e Outubro 2015 ~ Diário do Moretti
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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Veja o teaser de Os Conquistadores

"Os Conquistadores" faz parte da série Talentos da Literaura Brasileira da Editora Novo Século

Como parte da divulgação do livro, produzi alguns vídeos para informar os amigos sobre o lançamento. Mas agradeço especialmente aos alunos do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Paulista (UNIP) por terem dedicado sua atenção na produção de um trabalho visual bacana e interessante.

Em razão dessa dedicação e como forma de agradecimento, coloco aqui à disposição de todos, o vídeo que faz uma chamada para o lançamento do livro neste sábado (24). Espero sua presença lá para conversarmos e tratarmos um pouco sobre história do Brasil, especialmente para explicar porque o nosso país está do jeito que está.


domingo, 18 de outubro de 2015

Veja aqui o novo definitivo trailer do meu novo livro, "Os Conquistadores"




Veja aqui o novo e definitivo trailer do meu livro, "Os Conquistadores"





segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Leia a versão integral de "A Mulher que deu à luz a criatura de Frankenstein", a criação do livro "Frankenstein", de Mary Shelley




A MULHER QUE DEU À LUZ A CRIATURA DE FRANKENSTEIN

Por Marco Moretti

Boris Karloff como o monstro de Frankenstein em 1931 - Fonte: Wikipedia

            Esqueçam o monstro de Frankenstein imortalizado no cinema por Boris Karloff no filme original de 1931. Esqueçam todas as versões e releituras da história da cultuada criatura construída com pedaços de defuntos feitas nos últimos 200 anos, pelo menos desde que a inglesa Mary Shelley (1797-1851) publicou o romance “Frankenstein: ou o Prometeu Moderno”, em 1818. O personagem que estava destinado a se tornar um dos quatro mais célebres monstros da literatura de horror (ao lado de Drácula, do Quasímodo, de “O Corcunda de Notre-Dame”, e do Mr. Hyde, de “O Médico e o Monstro”) do século XIX muito pouco ou nada tem a ver com a imagem icônica que hoje fazemos dele. A própria autora foi discreta em descrevê-lo de forma clara, e com toda a certeza a criatura que ela tinha em mente nem de longe se assemelhava ao brutamonte monossilábico de cabeça chata e eletrodos no pescoço com que nos habituamos a imaginá-lo. O Frankenstein (ou melhor, a criatura, pois Frankenstein, como se sabe, era o sobrenome de seu criador, Victor) da literatura vai muito além do que a besta enfurecida que adorava assustar os aldeões das telonas, da televisão, dos quadrinhos e dos games sugere. Trata-se de um personagem trágico em todos os sentidos, uma espécie de Adão de uma nova espécie de homem, torturado entre a permanência no ser e a ameaça do não-ser, uma criatura muito mais aparentada aos heróis de uma era trágica e romanticamente atormentada, que tinha nos deuses e semideuses gregos os seus modelos, como foi a Inglaterra e a Europa nos primórdios do século XIX, do que de seus sucessores na era moderna. Mais do que um mero livro confeccionado com o único propósito de assustar os leitores em noites chuvosas, “Frankenstein” é uma obra trágica, poética e filosófica, bem adequado, portanto, aos moldes literários de sua época.
            A história por trás da gênese desse clássico da literatura britânica é tão tumultuada, terrível e cativante quanto a própria trama do livro em si e daria um filme (que, aliás, já foi feito, “Gótico”, de 1986, pelas mãos do exagerado e barroco Ken Russell). Ela envolve quatro personagens, além, é claro, da própria autora: seu amante na época, Percy Bysshe Shelley, um dos grandes nomes da poesia inglesa; a meia-irmã de Mary, Claire Clairmont; o indomável e tempestuoso Lorde Byron, que sozinho deu o nome a toda uma corrente literária cuja vasta influência se fez sentir até mesmo no Brasil; e uma figura meio excêntrica e com inclinações mórbidas, o médico de Byron chamado John William Polidori. O drama em que esse quinteto esteve envolvido teve um momento exato (o verão de 1816) e um local preciso (uma vila italiana às margens do lago Genebra, na Suíça) para se desenrolar, mas os seus antecedentes e desdobramentos vão muito além desse limitado cenário.
            O melodrama ou farsa trágica que serviu de alicerce para o que viria a ser a narrativa de “Frankenstein” começou a ser desenhado, em cores fortes de paixão e desgraça, não aos pés do Mont Blanc, mas em Londres, no primeiro decênio do século XIX. Era ali que a jovem Mary Wollstonecraft Godwin vivia com o pai, o intelectual e tenaz defensor das causas humanitárias e progressistas William Godwin (1756-1829). Godwin era viúvo de uma mulher notável, Mary Wollstonecraft (1759-1797), que daria não só o nome à filha mas a sensibilidade artística e ousadia para abordar questões controversas. Ativista das causas femininas, um século antes que elas ganhassem corpo no mundo inteiro, a senhora Mary Wollstonecraft compartilhava com o marido bem mais velho a indignação pelas injustiças sociais e o tratamento desumano dispensado às mulheres e advogava o amor livre e o fim dos grilhões do casamento, ao menos em sua versão tradicional (é interessante notar que, assim como William e Mary Wollstonecraft, também há uma grande diferença de idade entre os pais do jovem Victor Frankenstein, no romance de Mary Shelley). Escritora de grande talento, autora de um livro seminal intitulado “A Vindication of the Rights of Woman”, até hoje adotado nos colégios ingleses, espécie de libelo pela liberdade feminina, Mary, contudo, não viveu para ver as suas ideias desabrocharem em movimentos de emancipação das mulheres e tampouco presenciou os esforços da filha para se tornar uma escritora reconhecida, um fato ainda raro naqueles idos. Enfraquecida no parto, a grande mulher morreu poucos dias depois de Mary Shelley vir ao mundo. A morte havia marcado a sua presença na vida da futura autora de “Frankenstein”. No decorrer dos anos, as duas se reencontrariam diversas vezes, como se verá.
            De muitas maneiras, essa tragédia primordial deixou sinais indeléveis na vida da garota, que cresceu à sombra da presença espectral da célebre progenitora, por quem parecia nutrir uma espécie de idolatria, movida pela admiração que sentia pelas ideias e comportamentos daquela mulher notável, que absorveu pela leitura constante e repetida de seus escritos. Talvez sentisse pela mãe que jamais chegou a conhecer um certo afeto espiritual, o que a levou, ainda menina, a fazer do local de sepultura da mãe o seu refúgio das conturbações do mundo exterior. Quando atingiu a adolescência, a jovem frequentemente levava para o cemitério de St. Pancras, na periferia de Londres, onde Mary Wollstonecraft estava enterrada, os seus livros e escritos, e se punha a ler e a escrever à sombra de um salgueiro que se debruçava sobre o túmulo. Esse hábito talvez tenha ajudado a sedimentar na futura escritora um gosto, que hoje nos parece mórbido, pela morte e a degradação, e serviu para moldar a fleuma e a reserva que caracterizaram a faceta visível de sua personalidade por toda a vida, embora, em certas ocasiões íntimas, pudesse se mostrar extrovertida e expansiva.
            Certamente, a influência do pai foi decisiva na composição de seu caráter e de seus gostos artísticos. William Godwin era frequentemente comparado ao filósofo francês Voltaire por conta de seus pensamentos radicais. Polímata inveterado, chegou a escrever três dezenas de livros que abrangiam assuntos os mais variados, que incluíam ciência política e escritos ficcionais, biográficos e ocultistas. Dois desses livros, um romance que tratava do homem como inimigo de si mesmo, “The Adventures of Caleb Williams”, escrito em 1794, e a história de um alquimista em busca da pedra filosofal intitulada “St. Leon: A Tale of the sixteenth century”, de 1799, parecem ter cativado a jovem Mary Shelley e é provável que foi a partir deles, particularmente do último, que ela tomou conhecimento de nomes ilustres da alquimia, como Paracelso e Alberto Magno. Como intelectual de prestígio na Inglaterra de sua época, Godwin reunia em sua casa a elite cultural do país, entre os quais se destacava o grande poeta Samuel Taylor Coleridge, cuja “Balada do velho marinheiro” forneceu a ambientação polar que serve de abertura e epílogo para “Frankenstein” (há até uma menção explícita a essa obra em várias partes do livro). Outro frequentador habitual da casa de Godwin era o químico Sir Humphry Davy, cujas pesquisas com eletricidade e substâncias gasosas inauguraram o campo da eletroquímica e, como se pode imaginar, também serviram de embasamento científico para o futuro romance de Mary.
            Mas o mais ardoroso admirador das ideias e da figura do velho Godwin era um jovem e incomum poeta de Oxford chamado Percy Bysshe Shelley. De natureza tempestuosa e dono de uma beleza pouco convencional, Shelley era uma dessas personalidades magnéticas, movido por uma vívida inteligência e animação incomuns. Ferrenho pacifista e ateu convicto numa época em que esse tipo de atitude era considerado uma heresia, foi expulso da famosa universidade britânica por suas posições radicais em defesa da libertação feminina e do amor livre, ideias que, como se percebe, também enxameavam a cabeça da jovem Mary. Inevitavelmente, esses dois espíritos afins estavam destinados a se relacionarem. Não se sabe exatamente quando eles se conheceram, mas é provável que isso tenha ocorrido em meados de 1814, quando Shelley foi convidado para jantar na casa de Godwin e passou a frequentá-la quase diariamente. Seja como for, é certo que em junho daquele ano o poeta e a moça começaram a se envolver, dominados por uma paixão intensa e que desconhecia limites.
            O fato de que Shelley era casado com Harriet Westbrook e tivesse tido com ela dois filhos não pareceu servir de empecilho para o tórrido romance. A verdade é que o casamento do poeta já havia ruído, ao menos no domínio restrito do lar, e ele talvez se sentisse autorizado a por em prática as suas teorias acerca do amor livre. Um detalhe inusitado nesse caso é que os amantes costumavam se encontrar no túmulo de Mary Wollstonecraft, em St. Pancras. Foi aos pés da lápide que os dois fizeram juras de amor eterno e planos secretos para uma fuga, o tipo de arroubo romântico bastante em voga naquela época.
            Na manhã de 28 de julho de 1814, Mary se juntou a Shelley em uma carruagem estacionada próximo da rua onde ela morava e os amantes partiram em direção ao continente. Contudo, não estavam sozinhos na empreitada. A meia-irmã de Mary, Claire Clairmont, filha de William Godwin com sua primeira esposa, Mary Jane Clairmont, seguiu com eles na conturbada jornada num barco pesqueiro pelo Canal da Mancha até Calais, na costa norte da França. Ao que parece, Claire teve mais do que uma participação involuntária na aventura e estava fadada a formar uma espécie de ménage à trois com os dois namorados. O destino do trio era a Suíça e a viagem deveria atravessar o território francês, onde Paris figurava como parada obrigatória, graças, em grande medida, à devoção apaixonada pela cidade que Mary Wollstonecraft professou em sua autobiografia. O périplo foi ainda mais complicado pela absoluta falta de recursos do grupo, o que os forçou a se abrigarem em hospedarias infestadas de ratos e a seguirem jornada nas condições mais precárias.
            Na vila de Neuchatel, na Suíça, os viajantes puderam presenciar em primeira mão a principal indústria da região. Exímios fabricantes de relógios há séculos, os suíços aproveitaram o seu know-how com engrenagens e mecanismos intrincados para desenvolver na região uma promissora indústria de autômatos. Foi ali que Mary Shelley viu pela primeira vez as maravilhas mecânicas em formas humanas, os andróides, capazes de executar diversas tarefas, que iam da realização de desenhos e da escrita à execução de músicas.
            Mal haviam permanecido um dia no lugar e a premente situação financeira do grupo obrigou Shelley a tomar uma decisão radical: regressar imediatamente à Inglaterra. Ou isso ou teriam de sobreviver do favor de estranhos nas ruas. À decisão intempestiva seguiu-se a escolha do caminho mais barato para o retorno, a descida do rio Reno de barco.  O Vale do Reno, uma região fronteiriça entre a Alemanha e a França, cercado de florestas e pontilhado de belas cidades e fortalezas medievais, forneceria não apenas o cenário para boa parte da ação do futuro livro de Mary, como serviria para dar o próprio nome à sua criação literária.
             Acompanhados por um grupo de estudantes da Universidade de Estrasburgo, os três peregrinos alcançaram, dias depois, a região entre Mannheim e Mainz, de onde se podia avistar, a distância de alguns quilômetros, um imponente castelo construído no alto da montanha Magnet. Naquela fortaleza, cercada de lendas de cavaleiros e dragões, os viajantes foram informados pelos estudantes que, cerca de um século antes, residiu um alquimista chamado Konrad Dippel. Filho de um pastor luterano, Dippel era interessado em teologia e em ocultismo e afirmou ter descoberto o chamado “princípio da vida”, capaz de regenerar os defuntos. O nome do castelo, em português, significa “O Rochedo (ou rocha) dos Francos”, em alemão, simplesmente Frankenstein.
            É uma questão em aberto se Mary e o seu amante chegaram a visitar o castelo, mas é indiscutível que as referências ao alquimista, a sua busca pelo “princípio da vida” e o próprio nome da fortaleza devem ter causado nela vívida impressão, a ponto de incorporá-los, de diversas maneiras, em seu romance.
            De volta à Inglaterra, Shelley e sua jovem amante tornaram pública a sua relação e tiveram de conviver com as consequências, entre as quais a menos complicada era a penúria em que passaram a viver. Harriet, a ex-esposa do poeta, os assediava constantemente para exigir a pensão para os filhos, e até o progressista William Godwin se recusou a dar-lhes abrigo, expulsando o casal de casa, desgostoso com toda aquela incômoda situação. Como se isso não bastasse, Mary engravidou e o filho do casal, William, veio ao mundo em janeiro de 1816 (em “Frankenstein”, William é o nome do irmão mais novo de Victor). Pressionados por todos os lados, Mary e Shelley, acompanhados do filho e da indefectível Claire, além de uma empregada, novamente fizeram as malas e partiram de volta para a Suíça, em busca de uma ilusória paz de espírito que esperavam encontrar em Genebra. Também pesou na decisão o fato de que eles poderiam viver melhor no continente do que na Inglaterra com os parcos rendimentos que possuíam.
            Foi assim que, no verão de 1816, os viajantes chegaram a uma adorável propriedade às margens do Lago Genebra, chamada Vila Diodatti. É nesse ponto que a meia-irmã de Mary Shelley deixa de ser uma coadjuvante apagada para assumir papel de destaque nessa trama. Algum tempo antes dessa segunda viagem, Claire se envolveu com o mais improvável dos amantes: o poeta com fama de maldito, sedutor de damas e transgressor, “Sua Satânica Majestade”, a alcunha com que gostava de ser chamado, Lorde George Byron.  
            A má fama se devia a uma sucessão de eventos controversos, que incluíam um estilo de vida no mínimo extravagante para a época. Viciado em ópio, devorador sexual incapaz de se conter diante de uma saia, Byron gabava-se de feitos que transitavam do macabro ao cômico, quando não do plenamente fantasioso, como o assassinato de uma amante turca infiel, a travessia a nado do Estreito de Bósforo e a relação incestuosa com a meia-irmã, além dos rumores de manter tórridos casos homossexuais. Portanto, para os padrões da época, não havia vícios que o lendário poeta não haja cometido. Foi para encontrá-lo em Genebra, o que aconteceu em maio de 1816, que Claire insistiu para que a irmã e o agora marido dela seguissem viagem até aquelas paragens.
            Um outro personagem havia acompanhado Byron até a Suíça, e sobre ele todos os fatos são dúbios e brumosos. Isso porque o médico particular de Byron, o italiano John Polidori, era uma figura em tudo ímpar, tanto no que dizia respeito à aparência quanto ao comportamento e gostos pessoais. Embora possuísse grande conhecimento médico e psicológico (para a época), Polidori também alimentava no espírito a ilusão de que era dotado de dons literários de monta e se arvorava a ser um poeta de segunda linha. Ao que parece pelos escritos de seus diários, o médico nutria pelo ídolo e mentor uma obsessão quase paranóica, e se esforçou para manter com ele uma relação exclusiva, que alguns interpretam como sendo de natureza homoafetiva. A reação de Byron às constantes investidas de Polidori era voltar-lhe um desprezo disfarçado por zombarias impiedosas. Com toda certeza isso contribuiu para levar o pobre projeto de poeta ao suicídio, anos depois.
            A improvável trupe viajou até as margens do Lago Genebra, onde se instalou em uma propriedade de dois andares, uns cinco ou seis quartos, cercada de vinhedos, com os Alpes ao fundo e o Monte Jura à frente, chamada Villa Diodati (na verdade, apenas Byron, Polidori e os criados passaram o verão ali. Os Shelley se hospedaram em uma casa vizinha, a Villa Chapuis). Foi ali que Byron comporia mais tarde o terceiro canto de sua obra “Childe Harold”, mas hoje ela é mais conhecida por ter sido o local da gênese dos dois maiores personagens de terror da história da literatura.
            Devemos a um dia tempestuoso de verão essa criação, cujos detalhes fazem hoje parte da lenda. Na tarde e no anoitecer de 16 de junho, o grupo se refugiou na casa de Diodati para se proteger da chuva, dos relâmpagos e da ventania que varria a região do lago. Não se sabe ao certo o que se passou naquele dia fatídico. Embora se refiram à data, os diários de Mary, Polidore e Claire contêm algumas lacunas que, dois séculos depois, serviram de alimento fértil para a imaginação desenfreada dos biógrafos e historiadores (e cineastas, como o mencionado Ken Russell). O que se sabe com relativa certeza é que, para espantar o tédio, Byron começou a ler um volume de contos de terror com o sugestivo título de “Fantasmagoria, ou Coleção de Histórias de Aparições, Espectros, Fantasmas etc”, seguido da recitação de “Christabel”, um poema inacabado de tons sobrenaturais escrito por Samuel Taylor Coleridge. No ponto mais dramático da leitura, um raio atingiu uma árvore ali perto, o que serviu de pretexto para que o assunto passasse a ser o galvanismo e as estranhas experiências de ressurreição de vermes e anfíbios empreendida por cientistas como Erasmus Darwin (avô do célebre criador da Teoria da Evolução) por intermédio da eletricidade. O episódio do raio que atinge uma árvore numa noite de tempestade certamente teve um grande impacto na mente da autora, que depois o inseriu em seu livro como pretexto para fazer com que Victor Frankenstein se interessasse pelo tema do galvanismo. Ao que tudo indica, o dia foi regado a doses generosas de bebida e ópio, o que levou Shelley a sofrer uma alucinação com uma mulher que tinha olhos em lugar de mamilos (segundo alguns estudiosos, contudo, tanto esse incidente quanto a leitura de “Christabel” teriam ocorrido dois dias depois, não naquela noite). Para fechar a noitada, Byron propôs que cada um dos hóspedes escrevesse uma história de fantasmas.
            Shelley chegou a produzir um texto, “Fragmento de uma História de Fantasma”, em que uma avó observa um fantasma feito de cinzas. Mas foram mesmo as obras de Polidori e Mary que permaneceram. Provavelmente tendo Lorde Byron em mente, Polidori começou a traçar as linhas de seu “O Vampiro”, que só seria publicado após três anos, e ainda assim assinado pelo ilustre poeta. Só muito tempo depois a autoria do médico sobre a obra foi reconhecida e “O Vampiro” se tornou um dos precursores do “Drácula”, de Bram Stoker, décadas depois (para mais detalhes, leiam o meu artigo sobre o livro “Drácula”, também publicado neste blog).
            Assim como aconteceria posteriormente com o lendário conde chupador de sangue, Frankenstein foi sugerido à sua jovem criadora por um pesadelo ocorrido naquela mesma noite de 16 de junho de 1816. A narração que descreve esse sonho continua viva e impressionante hoje como deve ter parecido à jovem naquela ocasião. “Quando pus a cabeça no travesseiro, não dormi, nem pude sequer pensar”, relatou ela na introdução da edição de 1831 do livro. “E eu vi”, prosseguiu ela, “o pálido estudante das artes nefandas de joelhos diante da coisa que ele queria juntar. Vi o odioso fantasma de um homem estendido, que então, sob o efeito de alguma poderosa máquina, mostrou sinais de vida, e se agitou com inquietação, fazendo um movimento estranho, apenas meio-vivo (...) [o estudante] adormeceu, mas ele acordou; abriu então os olhos; ali estava a coisa horrível, em pé ao lado do seu leito, abrindo as cortinas e fitando nele seus olhos amarelos, lacrimejantes e perscrutadores”.
            Daquela noite fatídica em diante, Mary se dedicaria à escrita de sua obra-prima. “Frankenstein” foi concluído de maneira relativamente rápida. Antes do final de 1816, a escritora dava os retoques finais no livro. Mas o caminho até a publicação, que só veio a acontecer em 1818, estava destinado a ser um vale de lágrimas. O próprio Byron predisse que a desgraça seria a companhia de todos os que se envolvessem com ele e, de uma maneira sinistramente profética, a morte violenta ou o suicídio marcaria as vidas de todos os hóspedes da Villa Diodati. Naquele mesmo ano de 1816, poucos meses após o retorno de Mary e o Shelley à Inglaterra, a meia-irmã mais velha da escritora, Fanny Imlay, cometeu suicídio emborcando meia garrafa de láudano. Outro suicídio, ainda mais devastador para o jovem casal, ocorreu em dezembro. No bairro de Kensington, também em Londres, a polícia encontrou em um rio o cadáver de uma mulher em avançado estado de gravidez. Tratava-se de Harriet, a ex-esposa de Shelley e mãe de seus dois filhos (para complicar a situação, em janeiro de 1817 Claire deu à luz uma filha ilegítima, que a própria mãe não sabia se era de Byron ou de Shelley).
A partir de então, a morte cortejou bem de perto a vida de Mary. Nos anos que se seguiram, ela engravidou mais de uma vez de Shelley, que agora havia oficializado o casamento com ela e, em quase todas as ocasiões, a pobre autora parecia condenada a enterrar os filhos. Abortos e mortes prematuras se tornaram uma constante em suas vidas. Talvez o maior choque tenha sido a perda do pequeno William, vitimado pela febre romana de 1819. Percy Florence, nascido naquele mesmo ano, foi o único filho do casal que vingou.   
Numa funesta comprovação da profecia de Lorde Byron, um a um os membros masculinos da trupe foi ceifado da vida. O primeiro a tombar foi Polidori, que em 1821 deu fim às tormentas psicológicas ingerindo uma dose generosa de ácido prússico. Mas o pior ainda estava por vir. Um ano depois, em julho de 1822, Shelley saiu para velejar com um amigo e um marinheiro ao encontro de Byron na costa italiana. Uma tempestade atingiu a embarcação próximo à Via Reggio e nenhum dos passageiros sobreviveu ao naufrágio. Dois anos depois, foi a vez do autor de “Childe Harold” sair de cena. Byron foi vitimado por uma febre que o afligiu na Grécia quando ele estava naquele país envolvido, de armas em punho, na luta dos gregos contra a dominação turca. Viúva e com Percy, o único filho de seu casamento que lhe restava, Mary Shelley permaneceu solteira até o resto da vida até falecer em fevereiro de 1851, com 54 anos.
É bem verdade que a maior parte dessas fatalidades ocorreram muito depois da publicação de “Frankenstein”, mas o prenúncio delas já era evidente no próprio espírito de Mary. Como vimos, desde cedo, a jovem autora manifestou uma personalidade discreta, com fortes traços de morbidez e uma depressão recorrente que pareceu ter herdado da mãe. Esse tipo de comportamento absolutamente não era incomum nos primórdios do século XIX, quando a primeira fase do romantismo, de características marcadamente melancólicas e trágicas, imperava. Como vimos, tanto Byron quanto Shelley, os dois maiores expoentes do período, possuíam o caráter que hoje costumamos denominar de “gótico”, uma combinação de um típico sentimento juvenil de inadequação ao mundo contemporâneo com o gosto por histórias sobrenaturais, e que ajudou a batizar essa corrente literária.
Mas não devemos nos apressar em considerar “Frankenstein” um mero representante do gótico na literatura inglesa. Apesar do clima soturno e das constantes referências à morte, a castelos medievais e a mistérios alquímicos, o livro também deve ser visto como a obra inaugural de um novo gênero literário, que então ainda não tinha nome e só seria devidamente batizado um século depois. O escritor americano Isaac Asimov acertadamente classificou a obra como o primeiro e legítimo exemplar da ficção científica. De fato, se nos atermos à definição mais genericamente aceita de fc, uma obra artística que elabora de forma científica ou tecnológica os nossos medos e desejos mais profundos, então não há dúvida de que “Frankenstein” se inscreve nessa corrente. Em contraposição ao “Drácula” de Bram Stoker, que é uma clássica peça de horror, o livro de Mary Shelley extrapola os limites desse gênero ao descrever a criação de um homem artificial por intermédio de métodos que, embora escassamente descritos, são indubitavelmente científicos (ainda que a base na qual a escritora tenha se servido, o galvanismo, já esteja há muito superada, isso não tem importância. O que vale é que ela se eximiu de lançar mão de explicações metafísicas ou sobrenaturais para trazer a criatura à vida. É por intermédio de máquinas e não de rituais ou invocações sobrenaturais que isso acontece).
O próprio romance parece consciente dessa mudança. Na juventude, Victor se sente atraído pela magia e pela arte de alquimistas como Agrippa e Paracelso. Depois, deixa esses autores de lado e se entusiasma com os mistérios da eletricidade, da matéria e da física. Finalmente, graças a um professor na universidade, aprende as primeiras lições de química e vislumbra a possibilidade de empregá-la para descerrar os mistérios da criação. A discussão entre a validade das duas abordagens científicas na investigação da natureza, a física e a química, era suficientemente relevante naquele início do século XIX para que Mary Shelley a representasse na disputa entre Victor, fervoroso defensor dos recursos da física, e o seu mentor, que prega a supremacia da química. Um exame apressado do livro pode nos levar à conclusão de que se trata somente de uma história de fracassos. Victor Frankenstein fracassa em sua tarefa de criar a vida a partir da morte, a criatura fracassa em seus esforços para se fazer aceito pela sociedade e amado pelo criador. No fundo, “Frankenstein” é profundamente conservador, e ressalta as possibilidades nefastas da ciência que ousa ir além dos limites da ética e do bom senso. Contudo, se dependesse apenas desse valor de face, o livro há muito teria sido deixado de lado.
Com relação ao papel que o marido de Mary teve no resultado final de seu romance, só nos cabe especular. A própria escritora anotou em seu diário que, em 14 de maio de 1817, Shelley corrigiu o livro, escreveu o prefácio e deu a última palavra. É fácil perceber que muitas das preferências literárias de Shelley e a sua influência sobre a jovem autora acabaram penetrando a tessitura do texto. O próprio subtítulo da obra, “O Prometeu Moderno”, já indicava a paixão dos poetas românticos pelas tragédias gregas que Shelley compartilhava com ardor infinito. Também é impossível não notar as recorrentes citações e alusões ao “Werther”, o clássico do romantismo do alemão Goethe, e ao “Paraíso Perdido”, de Milton, um dos livros de cabeceira do poeta. Mas a influência desse poema épico é mais profunda do que pode parecer. A narrativa da queda do homem no pecado e a sua expulsão do Jardim do Éden e a magistral personificação do orgulho e da revolta nesse Satanás que é um dos personagens literários mais fascinantes de todos os tempos forneceram o tema central do romance e ajudaram a moldar a personalidade conflituosa de seus protagonistas, tanto do criador quando da criatura. Certamente, o caráter solitário e atormentado da criatura criada com retalhos de seres humanos tem tanto da personalidade do marido de Mary quanto de Byron, e o seu desejo em ser aceito em uma sociedade que o repudia se adequavam ao que provavelmente os dois literatos sentiam na própria pele.
Não seria exagero dizer que a criatura de Frankenstein é um parente próximo do Heathcliff, o anti-herói atormentado de “O Morro dos Ventos Uivantes”, outro exemplar do gótico do século XIX (o caso de amor de Heathcliff e Catherine, naquele clássico, parece ter sido prenunciado pela paixão entre Victor Frankenstein e a sua prima Elizabeth), e de Edward Rochester, o temperamental e exigente protagonista de “Jane Eyre”. Essas e outras reverberações literárias nos informam do verdadeiro caráter de “Frankenstein”. Um livro que só poderia ter sido escrito por uma mulher, pois somente as mulheres são capazes de gerar a vida em seus ventres, um tema a respeito do qual elas têm muito a ensinar aos homens.
Muito além de um livro destinado a provocar o medo ou a repulsa dos leitores, trata-se de um conto moral, com insuspeitos questionamentos filosóficos existenciais. Ao vir ao mundo (ou voltar à vida, dependendo de como se interprete a história), a criatura é um ser naturalmente bom, inocente e estranho a toda maldade. Um Adão imbuído de bondade que anseia ser amado pelo seu criador e que se sente rejeitado e excluído quando ele o repudia. Abandonado e só no mundo, a criatura entra em contato com a sociedade, que rapidamente trata de evitá-lo, o que o leva a ser ao mesmo tempo um Adão expulso do Paraíso e o seu filho Caim ao matar o irmão mais novo de Victor. Pode-se enxergar em sua trajetória a incorporação das teorias roussounianas do “bom selvagem” e da natureza primordialmente bondosa da humanidade. Mas também é possível ver nele, sobretudo a partir das desilusões com o mundo e a reação violenta a ele, a personificação da própria morte, terrível, decrépita e destruidora, um agente do caos e da desordem.
Temido e perseguido, ele se refugia nos Alpes suíços, e é nesse ponto da narrativa que podemos detectar o tema que subjaz a toda a obra. Talvez mais do que a discussão em torno da criação da vida a partir da morte empregando recursos “científicos” ou racionais no lugar da magia e do misticismo, e do próprio significado do termo “vida”, “Frankenstein” fala da profunda solidão do ser humano, de uma alma de pureza original que almeja se elevar ao plano divino mas se vê enclausurada num corpo feito de matéria corruptível. A busca da amizade, de alguém com quem compartilhar os seus pensamentos mais profundos, temores e anseios, não é nada mais que a nossa própria procura incessante por escapar de nós mesmos e interagir com os outros seres humanos, dissolver a nossa individualidade na coletividade. A própria escritora sempre foi uma mulher solitária, que vivia uma existência, se não de reclusão, reservada, avessa às badalações do convívio social, e talvez, em seu íntimo, se ressentisse disso.
Um comportamento que não deve ter escapado ao olhar atento do próprio Shelley, que se encarregou de procurar editores para o romance e preferiu esconder o fato de que ele havia sido escrito por uma mocinha de apenas 19 anos. “Frankenstein” foi publicado em março de 1818, em três volumes, por uma editora especializada em livros sensacionalistas e ocultistas (nada menos apropriado, diga-se de passagem), e não trazia o nome da autora na capa nem na página de rosto. Conquanto fosse dedicado ao pai de Mary, William Godwin, e tivesse a chancela de Shelley, a obra foi rapidamente destroçada por uma parcela da crítica, que a considerou “o sonho de um louco, vazado na linguagem de um louco”. Mesmo assim, o livro foi acolhido com algumas resenhas favoráveis (provavelmente, porque o consideravam um trabalho da pena de Shelley), o que ajudou a torná-lo um relativo sucesso nos meses seguintes. Seja como for, o êxito da publicação a levou a ser adaptada para os palcos, numa versão teatral bastante apelativa, bem de acordo com o gosto popular da época, e isso ajudou no lançamento de uma segunda edição, revista e melhorada, do texto original. Foi essa versão teatral, alterada e modificada até desfigurar-se, que chegou ao século XX, quando o cinema se apropriou do “Frankenstein” trágico, solitário e melancólico e o converteu num monstro abrutalhado, de mente doentia e assassino. Um conto de fadas simplista e primário para aterrorizar as crianças, enfim.
            Dois séculos de recriações e distorções fizeram com que o livro original (mas não o seu personagem principal) ficasse relegado ao quase esquecimento. Os pressupostos básicos da duvidosa ciência que Mary Shelley escassamente descreve há muito já foram descartados (embora, como se sabe, a ressuscitação por intermédio da eletricidade seja prática corriqueira da medicina moderna). Mas, se voltarmos às suas páginas e soubermos apreciar a voz de uma época há muito passada e a profundidade filosófica e poética de que ele está imbuído, então o livro, como a sua criatura famosa, é capaz de reviver repleto de energia criativa.
    
São Paulo, 12 de outubro de 2015



             

terça-feira, 6 de outubro de 2015

A busca pelo Paititi - onde estaria o tesouro perdido Inca



Brasil, últimas décadas do século XVI. Uma terra ainda desconhecida, em sua maior parte inexplorada, cercada de mistérios e mitos. Terreno fértil para toda a sorte de aventureiros oriundos do Velho Mundo em busca de fortuna fácil. Durante o primeiro século da conquista, os europeus devastaram as matas atrás do precioso pau-brasil ou de animais exóticos para serem traficados. Quando não estavam em busca de riquezas naturais, promoviam incursões armadas a aldeias indígenas para capturar os chamados “Negros da Terra”, os escravos nativos que iriam fornecer a mão de obra necessária ao mercantilismo lusitano. Nesse cenário nada auspicioso, de olhares desconfiados, espadas afiadas sempre prontas para serem desembainhadas à menor provocação, traições e escaramuças em cada curva do caminho, é que se passa a trama de Os Conquistadores, o novo livro de Marco Moretti.
O romance narra a jornada épica de um grupo de sertanistas pelo coração da Terra de Santa Cruz em busca do Grande Paititi, o lugar onde estaria escondido o lendário tesouro perdido inca. Capitães-gerais cegos de ambição, um frade jesuíta perdido entre a fé vacilante e os impulsos de liberdade inspirados pelo exuberante cenário do Novo Mundo, um jovem indígena destemido e intrépido, imbuído de uma missão enigmática, um velhote fanático e aparentemente louco, que parece ocultar um segredo inconfessável, um alferes que procura pistas do irmão perdido em uma expedição desaparecida nas entranhas da selva, um muçulmano que carrega lembranças incômodas do passado, além de escrivães, mamelucos e degredados dispostos a quaisquer baixezas para obter ouro e riquezas. Esses são alguns dos personagens dessa saga que leva o leitor a uma impressionante aventura pelo interior de nosso país, através do lendário caminho do Peabiru, a mítica trilha dos índios tupiniquins. 
Em meio à viagem, esses homens ambiciosos e sedentos de glória e fortuna a qualquer preço terão de transpor uma série de obstáculos (conflitos com tribos hostis, doenças letais, feras e a barreira natural do clima e do relevo), encarar acontecimentos estranhos, por vezes terríveis, por vezes bizarros, por vezes maravilhosos, e, sobretudo, o mal disseminado no âmbito da própria expedição e que acabará por conduzi-los ao encontro da perdição e da morte. Uma jornada fantástica e surpreendente, em que nada é o que parece ser e na qual os fatos revelam-se muito mais estranhos do que podemos sequer imaginar.

domingo, 4 de outubro de 2015

Confira a versão completa do meu conto "A Assunção de Frei Damião"




A ASSUNÇÃO DE FREI DAMIÃO

Por Marco Moretti
“Excelsior!”
Júlio Verne, Cinco semanas em um balão

"Ícaro", pintura de Henry Matisse - Fonte: Wikipedia

Uma criança de 7 anos. Ingênua, sonhadora, feliz. Era assim que Frei Damião estava se sentindo naquela manhã auspiciosa de primavera, o sol forte ofuscando a vista, o calor nem sufocante, nem tolerável. Toda a expectativa daquele momento, a insuportável ansiedade diante do lançamento iminente, o deixavam agitado, irrequieto, ainda que estivesse impedido de mover um dedo sequer. A excitação era tamanha que, como um menino contando os minutos à espera da chegada do Papai Noel na noite da véspera de Natal, o religioso sentiu vontade de urinar nas calças. Não o fez porque isso o envergonharia, mas porque achou que um ato desses estragaria a solenidade da ocasião.
Entretanto, nem sequer era medo o que dominava o seu espírito. Absolutamente. A oportunidade de alçar voo, digamos assim, pelos próprios meios, o fazia se imaginar meio angelical, mesmo sem dispor das asas de penas de pomba de um querubim de Fra Angelico[1], e ainda que o seu corpo fosse constituído de carne, osso e sangue, a mera sensação de poder flutuar no vazio do espaço, pairando solitário sobre o barro da Criação, seria uma experiência epifânica para ele.
Os três irmãos da ordem que o auxiliavam nessa empreitada remexiam-se daqui para lá, ocupados em encher de gás hélio as últimas bexigas de festa coloridas, enquanto dois meninos que prestavam auxílio tratavam de amarrá-las ao “arreio” de couro que Frei Damião tinha cuidadosamente prendido em torno da cintura e por entre as pernas. Quando tudo estivesse pronto, dentro de poucos minutos, bastaria que ele soltasse a corda que segurava, presa a uma argola enterrada no gramado do campinho de futebol, o único da pequena Tremembé, diante da qual os contrafortes da Serra da Mantiqueira se desenhavam esmaecidos ao longe, para que começasse a lenta mas segura ascensão aos céus.
Nos meses e nas semanas que antecederam o “lançamento”, quando a planejada jornada era pouco mais do que um devaneio numa noite de inverno, ele pensou ser dono de todas as certezas, de todas as ambições desmedidas que o moviam, mas agora, quando estava prestes a alçar voo, constatou que tinha se enganado. Mal saberia dizer o que o motivou a empreender aquele desatino, e se arrependimento não fosse uma palavra demasiada injusta, poder-se-ia aplicá-la aos seus sentimentos nas últimas horas. Nas infinitas confabulações que manteve com os amigos e, sobretudo, consigo mesmo, indagou-se se o desejo de chegar ao Céu, de esquadrinhar com os olhos nus a majestade divina, de alcançar, enfim, o Paraíso ainda em vida, não seria apenas o anseio exagerado de alguém que buscava a todo custo a redenção dos pecados por uma via direta.
Quando, finalmente, a última das mil bexigas foi enchida e atada à cinta de couro, todas as fivelas foram verificadas pela última vez, o ousado aventureiro e os frades e os seus ajudantes deram-se as mãos e rezaram um último Pai Nosso e uma última Ave Maria de despedida. Em seguida, os irmãos abraçaram o corajoso companheiro voador, desejaram-lhe breves e emocionados votos de boa viagem e se afastaram meia dúzia de passos, à espera da partida.
Frei Damião ergueu os olhos para o alto. O firmamento estava incomumente azul e praticamente desprovido de nuvens, com exceção de algumas formações esparsas bem ao longe, a leste, sobre a encosta da serra. Somente uma brisa suave quebrava a placidez dessa cena e fazia as bexigas balouçarem para lá e para cá numa ginga preguiçosa.
O momento da ascensão chegou sem sustos. O religioso limitou-se a abrir os dedos e deixar escapar as pontas das cordas que o atavam ao solo, ao mundo rude da matéria sólida. Quase que imediatamente, os seus pés já não estavam em contato com a relva, e um tranco vigoroso o puxou para cima. Imaginou que essa devia ser a sensação que se experimenta quando a nossa alma sobe ao céu quando morremos.
Suavemente, o campinho foi se afastando dele. Os irmãos e os meninos encolhiam como se estivessem numa máquina de miniaturização, e tudo parecia ficar gradualmente menor, liliputiano[2], ananicando-se. Logo, Damião percebeu que estava a uma altura considerável, talvez a uns vinte, trinta metros. Também notou que, aos poucos, o horizonte, antes reto como uma régua, foi se curvando, como se visto através de uma lente grande-angular. A rodovia que passava próxima ao terreno, as casas que o cercavam, as montanhas bem ao fundo, tudo ia se distorcendo e ficando ridiculamente insignificante. O religioso experimentou então uma sensação que, naquele momento, não soube definir, mas teve a intuição de que era boa.
Também se deu conta de outra coisa, algo tão ou mais estranho do que a curvatura visual. Gradativamente, os ruídos, os pequenos barulhos que costumam nos cercar no dia a dia ao rés-do-chão foram se apagando. A quase um quilômetro de altitude, era tudo tão quieto, tão silencioso, que uma sensação de paz avassaladora invadiu o espírito de Frei Damião. “Então é assim que se sentem os bem-aventurados e os anjos de Deus? Que sensação maravilhosa”, pensou ele, os olhos marejados, embargado de emoção. Pois para ele essa subida ao céu tinha um significado mais profundo do que uma simples experiência física. Era uma maneira de conhecer a graça de Deus atribuída a Nossa Senhora, a Virgem Maria, que, segundo antigas tradições, foi elevada para junto de Deus de corpo e alma. Pelos dogmas da Igreja, uma assunção, e não uma mera ascensão.
Em questão de minutos, atingiu uma distância considerável, muito acima da mais alta montanha que o cercava. Naquele ponto privilegiado, faziam morada os mais ousados pássaros e as ventanias rebeldes ganhavam ímpeto, carregando-o para longe do ponto de partida. Logo, já não avistava mais o campinho de futebol, a estrada, as casas, e até mesmo a cidade acabou por se tornar uma disforme ferida na planície distante.
Deixar-se levar pelo vento, vagar a esmo qual uma folha pelo espaço, era o mais próximo que ele podia esperar chegar de vislumbrar a glória do Senhor. Não era a mesma sensação de estar acima das nuvens num avião, balão ou qualquer outro artefato humano. Não, era algo bem diferente disso. Um prazer inenarrável, de liberdade, de gozo, dominava os seus sentidos. Ah, se pudesse transmitir o que estava passando, expressar a emoção daquela experiência. Mas para quem, senão para ele mesmo e a sua consciência?
Pela primeira vez em muito tempo, ou talvez pela primeira vez na vida, conheceu a solidão. Flutuando graciosamente no éter, incapaz de ver outro ser humano daquela altura estonteante, sentia como se o mundo palpável, aquilo a que nos acostumamos a chamar de realidade, artificialmente construído sobre e em torno de nossos semelhantes, das edificações, das manifestações culturais, dos gestos, olhares e palavras tão humanos, havia se esvanecido, obliterado por uma bomba de nêutrons. Frei Damião não conseguiu evitar a ideia de que era o último homem sobre a face da Terra, o derradeiro rebento de Adão que teve o privilégio de sobreviver à extinção de sua espécie.
Uma rajada de vento o afastou desses pensamentos e para mais longe ainda do ponto de partida. Rapidamente, transpôs a cadeia de montanhas que separava o planalto da costa e foi arrastado, a uma velocidade crescente e estonteante, em direção ao mar azul-esverdeado, que se descortinava a poucos quilômetros milhares de metros abaixo.
Incapaz de distinguir qualquer construção feita por mãos humanas, e agora absolutamente abandonado e jogado a esmo pelas forças elementares da natureza, passou a achar que detinha outro tipo de privilégio. Uma impressão, se se preferir chamar assim, de que Deus o escolheu em particular, entre milhões de almas, para um propósito especial. E ele só podia adivinhar qual seria esse propósito.
Contemplar, de um ponto de vista especial, ao qual somente ele, Damião, e mais ninguém teria acesso, a perfeição e a magnitude da Dele. Ao ver o mundo abaixo transformado em uma poça indistinta de terra e água, como se todos os rios, colinas, praias, florestas e desertos fossem pouco mais do que um presépio de papelão, o jovem frade teve o vislumbre de nossa mediocridade. Mais do que isso, compreendeu de maneira imediata a completa inutilidade de nossos atos, dos esforços mais nobres aos mais vis. Então, todas as sangrentas lutas da humanidade pela paz ou pela liberdade, pelo amor e pela igualdade, não significavam nada? Eram pouco mais do que pó disperso diante da imensidão do Cosmo?
O religioso amargurou-se com a sugestão de que mesmo os maiores propósitos de que um santo é capaz pouco ou nenhum efeito surtiam no esquema geral das coisas. E a essa constatação, outra atrelou-se, incômoda. “Somos tão inúteis quanto uma partícula de areia carreada pelo vento. O universo continuará sendo o que é tenhamos nós existido ou não”, assombrou-se. Milhares de anos de história não valeram para nada.
Cogitou se o ar rarefeito daquelas altitudes não estaria afetando o seu raciocínio. Foi somente depois de muito cismar nessas coisas que Frei Damião teve a percepção de que cometia um grande equívoco. Pensar desse jeito, tentando interpretar à sua maneira as intenções do Criador, chegava às raias da blasfêmia. Quem era ele para “ler” a vontade de Deus no mapa da Criação que se descortinava lá embaixo? Com que topete podia se arvorar a “traduzir” a obra divina para os seus próprios e mesquinhos pontos de vista? Ele, logo ele, Frei Damião, uma formiga ao pé de gigantes? Aquilo era soberba das grandes, e isso, o jovem sabia bem, é um dos sete pecados capitais.
“É inútil”, pensou, mirando diretamente o sol rutilante imediatamente acima, como se fosse o olho ciclópico de Deus a julgá-lo do alto de seu trono celestial, “nascemos para o pecado, estamos destinados a ele. É da nossa natureza errar sempre”, refletiu, ao mesmo tempo em que emprestava a esse pensamento uma certa melancolia. A lógica enviesada do raciocínio levou o frade a se indagar se não estaria ele também cometendo um enorme equívoco ao pretender essa aventura temerária.
Sim, ele havia agido com suprema soberba quando achou que tinha o direito de se elevar até a morada celestial, de por-se no mesmo patamar da mãe do Salvador. Era como tentar espreitar a face do Pai, ou, ao menos, encostar os dedos trêmulos em seu manto. Na verdade, isso era mais do que um simples pecado, era uma heresia. Em outro tempo e outro lugar, teria sido queimado vivo pela ousadia de sequer imaginar esse feito. Havia agido com imprudência, a mesma imprudência que provocou a queda do homem...
Decididamente, o seu lugar não era ali, sobrepairando a meio caminho entre a existência e a transcendência. “Eu não mereço estar aqui, não tenho direito a receber essa graça”, amargurou-se Damião, “Lúcifer também pagou o preço pela impertinência de desafiar a vontade de Jeová”, concluiu, penitenciando-se por não perceber isso antes. Ele sabia, no íntimo de seu ser, que só havia um jeito de remediar esse mal, um único e decisivo castigo que haveria de ser aplicado sobre a sua infeliz cabeça. E não tinha dúvidas de que devia ser a mesmíssima punição que recaiu sobre o anjo rebelde e as suas hostes.
Num gesto impulsivo, mas de modo algum irrefletido, o religioso desatou os nós que prendiam as cordas das bexigas à cinta de couro que o cingia. Quase no mesmo instante, desprendeu-se das bolas coloridas que o sustinham no ar e despencou no vazio. A queda não foi imediata e menos ainda isenta de sofrimento. Ele estava a uma altura tão incomensurável, tão vertiginosa, no limiar da estratosfera, que a descida só poderia ter sido dramática. A gravidade, ciumenta daquela reles criatura que ousava romper os liames com a Terra e arranhar o espaço sideral, puxou-o de volta como num abraço mortífero. A aceleração crescente transformou-o num bólido humano, e ele ardeu com a intensidade de uma cápsula Mercury[3] ao reentrar na atmosfera. Evidentemente, volatilizou-se no ar antes de alcançar a superfície, mas aqueles que o viram cair, que conseguiram enxergar o brilho de seu rastro incandescente riscando o firmamento, acreditaram piamente tratar-se de um outro anjo que havia sido expulso do Paraíso.

São Paulo, 03 de outubro de 2015



[1] Pintor italiano que viveu entre os séculos XIV e XV, autor de afrescos icônicos como “A Anunciação”, criado entre 1437 e 1446.          

[2] Referência a Lilipute, a ilha fictícia povoada por minúsculos seres humanos do livro “As Viagens de Gulliver”, escrito pelo irlandês Jonathan Swift em 1726.

[3] Um dos primeiros modelos de nave espacial desenvolvido pela NASA, nos anos 1960.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

“Os conquistadores” é um romance que conta a história do Brasil

Após quase três anos depois de lançar seu primeiro romance juvenil, o professor e jornalista Marco Moretti volta ao mercado editorial e lança, no dia 24 de outubro, na Livraria Martins Fontes, da Avenida Paulista, 509, térreo, entre 15h30 e 18h00, seu segundo livro. 


“Os Conquistadores” é um romance com cenário no Brasil Colônia envolvendo sertanistas que saiam à procura de tesouros perdidos para fazer fortuna e alcançar a riqueza pelas matas brasileiras. Entre os dramas, tragédias pessoais e tramas para estar no comando do grupo, um romance se instala entre as personagens. Para relatar os acontecimentos, o autor usou pesquisas e referências históricas, além de usar suas próprias inspirações, para dar sequência a fatos e momentos vividos pelas personagens.

Livro relembra as expedições sertanistas na época da Colônia para chegar aos males do Brasil atual

Durante o século XVI, os europeus devastaram as matas brasileiras atrás do precioso pau-brasil e de animais exóticos para serem traficados. Quando não estavam em busca de riquezas naturais, promoviam incursões armadas a aldeias indígenas para capturar os chamados “Negros da Terra”, os escravos nativos que iriam fornecer a mão de obra necessária ao mercantilismo lusitano. É nesse cenário nada auspicioso, de olhares desconfiados, espadas afiadas sempre prontas para serem desembainhadas à menor provocação, traições e escaramuças em cada curva do caminho que se passa a trama de Os Conquistadores. Trata-se do segundo romance do jornalista e professor Marco Moretti, mestre em Comunicação Social pela USP.

O livro, editado pela Novo Século, chega às livrarias no mês de outubro para fazer os leitores refletirem sobre os males de hoje no Brasil que começaram à época da conquista da Terra de Santa Cruz. “Os Conquistadores” remonta ao século XVI para mostrar os primórdios de problemas como a corrupção, a ambição desenfreada dos poderosos, o descaso com as populações nativas, a destruição ambiental, a imposição de uma cultura e uma religião estranha ao novo país. Moretti procurou ser o mais criterioso possível com as informações históricas contidas no livro, no qual muitos dados, nomes e procedimentos mencionados existiram de fato. O livro faz um mix de gêneros: aventura, épico histórico, suspense, mistério, fantasia, drama, tragédia. É direcionado para o público jovem ou adulto que gosta de uma boa história para prender a atenção e fazer refletir.

Para facilitar a leitura, o livro “Os Conquistadores” é dividido igualmente em duas partes. A primeira tem um tom mais realista, enquanto a segunda é mais fantástica e surrealista. Há um mistério na trama que só é revelado na última página e explica tudo o que aconteceu antes. A história principal relata a viagem dos expedicionários pelos nossos sertões em busca de um tesouro fictício, outras tramas se entrecruzam no caminho. A principal delas é um triângulo amoroso gay carregado de tensão, ciúmes, ódio e desejo de vingança.

Pode dizer-se que o diferencial do “Os Conquistadores” está na leitura com trilha sonora. Muitos capítulos, por exemplo, possuem uma sugestão para que o leitor acompanhe a leitura ao som de uma composição clássica (Beethoven e Tchaikovsky entre outros). Essas composições serão disponibilizadas no blog do autor (www.diariodomoretti.com.br) e numa página do Facebook para quem quiser ouvir enquanto lê o livro e, futuramente, deverá estar na versão em e-book do romance. Além disso, o livro possui, em alguns trechos, grafismos que ajudam a dar um toque de originalidade à obra. Numa sequência, por exemplo, um dos personagens perde a consciência e as páginas então escurecem gradualmente até ficarem completamente negras. Esses grafismos correspondem, no cinema, à divisão em múltiplas telas que mostram acontecimentos simultâneos, como na série de TV 24 Horas.

Outro aspecto importante do livro é a narrativa convencional intercalada com poemas. Há um poema dividido em estrofes e em versos decassílabos rimados, ao estilo dos antigos poemas épicos que eram escritos no século XVI, como “Os Lusíadas”, de Camões, e que serve de contraponto a trama principal.

Sobre o autor
Jornalista, Mestre em Comunicação Social pela USP e coordenador e professor do curso de Jornalismo na Universidade Paulista (Unip), Marco Moretti trabalhou em diversos órgãos de imprensa, como o extinto jornal Folha da Tarde, e como editor-chefe na Editora Abril foi responsável por diversas publicações. O seu primeiro romance, Eu, Sumé, publicado em 2011 também pela Editora Novo Século, ficou entre os finalistas da categoria Juvenil do Prêmio Jabuti de 2012. Atualmente publica com regularidade contos e resenhas críticas de cinema, literatura e HQs em seu próprio blog, “Diário do Moretti” (www.diariodomoretti.com.br). Os Conquistadores é o seu segundo romance.

INFORMAÇÕES DO LIVRO
Título: Os Conquistadores
Autor: Marco Moretti
Gênero: Romance
Número de páginas: 480
Editora: Novo Século, São Paulo.
Preço: R$ 45,00
Data de lançamento: 24/10/2015
Local: Livraria Martins Fontes – Avenida Paulista, 509 – térreo – São Paulo
Horário: das 15h30 ás 18h30

 
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