e Leiam a versão completa do conto "A Tragédia de uma mulher ridícula" ou "Os Burocratas também morrem" ~ Diário do Moretti
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sábado, 29 de novembro de 2014

Leiam a versão completa do conto "A Tragédia de uma mulher ridícula" ou "Os Burocratas também morrem"





A TRAGÉDIA DE UMA MULHER RIDÍCULA
ou
OS BUROCRATAS TAMBÉM MORREM

Por Marco Moretti

"Retrato de Marie", de Pablo Picasso
Fonte: Wikipedia

“As únicas pessoas completamente constantes
são os mortos.”
Aldous Huxley

            Deve-se a uma tecla de computador defeituosa e a uma vírgula erroneamente digitada o incidente que provocou a morte de Maria Augusta. O que não deixa de ser uma suprema ironia, já que a pobre mulher sempre se esmerou, durante uma vida inteira de dedicação ao trabalho, a cumprir rigorosamente as suas funções na intrincada engrenagem burocrática das empresas pelas quais passou. Alguém que era incapaz de deixar um só clipe de papel fora do lugar e que a todo momento se preocupava em alinhar, com precisão geométrica, as pilhas de folhas de cadastros que mantinha sobre a mesa, ela era ao mesmo tempo e desde jovem uma zelosa protetora de sua imagem. Austera a ponto de fazer do termo “rotina” uma espécie de religião particular, Augusta nada tinha da graça sutil ou, ao menos, da carismática simpatia que caracteriza as solteironas de sua idade. Não seria honesto nem polido para com ela revelar esse detalhe, de resto tão pouco relevante quanto os escassos e pouco confiáveis relatos de seu passado nebuloso. Tudo o que havia para se saber a respeito dela é o que todos fartamente conheciam, fosse no dia a dia do trabalho, fosse nas atividades domésticas. Arriscar-se a afirmar algo mais do que isso seria generosa leviandade sem embasamento nos fatos.
Talvez a sua aparência, o modo de se comportar e de se vestir tivessem algo a dizer sobre ela, pode-se especular. Sob esse ponto de vista, seria mais fácil desvendar a personalidade da Mona Lisa do que devassar essa natureza arredia ao mínimo escrutínio. Não era particularmente feia, nem particularmente atraente, nem sequer era particularmente interessante. Na verdade, a única particularidade dela era não ter nenhuma. É possível detectar algum rastro de vaidade no corte do cabelo castanho-claro liso, curto atrás e dos lados, arrematado com uma franjinha ridícula, que lhe dava a aparência de uma dedicada garota ginasial, ou na milimétrica precisão com que aparava as sobrancelhas. Mas isso era antes um indício da monótona meticulosidade que permeava todas as coisas que ela fazia do que uma impetuosa manifestação de vontade própria. Na busca por uma fugidia distinção, alguém poderia apontar para a discreta elegância com que Augusta escolhia os vestidos, todos tediosamente variando entre o amarelo e o amarelo num tom levemente escuro, o que, convenhamos, seria destacar um senso estético que ela absolutamente não possuía. Até mesmo nos sapatos de couro lustrosos e saltos de duas polegadas ela pouco se sobressaía. Não que o seu 1m70 de altura fizesse dela propriamente uma modelo de passarela, mas é impossível evitar imaginar o que poderia ter sido uns 20 anos antes se os hábitos de uma vida regrada e a dieta nada imaginativa de leituras áridas de comunicados burocráticos e planilhas de custos não a houvessem reduzido às proporções nanicas de uma dedicada e competente funcionária. Entretanto, se há um aspecto em que se podia distingui-la de uma peça de mobiliário tradicional era a voz aguda, bem modulada, digna de soprano de ópera, ainda que os seus dotes musicais jamais tivessem ultrapassado a mera formalidade de uma celebridade sem brilho.
Pois era justamente isso, a voz, o que lhe emprestava um certo ar de moderada autoridade entre as colegas, e chegava mesmo a causar impressão em seu superior, o senhor Freitas. Um metódico diretor de seção tão desprovido de iniciativa quanto uma impressora a laser que jamais deixava de admirar com simpática reserva a previsível regularidade de sua subordinada. Seria um imperdoável exagero dizer que Augusta poderia enviar um e-mail para si mesma com o exclusivo propósito de registrar por escrito as suas próprias atividades diárias, mas a realidade não distava disso. Todo santo dia, exatamente no mesmo horário e sem que o calor ou o frio, as greves ou as enchentes de verão pudessem abalá-la, ela chegava à firma, batia o cartão, sentava-se em sua mesa, ajeitava os óculos desmesuradamente grandes no rosto pequeno, ligava o computador e punha-se a trabalhar até as 18h00, quando então, com a mecânica repetição de gestos e atos, desligava o computador, tirava os óculos, levantava-se da mesa, batia o cartão e ia embora para casa. Pelo que era lícito presumir dessa incontornável repetição de rotinas no ambiente de trabalho, dia após dia, semanas, meses, anos a fio, o Sr. Freitas era capaz de jurar que ela não se agarraria com menos tenacidade às atividades no lar. Na verdade, ele se surpreenderia ainda mais se pudesse testemunhar de perto a aborrecida vidinha particular dessa mulher.
Assim que o despertador tocava, rigorosamente às 6h00, dava-se início a uma imutável sequência de atos, fadados a se repetir mecanicamente, salvo em raras e desprezíveis ocasiões provocadas menos pela negligência do que pelo acaso das circunstâncias. O café era preparado sempre do mesmo modo, com três colheres de sopa cheias de pó e um copo e meio de água posto para ferver. Nunca, em hipótese alguma, havia a possibilidade de variar essas quantidades. Nem nunca, em hipótese alguma, Augusta aceitaria outro tipo de arranjo. Uma vez pronto o café e derramado na xícara de louça decorada com motivos geométricos de losangos e triângulos entremeados (desnecessário dizer, invariavelmente a mesma), eram despejadas 23 gotas de adoçante contadas com rigor matemático. Antes de apanhar as torradas, nunca além nem aquém de duas fatias, ainda que a fome insistisse em bater, ou que não tivesse nenhuma vontade de se alimentar, ela tratava de dispor, numa arrumação meticulosa sobre a toalha de plástico da mesinha encostada a um canto da mirrada cozinha do apartamento, um copo de suco de laranja e um prato contendo o indefectível queijo de minas. Deste, ela cortava precisamente quatro fatias. Todas de igual espessura, como se pode adivinhar. Uma peça fundamental desse ritual doméstico consistia em alimentar com um punhado de alpiste o Horácio, o canário de asas verde-alaranjadas que ela mantinha numa gaiola pendurada sobre a máquina de lavar roupas, na área de serviço. Ao mesmo tempo em que tomava o café, escutava o noticiário diário no rádio, não porque se preocupasse sobremaneira em manter-se atualizada com os fatos, mas para preencher o vazio de sua existência sem graça, ou para ouvir o som de uma voz humana que não fosse a sua. Os únicos acontecimentos que podiam tirá-la dessa trilha irrevogável de afazeres eram os pequenos acidentes que não podia e nem tinha como controlar: a falta de água no prédio, um corte súbito na luz, um defeito inesperado no forno de microondas ou algo assim. Essas eram as únicas coisas capazes de tirá-la do sério, de irritá-la a ponto de deixá-la contrariada o resto do dia, mas que não se pense que isso a abalaria a ponto de mudar um nanomilímetro a disposição para executar o trabalho à sua maneira.
Uma vez no escritório, atuava com a precisão e a indiferença de um computador programado para jamais cometer equívocos. Realizava as tarefas sempre do mesmo modo, sem se preocupar com as conseqüências. Fazia o que devia ser feito, o que haviam determinado que ela cumprisse, e para tanto não importava se desagradasse a alguém. Quando questionada a esse respeito, a sua resposta era monotonamente igual, e, para o arrepio de uma Hanna Arendt [1], ecoava a fala de um réu no Julgamento de Nuremberg [2]:
- Apenas cumpro as minhas ordens.
De tanto se acostumar a obedecer ordens, adquiriu uma capacidade ímpar de portar-se com a máxima indiferença diante das mais absurdas exigências, uma característica odiada por todos e admirada por poucos. Por mais exasperante que essa inflexível dedicação pudesse ser, era inegável que satisfazia plenamente as exigências de seus superiores, e o Sr. Freitas não tinha razões para se decepcionar com a sua subordinada. Ao contrário de outros empregados, ela era incapaz de uma atitude impensada, de deixar-se escorregar por um descuido qualquer. Parecia nunca se enganar, fosse em pensamento, fosse na fala. Era tão previsível e chata quanto um quadro de natureza-morta pintado por um iniciante em artes plásticas. A funcionária ideal, portanto.
Augusta nem sequer dignava-se em reclamar quando era alvo de injustiças, viessem de onde viessem. Certa vez, o Sr. Freitas chamou-a à sua mesa e explicou, ilustrando as palavras com os números de um faturamento ridiculamente baixo, enfeitando o discurso com as más notícias advindas da economia nacional e invocando toda a sorte de desgraças futuras, para ele e para a firma, as razões por que não poderia conceder-lhe o prometido bônus de 10% de produtividade naquele ano.
- Olha, dona Maria Augusta, os gráficos de vendas estão muito abaixo do desejável. A meta deste ano já está comprometida, como pode ver...
Uma pessoa normal teria contra-argumentado, tecido comentários mais ou menos indignados, procurado valorizar o seu esforço na tentativa de reverter a decisão. Mas isso não condizia com a personalidade plana e desprovida de arestas daquela mulher. Limitou-se a escutar o longo palavreado do chefe com cara de paisagem, em seguida disse que não havia problemas, que estava tudo bem desde que isso não alterasse os seus ganhos, educadamente pediu licença, levantou-se e voltou para o seu posto de trabalho como se aquilo nada significasse.
Alguns poderiam chamar isso de arrivismo, não fosse o fato de que ela atendia e resolvia os problemas diários com a mesma expressão de idiotia permanente costurada no rosto. Diante de alguma solicitação que pudesse ferir os ditames de sua função, ou quando deparava com reclamações que considerava despropositadas, assumia o modo de impassibilidade. Nessas ocasiões, nem se o próprio Jesus Cristo descesse à Terra enfeitado de ouro da coroa de espinhos aos pés cravejados seria capaz de arrancá-la dessa empertigada postura.
- Mas estou lhe dizendo, minha senhora, o boleto de cobrança bancária veio errado – desesperava-se o pobre cliente do outro lado da linha, a voz rouca de tanto repetir a mesma explicação – Eu já paguei a prestação deste mês, tenho o comprovante cá comigo.
- Desculpe, meu senhor, mas não é o que consta em nosso sistema – redarguiu ela, num tom monocórdio que variava entre o desinteressado e o prepotente.
- Não é possível, eu não vou pagar duas vezes pela mesma coisa – exasperou-se o homem – Se não cancelarem essa cobrança, eu vou procurar a Justiça, ouviu bem, minha senhora? Vocês terão de se haver com o meu advogado!
- Compreendo. É um direito que lhe cabe – respondeu ela, com a falsa polidez que a tornava ainda mais odiosa. E então, para por fim à conversa, e também para deixar claro ao pobre sujeito que o sistema era infalível e nunca estava sujeito a erros, Augusta arrematava abruptamente com a sua frase predileta, o estandarte atrás do qual protegia a sua mentalidadezinha tacanha – Mas, como o senhor sabe, eu apenas cumpro ordens. Obrigado por escolher os nossos serviços e tenha um bom dia.
            A última frase, pronunciada sem qualquer sinal de emoção, pertencia a um rol de expressões inerentemente esvaziadas de sentido que ela havia sido instruída a proferir. De tanto decorá-las, acabaram por fazer parte inerente de sua personalidade. Para ela, pouco importava que nada tivessem a ver com a conversa, desde que servissem ao propósito de encerrá-la com a devida ênfase. Afinal, até um papagaio, de tanto ouvir, acaba aprendendo a cantar o Hino Nacional.
            Ao fim do expediente, punha-se a ruminar uma a uma essas situações diárias. Dava a si mesma uma avaliação costumeiramente elevada do ponto de vista da eficiência e menos satisfatória no que dizia respeito à aprovação da chefia. Fazia um esforço consciente para se aperfeiçoar, para alcançar um nível de excelência que julgava escapar-lhe entre os dedos. Embora não fosse uma workaholic demente e insaciável por promoções constantes, temia que o mínimo engano, a mais sutil escorregada, pusessem a perder a confiança que os superiores tinham nela, e essa era a única coisa que a amedrontava. Que o Sr. Freitas se decepcionasse com o seu desempenho era um pavor bastante palpável e fonte de frequentes noites de insônia.
            Um pouco para espantar essa ansiedade, que muitas vezes chegava às raias da angústia, Augusta dedicava-se, durante as noites de semana, ao seu único e recorrente lazer. Depois de jantar, alimentar Horácio, lavar a louça e preparar a roupa para o dia seguinte, sentava-se à mesa da sala de estar e passava as horas que restavam antes de se entregar ao sono montando pacientemente um quebra-cabeça, o único que tinha, na verdade. As 1.500 peças formavam a imagem de um castelo medieval muito bonito, com duas ameias dispostas nas laterais, um portão levadiço à frente, diante do qual havia um plácido lago povoado por patos e cercado de juncos às margens, provavelmente localizado em alguma região da França ao pé dos Pirineus, cujos imponentes cumes nevados se elevavam no horizonte azulado ao fundo. Uma cena bucólica, pintada por um artista que pretendia imitar o estilo sem perspectiva, chapado, das tapeçarias medievais, e que ela levava cerca de cinco dias para concluir. Então, mal punha a última peça, desfazia o arranjo e, na semana seguinte, começava tudo outra vez, num trabalho sissifilítico que vinha de um par de anos.
            Na manhã seguinte, ela repetia a rotina do dia anterior com exatidão robótica. Nem mesmo um filme reprisado ad nauseam na tevê conseguiria ser tão desesperadamente igual quanto esse estrito roteiro não-escrito que essa pobre alma havia estabelecido para si própria. Acordava ao som estridente do despertador, fazia a higiene pessoal, esquentava a água, preparava o café, comia o sanduíche com quatro fatias de queijo ao mesmo tempo em que escutava o rádio, depois dava de comer ao canário, ia para o chuveiro, vestia-se com a roupa tipicamente amarela e enfrentava a algazarra do metrô até chegar ao trabalho. Absolutamente nenhuma variação, nem o mais insignificante desvio de rota, estava previsto nessa equação.
            Naquele nublado de novembro, contudo, Maria Augusta pressentiu que algo muito errado estava a caminho. Tratava-se de uma sensação vaga, imprecisa, que a acometeu quando ainda preparava o desjejum. Talvez o enguiço da torradeira houvesse contribuído para provocar essa impressão de estranho mal-estar. Embora esse simples fato pudesse ser significativo para alguém de hábitos tão arraigados e planificados quanto ela, havia uma tendência em seu espírito para evitar que isso ganhasse relevância além do necessário. Depois, já no vagão do metrô apertado de gente, deixou-se capturar pela ideia de que uma leve perturbação no andar calculado das coisas ameaçasse a normalidade das atividades cotidianas. Decidiu encarar a coisa como se ela consistisse num retrato pendurado de maneira ligeiramente fora de prumo na parede, que só notamos quando alguém chama a nossa atenção para ele.
            Mas o indício recorrente de que eventos imprevistos estavam prestes a penetrar na redoma de vidro protetora que havia erguido em torno de sua vida voltou a rondar os seus pensamentos quando, em conversa com um fornecedor ao telefone, exasperou-se com uma insinuação desagradável.
            - A senhora deve saber que as coisas não podem ser previstas com tanta exatidão quanto gostaríamos. Estamos com falta de matéria-prima, a greve das transportadoras de madeira atrapalhou a previsão de entrega da encomenda por uma semana. 
            - Sinto muito, mas não podemos arcar com os custos desse atraso – respondeu ela, com a falta de entonação que lhe era própria – O prazo está mantido, e se vocês não puderem cumpri-lo, teremos de cancelar o pedido.
            - Tenha dó, não vê que o problema não depende de nós? Se não fosse pela paralisação, já teríamos entregue a mercadoria há dias. Além disso, tem uma cláusula no contrato que permite uma pequena margem de atraso. Dê uma olhada, eu tenho certeza que existe.
            - Eu já verifiquei. Não há cláusula nenhuma, meu senhor. O prazo termina daqui a dois dias. Se a entrega não for feita até lá, vamos trocar de fornecedor e submetê-los a uma multa. Deve entender que eu tenho as minhas ordens para cumprir...         
            - Será que a senhora é incapaz de raciocinar por conta própria? Eu estou dizendo que não temos condições de cumprir o trato, e você insiste em repetir a mesma ladainha. Que enervante, mulher! O que você é, uma espécie de robô programada pra dizer sempre a mesma coisa? – desabafou, para logo em seguida bater o telefone com raiva.
            Conquanto duras, aquelas palavras não eram afiadas o bastante para penetrar a resistente carapaça de modos protocolares que Augusta tinha erguido em torno de si. Ainda assim, serviram para plantar a semente da dúvida em seu espírito. Embora tão pequena quanto um grão de mostarda, a suspeita germinou no terreno fecundo de sua insegurança atávica. De forma alguma ela podia ter se enganado, isso estava além da mais remota possibilidade que a sua mente era capaz de vislumbrar. Mesmo que aquilo não passasse de mero jogo de cena, de argumentação vazia destinada a abalar as suas convicções, talvez fosse melhor verificar a cláusula mencionada pelo sujeito. Lera e relera o contrato uma porção de vezes, e podia jurar que não havia nada parecido. Mas, por via das dúvidas...

            “Ao fornecedor é permitido, desde que sob certas circunstâncias extraordinárias, e de comum acordo entre as partes, o atraso na entrega das mercadorias por um período máximo de 48 horas da data anteriormente acertada sem sofrer qualquer espécie de sanção econômica ou de outra natureza.”

            Lá estava, em letras miúdas, perdida no emaranhado de citações legais e procedimentos jurídicos, a cláusula que serviu de pomo da discórdia. Maria Augusta não conseguia crer no que os seus olhos testemunhavam. Como aquele trecho podia ter escapado à sua meticulosidade era uma questão para a qual não achava respostas prontas. A sua racionalidade, o modo cartesiano de pensar, entraram subitamente em choque com a evidência fornecida pelos sentidos. Impossível explicar aquele equívoco, menos ainda justificá-lo perante o seu chefe. O que poderia dizer? Que foi uma falta de atenção? Que fizera uma leitura rápida e descuidada do contrato? Nenhuma dessas desculpas serviria para livrá-la do cadafalso da repreensão. E sabia tão bem quanto qualquer outro funcionário que de nada adiantaria invocar uma imaginária e absurda teoria da conspiração. Não, ninguém havia alterado os termos do contrato sem avisá-la e, mesmo que isso tivesse ocorrido, não teria como provar coisa alguma. Que o problema não era tão grave assim, ao menos para alguém saudavelmente normal, era outro grama na balança a pesar contra a mente particularmente ridícula daquela alma infeliz.
As engrenagens burocráticas já haviam se posto em movimento para trucidá-la. Augusta sabia de antemão que nada do que pudesse fazer, falar ou premeditar alteraria uma polegada que seja o andamento das coisas. Como uma personagem de tragédia grega, se encontrava na desconfortável posição de sucumbir à loucura antes de ser aniquilada pelo destino implacável, cujas paredes ela já sentia avançar inexoravelmente para esmagá-la. Havia a possibilidade de insurgir-se contra aquele fado, varrer sorrateiramente para debaixo do tapete as migalhas do erro, empinar com firmeza o nariz aquilino e fingir que nada tinha sucedido. Mas crer que ela pudesse ter essa malícia seria esperar demais daquele cérebro embotado, preso às correias enferrujadas de transmissão de ordens impessoais e normas rígidas, que jamais foi educado para raciocinar com independência.
A decisão estava tomada antes sequer de ela cogitá-la. Diante da incapacidade de insurgir-se contra os grilhões de seu livre-arbítrio, agiria como sempre agiu, com a máxima racionalidade, seguindo à risca o que ditavam os protocolos em situações iguais a essa. Após os três minutos que levou considerando as opções, digitou febrilmente um e-mail para o Sr. Freitas. Nele, expunha o problema em termos comumente congruentes e extirpados de qualquer sentimentalismo. Não implorava perdão, não suplicava uma segunda chance. Limitava-se a solicitar uma orientação para o seu caso, na esperança de que ele a compreenderia e, de alguma forma, a ajudasse a sair daquela enrascada. Concluiu o recado com uma indagação, antecedida do indefectível mantra:
“Por favor, me dê uma orientação. As suas ordens serão cumpridas com o zelo de sempre. O senhor acha que devo comunicar o meu erro ao fornecedor? Oferecer um pedido de desculpas?”
 Esperou, mordendo-se de ansiedade, pela resposta do chefe. Qual seria o teor dela ou que implicações teria, eram indagações que Maria Augusta não se cansava de fazer, de si para consigo, num círculo vicioso que ameaçava arrastá-la para o desespero, para a completa apatia ou o que viesse primeiro. No lugar de uma portentosa bronca, verborrágica e desrespeitosa, o que chegou aos seus olhos míopes foi uma charada impossível de ser solucionada, encapsulada numa frase espantosa em sua brevidade:
-  Não, vá se matar por isso
A pobre mulher quedou paralisada da cintura para cima por uma boa meia hora, a expressão catatônica sublinhada pela boca entreaberta. Somente um som baixo e grave de murmúrios ininteligíveis escoava da garganta e, se alguém se aproximasse o bastante, seria capaz de escutar distintamente, provindo das camadas inferiores de seu crânio, o rumor de peças girando em falso, como o motor de um carro que se recusa a pegar.
Sabe-se lá quantas vezes ela se deu ao trabalho de ler o e-mail, meditando sobre cada palavra, sobre cada acento, sobre cada sinal de pontuação, na busca angustiada por um fio de Ariadne [3] que a libertasse do labirinto de interpretações desencontradas. E, quanto mais fitava a tela do computador, mais garrafais e estridentes as letras lhe pareciam:
‘N-Ã-O-,-V-Á-S-E-M-A-T-A-R-P-O-R-I-S-S-O”

            Isso não era um pedido, menos ainda uma sugestão. O verbo, no imperativo, impunha uma só conclusão. Tratava-se de uma ordem indubitável, inquestionável, inapelável. E ordens, como ela não cansava de repetir, existem para ser cumpridas. Mesmo as que pudessem soar estapafúrdias como aquela.
            A sua mente se encontrava trancafiada num paradoxo. Podia voltar atrás, desmentir o que havia dito para o chefe, na esperança de que a história toda fosse esquecida. Entretanto, isso seria admitir um fracasso ao quadrado. Na prática, essa atitude desastrosa não faria a mínima diferença. Ela estava condenada, e tinha plena consciência disso. Havia escolhido arbitrariamente uma alternativa, e agora deveria segui-la até a conclusão lógica e inevitável, embora terrível.
            Quem esperasse de Maria Augusta um comportamento desmedido, teatral e impulsivo, uma cena melodramática, de novelão das 8, não conhecia a sua natureza. Ela se limitou a engolir em seco, fechou o e-mail e pos-se a cuidar discretamente de outras obrigações. Aparentemente, prosseguiu na trilha sempre inalterável de suas funções sem que nada parecesse perturbá-la. Às 18h00, como de costume, desligou o computador, trancou as gavetas da mesa à chave, apanhou a bolsa, despediu-se dos colegas de trabalho e ganhou as ruas.
            Chegou em casa mais ou menos na hora de sempre, sem grandes sustos com as paralisações costumeiras do metrô e os congestionamentos no trânsito. Despiu-se, tomou um banho morno e vestiu o peignoir semitransparente de bolinhas pretas, tudo na mais estrita observância de seu autoimposto script. Preparou o jantar com nada mais no cardápio do que os legumes, verduras, o filé de frango de 250 gramas, as duas colheres de sopa de arroz e as três batatas que eram a sua exclusiva dieta desde sempre. Também não se esqueceu de dar de comer a Horácio, nem de deixar a louça lavada e aprontar as roupas. Como derradeiro gesto, postou-se à beira da mesa da sala de estar e, com todo o esmero, encaixou as últimas peças do quebra-cabeça. Contemplou o resultado por um momento, lamentando-se por nunca ter tido a oportunidade de conhecer aquele cenário idílico.
            Por volta das 23h00, foi até a área de serviço e vasculhou o armário em busca de um rolo de fita crepe. Com paciente esmero e munida de uma faca de cozinha, passou a vedar todos os vãos e frestas de janelas e portas que existiam no apartamento. Contudo, enquanto fazia isso, inadvertidamente cortou o dedo com a ponta da lâmina. Umas gotículas de sangue mancharam o peignoir e ela observou, entre curiosa e surpresa, um brilho metálico embaciado sob as camadas sobrepostas de pele e carne, mas não deu importância a isso. Prosseguiu na tarefa até que não restasse nenhum espaço vazado. Em seguida, calma e metodicamente, abriu as seis bocas de gás do fogão. Quando o ar se encheu com o cheiro característico de propano, tratou de apanhar a gaiola do canário e o levou consigo até o quarto de dormir. Depois de ajeitar os travesseiros do jeito que gostava, deitou-se sobre a cama bem arrumada, aprumou-se, o braço esquerdo envolvendo a gaiola de Horácio, o direito alinhado ao corpo, e permaneceu em silêncio, respirando fundo e fitando os frisos de gesso do teto, até que as pálpebras cederam sob o peso da sonolência e um lento e sossegado repouso derramou-se sobre ela.
            Logo no começo do expediente, no dia seguinte, o Sr. Freitas impacientou-se diante do computador. Toda vez que tentava digitar a letra “O”, uma insistente vírgula teimava em aparecer logo em seguida. “Assim não dá” – pensou ele, dando um murro na mesa, a irritação devorando a calma pelas bordas – “Tenho que chamar alguém pra consertar esse teclado de uma vez. A dona Maria Augusta pode me ajudar. Mas cadê ela? Já está uns dez minutos atrasada. Isso nunca aconteceu, não com Augusta. Deve ter havido algum imprevisto...”

29 de novembro de 2014



[1] Pensadora alemã que viveu de 1906 a 1975, e cuja obra mais conhecida foi um estudo sobre o carrasco nazista Eichmann, que classificou como um burocrata normal que se limitava a cumprir zelosamente as ordens que recebia.

[2] Um dos julgamentos mais famosos da história, teve lugar entre 1945 e 1946 na cidade alemã de Nuremberg, e nele foram julgados e condenados os nazistas por crimes contra a humanidade durante a Segunda Guerra Mundial.

[3] Heroína da mitologia grega, que usou um fio desenrolado para ajudar o herói Teseu a escapar do labirinto de Creta, onde ele havia entrado para matar o Minotauro, o lendário monstro metade homem e metade touro.

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