e Confira a versão integral do conto "Recordações de um ancião de 1 milhão de anos" ~ Diário do Moretti
Facebook

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Confira a versão integral do conto "Recordações de um ancião de 1 milhão de anos"




RECORDAÇÕES DE UM ANCIÃO DE 1 MILHÃO DE ANOS

Por Marco Moretti

“Não devemos permitir que o relógio e o calendário nos ceguem para o fato de que cada momento da vida é um milagre e um mistério”
H. G. Wells

"Cronos devorando os filhos"
Óleo sobre tela do pintor espanhol Goya
Fonte: Wikipedia

 “MANÍACO PODE TER MATADO MAIS DE 150 MULHERES
NO INTERIOR DO ESTADO”

“VOTAÇÃO NA CÂMARA DOS DEPUTADOS DERRUBA PROPOSTA DE REGULAMENTAÇÃO DA CORRUPÇÃO”

“INFLAÇÃO NO SEGUNDO TRIMESTRE DO ANO RECUA
E FICA EM 35%”

            As chamadas do jornal eram tão bombásticas ou tão corriqueiras quanto as de qualquer outro dia, mas, mesmo assim, Isaac Klein se refugiou em sua carranca de mau-humor e de cenho franzido quando as leu. Travou um longo debate consigo mesmo, pontuado aqui e ali de resmungos inaudíveis, e acabou por imprecar com a voz rouquejante contra o governo, a sociedade liberal e o Deus compassivo que deixavam coisas assim acontecerem. Parecia acreditar que o mundo conspirava para fazer de sua vida um local miserável, e tinha pouca paciência para o tipo de condescendência que havia à solta. Se tudo era permitido, reclamava, então é porque ninguém mais se importa com nada. Já tinha oito décadas e meia nas costas encurvadas para reconhecer de longe os culpados pela degradação, pela decadência de costumes que, a seu ver, estavam fadados a conduzir o mundo festivamente em direção ao caos. Nem sequer durante o café da manhã parava um instante de se preocupar com a corrosão dos valores morais que flagrava não apenas nas páginas dos jornais ou nos noticiários da tevê e do rádio. Podia identificar esse processo ali mesmo, a poucos metros de seu mirrado apartamento, nas calçadas sujas e apinhadas de viciados em crack em torno do Largo do Arouche, no centro da cidade. O que faziam (ou deixavam de fazer) as autoridades que não cuidavam dessa gente? Por que não tratavam de tirá-las daquele estado? Qual a razão para não levá-las a algum lugar? Dar-lhes um destino decente?
            Esse era o assunto recorrente em suas conversas diárias com o dono da padaria, com o proprietário do açougue, com os clientes da farmácia, com os vizinhos no mercadinho lá da esquina e, sobretudo, consigo mesmo. Com frequência, frustrava-se ao perceber que a sua indignação não encontrava eco entre as pessoas e, às vezes, duvidava se elas estavam sendo sinceras em prestar atenção aos seus queixumes ou o faziam por mera educação.
            - É assim mesmo que as coisas são, seu Klein – disse a dona Odete, a caixa do mercadinho – O que é que a gente pode fazer? Se não tem como mudar, então o jeito é se conformar.
            - Mas não vê que esse é justamente o problema? – redarguiu ele, cofiando nervosamente a vasta barba branca que lhe dava a aparência de um patriarca bíblico – Se nós continuarmos a cruzar os braços, a situação só vai piorar. Ou a senhora acha que vamos conseguir melhorar algo ficando quietos no nosso canto?
            - E o que é que o senhor sugere? Olha, eu faço a minha parte, pago os impostos e trabalho honestamente. Quem tem de resolver isso é o governo, são os políticos. Não é pra isso que a gente vota neles?
            - Pois sim. Vá depender dessa laia – indignou-se o velhote – Na minha época, as pessoas participavam ativamente da vida pública, eu mesmo era mais combativo do que muitos desses jovens que andam de ferrinhos enfiados no nariz e tatuagens nas nádegas – fez uma expressão de desprezo que pretendia abranger o planeta inteiro.
            - É, mas o senhor deve entender que os moços de hoje pensam diferente.
            - Não pensam, a senhora quer dizer. Se pensassem, essa roubalheira toda já teria acabado. Antigamente, se um senador fosse apanhado desviando dinheiro de empresa pública, ia para a cadeia sem choro nem vela, disso não tenha dúvida a senhora. Se nem o Getúlio escapou... Ele acabou se matando para fugir da Justiça, não lembra?
            - Eram outros tempos, seu Klein. Não adianta comparar. O mundo mudou muito, será que não percebe?
            - É, mudou, sim... – limitou-se a retrucar o homem enquanto apanhava o saco de papel com as compras e ganhava as ruas sem ao menos despedir-se, quase apoplético de irritação, os grandes olhos azuis injetados.
            Era um mistério por que ele ainda perdia tempo discutindo esses assuntos. Ninguém dava ouvidos mesmo. “Lá vem o velho judeu com aquela conversa chata de corrupção e violência”, deviam pensar quando o viam se aproximando. Talvez a dona Odete tivesse razão. Talvez o melhor a fazer era recolher-se à sua bolha de raiva e guardar para si as opiniões, evitar os comentários sobre certas coisas, resignar-se a deslizar pelas sombras das paredes, invisível. As pessoas já não entendem, não há o que conversar com quem não viveu em épocas promissoras. “É, é uma pena que as coisas sejam assim, minha Berta”, lamentava-se o Sr. Klein diante da fotografia colorida da falecida colocada em um porta-retratos de madeira envernizada sobre o aparador da sala de jantar. “Quando nós éramos jovens, quando tudo parecia mais simples e cheio de esperança”, devaneou, “nenhum problema era grande o bastante, nenhuma ameaça realmente perigosa...” - refletiu, para, logo em seguida, corrigir-se – “Exceto, claro, a Grande Tragédia. Aquilo, sim, deu medo. Até hoje sinto calafrios quando penso no que sucedeu com os nossos pais, irmãos e tios nos campos de extermínio. Um desperdício, um triste desperdício...”
            Depois de quedar um minuto ensimesmado, arrancando do poço do passado as lembranças dolorosas da época da Grande Guerra em sua terra natal, deixou escapar um suspiro de alívio, e, voltando a erguer os olhos para o rosto de sua bela esposa, que pareciam fitá-lo de um momento de idílica felicidade poucos anos antes, exclamou:
            - Mas a verdade, Berta, é que os tempos de agora estão piores. Quando os soldados do assassino chegaram a Gdansk, não houve quem não se mobilizasse, quem não aderisse à resistência. Pensem o que quiserem daquela época conturbada, as pessoas eram qualquer coisa menos apáticas. Éramos jovens, mas tínhamos sangue nas veias, os velhos, fibra para reagir, as mulheres, obstinação para encorajar os maridos. Nada mais diferente do que a gente vê por aí hoje.
            Depois de refletir detidamente nesses assuntos, o ancião silenciava depressivo, e assim continuava nos dias seguintes, enfurnado entre o mundaréu de recordações dos anos idos que abarrotavam o apartamento e que iam de velhas peças de mobiliário já em estado bastante adiantado de deterioração a estatuetas de gesso e bronze e antiguidades de toda ordem. É como se ele não quisesse arredar o pé do passado, ou, o que vinha a dar na mesma, se recusasse a aceitar o presente do jeito que ele se apresentava, com todas as suas imperfeições. O crepúsculo da existência o levava a crer que até os piores momentos de antigamente eram menos nefastos do que a realidade atual. Não se cansava de se comportar como um E.T. oriundo de uma galáxia distante, para quem tudo era estranho e sem sentido, e nem se dava conta de que ele também fazia parte desta época. De qualquer forma, esse passado idílico a que ele teimosamente se aferrava era pouco mais do que uma miragem, uma alucinação meticulosamente construída numa vida inteira de sacrifícios e que possuía tanta verdade quanto uma gravura num livro de contos árabes das mil e uma noites.
            Essa desconfiança tácita com tudo o que representasse a modernidade chegava às raias do absurdo, a ponto de ele se recusar a “compactuar com as novidades”, como se referia às inovações tecnológicas, aos computadores, tablets, celulares e outras geringonças. Via com desconfiança essas invenções e reagia a elas agarrando-se desesperadamente aos modos de ser de outrora. O uso de cartões magnéticos nos caixas dos bancos era a espécie de coisa que ele se negava peremptoriamente a usar. A leitura dos jornais em papel era outro exemplo. Para o Senhor Klein, isso representava antes um gesto de resistência do que a teimosia tola de hábitos arraigados. Jurou de si para consigo que, enquanto vivesse, permaneceria fiel aos seus princípios, mesmo se todos os demais os abandonassem e ele permanecesse sozinho empunhando a bandeira tremulante da tradição no campo de batalha. “Tanto pior para o resto do mundo”, dava de ombros, inchado de indignação, enquanto mexia com dificuldade o corpanzil pesado para apanhar o “Estado” jogado por debaixo da fresta da porta.
            - Malditos sejam! – exclamou, mal pousou os olhos na primeira página.
            Tanto quanto as inovações tecnológicas, o aborreciam as ligeiras alterações naquilo com que havia se acostumado há décadas. A mudança na grafia das palavras fazia parte dessa estirpe. Assim que leu as letras garrafais da manchete, conteve-se para não ter um AVC ali mesmo, no centro da sala de estar.

“GOVERNO BAIXA DECRETO-LEI PARA CONTER
AUMENTO DAS CONTAS TELEPHÔNICAS”

            Que história era essa de escrever “telephônicas” com “PH”? Isaac Klein já nem se lembrava quando isso tinha caído em desuso. E, se alguma dúvida restasse de que se tratava de um erro de digitação, o texto que se seguia repetia a grafia antiquada pelo menos uma dúzia de vezes também em outras palavras e expressões.
- Onde já se viu, eu não pago a assinatura deste jornal para ler um texto com erros de português. Eles vão ouvir só... – tartamudeou o velho, ao mesmo tempo em que apanhava o telefone (com “F”) do gancho. Quando estava prestes a fazer a ligação, parou, estupefato, as grossas sobrancelhas brancas arqueadas quase até o cocuruto. Olhou desconfiado para o aparelho, daqueles pretos, de baquelite, de discar e não de teclar, de um modelo que não se usava há pelos menos uns 20 anos. O bocal também era do tempo da vovó, com aqueles furinhos de um lado e as três hachuras pequenas do outro.
Desconfiado, voltou a por o bocal no gancho, como alguém que procura se livrar o mais depressa possível de uma coisa incômoda. Arrastou a cadeira para trás até bater com o espaldar na cristaleira. O móvel sacudiu inteiro, os copos e taças tilintaram no interior. A poncheira, um presente de casamento que herdou de um tio em anos melhores, balançou perigosamente. Havia algo estanho nela, quase imperceptível, diferente do habitual, um detalhe que o Senhor Klein não se daria conta senão dali a alguns dias.
Espanou os pensamentos confusos com um menear de cabeça. Aqueles indícios tanto podiam significar muita coisa, quanto podiam nada significar. Uma preocupação, porém, persistiu em martelar a sua mente cansada. Temia que a sua prodigiosa memória houvesse, enfim, sucumbido ao peso da idade. De um momento para o outro, já não tinha confiança nos próprios juízos. “O que será de mim se eu começar a confundir as coisas? Se já nem posso acreditar no que os meus olhos dizem... Mas há um jeito de tirar isso a limpo...” Apanhou de novo o jornal e conferiu a manchete. Lá estavam eles, os “PHs” e as grafias antigas, as pontuações superadas.
A dúvida se algo muito esquisito estava ou não ocorrendo se converteu em certeza horas depois, quando ele foi ao mercadinho comprar um saco de açúcar. Ao passar pelo caixa, notou, talvez pela primeira vez, no cabelo de dona Odete. Achou curioso que ela o tivesse tingido de preto, atenuando os tons grisalhos que lhe acentuavam a maturidade. Fez menção de elogiá-la, mas resignou-se a cumprimentá-la com um sorriso tímido, talvez inseguro de que a sua intenção passasse mal-compreendida. Somente mais tarde lembrou-se de um elemento importante, que o penteado em coque ajudou a escamotear: dona Odete costumava usar o cabelo num corte bem curto, isso há muito tempo, e agora, de um dia para o outro, ele voltou a ficar comprido, tão farto quanto o de uma mulher uns 10 ou 20 anos mais nova.
Poderia passar o resto da solitária existência na vã tentativa de decifrar aquele enigma, mas poupou-se do esforço. Fosse o que fosse que tivesse acontecido com a caixa do supermercado, não era do seu governo. Não entendia dessas coisas direito, mas era vivido o bastante para saber que as mulheres costumam ter os seus segredos. No que lhe dizia respeito, ela tinha remoçado um bom naco de tempo e realmente parecia jovial e até sensual. O velhote corou ao flagrar esse pensamento, conquanto fosse impossível evitá-lo. No dia seguinte, arranjou para si mesmo uma desculpa para voltar ao mercadinho várias vezes, e pegou-se admirando os atributos gradualmente crescentes de dona Odete. Não fazia ideia do que estava acontecendo, mas apreciava aquilo.
Uma vaga sensação de familiaridade emanava dessa situação. O nome apropriado talvez seja “déja vu”, embora essa expressão estivesse longe de conter a pesada carga de contradições que o Sr. Isaac Klein se esforçava para afastar da mente. Contradições essas que vinham se tornando a cada manhã que passava mais e mais aparentes, como o vidro de maionese guardado na geladeira que ganhou um rótulo “retrô” ou o aparelho de televisão em estilo “vintage”, de tubo com botões analógicos, que o surpreendeu tarde da noite. E foi ao sintonizá-lo no canal que costumava assistir todo dia que a sensação de “déja vu” ganhou contornos surreais.
A notícia sobre o atentado aos atletas israelenses na Olimpíada de Munique, na Alemanha, chamou a sua atenção principalmente por se referir a fatos sucedidos muitos anos antes. Ele não conseguia se recordar dos detalhes da ocorrência, como os nomes de pessoas, o número de vítimas e coisas assim, mas guardava vividamente na lembrança o fato em si, o terrível acontecimento em que a delegação de Israel foi dizimada por um ataque de terroristas. A princípio, imaginou tratar-se de uma espécie de retrospectiva, mas o acúmulo de informações transmitidas no tom atropelado de urgência e de indisfarçável alarmismo assustaram essa possibilidade. Além disso, como logo descobriu ao girar o seletor de canais, a mesma notícia merecia destaque nos demais telejornais. “Pode ser que seja outro atentado, que uma nova matança tenha ocorrido”, conjecturou, embora entendesse o suficiente de probabilidades para saber que esse tipo de situação não costuma se repetir, de qualquer maneira, não com essa exatidão. E havia outra peculiaridade.
- As imagens, essas cenas de desespero, de correrias, de gente morta sendo carregada... são exatamente iguais às da outra vez.
Tão iguais, poderia acrescentar, que ele teria dificuldade em distingui-las. Era capaz de reconhecê-las até mesmo pela filmagem tremida, pela baixa definição com que eram exibidas e que o Sr. Klein demorou alguns instantes para atinar com a razão. Com uma expressão de profundo assombro, a boca entreaberta, as pupilas exageradamente dilatadas, constatou com a razão o que a intuição vinha sussurrando ao pé do ouvido. Aquele não era o seu aparelho de televisão, não o que tinha comprado há cerca de dois anos.
Explicar esse e os outros fatos inusitados que vinham se sucedendo em ritmo cada vez mais vertiginoso era uma tarefa que estava além da compreensão simples do pobre homem. Por isso, ele preferiu encarar as coisas pelo seu valor de face. Devia estar tendo alucinações, quem sabe era o Mal de Alzheimer afetando o cérebro... Sempre temeu que algo dessa ordem pudesse acontecer com ele, embora acalentasse a esperança de que a morte o levaria antes que esse momento chegasse. Mas a sua altiva turronice não permitiria que entregasse os pontos assim, de graça, sem lutar com afinco e os punhos cerrados.
Saiu para a rua tomado por um misto de perturbação e irritação. Perambulou meio sem rumo, movendo o corpanzil pesado em meio aos pedestres. Ensimesmado, ruminando as emoções entrecortadas que assolavam o peito, custou a reparar por onde ia. Por sorte, um Aero Willys que vinha em velocidade considerável não o acertou em cheio quando atravessava descuidadamente a avenida São João.
- Presta atenção, velho! Quer morrer mais cedo, é? – berrou o motorista tirando a cabeça para fora da janela.
De fato, ele estava absorto demais em seus anseios para se dar conta de que aquele era um Aero Willys muito conservado para ter 50 anos de existência. Aquele modelo, vermelho com capota branca, já havia saído de linha há eras, disso tinha certeza. Permaneceu em pé, parado no meio do asfalto, atravancando o trânsito, enquanto refletia nesses e em outros detalhes. Um troar de buzinas impacientes inundou os seus ouvidos cansados, mas a perplexidade o impediu de esboçar a mínima reação. Não só o carro que quase o atropelou, mas todos os outros, os DKWs, os Gordinis, os Sincas eram antigos, muito antigos, dos idos de 1960 ou antes. E, não deixou de notar, estupefato, estavam novinhos em folha, como se tivessem acabado de sair das fábricas. Além disso, havia os ônibus, aqueles com o motor dianteiro, pintados de amarelo, e os táxis, robustos coupês Fords 51.
Foi necessário que um guarda o puxasse para a calçada para que Isaac Klein voltasse a si.
- Algum problema, meu senhor? Precisa de ajuda? Posso chamar uma ambulância se quiser.
- Hein? Hã... n-não, não precisa, não – balbuciou o ancião, lançando um olhar confuso ao redor, tomado da bizarra sensação de que não sabia onde se encontrava. Ou, melhor, de quando se encontrava. Possuído por extrema apreensão, afastou-se, a passos rápidos. No caminho, deparou com uma profusão de anacronismos. Começou a reparar nas roupas que as pessoas usavam, nos ternos de cortes fora de moda, nas camisas lisas, sem estampas, com abotoaduras nos punhos, nos chapéus, sobretudo nos chapéus, tanto de homens quanto de mulheres, pretos, marrons, de feltro com bandas acetinadas. Os penteados das senhoritas, com altos coques e presilhas prateadas nas laterais, fizeram-no lembrar-se de sua querida Berta, não a venerável senhora dos últimos anos, mas a bela mocinha da época em que se conheceram, logo depois da Segunda Guerra. Até nos sapatos engraxados com esmero percebia um hábito há muito desaparecido dos nossos cotidianos. E desde quando não via crianças com roupas de marinheiro? Sentiu no ar um odor ao mesmo tempo familiar e estranho, de origem indefinida, que ele teve dificuldade em identificar a princípio, até que se lembrou de um tempo, quando ainda possuía cabelos escuros e andava aprumado, em que os rapazes gostavam de fumar Gitanes sem filtros. “Mas eu nem sabia que eles continuavam a ser produzidos...”, pensou.
Quis o acaso ou o inconsciente que o Sr. Klein dirigisse os passos até o mercadinho na esquina de sua casa. Mal esquadrinhou o lugar, notou profundas mudanças nele. Primeiro, o espaço parecia menor, um abarrotamento confuso de mercadorias. Depois, as prateleiras eram diferentes, de madeira envernizada, não de metal, e ofereciam somente frutas e verduras. Tampouco reconheceu as máquinas registradoras, uns trambolhos mecânicos. O que era ainda mais surpreendente, já que não fazia tantos dias assim que por lá passara. Acima de tudo, porém, uma incômoda ausência se fazia sentir.
- Onde está a dona Odete? – quis saber o ancião.
- Desculpe, não há ninguém com esse nome – respondeu o homem que cuidava do caixa.
- Como não? Ela trabalha aqui, para vocês. É caixa faz tantos anos que já nem sei quantos...!
- Eu sou o único caixa deste lugar, meu senhor, e, além disso, eu saberia se houvesse alguma funcionária com esse nome, afinal, também sou o dono. Isso desde que eu abri esse negócio há uns vinte anos.
- Ela era alta, tinha olhos pretos, os cabelos eram arrumados desse jeito – fez uma patética tentativa de desenhar com gestos o penteado de dona Odete.
- Acho que o senhor se enganou de endereço – limitou-se a responder o sujeito.
- Não, absolutamente. Eu não poderia ter me enganado. Sempre venho aqui. Uma vez por semana, pelo menos. Não está me reconhecendo? Sou o Senhor Isaac Klein. Eu moro logo ali, naquele prédio marrom no meio do quarteirão... – o velho suspendeu a frase no meio, tomado de um súbito temor. Desviou o olhar na direção do edifício onde residia, a cerca de 50 metros dali. O fato de que a construção continuava no lugar de sempre não arrefeceu a preocupação que palpitava em seu peito. Deixou o homem do mercadinho falando sozinho e correu, o mais rápido que lhe permitiam as pernas gordas e cansadas, para lá.
Chegou ao prédio arfando, o peito ardendo, e entrou sem cerimônias no elevador.
- Qual andar, senhor? – perguntou o ascensorista, um rapaz de uns 20 anos, trajando quepe e um uniforme azul escuro engalanado.
Ascensorista? Desde quando havia ascensorista no condomínio? Foi então que ele prestou atenção no elevador. Definitivamente, não era o mesmo que estava acostumado a descer e a subir. Assemelhava-se, isso sim, a um cenário de filme antigo, com paredes guarnecidas de madeira lustrada, detalhes em bronze nas entradas de ar e portas pantográficas. E o moço, a sua forma de vestir, a recatada polidez. Estava tudo errado, fora de lugar. Aquilo não pertencia ao mundo moderno. Tratava-se de uma relíquia de outros tempos, mais solenes e civilizados. O Sr. Klein, que já suspeitava de um engodo, balbuciou palavras incompreensíveis e recuou de volta para o saguão, incrédulo, assustado. Olhou nervoso para o porteiro, para o lustre de cristal que rebrilhava aos últimos raios do entardecer sobre a sua cabeça, para o piso de mármore negro. Escalou os degraus da escada até o primeiro andar com a velocidade e a agilidade que a idade avançada lhe permitiam.
Adentrou esbaforido no apartamento, as mãos trêmulas, o suor frio escorrendo pelo rosto e empapando a barba farta, o generoso ventre chacoalhando de comoção. Era difícil distinguir alguma coisa na penumbra, mas podia pressentir que havia alguma coisa errada. Um não sei o que fora de lugar, de algo que não devia estar ali, mas estava. Foi até as janelas e, num gesto enérgico, decisivo, descerrou as cortinas. A luminosidade embaciada da tarde de primavera revelou um ambiente radicalmente diferente daquele que ele conhecia. E o que viu o deixou estarrecido.
Um sofá de quatro lugares de tecido marrom escuro dominava grande parte da sala de estar. No canto, uma mesinha de madeira entalhada com esmeradas volutas e adornos que imitavam folhas de parreiras sustentava um abajur em estilo art nouveau. Do outro lado, próximo à janela, um aparador com um vaso chinês e um porta-retratos de ferro em cima contribuíam para dar um ar menos solene ao conjunto. No porta-retratos, a fotografia em preto e branco de Berta, no auge da beleza e da espontaneidade. Bem à frente do móvel, estava disposta uma poltrona semicircular, de cor creme e encostos altos e, diante dela, um pesado e volumoso aparelho de rádio, daqueles que já não se fazem mais, com portas de correr e um dial grande e bastante démodé. Tudo perfeitamente arranjado, perfeitamente disposto, muito apropriado para um lar da década de 1930. O televisor não existia, assim como o relógio à pilha da parede ou qualquer outro objeto com menos de 80 anos.
A única peça do mobiliário que não havia mudado era a cristaleira. Ainda exibia no interior, orgulhosa, as taças de vinho, os ovos Fabergé, as travessas de sopa e, é claro, a poncheira. Com a cautela de um antiquário, o Sr. Klein encostou o nariz na porta de vidro para analisá-la detidamente. As formas geométricas traçadas em baixo-relevo na superfície de cristal, as curvas suaves na base e o conjunto em impecável estado asseguravam-lhe que se tratava do mesmo objeto que merecera privilegiado destaque entre as suas muitas preciosidades. Contudo, o pobre homem não pode deixar de reparar num detalhe importante. A rachadura de umas três polegadas de alto a baixo provocada por um descuido de Berta e que, durante anos, a poncheira ostentara visivelmente, tinha simplesmente se esvanecido. Ou isso se devia a um improvável reparo, ou a um acontecimento de impossível explicação. Ele preferiu ficar com a segunda hipótese.
Nisso, os seus ouvidos captaram um chiado muito baixo, quase inaudível, vindo de algo imediatamente às suas costas. Em câmera lenta, como se estivesse preso a um pesadelo do qual não tinha forças nem esperança de escapar, Isaac Klein virou-se na direção do rádio. Deslizou com vagar até a poltrona e hesitou um instante que tanto pareceu durar uma década quanto uns meros segundos antes de girar o botão de volume do aparelho. Nas coxias da mente, sabia o que iria escutar e tinha medo. Apesar disso, não conseguia evitar o poderoso impulso em direção ao abismo, em tudo semelhante à instintiva vontade que faz as mariposas mergulharem num voo suicida rumo à lâmpada de uma arandela. Venceu o irresistível apelo da curiosidade.
Com os dedos nervosos, aumentou o volume. A voz metálica, quase apagada, de um locutor ansioso, derramou das caixas de som. Parecia provir de uma fenda esquecida no passado longínquo, mas não foi exatamente ela e sim o conteúdo do que dizia que provocou um arrepio na espinha do Sr. Klein.
- O chanceler Adolf Hitler assinou hoje em Nuremberg o Decreto de Pureza Racial “ariana”. De agora em diante, ninguém que seja declarado não-ariano ou judeu poderá casar ou manter contato sexual com alemães “puros”. Os analistas internacionais se perguntam até que ponto irá a política racista do Sr. Hitler. Onde ele pretende chegar com isso? Onde?

11 de abril de 2015


0 comentários:

Postar um comentário

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Blogger Templates