e Confira a versão completa de "O Mais americano dos super-heróis", a análise crítica do Capitão América ~ Diário do Moretti
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domingo, 1 de fevereiro de 2015

Confira a versão completa de "O Mais americano dos super-heróis", a análise crítica do Capitão América



O MAIS AMERICANO DOS SUPER-HERÓIS

Por Marco Moretti

O Capitão América no traço de Jack Kirby - Fonte: Wikipedia


         Em meados de 1941, o mundo estava mergulhado nos horrores da Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos, seguindo sua política isolacionista, viam com apreensão crescente o avanço das forças nazi-fascistas na Europa. Em meio a esse clima, os quadrinhos entraram no esforço de guerra bem antes do ataque japonês a Pearl Harbor lançar o país no conflito. A Timely, a editora que anos depois se tornaria a Marvel, contribuiu com histórias em que seus dois principais super-heróis na época, o Príncipe Namor e o Tocha Humana original (não confundam com o Johnny Storm, do Quarteto Fantástico, uma espécie de reboot criado nos anos 1960, no limiar da chamada Era Marvel dos quadrinhos, e hoje muito mais popular do que o seu antecessor), combatiam as forças do Eixo.
         Contudo, isso não era o suficiente para o editor-chefe Martin Goodman. Imbuído de patriotismo e achando que a guerra ajudaria a alavancar as vendas de seus gibis, ele encomendou a dois de seus criadores mais ativos, Joe Simon e Jack Kirby, a criação de um herói que personificasse o espírito americano e fosse um combatente da liberdade.
         No esboço do personagem que Simon e Kirby apresentaram ao editor, os criadores escreveram que ele “devia ter um parceiro ou então falaria sozinho o tempo todo”. Vestido com um uniforme que trazia estampada a própria bandeira americana e empunhando um escudo triangular também com as cores nacionais azul, vermelha e branca, o herói não poderia ter outro nome a não ser Capitão América.
         “Basicamente”, disse Joe Simon anos depois, “estávamos procurando por um vilão antes de tudo, e Hitler era esse vilão”. Foi assim que a primeira edição da revista Captain America Comics, com o herói dando um sopapo no führer em pessoa na capa, chegou às bancas americanas em março de 1941. Entre as inovações do título, estavam a ação ininterrupta com generosas doses de violência e o uso de recursos gráficos inéditos, como a página espelhada. O sucesso foi estrondoso e a edição chegou perto da marca de um milhão de exemplares, um número nada desprezível. A título de comparação, considere-se que na época a prestigiosa revista semanal Time rodava 700 mil exemplares.
         Ao contrário dos super-heróis que o antecederam, Superman e Batman à frente, o Capitão América não tinha nascido com superpoderes nem dispunha de artefatos e dispositivos que o ajudassem na luta contra o mal. Em vez disso, ele era originalmente um rapaz franzino chamado Steve Rogers que, depois de tomar uma dose de um “estranho líquido fervilhante” (só mais tarde seria batizado de “soro do supersoldado”), se transformava em um homem dotado de força e destreza incomuns.
         O que tornava o personagem atraente para os jovens leitores é que ele era essencialmente alguém como eles, vulnerável, mas imbuído de uma bravura sem igual. Tão logo surgiu, o Capitão América foi recrutado pelo governo para lutar no front de guerra e não demorou a ganhar seu anunciado parceiro, como mandava o figurino da época: Bucky Barnes, a “mascote do regimento” do Campo Leigh. Juntos, os dois enfrentaram as forças do Eixo, que ganharam nos vilões Caveira Vermelha e Barão Zemo suas faces mais repulsivas e atemorizantes.
         Dos dois, o Caveira sem dúvida era a quintessência de tudo o que o nazismo representava, o símbolo acabado da morte e do derramamento de sangue, do ódio racial. Ajustava-se à perfeição ao pensamento maniqueísta daquele período, e encontrava no Capitão a sua antítese como símbolo dos ideais da democracia e da liberdade, da qual o herói passou a ser uma espécie de guardião (não por acaso, ele também é conhecido pelos leitores como o Sentinela da Liberdade). Como peças de propaganda política, ambos serviam muito bem ao propósito de inspirar nos garotos que devoravam as suas aventuras a inspiração que a América precisava para combater as forças nazi-fascistas. Nesse sentido, é interessante observar que Steve Rogers, loiro e de olhos claros, estava mais próximo do “übermensch”, o “além do homem” ou “super-homem” que pretendia ser o protótipo da raça ariana dos nazistas, do que qualquer soldado alemão. Um detalhe nada desprezível, se considerarmos que os seus criadores eram dois judeus de boa cepa.
Aliás, boa parte da personalidade do Capitão América e do estilo de suas aventuras, recheadas de ação da primeira à última página, emanava do jeito impulsivo de ser de seu co-criador, o brilhante Jack Kirby (1917-1994). Judeu nova-iorquino criado nos bairros pobres da cidade, Jacob Kurtzberg cresceu cercado de violência por todos os lados e a forma que encontrou para lidar com ela foi expressá-la por intermédio dos desenhos. A sua arte tem uma distinta característica de vibrante ação, em que cada painel parece explodir da página impressa. Sob o seu traço, os personagens, frequentemente troncudos e exageradamente musculosos, quase nunca ficam parados. Estão sempre em movimento, quando não enfrentando oponentes tão ou mais agressivos quanto eles. Esse estilo de fazer quadrinhos não se tornou imediatamente evidente nos idos da década de 1940, mas viria a se tornar a sua marca registrada 20 anos depois, quando, ao lado de Stan Lee, forjou o Universo Marvel. 
         Quando a guerra terminou, o Capitão parecia ter perdido o propósito e pouco depois saiu de circulação. Voltou, por um breve período, nos anos 1950. Porém, foi somente na década de 1960 que ele fez o seu retorno triunfal ao mundo dos quadrinhos, quando o mesmo Kirby que o criou e seu companheiro Stan Lee começavam a definir as bases daquilo que se tornaria o Universo Marvel.
         Encontrado congelado em um iceberg pela equipe dos Vingadores, o personagem foi tratado a princípio como uma relíquia da Segunda Guerra, mas encontrou outro papel para si ao defender o mundo livre em meio à Guerra Fria.
Durante a sua trajetória, o Capitão América mudou muito pouco visualmente. O escudo, que originalmente era em formato de diamante, tornou-se redondo como conhecemos hoje, e é só. As três cores da bandeira americana (e que não são exclusividade dele, pelo menos o vermelho e o azul também estão presentes em outros super-heróis, como o Super-Homem e o Homem-Aranha), como não poderia deixar de ser, prosseguiram intocadas. Já a personalidade do herói, o seu pathos, evoluiu de um simples inimigo das forças nazi-fascistas e peça de propaganda para se tornar uma espécie de voz da consciência de seu país. Se em certas épocas espelhava a imagem que os americanos gostavam de enxergar a si mesmos, altruístas, defensores de valores como liberdade, justiça e igualdade de oportunidades, em outros períodos se tornou uma versão crítica desses mesmos ideais.
Não deixa de ser sintomático o fato de que ele passou anos congelado após o fim da Segunda Guerra Mundial, e tenha sido revivido justamente quando a tensão entre os Estados Unidos e a União Soviética atingiu o ponto crítico, às portas da Crise dos Mísseis de Cuba e da Guerra do Vietnã. Foi justamente no começo dos anos 1970, quando o conflito estava numa fase aguda, que o Capitão América passou por uma profunda crise de identidade que ajudou a redefini-lo para a nova geração de jovens que então emergia das manifestações antibelicistas.
Nessa época, a melhor fase de sua carreira, o herói parece ter incorporado um pouco do espírito hippie e passou a atravessar o país no selim de uma motocicleta, encarando a nova realidade de seu país, mergulhado em conflitos raciais e pacifistas, envolvido com a liberação dos costumes e o consumo aberto de drogas, mergulhando na efervescência cultural que ia do rock de Janis Joplin e Jimi Hendrix à pop-art de Andy Warhol. Curiosamente, a motocicleta que Peter Fonda usava no clássico “Sem Destino” (Easy Rider), de 1969, o filme que revolucionou o moderno cinema americano, tinha o nome de... Capitão América.
Logo, o personagem acharia um novo parceiro, agora na figura do Falcão, um herói negro, muito apropriado ao clima de contracultura que o país atravessava entre os anos 1960 e 1970. Refletindo a crise de valores por que passava os EUA, o herói chegou a abandonar por um breve período o próprio nome de Capitão América e o traje bandeiroso para adotar a persona de Nômade. Os questionamentos políticos que fazia a si mesmo nessa época, em longos monólogos entremeados de críticas ao próprio país e à noção de patriotismo, e em que lamentava a ausência de seu antigo companheiro Bucky e o seu isolamento em um país cuja realidade não mais compreendia, estão entre os mais profundos que os quadrinhos já produziram.
Mais que um mero super-herói patriótico, o Capitão incorporou em si o próprio espírito da América e, nas diversas fases por que passou, espelhou os sonhos, temores e inseguranças do povo americano.

O Caveira Vermelha, arqui-inimigo do Capitão América
Fonte: Wikipedia

01 de fevereiro de 2015

Texto originalmente publicado na revista Wizard #39


5 comentários:

Mach disse...

Caro, Moretti

Quando o Capitão América incorporou o espírito hippie e esteve envolvido com o consumo aberto de drogas?

Onde o Cap. América fez questionamentos políticos, entremeados de críticas aos EUA e à noção de patriotismo?

Marco Moretti disse...

Eu disse que ele incorporou um pouco do espírito hippie pelo fato de ter saído pelo seu país numa motocicleta, da mesma forma que os jovens hippies estavam fazendo na ocasião, deixando tudo para trás para se aventurar por aquela nova América. Sim, ele fez questionamentos políticos nessa ocasião quando perambulava pelo país e se defrontava com problemas raciais, as manifestações pacifistas contra a Guerra do Vietnã e a liberação dos costumes. Em mais de uma ocasião, ele (e às vezes seu colega Falcão) se puseram a comentar os problemas sociais e raciais de seu país e dos perigos do radicalismo. Quanto à noção de patriotismo, em mais de uma ocasião ele se pôs a questionar se o que representava fazia sentido naquela época, se ele mesmo não estava superado, principalmente quando deparava com as atitudes dos jovens. Naturalmente, isso não ocorria o tempo todo nem em todas as histórias, mas, há, sim, esse tipo de comentário em suas aventuras.

Mach disse...

Saberia ao certo em qual história o Capitão América fez questionamentos políticos, entremeados de críticas aos EUA?

Faz ideia em que HQ ele se pôs a questionar se o que representava fazia sentido naquela época, ou se ele mesmo já não estava superado?

Marco Moretti disse...

Em edições dos anos de 1968, 69, 70 e até 71, começando por Captain America #128 em diante, quando ele começa a se sentir fora de época, uma espécie de anacronismo.

Marco Moretti disse...

Em Captain America #130, por exemplo, ele até faz um comentário de que não há nada sagrado na manutenção do status quo, e nunca deve haver. E acrescenta que o país foi fundado por dissidentes, e que não acredita num sistema que permanece tão distante que leva as pessoas a medidas desesperadas. Há, aí, uma crítica ao modo como o governo americano lidava com os problemas dos jovens.

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