e Confira a versão integral de "O Homem reduzido ao nada", a resenha crítica de "A Metamorfose", de Kafka ~ Diário do Moretti
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domingo, 5 de julho de 2015

Confira a versão integral de "O Homem reduzido ao nada", a resenha crítica de "A Metamorfose", de Kafka






O HOMEM REDUZIDO AO NADA

Por Marco Moretti

Ilustração retratando "A Metamorfose", de Franz Kafa - Fonte: Wikipedia

            Todos os escritores que valem a pena ser lidos fazem das circunstâncias da vida pessoal a matéria-prima de sua obra. É impossível ignorar a influência da infância miserável de Charles Dickens nas aventuras de Oliver Twist, David Copperfield e uma infinidade de outras criações do autor britânico, assim como o russo Dostoiévski só conseguiu retratar de forma realista a natureza humana porque experimentou em primeira mão o tipo de transtornos que os seus personagens mais famosos, como Aliocha, em “Os Irmãos Karamazov”, e Raskolnikov, em “Crime e Castigo”, vivenciaram. Mas nenhum outro escritor foi tão radical em transpor para o papel os diversos aspectos de sua existência e, ao mesmo tempo, dotá-los de um caráter tão fantástico que beira o surreal, quanto o tcheco Franz Kafka (1883-1924). Nele, vida e obra formam um todo inextricável.
            Muito já se escreveu sobre ele, e muito ainda há de se escrever a respeito de sua influência na literatura universal a partir dos primeiros decênios do século XX, quando a sua obra, não muito extensa mas decisivamente revolucionária, começou a romper os limites estreitos de sua Praga natal. Graças, em grande parte, ao esforço do amigo e biógrafo Max Brod, a quem, como se sabe, Kafka confiou a inglória e (para o bem da posteridade) jamais cumprida tarefa de destruir os originais de seus romances, novelas e contos depois de sua morte. É bem verdade que uma parte substancial de seu trabalho já havia sido entregue às chamas por uma das namoradas de Kafka, que cumpriu a sua determinação à risca quando ele, numa de suas recorrentes crises de auto-confiança, ordenou que ela desse fim a um punhado de escritos que considerava impublicáveis. O que restou desse holocausto criativo, ainda assim, foi o bastante para alçá-lo à categoria rarefeita de um dos poucos gênios da humanidade em todos os tempos.
            Desse conjunto remanescente de ficções e não-ficções, talvez a peça mais significativa, porque estranha e desconcertante (para não dizer repugnante), é, sem dúvida, a novela “A Metamorfose”. Escrita 12 anos antes da morte precoce do escritor, vitimado pela tuberculose, a história do homem que um dia acorda na cama transformado em um imenso inseto (a tradição costuma descrevê-lo como uma barata, mas o fato é que a espécie do animal jamais é explicitamente revelada. É impossível saber exatamente a que criatura o escritor tinha na cabeça quando criou a novela, mas o mais provável é que fosse um híbrido entre uma barata, um besouro e um percevejo) foi escrita dois meses depois do conto “O Veredicto”, que Kafka redigiu numa espécie de surto criativo em uma só noite, e uma série de elementos comuns entre os dois trabalhos nos permitem considerá-los, se não sequências propriamente ditas, ao menos interligadas por um estreito vínculo temático e estilístico.
            A começar pelas semelhanças entre os nomes dos protagonistas, Gregor [Samsa], em “A Metamorfose”, e Georg [Bendemann], em “O Veredicto”, pela figura paterna autoritária e intimidadora, pelo clima de sufocante e inescapável pesadelo que ajudaria a sedimentar em nossas mentes o adjetivo “kafkiano” e pela relação problemática dos personagens com o mundo do trabalho, quase tudo nessas obras nos obriga à conclusão de que uma é como que o espelho da outra, ou, dito de outro modo, o drama de Samsa seria a punição infligida a Bendemann pela ousadia em se casar com uma moça contra a vontade expressa do pai.
            Sabe-se da relação tormentosa que Kafka manteve com o pai austero e exigente, que desprezava o filho pelos seus dotes literários e parece jamais ter concordado com as suas escolhas amorosas. A relação de amor e ódio (mais ódio que amor, para dizer a verdade) dos dois acabaria rendendo uma célebre “Carta ao Pai”, escrita em 1919, na qual o escritor punha a nu a sua insatisfação e as suas decepções com relação à atitude paterna. Também não é nenhuma novidade o fato notório de que a relação pai-filho foi o grande combustível para a obra kafkiana. Portanto, só temos a agradecer ao Sr. Kafka por toda a má vontade que nutriu pelos talentos do filho uma vida inteira.
            Contudo, seria injusto considerar que apenas ao pai se devem as obsessões que o escritor tcheco destilava em seus escritos, em que parece ter pretendido extravasar as suas imensas e jamais equacionadas frustrações, numa espécie de terapia literária constante e, em certo momento, desesperada. Tão relevante para ele quanto a figura paterna havia o papel do trabalho, burocrático e supremamente desinteressante, em uma firma de seguros de acidentes de trabalho de Praga. Talvez ainda mais do que ao pai, o seu ódio pela estrutura impessoal e estúpida do mundo do trabalho consumia por completo o seu vigor criativo e, provavelmente, foi o que o levou a abraçar as causas do sionismo e do socialismo como um ilusório bote salva-vidas aos problemas da sobrevivência financeira e social.
            O terceiro ingrediente que forma o tripé de sua obra era a constante busca de Kafka por um objeto amoroso. Não poucos estudiosos viram em sua obsessão por encontrar uma mulher disposta a amá-lo e a suportar as suas idiossincrasias um reflexo dos complexos edipianos que ele nutria pela mãe. Segundo essa interpretação, os diversos e, por vezes, duradouros relacionamentos que ele manteve espelhavam mais do que o seu desejo de constituir uma família longe dos desmandos do pai, mas a profunda insegurança com relação a tudo o que dizia respeito a si mesmo. Inclusive ao fato de ser judeu em uma sociedade aberta e francamente anti-semita. Essa falta de confiança também se referia aos seus talentos como escritor, fomentada, senão criada, pelas censuras paternas, e, em última análise, podemos inferir que foi o que o levou a desejar que o seu trabalho nunca viesse a público.
            Antes de tudo, porém, essa insegurança crônica travestida em complexo de inferioridade constitui a chave para se compreender a obra de Franz Kafka, sobretudo “A Metamorfose”. Quando retrata o pobre sujeito que se vê encerrado no corpo de um inseto repugnante, Kafka não está falando de ninguém menos do que si próprio e de como se sentia naquela quadra de sua vida, esmagado pelas forças opressivas do pai, da vida profissional e dos preconceitos raciais que vigoravam na Europa de então. Se lhe tivesse sido permitido viver mais tempo e alcançar a maturidade dos 40 ou 50 anos, talvez o escritor superasse essa postura e a enxergasse como fruto da imaturidade emocional de um jovem inexperiente em tudo o que dizia respeito à existência prática. Somente um jovem inconseqüente e ingênuo poderia esperar viver da escrita (e, principalmente, de sua escrita, tão excêntrica para os padrões literários da época, e que só tem paralelos em nomes como o russo Isaac Babel, o polonês Bruno Schulz e o suíço Robert Walser), sem a estabilidade financeira de um trabalho regularmente remunerado. Somente um jovem imaginativo poderia almejar um casamento e, principalmente, manter uma família vivendo nas condições em que ele ansiava viver. Porém, se não fosse esse arroubo de juventude, Kafka não seria Kafka.
            É tão certo que a personalidade do autor moldou a sua escrita quanto é certo que ele fez dela a expiação de seus mais profundos medos e complexos. De modos e aspecto reservados, tanto pelas contingências de sua criação e trabalho quanto pela herança cultural a que estava subordinado (ser judeu numa sociedade hostil o obrigava a, se não a esconder as suas origens, a mantê-las discretamente abafadas sob uma atitude de suposta “respeitabilidade”), ele fez do estilo de sua prosa o reflexo de seu modo de ser e viver. Uma escrita seca, contida, pouco afeita às adjetivações excessivas então em voga, quase envergonhada, desprovida de extravasamentos emocionais e sentimentais, em franca oposição ao gosto romântico cultivado pelos alemães.
E, é bom que não nos esqueçamos do fato nada desprezível que, embora tcheco, ele escreveu toda a sua obra em alemão, e foi dessa cultura que absorveu muito da sensibilidade imaginativa dos idealistas germânicos. Se não se pode afirmar que a literatura kafkiana é uma simples extensão do romantismo alemão do século XIX, tampouco se pode ignorar a sua influência, sobretudo no tom fantástico e opressivo que ela exala e que estava em estreita sintonia com o cinema expressionista alemão da época. Um fantástico, porém, que nada tem das extravagâncias sobrenaturais dos conterrâneos de Goethe, mas constitui-se numa versão exagerada e alegórica, uma espécie de espelho distorcido, de parque de diversões, da realidade cotidiana.
            “A Metamorfose”, como se sabe, não foi a primeira obra literária a tratar do tema da transformação humana. Várias fábulas infantis e clássicos como “A Divina Comédia” abordaram a questão antes. Mas, indubitavelmente, a fonte primordial de inspiração foi mesmo o livro do qual a novela de Kafka tomou emprestado o título. “Metamorfoses”, do autor latino Ovídio (43 a.C.-17 ou 18 d.C.) foi um longo poema que relatava as histórias de mutações de seres humanos em outros seres ou coisas baseadas da mitologia Greco-romana. A grande diferença é que, no livro de Ovídio, tudo se passa no plano do mito, da pura fantasia, enquanto em seu trabalho Kafka transpõe o fantástico para a realidade diária, banal e tediosa.
Não que a religião esteja divorciada da obra do escritor tcheco. Muito pelo contrário. Seria quase impossível dissociar os contos, novelas e romances que ele escreveu de seu entendimento muito particular da religião judaica. O Deus de Kafka é um deus implacável, cruel e quase sádico na maneira com que brinca com os destinos humanos. Há pouco lugar nessa visão para o Deus de misericórdia dos cristãos ou o provedor do povo eleito da Torá. Pode-se imaginar que o seu Deus é uma versão mais onipotente e impiedosa de seu próprio pai. Nesse sentido, não é improvável supor que O Livro de Jó seja o modelo tanto metafísico quanto literário do escritor, e talvez esteja nesse icônico livro bíblico a chave para se compreender tanto a história de Gregor Samsa quanto de seus demais trabalhos. Como Jó talvez ele se sentisse e como Jeová (ou Satanás) talvez se deliciasse em submeter os seus personagens a toda espécie de provação.
            Que “A Metamorfose” seja uma espécie de acerto de contas dele com o pai e o odioso trabalho em que se via obrigado a manter contra todos os seus impulsos mais profundos, já que o via como um empecilho à sua carreira literária, não é novidade alguma. O que talvez poucos críticos que se debruçaram sobre essa obra tenham se dado conta é que ela condensa, de forma inequívoca, duas características bastante negligenciadas do autor.
            A primeira é o indiscutível sarcasmo que permeia a novela. Ao apresentar o drama de seu personagem, subitamente convertido num asqueroso inseto, ele desnuda e ao mesmo tempo ri da percepção que costumava ter de si mesmo, fosse diante do pai e dos colegas de trabalho, quanto da sociedade que o cercava. Nesse sentido, Kafka é um escritor muito lido e mal compreendido na mesma proporção. O adjetivo que define o seu trabalho também deveria servir para destacar o humor negro, se preferirmos chamar assim, de suas tramas absurdas. Um satirista, enfim, que pode ser vinculado à linhagem literária de Jonathan Swift, o irlandês dos séculos XVII e XVIII e autor de “As Viagens de Gulliver” e com o qual podemos traçar muitos paralelos com a obra do autor tcheco.
            A segunda característica que ressalta da história simultaneamente trágica e patética de Gregor Samsa é o profundo desgosto que Kafka tinha de sua própria aparência física. Não só em “A Metamorfose”, mas em “O Veredicto” e em contos como “Um Artista da fome”, é flagrante o relevo dado à falta de beleza do corpo humano. Pode-se supor que as mutilações e deformações pelas quais os corpos de seus personagens são submetidos expressam um ardente sado-masoquismo do autor, como se ele pretendesse punir-se ou punir o próprio físico. Sob essa luz, o anseio do escritor em se sobressair na vida amorosa e seus sucessivos namoros talvez fossem uma tentativa, consciente o não, de sublimar aquilo que ele devia sentir como uma feiúra extrema. Daí se conclui que o culto ao corpo (ou o “não-culto” ao corpo) seja um dos temas principais de “A Metamorfose” e de boa parte de sua obra.  
             
04 de julho de 2015
           


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