e Agosto 2015 ~ Diário do Moretti
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domingo, 16 de agosto de 2015

domingo, 9 de agosto de 2015

Confira a versão integral do conto "O Sonho de Dickens"




O SONHO DE DICKENS

Por Marco Moretti

“Sonho. Não sei quem sou neste momento”
Fernando Pessoa, Sonho. Não sei quem sou


"O Sonho de Dickens", aquarela de Robert William Buss - Fonte: Wikipedia

- Doutor, eu preciso desesperadamente da sua ajuda! – O homem que invadiu o consultório do Dr. Álvaro naquela manhã chuvosa era o próprio retrato do desvario. O psicólogo ergueu os olhos inquisitivos do livro que estava lendo e esquadrinhou de alto a baixo o personagem um tanto excêntrico parado na soleira da porta. Não precisou de mais do que alguns microssegundos para se assegurar de que se tratava de um caso típico de neurastenia aguda. A aparência física do sujeito autorizava esse diagnóstico: magro, excessivamente magro, olhos diminutos afundados sob uns óculos antiquados de aros pretos, grossos, desproporcionalmente grandes para a cabeça pequena, adornada com um bigodinho ridículo à la Carlitos, que fazia questão de deixar os lábios secos e apertados ainda mais insignificantes. Aliás, a maneira antiquada e bastante desajeitada com que se vestia, com um paletó bege de sarja que ia até a cintura, calças da mesma cor, colete e uma camisa clara fechada com uma gravata borboleta, quase faziam dele um personagem saído de algum filme das antigas. Contudo, era a agitação febril, visível na maneira perturbadora com que encarava o terapeuta, no modo tenso com que apertava as mãos uma contra a outra, na insuportável ansiedade que exalava da expressão atormentada que o tornava um paciente ideal para alguém que pretendesse construir uma reputação no meio acadêmico. Era, em suma, um exemplar de insanidade potencial.
- Sim, claro, mas, antes, por favor, não prefere se sentar? – perguntou o Dr. Álvaro, procurando emprestar às palavras pronunciadas com cuidado uma entonação de falsa segurança. Assim que o homem se acomodou na cadeira estofada diante da mesa de trabalho do psicólogo, tratou de percorrer com o olhar trêmulo o ambiente não muito espaçoso, escuro e abafado que a persiana baixada sobre uma janela aberta para a rua em nada ajudava a amenizar. Cada gesto seu denotava um desequilíbrio latente. Além disso, havia algo naquele indivíduo, um elemento estranho como uma mancha mal pintada num quadro, que o terapeuta foi incapaz de definir naquele primeiro momento. Numa tentativa de conquistar a confiança do estranho, o médico prosseguiu – E a quem devo a honra?
- Hã? Ah, meu nome é Herculano, Bernardo Herculano, talvez tenha ouvido falar de mim... o escritor – apresentou-se, numa voz modulada à beira da estridência. Como o psicólogo não manifestasse qualquer sinal de reconhecimento à sua suposta fama, Herculano disfarçou o mal-estar limpando as lentes embaçadas dos óculos num lenço marrom que trazia no bolso do paletó. Aliás, foi somente então que o Dr. Álvaro notou a roupa um tanto antiquada que ele usava, e que parecia saída de uma loja dos fins da Era Vitoriana. Sem dúvida alguma, o infeliz sofria algum tipo de neurose. Transtorno obsessivo-compulsivo devia ser o menor de seus males.
- Certo, então, sr. Herculano... posso chamá-lo assim, não é? O que está havendo com o senhor?
- Antes, doutor, é importante que eu diga que jamais procurei um psicólogo em toda a vida. Tenho lá os meus distúrbios de comportamento, as pequenas manias do dia a dia como todo o mundo, mas nunca precisei de ajuda. Ao menos, não até agora. Entretanto, eu quero deixar bem claro que não vim aqui porque me acho louco, esquizofrênico, psicótico ou como preferir me classificar, o senhor me entende?
- Perfeitamente. Ninguém aqui disse que o senhor é doente mental. E eu tampouco estou aqui para “classificar” quem quer que seja. Os tempos do alienista de Machado de Assis já se vão em mais de um século. Agora, ajudaria bastante se me contasse do princípio a sua história. Relaxe e procure explicar o seu problema. Mas fale com calma, pausadamente, para que eu possa entendê-lo...
- Bem, como eu disse, nunca tive qualquer espécie de distúrbio desses que vocês, médicos, costumam classificar... quer dizer, diagnosticar em certos pacientes. Sempre fui e me considerei um sujeito normal, se é que se pode chamar alguém que fez da escrita o seu ganha-pão de “normal”.
O doutor esforçou-se para conter o riso. Aquilo era bom demais para ser verdade. As chances de um caso desses bater em sua porta eram de uma para um milhão. Lembrou-se da história que ouviu, ainda na faculdade, de Sabina Spielrein, a jovem paciente histérica de Jung [1] que acabou se tornando uma das mais brilhantes mentes da psiquiatria e ajudou o antigo discípulo de Freud a solidificar as bases da psicologia analítica.
- Ó, não pense que vivo só dos meus escritos – prosseguiu Herculano – Também dou aulas em faculdade e faço revisão de trabalhos acadêmicos. Alguém assim não pode ser demasiado... hã... perturbado, concorda? – “Ele parece querer a minha aprovação a respeito de tudo o que diz. Sinal de insegurança, imaturidade”, pensou o psicólogo, policiando-se para não exteriorizar qualquer reação – Sempre procurei encarar os problemas, mesmo os mais graves, com toda a fleuma que disponho. Muita gente pode achar que eu sou por demais sossegado, por demais zen, para ocupar a mente com as questiúnculas do cotidiano, mas isso, sem dúvida, é um exagero. Às vezes, até mesmo um monge budista perde a paciência com o mundo que o rodeia, e eu estou longe de ser um asceta tibetano. Existem muito poucas coisas que me incomodam pra valer, sabe? O horário de verão, por exemplo, mas o horário de verão incomoda a todos, não concorda?
O Dr. Álvaro principiava a se impacientar. Onde ele pretendia chegar com aquela torrente de autojustificativas? Via-se que era um literato, desses dados a alçar voos audaciosos de imaginação. Como se pudesse ler a mente do médico estampada em seu rosto arguto, Herculano explicou-se:
- Estou fazendo todo esse rodeio, doutor, para que me veja como uma pessoa normal, ainda que dado a momentâneos arroubos de irritação. Por essa razão é tão difícil entender o significado das visões que tenho tido.
- Visões, o senhor disse?
- De que outra forma eu poderia chamar esses sonhos realistas, vívidos, tão definidos quanto se eu os estivesse experimentando de verdade? E que me fazem acordar no meio da madrugada, banhado em suor, arfando sem ar, o coração martelando no peito. É por demais intenso! Que eu me lembre, jamais senti algo parecido.
- Falou neles no plural, como se fossem vários...
- E são, doutor, e são. Há umas três semanas que eu não paro de ter esses pesadelos. Eles são recorrentes, mas diferentes uns dos outros. Se não soasse absurdo demais, é como se fossem os capítulos de um livro que a minha mente vem escrevendo noite após noite. Com que finalidade, eu só posso especular. A estranheza neles me assusta, porque pressinto que têm algo de sinistro, de muito perigoso por trás das histórias que contam. Por isso vim aqui, para que me dissesse o que significam, o que representam.
- Ajudaria se começasse contando um desses sonhos, sr. Herculano, qualquer um deles, não precisa ser na ordem que você os teve. Basta relatar o que consegue se lembrar, procure puxar pelos mínimos detalhes, são eles que nos ajudarão a esclarecer o que se passa no seu subconsciente – disse o psicólogo, apressando-se em puxar o laptop para digitar as palavras do pobre homem. Pela primeira vez desde que entrou no consultório, o sujeito pareceu se acalmar momentaneamente, a agitação das mãos estancou, as pálpebras pararam de piscar freneticamente, as sobrancelhas se arquearam, assumindo um ar contemplativo.
            - A primeira coisa que eu lembro é de uma planta, ou folhagem, puxando para um verde profundo, algo assim como o galho viçoso de uma árvore.
            - Alguma em particular que consiga identificar?
            - Acho que uma mangueira ou uma pereira... não sei, não sou bom pra diferenciar um tipo de árvore do outro. Se me perguntasse sobre flores, bem, saberia dizer a diferença entre uma rosa e um cravo, mas árvores, na maioria das vezes, são todas iguais pra mim. A não ser na primavera, quando se iluminam de cores, amarelas, lilases, violetas, e ficam envergadas de frutos. A propósito, agora que mencionei, essa tinha umas frutinhas escuras pendendo das pontas dos galhos, mas não queira saber de que espécie.
            - Não tem importância. Prossiga.
            - Em seguida, a imagem que me vem à mente é de uma lua bastante brilhante num céu vazio, desprovido de estrelas. Uma lua cheia, imensa, de poeta.
            “Uma árvore com frutos e uma lua, notórios símbolos sexuais. Isso está ficando interessante”, pensou o Dr. Álvaro, que limitou a sua observação a um murmúrio gutural enquanto procurava registrar no computador as palavras exatas do sr. Herculano.
            - Depois disso, deixe ver... Ah, sim, veio uma figura que eu não sei dizer direito o que era. Um sujeito de chapéu caído sobre o rosto metido em um capote de couro, desses compridos, que vão até os tornozelos. Estava abraçado a uma arma, uma espingarda, creio.
            - O senhor conseguia ver o rosto dele?
            - Oh, não, como eu disse, ele trazia o chapéu, de abas largas, inclinado pra frente. Parecia até que estava dormindo. É, acho que era isso mesmo, ele dormia sentado numa cadeira de madeira apoiada contra uma cerca, como essas do interior, de fazendas antigas. Se eu não me engano, a cerca não tinha fim, se estendia até se perder no infinito de cada lado.
            - Pela sua descrição, esse sujeito parecia ser um vigia montando guarda, estou certo?
            - Está dizendo isso por causa do chapéu, da capa e da arma? Gozado, agora que mencionou, é quase certo que se tratava de um vigia ou um zelador diante de uma porteira. Lembro que, no sonho, eu vinha de muito longe, dirigindo uma caminhonete, e passei sem pressa por ele. Quando cruzei a entrada da estância, consegui ouvi-lo roncando e, no mesmo instante, de algum lugar da roça, soou o canto de um galo. Que acha disso, um galo cantar no meio da madrugada?
            - Num sonho, nada é estranho demais. Vejamos... uma roça, uma porteira e uma cerca de fazenda, então penso que devia existir uma casa também.
            - Claro que havia, era bem grande e espaçosa, no estilo daquelas velhas construções de taipa de pilão caiadas de branco, com janelas largas de parapeitos de madeira escura. Não ficava mais do que uns vinte passos da entrada onde o vigia dormia. Ao lado, tinha umas formas escuras que imagino serem cavalos deitados, mas podiam também ser bois dormindo ou sacas de café empilhadas ou outra coisa qualquer.
            - O senhor chegou a entrar na casa?
            - Entrar não é bem a palavra, doutor. Num minuto, eu estava parado com a caminhonete diante dela do lado de fora e, no momento seguinte, estava no interior, como se eu tivesse me teletransportado pra lá. Mas é importante que entenda que o lugar tinha pouco ou nada a ver com o estilo do exterior.
            - Como assim? Se refere à arquitetura?
            - Isso e ao espaço interno também. Destoava completamente com o que eu imaginava. Era muito mais alta e retangular por dentro, e não parecia nem um pouco com uma casa de fazenda, ao menos como eu penso que seja uma. Na verdade, lembrava muito um templo da Antiguidade. Como o Partenon de Atenas, sabe? Possuía piso de mármore branco, colunas de pedra estriadas em estilo grego, também imaculadamente brancas, enfileiradas em cada lado de um salão comprido e que sustentavam um teto de madeira todo decorado com um friso em alto-relevo. Agora, não faço a mínima ideia do significado das imagens esculpidas nele. Só sei que continham umas figuras humanas e animais misturadas, numa cena de batalha ou festividade, mas estou especulando.
            O homem parou de falar de repente. Ergueu a cabeça, olhando em volta sem fixar a atenção em um ponto definido. Tentava se recordar do que vinha em seguida. “Está travando uma pequena batalha interior. Alguma coisa o incomoda, algo sobre o qual reluta em falar”, refletiu o psicólogo, antes de incitá-lo a prosseguir:
            - Um salão vazio ou uma espécie de templo antigo abandonado...
            - Vazio, o senhor disse? Não, de forma alguma. Havia várias pessoas lá dentro, tanto podiam ser dez quanto vinte ou trinta, difícil dizer. Estavam por toda a parte, deitadas no chão, sentadas no mármore e encostadas nas colunas, amontoadas umas sobre as outras nos cantos. Esquisito.
            - O que era esquisito?
            - Elas não estavam mortas. Absolutamente. Dormiam um sono profundo, como o porteiro. E me lembro que também estavam vestidas como ele, com roupas simples, sem adornos nem luxos, com chapéus gastos e lenços na cabeça ou no pescoço. Eram uns trajes ordinários parecidos com os de...
            - Empregados ou criados de algum tipo?
            - Com certeza, não eram patrões. Estavam mais pra lavradores, boiadeiros, gente simples do campo que trabalha em fazendas. Vários ainda traziam as enxadas pra arar a terra junto ao corpo. Foi aí que aconteceu uma coisa inesperada. Uma raiva descomunal começou a crescer dentro de mim. Pensei: “O que essa gente andou fazendo enquanto estive fora?” Tão irado fiquei que os despertei aos berros. Estava mesmo indignado com aquela cena. Parti pra cima de todos eles aos insultos, aos murros, aos pontapés. Puxava-os pelos braços e, numa fúria ensandecida, completamente fora de controle, pus todos pra correr dali. Homens, mulheres, velhos e crianças, expulsei-os da casa. Foi nesse momento que eu acordei, o coração batendo forte, o corpo todo molhado, num tal estado de agitação que não consegui mais pegar no sono pelo resto da noite.
            - Bem, às vezes temos pesadelos bastante intensos, que nos deixam perturbados e...
            - Não, doutor, o senhor não está entendendo. Isso não foi um simples pesadelo. Já tive sonhos ruins na vida, mas nada como isso. Era algo real, quase palpável, como se estivesse acontecendo diante de mim. Quando sonhamos, normalmente as imagens parecem borradas, distorcidas como se víssemos tudo pelo fundo de uma garrafa. Mas nesse caso foi diferente. As coisas, os objetos, as pessoas, o cenário, apareciam pra mim tão nitidamente quanto estou enxergando o senhor diante de mim agora.
            - E o que sugere que isso seja? – indagou o médico, recostando-se na cadeira estofada e assumindo um ar de certo ceticismo.
            - Eu não faço ideia, mas tenho a nítida impressão - desculpe se falo isso assim, mas é a única forma que consigo me expressar - que eu realmente estava naquele lugar, que eu realmente vivenciei aquela cena, que eu realmente mandei as pessoas saírem correndo.
            - Hmm... Veja bem, os sonhos podem dar essa sensação de realismo, e se tornarem uma manifestação quase concreta dos nossos impulsos inconscientes, mas garanto para o senhor que não há a mínima possibilidade de que uma coisa dessas tenha ocorrido pra valer. Existe uma explicação racional e lógica para o que experimentou.
            - É, e qual é? – quis saber o sr. Herculano, voltando a agitar os braços e a piscar os olhos, apertando nervosamente uma mão contra a outra. O psicólogo compreendeu então qual era o elemento estranho naquele sujeito não menos estranho sob todos os aspectos: a incômoda, incomum e doentia palidez de tuberculoso, como se ele jamais tivesse tomado sequer um raio de sol durante toda a vida.
            - O senhor mencionou uma raiva, ou fúria, que chegou a tirá-lo do controle. Aparentemente, foi um sentimento muito intenso, mas não disse por que razão, o que foi que motivou essa reação.
            - Chamar aquilo de raiva nem sequer descreve o que eu senti, doutor. Eu estava indignado, zangado pra valer com aquela gente largada ali. Na verdade, me senti traído, esfaqueado pelas costas. Se não me engano, eu havia dado instruções muito precisas, ordens severas pra que cuidassem da minha propriedade enquanto eu estava fora, e foi exatamente o que eles não fizeram. Nem eles, nem o vigia, nem ninguém.
            - Então quer dizer que o senhor era o dono do lugar e tinha se ausentado por um tempo, uma viagem longa talvez? Saberia dizer para que lugar?
            - É, pode ser algo assim. Mas que importância tem pra onde eu teria ido? Calcutá, Tombuktu, tanto faz.
            - Bem, ajudaria a esclarecer o sentido das imagens - “As minhas indagações o enervam, ele não gosta de ser questionado, tem medo que eu olhe fundo demais goela abaixo e descubra alguma coisa inconveniente. Por isso, se pôs na defensiva”, pensou o Dr. Álvaro, antes de prosseguir – No sonho, o senhor tem pouca ou nenhuma paciência com as pessoas, elas o irritam, sobretudo quando as suas ordens são desobedecidas. E na vida real, é assim também?
            - Não com frequência, nem com a raridade que eu gostaria, se é que me entende. Olha, pouco me importa como as pessoas vivem as suas vidinhas medíocres e ananicadas. Se elas não se suportam umas às outras é problema lá delas. O que me tira do sério são aquelas pequenas faltas do dia a dia, as caneladas, os empurrões, as provocações e as humilhações que a gente é obrigado a suportar no meio de campo de nossas rotinas cansativas.
- Então o convívio social o incomoda?
- Não foi isso o que eu disse. Mas reconheço que a maioria das pessoas perdeu o bom senso. Nem todas, claro, mas ao por os pés na rua muitas esquecem em casa a educação – nesse instante, as buzinas nervosas do trânsito engarrafado do lado de fora se sobrepujaram às palavras de Herculano – Está vendo só? É exatamente a isso o que eu me referia. É quando os outros se tornam insuportáveis, quando a gente passa a evitar o convívio deles pra não ser incomodado, e nem mesmo arriscamos um “bom dia” com medo de cara feia, bem, é nessas horas que eu desejaria que... que... ora, que uma bomba de nêutrons obliterasse a humanidade da face do planeta.
            - Pensa realmente assim? – perguntou o psicólogo, surpreso.
            - Eu não gostaria de alimentar esses sentimentos dentro do peito, mas é difícil evitar, principalmente quando a falta de respeito e de consideração bate nas minhas pernas. Alguém disse que “o inferno são os outros”, e eu concordo em gênero e número com isso. Desculpe se eu pareço agressivo, mas é que, quando paro pra pensar no descaso dos seres humanos, tenho ganas de bancar o Schwarzenegger [2] e sair liquidando todo mundo que eu encontro pela frente com uma metralhadora.
            - Uma ideia bastante radical para um homem de letras, não concorda? No mínimo, é contraditório.
            - Pode ser, mas a contradição é o barro de que nós somos feitos.
            A frase, propositalmente enunciada para causar efeito, derramou um manto de silêncio momentâneo no consultório, que foi rompido, segundos depois, pelo psicólogo.
            - Acho que o senhor não viria aqui apenas para desabafar as suas mágoas pessoais. Deve ter alguma coisa mais profunda que queira discutir. Quando entrou no consultório, foi logo dizendo que vinha tendo umas visões, falou isso no plural. Além desse, há outro sonho que gostaria de me contar?
            - Hmm... Sim, claro. Faz uns três dias. Foi ainda mais intenso e perturbador. Sinistro, eu diria. Parecia tão real que acordei completamente sem forças, e a mera lembrança dele me deixa deprimido – o sr. Herculano respirou fundo, engoliu em seco e novamente deixou-se carregar pelos labirintos da memória. Falou com uma voz cavernosa, de pesar – Primeiro, apareceu uma série de imagens estranhas, que se sucediam umas após as outras como numa colagem, sabe? Essa parte não está bem clara na minha mente.
            - Faça um esforço. Tente descrever, do melhor jeito que puder, uma ou outra dessas cenas.
            - Vejamos... numa delas, uma espécie de raio cruzava o horizonte de um céu azul profundo, mas não se ouvia nenhuma trovoada. Tudo parecia quieto demais, como se a própria natureza esperasse a chegada de alguma coisa. Depois, o cenário mudou pra uma casa decorada com móveis caros e peças antigas e elegantes, vasos de porcelana pintada, abajures de bronze, quadros que eu não saberia apontar o autor, mas em bastante quantidade, amontoados, parecia até o depósito de um antiquário. Ah, sim, pela veneziana entreaberta da janela, podia-se ver uma multidão correndo desesperada pra bem longe. Homens e mulheres e velhos e crianças se empurravam, se afogavam pra passar na frente uns dos outros, se atropelavam. Quem caía ficava pelo caminho e era pisoteado pela turba ensandecida. É como se estivessem fugindo, de quem ou do que, só posso imaginar.
            “É quase a continuação do pesadelo anterior. Definitivamente, ele sofre de alguma aversão às pessoas, mas preciso de mais elementos para descobrir por que”, refletiu o terapeuta.
            - Aí vi um casal que dormia deitado numa cama, no que me pareceu ser um quarto. Uma luz muito brilhante, como na detonação de uma bomba atômica, cobriu tudo e, quando se dissipou, o homem tinha desaparecido. Só restou a mulher. A mesma coisa aconteceu logo em seguida com duas mulheres que faziam alguma coisa numa cozinha. Depois da “explosão” de uma bola de luz intensa, apenas uma delas continuou no lugar.
            - O senhor sugere alguma relação entre essas duas cenas? Quer dizer, alguém que conhecesse ou um cenário familiar?
            - Não, nada que eu consiga identificar. Mas, pensando bem, me recordo que houve uma terceira cena parecida, em que dois homens colhiam maçãs ou laranjas numa plantação e, depois da luminosidade passar, só um deles ficou ali. E esse eu conhecia, era um antigo colega de faculdade que nunca mais eu vi e nem sequer lembro o nome. Mas era ele, tenho certeza disso, pude reconhecê-lo pelo nariz adunco, os ossos proeminentes do rosto e o cabelo castanho escuro cacheado.
            - Compreendo. Nos sonhos, costumamos ver pessoas conhecidas, mas muitas vezes elas estão ali para representar outras coisas. Nem sempre esses rostos são o que parecem ser. O processo de associação de ideias embaralha as nossas lembranças familiares com os desejos ocultos no nosso subconsciente, estabelecendo vínculos mais ou menos obscuros. Prossiga.
            - Então, tudo voltou a se embaralhar num borrão indistinto. A próxima coisa que consigo me lembrar é de um corpo deitado na terra, no meio de uma planície árida bastante extensa, como o sertão do nordeste ou o deserto do Atacama. Fosse o que fosse, tratava-se de uma figura familiar. À medida que eu fui me aproximando, os seus traços se tornaram mais e mais reconhecíveis. Foi isso o que me deixou mais abalado, doutor. Pois o sujeito lá, naquele lugar inóspito, era eu, quer dizer, o meu cadáver. E isso não é tudo. Sobre mim, bicando a minha carne, arrancando os meus olhos, dilacerando os lábios, esfolando a roupa, se aglomerava um bando de pássaros. Eram águias esfomeadas, ocupadas em me devorar, os bicos encurvados rasgando o rosto, os braços e as pernas, as garras afiadas enterradas profundamente no peito, entregues a um esforço frenético para arrancar o coração ainda pulsante de dentro de mim. Batiam as asas negras, num esforço improvável, excitadas para se refestelarem com as minhas entranhas. Pior ainda, eu podia ouvir o grasnar estridente daqueles bichos enquanto me despedaçavam. Quase soavam como... como... gargalhadas! Oh, era horrível de ver, e tão real, doutor, não faz ideia de quanto era real...
            A fala agitada e quase histérica do sr. Herculano precisou de longos minutos para ser absorvida pelo psicólogo, que durante esse tempo limitou-se a tamborilar casualmente no tampo do computador. Quando, enfim, se recompôs, o Dr. Álvaro respirou fundo, fitou o paciente diretamente nos olhos castanho-escuros e, sem afrouxar as sobrancelhas peludas, começou a dizer, numa voz cautelosa e monocórdia:
            - Eu quero que compreenda que, para um diagnóstico preciso de sua condição, uma única sessão não é suficiente. Obviamente, os pesadelos que relatou e, sobretudo, a maneira como o fez, podem ajudar a revelar algum aspecto de sua psique, dos distúrbios que carrega dentro do senhor, das preocupações e traumas que afetam o seu emocional. Sem querer parecer leviano ou precipitado em minhas conclusões, arrisco dizer que o senhor sofre de histeria paranoica, agravada por um caso agudo de fobia social.
            - Significa que tenho de me submeter a um tratamento psiquiátrico? – indagou o sujeito, remexendo nervoso o bigodinho quadrado.
            - Significa que deve relaxar, procurar enxergar o mundo de outra maneira, talvez experimentar uma terapia de longo prazo que o livre de suas obsessões. Não percebe que as manias o sufocam? Se continuar nesse andor, temo seriamente pela sua saúde mental.
            - Mas o que eu posso fazer se os outros me incomodam? Se a humanidade inteira está errada e eu, certo?
            - Falando desse jeito, tenho a impressão que o senhor se enxerga como um deus entre macacos.
            - Deus, o senhor disse? É esse o ponto, doutor. Estou muito longe de acreditar em um deus. Porque, se eu fizer isso, também terei de crer na humanidade, e isso eu não consigo.
- Como assim?
- Ora, o cúmulo do ateísmo é duvidar que o homem existe, já que ele é uma criação de Deus. Não é essa uma ideia extravagante?
O médico não externou qualquer reação, pela mera razão de que não tinha nenhuma para externar. Aquele homem bizarro, de gestos teatrais, exagerados, e frases desconcertantes superou as suas melhores expectativas. “Esse sujeito merece ser analisado”, disse de si para consigo, enquanto consultava o relógio de pulso. Impossível tirar uma conclusão acertada naquele momento a respeito de seu caráter singular e dos problemas que rondavam aquela mente perturbada, e o psicólogo duvidava que um dia isso fosse possível ou ao menos desejável. Que se tratava de um caso clínico que exigia estudo atento era tão certo quanto a narração de seus sonhos vinha carregada da fatídica impressão de eventos iminentes, absurdamente terríveis.
Com a mesma e atabalhoada atitude com que irrompeu no consultório, Herculano se despediu do Dr. Álvaro e saiu batendo a porta e passando pela sala de espera sem nem ao menos dignar-se a dizer um “até logo” para a atônita secretaria. Dali até o saguão do edifício e durante todo o percurso até a estação do metrô, a um quarteirão e meio de distância, flagrou-se meditando, num estado de visível perturbação, no significado dos pesadelos que havia tido e nas explicações do médico para eles, sem conseguir, no entanto, atinar com a mais remota conclusão. O que o incomodava profundamente era o realismo quase documental que caracterizava as visões, nas cores e formas, nos sons, nos odores, nas texturas, em tudo, enfim, que constituísse algo além dos borrões indistintos de sua memória.
Prestes a embarcar no trem, um detalhe casual, não mais do que um evento fortuito, chamou a sua atenção. Em meio ao amontoado de pessoas que se acotovelavam para passar pelas portas da composição, feito ratos desesperados para atravessar uma fenda estreita na parede, notou bem ao lado de onde estava uma senhora demasiadamente idosa e frágil carregando uma pesada sacola empanturrada de maços de aipo, alface e repolho num esforço que superava a sua capacidade para parecer gentil e ao mesmo tempo garantir um lugar no vagão. Empurrada de um lado para o outro, a pobre mulher acabou sofrendo um tranco violento de alguém e estatelou-se ao chão. Os legumes e frutas se espalharam pelo piso de granito encerado e foram pisoteados e esmagados sem cerimônia pelos apressados passantes. Ainda mais alarmante foi o fato de que ninguém, ou quase ninguém se descontarmos o próprio Herculano, deu mostras de se importar com ela. Comovido pela tentativa malsucedida daquela senhora em agir com certo verniz de decência em meio à horda de bárbaros que somente se preocupavam em atropelar uns aos outros no afã de chegar aos seus destinos, ocorreu a Herculano que talvez fosse exatamente essa a resposta que buscava. “Que tragédia”, pensou, recuando aturdido diante da cena.
Subitamente alertado para a implicação dessas ideias, ele procurou abrir caminho de volta para o consultório do Dr. Álvaro. Necessitava compartilhar com ele a revelação que tinha brilhado na sua consciência com o fulgor de mil sóis. Agora, enfim, havia descoberto o real significado de tudo aquilo, dos sonhos estranhos, de si mesmo, de seu papel no esquema das coisas e do próprio mundo. Era algo por demais trágico, por demais importante, para manter calado dentro de si. Num piscar de olhos, ele havia passado da suprema ignorância para o conhecimento absoluto. Por mais improvável e absurda que pudesse parecer, a única conclusão aceitável era que a realidade que o cercava, aquele universo medíocre de rostos abarrotados de preocupações ridículas, de paixões mesquinhas e egoístas, nada mais era do que a criação deturpada de sua mente. A Terra e tudo o que nela vivia eram, por assim dizer, meros produtos de um subconsciente onipotente. O sonho de um criador caprichoso, doentio e desprovido de qualquer lógica e moral, é certo, mas ainda assim um sonho. E ele, Herculano - agora percebia isso com a intensidade de um dínamo - era o único deus dessas ilusões que costumamos chamar de gente.
Dividido entre ajudar a mulher a se erguer do chão e retornar até o consultório do psicólogo, Herculano fracassou em ambos os propósitos. Não conseguia mexer um músculo sequer, sufocado como se encontrava pela turba indiferente que o comprimia por todos os quadrantes. Num esforço ultrajante, tentou abrir caminho aos empurrões, mas o físico franzino e a falta de habilidade em ser menos civilizado contribuíram para tornar a muralha humana ainda mais compacta e surda aos seus apelos. Nenhuma palavra polida era veemente o suficiente para franquear-lhe a passagem, e ele se viu arrastado contra a vontade para dentro do vagão de metrô. Sem outra alternativa a não ser soçobrar na raiva e na impotência, ergueu a cabeça, sufocado de angústia, e emitiu um grito que era ao mesmo tempo um manifesto de indignação e um apelo.
Somente então Iavé despertou do sono profundo do outro lado do tempo.
Profundamente abalado com o pesadelo que havia durado mais do que a eternidade, Ele ergueu o rotundo corpanzil do trono onde dormia, recostado, os poucos cabelos em desalinho, os olhos já exageradamente esbugalhados escancarados até o limite, injetados de pavor. Quase que de imediato (ou teria sido antes ou no mesmo momento? Difícil dizer com certeza, afinal, o próprio tempo e a simples ideia dele não faziam sentido naquelas paragens em que até o espaço perdia todo o significado), pensou naquele sonho estranho, o mais estranho que poderia ter.
O Inominável coçou com a gorda mão direita a generosa papada enquanto meditava a respeito. Não deixou de achar certa graça naquilo.
Sonhar que era um homem, um reles homem, que sonhava que era Deus. Como imaginar coisa mais estúpida do que isso? E acabou-se numa gargalhada imensa, que tonitruou pelos infinitos vazios do universo que ainda não existia e terminou numa grande explosão de matéria e energia.

São Paulo, 08 de agosto de 2015





[1] Carl Gustav Jung (1875-1961), psicoterapeuta suíço, discípulo de Freud e fundador da psicologia analítica.

[2] Arnold Schwarzenegger (1947-    ), ex-fisiculturista, político e ator austro-americano de filmes de ação como “Conan, o Bárbaro” e a série “O Exterminador do Futuro”.


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Confira a versão completa de "O Quarteto que inaugurou a Era Marvel", a história do Quarteto Fantástico, da Marvel




O QUARTETO QUE INAUGUROU A ERA MARVEL

Por Marco Moretti
           
Capa da primeira edição da revista "Fantastic Four"
Fonte: Wikipedia
            Passados mais de 50 anos desde sua criação, o Quarteto Fantástico vive hoje um momento de ressurreição, graças, sobretudo, aos longas-metragens de sucesso e ao reboot que em breve chega aos cinemas com a promessa de um êxito ainda mais espetacular que os originais. Contudo, num passado não muito distante, a explosão de criatividade e originalidade que esses quatro heróis representaram no começo da década de 60 e que foi responsável pelo início da chamada Era Marvel ficou quase esquecida e ofuscada pelo brilho de personagens mais carismáticos que vieram depois deles, como o Homem-Aranha e os X-Men.
            É interessante notar que o surgimento do Quarteto se deu num momento de profunda crise na indústria dos quadrinhos. “Era um negócio falido”, disse tempos depois Jack Kirby, um dos mais importantes desenhistas e criadores da história dos quadrinhos, referindo-se ao panorama da indústria no final dos anos 50. Ele não era o único a sentir isso. Outro profissional de longa data, Stan Lee, pensava na mesma época em mudar de área e partir para uma nova carreira. Devemos à sua esposa, Joan, o mérito da criação da Era Marvel. Foi ela quem convenceu o marido a fazer uma despedida em grande estilo, produzindo um gibi que marcasse época.
            Mas a Marvel como a conhecemos surgiu, ironicamente, a partir de sua maior rival, a DC Comics. Foi durante uma partida de golfe que o publisher da DC na época, Jack Leibowitz, falou a Martin Goodman, o presidente da Marvel, a respeito do sucesso de um novo gibi estrelado por uma equipe de heróis bem conhecidos como Superman, Batman e a Mulher-Maravilha, intitulado Justice League of America (a Liga da Justiça). Entusiasmado com a idéia, Goldman propôs a Stan Lee que criasse um grupo similar de personagens superpoderosos.
            Na noite daquele mesmo dia, Lee voltou para casa e escreveu um perfil de duas páginas da nova revista e enviou para Kirby. Os dois começaram então a trocar idéias sem imaginar que estavam criando algo que entraria para a história por diversas razões.
            A primeira delas é que Lee e Kirby concordaram desde o início que mais importante que as tramas seriam as personalidades dos heróis. “A caracterização é a coisa mais importante em qualquer história”, afirmou Lee. “Primeiro, pensei no tipo de personagem que eu queria, e só depois imaginei que tipo de superpoder ele teria.” Esses superpoderes seriam derivados dos quatro elementos fundamentais da natureza: água, ar, fogo e terra.
            Os quatro personagens derivados desses elementos eram o Sr. Fantástico, com sua habilidade para se esticar como uma borracha e ser tão maleável quanto a água; a Moça Invisível (mais tarde Mulher Invisível), capaz de passar despercebida em pleno ar; o Tocha Humana, que transforma o próprio corpo em uma labareda viva; e o Coisa, um ser monstruoso e atormentado feito de pedra.
            Para cada um deles, Lee e Kirby projetaram uma personalidade própria, e os conflitos nasceriam a partir das diferenças entre os personagens, e não de seus poderes, que a propósito não eram propriamente inéditos. Já havia personagens elásticos nos quadrinhos, como o Homem-Borracha de Jack Cole, homens e mulheres invisíveis na literatura e no cinema desde a clássica criação de H. G. Wells no século XIX, e até mesmo um outro Tocha Humana, criado por Carl Burgos em 1939. Mas um monstro feito de pedra e que também era um herói relutante, isso jamais tinha sido pensado. Outra característica marcante e que cativou os leitores era que os quatro heróis não empregavam identidades secretas como seus congêneres na DC. Usavam os próprios nomes, facilmente identificáveis pelo público, como se fossem astros de cinema.
Se os quatro integrantes do grupo representam os quatro elementos primordiais da natureza segundo o conceito da filosofia antiga, então o quinto elemento, aquele que desestabiliza a harmonia entre os outros quatro, seria sem dúvida o ferro, personificado pela figura sinistra do Dr. Destino, o vilão predileto de Stan Lee. Aqui, estamos no rol dos grandes vilões e antagonistas dos super-heróis, e nessa categoria Destino só se equipara em magnificência e ameaça ao maior de todos os vilões dos quadrinhos, o Coringa. Desfigurado por um acidente, ele passa a esconder o rosto por trás de uma medonha máscara de ferro, que tanto deve ser visto como uma reminiscência do famoso personagem de Alexandre Dumas, no século XIX, “O Prisioneiro da máscara de ferro”, quanto uma antevisão daquele que viria a usurpar o papel supremo do mal nas telas dos cinemas mais de uma década depois.
            Assim como Destino, Darth Vader também oculta seu rosto e a sua personalidade do mundo por trás de uma pavorosa máscara de metal. E, de forma similar ao inimigo número um do Quarteto, o personagem de George Lucas também manipula um poder místico e sobrenatural (a Força). Tanto num caso como no outro, a máscara e a armadura de metal que recobrem os corpos de seus usuários podem ser vistos como metáforas bem pouco sutis de suas almas, endurecidas e tornadas frias carapaças pelos incidentes dramáticos que moldaram as suas vidas. Tanto num caso como no outro a morte da mãe cumpre um fundamental papel na definição de suas psiques disfuncionais e distorcidas. Ambos anseiam pelo poder supremo em seus respectivos domínios. Destino, que almeja governar a Terra a partir do fictício reino da Latvéria, e Vader, que pretende lançar o seu poder soberano sobre toda uma galáxia, muito, muito distante.
            Ainda no capítulo dos grandes vilões do Quarteto, é impossível deixar de mencionar outra grande criação de Lee e Kirby. O onipotente Devorador de Mundos, Galactus. Um ser tão imenso que a sua natureza é incapaz de ser abrangida completamente por reles seres humanos, Galactus vaga pelas estrelas em busca de planetas e corpos celestes com que se alimentar. A sua imponente presença representa o princípio da destruição, o caos essencial do universo, uma espécie de premonição daquilo que a ciência hoje classifica de buraco negro. Stan Lee certa vez declarou que Galactus simboliza a natureza implacável e impiedosa de Deus, e suspeito que ele estava pensando no Jeová do Antigo Testamento, cruel e caprichoso, ao criar o personagem. Dentro dessa interpretação, outro personagem recorrente nas aventuras do Quarteto Fantástico, o Vigia, uma entidade aparentemente contemplativa e distante, que acompanha os destinos humanos sem interferir (mas sempre interferindo), seria uma espécie de versão agnóstica do Criador, uma criatura distante e impassível, que jamais parece se incomodar com os nossos problemas.
            Na linha intermediária entre esses dois seres, complementares como as duas faces de uma moeda (ou as variadas máscaras com que Deus se apresenta à nossa interpretação), de dimensões nada menos que cósmicas, situa-se o arauto de Galactus, o ilustre Surfista Prateado. Um dos personagens mais fascinantes já criados nas HQs, o Surfista é uma espécie de Jesus Cristo ou Salvador abnegado, que abdica de sua independência e liberdade no espaço vazio entre as estrelas para salvar a humanidade da fome aterradora de seu soberano. Assim como o Messias bíblico, o arauto de Galactus se sacrifica pelos nossos destinos e se atormenta pela forma como conduzimos o planeta.
Personagem Marvel preferido de muita gente, a começar por Moebius, o grande artista dos quadrinhos franceses (e que chegou a produzir uma graphic novel estrelada pelo Surfista e por Galactus, no final dos anos 1980), o Surfista, com a sua postura não conformista e as tiradas filosóficas de ressonâncias shakespeareanas, se tornou o ícone da geração “flower power” nos Estados Unidos, na segunda metade dos anos 1960. Mais do que uma espécie de uma estatueta do “Oscar” equilibrada sobre uma prancha de surfe capaz de singrar o cosmo, o personagem deu voz às inquietações existenciais de uma época marcada pela revolução dos costumes, pela Guerra do Vietnã, pelo rock de Janis Joplin e Jimmy Hendrix e a corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética então em voga. Por seus próprios méritos, acabou ganhando um título solo anos depois e deixou de ser um mero coadjuvante de luxo na saga do Quarteto.
            Mas isso ainda era um futuro inimaginável quando a explosiva primeira edição da revista Fantastic Four foi lançada, em novembro de 1961. O sucesso imediato da publicação não só deu início a uma renascença nos quadrinhos, como foi a pedra fundamental para uma parceria que se estendeu por uma década e marcou época: a de Stan Lee e Jack Kirby, uma dupla tão fantástica quanto as criações que nos legaram.

Texto originalmente publicado na revista Wizard #45


São Paulo, 02 de agosto de 2015

 
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