e Confira a versão completa do conto "A Longa queda para o alto" ~ Diário do Moretti
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sábado, 4 de julho de 2015

Confira a versão completa do conto "A Longa queda para o alto"




A LONGA QUEDA PARA O ALTO

Por Marco Moretti

“Encheram-se as tuas entranhas de violência e pecado; por isso eu te bani da Montanha de Deus e te fiz perecer, ó querubim protetor,
em meio às pedras de fogo.”
Ezequiel, 28-16

"A Queda de Ícaro", pintura de Marc Chagall - Fonte: Wikipedia

Ninguém nunca soube ao certo o nome de batismo do cabo, nem quando passou a ser chamado de “Falcão”, mas o tempo e o hábito fizeram a sua parte. Já a razão por que isso aconteceu era fartamente conhecida. Como a ave de rapina da qual tomou emprestada a alcunha, o policial era um predador incansável, implacável e preciso, dado a surtos de violência, a atos desproporcionais de conduta que já várias vezes o haviam deixado na berlinda entre os oficiais superiores da corporação. Fazia por merecer a fama de homem abrutalhado sempre que defrontado com uma situação que exigia dele menos neurônios e mais músculos. “Dedo leve”, era a observação comumente associada a ele, e raras eram as ocasiões em que deixava de fazer jus esse rótulo. A verdade é que, para um sujeito que transpirava testosterona por cada poro, a agressividade era uma forma tão válida de reagir aos problemas quanto qualquer outra. Que não se pedisse a ele ponderação sobre certos assuntos, sobretudo quando diziam respeito ao combate ao tráfico de drogas. Falava com a economia de um soldado espartano e agia como tal, de forma abrupta e definitiva, sem medir as conseqüências de seus atos, mesmo quando eles pudessem deixá-lo em maus lençóis. Não por outra razão era um freqüentador assíduo das manchetes dos jornais sensacionalistas e das discussões inflamadas nas redes sociais, sempre despertando posições apaixonadas das pessoas, mas parecia se importar tanto com isso quanto um elefante com uma formiga que comete a imprudência de ficar sob a sua pata. Simplesmente não tinha paciência para perder tempo se justificando por aquilo que considerava a sua missão suprema: exterminar os marginais, por fim à bala aos males maiores da sociedade, que a seu ver se resumiam todos à existência dos traficantes e os seus sequazes. Tinha a simplória crença de que, agindo dessa maneira, conseguiria sozinho erradicar o Mal da face da Terra. Era esse seu ponto de vista curto e grosso sobre as coisas que incomodava aqueles que se dispunham a combatê-lo. Uma tarefa fadada ao fracasso, dada a sanha destrutiva de animal enfurecido que Falcão pouco se esforçava em aplacar.
Essa é uma descrição precisa para traduzir em um só parágrafo o aspecto embrutecido de sua expressão naquela madrugada de garoa intermitente. Os olhos esbugalhados, injetados de sangue, quase saltando fora das órbitas. As sobrancelhas pretas e grossas como duas taturanas desmesuradamente arqueadas. O lábio, num esgar medonho de máscara de tragédia grega, deixava escapar uma baba branca. A fala resumida a um rosnar selvagem, insano. Uma postura ameaçadora, sinistra, em que as fronteiras entre o homem e o animal se mesclavam num borrão indistinto. As mãos, trêmulas de excitação e não de nervosismo, sacudiam perigosamente a Glock .40 S&W a uns dois metros de um rapaz raquítico, de uns 12 anos se tanto, cabelos crespos ralos, cujas pernas ajoelhadas no matagal bamboleavam tanto quanto a arma que apontava para a sua cabeça. “Eu não sei nada, eu não fiz nada, eu sou trabalhador, eu sou do bem”, implorava o moço de novo e de novo, numa incessante ladainha recorrente e desesperadora, que a cada repetição ia ficando mais aguda e irritante. Da cabeça abaixada, escorriam lágrimas que iam empapando a camiseta suja e rasgada em que mal se via o emblema desbotado do seu time do coração.
Desnecessário explicar que nada do que o jovem dissesse seria capaz de demover um milímetro sequer o cabo de seu propósito. Agindo como juiz, júri e, agora, como executor, ele já tinha formulado no tribunal de sua mente a sentença definitiva e a correspondente pena, que só precisava ser aplicada com rigor e sem hesitação. Uma vez imbuído desse propósito, não haveria força conhecida no mundo capaz de impedi-lo, nem mesmo se o próprio Jesus Cristo descesse dos céus e rogasse por perdão. Dentro dos escaninhos de seu cérebro distorcido, Falcão guardava uma definição bastante singular de justiça. Em sua concepção, justiça era tudo aquilo que ele considerava correto fazer para eliminar o crime, não importando muito os meios que empregasse para tanto. Que os defensores dos direitos humanos se descabelassem para expulsá-lo da corporação e processá-lo. O cabo sabia muito bem qual era a sua função dentro do esquema geral que opunha civis inocentes e delinquentes em pratos opostos da balança social e a cumpria com eficiente zelo.
Com apenas um disparo certeiro ele liquidou a conta. O rapaz magricela foi atingido bem no meio da testa, tombou para trás, os braços inertes quais os de uma marionete cujos cordéis foram cortados, e rolou duas vezes pelo barranco. Falcão aproximou-se para certificar-se de que a questão estava resolvida, ao seu modo direto e sem talvezes, e com o pé empurrou o corpo declive abaixo, como se não passasse de um saco de lixo que as pessoas jogam num monte de entulho. Para ele, aquilo fazia parte da rotina diária, algo tão corriqueiro e banal quanto escovar os dentes ou tomar banho. Não tinha o que lamentar. Em seguida, com a mesma displicência com que havia feito o seu trabalho, enfiou a pistola no coldre e voltou para a viatura, onde o seu parceiro o aguardava. No caminho, bateu as mãos uma na outra, num gesto que tanto podia significar alívio por concluir um serviço sujo quanto de auto-congratulação, quase como se estivesse aplaudindo a si mesmo.
Um ou dez ou 50, que importância os números tinham? Em sua contabilidade, quanto mais marginais tirasse de circulação, tanto melhor. Talvez para aplacar a consciência, preferia acreditar que não era ele quem tirava aquelas vidas, mas Deus, um clichê gasto e velho costumeiramente empregado por ele e seus colegas, embora apropriado para uma falácia perversa e doentia em que procuravam desculpar-se perante si próprios.
Ainda naquela madrugada, chegou em casa, um quarto e cozinha mirrado e infestado de baratas enfiado nos fundos de um sobrado no Campo Limpo, bebeu sofregamente de uma lata de cerveja meio quente e, em seguida, já um tanto embriagado, atacou a esposa com a agressividade de um cachorro hidrófobo. Na cama, como em tudo o mais, dispensava à mulher o mesmo descaso com que exterminava os bandidos que caçava. Sem intimidades, sem palavras de afeto, sem qualquer rastro de carícias. Para o cabo, a infeliz não passava de um repositório ordinário para as suas excreções. Para ele, todo o prazer do mundo, enquanto, para ela, aquilo significava uma rotina dolorosa e torturante. Preferia pensar que era a forma que Falcão encontrava de desafogar a tensão de uma ronda extenuante, e isso a ajudava a se conformar com a situação.
Entretanto, as coisas estavam destinadas a ser diferentes daquela vez. Quando se encontravam no auge da fúria carnal, a mulher inadvertidamente apalpou uma protuberância nas costas do marido. O rosto achatado do policial contorceu-se numa careta de dor e ele rolou para o lado.
- O que foi que você fez, mulher? – urrou o macho, afogado em agonia.
- E-eu é que sei? – redarguiu ela, soerguendo-se da cama assustada - Tem um troço nas suas costas, que nem um caroço, mas não faço ideia do que é. Relei a mão sem querer...
- Caroço, você tá dizendo? – resmungou ele, correndo para o banheiro. Virou-se e revirou-se em frente ao espelho até conseguir avistar, de rabo de olho, uma espécie de corcova proeminente, um abaulamento avermelhado e pouco sutil que se insinuava por uma extensão considerável da metade superior do corpo – Mas que m... é essa...?! – indagou, de si para consigo.
Como se já não bastassem as neuroses que o cabo carregava como fruto de sua atividade, essa “novidade” veio a se somar àquelas coisas que o preocupavam a ponto de deixá-lo paranóico com as múltiplas possibilidades que acenavam. Em sua cabeça tosca e bestial, aquela anomalia podia ter muitos nomes, de tumores a doenças venéreas, e cujos efeitos pareciam se acumular sobre a sua mente como as nuvens escuras de uma tempestade de granizos.
O que quer que fosse, pensou, ao cabo de uma madrugada inteira de cismas, não valia a pena a angústia que o atormentava. Para um sujeito condenado a atravessar a vida no fio balouçante que a toda hora ameaçava precipitá-lo no abismo da morte violenta, aquilo, concluiu com um negligente dar de ombros, valia tanto quanto uma coceira incômoda, uma irritação de pele que se resolve com a aplicação de uma combinação de pomadas dermatológicas e merecia a mesma atenção que a picada ardida de um mosquito.
Assim foi que, entre procurar um especialista e automedicar-se, não se resolveu por nenhuma dessas alternativas. “Não é nada, isso passa logo”, repetia entredentes toda a vez que sentia alguma pontada ou um dolorido amortecido naquela região das costas. No dia seguinte e nos outros dois daquela semana, um número excessivo de ocorrências impediu que tivesse tempo para pensar seriamente a respeito. No entanto, ainda que se negasse a admitir, e por mais que se esforçasse para ignorá-la, a esquisita protuberância ganhava proporções exageradas. De uns poucos centímetros de tamanho, no espaço de 72 horas inflou feito uma broa de milho no forno até atingir um palmo de cada lado do dorso.
Não foi senão quando participava de uma batida em uma boca de venda de crack numa favela da zona leste que a situação se tornou subitamente insustentável.
Munido de um fuzil, Falcão já havia invadido o espaço exíguo entre meia dúzia de barracões, derrubado a pontapés a porta de um deles e apanhado três rapazes que se ocupavam em fabricar a “pasta”. Um quarto conseguiu escapulir pelo vão de uma janela de um quarto nos fundos abarrotado de mulheres e crianças e o cabo iniciou uma perseguição que foi se afunilando entre o dédalo de ruelas espremidas umas contra as outras. O garoto chegou a alcançar o sopé de um morro que precariamente ameaçava despencar sobre o casario imediatamente abaixo quando o policial saltou sobre ele da improvável distância de dois metros. O corpanzil composto de músculos compactos desabou com toda a força em cima do moleque e o peso do impacto fez com que os ossos de suas finas pernas vergassem até quase se partirem. Os dois rolaram no matagal, atracados numa luta furiosa. Quanto mais o menino se debatia para se desvencilhar, mais Falcão o garroteava com os braços fortes da espessura de um tronco de árvore, até imobilizá-lo por completo.
A fuga já não parecia possível quando o cabo contorceu-se tomado de uma violenta dor nas costas. Incapaz de segurar o rapaz, afrouxou o abraço e deixou-o escapar. Caiu para o lado, revolvendo-se no chão numa agonia espasmódica, urrando feito um lobo ferido, enquanto a sua presa tratava de sumir em meio à escuridão que cobria a face íngreme do aclive.
O suplício arrancou o ar de seus pulmões, e ele arfava, rouquejava, sufocava. Sentia como se os órgãos internos estivessem sendo dilacerados pelas garras curvas e afiadas de um velocirraptor. Uma espécie de ardência se alastrou por todo o dorso, paralisando-o numa pose retorcida de sofrimento indizível. Os traços duros e grosseiros do rosto se transmudaram na máscara de uma Górgona horrenda e asquerosa. Felizmente para Falcão, o negrume que obliterou a sua consciência veio socorrê-lo de um tormento atroz.
Quando voltou a si, estava sendo transportado por uma equipe de paramédicos no interior de uma ambulância estridente e trepidante. Tentou erguer a cabeça, dizer alguma bobagem, mas uma pontada lancinante aferrada à base do pescoço tratou de imobilizá-lo na maca. O que significava tudo aquilo, a razão daquela tortura que se superpunha aos seus próprios pensamentos vacilantes, ele só viria a suspeitar horas depois, quando uma demorada e excruciante batelada de exames deixou-o em estado semicataléptico no leito de um hospital.
- Os meus olhos estão vendo, o meu cérebro está registrando, mas o meu espírito é incapaz de acreditar nisso que tenho em mãos – foi dizendo a médica, uma jovem de nariz aguçado e lábios finos, apertados, ao entrar no quarto. Contemplava, com ar incrédulo, a radiografia que havia tirado das costas do cabo.
“Por que? O que tem de tão errado comigo?”, pensou em dizer o policial, mas antes que deixasse essas palavras escaparem para o ar, a doutora pareceu adivinhar os seus pensamentos ou a intenção deles e prosseguiu na mesma toada:
- Tem alguma coisa tão estranha acontecendo nas suas costas que eu mal arrisco a dizer o que se trata. Não é nada que eu já tenha visto ou ouvido falar. E duvido que haja algo parecido nos anais da medicina.
- Então... é grave? – balbuciou Falcão, esforçando-se para manter a calma.
- Para ser sincera, nem isso consigo afirmar ao certo. Mas posso lhe garantir o que não é. 1) Não é um tumor ou coisa parecida; 2) Tampouco é uma fratura de alguma espécie; 3) E fique tranquilo, você não está se transformando num mutante... pelo menos ainda não. Digamos que se trata de uma anomalia, e não me pergunte se é genética, virótica ou fruto da ingestão de alguma droga exótica – esboçou um sorriso tímido, ao notar que perpetrara uma rima.
- Será que não dá pra ser mais específica, doutora?
- Está bem. Se eu não corresse o risco de ter a minha licença médica cassada, seria capaz de afirmar perante uma junta de especialistas e com a mão direita pousada sobre uma Bíblia que isso que você tem no dorso é uma formação óssea, um órgão de sustentação aérea de dimensões e forma que eu jamais encontrei em nenhum paciente... quer dizer, ser humano... e está em desenvolvimento.
- Como assim? Está me dizendo que tem algum troço crescendo aqui atrás? Que esse caroço é algo ruim?
A doutora respirou fundo, certificou-se de que não havia ninguém por perto para escutá-la e fitou-o profundamente nos olhos antes de dar o diagnóstico:
- Estou dizendo, meu bom policial, que o que você tem nas costas é um par de enormes, vistosas e bem formadas asas. Asas como as de um pássaro...
“Ou de um anjo.”
Falcão não saberia dizer depois se pensou ou se afirmou isso em voz alta e possante, mas, seja como for, a frase era autêntica. Naquela semana, prosseguiu em sua faina de perseguir assaltantes de banco e malfeitores de segunda categoria seduzido pela ideia de que talvez estivesse nesse incidente digno de nota a explicação que buscava para o sentido de sua miserável existência. O que era um homem decidido a erradicar os criminosos, ou, ao menos, dar-lhes cerco sem tréguas, senão uma criatura imbuída da missão divina de exterminar o mal, um anjo vingador de carne e osso, em suma? De tanto martelar esse pensamento no cérebro espremido no interior de seu estreito crânio Neandertal, começou a acreditar nisso, e logo estava convencido de que era, ele mesmo, um enviado dos céus para botar os fora-da-lei na linha, um presente de Deus aos homens de boa vontade, pelos quais estava resolvido a fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para proteger.
Isso significava, pura e simplesmente, a perseguição indiscriminada e incansável a todos aqueles que ele julgava sujeitos de resvalar para o mundo do crime. Liberado de quaisquer amarras que o prendessem à terra firme da lei e da moral, saiu a fazer justiça ao seu modo, abandonando no caminho um rastro de sangue e corpos mutilados. Não era necessário que o alvo em questão tivesse sido apanhado em flagrante ou estivesse pronto para executar um ato criminoso. Bastava que o cabo assim o quisesse.
Havia, porém, um método naquela carnificina indiscriminada. Um método que incluía todos os maneirismos e desconfianças que ele sabia captar com um simples olhar e excluía as possíveis motivações que se encolhiam por trás das sombras dos potenciais bandidos. Apanhados sem a mínima chance de retrucar, de implorar clemência, as vítimas eram executadas com a frieza de um Rambo [1]. Em questão de dias, a contagem de mortos saltava das dezenas para mais de uma centena e prosseguia em progressão geométrica, o que acabou por chamar a atenção de seus superiores na Secretaria de Segurança Pública. Fazendo coro à indignação da opinião pública, o governador prometeu pronta ação para coibir aquilo que classificou como “execuções covardes”, para o aplauso dos movimentos de direitos humanos e o escárnio dos proto-fascistas.
Inútil dizer que nada disso foi contundente o suficiente para demover Falcão de suas práticas. Muito pelo contrário, ele pareceu redobrar os esforços para efetuar o equivalente a uma “medida sanitária” a fim de livrar as ruas da ameaça onipresente dos traficantes e suas hostes. Já não mais apertava o gatilho da pistola ou disparava uma rajada de fuzil com as vozes da consciência reverberando incomodamente no ouvido. Atirava com suprema despreocupação porque sentia, e se imaginava, o repositório de todo o bem do mundo.
Não que essa crença, quase uma certeza, quase uma obstinação, amenizasse as dores que o policial continuava a sentir nas costas. Apesar de todos os analgésicos que consumia em doses cavalares, o sofrimento beirava o insuportável. Dia a dia, a protuberância se avolumava, ganhava relevo, se expandia de um ombro a outro e parecia prestes a rasgar a pele a qualquer instante. A forma como o cabo reagia a esse suplício era bastante peculiar e espelhava muito bem os caminhos tortuosos de sua mentalidade.
O fato é que ele jamais tinha sido homem de freqüentar igreja, nem paciência tinha para escutar os sermões de pastores ou padres, a quem considerava um bando de pederastas degenerados. Como decorrência disso, a sua fé em poderes sobrenaturais era a mais elementar e tosca. Acreditava num Deus supremo, e só. Em seu parco entendimento, Ele habitava em algum lugar distante, para além dos confins do mundo e dos homens, e pouco se importava com os nossos destinos, desde que seguíssemos os seus preceitos. Da Torá, dos Dez Mandamentos ou do Sermão da Montanha confessava nada saber, desde que nada disso atrapalhasse as suas peculiares dúvidas morais e interferisse na forma que havia encontrado de resolvê-las, à bala. Quanto à existência de anjos, arcanjos e querubins, acreditava neles tanto quanto em suas contrapartes demoníacas e, até o momento em que descobriu a sua singular anormalidade, pouco mais passavam em sua mente do que figuras coloridas de livros de catecismo, uma bobagem adorável, em suma.
O efeito imediato das recém-descobertas “formações ósseas”, como as denominou a médica, foi se converter num discreto defensor daquilo que antes considerava mero delírio de gente fraca. Fez uma aliança consigo mesmo para nunca revelar a ninguém, nem aos colegas, nem mesmo à mulher, o que estava se passando em seu organismo. Temia cair no ridículo, ser alvo de chacotas na corporação e perder o reverente respeito que por tanto tempo se esmerou em erguer em torno de si como um muro de tijolos bem cimentados. Se alguém notasse o crescimento do calombo nas costas, escaparia com uma desculpa qualquer, diria qualquer mentira, mas de forma alguma confessaria a verdade.
Outro efeito dessa situação, menos evidente, mas perceptível a quem se dispusesse a olhar de perto, é que, gradualmente, ele passou a se comportar de maneira diferente do habitual. Preocupava-se cada vez mais em fazer-se merecedor ao “dom” que havia recebido dos céus. Tomando por base a atitude de alguns colegas e vizinhos fervorosamente convertidos a algum culto pentecostal de que viviam a apregoar as qualidades, começou a evitar alimentos “impuros” como carnes vermelhas e deu adeus às cervejas e outras bebidas alcoólicas. Em seguida, lavou os lábios de palavrões de toda espécie e restringiu para além do aceitável a sua já taciturna personalidade. Em algum ponto desse extremismo, abdicou quase por completo de frequentar o corpo da esposa ou de qualquer outra mulher. Assim vestido, senão com o hábito ao menos com a atitude ascética de um monge, surdo aos apelos da carne, deu prosseguimento, dia e noite, à sua cruzada particular contra os malfeitores, considerando-se um herói dos justos e honrados segundo os seus próprios termos.
Foi durante uma patrulha noturna em uma quebrada na Cachoeirinha que todas essas ilusórias convicções que Falcão tão arduamente havia erigido no esforço de compor uma imagem mais digna e bela de si mesmo ruíram fragorosamente. Isso não aconteceu pela mão indelével do destino ou por qualquer acaso, mas exclusivamente pelos atos impulsivos dele.
Ao virar a esquina, a viatura em que ele e os seus companheiros de farda estavam deu de frente com um Corsa prata 2003 ocupado por dois rapazes de má catadura. Isso, em si, não representava grande coisa, mas, como já havia passado da meia-noite e dada a desolação do lugar, os policiais seguiram o protocolo habitual nesses casos. Acenderam o farolete de identificação e miraram a luz de sódio, amarela, intensa, nos rostos dos jovens. A reação foi a esperada, mas de forma alguma desejada. Os sujeitos saíram do carro munidos de armamento pesado e atiraram a esmo, sem o esforço de acertar num alvo definido. Enquanto um deles permaneceu acocorado atrás da porta, na tentativa de proteger-se dos disparos dos policiais, o motorista saiu correndo pela calçada e embarafustou por uma ruela estreita, a uns 10 metros do lugar.
Os dois companheiros de Falcão se ocuparam em revidar ao ataque do rapaz que se entrincheirou no carro e que logrou ferir um deles no ombro direito. O cabo não se intimidou em sair no encalço do outro, e o perseguiu incansavelmente por um dédalo de becos e vielas sombrios. A furiosa troca de tiros pôs em estado de alerta toda a vizinhança. A madrugada se iluminou com o rebrilhar dos disparos e foi sacudida pelo trovejar incessante do que parecia uma tempestade de verão se aproximando. O policial exibia um destemor de fazer inveja aos mais valorosos Vingadores [2] e, imbuído da convicção de que a sua sagrada missão lhe garantia o corpo fechado contra qualquer perigo, sequer se preocupava em se esquivar das balas.
Num esforço desesperado para despistar o perseguidor, o rapaz embarafustou para dentro de um prédio em construção, aparentemente abandonado. Galgou os sete andares até o topo com a ligeireza de um cabrito montês. Um esforço que em nada demoveu Falcão de sua obstinada caçada. A formidável forma física do policial permitiu que ele alcançasse o último andar com relativa facilidade. O local, contudo, parecia vazio. Falcão percorreu com o olhar o espaço deserto e caminhou cautelosamente até a beirada da laje. Deteve-se a meros milímetros do nada que se abria adiante e contemplou o abismo de 20 metros que o separavam do solo.
Nesse instante, o jovem se aproveitou desse descuido para desferir um pontapé em suas costas. Oculto por trás de um pilar, com um salto certeiro ele apanhou o oponente desprevenido. A velocidade do impulso, o ângulo do chute e as dezenas de quilos de músculos do robusto cabo conspiraram para precipitá-lo numa queda vertiginosa e sem escalas. O policial despencou com um urro alucinado, a ira e o desespero nivelados na mesma impotência.
Foi nesse instante, não antes nem depois, que Falcão sentiu uma dor excruciante nas costas. A queimação de mil autos-de-fé o lançou numa agonia feroz, como se as garras curvas e afiadas de um dragão egresso das covas do inferno o dilacerassem. A poucas braças do chão, escarrou para o alto e para o negror da madrugada um grito de insuportável dor quando a pele do dorso rasgou de ombro a ombro qual um trapo apodrecido e um par de asas enormes, tão magníficas quanto uma fantasia de Carnaval e tão impressionantes quanto a aparição de um anjo celestial, projetaram-se através da camisa para atingir uma envergadura absurda de quase dois metros em cada lado.
O intrépido cabo sentiu um júbilo irreprimível ao experimentar a sensação de liberdade que aqueles apêndices alados lhe deram. Por um breve momento, chegou a plainar com a graça de um condor nos picos nevados dos Andes. Chegou mesmo às lágrimas ao imaginar o portento que agora era capaz de exibir aos olhos de todo o mundo. Aquilo era a realização de seus anseios de ser um instrumento de justiça social, a sanção que esperava dos céus para servir aos seus propósitos muito particulares de combate ao mal. Ganhou altura rapidamente, e em segundos ultrapassou o topo do edifício do qual havia desabado. Incapaz de se conter por um segundo a mais, explodiu numa gargalhada feroz, frenética, exultante.
Mas o espetáculo de sua auto-indulgência durou o escasso tempo necessário para que ele desviasse o olhar para os lados e contemplasse, horrorizado, a verdadeira natureza de sua condição. De um instante para o outro, o regozijo deu lugar à frustração e essa ao pânico que enregelou os músculos de seu rosto numa carantonha muda de medo, e foi com essa expressão que horas depois o encontraram, estatelado no chão sobre um monte de entulho nos fundos de uma casa.
Os legistas, técnicos da polícia científica, repórteres e observadores casuais que mais tarde enxamearam o local da queda jamais chegaram a uma conclusão válida sobre o que sucedeu de fato naquela madrugada. Num aspecto, porém, todos concordaram. As asas que adornavam as costas de Falcão não eram, de maneira alguma, postiças ou algum tipo de aparato mecânico. Ao que tudo indicava, tinham brotado de sua própria carne e pertenciam ao seu corpo tanto quanto os demais membros. O que havia provocado aquela mutação era assunto para os especialistas debaterem durante anos. A sua natureza, porém, era indiscutível. Pois não se tratavam de asas como as de um pássaro, com penas brancas e macias, farfalhantes. Muito pelo contrário, eram coriáceas, tão delgadas que se mostravam translúcidas, e pontiagudas nas extremidades, como as de um enorme e assustador morcego.

São Paulo, 04 de julho de 2015





[1] Personagem de uma série de filmes de ação interpretado pelo ator austro-americano Sylvester Stallone.
[2] Grupo de super-heróis dos gibis da editora americana Marvel, criado na década de 1960.

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