e Confira a versão integral de "A Ira de Aquiles e a guerra que nunca aconteceu", a resenha crítica da "Ilíada", de Homero ~ Diário do Moretti
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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Confira a versão integral de "A Ira de Aquiles e a guerra que nunca aconteceu", a resenha crítica da "Ilíada", de Homero






A IRA DE AQUILES E A GUERRA QUE NUNCA ACONTECEU

Por Marco Moretti

Grande Tidida, por que saber queres minha ascendência?
As gerações de mortais assemelham-se às folhas das árvores,
que, umas, os ventos atiram no solo, sem vida; outras,
brotam na primavera, de novo, por toda a floresta viçosa.
Ilíada, Canto VI (145-148)

Busto em mármore do poeta Homero - Fonte: Wikipedia


            Para aqueles que só conhecem a Guerra de Troia pelos filmes de cinema, deve ser uma enorme decepção ler o poema épico do grego Homero “Ilíada”. Isso porque nele não é narrado e nem sequer mencionado nenhum dos três episódios mais conhecidos desse conflito mítico: o artifício do Cavalo de Troia, a morte de Aquiles e o incêndio e a destruição final da cidade. A obra retrata apenas um momento, bastante curto na realidade, do conflito que opôs os gregos antigos aos troianos e que teria durado cerca de 10 anos. Toda a narrativa se passa em apenas alguns dias, e gira em torno da célebre ira do semideus Aquiles, provocada pela morte do companheiro Pátroclo pelas mãos do príncipe troiano Heitor.  
            Em contrapartida, o que filmes como “Troia”, com Brad Pitt no papel do irado herói grego, ficam devendo à obra homérica, é a presença dos deuses olímpicos. Atena, a deusa da sabedoria, Ares, o deus da guerra, Afrodite, a deusa do amor, Apolo, o deus das artes (e das pestes), Hefesto, o deus dos ferreiros, não só participam do conflito como tomam partido ativo a favor deste ou daquele lado, conforme varia o pêndulo de suas simpatias. Em certos instantes climáticos, como no confronto entre Paris e Menelau pelo direito de posse da bela Helena, o pivô de toda a guerra, a intervenção divina é decisiva e chega a mudar o rumo dos acontecimentos. Depois de um duelo violento (que depois serviria de inspiração para os duelos do Velho Oeste, em tantos filmes de Hollywood), em que Menelau está prestes a desferir o golpe de misericórdia no príncipe troiano, Afrodite o envolve numa nuvem e o “teletransporta” para o quarto de Helena no palácio de Tróia.
            Foram passagens fantásticas como essa (e outras, ainda mais bizarras, como a do cavalo de Aquiles que fala e prediz a tragédia que aguarda o seu dono) que levaram os estudiosos, durante séculos, a considerarem a Guerra de Troia uma espécie de conto de fadas mitológico, e foi preciso esperar até o século XIX para que o alemão Heinrich Schliemann, munido com pouco mais do que uma fé inabalável nas palavras de Homero, descobrisse sob a cidade de Hissarlik, no noroeste da atual Turquia, as ruínas da lendária cidade. Ou cidades, se levarmos em conta que Schliemann desencavou não uma Troia, mas sete (e mais duas foram descobertas depois), erguidas uma em cima da outra, como bonecas russas, no decorrer de vários milênios. Se Troia realmente existiu e a guerra provavelmente aconteceu, como demonstram as evidências materiais, por volta 1200 a.C., então é lícito supor que os seus personagens principais tampouco foram fruto exclusivo da imaginação de um poeta, certo?
            Mas, quanto a isso, tudo o que temos é o que consta na “Ilíada”. E o que lemos em seus versos é, certamente, o produto do talento de um suposto aedo cego (que também não temos certeza se realmente existiu), em vez de uma reconstituição histórica apoiada em fatos, nos moldes de um livro reportagem dos dias de hoje. Considerá-la como tal é o mesmo que achar que a “Bíblia” também é inteiramente verídica. Sob esse ponto de vista, provavelmente o poema fala mais da época em que teria sido composto, entre os séculos VIII e VII a.C., do que da época em que a guerra se passa, uns 300 anos antes. Naqueles tempos, ainda distantes do florescer da cultura, das artes e da democracia na Atenas de Péricles, a Grécia se encontrava mergulhada numa espécie de era feudal, com reinos dispersos por todo o seu território, dominados por clãs e governantes dinásticos de linhagens nobres, algumas das quais alegavam ter suas origens nos próprios deuses, da mesma forma como, na Idade Média, os brasões de família evocavam um passado de glórias e origens santificadas. Num contexto desses, há pouco espaço para o mérito individual e para a crença, bastante difundida em nossa mentalidade do século XXI, de que cada ser humano só depende de si mesmo e de seu esforço individual para domar o destino à sua vontade. Assim, o que a “Ilíada” reflete são os valores aristocráticos daquela sociedade, profundamente imbuída de um caráter elitista e patriarcal, e na qual as virtudes são transmitidas e herdadas pelo sangue, e não adquiridas pelo aperfeiçoamento constante de nossas capacidades.
            Condizente com essa mentalidade, não há lugar, no poema, para personagens, digamos assim, “comuns”. Somente os príncipes, reis ou suas esposas e filhos têm destaque. Fora dessa casta privilegiada, a única menção a pessoas de um estrato inferior são o sacerdote do deus Apolo, Crises, e as suas duas filhas, as escravas tomadas por Agamenon e Aquiles, respectivamente, Criseida e Briseida, e mesmo assim só mencionadas porque têm um papel de alguma relevância no desenrolar dos fatos. Para frisar esse distanciamento entre os heróis dos mortais comuns, Homero se preocupa em celebrar e engrandecer os seus feitos, convertendo-os em figuras por vezes sobre-humanas, como é o caso do próprio Aquiles. Uma das consequências disso é que esses personagens perdem muito de sua humanidade e se tornam entidades abstratas, quase irreais, carregadas de simbolismo. Ao seu modo, cada um deles é menos um ser humano de carne e osso do que o emblema de um tipo específico de valor aristocrático, como a nobreza de caráter (Heitor), a astúcia (Ulisses), a bravura (Aquiles) e assim por diante. Características essas sublinhadas nas alcunhas que acompanham os nomes de cada um deles, da mesma forma como, poucos séculos depois, o teatro grego faria uso das máscaras para definir as personalidades e o caráter dos personagens. No mundo dos quadrinhos modernos, algo parecido sucede com os super-heróis, em que os Super-Homens e Homens-Aranhas adquiriram o status de símbolos de virtudes inspiradoras (ao menos para os padrões culturais americanos).  

Pintura antiga da luta entre Aquiles e Heitor - Fonte: Wikipedia


            Outra consequência dessa espécie de culto à aristocracia é a dificuldade que temos, sobretudo nós, em sentir empatia por esses personagens. Nos gibis, isso não acontece com relação aos super-heróis fantasiados porque as suas contrapartes, os Clark Kents e Peter Parkers, são as âncoras humanas que os amarram à realidade do homem comum. Talvez por perceber isso é que Homero tenha se preocupado em dotar os seus heróis de alguma fraqueza particular, seja um traço moral duvidoso, seja um ponto fraco específico, como o famoso “calcanhar de Aquiles”. Ainda assim, os personagens homéricos comportam-se de acordo com aquilo que se espera deles. Nesse mundo de características sólidas e imutáveis, não há lugar para substratos psicológicos contraditórios, para zonas cinzentas de personalidade. Mas interpretar a “Ilíada” do ponto de vista moral cristão seria um equívoco tão grande quanto considerar que a obra encerra alguma mensagem simplista do tipo altruísta. O típico esquema maniqueísta do bem contra o mal, ou da luz e das trevas está absolutamente ausente em Homero. Não há mocinhos nem bandidos nessa história, apenas gregos e troianos, nós e eles. Mesmo assim, é surpreendente que o poeta tenha tomado o cuidado de não impor rótulos desfavoráveis aos habitantes de Tróia. Na verdade, com exceção de Paris, o raptor, todos os heróis troianos são mostrados sob uma luz até mais dignificante do que os próprios gregos, o que seria pouco lógico se a intenção do autor fosse apenas exaltar as qualidades de seu povo vitorioso. Não há personagem mais comovente em todo o poema do que o rei Príamo, que deixa a sua majestade de lado para, cheio de dor e pesar, entrar no acampamento inimigo e rogar a Aquiles o corpo morto do filho, Heitor. O próprio Heitor fornece o único vislumbre de humanidade em todo o poema, quando, momentos antes de entrar em batalha, vai ao seu quarto real para se despedir da mulher, Andrômaca, e do filho deles ainda bebê. É raro, na história da literatura, vermos um momento tão tocante, tão cheio de emoção, quanto esse.
            São cenas como essa que ajudam a interromper momentaneamente o ritmo do poema, em sua essência uma longa e detalhada narração de batalhas campais. Em algumas passagens, a violência dos golpes é descrita em toda a sua primitiva brutalidade, com a descrição crua de ossos sendo despedaçados, carnes perfuradas por lanças e vísceras dilaceradas, numa violência gráfica que chega a rivalizar em intensidade com a do cinema moderno. Nem mesmo os deuses escapam ilesos. A determinada altura da refrega, o grego Diomedes, instigado por Atena, fere Afrodite e o próprio Ares. Nem poderia ser diferente numa história protagonizada por homens, narrada por um homem para ser lida (e ouvida) por uma audiência predominantemente masculina. Nesse universo de valores heroicos masculinos, as mulheres têm pouco espaço, e parecem servir sobretudo como catalisadoras de conflitos entre os homens. Entretanto, não nos apressemos a pensar que esse papel atribuído à presença feminina é desprovido de importância. Em primeiro lugar, cabe a duas mulheres, as escravas Criseida e Briseida, a função de por em funcionamento a engrenagem dramática que levará ao afastamento de Aquiles dos combates, à subsequente morte de seu companheiro e amado Pátroclo nas mãos de Heitor, e à desmedida ira que levará o semideus a matar o príncipe troiano. Também deve-se à disputa entre três deusas olímpicas, Afrodite, Atena e Hera, pelo lendário pomo da discórdia, e a uma mulher, Helena, a deflagração da própria Guerra de Tróia.
A alegada misoginia de Homero, que as feministas hoje chamariam de machismo, deve ser entendida dentro daquele referido código de valores partriarcais da época em que o poema foi criado, e não segundo os nossos critérios. Só assim é possível entender o propósito da obra. Na mesma proporção em que as mulheres têm um papel ativo, embora discreto, na deflagração e condução da trama, o companheirismo masculino, do qual derivam valores como a fidelidade aos vínculos de amizade e às promessas feitas, o “fair-play” nos embates corporais, e toda a carga inerente de ambiguidades sexuais e éticas decorrente, é componente ativo do poema. Isso fica explícito em mais de uma ocasião, mas principalmente na dor de Aquiles pela morte de Pátroclo (e que não deve ser confundido com um simples caso de amor homossexual, conquanto isso não possa ser descartado) ou no curioso episódio de Diomedes e do lício Glauco, que se recusam a lutar um com o outro depois que se tornam amigos no campo de batalha.
            A esse respeito, é provável que Homero, com a “Ilíada”, pretendesse dizer algo aos seus contemporâneos, principalmente aos jovens. Pouco se sabe sobre o período histórico em que ele viveu, mas é possível que o poeta sentisse, por qualquer razão que fosse, a necessidade de resgatar ideais e valores já esquecidos em seu tempo. Talvez decorra daí o esforço de reconstrução mítica do passado empreendido por ele em sua obra. Isso nada tem a ver com a glorificação do passado com o propósito de falsear a história. Uma das principais funções dos mitos, como se sabe, é servirem de modelos, ou arquétipos, para empregar um termo caro à psicanálise junguiana, a serem admirados e imitados pelas gerações futuras. Esse é o papel das figuras santificadas, e é também o papel dos heróis, fictícios ou não. Portanto, é inútil discutir se Agamenon, Menelau, Aquiles, Heitor, Ulisses, Príamo, Páris ou Helena existiram ou se existiram como é mostrado no poema. O importante é o que eles representaram durante milênios para aqueles que ouviram e leram (e continuam a ouvir e ler) a “Ilíada”.

Estátua de Menelau segurando o corpo de Pátroclo
Fonte: Wikipedia


           
            6 de dezembro de 2014
           


1 comentários:

Claudio Carina disse...

Beleza, Marcao!

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