e Confira a versão integral de "A Baleia branca e o Deus inefável", a resenha crítica do romance "Moby Dick", de Herman Melville ~ Diário do Moretti
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domingo, 3 de maio de 2015

Confira a versão integral de "A Baleia branca e o Deus inefável", a resenha crítica do romance "Moby Dick", de Herman Melville







A BALEIA BRANCA E O DEUS INEFÁVEL

Por Marco Moretti

Capa da versão ilustrada de "Moby Dick" feita
por Bill Sinkiewicz - Fonte: Wikipedia

Muitas vezes, no mundo da grande arte, toda uma carreira é definida por uma única obra, mesmo que o artista tenha legado dezenas de outras à posteridade. Michelângelo será sempre lembrado pela Capela Sistina, Beethoven, pela Quinta Sinfonia, e o americano Herman Melville (1819-1891) por “Moby Dick”. O caudaloso romance que narra a caçada à baleia branca destruidora de homens e navios é equivocadamente apontada como a obra-prima do escritor. Penso que “Billy Budd”, publicado postumamente, ou o conto “Bartleby, o Escrivão”, atendem melhor a esse rótulo. Contudo, não há como negar que “Moby Dick ou a baleia” (o título original do livro) é, de longe, o mais popular trabalho de Melville e o zênite de sua arte. Um dos aspectos mais negligenciados do romance e que hoje justificam a sua permanência entre as dez ou 20 maiores obras da literatura em todos os tempos diz respeito à maestria na construção de sua estrutura. Muito antes do “Ulysses”, de James Joyce, o escritor fez do livro um precursor do modernismo do século XX ao incorporar vários estilos narrativos numa mesma obra. Poesia, prosa, teatro, até mesmo o ensaio (vários capítulos são dedicados a discutir temas filosóficos ou literários) e a dissertação técnica (a certa altura, a narrativa é interrompida para a explicação detalhada do meticuloso processo de extração da gordura das baleias), praticamente todos os gêneros literários têm espaço em suas páginas.
A ideia para o romance surgiu na cabeça de Melville depois que ele leu o relato “Narratives of the wreck of the whale-ship Essex”, de Owen Chase, a respeito do naufrágio do baleeiro Essex, no Pacífico, em novembro de 1820. Provocado pelo ataque de um cachalote macho de cerca de 26 metros de comprimento e oito toneladas, esse episódio se tornou o mais famoso desastre marinho do século XIX, tanto quanto o afundamento do Titanic no século passado. O drama dos marinheiros sobreviventes, entre os quais se incluía o próprio Chase, se tornou ainda mais agudo depois de alguns meses perdidos em alto-mar, quando a comida começou a escassear e eles tiveram de recorrer ao canibalismo para sobreviver. Essa trágica história real foi recontada, anos atrás, no best-seller “No Coração do mar”, de Nathaniel Philbrick, que serviu de base para a versão cinematográfica atualmente em cartaz. Enquanto o ataque da baleia enfurecida foi o que precipitou a tragédia na vida real, na versão fictícia de “Moby Dick” o embate do o animal com os homens constitui o clímax.
Apesar da comoção que o acidente do Essex provocou e que continuava viva na memória coletiva no momento em que “Moby Dick” foi escrito, é importante notar que a fama do romance só foi conquistada muito tempo depois de seu lançamento, ocorrido em 1851. Fracasso de público e crítica na época, a obra, originalmente publicada em três volumes, foi responsável pelo declínio artístico do autor. Melville havia desfrutado de um relativo sucesso na primeira fase da carreira, mas após esse livro a sua fama decaiu até o ponto em que, ao morrer, em 1891, estava praticamente esquecido. Tão esquecido que a notícia de sua morte mal teve espaço nos obituários dos jornais americanos.
Pode-se especular a respeito das razões da fraca aceitação de “Moby Dick” na ocasião de sua publicação, e elas provavelmente se devem mais às expectativas criadas em torno da história, que muitos imaginavam ser a aventura descomprometida e juvenil que viria a se tornar depois nas versões simplificadas para as crianças, do que pela carência de dotes literários do escritor. Tanto a crítica quanto os leitores habituais de Melville devem ter ficado bastante decepcionados ao se darem conta de que o romance nada tinha a ver com “Typee” ou “Omoo”, as suas duas primeiras obras, lançadas, respectivamente, em 1846 e 1847, e que narravam aventuras recheadas de peripécias passadas nos mares do Pacífico sul no mesmo espírito de um Daniel Defoe (“Robinson Crusoé”).
Havia, porém, um diferencial que afastava o escritor de seus antecessores literários. As suas histórias tinham um cunho de autenticidade que dificilmente encontraremos em Defoe, e a razão disso se deve ao fato de que, antes de se tornar escritor, ele havia realmente singrado os mares como marujo a bordo de navios baleeiros e chegou a passar uma temporada (algumas semanas, para ser exato) numa ilha de canibais na Polinésia francesa. Existe, portanto, um traço autobiográfico nesses relatos, observações cheias de detalhes e verismo que ele não retirou de nenhum volume enciclopédico, mas presenciou em primeira mão. Quando fala dos costumes dos nativos, é com o conhecimento de causa de alguém que esteve lá e presenciou aqueles hábitos in loco.
Mais do que a autenticidade na descrição da vida selvagem, o que essa experiência proporcionou ao futuro escritor foi um choque cultural com realidades diferentes das quais estava acostumado em seu país natal. Sobretudo no âmbito das práticas sexuais que ele manteve com as mulheres daquelas ilhas e cuja narrativa constituiu o grande atrativo de suas primeiras obras. Ao testemunhar crenças, rituais e modos de pensar absolutamente alienígenas à mentalidade ocidental, Melville passou a compreender os nativos de dentro para fora e não de fora para dentro. Começou a vê-los sem o véu do preconceito, como o outro que não é senão nós mesmos sob uma perspectiva diferente. Pode-se imaginar o impacto que essa descoberta teve em alguém até então mergulhado na estreita visão puritana da Nova Inglaterra, a região da costa leste dos Estados Unidos na qual ele cresceu e que foi o berço de importantes figuras da política e da literatura daquele país, como Henry David Thoreau e Nathaniel Hawthorne.
Hawthorne, aliás, se tornou um dos poucos colegas literários de Mellville anos depois, quando, já casado e escritor de renome, ele assentou residência em Arrowhead, Massachusetts. A amizade entre os dois foi tão estreita que Melville chegou a dedicar “Moby Dick” ao amigo e autor de “A Letra Escarlate”. Acima de tudo, a influência de Hawthorne foi determinante para que Melville aderisse ao Transcendentalismo, uma corrente filosófica americana que teve em Ralph Waldo Emerson o seu principal expoente. Basicamente, essa filosofia pregava a transcendência do indivíduo da fenomenologia do mundo físico perceptível pelos sentidos para uma consciência intuitiva superior. Para os adeptos dessa escola, o mundo era visto como a representação simbólica de uma realidade mais profunda acessível apenas pela intuição. Em essência um movimento individualista, o Transcendentalismo norteou boa parte do estilo intimista de Herman Melville e está na base da compreensão profunda de sua obra, o que inclui a épica história da caçada à baleia branca.
De fato, o livro ganha uma outra dimensão quando lido sob a luz do credo Transcendentalista, conforme definido por Emerson. O protagonista, Ismael (“Chamai-me Ismael” é, provavelmente, a abertura de um livro mais famosa em língua inglesa e uma das mais conhecidas do mundo), é a encarnação do espírito Transcendentalista em seu estilo de vida solitário, a sua apreciação pela natureza em detrimento da sociedade, o desprezo pela rotina e, principalmente, o desapontamento que sente pela humanidade. Outro indicativo de sua postura errática, de exilado no mundo, é o seu próprio nome, derivado do filho original do patriarca Abraão com a escrava Agar, no Antigo Testamento, a figura que personifica o espírito nômade e irrequieto do povo árabe, do qual é considerado o ancestral primordial. Sugestivamente, ao final do livro, é Ismael o único sobrevivente da desastrosa aventura, aquele que está destinado a narrá-la para a posteridade.
A Bíblia, a propósito, fornece ao livro muito mais do que algumas das dezenas de citações que lhe servem de epígrafe. Tanto a força de seu estilo quanto o significado profundo de suas metáforas e a dramaticidade de alguns dos episódios e diálogos possuem um sopro bíblico inegável. A maior parcela dessa energia épica que impulsiona a narrativa reside nos sentimentos de ódio e vingança que Ahab, o capitão do baleeiro Pequod, nutre pela criatura marinha que ele persegue incansavelmente pelos sete mares.
Também o nome de Ahab é derivado de um personagem bíblico, o sétimo rei de Israel apresentado no “Livro dos Reis” (em algumas versões do texto sagrado é chamado de Acab). Entender a trajetória desse monarca ajuda a iluminar alguns aspectos da personalidade sombria do capitão do Pequod. A Bíblia descreve Ahab (ou Acab), como um rei herege, que se casou com uma princesa cananeia, Jezebel, e abriu as portas de seu país para a adoração ao deus fenício Baal. De acordo com a interpretação dos escribas bíblicos, Ahab teria desafiado o próprio Deus em sua soberba e terminou os seus dias em combate com os sírios. Assim como o seu homônimo no Livro dos Reis, o Ahab de Melville é um obstinado, um homem devotado a desafiar até mesmo o Criador para realizar o seu intento de matar a baleia assassina. É nesse aspecto que “Moby Dick” revela-se muito mais profundo do que parece à primeira vista.
            Ahab é um homem amargurado, e a perna de pau que usa no lugar da que foi devorada pelo animal que persegue é a representação acabada da corrupção perpetrada pelo pecado original, da natureza humana imperfeita e incompleta, que mal consegue se enxergar como tal. Ele é um Ricardo III consumido pela própria obstinação e a sua loucura, percebe-se pelas suas falas hiperbólicas, em que se considera o diabo e o seu navio, o inferno, é a tragédia do homem que um dia pretendeu superar Deus, ou, mais ainda, que se deixou arrastar pelo próprio orgulho e cometeu o pecado supremo: ousou enfrentar a divindade em seus termos particulares e saiu derrotado do embate. Uma espécie de arremedo de Satanás, o anjo rebelde que o inglês John Milton transformou no personagem principal do poema épico “Paraíso Perdido”, outra fonte de inspiração para Melville, além da Bíblia. Um Satanás humano, ainda mais patético porque desprovido dos poderes extraordinários que possam elevá-lo acima do comum dos mortais. Pode-se ver no personagem tristemente enlouquecido em busca de uma revanche contra as forças cegas do cosmo a imagem distorcida e trágica de toda a humanidade. A sua figura desfigurada pelos próprios atos é o retrato de nossa perdição.
            Ahab é um rei cheio de soberba e o Pequod é o seu reino e também o seu mundo. Seguindo os passos de seu compatriota Walt Withman, o poeta que cantou o cadinho de raças e credos da América no magistral “Folhas de Relva”, Melville usou a metáfora do barco como microcosmo do mundo para celebrar, à sua maneira, a democracia racial que estava em gestação em sua pátria. Assim como em Whitman, “Moby Dick” é uma ode à tolerância racial, às diferenças. A bordo do baleeiro amaldiçoado, marujos de pelo menos quatro etnias compõem a tripulação: além dos americanos Starbuck, Stub e Flask, ganham relevo os arpoadores Tashtego, um pele-vermelha, Daggoo, negro africano, e o mais fascinante, intrigante e exótico de todos, Queequeeg, nativo oriundo dos Mares do Sul.
            Taciturno, alto, forte e dono de uma aura de mistério que não deixa de impressionar o jovem Ismael, Queequeeg é o contraponto do capitão Ahab. Enquanto aquele é o modelo acabado da paixão descontrolada, o nativo é a quintessência do autocontrole, do repúdio à competitividade desenfreada, e incorpora em seu corpo ricamente tatuado a união de beleza e poder que sumarizam o pensamento Transcendentalista. As tatuagens que cobrem a sua pele não apenas expressam o exotismo que marca as diferenças entre “civilizados” e “selvagens”, mas sintetizam a linguagem hermética que simboliza toda a Criação. A sua ascendência sobre o jovem Ismael e a sua personalidade imperturbavelmente resignada parecem sugerir que ele é uma espécie de anjo protetor, um enviado dos céus para resgatar a alma do marujo da perdição que aguarda os demais tripulantes do Pequod.
Além disso, a relação perturbadoramente íntima entre Queequeeg e Ismael encontra ressonância em outro aspecto da poesia de Whitman: o homossexualismo. Pode-se enxergar na amizade entre os dois personagens nada mais do que mero companheirismo masculino, desprovido de qualquer malícia, mas alguns trechos do romance sugerem que Melville pretendeu ir além do que permitia o estreito moralismo de sua época (e até da nossa). Poucos livros, mesmo hoje em dia, ousaram ir tão longe quanto “Moby Dick” no homoerotismo. A propósito, vale a pena mencionar aqui duas passagens do livro bastante sintomáticas: “...não há lugar como uma cama para revelações confidenciais entre amigos (...) Assim, na lua-de-mel de nosso coração, repousamos Quequeeg e eu – uma dupla aconchegada e afetuosa” e “Ficamos deitados na cama, proseando e cochilando a curtos intervalos, e Queequeeg de vez em quando passava delicadamente a perna morena e tatuada por sobre a minha, retirando-a a seguir, tão inteiramente sociáveis, sem cerimônia e à vontade estávamos (...)” (Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos).
            Há um outro aspecto em Queequeeg que pode parecer extremamente moderno aos olhos do século XXI. Trata-se da sua atitude de reticente desaprovação à agressividade contra a natureza perpetrada pelos marujos. Talvez seja exagero catalogar esse comportamento como uma preocupação por causas ambientais avant la lettre do escritor. Isso até pode estar presente nas considerações de Melville, mas o que parece mais em evidência aqui é a sua crítica contra a matança indiscriminada das baleias para fins puramente mercantis. Nunca é demais lembrar que, antes do uso dos combustíveis fósseis, a gordura retirada daqueles animais é o que movimentava a economia americana, que tinha na atividade baleeira a sua maior fonte de renda. O autor parece estar bem atento a isso, a ponto de descrever o Pequod como uma indústria de extração do produto em pleno alto-mar. Se existe uma condenação da parte dele, é contra os abusos do capitalismo explorador.
            Nem paraíso nem inferno, mas o território em que se travam as batalhas pelo espírito humano, o baleeiro é a chave para se entender “Moby Dick” como uma parábola cristã a respeito do destino do homem na existência terrena. Na visão Transcendentalista de Melville, o Pequod seria o mundo em que Ismael, o errante, como representação de todos nós, se vê atraído ora para um lado, ora para o outro entre o cabo de guerra formado pelas forças antagônicas e mutuamente excludentes do bem (Queequeeg) e do mal (Ahab).
            Se assim é, então o personagem principal do livro, a imensa, majestosa e enigmática baleia branca não seria outra coisa senão a metáfora de Deus, ou do cosmo. Seguindo essa linha de interpretação, então o Deus de Melville nada tem da benevolência ou da piedade da Providência divina que nos acostumamos a ouvir nos sermões proferidos nos púlpitos das igrejas. O tamanho da baleia evoca a vastidão da Criação e do próprio Criador, que se confundem num único ser. O seu poder advém de sua capacidade em se ocultar nas profundezas dos abismos aquáticos e emergir subitamente, sem o menor aviso, imprevisível, no mundo visível e fenomenológico. A brancura do animal evoca a infinidade e a onipresença de Deus e também a sua perfeição, ao mesmo tempo em que, do ponto de vista moral, parece simbolizar não tanto a sua imaculada bondade, mas a fria indiferença pelos destinos humanos. A sua inefável consciência, se é que possui alguma, é o grande mistério do universo e o que perturba Ahab. Em última instância, é o desejo do capitão em devassar esse mistério que o conduz e a todos os tripulantes do Pequod, com exceção de Ismael, à perdição.
            Assim, além de um conto moral sobre o bem e o mal e o lugar do homem no mundo, “Moby Dick” é, à sua maneira, um alerta e um aviso. Da mesma forma que o marinheiro cego que, no porto de Nantucket, lança uma profecia catastrófica aos marinheiros do baleeiro (personagem claramente baseado no Velho do Restelo, de “Os Lusíadas”, de Camões, outra das grandes influências literárias do livro além da Bíblia, Homero, Shakespeare e Milton), Melville aponta para o perigo de nos deixarmos levar pela soberba do conhecimento. A ciência e a indústria humanas, sugere ele, não devem tentar desvendar o enigma do Criador. Como o nome do Yahvé bíblico indica, Ele é o que é, uma força impessoal e com desígnios próprios, que homem nenhum, em nenhuma época, será capaz de devassar.


                 

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