e Confira a versão completa do meu conto "A Assunção de Frei Damião" ~ Diário do Moretti
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domingo, 4 de outubro de 2015

Confira a versão completa do meu conto "A Assunção de Frei Damião"




A ASSUNÇÃO DE FREI DAMIÃO

Por Marco Moretti
“Excelsior!”
Júlio Verne, Cinco semanas em um balão

"Ícaro", pintura de Henry Matisse - Fonte: Wikipedia

Uma criança de 7 anos. Ingênua, sonhadora, feliz. Era assim que Frei Damião estava se sentindo naquela manhã auspiciosa de primavera, o sol forte ofuscando a vista, o calor nem sufocante, nem tolerável. Toda a expectativa daquele momento, a insuportável ansiedade diante do lançamento iminente, o deixavam agitado, irrequieto, ainda que estivesse impedido de mover um dedo sequer. A excitação era tamanha que, como um menino contando os minutos à espera da chegada do Papai Noel na noite da véspera de Natal, o religioso sentiu vontade de urinar nas calças. Não o fez porque isso o envergonharia, mas porque achou que um ato desses estragaria a solenidade da ocasião.
Entretanto, nem sequer era medo o que dominava o seu espírito. Absolutamente. A oportunidade de alçar voo, digamos assim, pelos próprios meios, o fazia se imaginar meio angelical, mesmo sem dispor das asas de penas de pomba de um querubim de Fra Angelico[1], e ainda que o seu corpo fosse constituído de carne, osso e sangue, a mera sensação de poder flutuar no vazio do espaço, pairando solitário sobre o barro da Criação, seria uma experiência epifânica para ele.
Os três irmãos da ordem que o auxiliavam nessa empreitada remexiam-se daqui para lá, ocupados em encher de gás hélio as últimas bexigas de festa coloridas, enquanto dois meninos que prestavam auxílio tratavam de amarrá-las ao “arreio” de couro que Frei Damião tinha cuidadosamente prendido em torno da cintura e por entre as pernas. Quando tudo estivesse pronto, dentro de poucos minutos, bastaria que ele soltasse a corda que segurava, presa a uma argola enterrada no gramado do campinho de futebol, o único da pequena Tremembé, diante da qual os contrafortes da Serra da Mantiqueira se desenhavam esmaecidos ao longe, para que começasse a lenta mas segura ascensão aos céus.
Nos meses e nas semanas que antecederam o “lançamento”, quando a planejada jornada era pouco mais do que um devaneio numa noite de inverno, ele pensou ser dono de todas as certezas, de todas as ambições desmedidas que o moviam, mas agora, quando estava prestes a alçar voo, constatou que tinha se enganado. Mal saberia dizer o que o motivou a empreender aquele desatino, e se arrependimento não fosse uma palavra demasiada injusta, poder-se-ia aplicá-la aos seus sentimentos nas últimas horas. Nas infinitas confabulações que manteve com os amigos e, sobretudo, consigo mesmo, indagou-se se o desejo de chegar ao Céu, de esquadrinhar com os olhos nus a majestade divina, de alcançar, enfim, o Paraíso ainda em vida, não seria apenas o anseio exagerado de alguém que buscava a todo custo a redenção dos pecados por uma via direta.
Quando, finalmente, a última das mil bexigas foi enchida e atada à cinta de couro, todas as fivelas foram verificadas pela última vez, o ousado aventureiro e os frades e os seus ajudantes deram-se as mãos e rezaram um último Pai Nosso e uma última Ave Maria de despedida. Em seguida, os irmãos abraçaram o corajoso companheiro voador, desejaram-lhe breves e emocionados votos de boa viagem e se afastaram meia dúzia de passos, à espera da partida.
Frei Damião ergueu os olhos para o alto. O firmamento estava incomumente azul e praticamente desprovido de nuvens, com exceção de algumas formações esparsas bem ao longe, a leste, sobre a encosta da serra. Somente uma brisa suave quebrava a placidez dessa cena e fazia as bexigas balouçarem para lá e para cá numa ginga preguiçosa.
O momento da ascensão chegou sem sustos. O religioso limitou-se a abrir os dedos e deixar escapar as pontas das cordas que o atavam ao solo, ao mundo rude da matéria sólida. Quase que imediatamente, os seus pés já não estavam em contato com a relva, e um tranco vigoroso o puxou para cima. Imaginou que essa devia ser a sensação que se experimenta quando a nossa alma sobe ao céu quando morremos.
Suavemente, o campinho foi se afastando dele. Os irmãos e os meninos encolhiam como se estivessem numa máquina de miniaturização, e tudo parecia ficar gradualmente menor, liliputiano[2], ananicando-se. Logo, Damião percebeu que estava a uma altura considerável, talvez a uns vinte, trinta metros. Também notou que, aos poucos, o horizonte, antes reto como uma régua, foi se curvando, como se visto através de uma lente grande-angular. A rodovia que passava próxima ao terreno, as casas que o cercavam, as montanhas bem ao fundo, tudo ia se distorcendo e ficando ridiculamente insignificante. O religioso experimentou então uma sensação que, naquele momento, não soube definir, mas teve a intuição de que era boa.
Também se deu conta de outra coisa, algo tão ou mais estranho do que a curvatura visual. Gradativamente, os ruídos, os pequenos barulhos que costumam nos cercar no dia a dia ao rés-do-chão foram se apagando. A quase um quilômetro de altitude, era tudo tão quieto, tão silencioso, que uma sensação de paz avassaladora invadiu o espírito de Frei Damião. “Então é assim que se sentem os bem-aventurados e os anjos de Deus? Que sensação maravilhosa”, pensou ele, os olhos marejados, embargado de emoção. Pois para ele essa subida ao céu tinha um significado mais profundo do que uma simples experiência física. Era uma maneira de conhecer a graça de Deus atribuída a Nossa Senhora, a Virgem Maria, que, segundo antigas tradições, foi elevada para junto de Deus de corpo e alma. Pelos dogmas da Igreja, uma assunção, e não uma mera ascensão.
Em questão de minutos, atingiu uma distância considerável, muito acima da mais alta montanha que o cercava. Naquele ponto privilegiado, faziam morada os mais ousados pássaros e as ventanias rebeldes ganhavam ímpeto, carregando-o para longe do ponto de partida. Logo, já não avistava mais o campinho de futebol, a estrada, as casas, e até mesmo a cidade acabou por se tornar uma disforme ferida na planície distante.
Deixar-se levar pelo vento, vagar a esmo qual uma folha pelo espaço, era o mais próximo que ele podia esperar chegar de vislumbrar a glória do Senhor. Não era a mesma sensação de estar acima das nuvens num avião, balão ou qualquer outro artefato humano. Não, era algo bem diferente disso. Um prazer inenarrável, de liberdade, de gozo, dominava os seus sentidos. Ah, se pudesse transmitir o que estava passando, expressar a emoção daquela experiência. Mas para quem, senão para ele mesmo e a sua consciência?
Pela primeira vez em muito tempo, ou talvez pela primeira vez na vida, conheceu a solidão. Flutuando graciosamente no éter, incapaz de ver outro ser humano daquela altura estonteante, sentia como se o mundo palpável, aquilo a que nos acostumamos a chamar de realidade, artificialmente construído sobre e em torno de nossos semelhantes, das edificações, das manifestações culturais, dos gestos, olhares e palavras tão humanos, havia se esvanecido, obliterado por uma bomba de nêutrons. Frei Damião não conseguiu evitar a ideia de que era o último homem sobre a face da Terra, o derradeiro rebento de Adão que teve o privilégio de sobreviver à extinção de sua espécie.
Uma rajada de vento o afastou desses pensamentos e para mais longe ainda do ponto de partida. Rapidamente, transpôs a cadeia de montanhas que separava o planalto da costa e foi arrastado, a uma velocidade crescente e estonteante, em direção ao mar azul-esverdeado, que se descortinava a poucos quilômetros milhares de metros abaixo.
Incapaz de distinguir qualquer construção feita por mãos humanas, e agora absolutamente abandonado e jogado a esmo pelas forças elementares da natureza, passou a achar que detinha outro tipo de privilégio. Uma impressão, se se preferir chamar assim, de que Deus o escolheu em particular, entre milhões de almas, para um propósito especial. E ele só podia adivinhar qual seria esse propósito.
Contemplar, de um ponto de vista especial, ao qual somente ele, Damião, e mais ninguém teria acesso, a perfeição e a magnitude da Dele. Ao ver o mundo abaixo transformado em uma poça indistinta de terra e água, como se todos os rios, colinas, praias, florestas e desertos fossem pouco mais do que um presépio de papelão, o jovem frade teve o vislumbre de nossa mediocridade. Mais do que isso, compreendeu de maneira imediata a completa inutilidade de nossos atos, dos esforços mais nobres aos mais vis. Então, todas as sangrentas lutas da humanidade pela paz ou pela liberdade, pelo amor e pela igualdade, não significavam nada? Eram pouco mais do que pó disperso diante da imensidão do Cosmo?
O religioso amargurou-se com a sugestão de que mesmo os maiores propósitos de que um santo é capaz pouco ou nenhum efeito surtiam no esquema geral das coisas. E a essa constatação, outra atrelou-se, incômoda. “Somos tão inúteis quanto uma partícula de areia carreada pelo vento. O universo continuará sendo o que é tenhamos nós existido ou não”, assombrou-se. Milhares de anos de história não valeram para nada.
Cogitou se o ar rarefeito daquelas altitudes não estaria afetando o seu raciocínio. Foi somente depois de muito cismar nessas coisas que Frei Damião teve a percepção de que cometia um grande equívoco. Pensar desse jeito, tentando interpretar à sua maneira as intenções do Criador, chegava às raias da blasfêmia. Quem era ele para “ler” a vontade de Deus no mapa da Criação que se descortinava lá embaixo? Com que topete podia se arvorar a “traduzir” a obra divina para os seus próprios e mesquinhos pontos de vista? Ele, logo ele, Frei Damião, uma formiga ao pé de gigantes? Aquilo era soberba das grandes, e isso, o jovem sabia bem, é um dos sete pecados capitais.
“É inútil”, pensou, mirando diretamente o sol rutilante imediatamente acima, como se fosse o olho ciclópico de Deus a julgá-lo do alto de seu trono celestial, “nascemos para o pecado, estamos destinados a ele. É da nossa natureza errar sempre”, refletiu, ao mesmo tempo em que emprestava a esse pensamento uma certa melancolia. A lógica enviesada do raciocínio levou o frade a se indagar se não estaria ele também cometendo um enorme equívoco ao pretender essa aventura temerária.
Sim, ele havia agido com suprema soberba quando achou que tinha o direito de se elevar até a morada celestial, de por-se no mesmo patamar da mãe do Salvador. Era como tentar espreitar a face do Pai, ou, ao menos, encostar os dedos trêmulos em seu manto. Na verdade, isso era mais do que um simples pecado, era uma heresia. Em outro tempo e outro lugar, teria sido queimado vivo pela ousadia de sequer imaginar esse feito. Havia agido com imprudência, a mesma imprudência que provocou a queda do homem...
Decididamente, o seu lugar não era ali, sobrepairando a meio caminho entre a existência e a transcendência. “Eu não mereço estar aqui, não tenho direito a receber essa graça”, amargurou-se Damião, “Lúcifer também pagou o preço pela impertinência de desafiar a vontade de Jeová”, concluiu, penitenciando-se por não perceber isso antes. Ele sabia, no íntimo de seu ser, que só havia um jeito de remediar esse mal, um único e decisivo castigo que haveria de ser aplicado sobre a sua infeliz cabeça. E não tinha dúvidas de que devia ser a mesmíssima punição que recaiu sobre o anjo rebelde e as suas hostes.
Num gesto impulsivo, mas de modo algum irrefletido, o religioso desatou os nós que prendiam as cordas das bexigas à cinta de couro que o cingia. Quase no mesmo instante, desprendeu-se das bolas coloridas que o sustinham no ar e despencou no vazio. A queda não foi imediata e menos ainda isenta de sofrimento. Ele estava a uma altura tão incomensurável, tão vertiginosa, no limiar da estratosfera, que a descida só poderia ter sido dramática. A gravidade, ciumenta daquela reles criatura que ousava romper os liames com a Terra e arranhar o espaço sideral, puxou-o de volta como num abraço mortífero. A aceleração crescente transformou-o num bólido humano, e ele ardeu com a intensidade de uma cápsula Mercury[3] ao reentrar na atmosfera. Evidentemente, volatilizou-se no ar antes de alcançar a superfície, mas aqueles que o viram cair, que conseguiram enxergar o brilho de seu rastro incandescente riscando o firmamento, acreditaram piamente tratar-se de um outro anjo que havia sido expulso do Paraíso.

São Paulo, 03 de outubro de 2015



[1] Pintor italiano que viveu entre os séculos XIV e XV, autor de afrescos icônicos como “A Anunciação”, criado entre 1437 e 1446.          

[2] Referência a Lilipute, a ilha fictícia povoada por minúsculos seres humanos do livro “As Viagens de Gulliver”, escrito pelo irlandês Jonathan Swift em 1726.

[3] Um dos primeiros modelos de nave espacial desenvolvido pela NASA, nos anos 1960.

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