e Confira a versão integral de "O Conde que se recusa a morrer", a resenha crítica do livro "Drácula", de Bram Stoker ~ Diário do Moretti
Facebook

domingo, 1 de março de 2015

Confira a versão integral de "O Conde que se recusa a morrer", a resenha crítica do livro "Drácula", de Bram Stoker





O CONDE QUE SE RECUSA A MORRER

Por Marco Moretti

O ator Christopher Lee como Drácula - Fonte: Wikipedia

            O personagem da literatura de terror mais popular de todos os tempos talvez deva o seu surgimento a uma ceia mal digerida, para tomar emprestado uma frase lapidar de Charles Dickens. Assim como ocorreu com dois outros monstros ilustres do século XIX, o de Frankenstein, de Mary Shelley, e o Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, o embrião do que viria a ser o romance “Drácula” ocorreu ao escritor irlandês Bram (corruptela de Abraham) Stoker (1847-1912) numa agitada noite de pesadelos. Por volta de março de 1890, Stoker sonhou com três mulheres sensuais que o submetiam aos seus desejos e investiam sobre ele para chupar o seu sangue num festim ao mesmo tempo diabólico e erótico. A cena atingia o clímax com a súbita aparição de uma figura imponente que gritava: “Esse homem pertence a mim!”. Não se sabe ao certo se ele teria ficado impressionado pela cena das bruxas de uma recente montagem de “Macbeth” no Lyceum Theater, de Londres, onde trabalhava como assistente do lendário Sir Henry Irving, um ator shakespeariano de grande renome na época, mas o fato é que a imagem ficou tão profundamente gravada em sua memória que posteriormente ele a transpôs, praticamente inalterada, para uma das passagens de maior impacto de seu livro mais famoso, quando o corretor de imóveis Jonathan Harker, na primeira noite que passa no soturno castelo do conde bebedor de sangue, é assediado por um trio de belas vampiras.           
            Entretanto, até ganhar a forma escrita, o vívido pesadelo de Bram Stoker teve de esperar no limbo de sua memória por sete longos anos, durante os quais a imaginação do autor municiou-se de todo o tipo de influências culturais, históricas e literárias a respeito do tema do vampirismo. Em primeiro lugar, é preciso ter em mente que “Drácula” não foi o primeiro trabalho literário a tratar do assunto. Muitos anos antes, outros escritores já o haviam abordado com resultados mais ou menos satisfatórios. Só para ficarmos na literatura de língua inglesa, já nos idos de 1797 o poeta Samuel Taylor Coleridge dedicou um poema ao assunto, “Christabel”. O próprio Lorde Byron, um dos ícones do romantismo, produziu um poema sobre vampiros no início do século XIX. De certa forma, Byron também esteve envolvido na gênese da primeira obra de vulto sobre o assunto que se tem notícia.
A mesma noite fatídica e tempestuosa do verão de 1816 em que ele, o seu amigo e parceiro de poemas e orgias Percy Bysshe Shelley, a companheira deste, Mary Wollstonecraft Shelley, a meia-irmã dela, Claire Clairmont, e um jovem médico, o Dr. Polidori, estavam refugiados na Vila Diodatti, uma casa às margens do Lago Genebra, na Suíça, assistiu ao surgimento de dois dos mais emblemáticos personagens da literatura e do futuro cinema de terror. Naquela madrugada, Mary Shelley teve o sonho que a inspiraria a criar o romance “Frankenstein ou O Prometeu moderno”, lançado dois anos depois. Também na mesma ocasião Polidori teve a inspiração para escrever um conto intitulado “O Vampiro”, que só sairia do prelo em 1819, no “New Monthly Magazine”, como sendo de autoria de Lorde Byron, e não de Polidori. Como se sabe, a obra de Mary Shelley conquistou sucesso imediato, que perdura até hoje, enquanto a de Polidori conheceu uma fama apenas relativa e limitada, que seria tragada décadas depois, quando Stoker se baseou nela para produzir “Drácula”. Talvez a maior contribuição de “O Vampiro”, a primeira obra em prosa a ter um vampiro como protagonista, tenha sido mesmo estabelecer alguns dos cânones que mais tarde se cristalizariam em torno do vampirismo. Como o personagem de Stoker, o bebedor de sangue de Polidori é um nobre (escocês, em vez de valáquio), Lorde Ruthven, mas o tom geral de “O Vampiro” é mais romântico, de uma mórbida sensibilidade byroniana, como era a moda na ocasião, em vez de soturno e tétrico.
Antes de se tornar uma espécie de precursor de “Drácula”, o trabalho de Polidori serviu de inspiração para uma obra de maior fôlego, a história serializada “Varney, o Vampiro, ou O Banquete de Sangue”, publicada entre os anos de 1845 e 1847 em revistas baratas de horror gótico conhecidas com a alcunha pejorativa de “penny dreadfuls” (as pulp fictions inglesas, que custavam 1 penny, daí o nome). Mais ainda do que “O Vampiro”, “Varney”, reunido em forma de livro já em 1847 (um cartapácio com quase 900 páginas), o mesmo ano em que Stoker nasceu, ajudou a consolidar no imaginário popular os principais aspectos envolvendo a figura dos vampiros. É impossível não notar os paralelismos entre esse livro, escrito por um certo James Malcolm Rymer (ou Thomas Preskett Prest, segundo algumas fontes), e a obra do escritor irlandês, a começar pela origem nobiliárquica do leste europeu do personagem-título e a trama rocambolesca passada em várias localidades da Europa. Contudo, a influência desse romance foi muito mais decisiva do que se pensa. A nossa imagem moderna dos vampiros é tributária das presas pontiagudas do protagonista, do caráter sedutor do personagem, de seus poderes hipnóticos e de sua força sobre-humana.
Mas o subtexto erótico (e até homossexual), hoje tão comumente vinculado às histórias de vampiros, só se tornaria explícito a partir de “Carmilla”, o romance do conterrâneo de Stoker, o irlandês Sheridan LeFanu, que causou furor na Inglaterra vitoriana quando lançado pela primeira vez em 1871 em forma serializada. Mais de 25 anos antes de “Drácula”, LeFanu contribuiu para ampliar o escopo do tema, enraizando-o no folclore medieval do leste europeu, para isso baseando-se em um tratado do pároco francês Dom Augustin Calmet, escrito um século antes, a respeito das aparições de anjos, demônios e espíritos na Hungria e terras adjacentes.
É improvável que Bram Stoker não tivesse conhecimento da obra de LeFanu, assim como é quase certo que saqueou descaradamente algumas ideias de “Varney” e de “O Vampiro” para construir a sua obra-prima. Entretanto, as fontes de inspiração de “Drácula” vão além das referências literárias. Em agosto de 1890, o mesmo ano em que tivera o seu fatídico pesadelo com o trio de sensuais vampiras, Stoker passou um feriado em Whitby, uma cidade portuária em Yorkshire, um condado do nordeste da Inglaterra. De diversas maneiras, essa localidade está profundamente interligada à criação de “Drácula” e até mesmo parte do enredo do livro se passa ali. É num promontório da região que pela primeira vez encontramos Mina Murray (mais tarde, depois de se casar, mudaria o sobrenome para Harker) e sua amiga, Lucy Westenra. É lá, também, que o conde, em forma de um enorme cachorro, pisa pela primeira vez em solo inglês.
Bram Stoker, o criador do romance "Drácula" - Fonte: Wikipedia
Entre as suas muitas particularidades, Whitby possui um cemitério próximo da igreja anglicana de St. Mary, onde o escritor gostava de passear, anotando num caderninho os nomes inscritos nas lápides. Trata-se do mesmo local em que Lucy é atacada pelo vampiro no romance. A cidadezinha era também famosa na época pelas histórias de naufrágios. Um desses relatos em particular parece ter impressionado vivamente o autor, que o teria ouvido da boca de marinheiros. Cinco anos antes, em meio a um tufão, a escuna russa Dimitri havia rumado diretamente para a praia com as velas enfunadas. Anos depois, ao escrever o seu livro, o escritor arrumou um jeito de encaixar essa história na trama, fazendo com que a tripulação do navio Deméter fosse dizimada pelo conde Drácula, que estava sendo levado a bordo, e tivesse o mesmo destino de sua contraparte real.
O mais importante fato a respeito de Whitby, entretanto, é que foi ali, mais precisamente em alguns livros da biblioteca local, que Bram Stoker tomou conhecimento, pela primeira vez, das lendas que circulavam na Europa oriental em torno do vampirismo. Num volume a respeito dos principados da Valáquia e da Moldávia, ele fez uma descoberta que se revelaria determinante: o significado do próprio termo “Drácula”, “demônio”, na língua valáquia.
Esse parece ter sido o estopim da concepção do romance. Nos seis anos seguintes, ele passou o pouco tempo disponível que tinha durante as excursões teatrais com a companhia de Sir Henry Irving e as férias de verão em Port Erroll (hoje Cruden Bay), uma vila pesqueira na Escócia, estudando, anotando e redigindo as primeiras versões do livro. Mas certamente o que mais arrebatou a imaginação de Stoker foram as ruínas do castelo do clã Erroll, a alguns quilômetros dali, uma construção medieval erguida na encosta de um promontório que dava para o mar. Nas ruínas desoladas ele entreviu o cenário perfeito para o castelo de Drácula na primeira (e melhor) parte do romance, quando Jonathan Harker chega à propriedade do infame conde, em uma região montanhosa da Romênia.
Na biblioteca do British Museum, em Londres, entre estudos sobre o comportamento dos lobisomens e os aspectos históricos e geográficos da Transilvânia, ele deparou com um pequeno panfleto impresso na Alemanha a respeito das campanhas militares contra os turcos muçulmanos de um certo príncipe cristão que governou a região dos Montes Cárpatos (na fronteira entre a Hungria, a Romênia, a Áustria, a Polônia, a República Tcheca e a Eslováquia) no século XV. Nesse livreto, havia a reprodução de uma xilogravura medieval e uma breve, porém fundamental referência, a esse personagem histórico. Seu nome era Vlad Drácula ou, como era mais conhecido, Vlad Tepes, palavra que significa “Empalador”. Essa alcunha dá uma ideia do caráter nada pacífico do monarca, que tinha o hábito de fincar os inimigos capturados no alto de estacas, onde permaneciam agonizando até morrer. Contudo, o sobrenome pelo qual esse tirano passou à posteridade é uma referência ao seu pai, que pertencia a uma irmandade cristã, a Ordem do Dragão (“Dracul”, em romeno, que tanto pode significar “dragão” quanto “diabo”). Daí Drácula (“filho de Dracul”, ou “filho do dragão”, ou, ainda, “filho do diabo”).
Entretanto, é um equívoco considerar que o Drácula literário tenha algo a ver com o seu homônimo histórico. É bem verdade que a aparência física do monarca, conforme mostrada no panfleto consultado por Stoker, com amplos bigodes e um olhar penetrante e severo, serviu de base para a sua versão literária. Também é inegável que há ligeiras menções ao personagem real espalhadas pelo livro, tanto na boca do próprio Drácula quanto na de seu nêmese, Van Helsing, mas elas se prestam mais a fornecer um pano de fundo histórico à trama do que a um propósito documental. Além disso, o escritor alterou significativamente os dados biográficos para que se adequassem à sua ficção. O personagem real era um príncipe e não um conde, era romeno, não szekely (uma etnia tribal da região conhecida por sua ferocidade), e governou o reino da Valáquia, não a vizinha Transilvânia (onde, a propósito, Stoker em momento algum da vida pos os pés. Todas as referências às paisagens do lugar que aparecem no romance foram extraídas diretamente de guias de viagem).
Na verdade, o detalhe mais relevante pelo qual hoje associamos Vlad Tepes ao personagem do livro nunca fez parte de seu mito. Jamais existiu qualquer relação entre ele e o vampirismo e essa crendice tampouco fazia parte da tradição folclórica da Romênia. Foi o próprio Stoker quem criou esse vínculo, provavelmente fundindo as características da vida de Vlad, de seu ímpeto assassino, com o de uma outra psicopata real, Elizabeth Bathory, uma condessa eslava que viveu mais ou menos um século depois. Famosa por sua crueldade, ela inaugurou a era dos “serial killers” com o número estimado e nada desprezível de 600 vítimas no currículo, a maioria jovens camponesas. Segundo a lenda, a Sra. Bathory tinha por costume entreter-se em torturar as garotas que mandava capturar nas cercanias de sua propriedade, antes de matá-las e beber-lhes o sangue.

Gravura de Vlad Tepes, o modelo para "Drácula" - Fonte: Wikipedia
Por trás das atrocidades da condessa (verdadeiras ou não, isso pouco importa), oculta-se a influência de uma personagem da remota mitologia sumério-babilônica, milênios antes de Cristo. Trata-se de Lilith, supostamente a primeira mulher de Adão, convertida numa criatura noturna alada e com pés de coruja. De acordo com o antigo folclore hebreu, esse súcubo era temido por atacar os recém-nascidos durante a noite. Uma reminiscência desse mito sobrevive em “Drácula”, na personagem vampiresca de Lucy, que se delicia com o sangue de bebês raptados durante as suas perambulações noturnas.
No entanto, nenhuma influência foi mais decisiva nem mais determinante para a criação da personalidade do Drácula literário do que a do superior imediato de Bram Stoker no Lyceum Theater, Sir Henry Irving. Irving era uma dessas personalidades exuberantes do teatro inglês, mais cativante e fascinante do que qualquer dos personagens que encarnou no palco. É provável que Stoker tenha escrito o livro tendo o ator em mente para interpretar Drácula no teatro, imaginando que ele pudesse imprimir ao personagem a mesma carga de intensidade com que se entregava a papeis como os de Mefistófeles, em “Fausto”, e Hamlet. Qual não deve ter sido a sua decepção quando Irving, ao casualmente presenciar uma leitura preliminar do romance para uma montagem que jamais chegou a ser feita, teria declarado, em alto e bom som: “Horrível”.
Da nossa perspectiva do século XXI, o julgamento crítico do ilustre ator parece um tanto exagerado e injusto. “Drácula” certamente não é uma obra do calibre de clássicos literários como as peças de Shakespeare ou os romances de Victor Hugo e Tolstói, por exemplo, nem pretende ser tão profunda e abrangente quanto elas, mas de forma alguma os seus aspectos puramente literários merecem ser desqualificados de forma tão apressada. O que ressalta do texto, em primeiro lugar, é o talento de Bram Stoker em evocar um mal latente que lança os seus tentáculos sobre todos os que cercam o vampiro. É interessante notar que o personagem, se me permitem o paradoxo, é uma presença ausente no romance. Como a sua imagem que não se deixa refletir diretamente nas superfícies espelhadas e polidas, não nos é dado vê-lo diretamente, mas somente por intermédio das descrições e narrativas de fontes variadas que compõem o romance. De fato, toda a história é contada por intermédio de cartas, entradas em diários, registros náuticos, telegramas, memorando e relatórios e até notícias de jornais. Nesse sentido, “Drácula” se insere na tradição do romance epistolar, muito em voga no século XVIII, em expoentes da literatura romântica como “Os Sofrimentos do jovem Werther”, do alemão Goethe, um tipo de escrita já fora de moda na época da publicação de sua publicação. Contudo, a amplitude das fontes narrativas e a variedade de vozes e estilos conseguem tornar essa obra um prematuro rebento do que viria a ser a literatura moderna no século XX, e assim ela foi considerada pela crítica décadas após o seu lançamento, quando tanto o escritor quanto o seu mentor profissional já estavam mortos e enterrados.
Não se sabe qual era a natureza exata do relacionamento entre Sir Henry Irving e o seu secretário, gerente e relações públicas, mas é certo que o temperamental ator exercia uma influência decisiva sobre o autor de “Drácula”. Pelos relatos do próprio Stoker, existia uma relação de amor e ódio entre os dois, com o egocêntrico Irving assediando moralmente o seu subordinado, que retribuía ao tratamento com uma idolatria no mínimo sadomasoquista. Nessa estranha ligação, é possível detectar a gênese profunda do livro. O conde Drácula seria uma representação fantástica de Sir Henry Irving, um monstro que vive de sugar o sangue de suas vítimas. É importante lembrar que o sangue, ainda no século XIX, possuía uma profunda conotação metafísica. Desde os primórdios pré-históricos da raça humana, passando pelos cultos sangrentos a divindades em diversas culturas e no próprio ritual cristão, o sangue, tanto por suas conexões com a menstruação quanto pela manutenção da existência, sempre esteve de alguma forma vinculado à vida e, por extensão, à alma. No sentido antropológico, beber o sangue de alguém é, simbolicamente, sugar-lhe a alma.
É possível também enxergar no livro uma crítica à estratificação social vigente na época. Nunca é demais lembrar que, como irlandês, Stoker talvez sentisse uma natural aversão à nobreza britânica, e não é improvável que tenha usado o vampiro como representação de uma classe dominante decadente, que, pelo menos desde a Revolução Francesa, nos finais do século XVIII, havia caído em desgraça e se tornado ainda mais parasitária e perniciosa em boa parte da Europa. Somente na própria Inglaterra ela parecia desfrutar de um imorredouro prestígio. De fato, um clima de decadência social e moral permeia a história, e se reflete nos cenários decrépitos em que Drácula habita, como o seu castelo, a inóspita região montanhosa em torno dele e a residência de Carfax, próximo a Londres, para onde ele se muda em certo ponto da história (a propriedade só ganharia o epíteto de “Abadia”, como é conhecida hoje, no filme “Drácula”, de 1931, estrelado pelo grande Bela Lugosi). Ao contrário de algumas adaptações cinematográficas condescendentes, como a do diretor Francis Ford Coppola em “Drácula de Bram Stoker”, de 1992, que se pretendeu ser a versão mais fiel do romance, o personagem-título original, como aparece nas páginas do livro, não tem traço algum de humanidade em seu caráter. Desde o começo, aparece reduzido a um vetor de instintos primitivos, bestiais, cujo único propósito é saciar-se do sangue alheio e se perpetuar através dos séculos, como a criatura da noite animalesca e brutal que é.
Sabe-se que ao menos um dos personagens-chaves da história foi inspirado numa pessoa real. Jonathan Harker teria sido criado a partir de um jovem empregado do Lyceum Theater chamado Joseph Harker, cujo pai, um antigo ator, prestou inestimável ajuda a Stoker anos antes. Contudo, se optarmos por ler “Drácula” como um “roman à clef”, com referências escusas a personalidades reais escondidas entre os personagens da trama, então obrigatoriamente teremos de nos perguntar em quem o próprio Bram Stoker se retratou. Alguns autores arriscam o palpite de que ele teria usado a si próprio como modelo para construir a figura do antagonista do vampiro, Van Helsing. Mas o sábio estudioso parece ter similaridades mais profundas com Arminius Vambéry (mencionado de passagem no livro), catedrático da Universidade de Budapeste que existiu de fato, ou com Max Muller, da Universidade de Oxford, acadêmico real especializado em estudos Orientais. Ou, simplesmente, Stoker plagiou um personagem ficcional de uma obra de Sheridan Le Fanu intitulada “In a Glass Darkly”, cujo narrador, o Dr. Martin Hasselius, tem pontos em comum com Van Helsing.

Prefiro pensar que, se há algum personagem em seu livro em que Bram Stoker possa ter se retratado, quase certamente foi em Renfield. A figura mais excêntrica, infame e bizarra do livro (além do próprio vampiro), comedor de insetos e um louco enfurecido, é também o braço direito de Drácula na Inglaterra. Se assumirmos que o conde era um retrato não muito lisonjeiro de Sir Henry Irving, então Renfield se encaixaria na visão que o próprio autor talvez fizesse de si mesmo, à sombra e sob o controle de seu influente e despótico superior. Com essa interpretação em mente, é possível enxergamos no livro uma espécie de estudo de uma relação doentia de dominação, na qual uma das partes exerce um poder absoluto sobre a outra, que se deixa submeter. Também é irônico o fato de que, apesar de todo o egocentrismo e brilhantismo que Sir Irving pudesse ter em vida, hoje, passado mais de um século desde a sua morte, é o seu humilde secretário, e não ele, quem desfruta de uma fama póstuma duradoura. Fama relativa, é bem verdade. Se pensarmos bem, também com relação à sua criatura, Bram Stoker continua a sofrer em morte a mesma sina que teve de enfrentar em vida com o seu superior do Lyceum Theater. Embora tenha escrito outros livros, o escritor está condenado a ser lembrado somente por sua criação mais famosa, outra personalidade cativante e dominadora que se recusa a morrer e permanece viva às custas de seu criador.

                                                                                                     1º de março de 2015

Bela Lugosi, o primeiro Drácula oficial do cinema, em ação
Fonte: Wikipedia







0 comentários:

Postar um comentário

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Blogger Templates