e Janeiro 2015 ~ Diário do Moretti
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sábado, 3 de janeiro de 2015

Confira agora a versão completa do conto "O Milagre do Dia de Reis"





O MILAGRE DO DIA DE REIS

Por Marco Moretti

Melhor vos está a ir ao Paraíso manco, aleijado e cego,
 que com todos os membros inteiros ao inferno.”
Padre Antônio Vieira, Sermão do Bom Ladrão

"Mendigo com perna de pau",
gravura de Rembrandt
Fonte: Wikipedia

            Dez eram as razões por que Nicolau resolveu se entregar de bom grado aos caprichos da caridade alheia naquele canto imundo e malcheiroso do Viaduto do Chá. Todas poderiam ser resumidas em umas tantas variações da relutante violação do preceito divino “comerás o pão com o suor do teu rosto”, pois a inatividade era seu habitat natural e a vagabundagem, a trilha mais abreviada para conseguir o sustento. Uma dezena redonda era a contabilidade de notas e moedas dos mais diversos valores que forravam o boné encardido de seu time do coração displicentemente virado na calçada e que remontavam, a um olhar enviesado, a uns vinte reais ou pouco mais, valor expressivo naqueles tempos de vacas magras. Nicolau mal podia acreditar no que os olhos lhe contavam, e se pudesse teria se beliscado para espantar a incredulidade, mas esse simples gesto estava a anos luz de sua capacidade física. Isso porque dez também era a quantidade de dedos das duas mãos que lhe faltavam, decepadas havia muito em um acidente de trem, e que compunham excelente pretexto para que ele se entregasse sem culpa nem pecado ao ócio da mendicância. Quem o visse ali, largado na calçada, mera sombra de um maltrapilho, tendo apenas um pedaço rasgado de papelão como assento, trajando farrapos, de uma magreza excruciante, acentuada pelos cabelos ralos de uma calvície em andamento na fonte, e uma expressão de sofrimento avassalador estampada no rosto encovado, não adivinharia o prazer imbuído naquele simulacro de humanidade. Tempos houve em que a piedade dos estranhos o incomodava, o enchia de vergonha, mas tão logo aprendeu como manipulá-la para extrair dos bolsos fartos dos transeuntes os tostões com que mitigava a fome e a sede de cachaça, relegou todo o mal estar, bem assim como toda a noção de autorrespeito que porventura teve um dia, às fossas mais profundas de sua consciência, se é que algum dia a possuíra.
            O sol abrasador e a chuva torrencial não o aborreciam absolutamente, como não o afetavam a fumaça dos carros e a imundície das calçadas. Havia se adaptado à disparidade do clima e às condições adversas com a mesma facilidade com que aceitou os termos que a vida se lhe apresentou, ainda em tenra idade, sem a enganadora beleza das roupagens vistosas daquilo que consideramos “felicidade”, nem a falsificada impressão de uma existência autêntica desenhada pelos abdomens avantajados dos executivos atarefados que se atropelavam ante seu olhar. Um deles, o ventre tão rotundo que as camadas de músculos flácidos e adiposidades nele acumuladas desde incontáveis eras formavam marolas ao caminhar, alfinetou-lhe a atenção sem nenhuma razão em particular, a não ser a do mero existir. Também despertou nele um certo sentimento de raiva quando, ao passar em sua frente, suando em bicas e empapando o colarinho e a gravata com a gordura das picanhas e costelas que provavelmente consumira em quantidades pantagruélicas no almoço, deteve-se um instante e encarou-o com um desprezo avassalador. Desprezo esse nascido da terra infecunda de seus preconceitos mais arraigados. Contudo, não foi apenas essa expressão de profundo mau gosto que despertou reações inusitadas em Nicolau, mas o feito nada louvável que o sujeito perpetrou em seguida. Pescando no fundo da garganta uma reserva de catarro, uma porção considerável de secreção purulenta, mirou com precisão de uma distância de três passos inteiros e lançou vigorosa cusparada no boné. A gosma esverdeada e pegajosa escorreu pela aba, aderindo às notas. Sem que seu ato repulsivo o enchesse de qualquer espécie de constrangimento, o estranho emitiu sonora gargalha, ajeitou o paletó e seguiu adiante, com a naturalidade de alguém que imagina ter feito algo tão normal quanto lavar as mãos após defecar.
            Os olhos de Nicolau se recusaram a crer no que viam. Espantado, apanhou o boné com os tocos dos braços e ensaiou um palavrão, uma maldição ou o que o valha, mas as palavras não ousaram abandonar o pulmão e feneceram na língua. “Gordoporcodocaralhofihodumaputaviado”, foi a tradução mais precisa da nuvem negra de pensamentos hostis que se acumulou, trovejante, em sua mente. Limitou-se a rosnar e a franzir o cenho na direção do homem que se apagava na multidão enquanto uma sensação de impotência crescia no peito a ponto de dominá-lo e azedar seu humor para o resto daquele dia. Sem outro remédio que não aceitar com resignação a sorte que as parcas [1] lhe impunham, limpou o dinheiro no calção velho, ao mesmo tempo em que regurgitava nos recessos mais obscuros da mente uma forma de pagar em igual medida a ofensa que sofrera. Como lograria isso, ele, um reles aleijão que vivia à margem de todas as realizações humanas, constituía-se questão intrincada, para a qual não vislumbrava a mais ínfima suspeita de resposta. Se ainda dispusesse de punhos, teria enchido de murros a pança daquele impertinente e transformado seu rosto gorducho em uma massa disforme de pele, carne e ossos triturados. Porém, como ele tão bem sabia, isso fugia à mais elementar das possibilidades.
            A noite, ainda febricitante de movimento nas ruas, flagrou-o ruminando a frustração de não ter como nem com o que se vingar. Seria patético não fosse trágico seu esforço em vislumbrar uma maneira de arrancar daquele saco de gorduras o sorriso insolente do rosto e apagar da brisa o som recorrente da gargalhada debochada. Sequer podia segurar um revólver, uma faca ou qualquer coisa potencialmente letal. Ainda que fosse forte o bastante, ainda que dispusesse de agilidade e ainda que esbanjasse temeridade, jamais conseguiria bater-se contra quem quer que fosse. Não lhe ocorreu que qualquer estratagema que porventura bolasse tratava-se de um exercício de inútil imaginação, mera acrobacia do pensamento, que dava cabriolas e saltos mortais no éter de seus devaneios na tentativa de apaziguar a ferida na alma. De nada adiantava debater-se ali, no lusco fusco do anoitecer, com obstáculos irremovíveis e quimeras vãs, como a mosca que se esboroa sem cessar contra a janela de vidro na improvável esperança de escapar ao mundo exterior.  
            Abandonado assim a toda a amargura de sua existência limitada, à mediocridade de uma vida de senões, afogou-se, como costumava fazer sempre que a autoconfiança soçobrava ao encontro do iceberg frio e duro da realidade, no inevitável fundo de uma garrafa. Embriagou-se até mais não poder, consumindo no processo todo o dinheiro que amealhara durante o dia e um pouco mais, por conta da reticente generosidade do dono do bar, o Pardal, que fazia as vezes de Grilo Falante e, quase sempre, de Muro das Lamentações. Deu de falar alto, imprecar contra tudo e todos que atravessassem a frente. A raiva vazava de seu espírito em toda sorte de xingamentos e maldições, e se grande e verde fosse teria dizimado a humanidade por inteiro. Não havia homem, mulher ou criança que se furtasse à sua indignação. Como um juiz rigoroso, dominado por nefando e distorcido senso de justiça, outorgou-se o direito de julgar quem bem entendesse e a condenar todos, sem apelações, a sofrerem por suas culpas e pecados nos nove círculos do Inferno.
            Incapaz de raciocinar sob o efeito etílico que nublava o cérebro, errou pelas vagas inconstantes de seu estado iracundo pelas ladeiras e esquinas cada vez mais vazias, cada vez menos acolhedoras, até deparar-se a altas horas da madrugada, sozinho, diante de Jesus Cristo em pessoa, acompanhado da Virgem Maria, São José, os Reis Magos com seus presentes e um séquito de jegues, ovelhas e bois. Imóveis, todos, pareciam indiferentes ao seu sofrimento, impressão realçada pelos olhares parados e a mudez das expressões, que remetiam ao aterrador vazio de um universo desprovido de compaixão. O presépio, em tamanho natural, erguido ao lado do pórtico de uma igreja, era decorado com palmeiras e arbustos de papelão pintado, iluminados por velas também artificiais, e que mais não serviam senão para lembrá-lo de quão falsa e postiça era a fé que os movia.
            Essa ideia, obviamente, não perpassou por completo nos neurônios, nem sequer esbarrou nos recessos obscuros de sua mente eivada das ervas daninhas da indignação, mas por alguma via subrreptícia instalou-se no espírito e sombreou-lhe o ânimo, impelindo-o a um mar revolto de blasfêmias proferidas com tal vigor que estamparia no rosto do mais devasso dos seguidores do Marquês de Sade[2] uma expressão de sincero espanto. Impronunciáveis, as ofensas que dirigiu ao Criador brotavam dos lábios de Nicolau sem qualquer ranço de censura, emaranhavam-se no ar quente e úmido e dissipavam-se em meio ao silêncio esmagador dos ciclópicos e escuros edifícios em volta. As palavras, onze entre cada dez invariavelmente palavrões de toda ordem, reverberavam na plateia de aço, concreto e vidro como o golpe surdo de insultos martelados com o vigor que a ira ditava. Heresias cujos ecos feriam-lhe os ouvidos quais bumerangues atirados a distância e que voltavam ao ponto de origem com força redobrada. Porém, se prestasse atenção mais detidamente, se parasse por um instante o jorro incessante de impropérios, seria capaz de perceber por trás deles o sussurro de uma voz que insistia em dizer-lhe aquilo que relutava em aceitar.
            Passada essa primeira onda de ódio, a raiva refluiu de seu ser como as vagas do mar após seu inútil embate com os arrecifes e arrastou consigo um bom quinhão da embriaguez que atordoava os sentidos. Agora mais dono de si, Nicolau prostrou-se de joelhos diante das santas imagens e proferiu uma súplica, antes um desafio. Papar hóstias, beijar as mãos dos padres, rezar missas, isso ele só fazia em troca de um pedaço de pão ou da sopa dominical, jamais porque sentisse quaisquer traços de devoção. A fé era-lhe um artigo de troca, tanto quanto a mutilação de que se servia para provocar a misericórdia nos transeuntes. Para ele, a crença em um Deus milagroso, provedor e benevolente tinha tanta serventia quanto um terço de contas de madeira que jamais poderia segurar por conta própria.     
            Em vez de deter-se em considerações teológicas alheias de todo ao seu entendimento, permaneceu circunscrito aos limites humanos de seus anseios mais profundos. À medida que a nuvem de “filhas da puta”, “merdas” e “caralhos” se dissipava e as impertinências secavam na goela, fosse porque seu restrito vocabulário havia se extinguido, fosse pelo mero esgotamento da criatividade, umas poucas letras, um punhado de consoantes e vogais se tanto, passaram a rebrilhar em meio às trevas de um desejo relutante. Como uma pérola que impõe seu fulgor pálido enterrada no lodo do fundo do mar, ofuscando tudo o mais ao derredor, esses elementos se combinaram gradualmente para compor um único vocábulo, um substantivo, plural, como plurais eram os seus devaneios, expressão redonda e sem arestas de um sonho distante mas jamais esquecido que ora e vez teimava em despontar no horizonte de eventos de sua existência: “mãos”.
            Com elas poderia levar a cabo a vingança que pretendia, não só contra o gordo que cuspira no mirrado ganha pão que a custo ajuntara, mas contra toda e qualquer pessoa que o ultrajasse, que o humilhasse por sua condição. Sem as mãos, não passava de um arremedo de homem. Assim como um avião sem as asas está condenado a permanecer eternamente imóvel no solo ou um carro desprovido de rodas é incapaz de avançar um palmo que seja, sentia-se um dejeto humano, uma excrescência que todos evitam chegar perto. Somente inteiro, livre das imperfeições que tolhiam suas realizações, arrazoava ele com as estátuas inertes que não ousavam responder-lhe, almejaria voos às mais altas esferas da sociedade e abriria caminho para atingir a felicidade em um cosmo de sordidez inapelável.
            Então, inflando o peito de ar, gritou a plenos pulmões na direção do presépio orações meio desencontradas, que saíram enviesadas, sem muita precisão, amolecidas pela língua pesada:
            - Ei, voxê aí, voxê deitado neche berço de palha! É contigo que eu quero falar. Se tu é mesmo Deus, se é como dizem que é, que faz milagres, rechuchita os mortos, cura os leprosos e um monte de outras maravilhas, então me devolve as mãos pra que eu pocha ser eu, eu mesmo, inteiro de novo! Quero ver só se tu tem o poder de fazer uma coisa dessas, que uma coisa tão grande, vou te dizer, eu nunca que vi. Ou será que é só ixo que você é, um boneco de gesso, um nada, invencione desses padrecos viado pra enganar os trouxa? Me dá as minhas mãos e, olha, eu juro que largo decha vida de pedinte pra sempre, arranjo emprego, me aprumo num estudo, viro gente, vai ver só. Não, não é papo de bebum, não. Tudo vai ser diferente se fizer ixo pra mim, vou mudar, prometo pra ti que serei um novo homem.
            Não sabia, não imaginava como, mas mal terminou a breve oração, fez o sinal da cruz. Saiu atrapalhado, desordenado, mas saiu. Ignorava para o que servia, mas como vira em incontáveis missas os fieis fazerem o gesto a cada reza, com o rosto grave, austero, achou por bem imitar-lhes. Em seguida, permaneceu ajoelhado no local por mais alguns minutos, mergulhado em absoluto mutismo. Com indisfarçável expectativa, aguardava a realização de sua súplica. Talvez, aquele fosse o momento que várias vezes antevira, quando as nuvens e o próprio céu se fenderiam e um raio de luz cegante como um sabre de luz desceria sobre a sua cabeça e dos braços mancos brotaria um par de mãos novinhas em folha. Quem sabe, quem poderia dizer?, o milagre viria acompanhado de um coral de vozes angelicais tão belo quanto uma sinfonia de Mozart. Olhava para as figuras do presépio e para as mãos e delas encarava de novo os Reis Magos, os animais, São José e a Virgem, até finalmente deter-se no Menino Jesus. Nisso ficou bem meia hora sem que nada, absolutamente nada, nem sequer uma ínfima brisa, fosse capaz de sacudir a imobilidade pétrea da paisagem natalina. Cansado de bancar o idiota, ergueu-se aborrecido, fitou bem fundo os olhos piedosos das estátuas e proferiu um sonoro palavrão decorado com os mais impronunciáveis adjetivos.
            Sentindo um profundo mal estar varrer-lhe as entranhas, uma certa azia arder na boca do estômago, a cabeça a latejar, fruto da ressaca que agora o acometia, arrastou-se de volta ao pontilhão que servia de morada e procurou, inutilmente, diga-se de passagem, conciliar o sono. Tudo o que conseguiu, porém, foi fritar o peixe, virando-se de um lado para o outro sobre o colchão imundo e rasgado. Debatia-se, sem que o soubesse, com a esperança de que algo magnífico, grandioso, inexplicável, sucedesse logo ao amanhecer. Contudo, o sol despontou sem que qualquer coisa houvesse se modificado em seu corpo, com exceção das pálpebras arroxeadas e o rosto ainda mais famélico. Apressou-se a erguer os braços, e constatou desapontado que os tocos continuavam intactos. Essa cena de pungente frustração repetiu-se no dia seguinte, e no outro e no outro, acumulando-se em um montículo fétido de desgostos até que o Natal chegou e passou sem deixar vestígios.
Diante da esmagadora evidência de que nada de miraculoso lhe aconteceria, que prosseguiria nesse arrastar modorrento e sem sentido que havia sido sua vida até então, fosse porque não merecia tal graça, fosse porque Deus resolvera ignorá-lo solenemente já que não passava de uma inutilidade humana da mais infame estirpe, ou simplesmente porque não havia Deus nenhum, Nicolau resignou-se aos fados. Em pouco tempo, esqueceu-se quase por completo dos rogos que lançou aos ceus naquela noite de embriaguez, dos devaneios que alimentou, e mesmo da figura roliça e engordurada que havia sido o catalisador de sua revolta contra a existência e tudo o mais que o cercava. Afinal, novas moedas e notas vieram forrar o boné naquelas semanas, as mesmas que trouxeram os fogos do Réveillon e carregaram atrás de si as vicissitudes e alegrias do ano que findava.
Nossa história teria se encerrado nesse ponto, se a Providência não houvesse contribuído com sua dose habitual de frustrações à já volumosa contabilidade de decepções que acossavam Nicolau por todos os flancos. Em uma tarde particularmente abafada, de ar pesado e opressivo, um incidente em si nada digno de nota veio agitar as águas de seu espírito como uma pedra jogada ao centro de uma poça de águas paradas. Deu-se com a rapidez dos atos improvisados.
O alerta foi dado com um grito de “O rapa!”. Num átimo, a chusma de vendedores ambulantes e muambeiros ilegais que disputavam cada palmo de calçada no viaduto apressou-se a recolher os pertences e a escafeder-se com a velocidade de um raio. Os policiais não tardaram a aparecer, arremetendo a partir da esquina com a ferocidade de mastins na perseguição às ovelhas desgarradas. Na balbúrdia que se seguiu, mais preocupados em escapar dos algozes do que em salvaguardar os pertences, os fugitivos correram para todos os lados feito baratas tontas flagradas ao acender das luzes. Um deles, no afã de escapar à horda raivosa dos homens da lei, esbarrou em alguns transeuntes, tropeçou e caiu sobre o boné de Nicolau, derramando no chão o montículo de dinheiro tão arduamente amealhado durante o dia inteiro. As notas que o vento não carregou os moleques de rua trataram de apanhar. As moedas, três rolaram até perderem-se sob a floresta de pés apressados, uma quarta caiu nas fendas da boca de lobo. As restantes, permaneceram espalhadas no cimento como uma oferenda ao deus do desperdício.
Tomado pelo desespero, o pobre aleijão apressou-se a apanhá-las antes que caíssem em mãos alheias. Aliás, era justamente de mãos que precisava naquele momento. Ajoelhado, tentou catar as moedas com os tocos dos braços. O máximo que logrou foi arrastá-las para perto de si, mas por mais que se esforçasse era impossível recolhê-las. Cada patética tentativa redundava em evidente fracasso e era acompanhada por uma claque de risadas desencontradas emitidas pela plateia de desocupados que perambulava pelo lugar e que havia detido por um instante sua marcha a lugar nenhum para assistir ao deprimente espetáculo. Aos poucos, formaram um semicírculo ao redor de Nicolau e não se fartavam de gargalhar quanto mais os centavos lhe escapuliam. À medida que reagiam espalhafatosamente aos esforços perdidos, mais gente vinha juntar-se ao coro de galhofeiros. Se mais houvesse demorado, não hesitariam em apostar no fracasso do infeliz que inutilmente se arrastava aos seus pés qual um verme esfomeado. Por cinco torturantes minutos, ninguém, nem o mais distinto homem de negócios ou a mais discreta secretária executiva ousou mover uma palha para ajudá-lo até que uma senhora, talvez apiedada de sua tribulação ou simplesmente impaciente demais para esperar por um feliz desenlace, ofereceu-se para devolver o dinheiro ao boné e assim encerrou o show sob o olhar de censura da multidão ávida para se deleitar com as desgraças alheias.
O prejuízo havia sido significativo e, em outras circunstâncias, talvez Nicolau tivesse se aproveitado da própria desdita para lucrar com ela. No estado de ânimo em que se encontrava, porém, esse episódio apenas contribuiu para aprofundar o fosso de suas lamentações mudas. O incidente havia relembrado, de forma contundente e inequívoca, o quanto suas limitações físicas formavam uma espessa muralha de empecilhos à felicidade que almejava alcançar, ao mesmo tempo em que serviu para dissipar a bruma de ilusões de que o Salvador um dia atenderia aos seus rogos.
Quando, enfim, o fogo abrasador das esperanças liquefeitas arrefeceu em cinzas mortas e as preocupações da feroz luta pela sobrevivência do dia a dia dispersaram aos quatro ventos os sonhos mais improváveis, ele foi apanhado de surpresa por um evento que desconhece definições. Meras palavras são insuficientes para descrever o impacto que aquele portento, pois essa é a expressão mais aproximada e menos distante da exatidão que se pode atribuir a um fato de tamanha magnitude, exerceu sobre aquele ser, insignificante sob todos os prismas.
            Aconteceu no 6 de janeiro, o Dia de Reis. Após mais uma noite de homérica bebedeira, Nicolau teve durante toda a madrugada sonhos bizarros. Imagens absurdas, de dragões, harpias e outros animais mitológicos, assaltaram-lhe o sono e perturbaram o espírito a ponto de deixá-lo irrequieto, como os cães que se agitam quando pressentem o terremoto iminente. Despertou com um grito, e a indefinível sensação de que alguma coisa muito estranha estava acontecendo. Pareceu-lhe, a princípio, que uma parte de si mesmo há muito ausente havia se recomposto. Um formigamento, espécie de coceira intensa, brotou nos braços e desceu até as extremidades. O raciocínio, embotado depois de tantos anos pela falta de exercícios mentais, custou a inferir aquilo que os sentidos não se cansavam de anunciar em altos brados, quase com a estridência de um toque de aurora soprado pelo corneteiro. Por mais que o tato o confirmasse, por mais que o peso de carne viva, regada pelo sangue pulsante, o dissesse, não ousou dirigir o olhar para baixo e permaneceu deitado por inumeráveis minutos, olhando fixo para as pombas que faziam ninho nas vigas de concreto uma dúzia de metros acima de seu corpo. Então, tomado de vigorosa coragem, ergueu lenta e hesitantemente os braços na direção da cabeça. Ante as pupilas escancaradamente dilatadas, despontaram, primeiro, dez dedos, cinco duplas de polegares, indicadores e todos os demais companheiros, com as unhas e os nós talhados à perfeição, fincados nas duas palmas desprovidas de quaisquer cicatrizes, rasgadas apenas pelas linhas da vida, que escorriam como rios caudalosos de encontro ao pulso.
            Incrédulo, pos-se a virar e a revirar as mãos novíssimas em folha diante do rosto. Admirava o desenho perfeito, a proporção correta das falanges e até os poucos pelos que brotavam aqui e ali. Mexia os dedos, cerrava os punhos, apertava uma palma contra a outra, experimentava a força que juntas exerciam, bateu palmas, sonoras palmas, congratulava-se com o presente que caíra do alto. Ainda estava nesse estado de sublime êxtase quando sentiu a vontade implacável de fazer algo que não havia sido capaz de realizar há décadas: enfiou o indicador na narina esquerda, depois na direita, e arrancou delas nacos de variados tamanhos de caca de nariz.
            Uma vez satisfeito, limpou os restos da sujeira no calção e ergueu-se, sentindo um vigor e uma alegria há muito esquecidos. Correu rua acima feito um desatinado e, no auge do contentamento, tomado de furor incontido, batucou um samba improvisado sobre a tampa de uma lata de lixo, para depois plantar bananeira, sem que o medo de se machucar tolhesse os movimentos, algo que há muito tempo desejava fazer; ajudou uma senhora a carregar um punhado de pesadas sacolas de supermercado até a porta de um prédio; apertou a mão de um empolado advogado que falava nervosamente ao celular e dançou uma ciranda com três meninas que brincavam na esquina. Ria, gargalhava desbragadamente, em uma exaltação que só conheceu limites quando chegou às portas abertas de uma mirrada igreja.
            Atabalhoadamente, galgou os degraus até penetrar na nave central. Não intimidou-se com o silêncio que o acolheu e tratou de espargir com os dedos recém readquiridos um pouco de água benta sobre a fronte. Diante do olhar de censura de uma beata pouco acostumada a tais exibições de euforia, conteve os ânimos e caminhou até deter-se diante do altar. Ergueu a vista para a figura de Jesus Cristo na cruz e, com o rosto banhado em caprichosas lágrimas, tombou sobre os joelhos, juntou as palmas das mãos pela primeira vez desde que viera ao mundo e agradeceu em voz alta e sem o mínimo rastro de recato a graça que havia recebido. Soluçando, pediu perdão por todos os erros, os eventuais pecados que um dia cometeu e, ali mesmo, a face iluminada pelo brilho irregular dos círios, jurou emendar-se, disse e repetiu que nunca mais iria mentir, enganar ou fazer qualquer ato vergonhoso aos olhares de Deus. Ergueu adiante as duas mãos e exibiu-as como garantia de sua sinceridade, prometendo guardar e cumprir a promessa de ser um homem decente, um homem honesto, um homem de verdade, dali para frente.
            Decidido a fazer valer suas palavras, deixou a igreja e saiu em busca de um trabalho com o qual poderia se ajeitar na vida, sustentar-se, quiçá ter morada fixa, ainda que humilde, roupas limpas e comida farta. Num decidido e desaforado gesto, lançou para bem longe do alto de um viaduto, com toda a energia que dispunha, o surrado boné, que se tornou ante seus olhos o símbolo melancólico dos dias de dores e lágrimas que haviam ficado para trás. Imaginou com isso dar adeus à miséria e ao abandono e finalmente virar a primeira página do capítulo mais ansiado desde o momento em que saíra do ventre da mãe, simultaneamente o Êxodo, o Cântico dos Cânticos e o Livro do Apocalipse de sua existência.
Contudo, como constataria da pior maneira, a maneira dolorosa, arranjar uma ocupação, a mais ínfima que fosse, revelou-se tarefa deveras ingrata, sobretudo naqueles dias. Sufocado pela ansiedade dos novos tempos que se anunciavam, parou na soleira da primeira loja que encontrou. Exalando euforia por cada poro, perguntou à gerente se precisava de vendedor, ajudante de qualquer espécie ou mesmo de um simples faxineiro. Os trajes esfarrapados, o cheiro nauseabundo ou a mera aparência cadavérica, ou todos esses fatores somados, surtiram como único e definitivo efeito a expulsão sumária, aos berros, do lugar. A mesma cena, com variantes de vozes mais graves ou agudas, de olhares cortantes uns, espantados outros, seguidas de ameaças de agressões físicas implícitas ou não, repetiu-se em cada um dos estabelecimentos que naquele dia ele teve a ousadia de fincar os pés.
            O sucesso não foi maior nos dias que se seguiram. Pelo contrário, tornava-se mais difícil a cada palmo do caminho. Não demorou para que dos lugares de prestígio, aqueles que prometiam gordas remunerações, descesse gradativamente dois ou três andares até dar com os costados nas mais rasteiras borracharias, em botecos deploravelmente imundos e agências de empregos de fama duvidosa. As desculpas, quando as havia, eram das mais coloridas tonalidades. Contudo, a que pareceu se impor com mais força, dada a recorrência, foi a de que ele não sabia operar o que quer que fosse com as mãos, sequer uma simples máquina italiana de café. Serviços sofisticados de outra ordem, então, como a de torneiro mecânico ou digitador de computador, figuravam na esfera do absurdo. Somada a essa incapacidade manual, e funcionando como um lastro cujo peso fazia com que as esperanças naufragassem com maior fragor e rapidez até atingir a camada mais profunda de todo o desânimo que principiou a dominá-lo, estava seu atávico analfabetismo. É bem verdade que havia aprendido a arte da leitura e da escrita na infância, mas com a falta de uso decorrente do acidente que lhe privou as mãos e da consequente indolência que o contaminou, essa habilidade gradualmente se atrofiou em sua memória visual e tátil até que nenhum rastro dela permanecesse.
Mesmo lutando contra tamanha dificuldade, Nicolau perseverou, insistiu, teimou e gastou os nós dos dedos ainda virgens de feridas batendo em uma centena de portas. Um mês mais ou menos escorreu antes que arranjasse uma ocupação decente, a de homem sanduíche. Deram-lhe duas grossas placas de madeira que eram amarradas por um par de cintas de couro pela extremidade superior e, penduradas nos ombros, cobriam a parte anterior e posterior do corpo até os joelhos, e eram cobertas de alto a baixo com escritos a giz que anunciavam toda sorte de coisas, de ofertas de trabalho a penhores de joias, de serviços de cartomantes prometendo reconquistar o amor perdido em 24 horas à compra de quinquilharias velhas e muitos outros dizeres extravagantes.
            Como era incapaz de entender o que significavam os anúncios, não se importou em exibi-los nas esquinas apinhadas do centro. Nos primeiros dias, até sentia uma certa ponta de orgulho vestindo-se com aquele aparato, que o diferenciava dos comuns mortais. Era quase como uma armadura que o protegia das maledicências dos executivos arrogantes que gostavam de lançar um olhar de desprezo aos pedintes jogados ao rés do chão ao mesmo tempo em que sussurravam para si mesmos o anátema de “vagabundos”. Experimentava a satisfação mal disfarçada de que não podiam mais cuspir-lhe nas fuças esse epíteto pejorativo.
No entanto, mesmo essa função acabou por soar-lhe insatisfatória. Ao cabo de algumas semanas portando as placas de madeira como um estandarte de abre alas do Carnaval, uma dor intensa, pouco a pouco insuportável, principiou a assediar-lhe, primeiro o pescoço, depois as costas, e logo o impedia de executar até o mais elementar movimento com o corpo. Para agravar a situação, os ganhos eram, para dizer o mínimo, ridículos, e Nicolau não tardou em constatar, após uma rápida e rasteira aritmética de padaria, que a vida que levava antes era, sob todos os aspectos, mais cômoda e lucrativa. Em economês puro e simples, a relação custo-benefício estava longe de lhe ser favorável.
            Dizer que de imediato abandonou todo e qualquer esforço de um trabalho digno pecaria pelo exagero. É verdade que largou as placas de anúncios e tentou a sorte como varredor de ruas, depois, como catador de latas, e até arriscou-se a bancar o malabarista de laranjas nos semáforos congestionados, mas a destreza de artista circense não era, absolutamente, um de seus atributos mais proeminentes. Tampouco funcionaria como vendedor de rua, empreitada que nem de longe passou-lhe pela cabeça. Não levava jeito para berrar aos quatro ventos, empurrar artigos às madames, convencê-las a levar gato por lebre. Foi somente quando todas as tentativas chafurdaram no fracasso, descartadas fosse pelos ganhos insuficientes, fosse por outra razão que sua razão lhe apontasse, devolveu a carcaça alquebrada e derrotada ao viaduto imundo de onde saíra e resignou-se ao velho e carcomido hábito de pedir esmolas e implorar pela benevolência dos estranhos.
            Mesmo isso, contudo, mostrou-se decepcionante ao cabo de uns poucos dias. Sem poder exibir a antiga deficiência com que costumava espetar as consciências dos transeuntes e inocular-lhes no espírito uma culpa vaga mas contundente, dificilmente surtiria efeito qualquer tentativa de despertar-lhes a piedade, único sentimento capaz de franquear-lhe o acesso às carteiras prenhes de reais. Nem piedade, muito menos misericórdia traduziam-se dos olhares que lhe dirigiam. Antes era alvo de um solene desprezo, como se ele não passasse de uma folha seca ao leu cujo único destino é ser em algum momento esmagada sob a pesada sola de um sapato de cromo alemão caro e lustroso. O balanço final desse malfadado esforço, a que vinham somar-se todos os anteriores, era mais do que zero: beirava o negativo.
            Se as ocupações improvisadas, subempregos e aventuras temerárias estavam longe de ser o ideal, as dificuldades mais do que decuplicaram agora que a mendicância revelou-se inócua. Nem a mera sombra de um centavo roçou por seus dedos naqueles dias que pareciam ficar longos demais a cada entardecer. Logo, a fome e a sede começaram a cobrar as suas forças e Nicolau não esboçou resistência ao cerco de desânimo e indignação que se ergueu em sua mente. A revolta, seguida da ira e de um implacável desejo de retaliação, sem propósito nem objeto definidos, mas ainda assim implacável, começaram a reclamar sua parcela da alma e expressavam-se, com frequência crescente, em bebedeiras suntuosas, produto de doses homeopáticas de cachaça arrancadas a golpes de persistentes lamentos das mãos de donos de bar pouco inclinados à generosidade, e que invariavelmente o conduziam de volta ao mesmo ralo entupido de detritos oriundos de sua insatisfação.
            A cartografia dos pensamentos e impulsos que passaram então a guiar-lhe os passos erráticos pelos pedregulhos das ladeiras e ruas desertas das madrugadas tornou-se sintomaticamente clara. Era então evidente, para tantos quantos se dispusessem a prestar atenção em seu comportamento, que algo maligno, algo nefasto, algo de ruim, aquecia e borbulhava em suas entranhas, como o magma incandescente que se acumula e se agita nos subterrâneos de um vulcão, e estava prestes a entrar em erupção ao menor pretexto, à mais ínfima desculpa que servisse à sua mente perturbada.                        Essa violência incontida acabou por escapar à superfície em surtos nada esporádicos de brigas homéricas, dessas que espalham cacos de garrafa pelo chão e lascas de cadeiras quebradas na mesma proporção dos hematomas distribuídos pelos rostos e corpos. Tais explosões de virilidade, que se traduziam por vezes em dores quase insuportáveis, serviam ao menos para que ele flexionasse os músculos das mãos em murros certeiros. Mesmo essas explosões ocasionais, quando os seus instintos animais mais elementares experimentavam uma fugidia sensação de liberdade dos grilhões da vigilante consciência, eram suficientes para aplacar-lhe apenas momentaneamente a frustração, apitando com estridência como as válvulas de escape de uma panela de pressão quando o sangue subia à cabeça, mas de forma alguma funcionavam para extinguir sem deixar rastros o ímpeto de destruição que o movia.
            A derradeira estação dessa estrada de agressões e ferocidades sem freio atendia pelo nome pouco convidativo de “assassinato” e a ela Nicolau não tardou a chegar, com as bagagens de costume, a embriaguez e a inveja corrosiva, certa noite de garoa tão fina como talco e intermitente como a luz de um farol. Apoiado com as pernas bambas contra um muro, em uma rua estreita, de pouco movimento, refazendo-se de nova carraspana, ele observou com o olhar turvo uma senhora de porte elegante passar apressada, quase rente às suas fuças, carregando a tiracolo uma bolsa de couro preta e fechos dourados, cujo reflexo fugidio foi o que chamou-lhe a atenção. Por algum indecifrável percurso mental, aquele brilho cor de ouro foi a fagulha que faltava para incendiar a cobiça em seu peito. Pos-se a calcular quanto poderia lucrar com a venda do objeto, sem contar a quantia em dinheiro, relógios, joias ou outros bens quaisquer que porventura contivesse. O desespero, açoitado pela lancinante necessidade de se alimentar, aconselhou-o a partir para a ação. Foi assim, sem duelos de sabres de luz ou barulhentas batalhas no vazio das estrelas, que a sua consciência rapidamente escorregou para o lado negro de si mesma.  
            Sem tempo para abstratos e totalmente inúteis raciocínios de ordem moral, preocupou-se antes em como flagrar a vítima desprevenida, arrancar das mãos a bolsa e fugir com a velocidade de um relâmpago. Arrancando do inebriante estupor da bebida vigor suficiente, seguiu a mulher a uns dez passos de distância. Apertando os passos, surpreendeu-a antes que virasse a esquina. Empurrou-a contra um monte de sacos de lixo e, ajoelhado sobre seu corpo, tentou arrancar à força a bolsa das mãos. A mulher reagiu segurando a alça com energia ao mesmo tempo em que se debatia, procurando socá-lo e chutá-lo com as pernas livres. A reação o deixou assustado, e não soube responder à altura com o devido sangue frio. Em vez disso, foi tomado pelo pavor, sobretudo quando ela ensaiou um grito de socorro.
            Diga-se em sua defesa que matar a pobre mulher era uma ideia que jamais visitara as suas intenções. Tudo o que pretendia até então era roubá-la, apenas isso, mas diante da ameaça de que chamasse a atenção da polícia com seus berros, viu-se forçado a silenciá-la da maneira mais brusca. Olhando assustado para todos os lados, tentou tapar-lhe a boca com a mão esquerda. Mesmo assim, a mulher continuou esperneando e desferindo socos em seus braços, e o som abafado de sua voz era suficientemente alto para ser ouvido a poucos metros dali. Tomado pela raiva mais profunda, a razão eclipsada pelo desespero, Nicolau empregou a mão direita para apertar a garganta com crescente intensidade. Quanto mais ela se esforçava para respirar, mais ele cerrava os dedos em torno de seu pescoço fino. A mulher engasgou, estridulou na própria agonia, e aos poucos o rosto perdeu a cor, uma palidez sepulcral invadiu-lhe os olhos. As unhas enterradas nos pulsos de Nicolau gradualmente afrouxaram até que as forças se esvaíram de todo o seu corpo e ela vomitou a vida em fugazes estertores.           
            Somente quando o crime estava consumado, nem um microssegundo antes, é que ele se deu conta da enormidade do ato que havia perpetrado, e a contemplação da própria brutalidade congelou o pensamento, estancou o sangue nas veias, paralisou-o momentaneamente feito a esposa de Lot. Então, caindo em si, soltou o corpo inerte, que escorregou na montanha de lixo. Tomado pela repulsa ergueu-se com brusquidão e deu dois passos para trás, estonteado. Foi quando ouviu passos, vários, vindo em sua direção. Afastou-se atabalhoadamente e correu rua abaixo, sem outro pensamento que não o de escapar da cena do crime o quanto antes.
            Desceu ladeiras, atravessou vielas, cruzou avenidas, e só deteve-se, ofegante, de costas contra um poste, a muitos quarteirões de distância. Assustadiço, virava e revirava para todos os lados com medo de que o tivessem avistado e seguido. Em meio a esse frenesi de horror, estacionou o olhar nas palmas suadas das mãos trêmulas. Por mais que quisesse apagar da lembrança o que havia feito, os dedos grossos erguiam-se acusadoramente, como dez impiedosas testemunhas, contra o advogado de sua consciência. Passou a culpá-los, e a não a si próprio, pelo assassinato, como se aquelas mãos não lhe pertencessem, ou como se elas não obedecessem aos comandos do cérebro e tivessem agido por conta própria. Invocou os céus, talvez pela primeira vez em sua vida miserável, para que o defendesse. Dissolvido nas lágrimas do mais sincero arrependimento, cerrou os punhos com tanta raiva e força sobre-humana que deles arrancou filetes de sangue. Ergueu a cabeça e implorou por absolvição junto ao juiz supremo que imaginou presidir suas ações:      
- Deus! Você, mais que ninguém, sabe que eu não queria... que eu não pretendia fazer aquilo. Não sei o que me deu, foi uma loucura que me bateu na cabeça, uma agonia que apertou o coração, não sei explicar direito. Mas ela tinha que gritar? Tinha? Se tivesse ficado quieta, sem reagir, nada acontecia. Eu só queria era a bolsa dela, mais nada. Só a bolsa e o que tinha dentro. É pedir demais pra um infeliz que nem eu, que nem tem do que comer? Hein? Mas não, a mulher ficou histérica, se debatia feito uma vaca louca. Não me deu tempo pro raciocínio certo. Agi como um danado, esganei a desgraçada ali mesmo. E o que é que alguém de bom tino ia fazer numa hora dessas? Pedir desculpas pra ela, levantar e ir embora? Agora, a culpa não é minha. É dessas porcarias de mãos. Foi por causa delas que eu matei. Antes, quando era aleijado, nunca que teria feito uma coisa dessas. Nem podia. Mas agora que tudo posso, que tudo quero, olha só o que aconteceu! Elas é que são culpadas por essa desgraceira toda, só elas, não eu. Eu nem não pretendia, nunca que passou pela minha cabeça. Foi como se o capeta tivesse me dominado. É, isso mesmo. Esses dedos aqui, eles não são meus. São os dedos dele! Os dedos do diabo!
            A última frase jorrou dos lábios em um grito agoniado que terminou em uma explosão de choro. Instintivamente, cobriu o rosto com as duas mãos, para logo em seguida afastá-las com repugnância. Compreendeu então que a única maneira de livrar-se daquele peso insuportável que lhe vergava a alma como o globo terrestre sobre as costas de Atlas[3] era extirpando-as, arrancando-as de maneira definitiva de sua vida. Novamente sem elas, poderia regressar à vida que sempre conheceu, ao canto sujo que chamava de existência, e suplicar a benevolência dos estranhos como era de seu natural costume.       
Antes sequer que a clareza de espírito iluminasse as trevas de sua decisão, Nicolau pos-se novamente em movimento. Correu feito um cão raivoso de encontro ao acaso, esvoaçando de um lado para o outro das calçadas, os braços estendidos, como se quisesse manter as mãos o mais longe possível de si. Mil e uma maneiras de livrar-se delas atravessaram-lhe a mente à semelhança de uma tempestade de relâmpagos coruscantes que não se demoram mais do que uns poucos instantes antes de dissolver-se no ar para imediatamente serem substituídos por outros, mais brilhantes e mais vivos, que serviam apenas para atiçar-lhe a imaginação febril sem que nada concreto produzissem a não ser o ribombar interminável do desespero.
            A mão direita de Deus ou o que o valha fez-se sentir com o peso de um milhão de arrependimentos. Sem que tivesse a oportunidade de evitar, Nicolau tropeçou no cimento irregular do chão e caiu de bruços contra o meio fio. Apanhado de surpresa, não pôde ou não quis se proteger da queda com os braços, que ficaram estendidos para a frente. A intrincada engrenagem do relógio do universo conspirou secretamente para que um ônibus, um desses articulados, que carregam dezenas de passageiros, atravessasse a sua frente nesse momento. A Teoria da Relatividade poderia ser invocada para explicar as várias versões do acidente presenciadas por mais de um observador em pontos diversos, mas basta mencionar aqui a do motorista, que alegou ter visto os braços de Nicolau estendidos no asfalto antes de atropelá-los e garantiu que, por mais veloz que estivesse, havia tempo suficiente para que ele as recolhesse. “Até parecia que ele queria ver as mãos esmagadas de propósito”, declarou a um policial que atendeu a ocorrência. Quanto ao infeliz, foi conduzido às pressas a um hospital, onde as mãos, estraçalhadas a ponto de parecerem massa de modelar amassada, foram sumariamente amputadas.
            Somente quando despertou da cirurgia de emergência, horas depois, deitado no leito enferrujado esquecido no corredor apinhado de um SUS, é que se deu conta do ocorrido. Repetindo o gesto que fizera meses antes, debaixo da ponte, levantou os braços e, ao constatar o inevitável, esborrachou-se em uma gargalhada escandalosa. Não era essa, no entanto, a felicidade que ele perseguia e, provavelmente, estava fadado a jamais encontrar. Se alguém, algum dia, quiser saber o que significa esse termo, Nicolau poderia dizer. Pois para ele a felicidade era um quarto cheio de claridade e de coisas belas que ele vislumbrou ao abrir a porta por uma fração de minuto antes que ela voltasse a se fechar em sua cara.
03 de janeiro de 2015
           












[1] Clotô, Láquesis e Ártropos, entidades da mitologia greco-romana, também chamadas Moiras, encarregadas de tecer os destinos humanos e divinos.

[2]  Nobre francês que viveu no século XVIII e se tornou famoso pelas perversões morais e sexuais que praticava.

[3] Titã da mitologia, condenado a suportar o peso do mundo nas costas por toda a eternidade.

Confira agora a versão completa de "A Fera que veio das estrelas", a resenha crítica do filme "Alien, o Oitavo passageiro"




A FERA QUE VEIO DAS ESTRELAS
Por Marco Moretti

O cartaz do filme "Alien versus Predador" - Fonte: Wikipedia

            Originalmente, um dos mais famosos monstros do cinema de ficção científica, Alien, surgiu devido a uma insatisfação com uma bola de praia. Pintada para parecer uma criatura alienígena, mas ainda assim uma simples bola de borracha, foi dessa forma que a versão pré-histórica que evoluiria até se tornar o conhecido extraterrestre devorador de homens surgiu, no filme “Dark Star”, de 1974. Ganhador do prêmio da Academia Americana de Filmes de Ficção Científica, Fantasia e Horror daquele mesmo ano, esse simpático longa-metragem nasceu como o filme de graduação de dois jovens e promissores estudantes de cinema da Universidade do Sul da Califórnia (USC), John Carpenter (mais tarde o criador de “Halloween” e de um pequeno clássico da ficção científica, “O Enigma de outro mundo”, que não deixa de ter muitas similaridades com “Alien”) e Dan O’Bannon, co-autor do roteiro e também ator e supervisor dos efeitos especiais de “Dark Star”. Em linhas gerais, o longa já trazia em seu bojo a história do que viria a ser o clássico “Alien, o Oitavo Passageiro”. Basicamente uma paródia de “2001, Uma Odisseia no espaço”, esse filme B, com parcos recursos, embora bem realizado, narrava as agruras de um grupo de astronautas a bordo de uma nave espacial às voltas com uma criatura de outro mundo, a infame bola de praia pintada mencionada linhas acima.
            Conquanto o resultado e a repercussão de “Dark Star” superaram as expectativas de seus realizadores, O’Bannon tinha idéias mais ambiciosas em vista. Insatisfeito com os efeitos especiais e, particularmente, com a caracterização do monstro, ele pretendia “refilmar” o longa-metragem numa versão séria, sinistra mesmo. Ele aproximou-se então de outro roteirista iniciante, Ron Shusett, com quem compartilhava a mesma inclinação para os gêneros de terror e ficção científica. Shusett tinha os direitos de adaptação de “Total Recall”, o conto do escritor Philip K. Dick (que anos mais tarde se transformaria em outro sucesso, “O Vingador do Futuro” (1990), de Paul Verhoeven), e planejava transformá-lo num roteiro. Como a realização de “Total Recall” implicava um projeto caro e demorado, O’Bannon sugeriu que trabalhassem no esboço de seu próprio filme, nesse estágio intitulado provisoriamente de “Star Beast” (“A Fera das Estrelas”, em tradução livre). A ideia de ambos era oferecer a realização do longa para Roger Corman, o antigo rei das produções de baixo orçamento de Hollywood e mentor de diretores do porte de Francis Ford Coppola e Martin Scorsese.
            Antes, porém, que os dois dessem prosseguimento ao trabalho, o cineasta e escritor chileno Alejandro Jodorowsky (famoso na época pelo filme de arte “El Topo”, de 1970) telefonou de Paris para O’Bannon convidando-o para participar da preparação do roteiro da versão cinematográfica do clássico romance de ficção científica “Duna”, de Frank Herbert. Assim foi que Dan O’Bannon deixou Shusett falando sozinho e viajou para o outro lado do Atlântico, na esperança de que finalmente pudesse dar o grande salto que esperava na carreira. Embora o filme jamais tenha sido realizado por Jodorowsky (somente anos depois David Lynch o levaria às telas, com resultados decepcionantes), os 24 meses da abortada pré-produção de “Duna” renderam ao menos dois importantes contatos para o roteirista. O primeiro, o ilustrador de livros de ficção científica Chris Foss, cujas visões de paisagens de planetas alienígenas e naves espaciais mirabolantes tinham uma característica inusitada, incomum, que o aproximava de pintores surrealistas como Salvador Dalí. O outro contato estabelecido nesse período foi com um artista plástico suíço que na ocasião expunha os seus trabalhos em Paris. H. R. Giger era tudo menos um pintor comum. Viciado em ópio, tinha visões terríveis que pretendia sublimar em suas obras. Uma delas, um livro ilustrado baseado no “Necronomicon” do escritor americano H. P. Lovecraft, causou forte impressão em O’Bannon com as suas imagens perturbadoras de criaturas estranhas e que pareciam saídas do pior dos pesadelos.
            De volta aos Estados Unidos e sem um tostão no bolso, Dan O’Bannon retomou com Shusett o trabalho no roteiro de “Star Beast”. Foi nesse estágio que eles conceberam a cena chave da história, em que a criatura emerge do ventre de um dos tripulantes depois de ter sido incubada em seu organismo por um “Facehugger”, como ficou conhecido aquele ser de garras compridas como dedos esqueléticos que adere ao rosto dos astronautas. Outro valioso acréscimo foi a mudança do título. Dessa forma, “Star Beast” passou a ser simplesmente “Alien” (no original em inglês, em português, como se sabe, ele ganhou o subtítulo “O Oitavo passageiro”), e o nome pegou para sempre. Uma vez pronto, o roteiro final foi oferecido para vários estúdios e esteve mesmo muito perto de ser realizado como uma produção B por Corman, como os roteiristas pretendiam desde o início. Contudo, quis o destino que o projeto chegasse às mãos do cineasta Walter Hill (famoso por filmes de ação como “Ruas de Fogo” e “48 Horas”), cujos sócios na produtora Brandywine, David Giller e Gordon Carroll, a princípio não se entusiasmaram muito com o que leram. Para eles, aquilo não passava de um longa barato e bastante medíocre de ficção científica. Embora o próprio Hill confessasse não ter apreço pelo gênero, resolveu tocar o projeto adiante, e com Giller e Carroll reescreveu oito vezes a história original.
            Nenhum dos tratamentos conseguiu melhorar ou ao menos aperfeiçoar significativamente o roteiro de O’Bannon/Shusett e apenas uma contribuição valiosa foi feita, com o acréscimo do andróide, Ash, à tripulação original. Hill tampouco gostou dos nomes dos personagens e decidiu mudá-los todos para os que conhecemos hoje (mas não alterou o sexo de Ripley, que continuou sendo um homem por algum tempo) e os redefiniu para que se tornassem uma espécie de “caminhoneiros do espaço”, uma mudança que contribuiu não só para humanizá-los, afastando-os do estereótipo dos astronautas frios e insensíveis de filmes como “2001” e “Corrida Silenciosa”, como ajudou a dar o tom de realismo que a trama pedia. Para O’Bannon e Shusett, entretanto, o mais doloroso foi que os produtores se apoderaram inescrupulosamente do projeto e limaram os nomes deles como autores do roteiro final.
            “Alien” agradou bastante ao então CEO da Fox, Alan Ladd Jr. (filho do lendário astro Alan Ladd, do clássico “Os Brutos também amam”), então envolvido na produção de outro longa-metragem de ficção científica em que muita pouca gente levava fé, “Guerra nas Estrelas”. A propósito, foi preciso esperar que a obra de George Lucas estreasse, em abril de 1977, para que o seu sucesso fenomenal animasse os executivos do estúdio a darem o sinal verde para a Brandywine levar adiante o projeto, já que se tratava da única aventura espacial que tinham em mãos. A primeira providência dos produtores foi encontrar um diretor que soubesse como dar àquele material a seriedade e o clima de pesadelo que a trama exigia. A princípio cogitado para a direção, o próprio Hill declinou da tarefa, por não se achar o nome mais adequado para lidar com os intrincados efeitos especiais. Depois de oferecê-lo a alguns realizadores renomados, entre os quais Robert Aldrich (de “Os Doze condenados”) e Peter Yates (“Bullitt”), decidiram buscar na Inglaterra um jovem cineasta advindo da publicidade e ainda pouco conhecido, a não ser por um trabalho que lhe valeu naquele mesmo ano de 1977 o prêmio de Melhor Estreia no Festival de Cannes, uma adaptação do conto “Os Duelistas”, do escritor ucraniano naturalizado britânico Joseph Conrad.
            O que parece ter impressionado os produtores na pessoa de Ridley Scott foi a extraordinária profundidade e riqueza de detalhes com que ele trabalhou a obra de Conrad, passada na época das Guerras Napoleônicas na Europa do século XIX. Conhecido por sua meticulosidade, Scott recriou uma época passada com o mesmo grau de autenticidade que Hill e seus sócios esperavam transpor para o mundo futuro de “Alien”. Assim que leu o roteiro, o diretor inglês ficou tão entusiasmado que pegou o primeiro voo para Los Angeles e em pouco mais de 24 horas assinava o contrato com a Brandywine para realizar o longa. A sua ideia inicial era criar uma obra no mesmo nível de suspense e violência explícita de “O Massacre da Serra Elétrica”, o original de 1974, que o diretor inglês reputa como o maior filme de terror de todos os tempos. Mas talvez a influência mais direta e jamais confessada tenha sido uma antiga fita trash de 1958 intitulada “Ele! O Terror que veio do espaço”, e que tem vários paralelos com o “Alien – O Oitavo passageiro” que conhecemos, como veremos adiante. De volta a Londres, o próprio Scott dedicou-se nas semanas seguintes a fazer os storyboards baseados no roteiro, o que ajudou a visualizá-lo. Muito do estilo desses storyboards derivou tanto do “2001” de Kubrick quanto de “Guerra nas Estrelas” e da arte futurista e inovadora da revista de fantasia e FC francesa “Metal Hurlant” (mais conhecida entre nós por sua contraparte americana, “Heavy Metal”), sobretudo dos traços do quadrinista francês Moebius, que posteriormente contribuiria com “Alien” fazendo o design básico dos trajes espaciais.
            O ingresso de Scott e os seus storyboards bastante detalhistas não só catapultaram o orçamento do filme de 4 para 8 milhões de dólares, como atraíram o interesse de uma enorme gama de artistas gráficos. Naturalmente, a preocupação principal do diretor, nessa etapa inicial, era com o astro do filme em si. Ele sabia que, se não conseguisse criar um monstro convincente, toda a produção viria por água abaixo. A princípio, ele não sabia o que procurava, mas tinha a firme convicção do que não queria: um homem fantasiado em roupa de borracha em cenários pintados ao fundo. Foi então que Dan O’Bannon lembrou-se do artista suíço que havia conhecido na França durante os preparativos de “Duna” e mostrou a Scott o livro com as ilustrações dele, o “Necronomicon”. A arte de H.R. Giger impressionou vivamente o cineasta na mesma proporção e no sentido inverso com que levantou objeções do estúdio. A Fox temia que o monstro fosse repulsivo demais para a audiência. Felizmente para nós, o diretor e os produtores conseguiram convencer os executivos engravatados de que poderiam usar aqueles trabalhos se soubessem de que maneira fazê-lo. O que mais causou assombro em Scott foi a natureza biomecânica das criaturas, a essência sexual daquela arte, particularmente o Necronome número 4. Também ficou decidido que Giger ficaria responsável não apenas pelo design do monstro, mas pelo esboço do ovo embrionário, do “Facehugger”, do “filhote” de alien que brota do estômago de Kane (John Hurt) e, além disso, dos exteriores e interiores da bizarra espaçonave alienígena.
Outros dois nomes que participaram de “Duna” ingressaram no projeto, Chris Foss e Ron Cobb. Foss, com um estilo mais metafórico e surreal, ficou encarregado de projetar o exterior da nave cargueiro Nostromo, enquanto Cobb, que originalmente faria o desenho do monstro, fez melhor uso de sua mente lógica e matemática para criar o interior claustrofóbico do Nostromo e do Narciso, a nave auxiliar em que Ripley (Sigourney Weaver) se refugia no final do filme.
Depois de várias tentativas frustradas para a montagem da armadura do monstro, os produtores contrataram o italiano Carlo Rambaldi, que pouco tempo antes havia criado o simpático alienígena Puck, de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, de Steven Spielberg, e que depois de “Alien” daria vida ao mais famoso E.T. de todos tempos em outro filme de Spielberg. Trabalhando em conjunto com Giger, Rambaldi criou uma cabeça com cerca de 900 peças móveis, dentre as quais a mais infame era a mandíbula ejetável, e manufaturou o traje empregando tubos de um velho Rolls-Royce, vértebras de serpentes e outros elementos pouco ortodoxos. E, sim, a baba que escorre da boca do monstro é mesmo o gel lubrificante KY, em doses industriais. Para vestir o traje emborrachado, primeiramente o diretor procurou artistas de circo, mas acabou optando por um rapaz nigeriano que os produtores encontraram num pub londrino. Com quase dois metros de altura, bastante esbelto e com pernas e braços compridos, o estudante de designer gráfico Bolaji Badejo era a escolha perfeita para a maioria das cenas, inclusive as raras tomadas de corpo inteiro da criatura. Para simular o movimento lento e ameaçador que o papel requeria, Badejo chegou a freqüentar aulas de tai chi chuan. Um dublê, Eddie Powell, também foi usado para algumas sequências em que o alien executava malabarismos no ar.
Num filme com tantas exigências visuais e de efeitos especiais (que mereceram o Oscar de 1979), Ridley Scott não podia se dar ao luxo de se preocupar também com as interpretações. Foi assim que, para os papeis dos sete tripulantes do Nostromo, ele recorreu a atores que, se não eram grandes astros do cinema, ao menos teriam o desprendimento e a naturalidade requeridos para dar vida aos chamados “caminhoneiros do espaço”, um grupo aparentemente heterogêneo de homens rudes, cheios de vitalidade e temperamentos fortes. Sim, homens, pelo menos nos primeiros tratamentos do roteiro, pois somente numa etapa bastante avançada da pré-produção é que se decidiu trocar o sexo de dois dos personagens, um deles Lambert (Verônica Cartwright, que quando criança havia trabalhado sob a batuta de Alfred Hitchcock em outro clássico do horror fantástico, “Os Pássaros”). A decisão, bastante acertada, talvez tenha ocorrido por conta da voga, nos anos 1970, de um certo gênero de filmes estrelados por mulheres fortes, como “Júlia”, com Jane Fonda. Mais ousado ainda foi fazer de Ripley a protagonista, já que, até então, com exceção de “King Kong”, nenhuma mulher costumava ficar adiante do elenco em filmes desse tipo. Para interpretá-la, Scott e os produtores escolheram uma atriz oriunda da Broadway, cuja imponência e presença causaram imediata e duradoura impressão em todos: Sigourney Weaver.
Weaver entrou para um elenco que incluía Tom Skerritt (Dallas), o ator shakespeareano Ian Holm (Ash), Harry Dean Stanton (Brett), Yaphet Kotto (Parker) e John Finch, que originalmente havia sido escalado para o papel de Kane, mas foi afastado logo no início das filmagens por problemas de saúde e acabou sendo substituído por John Hurt. Há também um oitavo tripulante, não creditado, o gato Jonesy, na verdade, quatro diferentes felinos (o famoso arreganhar de dentes do animal foi deliberadamente provocado por Ridley Scott ao encurralá-lo em um canto).
As filmagens, que tiveram lugar nos estúdios Shepperton, na Inglaterra, exigiram a construção de imensos cenários, tanto do planeta alienígena, quanto da nave caída e dos interiores do Nostromo e do Narciso. Na busca pela autenticidade, Scott pouco revelava aos atores do que ia acontecer e exigiu que permanecessem a maior parte do tempo possível confinados aos cenários claustrofóbicos do interior do Nostromo, o que causou um estresse considerável tanto na equipe quanto no elenco. O diretor julgou que esse recurso era necessário para ajudar os atores a experimentarem toda a gama de insegurança e medo que a história exigia. Talvez o momento mais eficaz dessa tática tenha sido justamente a antológica sequência em que o filhote de alien irrompe do estômago de Kane, na mesa de jantar, jorrando sangue e lançando tripas para todos os lados. Astutamente, Scott não revelou a ninguém, com exceção de John Hurt, o que ia acontecer. O horror e o espanto que os atores manifestaram nessa cena, portanto, não é mera encenação.
Somente esse exemplo serve para mostrar a diferença que faz um diretor competente e com pleno domínio dos recursos técnicos e expressivos de seu métier. Conquanto não possa ser considerada uma obra autoral (qual filme é de fato?), indubitavelmente “Alien – O Oitavo Passageiro” deve muito de seu impacto duradouro à contribuição de Scott. Ele parece ter seguido o conselho do escritor americano H.P. Lovecraft, que dizia que o medo mais profundo e intenso é o do desconhecido quando optou por esconder mais do que revelar do aspecto físico do monstro. Na maioria das cenas em que aparece, só o que nos é dado ver do alien são partes, às vezes indistintas, de seu corpo: as mandíbulas, a cauda, as garras. Como Spielberg havia feito antes em “Tubarão” (embora por razões diversas), Ridley Scott sonega a todo momento a visão completa da criatura, adiando-a para a sequência final, quando do embate com Ripley na nave auxiliar. Deve-se encarar essa escolha de duas maneiras. A primeira é que o macete de ocultar em vez de mostrar ajuda a atiçar a imaginação do espectador, amplificando a sua expectativa com relação à ameaça de que só consegue ter fugazes vislumbres. Como sempre souberam os grandes mestres do gênero, o monstro atrás da porta é sempre mais assustador do que aquele que conseguimos ver. Outra maneira de entender essa escolha é que o diretor talvez não se sentisse seguro o bastante para expor integralmente o alienígena logo de cara. É provável que tivesse receio de que a exposição integral expusesse demais o artifício do ator fantasiado em uma roupa de borracha e provocasse o riso no lugar do terror.
Também deve ser creditado a Scott a acertada decisão de criar um visual “sujo” para os cenários, sobretudo os do interior do Nostromo, ajudando a enterrar de vez o paradigma das espaçonaves “cleans” que eram de praxe na ficção científica pelo menos até “Guerra nas Estrelas”, o primeiro filme que rompeu com essa tradição. Entretanto, em vez de causar estranheza, o ambiente propositalmente “bagunçado”, sombrio e decadente (com exceção da enfermaria, aparentemente o único espaço “arrumadinho” da imensa espaçonave, justamente por refletir a mentalidade lógica e fria de seu responsável, o andróide Ash) é o que nos ancora à sórdida realidade e contribui para dar verossimilhança e humanidade à história. É claro que os corredores claustrofóbicos e labirínticos têm a função extra de ampliar o suspense, principalmente nas cenas da fuga de Ripley, no terço final.
Mas, se prestarmos bem atenção, vamos perceber que há uma sutil gradação de “decadentismo”, digamos assim, entre os deques superiores do Nostromo e os inferiores, onde sugestivamente ficam os motores que impulsionam a enorme espaçonave e que se assemelham aos esgotos de uma grande cidade. Essa divisão espacial está relacionada à estratificação social que separa mais do que une os sete tripulantes, com Dallas, o capitão, e Ripley, a primeira oficial, no topo da pirâmide e daí descendo sucessivamente até Brett e Parker, os menos privilegiados de todos, que habitam a sala das máquinas. Há um certo comentário social no questionamento dos dois com relação aos ganhos salariais, logo depois que despertam dos casulos, no começo do filme. Diferentemente do futuro meio utópico de “Jornada nas Estrelas”, por exemplo, “Alien” sugere que não só as diferenças sociais e raciais continuarão a existir nos séculos vindouros como serão exacerbadas. Nota-se, a todo momento, uma tensão entre esses grupos, tensão feita de preconceitos e discriminações que se tornam ainda mais agudas quando a criatura se instaura na nave. O próprio nome do cargueiro espacial ajuda a elucidar essa questão. “Nostromo” é também o título de um livro de Joseph Conrad (não por acaso, o mesmo autor de “Os Duelistas”), que trata exatamente dos conflitos sócio-econômicos e políticos em um país sul-americano (o livro tem como cenário a fictícia cidade mineradora de Sulaco. Significativamente, o Nostromo é uma refinaria de minério. Também é interessante lembrar que Sulaco é o nome da nave de “Aliens”, a sequência de “Alien – O Oitavo passageiro”). Em “Alien”, não há a menção a Estados nacionais ou a organismos extra-planetários como a Federação de Planetas em “Jornada”, mas apenas de uma onipresente, misteriosa e nada escrupulosa Companhia. Certamente derivada da ideia da Corporação Espacial de “Duna”, a Companhia (nos filmes seguintes rebatizada de Weyland-Yutani) é antes uma premonição do que um alerta de que o futuro será dominado por imensas empresas capitalistas privadas, um temor legítimo que Ridley Scott deve ter sentido naqueles anos imediatamente anteriores à era Margaret Thatcher em seu país (“Alien” estreou nos cinemas americanos em maio de 1979, o mesmo ano em que Thatcher ascendeu ao cargo de primeira-ministra).
Numa outra esfera de interpretação, pode-se ler “Alien” como uma metáfora do medo freudiano da sexualidade. Nesse sentido, a acertada decisão de transformar Ripley em uma mulher, já num estágio avançado da preparação do roteiro, não só deu uma dimensão extra ao filme como veio ao encontro das sugestões psicossexuais evocadas pela arte de Giger. Se repararmos bem, a cabeça do monstro alienígena é, antes de tudo, um imenso falo (esse traço fica ainda mais evidente nos desenhos originais do livro “Necronomicon”, que serviram de inspiração para “Alien”). A própria criatura é descrita em certo momento como um ser que vive para se alimentar e procriar. “Eu admiro a sua pureza”, diz Ash depois de ter a cabeça arrancada, numa referência aos instintos naturais do alienígena, que não podem ser facilmente classificados dentro de categorias morais humanas de “bem” ou “mal”.
A forma como o alien se reproduz tem profundas conotações eróticas. O “facehugger” que adere ao rosto de Kane (com saco escrotal e tudo) introduz o ovo no interior do astronauta numa simulação macabra de sexo oral. Numa pérfida inversão do processo de reprodução humano, ele “nasce” não de um útero feminino, mas do ventre de um homem. Por falar em ventre, outra referência sexual bastante explícita está no desenho e nos detalhes da nave espacial alienígena. Se repararmos bem, o estranho formato do veículo é semelhante ao de uma Trompa de Falópio, o órgão sexual feminino. Não por acaso, as três entradas para o seu interior têm o formato de vaginas, e a nave nada mais é do que um imenso útero úmido e cavernoso onde são gestados os embriões de aliens.  
Complementando as associações psicossexuais, é interessante chamar a atenção para o fato de que a história toda se resume ao embate entre um macho (o monstro) e uma fêmea (Ripley). Em contraste com a vulnerável e fragilmente humana Lambert, a personagem interpretada por Sigourney Weaver é firme em suas convicções e parece desprovida de emoções, digamos assim, femininas (é provável que esse caráter “masculinizado” da personagem seja um rastro de sua origem e que permaneceu inalterado no desenvolvimento do roteiro e do filme). Também nesse sentido o gato, Jonesy, que ela se esforça por resgatar a todo momento, nada mais seria do que a representação simbólica dos instintos naturais (sexuais, agressivos e outros) que Ripley se esforça em suprimir. Mais do que isso, ela parece alheia a qualquer rastro de desejo sexual (o famoso strip-tease no final do filme apenas reforça ainda mais esse aspecto). Nesse sentido é que deve ser entendida a tentativa de “estuprá-la” empreendida pelo andróide Ash. Incapaz, por sua própria natureza, de consumar o ato sexual com Ripley, o robô procura “violá-la” oralmente com uma revista pornô (é interessante notar que havia uma cena no roteiro que jamais chegou a ser filmada na qual Ripley e Dallas trocavam carícias).
É nela e em torno dela, portanto, que se dá o sentido de todo o filme. Ao contrário do mito grego, aqui é Ariadne, e não Teseu, quem enfrenta e mata o Minotauro no lendário labirinto (outra analogia interessante a se fazer é que o alien, como o monstro grego, é um ser híbrido, mas não metade homem e metade touro, e sim metade animal e metade máquina, numa curiosa fusão biomecânica da qual voltarei a falar adiante). Como já foi dito, a inversão de papeis tradicionais na ficção científica, em que comumente a heroína é quem deve ser salva do monstro em vez de destruí-lo, reforça a impressão de que “Alien” é uma espécie de romance gótico espacial mais do que qualquer outra coisa.
Os romances góticos foram um gênero literário que vicejou sobretudo na Inglaterra vitoriana da segunda metade do século XIX. Livros como “Jane Eyre” e “O Morro dos ventos uivantes”, das irmãs Brontë, tratavam das agruras de jovens donzelas às voltas com homens dominadores e agressivos. Na maioria das vezes, essas histórias se passavam em cenários inóspitos permeados de neblinas e ambientações soturnas, como velhas mansões e castelos com corredores obscuros. No fundo, expressavam, à sua maneira, o medo freudiano das mulheres com relação ao ato sexual, ao trauma de serem violadas por um homem. O romantismo, aqui, estava antes na cabeça das jovens e inocentes leitoras e de suas autoras do que na crua realidade do matrimônio. Esses mesmos elementos, as paisagens nevoentas (no planeta), as habitações misteriosas e cheias de corredores escuros (do Nostromo e da nave alienígena), o macho ameaçador (o alienígena, embora o gênero sexual da criatura jamais fique claro) estão presentes de forma inequívoca em “Alien – O Oitavo Passageiro”.  Essa “supremacia feminina” da trama, em que os personagens masculinos são os primeiros a serem aniquilados, reverbera em detalhes sutis, como o computador central do Nostromo, que tem o sugestivo nome de “Mãe” e não deixa de englobar o conceito da maternidade, da procriação, o efeito lógico do ato sexual.
Outro conceito vinculado às sugestões sexuais espalhadas por todo o filme está o da evolução. Como foi dito acima, o monstro alienígena parece ser um híbrido animal/mecânico, e Scott faz questão de frisar isso seja na textura de sua pele, na conformação de sua cabeça e de seus órgãos. Como o próprio diretor parece ter sugerido décadas depois, em “Prometheus”, é muito provável que o alien não passe de um experimento genético de uma raça extraterrestre, talvez com o propósito de aperfeiçoar a nossa espécie ou algo do gênero. Uma experiência que teria dado muito errado e foi abandonada. Se essa é realmente a hipótese aqui, então a história toda de “Alien” e suas sequências (e, principalmente, a sua prequel) se resume ao velho tema shelleyano [1] da criação de vida artificial e da criatura que se volta contra o criador. Embutida nessa ideia, portanto, está presente outro tema muito caro a Scott e que ele voltou a abordar de forma mais explícita em seu filme seguinte, “Blade Runner”, o da busca pela vida eterna e as suas conseqüências.
A partir daí, resvalamos numa visão metafísica e religiosa da história, ou ao menos religiosa ao avesso, como numa demoníaca missa negra, em que o deus é o próprio demônio (sugestivamente, em sua primeira aparição em forma adulta, o alien desce do alto – do céu? – com os braços abertos como um crucificado). Isso porque há, de fato, sutis referências religiosas no decorrer de todo o filme. Os próprios meandros do Nostromo evocam de maneira bastante evidente uma catedral gótica. E o gótico (ou o neogótico ao estilo de H.R. Giger) está presente por toda a parte, e não só da arquitetura. As cascatas de luz que emanam do alto em certas cenas, por exemplo, remetem à iluminação do interior das igrejas medievais.
Há, ainda, uma última hipótese de interpretação a se considerar. Como em muitos livros e filmes góticos, “Alien” também deixa no ar a sugestão de que tudo pode não passar de um sonho, do pesadelo de uma jovem adormecida. Não se pode esquecer que o filme começa com os astronautas despertando e, no final, Ripley (e Jonesy), os únicos sobreviventes, voltam a mergulhar no sono para a longa viagem de volta para casa. Talvez aí esteja a grande sacada de Ridley Scott, trilhar a fronteira nebulosa entre a realidade e a ficção sem jamais resvalar totalmente para um lado ou outro.


Esboço do Alien feito pelo artista H.R. Giger - Fonte: Wikipedia




[1]  Relativo a Mary Shelley, a criadora do romance “Frankenstein, ou o Prometeu moderno” no século XIX.

 
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