clássico, parece ter sido prenunciado pela paixão entre Victor Frankenstein e a sua prima Elizabeth), e de Edward Rochester, o temperamental e exigente protagonista de “Jane Eyre”. Essas e outras reverberações literárias nos informam do verdadeiro caráter de “Frankenstein”. Um livro que só poderia ter sido escrito por uma mulher, pois somente as mulheres são capazes de gerar a vida em seus ventres, um tema a respeito do qual elas têm muito a ensinar aos homens.
Muito além de um livro destinado a provocar o medo ou a repulsa dos leitores, trata-se de um conto moral, com insuspeitos questionamentos filosóficos existenciais. Ao vir ao mundo (ou voltar à vida, dependendo de como se interprete a história), a criatura é um ser naturalmente bom, inocente e estranho a toda maldade. Um Adão imbuído de bondade que anseia ser amado pelo seu criador e que se sente rejeitado e excluído quando ele o repudia. Abandonado e só no mundo, a criatura entra em contato com a sociedade, que rapidamente trata de evitá-lo, o que o leva a ser ao mesmo tempo um Adão expulso do Paraíso e o seu filho Caim ao matar o irmão mais novo de Victor. Pode-se enxergar em sua trajetória a incorporação das teorias roussounianas do “bom selvagem” e da natureza primordialmente bondosa da humanidade. Mas também é possível ver nele, sobretudo a partir das desilusões com o mundo e a reação violenta a ele, a personificação da própria morte, terrível, decrépita e destruidora, um agente do caos e da desordem.
Temido e perseguido, ele se refugia nos Alpes suíços, e é nesse ponto da narrativa que podemos detectar o tema que subjaz a toda a obra. Talvez mais do que a discussão em torno da criação da vida a partir da morte empregando recursos “científicos” ou racionais no lugar da magia e do misticismo, e do próprio significado do termo “vida”, “Frankenstein” fala da profunda solidão do ser humano, de uma alma de pureza original que almeja se elevar ao plano divino mas se vê enclausurada num corpo feito de matéria corruptível. A busca da amizade, de alguém com quem compartilhar os seus pensamentos mais profundos, temores e anseios, não é nada mais que a nossa própria procura incessante por escapar de nós mesmos e interagir com os outros seres humanos, dissolver a nossa individualidade na coletividade. A própria escritora sempre foi uma mulher solitária, que vivia uma existência, se não de reclusão, reservada, avessa às badalações do convívio social, e talvez, em seu íntimo, se ressentisse disso.
Um comportamento que não deve ter escapado ao olhar atento do próprio Shelley, que se encarregou de procurar editores para o romance e preferiu esconder o fato de que ele havia sido escrito por uma mocinha de apenas 19 anos. “Frankenstein” foi publicado em março de 1818, em três volumes, por uma editora especializada em livros sensacionalistas e ocultistas (nada menos apropriado, diga-se de passagem), e não trazia o nome da autora na capa nem na página de rosto. Conquanto fosse dedicado ao pai de Mary, William Godwin, e tivesse a chancela de Shelley, a obra foi rapidamente destroçada por uma parcela da crítica, que a considerou “o sonho de um louco, vazado na linguagem de um louco”. Mesmo assim, o livro foi acolhido com algumas resenhas favoráveis (provavelmente, porque o consideravam um trabalho da pena de Shelley), o que ajudou a torná-lo um relativo sucesso nos meses seguintes. Seja como for, o êxito da publicação a levou a ser adaptada para os palcos, numa versão teatral bastante apelativa, bem de acordo com o gosto popular da época, e isso ajudou no lançamento de uma segunda edição, revista e melhorada, do texto original. Foi essa versão teatral, alterada e modificada até desfigurar-se, que chegou ao século XX, quando o cinema se apropriou do “Frankenstein” trágico, solitário e melancólico e o converteu num monstro abrutalhado, de mente doentia e assassino. Um conto de fadas simplista e primário para aterrorizar as crianças, enfim.
            Dois séculos de recriações e distorções fizeram com que o livro original (mas não o seu personagem principal) ficasse relegado ao quase esquecimento. Os pressupostos básicos da duvidosa ciência que Mary Shelley escassamente descreve há muito já foram descartados (embora, como se sabe, a ressuscitação por intermédio da eletricidade seja prática corriqueira da medicina moderna). Mas, se voltarmos às suas páginas e soubermos apreciar a voz de uma época há muito passada e a profundidade filosófica e poética de que ele está imbuído, então o livro, como a sua criatura famosa, é capaz de reviver repleto de energia criativa.
    
São Paulo, 12 de outubro de 2015



             

0 comentários:

Postar um comentário

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Blogger Templates