e Leia a versão integral de "O Homem que nos levou para além da realidade", a trajetória de Rod Serling, o criador do seriado "Além da Imaginação' ~ Diário do Moretti
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domingo, 7 de junho de 2015

Leia a versão integral de "O Homem que nos levou para além da realidade", a trajetória de Rod Serling, o criador do seriado "Além da Imaginação'







O HOMEM QUE NOS LEVOU PARA ALÉM DA REALIDADE

Por Marco Moretti

“Há uma quinta dimensão além daquelas conhecidas pelo homem. É uma dimensão tão vasta como o espaço e tão desprovida de tempo como o infinito. É o espaço intermediário entre a luz e a sombra, entre a ciência e a superstição, e se encontra entre o abismo dos temores do homem e o cume dos seus conhecimentos. É a dimensão da fantasia. Uma região ‘Além da Imaginação’.”
Rod Serling, na abertura da primeira temporada de “Além da Imaginação”

Ilustração mostrando Rod Serling e "Além da Imaginação" - Fonte: Wikipedia

            Raras são as séries de TV que conseguem manter o prestígio em alta mais de 50 anos depois de irem ao ar. “Além da Imaginação” (“Twilight Zone”, no original), produzida entre outubro de 1959 e junho de 1964, é um desses fenômenos. Para muitos (entre os quais eu me incluo), trata-se simplesmente da melhor coisa já produzida para a telinha em todos os tempos. Ao todo, “Além da Imaginação” teve 156 episódios que trafegavam entre a ficção científica, o terror e a fantasia. Contudo, o seriado não conseguiu manter a excelente qualidade que o caracterizou durante as cinco temporadas em que permaneceu, penosamente, no ar. De fato, nunca gozou da popularidade de outros programas de antologia da mesma época, como “Alfred Hitchcock Presents”, que tinha o Mestre do Suspense como mestre de cerimônias e ocasional diretor. O que é compreensível, já que a TV dos anos 50/60 não era o lugar mais apropriado para o tipo de temas que “Além da Imaginação” costumava abordar, e que iam da discriminação racial à paranóia da guerra fria, do temor da aniquilação nuclear às frustrações da vida moderna, passando por questões existenciais e filosóficas de uma profundidade até então jamais vista. Como resultado, a série sempre sofreu com a falta de patrocinadores e várias vezes esteve a ponto de ser cancelada. Na segunda temporada, chegou a ter 13 episódios gravados em VT, em vez de película, para reduzir os custos. Na quarta temporada, num esforço para competir com outros programas similares, sobretudo “Quinta dimensão” (“The Outer Limits”), mudou de formato, dos habituais episódios de meia hora para uma hora de duração, com resultados insatisfatórios, pois a alteração enfraquecia a força das histórias, voltando para o formato original na temporada seguinte, que também foi a última.
            Apesar dos altos e baixos pelos quais passou, os êxitos artísticos da série em muito superam os revezes econômicos e técnicos. Que outro seriado contou com um conjunto tão magnífico de atores talentosos do cinema e da tevê quanto Burgess Meredith (o Pinguim na série de TV do Batman), Ida Lupino, Richard Basehart (o almirante Nelson de “Viagem ao Fundo do Mar”), William Shatner (o Capitão Kirk de “Jornada nas Estrelas”), Lee Marvin, Elizabeth Montgomery (“A Feiticeira”) e seu pai, Robert Montgomery, Robert Duvall, Buster Keaton (o grande cômico do cinema mudo, cujo talento ombreava com o de Charlie Chaplin), Robert Redford em início de carreira e tantos outros? Que outro seriado tinha Bernard Herrmann e Jerry Goldsmith assinando algumas das trilhas sonoras? Que outro seriado teve um episódio quase totalmente mudo? Finalmente, nenhum outro seriado, em toda a história da televisão, teve um episódio ganhador do Oscar e de um prêmio no Festival de Cannes (na verdade, tratava-se de um curta-metragem de ficção francês, baseado em um conto do escritor americano Ambrose Bierce, intitulado “An Occurrence at Owl Creek Bridge”, que foi comprado pelos produtores e convertido em episódio da série)? Isso sem mencionar os vários Emmys a que a série fez jus. Não por acaso, é uma das poucas produções feitas para a televisão que mereceu ter os seus originais preservados na Biblioteca do Congresso americano. Só o que “Além da Imaginação” não teve foram episódios em cores, mas isso, como já foi dito, deve ser credito à verba espartana que assombrou os cinco anos em que o seriado ficou no ar.
            Apesar desses predicados, não se pode ignorar que, depois de meio século, a série tem hoje as marcas da idade. Mas qual produção não teria depois de tanto tempo, e principalmente com as dificuldades que teve de enfrentar para existir? É inegável que “Além da Imaginação” envelheceu bastante, sobretudo nos aspectos técnicos (os parcos efeitos especiais, em particular, que já eram sofríveis na época da realização, devido ao baixo custo da produção, hoje são simplesmente medonhos). A mesma coisa, porém, não se pode dizer da qualidade de seus episódios, com roteiros antológicos, diálogos primorosos e interpretações cuja força continua intacta.
O alcance do seriado pode ser calculado pela enorme influência que teve (e continua tendo) em gerações seguidas de cineastas, roteiristas e escritores, entre os quais se incluem Steven Spielberg (cujo “ET – O Extraterrestre” é quase uma versão pouco modificada de “The Gift”, um episódio da terceira temporada, e “Poltergeist”, que ele produziu, inspirado em outro episódio, “Little girl lost”), Coppola (“Peggy Sue, seu passado a espera”), Woody Allen (“A Rosa Púrpura do Cairo”, praticamente uma adaptação do episódio “Sixteen Millimeter Shrine”), Robert Zemeckis (“De Volta para o futuro” não é mais do que um episódio estendido de viagem no tempo) e Joe Dante e John Landis (que, ao lado de Spielberg e George Miller, fizeram em 1983 uma homenagem à série rodando um longa-metragem de trágica memória com versões refilmadas de alguns dos episódios, além de uma história original que ficou incompleta e teve de ser remontada devido à morte, durante as filmagens, do astro Vic Morrow), Stephen King (que deliberadamente saqueia muitas das ideias para os livros e contos que escreve diretamente do baú de “Além da Imaginação”).
            O mérito para a sobrevivência de “Além da Imaginação” até o século XXI e o seu perene encanto deve ser creditado, acima de tudo, ao seu idealizador, apresentador e principal roteirista, o lendário Rodman Edward Serling, ou, simplesmente, Rod Serling. Os combustíveis que alimentaram a sua notável imaginação não foram fornecidos apenas pela erudição e o talento nato para produzir histórias cativantes e intrigantes. A fonte de suas ideias provinha das circunstâncias de sua vida e podia ser encontrada ali onde um olho arguto estaria habilitado a enxergar, na realidade em que estamos imersos. E a realidade, para Serling, emanava basicamente de um fato determinante e um contexto histórico.
            O fato determinante é que ele era judeu e, desde a infância e por toda a vida, teve de lidar com os desdobramentos disso. Para onde quer que se voltasse, fatalmente deparava com o preconceito e o racismo. E a sua sensibilidade liberal e absurda integridade moral faziam com que ele não somente sentisse os efeitos da discriminação na própria pele, mas na de outras minorias, sobretudo os negros. Na América da primeira metade do século XX, quando ter um negro na Presidência era pura ficção científica (a propósito, nos anos 1970, Serling escreveu o roteiro de um filme baseado no romance de Irving Wallace chamado “The Man”, que tratava justamente da escolha de um negro para presidente da República dos EUA), ser diferente da maioria dominante WASP (branca, anglo-saxã e protestante) era equivalente a ser relegado a uma condição inferior, quase sub-humana.
            O contexto histórico determinante em sua formação foi, em primeiro lugar, a Segunda Guerra Mundial. Tendo se alistado em 1943, Rod Serling serviu em combate no Pacífico como pára-quedista na 511ª Divisão Aérea e conheceu em primeira mão todo o horror do conflito. Ferido por um estilhaço de morteiro, foi condecorado com uma medalha de bronze por bravura e ganhou um ferimento no joelho que iria atormentá-lo por toda a vida (vários de seus roteiros para a televisão e para “Além da Imaginação” tinham a guerra no Pacífico como cenário). A experiência traumática da guerra serviu para inflamar ainda mais nele o fervor antibelicista, ou, o que vem a dar na mesma, levou-o a se tornar um ferrenho opositor de qualquer forma de conflito armado. Depois do término do conflito, quando a Guerra Fria e o machartismo (a perseguição aos comunistas e supostos agentes de Moscou infiltrados no território americano movida pelo senador McCarthy e os seus sequazes em meados dos anos 1940 e 1950) elevaram a temperatura política em seu país, ele já sabia de que lado das trincheiras políticas queria estar.
            Esses elementos, as questões raciais e sociais somados à guerra e os seus efeitos nefastos, estiveram desde então entranhados em sua mente. Eles permeiam, de maneira bastante clara, toda a sua obra, um formidável conjunto de roteiros e produções para a televisão americana que cobre o período de sua fase de ouro, em meados dos anos 1950, até a maturidade, no início da década de 1970. Democrata convicto (foi ardente apoiador de Kennedy e ficou arrasado com o seu assassinato, em novembro de 1963. Durante o funeral do ex-presidente, Serling foi chamado às pressas para redigir o texto de um programa de televisão do governo que apresentava à nação o novo presidente do país, Lyndon Johnson), teve a lucidez em enxergar a dimensão profundamente humana por trás dos dramas cotidianos, mas evitou resvalar para o panfletarismo das causas nobres ou, como se diz hoje, politicamente corretas.
            Não há dúvida de que foi o desejo de Serling em produzir algo de socialmente relevante que o impulsionou a voos mais altos do que lhe permitia o anônimo trabalho de roteirista em programas populares de duvidosa qualidade em uma estação de rádio em Cincinnati, onde deu os primeiros passos na carreira. Já casado e recém-formado no Antioch College, de Ohio (para onde regressaria, como professor de um curso universitário, na década de 1960), Serling passava as noites martelando na máquina de escrever os roteiros que sonhava em vender para alguma emissora de televisão. A sua persistência deu resultados e, em 1950, ele conseguiu que a rede NBC comprasse um texto seu para o programa “Stars over Hollywood”.
            Esse foi o passaporte que ele esperava para dar a guinada que o levaria ao sucesso. Nos anos seguintes, depois de abandonar o emprego na rádio, passou a vender cada vez com mais freqüência roteiros para séries de prestígio na época, como “Studio One” e “Lux Video Theater”. Finalmente, em 1955, o esforço de Serling foi recompensado quando o “Kraft Television Theater” levou ao ar um episódio baseado em um roteiro de sua autoria, “Patterns”, estrelado por Ed Begley e Elizabeth Montgommery. Resenhas entusiásticas em jornais como o “New York Times” ajudaram a elevar o nome de Serling à estratosfera da fama e o firmaram como um dos prodígios nascentes da nova mídia. A qualidade de seu trabalho em “Patterns” foi reconhecida no ano seguinte com aquele que viria a ser o primeiro de muitos Emmys, o Oscar da televisão americana, na categoria de Melhor Roteiro para a Televisão.
            Ao lado de outros roteiristas que então começavam a despontar como talentos a serem reverenciados, e que tinham como farol Paddy Chayefsky, um promissor escritor que naquele mesmo ano de 1955 receberia o primeiro de seus três Oscars pelo trabalho em “Marty” (os outros dois seriam por “Hospital”, em 1971, e “Rede de Intrigas”, em 1976), Rod Serling se tornou rapidamente um nome a ser respeitado. Depois do êxito de “Patterns”, ele marcaria pontos importantes com os roteiros de “The Rack” (sobre os efeitos colaterais da tortura mental em prisioneiros americanos na Guerra da Coreia, um trabalho que antecipou em alguns anos o seu roteiro para o clássico do cinema da Guerra Fria “Sob o Domínio do Mal” (“The Manchurian candidate”, de 1962, há poucos anos refilmado), e, principalmente, “Requiem for a Heavyweight”, um drama sobre luta de boxe estrelado por Jack Palance (posteriormente adaptado para as telonas como “Réquiem para um lutador”, com Anthony Quinn no papel do lutador decadente). A respeito desse telefilme, um executivo da rede CBS teria dito que “ele fez a TV avançar dez anos”.
            Em 1958, depois de se mudar com a família para Pacific Palisades, na Califórnia, Rod Serling começou a enfrentar aquilo que considerava o principal empecilho para a sua criatividade: a pressão dos patrocinadores. Certa vez, a Ford, que patrocinava um programa para o qual um de seus roteiros seria adaptado, implicou com uma cena que mostrava o Edifício da Chrysler, a sua concorrente direta, despontando no horizonte de Nova York visto pela janela de um escritório. Em outro roteiro, a citação da fala de Apolônio, em “Hamlet”, de Shakespeare, “Não empreste nem peça emprestado”, teve de ser cortada porque o patrocinador era uma associação de poupança e empréstimo.
Mas não eram somente os patrocinadores que tolhiam a sua liberdade de criação. As próprias emissoras também eram refratárias à abordagem de temas candentes, como o racismo. Inspirado por um fato real, o rapto e o assassinato de um garoto negro no Mississipi, em 1955, o roteiro de “Noon on Doomsday”, feito por Serling para o “United States Steel Hour”, teve de ser modificado por pressão dos produtores e, no lugar de um menino negro, a vítima passou a ser um velho judeu, e o local do incidente foi deslocado para o norte. O que não impediu que a patrocinadora que dava nome ao programa, a United States Steel, temendo um boicote do público e “a resultante crise nas relações públicas”, exigisse e conseguisse que o programa jamais fosse levado ao ar, mesmo sob essa versão “atenuante”. Ainda assim, Serling não desistiu de abordar um tema que lhe era caro. Fez novas alterações na história, situando-a em 1890, com um jovem mexicano no lugar de um negro, até conseguir vendê-la como um faroeste, agora com o nome de “A Town has turned to dust” (que também sofreu interferências no roteiro. Uma cena em que o xerife cometia suicídio, por exemplo, teve de ser cortada porque um dos patrocinadores era uma empresa de seguro de vida). Anos depois, ele diria que a concepção original da história foi tão conspurcada que acabou “se transformando em pó”, numa referência jocosa ao título.
A exasperação de Serling com esse tipo de interferência criativa acabou por granjear a ele o título de um dos “Jovens Nervosos da TV”. Foi nessa quadra de sua carreira que ele começou a pensar seriamente em criar uma série de televisão em que não precisasse comprometer os seus princípios e empenhar o seu anseio em tratar de temas controversos. Logo percebeu que a melhor maneira de fazer isso era abordá-los sob a forma alegórica, vestir assuntos relevantes sob o disfarce inocente da fantasia e da ficção científica, na época dois gêneros insuspeitos para veicular críticas sociais. Nascia, assim, o embrião de sua maior criação, “Além da Imaginação”.
Mas demorou um bom tempo para que a série hoje clássica decolasse. O episódio-teste que Serling escreveu, “The Time element”, era uma adaptação com duração de quase uma hora de um texto que ele havia escrito quando havia acabado de sair da faculdade. O roteiro foi comprado e engavetado pela CBS, até que um produtor do programa “Westinghouse Desilu Playhouse” (a produtora do casal Desi Arnaz e Lucille Ball, que anos depois seria responsável pela gênese de outro clássico da televisão, “Jornada nas Estrelas”) resolveu levá-lo ao ar na temporada de 1958-59, apesar da forte oposição da emissora e da agência que representava a Westinghouse, que o acharam deprimente demais.
O episódio, que contava o drama de um sujeito que em sonhos volta às vésperas do ataque japonês a Pearl Harbour e tenta sem sucesso alertar as pessoas da tragédia iminente, já trazia, em forma embrionária, os elementos que mais tarde caracterizariam “Além da Imaginação”. Uma trama fantástica, precariamente equilibrada entre a realidade e a imaginação, em que o personagem principal, um homem comum, se vê enredado numa situação absurda, como uma mosca apanhada em uma teia de aranha, e da qual não consegue escapar até o final inesperado. Introduzido pelo próprio Desi Arnaz, “The Time element” mereceu resenhas favoráveis nos jornais, recebeu mais cartas de fãs do que qualquer outro episódio de “Desilu Playhouse” naquele ano e deu o sinal verde de que Rod Serling precisava para levar avante o seu projeto.
Serling tratou então de escrever o episódio-piloto da nova série. O primeiro roteiro, intitulado “The Happy Place”, tinha uma hora de duração e girava em torno de uma sociedade totalitária do futuro no qual as pessoas que chegavam aos 60 anos eram levadas para campos de concentração e sumariamente exterminadas. Considerado muito pesado para servir de introdução à nova série, “The Happy Place” foi rejeitado (mais tarde, foi reaproveitado e adaptado como base para o episódio “The Obsolete Man”, do final da segunda temporada). Um novo roteiro foi escrito e “Where is everybody?”, a respeito de um astronauta que se vê em uma cidadezinha do interior americano completamente deserta, foi aprovado.
“Além da Imaginação” deu ao roteirista a oportunidade de se tornar uma estrela da televisão também na frente das câmeras. De acordo com o executivo da CBS William Self, a primeira pessoa escolhida para ser o mestre de cerimônias foi Westbrook Van Voorhis, cujo vozeirão grave era conhecido desde os anos 1930 como locutor do cinejornal “The March of time”. Os produtores consideraram a dicção de Voorhis muito pomposa e preferiam Orson Welles como apresentador, mas o cachê do diretor de “Cidadão Kane” estava além do que permitia o parco orçamento da série. O próprio Serling então se ofereceu para ser o narrador que introduziria os episódios, o que a princípio foi encarado com ceticismo pelos executivos da CBS, logo dissipado quando o roteirista provou ser capaz de dar um tom de mistério às histórias que introduzia semanalmente (com exceção do piloto, durante a primeira temporada, apenas a voz dele era ouvida, em off, no início e no fim dos episódios. Somente na segunda temporada ele passou a aparecer diante das câmeras e se tornou um rosto conhecido do público americano).
Produzido pela empresa do próprio Rod Serling, a Cayuga Productions, “Where is everybody?” foi vendido com sucesso para a General Foods, o primeiro patrocinador, e foi levado ao ar em 2 de outubro de 1959. Aprovado o episódio-piloto, a série entrou então em produção, com 26 episódios previstos para a primeira temporada. Muito de seu sucesso inicial e impacto duradouro deve-se aos esforços do produtor Buck Houghton, que, mais do que qualquer outra pessoa, foi responsável por reunir a formidável coleção de talentos que moldaram “Além da Imaginação” naquilo que conhecemos hoje – diretores consagrados ou iniciantes, como Norman Z. McLeod, Mitchell Leisen, Stuart Rosenberg, Ted Post, Jack Smight, Buzz Kulik e Lamont Johnson, o diretor de fotografia George T. Clemens, o maquiador Bob Keats, o diretor de arte William Ferrari, os músicos Marius Constant (responsável pela soturna trilha sonora de abertura, hoje um clássico) e o lendário parceiro de Alfred Hitchcock, Bernard Herrmann, e muitos outros. A maior parte das filmagens era realizada nos estúdios da MGM, os mesmos onde clássicos dos anos dourados do estúdio, como “Cantando na Chuva”, “À Meia-Luz” e a série de filmes de Andy Hardy tinham sido rodados.
Apesar da excelente qualidade da produção, o que mais provocou admiração no primeiro lote de episódios levados ao ar foi o alto nível dos roteiros, todos escritos por Rod Serling a uma velocidade frenética. Logo, porém, ficou claro que seria difícil manter essa excelência na redação das histórias se outros roteiristas não fossem contratados para dividir o trabalho. Foi assim que entraram em cena os dois outros mosqueteiros do trio que daria brilho ao seriado: o primeiro era Richard Matheson, escritor de ficção científica consagrado pelo sucesso de obras como “O Incrível homem que encolheu” e “Eu sou a lenda” e que anos depois se notabilizaria por obras-primas do gênero na literatura, no cinema e na TV como “Encurralado” e “Em algum lugar do passado”. O segundo era Charles Beaumont, prolífico autor de romances, contos e roteiros para filmes e seriados de televisão da época, como “Suspense”, “Have gun will travel” e “One Step Beyond”, uma série de ficção científica e mistério dos anos 1950 que muito se assemelhava ao posterior “Além da Imaginação” tanto em formato quanto em estilo e temática. No decorrer de suas cinco temporadas, a série contou com outros colaboradores, como George Clayton Johnson, Montgomery Pittman, Earl Hamner Jr. e até o mítico Ray Bradbury, em um episódio icônico da terceira temporada, “I Sing the body electric”, que o autor de “Crônicas Marcianas” depois converteria num conto, mas é a ao trio composto por Serling, Matheson e Beaumont que se devem os melhores momentos da série.
É possível distinguir o estilo e a temática próprios de cada um dos três, mesmo quando se tratavam de adaptações de peças radiofônicas ou histórias de outros autores. Serling, por exemplo, num estilo que mesclava o humanismo do homem comum de O. Henry (contista americano da virada do século XIX para o XX) com o terror psicológico de Poe e o fantástico nas situações cotidianas de Kafka, dava ênfase às histórias que giravam em torno das preocupações raciais, sociais e políticas que ele tanto prezava, sempre com um viés sentimental e nostálgico dos tempos da infância e de um passado idílico.
Características que estão presentes em alguns dos melhores episódios, como “One for the angels”, a respeito do vendedor de brinquedos que se recusa a morrer e faz uma barganha com a Morte, “Walking Distance”, em que um homem em crise profissional e existencial retorna à cidadezinha onde cresceu e encontra a si mesmo ainda na infância, “The Sixteen-milimeter shrine”, a história de uma decadente estrela do cinema que almeja escapar da realidade amarga na qual se encontra voltando, literalmente, para os filmes antigos que protagonizou, “The Eye of the beholder”, em que uma jovem é submetida a uma cirurgia plástica na tentativa fracassada de se adequar ao padrão de beleza de sua sociedade, e o mais contundente, “Deaths-head revisited”, em que um ex-carrasco nazista encontra um destino trágico nas mãos dos fantasmas dos prisioneiros que torturou e matou no campo de concentração de Dachau. Mas o episódio assinado por Serling pelo qual a série provavelmente será lembrada eternamente é “Time Enough at last”, em que Burgess Meredith vive o bancário atormentado pela mulher e pelo chefe, que o impedem de desfrutar o seu maior prazer: ler livros. Um desejo que quase se realiza graças a uma explosão nucelar devastadora, não fosse a virada final, irônica e absolutamente inesperada da história.
As tramas desconcertantes e perturbadoras eram a marca de Richard Matheson. Sem a carga sentimental das histórias de Serling, Matheson criou episódios memoráveis que exploravam o inusitado e o surreal, criando um clima de angustiante desespero. Em “A World of difference”, o mundo de um executivo vira de cabeça para baixo quando ele descobre que não passa de um ator em meio à rodagem de um filme. “Little girl lost” conta a história de uma garotinha que desaparece em uma fenda dimensional. E “Death Ship”, um dos mais intrigantes episódios de toda a série, ligeiramente aparentado com “Solaris”, o clássico do escritor de fc Stanislaw Lem, tem uma trama circular cujo final remete ao início, conta o drama de três astronautas que deparam consigo mesmos mortos em um planeta inóspito. Duas outras histórias de Matheson merecem ser lembradas. A primeira, “Nightmare at 20.000 feet”, estrelada por William Shatner, conta a dramática e algo cômica situação do passageiro de avião que testemunha sozinho um gremlin em ação para derrubar a aeronave (esse episódio mereceu uma refilmagem no longa-metragem da década de 1980, com John Lithgow no papel principal). A outra história, marcante pelo estilo, pois se tratava quase inteiramente de um episódio mudo, pontuado por ruídos, murmúrios e sons estranhos, intitulava-se “The Invaders”, e nele Agnes Moorehead (mais conhecida pelo papel de Endora, a mãe de Elizabeth Montgomery em “A Feiticeira”) encarnava uma mulher isolada numa casa de campo que resistia sozinha ao ataque de invasores do espaço.
A estranheza era a tônica das histórias assinadas por Charles Beaumont. Seguindo uma linha que tangenciava o onírico e o expressionista e que resvalava muitas vezes para o terror sobrenatural ao estilo de Poe (não por acaso, ele foi responsável por muitas das adaptações dos contos do escritor feitas para o cinema por Roger Corman nos anos 1960), num clima de pesadelo sufocante, Beaumont foi responsável por alguns dos episódios mais assustadores de toda a série. Em “Shadow play”, Dennis Weaver interpretava um prisioneiro à espera da execução convicto de que todos e tudo ao redor eram meramente parte de um sonho. “Long distance call” trazia Billy Mumy (o Will Robinson de “Perdidos no espaço”) como um menino que se comunicava com a avó morta por intermédio de um telefone de brinquedo. Em outro episódio marcante, Kevin McCarthy, o protagonista da primeira versão do terror de ficção científica “Vampiros de almas”, da década de 1950, interpretava um professor de história com mais de 2 mil anos de vida em “Long live Walter Jameson”. Não menos desconcertante era “Elegy”, baseado em um conto de autoria do próprio escritor publicado em 1953, na qual três astronautas chegavam a um planeta distante em tudo semelhante à Terra, exceto pelo fato de que todas as pessoas que o habitam estão mortas. Também baseado em uma história original do próprio Beaumont, “The Howling man” é, provavelmente, a mais atemorizante das histórias da série. Com cenários que remetiam aos clássicos do cinema alemão dos anos 1920 e um clima sinistro acentuado pelo chiaro/escuro de luzes e sombras recortadas e o uso de câmera excêntrica (inclinada), ele contava o drama aterrorizante de um homem perdido numa estrada que vai dar com os costados em um eremitério cujos monges mantêm encarcerado o diabo em pessoa. Outro episódio escrito por Beaumont, “Miniature” (estrelado por Robert Duvall), da quarta temporada, narrando o envolvimento de um homem com uma boneca que ganha vida, foi alvo de um processo de plágio por um autor que havia enviado anteriormente um roteiro bastante similar para a Cayuga Productions. A ação foi desconsiderada tanto pelo juiz de primeira instância quanto pelo tribunal de apelação e, no fim das contas, não deu em nada.
Podem-se citar inúmeros outros episódios marcantes, mas esses bastam para dar uma ideia do padrão criativo de “Além da imaginação”. Era marcantemente diferente do padrão de programas de ficção científica e terror da época. Quase nada havia dos clichês desses gêneros, como monstros de olhos esbugalhados, vampiros e lobisomens. Mesmo quando algum tipo de criatura alienígena ou monstruosidade aparecia, era de uma maneira diferente do habitual, e a sua função ia muito além de provocar sustos. O medo que evocava emanava das situações inusitadas e perturbadoras, jamais recorrendo a soluções fáceis e simplistas.
O único caso digno de nota que destoa da qualidade geral do seriado foi o episódio “The Encounter”, da última temporada, na fase em que Rod Serling já não respondia mais pelas decisões artísticas da série. Escrito por Martin M. Goldsmith e estrelado por George Takei, o Sulu de “Jornada nas Estrelas”, era flagrantemente ofensivo aos nipo-americanos e acabou não entrando em syndication quando a série depois foi distribuída para as emissoras locais nos Estados Unidos.
Seja como for, em seus diversos aspectos, a série sintetizou tudo o que o cinema e a TV haviam produzido até então, das comédias mudas aos seriados de aventura, dos dramas psicológicos e sociais aos faroestes, dos filmes policiais noir aos de terror, do expressionismo alemão ao realismo poético francês, do neorrealismo italiano aos filmes B, de Orson Welles, Hitchcock e Frank Capra a Ingmar Bergman. Além disso, apontou o caminho que o cinema, sobretudo o americano, tomaria nos anos seguintes, quando uma geração inteira de talentosos cineastas influenciados por ela tomaram o poder em Hollywood. E não somente o cinema, mas a própria televisão (alguém falou em “Arquivo X”, “Lost” e “Under the Dome”?) e as histórias em quadrinhos se beneficiaram de sua influência.
O resultado do embate contra a perene ameaça de cancelamento e o esforço para manter o nível de excelência acabaram produzindo os seus efeitos na quinta temporada, quando a maioria dos bons diretores abandonou a produção o seriado. Como era previsível, “Além da imaginação” caiu numa espiral descendente de roteiros repetitivos e pouco inspirados e acabou sendo cancelada depois de cinco anos no ar. Serling tentou vender a série para outras emissoras, mas foi impedido contratualmente. Um seriado análogo, intitulado “Rod Serling’s Wax Museum”, chegou a ser proposto, mas a ideia não foi levada adiante.
Serling deu continuidade à carreira preparando projetos para outras séries jamais realizadas ou que renderam apenas pilotos rejeitados e escrevendo roteiros para longas-metragens. O mais bem-sucedido deles foi a adaptação do romance de ficção científica do francês Pierre Boule, “O Planeta dos macacos”, que viria a se tornar o clássico de 1968 estrelado por Charlton Heston (em cuja trama podemos detectar a influência de alguns dos episódios de “Além da imaginação”, notadamente “I shot an arrow into the air” e “The Rip Van Winkle caper”).
Somente em 1969 ele teria a oportunidade de emplacar uma nova série de TV, “Night Gallery” (no Brasil, “Galeria do Terror”). Espécie de prima pobre de “Além da Imaginação” e inspirada no conceito de “Rod Serling’s Wax Museum”, a nova série empregava apenas os talentos de Serling como roteirista e apresentador, sem que ele tivesse qualquer influência na produção. Embora o resultado tenha deixado a desejar, sobretudo quando comparada com a sua ilustre antecessora no quesito da qualidade e da criatividade, “Galeria do Terror” possui ao menos alguns méritos que merecem ser ressaltados. Além de ter sido produzida inteiramente em cores, ela levou ao ar adaptações de autores ilustres do gênero fc, fantasia e terror, como H.P. Lovecraft, August Derleth, André Maurois e A.E. Van Vogt. E, assim como “Twilight Zone”, deu oportunidade para vários atores e diretores veteranos e novos exercitarem os seus talentos, como Dana Andrews, Joan Crawford, Vincent Price, Ray Milland, Zsa Zsa Gabor, Leslie Nielsen, John Carradine, Jeannot Szwarc, Don Taylor e um jovem estreante atrás das câmeras, recém-saído das fraldas, um certo Steven Spielberg, que teve uma de suas primeiras chances profissionais dirigindo um dos episódios que compunham o piloto, “Eyes” (para muitos críticos, o melhor de todos os que foram produzidos). Ainda que o próprio Serling não tivesse em alta conta essa série, considerando-a pouco mais do que mero entretenimento televisivo, “Galeria do Terror” rendeu três irregulares temporadas antes de sair do ar.
Serling ainda teve participação em outro projeto hoje pouco lembrado, a não ser por uns poucos fãs, “The Sixth sense” (“O Sexto sentido”, que nada tem a ver com o longa homônimo estrelado por Bruce Willis), com tramas que envolviam fenômenos paranormais e sobrenaturais. Nessa mesma época, ele voltou a dar aulas e participar de seminários em faculdades, apareceu em comerciais de TV (o que deve ter sido uma experiência atroz, pois contrariava frontalmente a antipatia que nutriu a vida inteira pelos patrocinadores) e cogitou seriamente a possibilidade de se tornar escritor de romances e dramaturgo. Infelizmente, quis o destino que isso não se cumprisse.
Fumante inveterado, Rod Serling acabou pagando com a saúde pelos anos de tabagismo excessivo. Submetido a uma cirurgia do coração em junho de 1975, ele não resistiu e morreu na mesa de operação. Tinha apenas 50 anos e um potencial enorme de realizações. O seu maior legado, “Além da imaginação”, além de ter sido adaptado para o já mencionado longa da década de 1980, mereceu mais tarde duas novas versões que nem de longe se equiparam ao original (é bem verdade que a segunda versão, dos anos 1980, teve o mérito de adaptar histórias de escritores renomados como Arthur C. Clarke e contou com a colaboração de roteiristas de peso como Harlan Ellison, Ray Bradbury e, quem diria, George R.R. Martin, o criador de “Game of Thrones”). Quanto às histórias maravilhosas que ele levou consigo e que certamente continuariam a nos encantar por gerações, elas talvez tenham sido realizadas. Onde? Em algum lugar “Além da Imaginação”, é claro.
           
            06 de junho de 2015
           


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