e Junho 2015 ~ Diário do Moretti

domingo, 7 de junho de 2015

Leia a versão integral de "O Homem que nos levou para além da realidade", a trajetória de Rod Serling, o criador do seriado "Além da Imaginação'







O HOMEM QUE NOS LEVOU PARA ALÉM DA REALIDADE

Por Marco Moretti

“Há uma quinta dimensão além daquelas conhecidas pelo homem. É uma dimensão tão vasta como o espaço e tão desprovida de tempo como o infinito. É o espaço intermediário entre a luz e a sombra, entre a ciência e a superstição, e se encontra entre o abismo dos temores do homem e o cume dos seus conhecimentos. É a dimensão da fantasia. Uma região ‘Além da Imaginação’.”
Rod Serling, na abertura da primeira temporada de “Além da Imaginação”

Ilustração mostrando Rod Serling e "Além da Imaginação" - Fonte: Wikipedia

            Raras são as séries de TV que conseguem manter o prestígio em alta mais de 50 anos depois de irem ao ar. “Além da Imaginação” (“Twilight Zone”, no original), produzida entre outubro de 1959 e junho de 1964, é um desses fenômenos. Para muitos (entre os quais eu me incluo), trata-se simplesmente da melhor coisa já produzida para a telinha em todos os tempos. Ao todo, “Além da Imaginação” teve 156 episódios que trafegavam entre a ficção científica, o terror e a fantasia. Contudo, o seriado não conseguiu manter a excelente qualidade que o caracterizou durante as cinco temporadas em que permaneceu, penosamente, no ar. De fato, nunca gozou da popularidade de outros programas de antologia da mesma época, como “Alfred Hitchcock Presents”, que tinha o Mestre do Suspense como mestre de cerimônias e ocasional diretor. O que é compreensível, já que a TV dos anos 50/60 não era o lugar mais apropriado para o tipo de temas que “Além da Imaginação” costumava abordar, e que iam da discriminação racial à paranóia da guerra fria, do temor da aniquilação nuclear às frustrações da vida moderna, passando por questões existenciais e filosóficas de uma profundidade até então jamais vista. Como resultado, a série sempre sofreu com a falta de patrocinadores e várias vezes esteve a ponto de ser cancelada. Na segunda temporada, chegou a ter 13 episódios gravados em VT, em vez de película, para reduzir os custos. Na quarta temporada, num esforço para competir com outros programas similares, sobretudo “Quinta dimensão” (“The Outer Limits”), mudou de formato, dos habituais episódios de meia hora para uma hora de duração, com resultados insatisfatórios, pois a alteração enfraquecia a força das histórias, voltando para o formato original na temporada seguinte, que também foi a última.
            Apesar dos altos e baixos pelos quais passou, os êxitos artísticos da série em muito superam os revezes econômicos e técnicos. Que outro seriado contou com um conjunto tão magnífico de atores talentosos do cinema e da tevê quanto Burgess Meredith (o Pinguim na série de TV do Batman), Ida Lupino, Richard Basehart (o almirante Nelson de “Viagem ao Fundo do Mar”), William Shatner (o Capitão Kirk de “Jornada nas Estrelas”), Lee Marvin, Elizabeth Montgomery (“A Feiticeira”) e seu pai, Robert Montgomery, Robert Duvall, Buster Keaton (o grande cômico do cinema mudo, cujo talento ombreava com o de Charlie Chaplin), Robert Redford em início de carreira e tantos outros? Que outro seriado tinha Bernard Herrmann e Jerry Goldsmith assinando algumas das trilhas sonoras? Que outro seriado teve um episódio quase totalmente mudo? Finalmente, nenhum outro seriado, em toda a história da televisão, teve um episódio ganhador do Oscar e de um prêmio no Festival de Cannes (na verdade, tratava-se de um curta-metragem de ficção francês, baseado em um conto do escritor americano Ambrose Bierce, intitulado “An Occurrence at Owl Creek Bridge”, que foi comprado pelos produtores e convertido em episódio da série)? Isso sem mencionar os vários Emmys a que a série fez jus. Não por acaso, é uma das poucas produções feitas para a televisão que mereceu ter os seus originais preservados na Biblioteca do Congresso americano. Só o que “Além da Imaginação” não teve foram episódios em cores, mas isso, como já foi dito, deve ser credito à verba espartana que assombrou os cinco anos em que o seriado ficou no ar.
            Apesar desses predicados, não se pode ignorar que, depois de meio século, a série tem hoje as marcas da idade. Mas qual produção não teria depois de tanto tempo, e principalmente com as dificuldades que teve de enfrentar para existir? É inegável que “Além da Imaginação” envelheceu bastante, sobretudo nos aspectos técnicos (os parcos efeitos especiais, em particular, que já eram sofríveis na época da realização, devido ao baixo custo da produção, hoje são simplesmente medonhos). A mesma coisa, porém, não se pode dizer da qualidade de seus episódios, com roteiros antológicos, diálogos primorosos e interpretações cuja força continua intacta.
O alcance do seriado pode ser calculado pela enorme influência que teve (e continua tendo) em gerações seguidas de cineastas, roteiristas e escritores, entre os quais se incluem Steven Spielberg (cujo “ET – O Extraterrestre” é quase uma versão pouco modificada de “The Gift”, um episódio da terceira temporada, e “Poltergeist”, que ele produziu, inspirado em outro episódio, “Little girl lost”), Coppola (“Peggy Sue, seu passado a espera”), Woody Allen (“A Rosa Púrpura do Cairo”, praticamente uma adaptação do episódio “Sixteen Millimeter Shrine”), Robert Zemeckis (“De Volta para o futuro” não é mais do que um episódio estendido de viagem no tempo) e Joe Dante e John Landis (que, ao lado de Spielberg e George Miller, fizeram em 1983 uma homenagem à série rodando um longa-metragem de trágica memória com versões refilmadas de alguns dos episódios, além de uma história original que ficou incompleta e teve de ser remontada devido à morte, durante as filmagens, do astro Vic Morrow), Stephen King (que deliberadamente saqueia muitas das ideias para os livros e contos que escreve diretamente do baú de “Além da Imaginação”).
            O mérito para a sobrevivência de “Além da Imaginação” até o século XXI e o seu perene encanto deve ser creditado, acima de tudo, ao seu idealizador, apresentador e principal roteirista, o lendário Rodman Edward Serling, ou, simplesmente, Rod Serling. Os combustíveis que alimentaram a sua notável imaginação não foram fornecidos apenas pela erudição e o talento nato para produzir histórias cativantes e intrigantes. A fonte de suas ideias provinha das circunstâncias de sua vida e podia ser encontrada ali onde um olho arguto estaria habilitado a enxergar, na realidade em que estamos imersos. E a realidade, para Serling, emanava basicamente de um fato determinante e um contexto histórico.
            O fato determinante é que ele era judeu e, desde a infância e por toda a vida, teve de lidar com os desdobramentos disso. Para onde quer que se voltasse, fatalmente deparava com o preconceito e o racismo. E a sua sensibilidade liberal e absurda integridade moral faziam com que ele não somente sentisse os efeitos da discriminação na própria pele, mas na de outras minorias, sobretudo os negros. Na América da primeira metade do século XX, quando ter um negro na Presidência era pura ficção científica (a propósito, nos anos 1970, Serling escreveu o roteiro de um filme baseado no romance de Irving Wallace chamado “The Man”, que tratava justamente da escolha de um negro para presidente da República dos EUA), ser diferente da maioria dominante WASP (branca, anglo-saxã e protestante) era equivalente a ser relegado a uma condição inferior, quase sub-humana.
            O contexto histórico determinante em sua formação foi, em primeiro lugar, a Segunda Guerra Mundial. Tendo se alistado em 1943, Rod Serling serviu em combate no Pacífico como pára-quedista na 511ª Divisão Aérea e conheceu em primeira mão todo o horror do conflito. Ferido por um estilhaço de morteiro, foi condecorado com uma medalha de bronze por bravura e ganhou um ferimento no joelho que iria atormentá-lo por toda a vida (vários de seus roteiros para a televisão e para “Além da Imaginação” tinham a guerra no Pacífico como cenário). A experiência traumática da guerra serviu para inflamar ainda mais nele o fervor antibelicista, ou, o que vem a dar na mesma, levou-o a se tornar um ferrenho opositor de qualquer forma de conflito armado. Depois do término do conflito, quando a Guerra Fria e o machartismo (a perseguição aos comunistas e supostos agentes de Moscou infiltrados no território americano movida pelo senador McCarthy e os seus sequazes em meados dos anos 1940 e 1950) elevaram a temperatura política em seu país, ele já sabia de que lado das trincheiras políticas queria estar.
            Esses elementos, as questões raciais e sociais somados à guerra e os seus efeitos nefastos, estiveram desde então entranhados em sua mente. Eles permeiam, de maneira bastante clara, toda a sua obra, um formidável conjunto de roteiros e produções para a televisão americana que cobre o período de sua fase de ouro, em meados dos anos 1950, até a maturidade, no início da década de 1970. Democrata convicto (foi ardente apoiador de Kennedy e ficou arrasado com o seu assassinato, em novembro de 1963. Durante o funeral do ex-presidente, Serling foi chamado às pressas para redigir o texto de um programa de televisão do governo que apresentava à nação o novo presidente do país, Lyndon Johnson), teve a lucidez em enxergar a dimensão profundamente humana por trás dos dramas cotidianos, mas evitou resvalar para o panfletarismo das causas nobres ou, como se diz hoje, politicamente corretas.
            Não há dúvida de que foi o desejo de Serling em produzir algo de socialmente relevante que o impulsionou a voos mais altos do que lhe permitia o anônimo trabalho de roteirista em programas populares de duvidosa qualidade em uma estação de rádio em Cincinnati, onde deu os primeiros passos na carreira. Já casado e recém-formado no Antioch College, de Ohio (para onde regressaria, como professor de um curso universitário, na década de 1960), Serling passava as noites martelando na máquina de escrever os roteiros que sonhava em vender para alguma emissora de televisão. A sua persistência deu resultados e, em 1950, ele conseguiu que a rede NBC comprasse um texto seu para o programa “Stars over Hollywood”.
            Esse foi o passaporte que ele esperava para dar a guinada que o levaria ao sucesso. Nos anos seguintes, depois de abandonar o emprego na rádio, passou a vender cada vez com mais freqüência roteiros para séries de prestígio na época, como “Studio One” e “Lux Video Theater”. Finalmente, em 1955, o esforço de Serling foi recompensado quando o “Kraft Television Theater” levou ao ar um episódio baseado em um roteiro de sua autoria, “Patterns”, estrelado por Ed Begley e Elizabeth Montgommery. Resenhas entusiásticas em jornais como o “New York Times” ajudaram a elevar o nome de Serling à estratosfera da fama e o firmaram como um dos prodígios nascentes da nova mídia. A qualidade de seu trabalho em “Patterns” foi reconhecida no ano seguinte com aquele que viria a ser o primeiro de muitos Emmys, o Oscar da televisão americana, na categoria de Melhor Roteiro para a Televisão.
            Ao lado de outros roteiristas que então começavam a despontar como talentos a serem reverenciados, e que tinham como farol Paddy Chayefsky, um promissor escritor que naquele mesmo ano de 1955 receberia o primeiro de seus três Oscars pelo trabalho em “Marty” (os outros dois seriam por “Hospital”, em 1971, e “Rede de Intrigas”, em 1976), Rod Serling se tornou rapidamente um nome a ser respeitado. Depois do êxito de “Patterns”, ele marcaria pontos importantes com os roteiros de “The Rack” (sobre os efeitos colaterais da tortura mental em prisioneiros americanos na Guerra da Coreia, um trabalho que antecipou em alguns anos o seu roteiro para o clássico do cinema da Guerra Fria “Sob o Domínio do Mal” (“The Manchurian candidate”, de 1962, há poucos anos refilmado), e, principalmente, “Requiem for a Heavyweight”, um drama sobre luta de boxe estrelado por Jack Palance (posteriormente adaptado para as telonas como “Réquiem para um lutador”, com Anthony Quinn no papel do lutador decadente). A respeito desse telefilme, um executivo da rede CBS teria dito que “ele fez a TV avançar dez anos”.
            Em 1958, depois de se mudar com a família para Pacific Palisades, na Califórnia, Rod Serling começou a enfrentar aquilo que considerava o principal empecilho para a sua criatividade: a pressão dos patrocinadores. Certa vez, a Ford, que patrocinava um programa para o qual um de seus roteiros seria adaptado, implicou com uma cena que mostrava o Edifício da Chrysler, a sua concorrente direta, despontando no horizonte de Nova York visto pela janela de um escritório. Em outro roteiro, a citação da fala de Apolônio, em “Hamlet”, de Shakespeare, “Não empreste nem peça emprestado”, teve de ser cortada porque o patrocinador era uma associação de poupança e empréstimo.
Mas não eram somente os patrocinadores que tolhiam a sua liberdade de criação. As próprias emissoras também eram refratárias à abordagem de temas candentes, como o racismo. Inspirado por um fato real, o rapto e o assassinato de um garoto negro no Mississipi, em 1955, o roteiro de “Noon on Doomsday”, feito por Serling para o “United States Steel Hour”, teve de ser modificado por pressão dos produtores e, no lugar de um menino negro, a vítima passou a ser um velho judeu, e o local do incidente foi deslocado para o norte. O que não impediu que a patrocinadora que dava nome ao programa, a United States Steel, temendo um boicote do público e “a resultante crise nas relações públicas”, exigisse e conseguisse que o programa jamais fosse levado ao ar, mesmo sob essa versão “atenuante”. Ainda assim, Serling não desistiu de abordar um tema que lhe era caro. Fez novas alterações na história, situando-a em 1890, com um jovem mexicano no lugar de um negro, até conseguir vendê-la como um faroeste, agora com o nome de “A Town has turned to dust” (que também sofreu interferências no roteiro. Uma cena em que o xerife cometia suicídio, por exemplo, teve de ser cortada porque um dos patrocinadores era uma empresa de seguro de vida). Anos depois, ele diria que a concepção original da história foi tão conspurcada que acabou “se transformando em pó”, numa referência jocosa ao título.
A exasperação de Serling com esse tipo de interferência criativa acabou por granjear a ele o título de um dos “Jovens Nervosos da TV”. Foi nessa quadra de sua carreira que ele começou a pensar seriamente em criar uma série de televisão em que não precisasse comprometer os seus princípios e empenhar o seu anseio em tratar de temas controversos. Logo percebeu que a melhor maneira de fazer isso era abordá-los sob a forma alegórica, vestir assuntos relevantes sob o disfarce inocente da fantasia e da ficção científica, na época dois gêneros insuspeitos para veicular críticas sociais. Nascia, assim, o embrião de sua maior criação, “Além da Imaginação”.
Mas demorou um bom tempo para que a série hoje clássica decolasse. O episódio-teste que Serling escreveu, “The Time element”, era uma adaptação com duração de quase uma hora de um texto que ele havia escrito quando havia acabado de sair da faculdade. O roteiro foi comprado e engavetado pela CBS, até que um produtor do programa “Westinghouse Desilu Playhouse” (a produtora do casal Desi Arnaz e Lucille Ball, que anos depois seria responsável pela gênese de outro clássico da televisão, “Jornada nas Estrelas”) resolveu levá-lo ao ar na temporada de 1958-59, apesar da forte oposição da emissora e da agência que representava a Westinghouse, que o acharam deprimente demais.
O episódio, que contava o drama de um sujeito que em sonhos volta às vésperas do ataque japonês a Pearl Harbour e tenta sem sucesso alertar as pessoas da tragédia iminente, já trazia, em forma embrionária, os elementos que mais tarde caracterizariam “Além da Imaginação”. Uma trama fantástica, precariamente equilibrada entre a realidade e a imaginação, em que o personagem principal, um homem comum, se vê enredado numa situação absurda, como uma mosca apanhada em uma teia de aranha, e da qual não consegue escapar até o final inesperado. Introduzido pelo próprio Desi Arnaz, “The Time element” mereceu resenhas favoráveis nos jornais, recebeu mais cartas de fãs do que qualquer outro episódio de “Desilu Playhouse” naquele ano e deu o sinal verde de que Rod Serling precisava para levar avante o seu projeto.
Serling tratou então de escrever o episódio-piloto da nova série. O primeiro roteiro, intitulado “The Happy Place”, tinha uma hora de duração e girava em torno de uma sociedade totalitária do futuro no qual as pessoas que chegavam aos 60 anos eram levadas para campos de concentração e sumariamente exterminadas. Considerado muito pesado para servir de introdução à nova série, “The Happy Place” foi rejeitado (mais tarde, foi reaproveitado e adaptado como base para o episódio “The Obsolete Man”, do final da segunda temporada). Um novo roteiro foi escrito e “Where is everybody?”, a respeito de um astronauta que se vê em uma cidadezinha do interior americano completamente deserta, foi aprovado.
“Além da Imaginação” deu ao roteirista a oportunidade de se tornar uma estrela da televisão também na frente das câmeras. De acordo com o executivo da CBS William Self, a primeira pessoa escolhida para ser o mestre de cerimônias foi Westbrook Van Voorhis, cujo vozeirão grave era conhecido desde os anos 1930 como locutor do cinejornal “The March of time”. Os produtores consideraram a dicção de Voorhis muito pomposa e preferiam Orson Welles como apresentador, mas o cachê do diretor de “Cidadão Kane” estava além do que permitia o parco orçamento da série. O próprio Serling então se ofereceu para ser o narrador que introduziria os episódios, o que a princípio foi encarado com ceticismo pelos executivos da CBS, logo dissipado quando o roteirista provou ser capaz de dar um tom de mistério às histórias que introduzia semanalmente (com exceção do piloto, durante a primeira temporada, apenas a voz dele era ouvida, em off, no início e no fim dos episódios. Somente na segunda temporada ele passou a aparecer diante das câmeras e se tornou um rosto conhecido do público americano).
Produzido pela empresa do próprio Rod Serling, a Cayuga Productions, “Where is everybody?” foi vendido com sucesso para a General Foods, o primeiro patrocinador, e foi levado ao ar em 2 de outubro de 1959. Aprovado o episódio-piloto, a série entrou então em produção, com 26 episódios previstos para a primeira temporada. Muito de seu sucesso inicial e impacto duradouro deve-se aos esforços do produtor Buck Houghton, que, mais do que qualquer outra pessoa, foi responsável por reunir a formidável coleção de talentos que moldaram “Além da Imaginação” naquilo que conhecemos hoje – diretores consagrados ou iniciantes, como Norman Z. McLeod, Mitchell Leisen, Stuart Rosenberg, Ted Post, Jack Smight, Buzz Kulik e Lamont Johnson, o diretor de fotografia George T. Clemens, o maquiador Bob Keats, o diretor de arte William Ferrari, os músicos Marius Constant (responsável pela soturna trilha sonora de abertura, hoje um clássico) e o lendário parceiro de Alfred Hitchcock, Bernard Herrmann, e muitos outros. A maior parte das filmagens era realizada nos estúdios da MGM, os mesmos onde clássicos dos anos dourados do estúdio, como “Cantando na Chuva”, “À Meia-Luz” e a série de filmes de Andy Hardy tinham sido rodados.
Apesar da excelente qualidade da produção, o que mais provocou admiração no primeiro lote de episódios levados ao ar foi o alto nível dos roteiros, todos escritos por Rod Serling a uma velocidade frenética. Logo, porém, ficou claro que seria difícil manter essa excelência na redação das histórias se outros roteiristas não fossem contratados para dividir o trabalho. Foi assim que entraram em cena os dois outros mosqueteiros do trio que daria brilho ao seriado: o primeiro era Richard Matheson, escritor de ficção científica consagrado pelo sucesso de obras como “O Incrível homem que encolheu” e “Eu sou a lenda” e que anos depois se notabilizaria por obras-primas do gênero na literatura, no cinema e na TV como “Encurralado” e “Em algum lugar do passado”. O segundo era Charles Beaumont, prolífico autor de romances, contos e roteiros para filmes e seriados de televisão da época, como “Suspense”, “Have gun will travel” e “One Step Beyond”, uma série de ficção científica e mistério dos anos 1950 que muito se assemelhava ao posterior “Além da Imaginação” tanto em formato quanto em estilo e temática. No decorrer de suas cinco temporadas, a série contou com outros colaboradores, como George Clayton Johnson, Montgomery Pittman, Earl Hamner Jr. e até o mítico Ray Bradbury, em um episódio icônico da terceira temporada, “I Sing the body electric”, que o autor de “Crônicas Marcianas” depois converteria num conto, mas é a ao trio composto por Serling, Matheson e Beaumont que se devem os melhores momentos da série.
É possível distinguir o estilo e a temática próprios de cada um dos três, mesmo quando se tratavam de adaptações de peças radiofônicas ou histórias de outros autores. Serling, por exemplo, num estilo que mesclava o humanismo do homem comum de O. Henry (contista americano da virada do século XIX para o XX) com o terror psicológico de Poe e o fantástico nas situações cotidianas de Kafka, dava ênfase às histórias que giravam em torno das preocupações raciais, sociais e políticas que ele tanto prezava, sempre com um viés sentimental e nostálgico dos tempos da infância e de um passado idílico.
Características que estão presentes em alguns dos melhores episódios, como “One for the angels”, a respeito do vendedor de brinquedos que se recusa a morrer e faz uma barganha com a Morte, “Walking Distance”, em que um homem em crise profissional e existencial retorna à cidadezinha onde cresceu e encontra a si mesmo ainda na infância, “The Sixteen-milimeter shrine”, a história de uma decadente estrela do cinema que almeja escapar da realidade amarga na qual se encontra voltando, literalmente, para os filmes antigos que protagonizou, “The Eye of the beholder”, em que uma jovem é submetida a uma cirurgia plástica na tentativa fracassada de se adequar ao padrão de beleza de sua sociedade, e o mais contundente, “Deaths-head revisited”, em que um ex-carrasco nazista encontra um destino trágico nas mãos dos fantasmas dos prisioneiros que torturou e matou no campo de concentração de Dachau. Mas o episódio assinado por Serling pelo qual a série provavelmente será lembrada eternamente é “Time Enough at last”, em que Burgess Meredith vive o bancário atormentado pela mulher e pelo chefe, que o impedem de desfrutar o seu maior prazer: ler livros. Um desejo que quase se realiza graças a uma explosão nucelar devastadora, não fosse a virada final, irônica e absolutamente inesperada da história.
As tramas desconcertantes e perturbadoras eram a marca de Richard Matheson. Sem a carga sentimental das histórias de Serling, Matheson criou episódios memoráveis que exploravam o inusitado e o surreal, criando um clima de angustiante desespero. Em “A World of difference”, o mundo de um executivo vira de cabeça para baixo quando ele descobre que não passa de um ator em meio à rodagem de um filme. “Little girl lost” conta a história de uma garotinha que desaparece em uma fenda dimensional. E “Death Ship”, um dos mais intrigantes episódios de toda a série, ligeiramente aparentado com “Solaris”, o clássico do escritor de fc Stanislaw Lem, tem uma trama circular cujo final remete ao início, conta o drama de três astronautas que deparam consigo mesmos mortos em um planeta inóspito. Duas outras histórias de Matheson merecem ser lembradas. A primeira, “Nightmare at 20.000 feet”, estrelada por William Shatner, conta a dramática e algo cômica situação do passageiro de avião que testemunha sozinho um gremlin em ação para derrubar a aeronave (esse episódio mereceu uma refilmagem no longa-metragem da década de 1980, com John Lithgow no papel principal). A outra história, marcante pelo estilo, pois se tratava quase inteiramente de um episódio mudo, pontuado por ruídos, murmúrios e sons estranhos, intitulava-se “The Invaders”, e nele Agnes Moorehead (mais conhecida pelo papel de Endora, a mãe de Elizabeth Montgomery em “A Feiticeira”) encarnava uma mulher isolada numa casa de campo que resistia sozinha ao ataque de invasores do espaço.
A estranheza era a tônica das histórias assinadas por Charles Beaumont. Seguindo uma linha que tangenciava o onírico e o expressionista e que resvalava muitas vezes para o terror sobrenatural ao estilo de Poe (não por acaso, ele foi responsável por muitas das adaptações dos contos do escritor feitas para o cinema por Roger Corman nos anos 1960), num clima de pesadelo sufocante, Beaumont foi responsável por alguns dos episódios mais assustadores de toda a série. Em “Shadow play”, Dennis Weaver interpretava um prisioneiro à espera da execução convicto de que todos e tudo ao redor eram meramente parte de um sonho. “Long distance call” trazia Billy Mumy (o Will Robinson de “Perdidos no espaço”) como um menino que se comunicava com a avó morta por intermédio de um telefone de brinquedo. Em outro episódio marcante, Kevin McCarthy, o protagonista da primeira versão do terror de ficção científica “Vampiros de almas”, da década de 1950, interpretava um professor de história com mais de 2 mil anos de vida em “Long live Walter Jameson”. Não menos desconcertante era “Elegy”, baseado em um conto de autoria do próprio escritor publicado em 1953, na qual três astronautas chegavam a um planeta distante em tudo semelhante à Terra, exceto pelo fato de que todas as pessoas que o habitam estão mortas. Também baseado em uma história original do próprio Beaumont, “The Howling man” é, provavelmente, a mais atemorizante das histórias da série. Com cenários que remetiam aos clássicos do cinema alemão dos anos 1920 e um clima sinistro acentuado pelo chiaro/escuro de luzes e sombras recortadas e o uso de câmera excêntrica (inclinada), ele contava o drama aterrorizante de um homem perdido numa estrada que vai dar com os costados em um eremitério cujos monges mantêm encarcerado o diabo em pessoa. Outro episódio escrito por Beaumont, “Miniature” (estrelado por Robert Duvall), da quarta temporada, narrando o envolvimento de um homem com uma boneca que ganha vida, foi alvo de um processo de plágio por um autor que havia enviado anteriormente um roteiro bastante similar para a Cayuga Productions. A ação foi desconsiderada tanto pelo juiz de primeira instância quanto pelo tribunal de apelação e, no fim das contas, não deu em nada.
Podem-se citar inúmeros outros episódios marcantes, mas esses bastam para dar uma ideia do padrão criativo de “Além da imaginação”. Era marcantemente diferente do padrão de programas de ficção científica e terror da época. Quase nada havia dos clichês desses gêneros, como monstros de olhos esbugalhados, vampiros e lobisomens. Mesmo quando algum tipo de criatura alienígena ou monstruosidade aparecia, era de uma maneira diferente do habitual, e a sua função ia muito além de provocar sustos. O medo que evocava emanava das situações inusitadas e perturbadoras, jamais recorrendo a soluções fáceis e simplistas.
O único caso digno de nota que destoa da qualidade geral do seriado foi o episódio “The Encounter”, da última temporada, na fase em que Rod Serling já não respondia mais pelas decisões artísticas da série. Escrito por Martin M. Goldsmith e estrelado por George Takei, o Sulu de “Jornada nas Estrelas”, era flagrantemente ofensivo aos nipo-americanos e acabou não entrando em syndication quando a série depois foi distribuída para as emissoras locais nos Estados Unidos.
Seja como for, em seus diversos aspectos, a série sintetizou tudo o que o cinema e a TV haviam produzido até então, das comédias mudas aos seriados de aventura, dos dramas psicológicos e sociais aos faroestes, dos filmes policiais noir aos de terror, do expressionismo alemão ao realismo poético francês, do neorrealismo italiano aos filmes B, de Orson Welles, Hitchcock e Frank Capra a Ingmar Bergman. Além disso, apontou o caminho que o cinema, sobretudo o americano, tomaria nos anos seguintes, quando uma geração inteira de talentosos cineastas influenciados por ela tomaram o poder em Hollywood. E não somente o cinema, mas a própria televisão (alguém falou em “Arquivo X”, “Lost” e “Under the Dome”?) e as histórias em quadrinhos se beneficiaram de sua influência.
O resultado do embate contra a perene ameaça de cancelamento e o esforço para manter o nível de excelência acabaram produzindo os seus efeitos na quinta temporada, quando a maioria dos bons diretores abandonou a produção o seriado. Como era previsível, “Além da imaginação” caiu numa espiral descendente de roteiros repetitivos e pouco inspirados e acabou sendo cancelada depois de cinco anos no ar. Serling tentou vender a série para outras emissoras, mas foi impedido contratualmente. Um seriado análogo, intitulado “Rod Serling’s Wax Museum”, chegou a ser proposto, mas a ideia não foi levada adiante.
Serling deu continuidade à carreira preparando projetos para outras séries jamais realizadas ou que renderam apenas pilotos rejeitados e escrevendo roteiros para longas-metragens. O mais bem-sucedido deles foi a adaptação do romance de ficção científica do francês Pierre Boule, “O Planeta dos macacos”, que viria a se tornar o clássico de 1968 estrelado por Charlton Heston (em cuja trama podemos detectar a influência de alguns dos episódios de “Além da imaginação”, notadamente “I shot an arrow into the air” e “The Rip Van Winkle caper”).
Somente em 1969 ele teria a oportunidade de emplacar uma nova série de TV, “Night Gallery” (no Brasil, “Galeria do Terror”). Espécie de prima pobre de “Além da Imaginação” e inspirada no conceito de “Rod Serling’s Wax Museum”, a nova série empregava apenas os talentos de Serling como roteirista e apresentador, sem que ele tivesse qualquer influência na produção. Embora o resultado tenha deixado a desejar, sobretudo quando comparada com a sua ilustre antecessora no quesito da qualidade e da criatividade, “Galeria do Terror” possui ao menos alguns méritos que merecem ser ressaltados. Além de ter sido produzida inteiramente em cores, ela levou ao ar adaptações de autores ilustres do gênero fc, fantasia e terror, como H.P. Lovecraft, August Derleth, André Maurois e A.E. Van Vogt. E, assim como “Twilight Zone”, deu oportunidade para vários atores e diretores veteranos e novos exercitarem os seus talentos, como Dana Andrews, Joan Crawford, Vincent Price, Ray Milland, Zsa Zsa Gabor, Leslie Nielsen, John Carradine, Jeannot Szwarc, Don Taylor e um jovem estreante atrás das câmeras, recém-saído das fraldas, um certo Steven Spielberg, que teve uma de suas primeiras chances profissionais dirigindo um dos episódios que compunham o piloto, “Eyes” (para muitos críticos, o melhor de todos os que foram produzidos). Ainda que o próprio Serling não tivesse em alta conta essa série, considerando-a pouco mais do que mero entretenimento televisivo, “Galeria do Terror” rendeu três irregulares temporadas antes de sair do ar.
Serling ainda teve participação em outro projeto hoje pouco lembrado, a não ser por uns poucos fãs, “The Sixth sense” (“O Sexto sentido”, que nada tem a ver com o longa homônimo estrelado por Bruce Willis), com tramas que envolviam fenômenos paranormais e sobrenaturais. Nessa mesma época, ele voltou a dar aulas e participar de seminários em faculdades, apareceu em comerciais de TV (o que deve ter sido uma experiência atroz, pois contrariava frontalmente a antipatia que nutriu a vida inteira pelos patrocinadores) e cogitou seriamente a possibilidade de se tornar escritor de romances e dramaturgo. Infelizmente, quis o destino que isso não se cumprisse.
Fumante inveterado, Rod Serling acabou pagando com a saúde pelos anos de tabagismo excessivo. Submetido a uma cirurgia do coração em junho de 1975, ele não resistiu e morreu na mesa de operação. Tinha apenas 50 anos e um potencial enorme de realizações. O seu maior legado, “Além da imaginação”, além de ter sido adaptado para o já mencionado longa da década de 1980, mereceu mais tarde duas novas versões que nem de longe se equiparam ao original (é bem verdade que a segunda versão, dos anos 1980, teve o mérito de adaptar histórias de escritores renomados como Arthur C. Clarke e contou com a colaboração de roteiristas de peso como Harlan Ellison, Ray Bradbury e, quem diria, George R.R. Martin, o criador de “Game of Thrones”). Quanto às histórias maravilhosas que ele levou consigo e que certamente continuariam a nos encantar por gerações, elas talvez tenham sido realizadas. Onde? Em algum lugar “Além da Imaginação”, é claro.
           
            06 de junho de 2015
           


sábado, 6 de junho de 2015

Confira a versão completa do conto "Anjos do Paraíso"




ANJOS DO PARAÍSO

Por Marco Moretti

“E [Deus] expulsou [Adão e Eva];
e colocou ao oriente do Jardim do Éden
querubins armados de uma espada flamejante,
para guardar o caminho da árvore da vida.”
A Bíblia, Gênese 3, 24

"O Ferrolho", óleo sobre tela de Jean-Honoré Fragonard - Fonte: Wikipedia

Ah, o paraíso de Mafamede[1]! Um jardim de delícias perenemente ensolarado, com relvas verdejantes em que vicejam árvores frondosas com frutos tão doces quanto o mel. Em seu solo abençoado brotam fontes de águas frescas e cristalinas e por suas veredas correm riachos do mais puro leite. Os guerreiros sarracenos que tombam na Guerra Santa contra os cristãos habitam esse lugar bem-aventurado em meio a um festim infindável, alimentados com carnes tenras de bezerros, cabritos e ovelhas e todo tipo de frutas frescas, passas e tâmaras, enquanto bebem do mais saboroso e inebriante vinho que a Providência de Alá há de lhes fornecer. Mártires de uma fé inquebrantável, estão destinados a serem servidos por virgens formosíssimas, dedicadas a proporcionar-lhes prazeres inimagináveis pelo resto da eternidade.
            Para minha eterna frustração, eu, Juan Jimenez de Valladolid, que nasci cristão e pretendo morrer jurando minha crença em Nosso Senhor Jesus Cristo, jamais terei um vislumbre desse cenário paradisíaco. No lugar de lindas mulheres dispostas a me cobrir de sensações extasiantes, de servir a todos os meus caprichos com dedicação e afeto, estou condenado a ter por morada um Jardim do Éden austero e puritano, guardado por uma hoste de anjos e querubins em rezas perenes, e habitado por devotos da verdadeira fé a entoar um insuportável coro celestial para todo o sempre. Que me perdoem os padres e bispos a blasfêmia, mas diante dessa perspectiva nada animadora, os círculos do Inferno, mesmo com todos os sofrimentos e suplícios que reservam aos pecadores da carne, soam aos meus ouvidos uma alternativa bem mais agradável. Digo que é preferível arder nas areias escaldantes do Hades[2] a ouvir a cantoria eterna de um bando de carolas.
             Malgrado minha repulsa pelo Paraíso cristão, certamente não será ele a minha derradeira morada. A extensa contabilidade de pecados, lascívias e promiscuidades que guiaram minha existência do berço até o presente momento não me recomenda a merecer um assento ao lado de santos homens. Na melhor das hipóteses, a misericórdia divina e algum ato esporádico de piedade sincera que eu porventura tenha cometido na vida me farão amargar uma estada por tempo indeterminado no Purgatório reservado aos escravos da paixão carnal.
            Uma paixão que tem sido a senhora de meu destino desde a mais tenra idade, quando conheci o significado da palavra luxúria e seu irresistível apelo sobre os meus impulsos físicos. A primeira vez que esse domínio se manifestou de maneira decisiva e de que minha memória guarda lembrança eu mal havia acabado de sair dos cueiros. Tinha cerca de sete anos quando minha mãe me levou, juntamente com minhas irmãs, a uma igreja em Madri, num Domingo de Páscoa. Ao menos é o que depreendo, pois me recordo de o lugar estar apinhado de gente e paramentado com faixas de cetim vermelho e verde e flores das mais diversas espécies e colorações. Uma profusão de círios alumiava cada nicho, dando às estátuas dos apóstolos um brilho amarelado e tremeluzente que lhes emprestava uma ilusão de vivacidade fugaz. Talvez tenha sido esse brilho algo fantasmagórico ou o odor adocicado das rosas que desviaram meu olhar para um canto lateral à esquerda da nave central, onde uma figura feminina clamava por minha atenção. Alta, bela em todos os sentidos e de uma sensualidade inexprimível, ao mesmo tempo etérea e física, exerceu de imediato uma atração a que não pude contrapor resistência. Sua pele tinha a alvura do mármore frio, cuja dureza perseguia as formas suaves cuidadosamente entalhadas na pedra. Não, não se tratava de uma mulher de carne, ossos e encantos ocultos que eu vislumbrava, mas a mais bela escultura de Nossa Senhora que tive o prazer de contemplar.
O caimento de suas vestes, que mais serviam para sugerir do que para ocultar, e que se estendiam até as pernas, com suas coxas grossas bem torneadas, e os lábios fartos, que pareciam convidar-me para um beijo platônico, incendiaram minha imaginação infantil. Os seios transpareciam, eretos, por sobre o traje de fina tessitura, numa santa profanação que assombrosamente passou despercebida dos olhares inquisidores. Contudo, o que mais me cativava em sua representação era o olhar terno e piedoso, que conferia ao seu semblante uma complacência comovente, de uma fortaleza moral insuperável, irremediavelmente eternizada na aspereza da rocha. Diante dessa imagem da mais pura formosura, era-me impossível desviar a visão, e ainda mais improvável não me apaixonar por essa guerreira da virtude.
Todo esse conjunto harmônico despertou meus instintos para a beleza cativante das figuras femininas. Naquele mesmo instante, curvei-me em reverência à Mãe de Deus. A partir dessa data, passei a adorá-la como a uma deusa pagã. Carregava comigo aonde quer que fosse um retábulo em miniatura contendo um ícone pintado com têmpera da Virgem segurando o Menino Jesus ao colo, ao qual constantemente me voltava, sob o falso pretexto de orar pela salvação de minha alma mas secretamente admirando seu encanto celestial. Uma excitação herética dominava todo meu ser à mera visão da Madona com seu ar benevolente representada naquele pedaço de madeira. Tempos depois, seria ele o caminho para a satisfação de meus anseios mal represados, quando então me ocultava na solidão silenciosa de meu quarto. Contudo, logo dei-me conta da mais completa impossibilidade de retê-la fisicamente em meus braços. De que o retábulo não passava de um tosco simulacro da verdadeira felicidade por mim almejada tornou-se patente. A solução com que atinei foi buscá-la incansavelmente em todas as mulheres que encontrava, ansiando por perder-me em seus corpos como quem busca afogar-se num oceano de volúpia irrefreável. Obviamente, estava fadado a fracassar miseravelmente.

II

Conquanto Nossa Senhora tenha sido meu primeiro objeto de paixão espiritual, Carlota, a filha mais nova de nossa governanta, foi a primeira manifestação carnal do objeto de meus desejos. Sete anos haviam se passado desde a minha fatídica epifania na igreja de Madri. Havia me transformado então em um jovem de feições atraentes, cabelos dourados cacheados e olhos azuis bastante claros, que faziam de mim um apolo imberbe e encantador. Naturalmente, aproveitei-me desses predicados que a natureza me ofertou para dar plena vazão às minhas vontades. Ao contrário dos rapazes das mesma idade que eu, ainda envolvidos em folguedos e brigas infantis, eu já demonstrava inclinação pelo frêmito sensual. Nesse sentido, Carlota vinha ao encontro de minhas aspirações.
Não que fosse particularmente hermosa, com seu rosto desproporcional e quadris dilatados, mas seu corpo de criança em vias de tornar-se moça e o ar faceiro com que me dirigia o olhar atiçavam meus pensamentos com fantasias improváveis.
Fantasias que estiveram prestes a concretizar-se certa noite quente de verão, quando por um capricho dos fados nos encontramos sozinhos na varanda da casa de meus pais, em Toledo. Com mal disfarçada inocência, nos ocupávamos de uma brincadeira juvenil qualquer cuja única recordação digna de nota foi o acidental contato físico com sua pele morena e quente e que mais não serviu senão para intumescer minha virilidade até o limite do insuportável. Deus sabe que procurei manter-me impassível diante do arrebatamento que sua presença intimidadora provocava. Esquivei-me o máximo que pude das investidas de Carlota, mas seu sorriso malicioso convidava-me a participar de seu jogo erótico. Vi ali, naquele momento, a oportunidade que tanto esperava de consumar minha crescente excitação. Sem mais demora, abandonei os freios que ainda retinham meus atos e impensadamente tomei-a nos braços. Atabalhoado, suando frio e com as pernas bamboleantes, tentei balbuciar algumas palavras inspiradas, mas elas negaram-se a deixar meus lábios.
Antes sequer que lograsse beijá-la, contudo, fui agarrado no ombro direito por uma mão grande e forte. A mesma mão que me empurrou energicamente para longe de Carlota e en la continuación, me estapeou com vontade, lançando-me meio que inconsciente no chão sujo da varanda. Mal tive tempo de ver pela última vez na vida a jovem, que foi arrastada para dentro de casa aos prantos, e fui erguido por meu pai com uma ira digna de um Cronos[3] voraz. Apanhei, e apanhei bastante com palmatória de couro até que as marcas indeléveis do castigo ficassem impressas em minha carne ensangüentada, expondo a vergonha de meu pecado para todos que me vissem. A dor dessa penitência primordial ainda hoje insiste em me afligir de quando em vez, com o que me torna impossível arrancar definitivamente sua recordação do espírito. Como se isso não fosse o suficiente, meus pais e avós decidiram, após um demorado conciliábulo realizado na sala de estar de nossa casa, enviar-me para outro lugar. Um lugar longe o bastante de Toledo e quiçá do próprio reino de Espanha, no qual poderiam esconder minha lascívia de seus olhos severos, de modo que ela não os importunasse mais e em que, supostamente, eu aprenderia a domar os impulsos da carne. Que outro lugar no mundo há para levar a cabo essa tarefa de maneira mais inexorável a não ser a Santa Igreja de Roma?!

III

Para a sede da cristandade fui enviado sem mais delongas, aos cuidados de um tio materno, camerlengo do Clero Romano no Vaticano, subordinado direto ao Papa Paulo III. Como basta um só tolo para transformar nossas vidas em um inferno, meu tio cumpriu o papel sem hesitação. Do alto de sua mediocridade e atendendo às orientações de meu pai, ele logo tratou de encaminhar-me para o seminário, com o intuito confesso de me tornar clérigo, na esperança de, talvez, purgar-me de minhas afecções eróticas, como ele as chamava. Demorei a constatar que as muralhas do Vaticano seriam dali em diante a fronteira intransponível de meu mundo e que em seus domínios não havia lugar para pensamentos mundanos de qualquer espécie.
Encerrado no claustro úmido e triste de meu dormitório, era obrigado à prática de orações diárias infinitas, que tinham por única função exaurir minha mente de qualquer inclinação terrena, voltando-a para as questões de cunho religioso. Tais práticas serviram apenas para acirrar ainda mais minha resistência à disciplina eclesiástica, e a revolta e impotência que minha situação provocava em meu peito convertiam-se em lágrimas de raiva que eu vertia copiosamente, borrando as páginas de meu missal. Não chorava de arrependimento, pois jamais considerei como pecado os estímulos que me atraíam ao sexo oposto. Via-os antes como produto de minha natureza jovem e impetuosa, inofensivos em última hipótese.
Desnecessário dizer que meu tio não pensava da mesma maneira. Ainda mais rigoroso que meus pais e avós, ele estava determinado a curvar-me aos seus desígnios, que eu tinha dificuldade em reconhecer como a manifestação da palavra divina. Entretanto, o tempo cuidou de amortalhar a minha agressividade, colocando sobre minhas costas a canga da submissão aos ensinamentos cristãos, em meus pés os grilhões da obediência às regras clericais e em minha boca a mordaça dos evangelhos. Ao cabo de uma disciplina estrita capaz de dobrar até o mais inflexível dos hereges, curvei-me ao meu destino brutal. Assim devidamente domesticado, minha vontade foi se estiolando, meus instintos feneceram e eu já não mais demonstrava o mesmo ardor de antes. Sentia-me como um touro emasculado, sem quereres nem caprichos, inofensivo.
Cumpria minhas obrigações mecanicamente, sob um silêncio inescrutável, que em si mesmo era um resquício da antiga resistência que havia esboçado quando cheguei à Itália. Minha mudez era uma forma enviesada de combater a injustiça a que fui condenado, a única arma de que dispunha para fazer frente à intransigência hipocritamente piedosa de meu tio. Sempre reservado, misturava-me às sombras e confundia-me nos recessos escuros dos longos corredores do Vaticano, ansiando por tornar-me tão invisível aos olhares humanos quanto Giges[4].

IV

Foi então que Catarina aconteceu. Haviam transcorrido dois anos desde que me vira obrigado a abraçar a vida celibatária, e a bem da verdade tinha perdido qualquer esperança de conhecer uma mulher, biblicamente falando. Mas não era isso o que, aparentemente, a vontade do Altíssimo reservara para mim.
Quando, certo dia, executava meus afazeres costumeiros cuidando dos jardins do Vaticano, uma forte brisa apanhou-me desprevenido, erguendo meu hábito branco e soprando para longe um ramo de murta. Corri atrás dele, mas o ímpeto do vento era mais vigoroso do que eu, e o carregou para dentro de uma capela. Ao entrar no lugar, fui saudado por uma visão que só posso qualificar como angelical, que me deixou estupefato e sem ação. Sob a luz esmaecida filtrada pelos vitrais, distingui a uma certa distância uma jovem de seus 18 anos, não mais que isso, rezando concentrada ao pé de uma estátua de São Pedro.
Provavelmente, os longos anos de renúncia forçada a experimentar a contemplação de qualquer espécie de figura feminina, somados à repressão aos meus instintos mais básicos, provocaram em minha alma um abalo sísmico que tenho dificuldades de expressar em toda a sua extensão. Quanto mais fundo no espírito procuramos enterrar nossa natureza, tanto mais forte ela vem à tona quando uma brecha irrompe. O mero vislumbre de seu rosto de porcelana, parcialmente encoberto por um véu de renda, que aureolava suas feições e deixava entrever nas laterais os cachos dourados de seus cabelos, e a delicada compleição de seu corpo ali ajoelhado tiveram por efeito abrir essa brecha, rompendo o dique de minhas emoções há muito represadas. Senti instantaneamente uma felicidade avassaladora, e me deixei dominar por sua presença, que me atraía de forma implacável. Catarina era mais que a materialização de um delírio, era o sonho de um sonho.
Enquanto assim pasmava, ela se ergueu, após completar as orações, e ajeitava-se para partir. Vinha em companhia de uma senhora, que pensei ser sua mãe mas posteriormente soube que era sua ama. Um conflito de vontades tolheu meus movimentos e momentaneamente não esbocei a menor reação. Era imperioso fazer alguma coisa, agir depressa para não perdê-la definitivamente. Contudo, nenhum pensamento mais prático me ocorreu a não ser o de apanhar o ramo de murta do chão e ofertá-lo a ela.
Assim procedi, coberto por uma timidez que não me era peculiar, e senti o rosto incendiar-se enquanto balbuciava uma frase em italiano pobre e surrado:
- Por favor, sigñorina, aceite esse ramo como presente de um humilde admirador.
A princípio, a jovem demonstrou certa surpresa, para logo em seguida rir-se de meu gesto, e procurou conter o riso cobrindo os lábios finos bem delineados com a mão. Mesmo assim, não se furtou a apanhar a oferenda que lhe fiz e, com uma rápida genuflexão, agradeceu-me. A ama, de rosto severo como uma megera, tratou de puxá-la pelo braço e arrastou-a para fora da capela. Permaneci de pé observando-a enquanto se afastava na direção da porta, e minha espera foi recompensada com um rápido olhar lançado para trás, acompanhado do mais encantador sorriso que já me ofereceram.
Aquele sorriso invadiu minha alma como um raio de sol rompendo o inverno de minhas vicissitudes, e teve por efeito degelar minhas emoções há muito congeladas. O ânimo voltou a bater às portas de meu ser, e foi como se uma nova vida se iniciasse para mim. Mais disposto e animado, trabalhava com afinco, e sempre que possível procurava rondar o local de meu encontro com Catarina, como se fosse a minha Meca, no intuito de reencontrá-la caso aparecesse de novo. Não precisei esperar muito tempo, pois menos de uma semana depois ela e sua inseparável ama voltaram à capela.
Dessa vez, ousei abordá-la de maneira mais direta, e indaguei como tinha passado. Inicialmente acanhada, limitou-se a respostas monossilábicas. Como eu insistisse em estabelecer uma conversação, ainda que rarefeita e sob a restrição dos olhares da ama, ela aos poucos ganhou confiança para perguntar a meu respeito, quem eu era, qual meu nome, e coisas assim. Com o escoar do tempo e após dois ou três novos encontros, firmou-se entre nós um pacto de amizade, que eu considerava sincera e desprovida do mais leve resquício de interesses escusos. Ao menos de minha parte, só queria ter a oportunidade, ainda que fugidia, de admirá-la de perto, sentir seu perfume roçando em meu nariz e, quiçá, sonhar em um dia tomá-la por esposa.
Logo, esses breves e esporádicos encontros se tornaram insatisfatórios para mim. Eu ansiava por mais, queria ter a oportunidade de abrir meu peito, revelar-lhe os pensamentos que ocultava sob um coração ardente e contrito. Sonhava, delirava em ouvir dela a confissão de um amor irreprimível por mim, acompanhada de juras de fidelidade eterna e, quem sabe, a promessa de uma vida comum em outro recanto. Passei a divisar uma estratégia, um plano qualquer, que pudesse afastá-la, ainda que por poucos minutos, de sua inseparável ama, a fim de pôr em prática meu intento.

V

A ocasião apresentou-se numa tarde chuvosa, quando me refugiei na capela encharcado da cabeça aos pés. Senti-me ridículo naquele estado, e imaginei o que Catarina pensaria de mim se me visse. Mal esse pensamento tomou forma na minha mente, meus temores se concretizaram, pois avistei minha amada e sua ama a alguns metros. O pavor redobrou de intensidade quando percebi que vinham na minha direção. Urgia fazer alguma coisa, qualquer coisa, para furtar-me ao seu olhar, mas o estupor que me dominou não me permitia atinar com uma solução minimamente viável. Olhei ao redor, à procura de um local para me esconder, e notei o confessionário a três passos rápidos de mim. Então, sem pensar nas conseqüências de meus atos, corri para ele, abri a porta lateral e me escondi no interior escuro. Permaneci na mais profunda quietude, para que Catarina passasse por mim e fosse embora. Mas foi exatamente isso o que não aconteceu.
Segundos depois, ela ajoelhou-se diante da portinhola e começou a orar e a recitar as preocupações que turvavam seu espírito. Absolutamente emudecido de medo, não tive coragem de revelar-lhe minha identidade, e deixei que prosseguisse com suas confissões. Novamente me equivoquei ao imaginar que se tratavam tão-somente de pecadilhos de moça casadoira, inofensivos. Qual não foi minha surpresa quando Catarina mencionou meu nome, com tanto ardor e afeição que senti o chão ceder aos meus pés. A jovem desavisada relatou em seguida tudo o que sentia por mim, e expôs o amor sincero e desinteressado que vinha nutrindo desde o primeiro dia em que nos conhecemos. A tudo eu ouvia enlevado, me contendo para não abrir a porta do confessionário e revelar-me. Arrematou o demorado rascunho de sua profissão de fé com a intenção de que não mais nos víssemos, pois eu era um noviço e seria, portanto, impossível termos alguma coisa em comum.
- Não, por favor, não faça isso! - gritei, num momento de desatino, sem refletir o que fazia.
Catarina sobressaltou-se sem saber o que pensar e recuou da portinhola, erguendo-se de um salto. Sem mais razões para me ocultar, abri a porta e joguei-me aos seus pés, implorando para que me desse uma oportunidade de demonstrar-lhe meu amor. Antes sequer que pudesse tocar-lhe a mão, porém, fui detido pela ama, que agarrou-me pelo braço esquerdo. Debati-me inutilmente, esforçando-me para me libertar e, quando dei por mim, estava em presença do vigário, na sacristia.
Eu sabia das graves conseqüências que me aguardavam por causa de meu ato desatinado, e elas não tardaram a se manifestar. Como as engrenagens de um mecanismo pacientemente construído e bem azeitado, meu destino foi sendo pouco a pouco selado à medida que o caso era levado a instâncias superiores. Meu tio bem que tentou interferir no curso do processo, insistindo junto aos seus pares para que não fosse levado adiante, mas sua influência de nada serviu. Em questão de dias, durante os quais permaneci incomunicável em uma sala abafada e claustrofóbica no edifício de minha ordem, a decisão que mudaria o rumo de minha vida foi finalmente tomada, sem direito a defesa ou réplica de minha parte.

VI

Acusado de insubordinação (o que era verdade) e de tentativa de prevaricação (o que era a mais repulsiva mentira), fui expulso do seminário. Com uma carta de reprovação assinada pelo próprio cardeal-decano numa das mãos e uma sacola contendo meus parcos pertences na outra, fui imediatamente embarcado de volta à Espanha no mesmo dia. Embora me sentisse aliviado por ter-me livrado daquele fardo odioso que pesava em minha alma há tantos anos, e com a perspectiva de agora levar minha vida da forma que desejava, meu estado geral era de profunda tristeza. Afinal de contas, nunca mais veria minha amada Catarina. Seu rosto angelical, o sorriso e tudo o mais que compunha sua imagem foi-se desvanecendo de minha memória na mesma velocidade com que o bergantim no qual me encontrava se afastava pelo Tibre.
  A um dia de viagem, já lançados ao largo do Mediterrâneo, um vento norte começou a soprar com intensidade, trazendo às nossas vistas uma galeota oriunda do leste. Aproximava-se com velocidade, e parecia determinada a nos interceptar, o que provocou em nosso capitão um certo franzir de cenho que traía um misto de indagação e apreensão. Em questão de horas, o barco encurtou sua distância de nós para não mais do que meia légua, o que nos permitiu vislumbrar com mais clareza quais seriam seus propósitos. Tratava-se de piratas sarracenos, em número não inferior a 20, e pareciam dispostos a nos alcançar a qualquer custo. Percebendo o perigo que corríamos, o capitão ordenou que amarrássemos o traquete ao mastro da proa, o que mais do que dobrou nossa velocidade. Contudo, isso não foi o suficiente para nos livrarmos de nossos perseguidores, que possuíam uma embarcação mais ligeira. Embora em menor número que nós, vinham armados de adagas e da vontade de saquear nosso carregamento. Antes que o sol se pusesse, eles nos abordaram e saltaram em nosso convés lançando brados terríveis que fizeram meu coração gelar de pavor.
Sem saber direito o que fazer, apanhei uma das poucas espadas que dispúnhamos e me lancei à defesa de nossas vidas. Mais inclinado aos enlevos do amor do que ao calor dos duelos, não logrei muito êxito nessa empreitada. Atingi, ou penso ter atingido, um dos agressores, pois nem bem toquei-lhe com a ponta da espada no ombro esquerdo, caiu para trás, aparentemente morto. Se de susto ou por obra do Espírito Santo, creio que jamais saberei. Em outro infligi um ferimento profundo no rosto, mais por acaso do que por maestria, já que havia mirado em seu peito. Antes que fizesse uma terceira vítima acidental, porém, senti um forte baque na nuca, como se alguém tivesse lançado um barrilete sobre mim, e desabei no chão da coxia, àquela altura varrido pelo sangue e os membros despedaçados de meus desventurados companheiros de infortúnio.

VII

Perdi os sentidos e creio ter dormido a noite toda, pois fui despertado quando o brilho dos raios do sol nascente estapeou meu rosto. Ainda enfraquecido da luta travada no dia anterior, mal tive forças para me mexer, esforço que, como logo atentei, resultaria inútil de qualquer maneira, já que me achava na popa firmemente amarrado com um cordel. Olhei para os lados e não vi nenhum cristão capturado além de mim, o que me levou à suposição de que eu era o único sobrevivente do massacre. Suposição que me encheu de temores quanto ao meu futuro.
Um dos piratas, notando que eu havia recobrado a consciência, aproximou-se e, agachando-se,, começou a falar em sua linguagem ímpia, que eu absolutamente não compreendia, acompanhado de gestos contundentes, e esses eu compreendia muito bem. Pelo que depreendi de seu palavrório, eu havia sido poupado por alguma razão, e imagino que fosse para me trocar por um polpudo resgate, talvez uma bobagem da ordem de 4 mil escudos, senão mais.
Dadas as condições em que deixei Roma, e o profundo desgosto que minha expulsão do seminário devia ter provocado em meu pai, é pouco provável que ele se dispusesse a pagar qualquer valor que superasse o custo que a minha vergonha havia lhe provocado. Sendo assim, não havia esperança de resgate algum para mim, e meu destino nas mãos daqueles bárbaros estava, por assim dizer, traçado e acertado. Quando atingíssemos nosso porto de chegada, que eu acreditava ser em Túnis, no Marrocos, pois era naquela direção que a galeota agora singrava os mares a todo pano, eu seria posto a ferros e feito escravo.
Naquela ocasião, essa hipótese parecia tão certa à minha razão que um forte desânimo me abateu diante da perspectiva de passar o restante dos dias a serviço de algum vizir intolerante, que me forçaria a adotar a falsa fé e a renegar o verdadeiro Deus dos cristãos. Outra possibilidade nefanda, ainda mais desanimadora, invadiu a minha mente, mas rechacei-a com veemência diante da repulsa que me provocava a mera sugestão de que viesse a suceder. Contudo, ela se impôs teimosamente sobre o meu espírito, sobretudo depois de novas insinuações que os piratas sarracenos fizeram por intermédio de gestos impronunciáveis.
Logo me recordei das histórias terríveis que ouvira nos claustros, narrativas sussurradas pelos corredores escuros, que davam conta de que somente alguns dos prisioneiros, os velhos, gordos e desajeitados, são feitos escravos pelos mouros. Esses são os que têm mais sorte. Os mais jovens, os mais hermosos, são oferecidos a Alá e transformados em eunucos, com o único intuito de satisfazer o prazer blasfemo dos paxás. Oh, horror dos horrores! Eu estava condenado a viver para sempre sem jamais desfrutar do corpo de uma linda mulher, a morrer sem nunca ter sentido o gozo irrefreável do amor, esse gozo que persegui a vida inteira sem sucesso. A mera escravidão era um bálsamo ameno comparado com o que me aguardava. Dez mil chibatadas dilacerantes eram preferíveis a esse suplício, que pesava sobre minha cabeça como a espada de Damocles[5]. Entre a castração e a morte, não tive dúvidas em optar pela segunda alternativa e ali mesmo, na embarcação que me conduzia ao cadafalso de minhas aspirações, decidi dar fim a uma vida até então plena de frustrações.

VIII

Deus tem um jeito estranho de dizer as coisas, e as diz numa linguagem ainda mais estranha, que só pode ser compreendida pelos puros de coração. Como esse certamente não é um de meus mais nobres atributos, estou fadado a compreendê-lo mal e a interpretar o duvidoso como certo. Foi assim que considerei a borrasca que se abateu sobre nossa galeota, quando já navegávamos sem parar há três dias e eu me preparava para saltar da coberta para o mar, como a manifestação da providência divina, agindo a meu favor com o propósito de me libertar de meus captores.
Encurralada entre muralhas revoltas de água, a embarcação viu-se jogada de um lado para o outro, ora sendo erguida até as nuvens, ora sendo lançada ao mais remoto círculo do inferno. Contra a implacável fúria dos elementos, de nada adiantaram os esforços ou as orações dos piratas sarracenos. O timão já não obedecia ao comando do piloto, e seguíamos sem rumo pelo oceano tenebroso. As ondas de mais de cinco metros nos abatiam sem cessar e a cada vez que varriam a coxia, carregavam consigo um punhado de almas. Sob o impacto das águas, a vela grande se partiu, e com ela veio abaixo todo o velame. Irremediavelmente avariada, ferida de morte, a galeota não resistiu a uma terceira investida das imensas ondas e foi destroçada e seus restos tragados para as profundezas negras dos domínios de Netuno[6]. Milagrosamente, só eu sobrevivi à tragédia. Agarrado a um fragmento da estandeirola, fiquei à deriva, dando graças sem parar pela minha salvação. Só esqueceram de avisar Deus disso.
Quase que imediatamente após o naufrágio de meus captores, o tempo abrandou e as águas voltaram a acalmar-se. Carregado a esmo pelas correntes marinhas, fui conduzido em direção ao oeste. Embora exausto e temeroso, sentia-me aliviado, pois qualquer destino seria preferível a perder para sempre o instrumento de minha almejada felicidade. Sob esse estado de espírito, flutuei por um dia inteiro até que avistei terra ao sul. Bastariam algumas braçadas para pôr-me a salvo e a seco, mas evitei fazer isso. Aquelas eram terras mouriscas e, mesmo que chegasse vivo a algum porto seguro, seria imediatamente apanhado e meu martírio enfim se cumpriria. Dessa maneira, resolvi afastar-me como podia daquelas paragens hostis a um cristão. Os ventos de nordeste voltaram a soprar forte, empurrando-me com força redobrada para além das colunas de Hércules.
Perdi a conta de quantos dias passei vagando pelo oceano aberto. Enfraquecido, à beira da inanição, desmaiei diversas vezes. Nos momentos de vigília, delirava de fome e sede. Soterrado sob as brumas oceânicas, vislumbrei a distância uma forma celestial que se aproximava lenta e inexoravelmente. Quando distava meia milha, acreditei estar contemplando Nossa Senhora, que descia dos céus em meu socorro, acompanhada por um séqüito de arcanjos. Envolta em vestes alvas que esvoaçavam ao vento, fitava-me com seu olhar piedoso e dizia algo que não eu não lograva escutar. Vinha com as mãos estendidas, como se me convidasse a segui-la à morada divina. Hesitei por um instante, até que o instinto de sobrevivência se sobrepôs à reverência religiosa e esforcei-me para tocar-lhe os dedos.
Nesse instante, a imagem dissolveu-se no ar e em seu lugar deparei-me com o costado de madeira de uma nau espanhola. Debruçados na amurada, os marinheiros gritavam em minha direção e não tardaram a me içar para bordo. Desfaleci assim que pus os pés no convés, resultado da mistura de emoção e fraqueza extremas, e despertei dias depois, já ao abrigo da cabine do comandante.

IX

Minha convalescença se estendeu por um dia inteiro, período no qual me inteirei acerca da região para a qual a embarcação, chamada Santiago, se dirigia. Fazia parte de uma frota de quatro navios com 400 homens que havia zarpado oito dias antes de Sanlúcar de Barrameda. A expedição dirigia-se a todo pano à Terra de Santa Cruz[7], e era comandada por Francisco de Orellana, homem tido por muitos como exímio navegador e desbravador do novo continente. Como tomei conhecimento na ocasião, a ele foi atribuída a descoberta, dois anos antes, de um imenso e caudaloso rio, e esse viria a ser o nosso destino. O rio foi batizado de Rio Orellana, em homenagem ao seu descobridor, mas não tardou a ficar conhecido por um outro nome, como logo fui informado pelo comandante:
- Embora Orellana tenha sido o primeiro a navegá-lo, o rio ganhou fama por uma razão diversa. Os relatos de sua expedição dão conta de uma narrativa inusitada, que muitos creem produto da imaginação exacerbada de seus protagonistas.
- Que tipo de narrativa? – quis saber eu, já com a curiosidade exacerbada.
- Ora, do tipo que os marujos contam após longos períodos em terras desconhecidas. Certamente deve ter ouvido falar das histórias de gigantes e criaturas exóticas que habitam os mares do sul. A maior parte dessas descrições não passa de quimera. Talvez a história relatada por Orellana seja mais uma dessas invencionices, não sei dizer.
- É impossível afirmar ao certo – observei.
- Isso lá é verdade, mas julgue por você mesmo. Aqueles homens passaram por muitas privações, sofreram fome, sede e doenças, correram perigos que mal concebemos. Numa situação dessas, a mente de qualquer pobre pecador sucumbiria e começaria a pregar peças.
- O que aconteceu exatamente com ele?
- Bem, após deixar as terras dos incas, em companhia de um grande contingente de homens e animais de carga, ele navegou por um curso estreito até desaguar em um rio tão vasto e tão imenso quanto o Nilo. Para você ter uma idéia de suas dimensões exageradas, conta-se que em certos trechos os marujos mal podiam enxergar as margens. Mesmo impulsionada a grande velocidade pela forte correnteza, a expedição levou meses até avistar o Atlântico, o que só aconteceu no ano seguinte. Mas não foi somente por conta desse fato que essa aventura ganhou notoriedade. A cerca de 20 léguas da foz, Orellana e seus homens se depararam com um evento ao mesmo tempo assombroso e magnífico, um evento tão marcante que vem desafiando nossas fantasias desde então.
- O que foi que eles encontraram lá? – indaguei, mal conseguindo conter minha ansiedade.
- O que eles encontraram? – retrucou ele, soltando em seguida uma gargalhada rouca – A insanidade, meu caro. A insanidade. Ninguém avista os umbrais do paraíso sem pagar um preço por isso.
- Como assim? O que pode haver de tão aterrador neste mundo capaz de levar os homens à loucura só de fitá-lo?
- Não é de homens que se trata, rapaz, mas de mulheres. Guerreiras nuas, portando arcos e flechas e tão destras na arte da guerra quanto qualquer soldado de Sua Majestade Carlos V. Altas, morenas e de uma beleza indescritível, assim eram elas, segundo os relatos dos que sobreviveram ao ataque feroz e implacável que desferiram contra Orellana e seus companheiros.
- Está me dizendo que a expedição foi atacada por um exército de mulheres selvagens?
- Em plena floresta. Elas ocultaram-se por trás das folhagens densas e sombrias e no momento oportuno lançaram, a partir das margens, uma saraivada incessante de flechas, que caiu sobre o barco dos expedicionários como uma chuva de punhais, matando muitos e ferindo outros mais.
- E que nome tinham essas guerreiras? – balbuciei, espantado com o que ouvia.
O comandante soltou outra sonora gargalhada característica, antes de concluir a narrativa.
- Que nome você daria a uma lenda senão o de outra lenda mais arcana? Amazonas[8], esse foi o nome com que as batizaram, e é como Rio Grande de las Amazonas que o lugar para o qual estamos nos dirigindo tem sido chamado desde então.
Mal pude crer no que estava ouvindo. Depois de quase ser convertido em eunuco e sobreviver no mar por semanas a fio, estava indo ao encontro de um país formado exclusivamente de mulheres. Se isso não representasse o próprio Paraíso na Terra, não sei mais o que poderia ser! Absurdo, dirão vocês. Como Tertuliano, retrucarei que por ser absurdo é que acreditei.

X

Fiquei eufórico. O que estou dizendo? Fiquei fora de mim, absolutamente extasiado com as possibilidades que se abriam em minha mente febril. Minhas fantasias davam cabriolas ensandecidas e se expandiam para além do espaço confinado de meu crânio. Essas mulheres irreais acenavam com a promessa de me ofertar o que eu há tanto tempo ansiava: a felicidade infinita. Finalmente iria perder-me na carne de um exemplar do sexo feminino. Não apenas teria a oportunidade de sentir o corpo cálido de uma linda mulher deixando-se entregar aos meus braços, mas de dezenas, talvez centenas delas, ainda intocadas pelas mãos imundas e civilizadas de um europeu. Guerreiras poderosas, tão virgens e castas quanto minha amada Nossa Senhora.
As semanas seguintes transcorreram para mim com lentidão exasperante. Não que a frota navegasse devagar, muito pelo contrário. Rumávamos com presteza para o sul, como se o capitão Orellana tivesse tanta pressa em conquistar o reino das Amazonas quanto eu tinha de despedir-me de minha virgindade. Vezes sem conta surpreendi-me olhando esperançoso para o horizonte do mar sem-fim, enleado em devaneios inenarráveis. Nenhuma tempestade se opôs em nosso caminho, e as correntes se mostraram dispostas a colaborar com nosso empenho, o que tornou ainda mais estranhos os desaparecimentos de duas das nossas naus. Uma delas dissipou-se de nossas vistas próximo às Ilhas do Cabo Verde, a outra, quando já distávamos cerca de 800 léguas do novo continente. Ao contrário do que determinam os regulamentos da marinhagem, o capitão não se deteve em diligências para procurá-las. Ignorou-as, como se não passassem de um incômodo que tolhesse o nosso avanço, e deu ordens para que a Santiago e a nau capitânia prosseguissem na singradura a todo pano.
Após cinco semanas a bordo, eu mal me continha de ansiedade, quando finalmente avistamos terra. Fui um dos primeiros a correr para o tombadilho. Debrucei-me na amurada, projetando meu corpo adiante como se quisesse me fazer ao mar. Como isso não fosse suficiente para mim, enrosquei-me nos cordames e subi o mais alto que pude. Pouco a pouco, como uma jovem recatada, a Terra de Santa Cruz foi revelando seus segredos ante meus olhos. Em meio à bruma matutina, contemplei maravilhado a geografia sensual daquelas terras virgens. Os morros, de curvas feminis e suaves, espraivam-se ao sul e ao norte a perder de vista. As matas recostavam-se indolentemente no solo arenoso da costa, deixando-se acariciar pelo vento cálido próprio daquelas latitudes. A beleza exuberante daquele lugar me estimulava, desafiando-me, ou direi melhor, instigando-me, a explorá-la. Subjugado por meu júbilo inebriante, deixei escapar uma exclamação em voz alta:
- Agora vocês são minhas!
Quatro dias depois, à altura dos 20º de latitude meridional, quando já havíamos perdido de vista a Estrela Polar e deixado para trás a linha equinocial, apontamos nossas proas para a desembocadura de um grande rio. A largura era de fato impressionante, e as ondas do mar chocavam-se com ímpeto contra a forte correnteza de água doce, provocando um estrondo pavoroso, audível a várias milhas. O prumo[9] foi lançado e lido repetidas vezes, até o capitão determinar que baixássemos âncoras às 10 braças de fundura. Estávamos a 5 léguas da costa, razoavelmente próximos para fundearmos em segurança e razoavelmente distantes para nos protegermos de possíveis ataques dos nativos.
Na manhã seguinte, Orellana deliberou que avançássemos com as duas naus rio adentro e, após os preparativos de costume, levantamos âncora e fizemos vela. Penetramos o lugar com cautela, atentos ao mínimo sinal de perigo que se nos apresentasse. Armamos os arcabuzes e deixamos os canhões carregados, prontos para disparar à primeira hostilidad. Navegávamos por aquelas águas desconhecidas cheios de temor, procurando nos colocar a meia distância das margens, o que não constituía grande dificuldade, dada a dilatada extensão que as separava.
A um dia de viagem, o curso começou a se estreitar à nossa frente e a nos oferecer uma labiríntica rede de ramificações. A princípio, o capitão ficou indeciso sobre qual rumo tomar, até que se resolveu pelo canal que exibia a maior vazão, na extremidade direita, resolução que se mostrou desastrosa, pois não chegamos a seguir mais do que meia milha nesse afluente quando a nau capitânia encalhou em um banco de areia. Qualquer esforço para movê-la demonstrou-se inútil, e Orellana considerou seriamente qual procedimento tomar, chegando à conclusão que o melhor seria enviar um batel com um contigente de homens para subir o rio em busca de auxílio.
 Prontamente me ofereci como um dos dezesseis membros da expedição, na esperança certa de que essa seria a oportunidade para travar contato com as lendárias guerreiras amazonas, se é que de fato existiam. A princípio, meu comandante repeliu a oferta com vigor, alegando que eu não tinha prática dessas coisas, e que, além disso, poderia atrapalhar mais do que ajudar com minha inexperiência. Retruquei que isso não seria um empecilho, pois sabia lidar com uma espada e, se preciso fosse, seria um braço a mais a manejar um arcabuz. Observei que eu poderia fazer a diferença numa eventual contenda com os selvagens. Diante desse argumento determinante, para o qual não encontrou objeção, somado às minhas insistentes súplicas, ele finalmente consentiu que eu seguisse com os demais marujos a título de observador descompromissado, sob a recomendação de que em hipótese alguma tomasse qualquer iniciativa que pusesse em risco meus companheiros.

XI

Incendiando de excitação por cada poro de meu corpo, embarquei no batel, cego para os sinais de minha desgraça, que eram evidentes a quem tivesse olhos para ver. Eram tão visíveis quanto uma nuvem negra de tempestade despontando no horizonte. Naturalmente, eu estava suficientemente surdo, devido ao crescente clamor de meus desejos, para perceber tais evidências e, assim, segui caminhando alegremente rumo ao abismo de minha existência.
Embrenhamo-nos naquelas matas densas e sinistras como se adentrássemos os próprios domínios negros de Plutão[10]. À medida que seguíamos a correnteza, o caminho ia se fechando à nossa frente, e o ar foi se tornando mais e mais sufocante. Era como se uma corda se apertasse em torno de nossos pescoços, pronta para ser puxada ao mais leve movimento em falso. A animália agitava-se à nossa passagem, e divisei entre as folhagens um sem número de criaturas que jamais havia imaginado existir. Ocultas nas sombras lançadas pelas árvores ciclópicas, elas nos observavam, mas não ousavam nos atacar, antes pareciam curiosas com nossa presença. Pássaros de cores e plumagens exuberantes levantavam voo ante a nossa aproximação, talvez incomodados com nossa invasão desavisada ou quem sabe para nos alertar da ameaça que nos aguardava adiante.
Sem qualquer aviso prévio, a correnteza encrespou, irada. Dir-se-ia que as ninfas desconhecidas daqueles ribeirões austrais haviam se erguido em armas à nossa passagem. As águas rebeldes rolavam ao redor da embarcação com uma fúria descontrolada, empurrando-nos com vigor por um afluente estreito pontilhado de seixos pontiagudos que despontavam em meio às espumas revoltas. Voamos por sobre as águas a uma velocidade espantosa, sem a possibilidade de exercermos qualquer controle ao leme. O barco via-se agitado ao puro capricho das corredeiras, chocando-se com as rochas indistintamente a bombordo e a estibordo. Ao termo de intermináveis minutos, a divindade protetora daquelas águas enfadou-se de brincar e estraçalhou a embarcação de encontro às pedras.
Entregues à correnteza, fomos arrastados com ímpeto rio abaixo. Alguns de meus companheiros afogaram-se nessa ocasião sem que pudéssemos fazer qualquer coisa para salvar suas pobres almas. A meia dúzia restante, da qual eu fazia parte, passaria por uma provação ainda maior poucas milhas adiante, quando desaguamos em um ribeirão de águas mais tranqüilas. Mal refeitos das correntes selvagens, recuperamos o fôlego e procuramos nos manter próximos uns dos outros o mais que possível. Decisão que mostrou-se alvissareira, ao menos para mim.
Não havia passado um quarto de hora quando a desgraça se abateu sobre nossas cabeças. Como muitas tragédias, essa também começou com uma inofensiva risada solta e franca de um dos marujos. Diante dos nossos olhares de espanto, explicou que sentia cócegas.
- Alguma coisa, eh, eh, está fazendo cócegas nos meus pés, eh, eh, nas pernas, por todo o corpo. Não consigo me conter, eh, eh – dizia ele, no intervalo entre uma risada e outra.
Aparentemente, as cócegas eram contagiosas, pois logo se manifestaram em outro marinheiro, que passou a rir a bandeiras despregadas ao seu lado. Assim, cada um deles desatou a gargalhar como se dedos invisíveis os acometessem sem parar. Em um instante, porém, aquela cena hilária converteu-se no palco sangrento de um horror inimaginável.
As coceiras e risos foram substituídos pelo borbulhar vermelho da água e gritos lancinantes de dor, que encheram o ar da mata cerrada, incutindo pavor até mesmo nas feras estranhas que nos rodeavam. Demorei-me a atinar com o que estava se passando. Estávamos sendo atacados e devorados vivos por alguma espécie de criatura aquática de dentes afiados. Formavam uma legião e sua voracidade era tremenda. Em questão de segundos, já haviam consumido quase inteiramente boa parte de nós. Debatíamo-nos inutilmente em meio a um rio de sangue, pois o inimigo avançava sobre nós de todos os lados, sem que lográssemos escapar de suas presas. Tomado de assalto pelo temor, procurei nadar na direção das margens, mas não cheguei a dar três braçadas quando fui alcançado pelos peixes sedentos de carne. Mesmo sentindo minha pele sendo dilacerada sob a água, prossegui rumo à terra firme. Contudo, com as forças se esvaindo e a vida escapando de meu corpo, sucumbi à sanha daqueles peixes carnívoros e preparei-me para me entregar aos braços de Tanatos[11]. Desacordado, fui tragado para o fundo do rio.

XII

Uma escuridão fria e silenciosa envolveu-me. Os brados de sofrimento de meus companheiros, bem como a sensação dos dentes afiados penetrando em meu corpo, se desvaneceram por completo. Vi-me então lançado a um delírio sem precedentes, que me deixou desconcertado por seu significado obscuro.
Em meio às trevas mais impenetráveis, irrompeu uma luminosidade, inicialmente tímida, mas gradualmente mais intensa, e que tomou a forma de um candeeiro aceso. Um dentre muitos distribuídos ao redor de uma vasta tenda de estilo mourisco, ricamente decorada, com cortinas vermelhas estendidas nas paredes e tapetes de arabescos habilmente desenhados no chão de mármore. Eu vestia um alguicel[12] branco e comprido até os pés e, na cabeça, um turbante do mesmo tecido, também branco. Logo percebi que não estava sozinho nesse recinto. Uma hermosa mulher, vestida com tanto requinte quanto eu e recendendo a mirra, recostava-se ao meu lado sob um baldaquino de púrpura, bordado de ouro e enfeitado de esmeraldas e pedras preciosas. Estava adornada com um diadema e exibia muitas pérolas e braceletes, brincos e anéis dourados. Trajava uma almalafa[13] de cetim vermelho e sandálias nos pés.
Estávamos entregues aos jogos do amor, beijando-nos e acariciando-nos sem cessar, sentindo a volúpia transbordar em nossos corpos com a mesma doçura do vinho que borbulhava em nossas taças. Embriagado pela bebida, não notei quando ela se ergueu e tomou de uma espada que estava pendurada à cabeceira de nosso leito. Tampouco atinei o que pretendia quando a desembainhou e a ergueu, brandindo-a ameaçadoramente sobre minha cabeça. Somente quando me agarrou pelos cabelos é que conheci seu nome. Ela era Judite, e eu me encontrava em meio a uma das mais cruentas passagens do Antigo Testamento[14]. Antes, porém, que desferisse o golpe fatal, despertei agitado.

XIII

Onde exatamente, não soube dizer de imediato. Mas a primeira coisa que logrei enxergar assim que abri os olhos foram duas figuras femininas imóveis, não maiores que dois pés de altura dispostas diante do leito de palha em que me encontrava e que revelaram ser ídolos talhados em ouro e prata. Qual a natureza dessas deidades, se patronas da guerra ou do amor, jamais saberei. Compunham um altar de pedra no centro de um salão circular, de cerca de dez pés de diâmetro, decorado do chão até o teto da mais pura prata, o que dava ao ambiente ao meu redor um brilho argênteo incomum. O teto, bastante alto, era forrado de penas coloridas de pássaros tropicais, que margeavam um orifício circular por onde penetrava a luz do sol, o que servia para dar à construção a aparência de uma catedral rústica e contribuía para um certo toque onírico que dominava o conjunto. Contudo, não se tratava de outro delírio de minha mente febril, como logo constatei pelas dores que assaltavam meu corpo, resultado dos ferimentos inflingidos pelos peixes carnívoros.
Como em resposta aos meus lamentos, uma mulher entrou no lugar e aproximou-se de minha cabeceira. Era dona de uma aparência exótica que jamais havia contemplado em terras do Velho Mundo. Branca e alta, carregava uma beleza que exalava ferocidade na mesma proporção com que fazia meus humores ferverem. Talvez essa impressão fosse reforçada pelo cabelo negro e revolto, que despejava-se em tranças pelas laterais e pelas espáduas, o que lhe dava um ar irresistivelmente selvático. Para meu profundo deleite, andava praticamente desnuda, contando apenas com uma sunga de couro para cobrir a vergonha, mas que, evidentemente, era insuficiente para esconder-lhe o corpo virilizado e as coxas troncudas. Um elemento, porém, não poderia se furtar à minha atenção, e foi o de que não trazia peitos proeminentes como os de nossas mulheres do reino. Lembrei-me das descrições de meu comandante e deduzi que me encontrava em poder das lendárias amazonas americanas[15].
Um sorriso amplo e farto rasgou meu rosto de leste a oeste. Isso significava que os relatos que Orellana e seus homens haviam colhido não carregavam mentiras. Las amazonas existiam, de fato, e eram ainda mais belas que a mais louca narrativa dava conta. Uma aldeia, quiçá uma ciudad inteira povoada exclusivamente por uma estirpe tão nobre de mulheres e tendo apenas eu como varão fez minha imaginação revolutear a alturas estonteantes. Não conheço a sorte de meus companheiros, mas sabia que eu, ao menos, havia sido poupado por Deus para encontrar a merecida bem-aventurança.
A jovem saiu apressada do recinto, e não se passaram mais de dez minutos para que um séqüito de guerreiras amazonas adentrasse o lugar. Tão ou mais vigorosas quanto a anterior e igualmente atraentes, formaram um semicírculo em torno de meu leito e pareciam me temer, pois traziam aljavas e arcos. A mais alta e bem paramentada dirigiu-me a palavra, após uns tantos instantes de silêncio. Chamavam-na coroni ou coñori, mas não precisei de tradutores para intuir que se tratava da rainha das amazonas em pessoa. Falou-me em sua língua bárbara e estranha, a que eu não compreendia absolutamente. Todo o tempo permaneci em silêncio, fitando-a, e foi então que uma verdade inquestionável irrompeu em minha mente como um relâmpago. Seus traços, sua compleição, em tudo e por tudo eram uma reprodução fiel da Virgem do retábulo. Bela e sedutora, essa Hipólita[16] tropical me exaltou com sua presença e ateou fogo aos meus instintos.
O ardor consumiu meu corpo e desceu do peito até as pernas, e eu me rendi ao seu domínio. Contudo, havia algo de errado em mim. Apesar das dores que insistiam em me afligir, eu ainda era capaz de perceber o toque do manto de penas cobrindo meu corpo. Podia sentir perfeitamente os pés e seus dedos, as pernas e todos os demais membros, com exceção de um. Justamente aquele que justificava toda minha existência, sem o qual viver na companhia de tantas mulheres seria como padecer no paraíso. Agora tudo fazia sentido. Eu hava, sim, sobrevivido à sanha dos peixes carnívoros, mas eles não permitiram que eu saísse incólume das águas do rio. Desesperado, puxei a coberta da parte de baixo de minha cintura e emiti um grito de pavor ao contemplar horrorizado o que restava de mim.

06 de junho de 2015




[1] Versão aportuguesada arcaica do nome do profeta muçulmano Maomé.

[2] O Inferno na mitologia greco-romana.
[3] Deus da mitologia greco-romana, também conhecido como Saturno, devorou os próprios filhos.

[4] De acordo com Platão em seu livro A República, homem que possuía um anel capaz de torná-lo invisível.

[5] Expressão retirada de um mito grego e que significa um perigo iminente que paira sobre a vida de uma pessoa.

[6] Deus dos oceanos na mitologia romana.

[7] Ou Terra de Vera Cruz, o Brasil.

[8]  Originalmente, as amazonas eram uma tribo de mulheres guerreiras que povoavam as antigas lendas gregas e são mencionadas na Ilíada, de Homero, e na História, de Heródoto.
[9] Antigo instrumento náutico usado para medir a profundidade próximo à costa.
[10] Deus romano guardião do Hades, o Inferno na mitologia greco-latina.

[11] Deus da morte na mitologia grega.

[12] Manto de lã, em forma de capa, usado pelos mouros.

[13] Vestido usado pelas mulheres mouriscas.

[14] O episódio de Judite e Holofernes, no Livro de Judite, 10-13.

[15] Em grego, a-mazos significa “sem seio”.

[16] Rainha das amazonas na mitologia grega.

 
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