e Leiam a versão integral de "O Homem que não queria existir", a resenha crítica do livro "O Homem invisível", de H. G. Wells ~ Diário do Moretti
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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Leiam a versão integral de "O Homem que não queria existir", a resenha crítica do livro "O Homem invisível", de H. G. Wells





O HOMEM QUE NÃO QUERIA EXISTIR

Por Marco Moretti

O Homem invisível, na nova versão cinematográfica 
do livro de H. G. Wells - Fonte: Wikipedia

            Existem dois romances, ambos clássicos, a respeito de homens invisíveis, e que costumam ser confundidos. Um, “Homem Invisível” (sem o artigo), escrito nos anos 1950 nos Estados Unidos e de autoria do americano Ralph Ellison, trata das dificuldades de ser um homem negro em uma sociedade branca e racista. Merecedor do National Book Award, o mais prestigioso prêmio literário americano, a obra provocou polêmica ao tratar da condição dos negros no sul daquele país no início do século XX. A invisibilidade, portanto, é aqui metafórica, uma maneira de mostrar (desculpem o trocadilho) como os brancos, racistas ou liberais, e até mesmo os negros radicais, enxergam os chamados afro-descendentes.
            O outro “O Homem Invisível” (“The Invisible Man”) é muito anterior a esse, e foi publicado em 1897 na Inglaterra. Geralmente considerado uma fantasia científica, gira em torno da tragédia de um cientista que desenvolve um método para se tornar invisível, literal e não metaforicamente como no livro de Ellison. Esse “O Homem Invisível” original, conquanto hoje seja rotulado de clássico, é em geral considerado pouco mais do que uma história de mistério, e assim tem sido desde o lançamento. Na comparação com o seu sucessor (quase) homônimo, os críticos frequentemente o consideraram mera peça de entretenimento, sem grande valor artístico. As coisas, porém, não são tão simples quanto parecem (novamente, me perdoem pelo trocadilho). Analisadas em comparação uma com a outra, ambas detêm a mesma carga de relevância política e artística.
O autor de “O Homem Invisível”, Herbert George Wells (1866-1946), ou simplesmente H.G. Wells, é justamente reputado como um dos “pais” da ficção científica ao lado do francês Júlio Verne, de quem era contemporâneo. De origem humilde, Wells granjeou reputação nos meios acadêmicos britânicos de sua época ao estudar biologia com o conceituado T. H. Huxley, colega de Charles Darwin e um dos mais combativos proponentes da Teoria da Evolução, antes de se aventurar na literatura. A sua primeira obra importante, “A Máquina do Tempo”, de 1895, abriu as portas daquilo que viria a ser um dos temas mais recorrentes da FC em livros, filmes, HQs, seriados de TV e videogames.
            Entretanto, já nesse trabalho de estreia, em que o escritor descreve um distante mundo futuro na forma atualmente conhecida como “distopia”, ficam patentes as diferenças fundamentais entre ele e Verne. Enquanto o autor de aventuras de antecipação como “Viagem ao centro da Terra” [confira a resenha crítica em meu blog] era essencialmente um otimista, entusiasta de primeira hora dos progressos científicos e técnicos, e nutria uma fé inabalável na capacidade da humanidade em atingir grandes realizações, o seu colega inglês rezava por uma cartilha diferente. Para Wells, nenhuma evolução tecnológica nem nenhuma descoberta é capaz de superar a inerente capacidade humana em infligir sofrimento aos seus semelhantes. Esse pessimismo recorrente de Wells, ou idealismo desencantado, se preferirmos chamar assim, permeia todos os seus trabalhos, e foi se tornando mais agudo e ácido na maturidade, quando ele começou a temer pelo próprio futuro do planeta. Essa é outra diferença fundamental entre ele e Verne. Enquanto o francês via na tecnologia a panaceia para todos os males e era um aficionado da mecânica (daí a crítica não sem fundamento de que, em seus romances, ele se importava mais em detalhar o funcionamento das máquinas do que em explorar os conflitos emocionais entre os personagens e as suas motivações), Wells usava a ciência como mero pretexto para elaborar manifestos políticos contra a sociedade capitalista da Era Vitoriana e pré-Segunda Guerra Mundial. Não há, nele, a preocupação profética em relação aos avanços científicos que encontramos em Verne, o que explica porque, até nesta nossa era de maravilhas da informática e da cibernética, a maioria de suas criações (como a máquina do tempo, a invisibilidade, a antigravidade) continua desafiadoramente adiante dos esforços atuais. De certa maneira, essas duas posturas, mais complementares do que antagônicas, ajudaram a fundamentar as vertentes em que a ficção científica passou a ser comumente dividida: a fronteira divisória entre essas tendências nem sempre tem sido muito clara, mas, de certo modo, a facção “Hard” privilegia os aspectos puramente técnicos, enquanto a “Soft” é mais preocupada com questões de ordem político-social e filosófica. No primeiro caso, inserem-se autores como Arthur C. Clarke e Isaac Asimov. No segundo, escritores do porte de Ray Bradbury e Philip K. Dick.

O escritor inglês Herbert George Wells - Fonte: Wikipedia

            A razão para essa linha de abordagem de H.G. Wells reside, em parte, no fato de que ele foi um socialista de primeira hora, comprometido com os ideais antiutópicos de melhoria gradual da sociedade propostas pela Sociedade Fabiana, uma organização política que se opunha à luta de classes marxista e preconizava a aplicação de reformas sociais paulatinas que conduziriam gradualmente à implantação do socialismo. Entre as principais bandeiras dessa agremiação, à qual também pertenciam nomes ilustres como o dramaturgo Bernard Shaw, a escritora Virginia Woolf e o filósofo Bertrand Russell, estava a implantação de um salário mínimo e sistemas de saúde pública e ensino gratuito universais. Núcleo do Partido Trabalhista inglês, criado em 1906, o Fabianismo propunha uma atuação lenta, por trás dos bastidores, de forma discreta, para a implantação de seus programas. Não por acaso, o símbolo da organização era uma tartaruga.
            Portanto, não deve ser nenhuma surpresa o fato de que, para a sua terceira investida no gênero da ficção científica, após o citado “A Máquina do Tempo” e “A Ilha do Doutor Moreau”, de 1896, Wells voltou a investir o seu arsenal imaginativo no tema de crítica social velada. Aparentemente, a sua inspiração surgiu a partir da descoberta, feita em 1895, dos raios X. A enigmática radiação eletromagnética, ainda vista com um misto de desconfiança e fascínio dois anos depois de o físico alemão Wilhelm Röntigen acidentalmente tê-la detectado, levantava hipóteses mirabolantes para o seu uso. O emprego dos raios X para tornar “invisível”, por assim dizer, os objetos e seres vivos nas chapas fotográficas, era um sugestível indício de que algo parecido poderia ser realizado com o corpo humano.
            O escritor inglês, contudo, estava menos interessado nas possíveis propriedades científicas da nova descoberta do que em usá-la como pretexto para expor as suas ideias políticas. Lembrou-se das antigas lendas de artefatos capazes de tornar invisíveis os seus portadores, sobretudo da história do anel de Giges, cuja história é narrada em uma passagem da “República”, o livro em que Platão (428/427 a.C. – 348/347 a.C.) propõe uma nova e radical organização política e social. Para ilustrar os seus conceitos, o filósofo grego narra nessa obra a fábula do pastor Giges, que descobre em uma caverna um anel encantado que lhe permite ficar invisível. Da posse desse objeto fantástico (alguém aí mencionou Tolkien?), Giges começa a praticar todo o tipo de atos pouco honrosos, o que o leva finalmente a usurpar o trono do rei local e coroar-se monarca. H.G. Wells resolveu usar essa parábola, modernizando-a para os últimos anos do século XIX, com o mesmo intuito de Platão, discutir a validade das questões morais no comportamento humano. A pergunta que tanto ele quanto o pensador da Antiguidade se fizeram é até que ponto os limites morais e éticos impostos pela sociedade seriam fortes o suficiente, relevantes o suficiente, para impedir alguém de posse de um poder desses de cometer crimes abomináveis e almejar o poder absoluto.
            Para sublinhar esse questionamento, Wells fez de seu protagonista, um certo Griffin, um cientista de modos pacatos e insuspeitavelmente comum. Ele é descrito fisicamente como um albino, óbvia metáfora visual para a sua imaculada pureza moral. Após desenvolver uma fórmula química que o deixa virtualmente invisível, ele gradualmente passa a se comportar de maneira aberrante, mais e mais rompendo o tênue véu de regras morais e éticas que o envolvia até ser perseguido e exterminado como uma ameaça à sociedade. Portanto, um idealista, que a princípio pretendia apenas contribuir para o progresso da humanidade, mas que deixa a sua alma se corromper diante de uma descoberta ou invenção capazes de abrir as portas para ameaçadoras potencialidades, como acontece com o Dr. Moreau e outros protagonistas dos livros de Wells, e como viria a ocorrer no mundo real com os inventores da bomba atômica, por exemplo.  Nascia aí o protótipo dos cientistas malucos e caricatos que desde então povoariam as narrativas de ficção científica.
Talvez haja em “O Homem Invisível” um comentário levemente irônico com relação às próprias convicções políticas do escritor. A trajetória de Griffin, que se torna invisível e assim se encontra livre para agir do jeito que quiser e onde bem entender, pode ser vista como uma alegoria para a própria atuação política do Fabianismo. Não é improvável que o escritor temesse que a atuação “invisível” de seus partidários corresse o risco de desvirtuar o movimento e impregná-lo de um arroubo autoritário que ameaçaria conduzi-lo ao exato oposto do que pretendia. Como acabaria de fato acontecendo com as correntes socialistas no século XX, usurpadas e deturpadas pelos líderes dos regimes totalitários tanto de direita quanto de esquerda. Nesse sentido, H. G. Wells provou-se mais profético do que de fato pretendia.

O ator inglês Claude Rains na primeira versão cinematográfica 
de "O Homem invisível", de 1933 - Fonte: Wikipedia


             31 de outubro de 2014

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