e Confira a versão integral do conto "A Maldita sina de Aurélia Garcia" ~ Diário do Moretti
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domingo, 6 de setembro de 2015

Confira a versão integral do conto "A Maldita sina de Aurélia Garcia"




A MALDITA SINA DE AURÉLIA GARCIA

Por Marco Moretti

“Os céus e tudo o que está abaixo deles,
a Terra e suas criaturas, tudo muda,
e nós, parte da criação,
também devemos sofrer mudanças.”
Ovídio, Metamorfoses

"As Tentações de Santo Antão" - Pormenor - Hyeronimus Bosch - Fonte: Wikipedia

            Algumas pessoas honestas só o são por idealismo. Outras, por costume ou ingenuidade, quando não por cinismo. As desonestas, essas o são por convicção. Aurélia Garcia nutria pouca vocação para a santidade, não era nenhuma sumidade, nem possuía títulos ou estudos de monta, mas estava longe de ser uma besta sem remissão. Tampouco era uma dissimulada desavergonhada, que gostasse de se enfeitar toda de moralismos de cartilha e recatos de ocasião. Tinha marido de papel passado, um ente sempre ausente, perdido em suas andanças de vendedor de uma firma de produtos de limpeza pelas lonjuras de Minas Gerais. Quanto aos demais atributos, expressava sinceridade no falar e fazia uma bela figura de mulher, transpirando a sensualidade por cada poro do corpo bem recortado. Os feios bastam-se em sua hediondez. Os belos, não se contêm em sua formosura. Têm necessidade de expô-la, exibi-la aos olhares. Aurélia não precisava se esforçar muito para provocar esse efeito. A pele cor de bronze contrastava com os olhos claros oceânicos, cujo brilho intenso incendiava os desejos eróticos dos cavalheiros de respeitável aparência de São João Del Rei. Abriam alas para vê-la passar, rebolando faceira sobre o calçamento irregular, os peitilhos sacolejando negligentemente, as coxas lustrosas e torneadas mal escondidas sob o vestido florido curto, e punham-se a se agitar e a se debater na fúria da excitação, como potros presas do frenesi do acasalamento ao sentirem o odor inebriante de uma fêmea no cio.
            Aurélia Garcia fazia questão de emprestar pouca ou nenhuma atenção aos machos que a assediavam às margens das ladeiras íngremes da cidade, e seguia saracoteando por todos os caminhos que invariavelmente a conduziam, sempre às quintas-feiras, à igreja de Nossa Senhora dos Aflitos. Singularmente bela, construída na época das Inconfidências e dona de um estilo barroco que seria obra do próprio Aleijadinho, conforme prestava contas a tradição local. Sob o seu teto de madeira carcomida pelos cupins e à sombra das paredes infiltradas de bolor, lá refugiava-se ela semanalmente para desfiar o rosário, rezar a Salve Rainha e prevaricar.
            A princípio, era apenas em pensamento que se entregava ao furor carnal do pecado, um furor que se alastrava por todo o seu corpo de mulher jovem, saudável e insaciável, e que as orações tinham o poder de abafar, mas não extirpar de todo. Vira e mexe, sua imaginação vadiava pelos andores da missa do final da tarde, tomada pela mais febril lascívia, acirrada pelo odor dos círios candentes e a cantilena das filhas de Maria. Foi ali, em meio à fumaça e ao calor sufocantes que assolavam a igrejinha, que num dia de infeliz augúrio ela avistou Francisco, o belo Francisco.
            Era moço novo, recém-chegado à cidade e aos seus 24 anos, no auge, portanto, do entusiasmo, da beleza e da sedução. Os óculos de aros finos pouco serviam para esconder o ar de ingênua desfaçatez com que ele se refugiava dos olhares prenhes de desejo de Aurélia. Com os mesmos olhos que enlouqueciam os homens da cidade, ela o despiu de alto a baixo em sua mente, cobrindo sua boca carnuda de beijos incessantes e acariciando os cabelos morenos e o cavanhaque bem aparado de bom moço do interior. No relâmpago de um só instante, Francisco expulsou todos os outros homens de sua lembrança, inclusive o marido ausente, e reinou soberano em seu coração. Desse dia em diante, ambos passaram a se encontrar todas as semanas, sempre à mesma hora, durante a missa. Eram encontros informais, à toa, combinados com uma simples troca de gestos e olhares fugidios, mas que logo se travestiram em mútua admiração platônica, mantida à distância de uns poucos passos. Contemplação que, a meio caminho da Quaresma, converteu-se em irrefreável paixão.
            A imoralidade desse amor proibido, que prenunciava um escândalo de proporções bíblicas, não a desencorajava, antes a excitava, estimulando-a a divagar nas mais delirantes fantasias. Incapaz de conter o fogo que queimava as entranhas, Aurélia abordou o rapaz, determinada a entregar-se aos seus anseios mais profundos. Aconteceu logo após a missa, quando a igreja esvaziou-se do desvario religioso dos fiéis, expulsou os mendigos e cerrou as portas aos desvalidos, quedando em silêncio. Uma saleta oculta à vista de todos, escondida atrás da sacristia, sob a imagem piedosa do mártir São Pelágio, foi o cenário escolhido para a consumação da luxúria muda que acometia os dois jovens.
            Empenhados em desamordaçar a potência sexual que desabrochava em seus peitos, Francisco e Aurélia amaram-se como dois porcos no chiqueiro. Afoitos demais para perderem tempo se despindo, rasgaram-se as vestes num frêmito que só aumentou a atração incontida que sentiam um pelo outro. Atracaram-se a unhas e dentes numa paixão imoderada, ora beijando-se, ora mordendo-se freneticamente. Aurélia dilatava-se ante as carícias impetuosas do rapaz, que se sentia encorajado a prosseguir com ímpeto ainda maior. Gemiam, sussurravam palavras impronunciáveis, urravam de prazer. Incapaz de conter sua pulsão sexual, Francisco investiu com energia bestial, prisioneiro da própria volúpia. A urgência de seus hormônios em ebulição não lhes permitiu se precaverem. Atingiram o clímax numa exaltação de prazer que fez seus corpos se debaterem convulsivamente, entregando-se ao chão lambuzados de sêmen, encharcados de suor e de culpa.
            Escorreram alguns minutos até recobrarem as forças. Ainda trocaram algumas carícias antes de se erguerem e vestirem às pressas os trajes esfarrapados. Aurélia saiu furtivamente pelos fundos da igreja, e já ia noite de lua cheia quando abriu o portão de casa. Banhou-se, esfregando com força o cheiro viril do amante impregnado na pele até dissipá-lo por completo de seu corpo, mas não de sua memória afetiva. Alegre e faceira como era de seu costume, cantava alto debaixo do chuveiro uma de suas músicas prediletas.
Nas semanas seguintes, religiosamente às quintas-feiras e sempre no mesmo recesso atrás da sacristia, ela voltou a se entregar a Francisco com determinação canina, enlouquecida de tanto desejo. Os dois amantes repetiram vezes sem conta a experiência com uma intensidade que aumentava em progressão geométrica.
            A insaciável promiscuidade da adúltera só foi interrompida quando Aurélia desabou de cama, doente. Corria a semana da Páscoa, e ela ardia em febre alta, com dores por todo o corpo, desprovida de forças, vencida pelo desânimo e a tosse incessante. Preparou chás de toda e qualquer erva conhecida acompanhados de benzeduras que tiveram parco efeito sobre a doença que a acometia. Entre melhoras intermitentes e recaídas bruscas, seu estado delongou-se por semanas a fio, impedindo-a de consumar seus anseios prevaricadores com Francisco.
            Como demorasse a se restabelecer, Aurélia decidiu-se a procurar um médico. Um exame rápido e rasteiro no consultório revelou a existência de dois diminutos gânglios atrás das orelhas. O médico franziu a testa, numa mal-dissimulada preocupação, e solicitou um hemograma completo, acompanhado de tomografias da cabeça, do tórax e do abdômen. Ante as indagações da jovem, o médico refugiou-se em palavras rombudas de significado hermético e pronúncia difícil, esquivando-se de lhe dar um diagnóstico prematuro.
            A tudo Aurélia cumpriu com resignação, dócil, fiando-se que se tratava apenas de uma virose à toa que logo passaria.
            Mas os fatos desmentiam o vaticínio. A moça ia se debilitando a olhos vistos. Se sentia dores, contudo, não as manifestava. Podia escamotear o mal-estar com seu sorriso generoso, mas não conseguia impedi-lo de emanar através do olhar. Seus olhos, antes vivazes e coloridos, cobriram-se de uma sombra funesta, e ela já não mais se reconhecia ao fitar a si mesma no espelho. Era como se não fosse ela mesma, e estivesse se transformando em outra pessoa, uma entidade desconhecida que estava em gestação em seu interior. A beleza esfuziante ia gradualmente sendo substituída por alguma coisa que Aurélia não sabia dizer o que era, mas se tornava a cada dia mais perceptível diante de todos.
            Quando os exames ficaram prontos, Aurélia voltou ao médico. Depois de uma longa e silenciosa ponderação diante dos resultados do laboratório, ele coçou o cabelos grisalhos, confuso, pigarreou e somente então dignou-se a falar com sua paciente:
            - Dona Aurélia, seus exames estão aparentemente normais. Não há nada errado com a senhora.
            - Mas como então explicar minhas febres e dores pelo corpo, meus gânglios, doutor? – insistiu Aurélia, cobrando explicações.
            - Vamos fazer o seguinte: vou pedir mais exames específicos para detectarmos que tipo de vírus se alojou em seu organismo. Somente assim saberemos como combatê-lo com mais eficácia – prosseguiu o médico, rascunhando nova fornada de pedidos de exames.
            Aurélia submeteu-se a essa segunda sessão de torturas com disposição estóica. De nada reclamava, de nada se lamuriava, aceitava passivamente as injeções de contraste, os desconfortáveis raios-x, os jejuns inevitáveis. Quando os resultados ficaram prontos, tornou a levá-los ao consultório e se deparou com o mesmo ar de estupefação, a mesma incompreensão, o mesmo desconforto diante do inexplicável.
            - Deve ser um vírus raro, ainda desconhecido da ciência – arriscou ele. Na falta de um diagnóstico melhor, esse serviria a contento. Ao menos, lhe daria um bom pretexto para iniciar algum tipo de tratamento que atenuasse os efeitos da doença, fosse ela qual fosse. Receitou um coquetel de poderosos antibióticos, misturado a outras drogas, e advertiu para os efeitos nefastos que poderiam causar. Apesar dessas advertências, Aurélia reagiu mal aos remédios e passou um bom tempo sem poder comer, desfeita em enjoos e sonolências que tiravam-lhe o ânimo do espírito. Apesar de todo o sacrifício com que ela vinha imolando-se no altar da ciência, os medicamentos não pareciam surtir efeito algum.
Aconselhada pelas comadres rezadoras, Aurélia Garcia foi buscar refúgio ao abrigo dos padre-nossos e salve-rainhas. Quando esse recurso também não surtiu resultados, recorreu aos préstimos de meia dúzia de benzedeiras. Banhos de sal grosso, rezas com galhos de arruda, beberagens feitas de ervas e toda espécie de conjurações a ajudaram a recuperar o ânimo por um breve período. Logo, os sintomas agourentos da doença voltaram a rondar ameaçadoramente a jovem, e agora começavam a se fazer sentir em sua própria alma.
            Aos distúrbios físicos somou-se uma sensível mudança de comportamento. A cada nascer do sol, a personalidade de Aurélia Garcia foi ganhando aspereza, já não sorria com a mesma frequência e generosidade, nem se preocupava em atiçar os ânimos viris dos machos da cidade. Antes foi se tornando gradualmente mais determinada e menos disposta a ceder em seus caprichos. Teimava com tudo e com todos, fazendo questão de impor suas desmesuradas pulsões acima das vontades alheias. Empacava diante de qualquer contrariedade e não arredava pé de suas opiniões ainda que por força de insistentes súplicas. Também não recuava diante das ameaças, reagindo resolutamente à altura das ofensas que sofria. Tamanha caturrice teve por único efeito afastar os amigos, que aos poucos se cansaram de seu gênio arredio e a abandonaram à própria sorte.
            Sozinha em sua casa, sem marido para consolá-la e os amigos ausentes para confortá-la na dor, sentou-se ao toucador e contemplou a avassaladora inutilidade de sua existência. Desabou em um choro convulsivo e incessante, que soava ao zurrar de um burro, grave e lamentoso. Assustada com o som das próprias lamentações, que fez até mesmo o espelho tremer, calou-se aturdida. Esse foi seu segundo maior susto naquele dia. O primeiro aconteceu quando lançou os olhos nos braços e notou algo incomum neles. Algo tão aterrador que um frio percorreu sua espinha de alto a baixo.
A princípio achou tratar-se de uma mancha de sujeira à toa e esfregou forte, mas isso de nada prestou. Olhando mais detidamente, percebeu tratar-se de uma pelugem estranha e amarronzada que brotava da pele. Rala, quase não se podia notá-la à primeira vista. Passou a coçar freneticamente na tentativa de desbastar os pelos, que persistiram em ficar. Desesperada, correu a apará-los com uma gilete, expediente que funcionou por exatas 24 horas. Ao despertar no dia seguinte, lá estavam os pelos de volta, ainda mais fartos e viçosos que na noite anterior. Por mais que os cortasse, não havia meio de deter seu crescimento inexorável. Comprou dúzias de pacotes de giletes descartáveis, mas elas não davam conta da velocidade com que a pelugem se multiplicava. Em questão de semanas, alastrou-se por todo o belo corpo, invadindo sem cerimônias os ombros e descendo pelo peito até a região pubiana. Dali, espalhou-se pelas coxas antes invejáveis até chegar aos tornozelos. Rapidamente, os pelos tomaram posse quase completa daquele latifúndio tão desejado pelos homens e bastou um par de dias para que Aurélia Garcia se tornasse mera sombra da esfuziante mulher que havia sido.
            Nem em seus mais delirantes sonhos imaginou uma coisa dessas. Não ousava sair, tinha horror que a vissem desse jeito, que rissem de sua sorte. Temia tornar-se uma atração de circo, uma aberração. Proh pudor! Entre saciar a curiosidade mórbida dos vizinhos e preservar a beleza de lendária fama, ela decidiu-se pela última opção e enclausurou-se nos quatro cômodos de sua casa. Sobretudo, não queria que Francisco a visse de forma alguma. Desde que havia adoecido, já lá iam uns bons meses, evitava frequentar a igreja para não ter de cruzar olhares sedentos de sexo com ele. Vê-la nesse estado deplorável seria um martírio ainda mais doloroso ao qual estava pouco disposta a sofrer. Preferia que seu amado se recordasse dela em toda a glória de sua juventude e da forma física, em vez de guardá-la na lembrança como uma monstruosidade digna de piedade. Não queria conspurcar aquele amor sacrílego com a visão de sua abominável fealdade.
            Os dias seguintes flagraram-na amargurada, sentindo a respiração quente, como se uma fornalha ardesse no peito. Sua feiúra a enlouquecia de raiva e diariamente lançava indagações perplexas às paredes. Evitava olhar para o espelho, chegando mesmo a fazê-lo em pedaços com um pente. Não compreendia a razão para tanta provação, e a via como uma penitência pelos pecados que havia cometido. Com a mesma ira incontida imprecou contra Francisco, contra a humanidade e por extensão a Deus por seu triste destino.
            A mão esquerda do Criador fez-se sentir, pesada e implacável, em seu corpo em transformação constante. A degradação atingiu o ponto mais baixo quando ela se deu conta de que algo errado profanava a parte inferior de sua coluna vertebral. Na altura da bacia, uma protuberância óssea irrompeu, impedindo que se sentasse ou deitasse confortavelmente. O desconforto aumentou ainda mais nos dias subsequentes, quando o osso cresceu, tomando rapidamente a forma de uma cauda grossa e peluda, com um tufo de pelos castanho-escuros na ponta. Aurélia fez o que pôde para ocultá-la, usando vestidos mais largos mas o disfarce foi inútil, pois a cauda insistia em se erguer, ereta e orgulhosa. A solução que encontrou foi amarrá-la com uma cinta de couro bem apertada. Se não a livrava completamente do incômodo, ao menos servia para disfarçar a aparência inusitada.
O último ato dessa tragicomédia teve por palco a cozinha de sua casa, palidamente iluminada pelo brilho prateado da lua cheia no céu de agosto. A cena foi um primor de austeridade. Aurélia sentou-se para tomar uma sopa, mas não conseguiu apanhar a colher com a mão. Fitou os dedos, uma das poucas partes do corpo, além da cabeça e dos pés, que ainda permaneciam a salvo da pelugem amarronzada, e estremeceu de pavor. As mãos outrora macias e belas eram agora a caricatura de uma pata equina. As unhas haviam se convertido em cascos endurecidos como os de um jumento.
            Num paroxismo de desespero, emitiu um urro de dor e angústia, empurrou mesa e cadeira para longe e caiu ao chão, apoiada nas quatro patas em que suas mãos e pés tinham se convertido. Percebeu horrorizada que já não lembrava mais como ficar em pé, e se debateu no solo, enraivecida, rasgando o resto de roupa que lhe cobria o corpo deformado. A cozinha tornou-se pequena demais para conter sua ira e ela saiu casa adentro, arrebentando móveis, estraçalhando cortinas, espatifando vasos de porcelana, coiceando a mesa de jantar, a cadeira de balanço, a velha cama de mogno.
            Quando quase nada restava inteiro na casa, Aurélia estancou a fúria diante do espelho da sala de estar, a única peça ainda intacta, e contemplou o espetáculo dantesco de uma mulher meio mula, meio gente, meio coisa alguma. Ensaiou desabar num lamento piedoso, mas não havia mais olhos para chorar, nem rosto para recolher as lágrimas ou pescoço por onde escorrê-las. Sua cabeça, de maneira inexplicável e sobrenatural, não era mais visível. Com ela, foram-se os belos traços, os olhos oceânicos, a boca vermelho-sangue, os cabelos sedosos, a juventude imaculada.
            Ensandecida de medo, investiu contra a porta até derrubá-la com a força de seus coices. Saiu desembestada da casa, saltou o muro e ganhou a rua deserta. Correu desvairada sem caminho certo, subindo e descendo as ladeiras, ferindo com as patas as lajotas de pedregulho, exalando fogo das ventas inexistentes. As poucas testemunhas que a viram juravam tratar-se de uma criatura saída do mais profundo dos círculos do Inferno e depressa buscaram refúgio dentro de suas casas, fazendo apressadas o sinal da cruz e rezando um sem-número de salmos enquanto acendiam velas de sete dias com as mãos tremendo de horror.
            O descontrole da pobre moça era inenarrável. Conta-se que ela galopou em grande velocidade por toda a cidade até deixá-la e tomar o rumo dos morros distantes que a circundavam. Contudo, ao cruzar a rodovia, um caminhão velho e de freios vencidos, que ia desavisado em velocidade não mais que moderada, trombou com ela e a lançou do outro lado do acostamento. O caminhoneiro, um homem gordo e engordurado de suor, saiu da boléia assustado, jurando ter atropelado um animal. Quase perdeu os sentidos ao deparar-se com o corpo inerte e ensanguentado de uma linda mulher estirado no asfaltamento sujo e esburacado.
            Não havia mais sinais da abominação em que ela havia se convertido. As patas e o rabo tinham desaparecido por completo, sem deixar qualquer vestígio. A pelugem que a recobria se extinguiu como que por encanto ou obra do demo. Até a cabeça, com todos os belos ornamentos, estava intacta no pescoço.
             Foi um funeral arrastado aquele. É como se as pessoas rejeitassem a fatalidade que a acometeu e relutassem em enterrá-la. Demorou quatro horas para que fosse identificada por um conhecido. Outras duas horas se passaram até que seu corpo fosse removido e levado para o cemitério local. Ainda mais minutos foram necessários até que Aurélia embelezasse o caixão na igreja de Nossa Senhora dos Aflitos, a mesma que costumava frequentar em seus tempos de moça brejeira. Com exceção do marido sempre ausente, poucos amigos, não mais que quatro ou cinco carpideiras e um ou outro gato pingado, se dispuseram a ir até o local para dar-lhe o último adeus.
Foi então que deu-se um incidente inusitado, e que veio a coroar a triste sina da pobre jovem. Ninguém sabe precisar como nem por que, mas um riso bobo, zombeteiro, deu de emanar do grupelho presente ao velório. Logo, ganhou força e confiança e desatou em gargalhada franca e desenfreada, de verter lágrimas dos olhos. Todos entregaram-se à galhofa sem pejo, e esse estado de espírito prosseguiria sem cessar não fosse o aparecimento do jovem vigário. Sua presença austera e grave interrompeu as risadas e calou a folia. Segurando a Bíblia como se tivesse um peso insuportável em mãos, empertigou-se para rezar a oração final que precedeu o sepultamento.
            - Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus! – começou Francisco, dissimulando a emoção diante do caixão de Aurélia Garcia.


São Paulo, 05 de setembro de 2015

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