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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Confira a versão completa de "O Quarteto que inaugurou a Era Marvel", a história do Quarteto Fantástico, da Marvel




O QUARTETO QUE INAUGUROU A ERA MARVEL

Por Marco Moretti
           
Capa da primeira edição da revista "Fantastic Four"
Fonte: Wikipedia
            Passados mais de 50 anos desde sua criação, o Quarteto Fantástico vive hoje um momento de ressurreição, graças, sobretudo, aos longas-metragens de sucesso e ao reboot que em breve chega aos cinemas com a promessa de um êxito ainda mais espetacular que os originais. Contudo, num passado não muito distante, a explosão de criatividade e originalidade que esses quatro heróis representaram no começo da década de 60 e que foi responsável pelo início da chamada Era Marvel ficou quase esquecida e ofuscada pelo brilho de personagens mais carismáticos que vieram depois deles, como o Homem-Aranha e os X-Men.
            É interessante notar que o surgimento do Quarteto se deu num momento de profunda crise na indústria dos quadrinhos. “Era um negócio falido”, disse tempos depois Jack Kirby, um dos mais importantes desenhistas e criadores da história dos quadrinhos, referindo-se ao panorama da indústria no final dos anos 50. Ele não era o único a sentir isso. Outro profissional de longa data, Stan Lee, pensava na mesma época em mudar de área e partir para uma nova carreira. Devemos à sua esposa, Joan, o mérito da criação da Era Marvel. Foi ela quem convenceu o marido a fazer uma despedida em grande estilo, produzindo um gibi que marcasse época.
            Mas a Marvel como a conhecemos surgiu, ironicamente, a partir de sua maior rival, a DC Comics. Foi durante uma partida de golfe que o publisher da DC na época, Jack Leibowitz, falou a Martin Goodman, o presidente da Marvel, a respeito do sucesso de um novo gibi estrelado por uma equipe de heróis bem conhecidos como Superman, Batman e a Mulher-Maravilha, intitulado Justice League of America (a Liga da Justiça). Entusiasmado com a idéia, Goldman propôs a Stan Lee que criasse um grupo similar de personagens superpoderosos.
            Na noite daquele mesmo dia, Lee voltou para casa e escreveu um perfil de duas páginas da nova revista e enviou para Kirby. Os dois começaram então a trocar idéias sem imaginar que estavam criando algo que entraria para a história por diversas razões.
            A primeira delas é que Lee e Kirby concordaram desde o início que mais importante que as tramas seriam as personalidades dos heróis. “A caracterização é a coisa mais importante em qualquer história”, afirmou Lee. “Primeiro, pensei no tipo de personagem que eu queria, e só depois imaginei que tipo de superpoder ele teria.” Esses superpoderes seriam derivados dos quatro elementos fundamentais da natureza: água, ar, fogo e terra.
            Os quatro personagens derivados desses elementos eram o Sr. Fantástico, com sua habilidade para se esticar como uma borracha e ser tão maleável quanto a água; a Moça Invisível (mais tarde Mulher Invisível), capaz de passar despercebida em pleno ar; o Tocha Humana, que transforma o próprio corpo em uma labareda viva; e o Coisa, um ser monstruoso e atormentado feito de pedra.
            Para cada um deles, Lee e Kirby projetaram uma personalidade própria, e os conflitos nasceriam a partir das diferenças entre os personagens, e não de seus poderes, que a propósito não eram propriamente inéditos. Já havia personagens elásticos nos quadrinhos, como o Homem-Borracha de Jack Cole, homens e mulheres invisíveis na literatura e no cinema desde a clássica criação de H. G. Wells no século XIX, e até mesmo um outro Tocha Humana, criado por Carl Burgos em 1939. Mas um monstro feito de pedra e que também era um herói relutante, isso jamais tinha sido pensado. Outra característica marcante e que cativou os leitores era que os quatro heróis não empregavam identidades secretas como seus congêneres na DC. Usavam os próprios nomes, facilmente identificáveis pelo público, como se fossem astros de cinema.
Se os quatro integrantes do grupo representam os quatro elementos primordiais da natureza segundo o conceito da filosofia antiga, então o quinto elemento, aquele que desestabiliza a harmonia entre os outros quatro, seria sem dúvida o ferro, personificado pela figura sinistra do Dr. Destino, o vilão predileto de Stan Lee. Aqui, estamos no rol dos grandes vilões e antagonistas dos super-heróis, e nessa categoria Destino só se equipara em magnificência e ameaça ao maior de todos os vilões dos quadrinhos, o Coringa. Desfigurado por um acidente, ele passa a esconder o rosto por trás de uma medonha máscara de ferro, que tanto deve ser visto como uma reminiscência do famoso personagem de Alexandre Dumas, no século XIX, “O Prisioneiro da máscara de ferro”, quanto uma antevisão daquele que viria a usurpar o papel supremo do mal nas telas dos cinemas mais de uma década depois.
            Assim como Destino, Darth Vader também oculta seu rosto e a sua personalidade do mundo por trás de uma pavorosa máscara de metal. E, de forma similar ao inimigo número um do Quarteto, o personagem de George Lucas também manipula um poder místico e sobrenatural (a Força). Tanto num caso como no outro, a máscara e a armadura de metal que recobrem os corpos de seus usuários podem ser vistos como metáforas bem pouco sutis de suas almas, endurecidas e tornadas frias carapaças pelos incidentes dramáticos que moldaram as suas vidas. Tanto num caso como no outro a morte da mãe cumpre um fundamental papel na definição de suas psiques disfuncionais e distorcidas. Ambos anseiam pelo poder supremo em seus respectivos domínios. Destino, que almeja governar a Terra a partir do fictício reino da Latvéria, e Vader, que pretende lançar o seu poder soberano sobre toda uma galáxia, muito, muito distante.
            Ainda no capítulo dos grandes vilões do Quarteto, é impossível deixar de mencionar outra grande criação de Lee e Kirby. O onipotente Devorador de Mundos, Galactus. Um ser tão imenso que a sua natureza é incapaz de ser abrangida completamente por reles seres humanos, Galactus vaga pelas estrelas em busca de planetas e corpos celestes com que se alimentar. A sua imponente presença representa o princípio da destruição, o caos essencial do universo, uma espécie de premonição daquilo que a ciência hoje classifica de buraco negro. Stan Lee certa vez declarou que Galactus simboliza a natureza implacável e impiedosa de Deus, e suspeito que ele estava pensando no Jeová do Antigo Testamento, cruel e caprichoso, ao criar o personagem. Dentro dessa interpretação, outro personagem recorrente nas aventuras do Quarteto Fantástico, o Vigia, uma entidade aparentemente contemplativa e distante, que acompanha os destinos humanos sem interferir (mas sempre interferindo), seria uma espécie de versão agnóstica do Criador, uma criatura distante e impassível, que jamais parece se incomodar com os nossos problemas.
            Na linha intermediária entre esses dois seres, complementares como as duas faces de uma moeda (ou as variadas máscaras com que Deus se apresenta à nossa interpretação), de dimensões nada menos que cósmicas, situa-se o arauto de Galactus, o ilustre Surfista Prateado. Um dos personagens mais fascinantes já criados nas HQs, o Surfista é uma espécie de Jesus Cristo ou Salvador abnegado, que abdica de sua independência e liberdade no espaço vazio entre as estrelas para salvar a humanidade da fome aterradora de seu soberano. Assim como o Messias bíblico, o arauto de Galactus se sacrifica pelos nossos destinos e se atormenta pela forma como conduzimos o planeta.
Personagem Marvel preferido de muita gente, a começar por Moebius, o grande artista dos quadrinhos franceses (e que chegou a produzir uma graphic novel estrelada pelo Surfista e por Galactus, no final dos anos 1980), o Surfista, com a sua postura não conformista e as tiradas filosóficas de ressonâncias shakespeareanas, se tornou o ícone da geração “flower power” nos Estados Unidos, na segunda metade dos anos 1960. Mais do que uma espécie de uma estatueta do “Oscar” equilibrada sobre uma prancha de surfe capaz de singrar o cosmo, o personagem deu voz às inquietações existenciais de uma época marcada pela revolução dos costumes, pela Guerra do Vietnã, pelo rock de Janis Joplin e Jimmy Hendrix e a corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética então em voga. Por seus próprios méritos, acabou ganhando um título solo anos depois e deixou de ser um mero coadjuvante de luxo na saga do Quarteto.
            Mas isso ainda era um futuro inimaginável quando a explosiva primeira edição da revista Fantastic Four foi lançada, em novembro de 1961. O sucesso imediato da publicação não só deu início a uma renascença nos quadrinhos, como foi a pedra fundamental para uma parceria que se estendeu por uma década e marcou época: a de Stan Lee e Jack Kirby, uma dupla tão fantástica quanto as criações que nos legaram.

Texto originalmente publicado na revista Wizard #45


São Paulo, 02 de agosto de 2015

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