e Leiam a versão completa do conto "A Grande tempestade" ~ Diário do Moretti
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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Leiam a versão completa do conto "A Grande tempestade"





A GRANDE TEMPESTADE

Por Marco Moretti


"A Tempestade" de Giorgione - Fonte: Wikipedia

Quanto mais uma coisa é bizarra,
menos misteriosa ela tende a ser.”
Arthur Conan Doyle

Aquele havia sido um outono deveras incomum. Um clima de estranheza, de imponderável excentricidade, pairava no ar. Isso se refletia nos noticiários, recheados com a sua carga habitual de desgraças, exageros e distorções. A queda de um meteorito nas estepes russas, em outubro, pareceu ser o prenúncio das coisas que estavam por vir. Seguiram-se surtos de febres em escala mundial, que em nada ajudaram a apaziguar os ânimos daqueles que aguardavam um final de ano tranquilo, após os agitados acontecimentos do primeiro semestre. Crises econômicas na Ásia e na China, que se alastraram com a velocidade de uma praga de gafanhotos em andamento, foram o sinal que muitos interpretaram como a principal causa para o desastre iminente. Manifestações que reuniam milhões nas praças públicas das grandes metrópoles passaram a disputar espaço nos telejornais e sites da internet com eventos inusitados e de veracidade duvidosa, como o anúncio de um sinal de rádio enviado da estrela Sirius e que os cientistas supostamente passarão as próximas décadas quebrando a cabeça para decifrar. E o que dizer de um papa que renunciou a qualquer esperança de manter o seu rebanho sob as rédeas curtas da Igreja e anunciou o apoio ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, ao aborto e à eutanásia, tudo em uma só bula? Esses fatos ruidosos e muitos outros que espocaram naqueles dias agourentos aguçaram em todos a apreensão latente de que tempos funestos tinham chegado e se instalado com toda a pompa e circunstância nos cinco continentes.
Nenhum desses eventos chegou perto de perturbar o sono do pai, embora ele os acompanhasse a distância segura que o separava da poltrona e do aparelho de tevê ou do monitor de computador com um misto de curiosidade e ansiedade. Afinal, era impossível manter-se alheio às ondas crescentes de agitação que iam da franca indignação à condescendente aceitação, mas jamais indiferença, nos colóquios de botequim, discussões no escritório e comentários nas redes sociais. Mesmo dentro de casa, entre a família, o mal-estar da civilização encontrava um jeito de se imiscuir, sorrateiro, entre as conversas casuais e aparentemente contaminadas daquela falta de tempero dos assuntos corriqueiros e desprovidos de interesse.
Por isso, não foi sem certa preocupação que, naquela manhã de sol embaciado e um vento nordeste chato e constante, um tanto fresco, que teimava em despentear os ralos cabelos grisalhos e finos, ele ergueu a vista para o céu ao ouvir um trovejar surdo, distante. Nem precisou fazer qualquer esforço para deduzir o que significava aquela nuvem de forma enovelada e irregular como um chumaço de algodão doce, carregada de um cinza deprimente, que se espraiava por metade da extensão do horizonte. Até o mais distraído observador seria capaz de perceber que a formação plúmbea se aproximava rapidamente, e em questão de (poucas) horas atingiria em cheio a cidade.
Nervoso, o homem largou ali mesmo, no gramado bem aparado, o jornal que havia saído para pegar, e tratou de correr de volta para dentro de casa, as pernas bambas de excitação. Alheia aos presságios, a mulher cuidava de preparar o café da manhã para o marido e os filhos ao mesmo tempo em que dava um jeito de se arrumar para o trabalho quando foi apanhada desprevenida pela agitação do companheiro.
- Nossa, o que deu em você, homem? Parece até que viu um disco voador! – observou ela, enquanto tirava a chaleira fumegante de leite do fogão e a levava para a mesa.
- É... mais ou menos isso, sim. Esquece o café. Temos de partir agora mesmo! Nós e as crianças – retrucou ele, tão ansioso que até atropelava as palavras. Houve um tempo em que a esposa não discutiria, sequer questionaria o comportamento impulsivo dele, mas isso foi dezessete anos, uma traição, uma separação e duas reconciliações antes.
- Como é que é? Do que você está falando? Será que andou tendo aqueles sonhos esquisitos de novo? Ou a crise dos quarenta mexeu com a sua cabeça? – a irritação modulava a voz dela em um falsete agudo.
- Olha, eu não tenho tempo de explicar agora, mas posso te garantir que o que eu temia há meses está prestes a acontecer – foi dizendo o sujeito, pegando a chaleira e pondo-a de volta no fogão – Acorde as crianças, anda, quero todo mundo no carro em uns quinze, vinte minutos no máximo.
- Carro...? E pra onde é que a gente vai, santo Deus? – indagou a mulher, apanhando de volta a chaleira e fazendo menção de levá-la de novo para a mesa - Sair assim, às pressas, que nem fugitivos? Isso não é... não é normal. Afinal, o que é que está acontecendo?
- Eu já disse, explico direito depois, agora, quer, por favor, largar isso e ir lá em cima chamar as crianças? – respondeu ele, agarrando-a com firmeza pelos braços e forçando-a a largar a chaleira mais uma vez sobre o fogão – Confie em mim, querida, eu sei o que estou fazendo e por que, mas não me pergunte mais nada.
Meio contrariada, meio desconfiada, a esposa finalmente cedeu. A passos curtos, rápidos, foi para a sala e subiu a escada em L tropeçando nos brinquedos e bugigangas espalhados pelos degraus, ao mesmo tempo em que soltava a presilha do cabelo castanho escuro e ajeitava o penteado. Era um gesto talvez inconsciente, mas que pretendia fornecer um verniz de normalidade naquele cenário de insensatez.
Mecanicamente, dirigiu-se primeiro para o quarto do filho, tanto porque sabia que ele era o mais relutante em acordar cedo, mesmo durante a semana, quanto porque precisava de um apoio masculino para ajudá-la a fazer frente àquilo que considerava uma sandice desvairada do marido. Como psicóloga e também como esposa, sabia que sozinha não teria forças para frear a teimosia arraigada dele.
- Hein?! Mãe, o que tá...? – balbuciou o menino, em meio a bocejos e esfregar de olhos, apanhado desprevenido entre um sonho agradável e a realidade.
            - Não discute, faz o que estou mandando! – ordenou energicamente a mulher – Vai já pro banheiro lavar o rosto e escovar os dentes. Depois a gente conversa. Depressa!
            A filha mais velha, que ocupava o quarto do lado, fez mais ou menos o mesmo questionamento, e recebeu mais ou menos a mesma resposta lacônica, que no fundo não explicava nada:
            - É coisa do seu pai, vai entender. Mas agora se veste e veja se não passa uma eternidade pra se arrumar. Em vinte minutos estamos de saída, entendeu?
            Para a outra menina, a caçula, a mãe não precisou gastar o verbo. Simplesmente porque ela não estava onde deveria estar àquela hora da manhã. Nervosa, a mulher saiu a procurá-la pelos quatro cantos, e imaginou se não teria se metido de novo no closet, quem sabe para brincar de casinha com as bonecas preferidas. Mas nem ali, nem em nenhum outro lugar do andar superior ou inferior da casa, havia qualquer sinal da criança. E de nada adiantou gritar o nome dela em alto e bom som feito uma desesperada.
            - Onde está essa menina? Parece até que foi abduzida! – exclamou ela, externando a sua impaciência com todas as letras.
            - Deixa comigo, eu procuro por ela. Enquanto isso, pegue algumas coisas pra gente comer e beber da geladeira e da despensa e põe tudo em uma ou duas caixas de papelão, três no máximo, não mais que isso. Sei lá, uns pães de forma, uns biscoitos e torradas, meia dúzia de frutas, algumas fatias de queijo e frios, e duas garrafas de refrigerante e quatro ou cinco caixas de leite e também manteiga. Ou melhor, manteiga não, pode estragar. Ah, não esqueça de encher o galão de plástico com água, bastante água, que vamos precisar.
            - Nossa, pra que tudo isso? Aonde você pretende levar a gente? Até parece que vamos viajar pro fim do mundo.
            - E pode ser isso mesmo, creia em mim. Ainda não tenho certeza. Enquanto eu vou atrás da menina, arrume as coisas, rápido. Acho que sei onde ela se meteu – disse o homem, e saiu desembestado pela porta da cozinha para o quintal.
            Para onde uma criança de 13 anos iria que não fosse o closet ou embaixo da cama? A resposta, não tão óbvia quanto pode parecer a princípio, estava exatamente a cinco passos de distância em frente da máquina de lavar roupa e a três ao lado direito da entrada da despensa.
            - Acho que ele já cansou de comer bolacha de coco molhada em chocolate quente – foi dizendo o pai enquanto enfiava a cabeça pela passagem apertada da casinha do cachorro – Não é melhor dar um tempo pra ele, filha?
            - Ah, papai, logo agora que a gente ia apagar as velinhas? – reclamou a menina, encolhida ao lado do felpudo companheiro de pelos amarelo-amarronzados todo paramentado com fitinhas cor-de-rosa nas orelhas e um laço de cetim branco amarrado no pescoço.
            - Olha, meu anjo, nós vamos ter de sair o mais rápido possível de casa e o aniversário do cachorro vai ter de esperar, mas prometo que depois a gente faz uma bela duma festa com direito a bastantes brigadeiros e salgadinhos.
            - E cachorro-quente também! – acrescentou a menina, assanhada com a ideia.
            - É, isso também, agora vem – disse ele, puxando-a pelo bracinho magro e branco como neve – e traz o seu amigo.
            - Mas pra onde a gente vai, papai?
            - É, aonde cê tá levando a gente? – interveio a irmã mais velha, carregando para o carro duas mochilas de ginástica estufadas até quase estourarem as costuras e uma bolsa de marca comprada em Miami a tiracolo.
            - Para bem longe daquilo ali – disse o pai, meneando a cabeça para o céu, na direção da nuvem negra que avançava lenta, mas inexoravelmente, em direção à cidade.
Por um instante, todos observaram a formação em silêncio.
- Mas é só uma nuvem de chuva! O que tem de especial isso? Não entendo porque a gente tem de sair correndo desse jeito.
- Vai entender, quando estivermos protegidos e num lugar seguro. E se pensa que irá levar essa tralha, está muito enganada, mocinha. Não tem lugar no carro pra tudo isso.
- Mas, pai...
- É melhor não discutir, querida – atalhou a mãe, que vinha logo atrás com alguns dos mantimentos mais leves – Faça o que ele está mandando sem reclamar.
- Não acho justo ter de deixar as minhas coisas. São só umas tangas, duas calças jeans, três camisetas e os meus piercings.
O pai limitou-se a fuzilar a filha mais velha com um olhar severo, duro o suficiente para dispersar qualquer postura inflexível.
- Querido, me ajuda a levar essas coisas pra “carroça”.
A “carroça” a que a mulher se referia era um utilitário quatro portas preto, inteiramente preto, modelo 2007, com bagageiro atrás e em cima, adornado de alguns amassados na lateral esquerda e arranhões discretos nas portas. Gasto, velho, estava um tanto judiado, mas, ainda assim, confiável. Em questão de dez minutos, o veículo estava abarrotado de caixas, cobertores, travesseiros e sacos plásticos com toda a sorte de mantimentos, pronto para partir. O último a entrar foi o menino, que havia esquecido o ipad na escrivaninha do quarto e voltou correndo para buscar. Assim que o marido deu a partida na ignição, uma pergunta brotou espontaneamente no ar.
- Bem, agora pode finalmente nos dizer o que significa tudo isso? – indagou a esposa, mal disfarçando a irritação acumulada naquela manhã atribulada – Ou pretende guardar segredo até que a gente chegue sabe lá Deus onde? Aliás, que lugar é esse, afinal de contas?
            O pai olhou demoradamente para ela e para os três filhos, que dividiam o banco de trás com o cão, antes de emitir um suspiro.
            - Acho que agora é o capítulo em que eu explico as coisas, não é? Bem, vocês todos podem ver aquela nuvem que está vindo direto pra cá. Aquilo pode ser qualquer coisa, menos um bom sinal. Não sei explicar direito, chamem de intuição, de premonição, ou como quiserem, mas pressinto que algo de muito ruim está prestes a se abater sobre todos nós, sobre esta cidade, sobre o país... quem sabe o mundo...
            - Pai, falando desse jeito o senhor tá me deixando com medo – tartamudeou a filha adolescente, os olhos arregalados como duas amêndoas.
            - Eu também estou com medo – atalhou a mãe – mas é de outra coisa. De que você tenha batido a cabeça quando levantou da cama hoje. Deixa ver se eu entendi: você me fez arrancar as crianças da cama bem cedo, arrumar tudo feito uma desesperada e ainda por cima nos enfiou nessa “carroça” às pressas com base no que? Num “mau pressentimento”? Numa sensação ruim que bateu do nada? É isso?
            - Se eu disser que sim, você não vai nem querer saber para onde estamos indo.
            - Ah, mas pode apostar nisso – a mulher fez menção de abrir a porta para sair. O homem a puxou pelo braço com determinação e a forçou a permanecer no lugar, quieta.
            - O sítio do seu pai é um bom lugar pra gente ficar por um tempo... pelo menos até o perigo passar. Afinal de contas, que mal tem em tirar uns dois ou três dias pra relaxar no campo? Creio que todos nós estamos precisando um pouco disso.
            - Eu, não – retrucou a mais velha – Tinha uma balada para ir essa noite e tive de desmarcar com as minhas amigas.
            - E eu tinha combinado de participar do campeonato de game com a turma do colégio – reclamou o menino.
            - Além do que, convenhamos que não há necessidade de sairmos de casa assim, que nem um bando de doidos, pra descansar no campo. As coisas podiam ter sido feitas com mais calma – ponderou a esposa.
            - Será que vocês não entendem? Não temos tempo pra isso, a tempestade vai chegar aqui dentro de uma ou duas horas. Agora basta de conversa fiada e vamos embora.
            Com um solavanco, o carro deu à ré e desceu a rampa até a calçada, sem querer passando por cima do cercadinho de ferro em volta do gramado da frente. Nervoso, o pai arrancou a toda a velocidade, foi até o final do quarteirão, fez a curva à direita e seguiu reto pela primeira transversal, que conduzia até a avenida mais próxima.
            Normalmente, mesmo àquela hora da manhã, as ruas costumavam estar repletas de automóveis, ônibus, caminhões, motocicletas e peruas de todos os tamanhos, cores e tipos. Mas foi com um cenário bem diferente desse que a família deparou. Ao invés de vias congestionadas, gente andando para lá e para cá apressadas e sem rumo certo, o caos habitual de buzinas, celulares tocando e roncos de motores, só havia um vazio inexplicável. Ninguém, nenhum ser vivo, nem sequer os cachorros e os gatos, ocupava as calçadas, e à frente, apenas veículos e mais veículos parados a esmo, alguns com as portas e janelas abertas, como se tivessem sido abandonados de súbito, num só momento de frenesi e desespero. A impressão que se tinha, ao contemplar aquele cemitério de concreto e ferro pintado, é que a população da Terra havia desaparecido, sido engolfada por uma anomalia dimensional, ou, para usar um termo que não deixava de provocar um certo arrepio por conta de sua implicação religiosa, arrebatada.
            - A-alguém pode me explicar o que está havendo? – balbuciou a mulher, estarrecida com a desolação reinante.
            - Parece que todo mundo tá brincando de esconde-esconde com a gente – brincou a caçula.
            - E talvez seja exatamente isso, filhinha – observou o pai, a expressão de preocupação gravada indelevelmente no rosto.
            - Ai, será que é mesmo o fim do mundo, mãe? – disse a filha mais velha, em tom choroso, agarrando com força o cobertor.
            - Calma, não há nenhum motivo pra gente entrar em pânico. Estamos todos juntos, não estamos? De nada adianta a gente começar a gritar e a chorar. Então, procurem se controlar. Vai ficar tudo bem, eu prometo – esforçou-se o homem para manter a ordem.



II

            Por quilômetros e quilômetros de ruas, o carro prosseguiu, desviando dos veículos largados adiante, às vezes sendo obrigado a fazer manobras complicadas ou avançar por cima da calçada para continuar. Logo, a família constatou que até mesmo os estabelecimentos comerciais, as lojas, as bancas de jornais, bares e oficinas mecânicas estavam abandonados. Não propriamente fechados, como num dia de feriado, mas deixados com as portas escancaradas, muitos com a fumaça da comida escapando da cozinha. Somente o vento agitava os balanços de um parquinho infantil no centro de uma praça. Se aquilo fosse um filme de faroeste, seria fácil imaginar que se encontravam em meio a uma cidade fantasma, com a diferença de que nem mesmo as bolas de galhos secos rolavam de um para o outro lado. Estava tudo morto e silencioso, tão quieto, aliás, que o único som perceptível era o do respirar acelerado dos ocupantes do carro, além, é claro, do ronronar abafado do próprio motor.
            - Deve ser efeito da matéria escura – comentou, para ninguém em particular, o menino.
            - Matéria o que? – indagou a irmã mais velha.
            - Matéria escura. Pode ler aqui no meu tablet – disse o garoto, mostrando a página de um site da internet para a jovem – Os cientistas ainda não sabem direito o que é, e nem conseguiram ver, mas que ele existe, ah, isso existe.
            - Então me diga, sabichão, como é que eles podem saber que existe se nem sequer enxergam isso?
            - É tudo matemática, sacou? Eles fizeram cálculos e descobriram que a Terra, o sol e todos os planetas, a nossa galáxia e o universo inteiro estão sendo atraídos na direção de alguma coisa que está bem longe daqui. Nem os telescópios mais poderosos são capazes de detectar o que provoca essa atração. Por isso, porque ninguém vê, é que eles chamam a coisa de “matéria escura”.
            - E você pode me dizer o que isso tem a ver com o que tá acontecendo aqui?
            - Então não entende? Alguns astrônomos acham que é um buraco negro gigantesco, o maior que existe, que tá sugando tudo e um dia, uma hora, a gente vai descer pelo ralo. Quem sabe não é isso o que tá rolando?!
            Não foi tanto o que o rapaz disse, mas o tom que empregou, carregado de augúrios aterradores, que provocou calafrios em todos a bordo, conquanto não compreendessem de cosmologia o suficiente para entender direito aquele papo de “matéria escura” e “buracos negros”. Ao menos por um momento, ninguém ousou pronunciar palavra, tão perturbados estavam com aquele mistério de dimensões aparentemente cósmicas. Na tentativa de quebrar o mal-estar ambiente, a mãe ligou o rádio. Antes não o tivesse feito. Só o que conseguiu captar foi estática. De nada adiantou girar o dial de estação para estação. Era como se as emissoras de rádio do mundo inteiro houvessem emudecido juntas. A filha mais velha tentou ligar para uma amiga, mas os celulares estavam tão mudos quanto uma porta. A impressão tácita de um cataclismo iminente pesou ainda mais na consciência da família. Com exceção da filha caçula e do cachorro, que se entretinham brincando e olhando despreocupados a paisagem desolada, agora que o carro tinha saído da cidade e entrado numa rodovia.
            Em linha reta adiante e atrás, numa monotonia exasperante, que parecia não ter fim, o mesmo deserto humano, o mesmo quadro de vazio, automóveis, ônibus de viagem e carretas abarrotadas de mercadorias abandonados no acostamento ou no meio das pistas. Se existia uma certeza naquilo, é que alguma coisa de muito intenso, dramática e implacável, sucedeu e como que arrancou as pessoas de todos os lugares e as transportou para outro lugar. Talvez, pensou o pai, as teorias astronômicas do menino não fossem tão estapafúrdias assim, afinal de contas. Mas poderia haver outras explicações, digamos assim, menos inverossímeis.
            Uma peste ou praga estava imediatamente descartada. Onde, então, estariam os corpos? Uma revolução ou uma guerra, uma invasão de forças estrangeiras hostis (quais?) bem poderiam ter obrigado a população a fugir às pressas, deixando para trás casas e veículos e todo o resto. Além de ser mais provável, isso servia para explicar o mutismo das rádios e telefones. Porém, essa teoria, como facilmente se constatou, produzia em seu rastro mais perguntas do que respostas. A própria quietude circundante, em que até os animais e insetos pareciam ter se recolhido, servia de testemunho para negar a hipótese. Se um combate de grandes proporções estivesse em andamento, com o consequente deslocamento de tropas e disparos de armamentos pesados, bombardeios, lançamentos de morteiros etc, certamente não seria aquela tranquilidade de cemitério que se ouviria. Nenhum ribombar de petardos, comandos emitidos aos gritos, sequer o mais leve ronco de aviões a jato cruzando o céu havia perturbado os seus tímpanos até então.
            - Nem uma bomba de nêutrons seria tão eficaz... – murmurou o marido para si mesmo.
            - O que foi que disse? – perguntou a esposa.
            Nada, desconversou ele. Não pretendia alimentar a apreensão já bastante elevada com a teoria de uma hecatombe nuclear. Até porque, se algo desse gênero tivesse ocorrido, também eles estavam condenados àquela altura, pela mera contaminação radioativa. Se a histeria se instalasse no seio da família, seria ainda mais difícil manter o controle da situação. Fosse como fosse, a sensação de perigo imaginário era agora um fato consumado, tão concreto quanto uma rocha de 300 toneladas, e não importava muito saber qual a causa daquela estranheza. O melhor mesmo a fazer, refletiu o homem, era seguir em frente e aproveitar-se da ausência de engarrafamentos ou de outros tipos de obstáculos pelo caminho para chegar logo ao destino. Assim, ele pisou fundo no acelerador para avançar o mais rápido possível naquelas circunstâncias.
            Somente depois de meia hora de estrada é que outro acontecimento inusitado ocorreu e, dessa vez, do lado de dentro do carro, não fora.
            À procura de uma lata de refrigerante, o menino resolveu remexer no porta-malas, que ficava bem atrás do banco traseiro onde ele, as duas irmãs e o cachorro estavam sentados. Notou, então, que havia uma coisa estranha enfiada sob as bagagens. Era volumosa e grande, tão grande quanto um homem adulto pode ser. Sim, um homem, com os seus 1m70, completo, de carne, ossos, sangue, braços, pernas, olhos, veias e órgãos, todos perfeitamente funcionais.
            Por mais que a razão e o bom senso se esforçassem para se fazer valer, era um fato inegável que debaixo dos sacos e malas se ocultava uma pessoa. A primeira reação do garoto foi de espanto, seguida de perto por um susto, pois imaginou tratar-se de um cadáver. Essa impressão se justificou apenas por um fugaz instante, pois tão logo se viu descoberto, o clandestino se agitou, nervoso, e ergueu a cabeça acima dos travesseiros e cobertas. O menino foi incapaz de conter o grito, que sobressaltou a todos.
            - Aaaai! Um homem! Pai, tem um homem escondido aqui atrás! – berrou a filha adolescente, inconscientemente espremendo-se no espaço entre o banco e a porta lateral.
            - Mas como é possível?! – redarguiu a mãe, ainda cética.
            - É sim, mãe, e ele tá com um capuz preto cobrindo a cara! Acho que é um assaltante – alertou o filho.
            Essa última palavra, “assaltante”, foi o que bastou. O pai freou com tanta brusquidão que o veículo derrapou na pista e parou enviesado no acostamento. Por uns meros centímetros, não ultrapassou a cerca de proteção e caiu num barranco que se precipitava à margem da rodovia.
            Levou alguns segundos para o marido se refazer do susto, recuperar o fôlego e virar para trás para ver direito o que estava acontecendo. Mas antes que pronunciasse uma sílaba sequer, o intruso se ergueu detrás do banco segurando algo na mão esquerda. O cachorro se levantou nas patas traseiras, como se quisesse saltar sobre o estranho, e começou a latir e a abanar o rabo sem parar.
            - Acho bom todos ficarem bem calminhos, ou as coisas vão esquentar pro lado de vocês – ameaçou, brandindo o objeto – Agora mandem esse cachorro ficar quieto ou eu acendo o pavio.
            Somente então o pai se deu conta do que o sujeito tinha na mão: um coquetel molotov, pronto para ser aceso e lançado. Instintivamente, inclinou-se sobre o encosto do banco e abraçou com vigor o menino e a irmã caçula, puxando-os para si, como se esse simples gesto pudesse protegê-los de uma eventual explosão. Ainda com o coração pulsando forte, a cabeça latejando, ele tratou de se recompor e, com a maior fleuma que podia exibir naquelas circunstâncias, procurou chamar o encapuzado à razão:
            - Escute, camarada, eu não faço ideia de quem você é e o que deseja da gente, mas, por favor, abaixe isso e vamos conversar. Creio que ninguém aqui quer uma tragédia, não é mesmo?
            O forasteiro o encarou por longos segundos até que, lentamente, abaixou a mão.
            - Isto aqui é só pra garantir que ninguém vai tentar bancar o engraçadinho – disse.
             - Pode ter certeza que não  – respondeu o pai.
            - Por que está fazendo isso? – interveio a mãe, nervosa, à beira de um ataque de nervos – Se é dinheiro que você quer, pode levar tudo. Pode ficar com o carro também. Mas não precisa ser assim. Somos todos civilizados.
            - Eu não, eu sou é brasileiro – arrematou o homem, e não parecia estar falando em tom jocoso.
- Não tem necessidade de nos ameaçar. É livre pra fazer qualquer coisa, ir aonde quiser.
 - Que papo estranho é esse, dona?
- Olhe à nossa volta. O que está vendo? – o estranho observou a paisagem ao redor com olhar desconfiado, e pareceu realmente pasmo com o que viu, ou melhor, com o que não viu – Nada, simplesmente porque não tem ninguém na estrada, nem nas casas, nem em lugar nenhum. Parece que todo mundo sumiu ou fugiu pra algum canto.
- Ah, acha que eu sou besta de cair numa armação dessas, mulher? Se liga! Nem a minha sobrinha de três anos engole essa história.
- Não é armação. Por acaso o senhor está vendo algum carro passar, alguém andando por aí? Nem sequer os pássaros estão voando. Está tudo parado. Parado e silencioso, como se o mundo inteiro estivesse de luto.
O homem relutou um pouco antes de admitir que a mãe tinha uma pitada de razão.
- Tá, e você quer que eu faça o que? Que abra uma igreja e reze pelos pecados da humanidade?
- Só queremos que pense direito antes de fazer uma besteira – disse o marido – Não há necessidade de nos assaltar, pode escolher qualquer casa vazia pra se esconder ou pegar qualquer carro abandonado pra dar no pé.
O sujeito pareceu se debruçar em pensamentos conflitantes até que, por fim, brandindo a garrafa de molotov, retrucou:
- Ah, cês tão me achando com cara de trouxa, é? Cês querem é dar um jeito de se livrar de mim, mas eu não caio nessa, não. Eu até podia passar a mão num carro largado desses e queimar o chão, mas aí seria mais fácil pra polícia me pegar. Aqui, junto com vocês, eles não vão desconfiar de nada e eu vou poder fugir pra bem longe numa boa.
A mãe pensou em replicar que tampouco havia polícia à vista para ele temer, mas concluiu que de nada adiantaria gastar o verbo.
- Você acha mesmo que isso tem a mínima chance de dar certo? – questionou a filha mais velha.
- Filha, não se meta nessa conversa – disse o pai, ríspido.
- Olha só, desse tamanho e ainda levando bronca do papai – ironizou o estranho.
- E é melhor você deixar a minha família fora disso. O assunto aqui é entre nós dois e só.
A esposa o encarou com ar de espanto:
- Não lembro de você ter toda essa preocupação com a gente quando resolveu se mandar de casa. Que foi? Está com remorsos ou só quer mesmo fazer o papel de pai exemplar?
A maneira sarcástica como a mulher falou aquilo irritou o marido. Ele redarguiu, seco, impaciente:
- Olha, agora não é o momento para...
- Esse papo furado já me deu no saco, tiozão. Cala a boca e dirige antes que a minha paciência acabe – falou o homem, num tom de ameaça real e imediata que provocou um frio na espinha de todos.
Diante dessa intimidação, ninguém ousou emitir o mínimo suspiro pela meia hora subsequente. O pai tratou de reconduzir o carro pela rodovia principal com a máxima concentração a que podia se permitir e procurou afastar da mente, ao menos por ora, o incômodo de pensar num meio de se livrar do invasor de maneira segura e sem por em risco a sua vida ou a da mulher e dos filhos. Mas não deixou que essa classe de preocupação o desviasse do intento de chegar o mais rápido possível ao sítio do sogro, mesmo que isso significasse ter de fornecer abrigo e comida por algum tempo àquele clandestino. “E ainda tenho de aturar esse miserável flertando com a minha filha”, pensou, ao ver, pelo espelho retrovisor, o sujeito comerciando olhares com a adolescente meio encabulada. Teve gana de parar o carro e expulsá-lo a socos e pontapés, mas um segundo depois se conteve. Não porque temesse por si, mas pelos outros.

III

Talvez tenha sido o susto com a súbita aparição do invasor, talvez o efeito da tensão acumulada nas últimas horas ou a somatória de tudo isso o que fez com que a moça começasse a sentir uma certa indisposição. A princípio, nem ela mesma deu demasiada atenção ao enjoo, seguido de uma leve tontura e uma flagrante palidez, que a acometeu em doses crescentes de desconforto. Não foi senão quando o pai tomou o rumo de uma estrada vicinal poeirenta, trepidante e de curvas fechadas, que o estado dela piorou bastante, a ponto de chamar a atenção da mãe.
- Nossa, minha filha, o que é que você tem? Sua cara está péssima. Está branca feito um papel e essas olheiras horríveis...
- Não sei, mãe, tô com vontade de vomitar, sei lá. Deve ter sido alguma coisa que eu comi.
- É melhor pararmos em algum lugar – sugeriu a esposa para o marido.
- Nada disso, dona – interveio o forasteiro – A gente não vai parar em lugar nenhum sem que eu mande. Aqui quem dá as ordens sou eu e eu digo quando e onde a gente vai poder esticar as canelas – declarou, em tom peremptório, voltando a sacudir o frasco cheio de gasolina num indisfarçável gesto de ameaça.
- Eu não vou deixar que você nos faça de refém das suas exigências, rapaz – redarguiu o pai – A minha filha não está passando bem e nós vamos, sim, parar no primeiro lugar que eu achar que devo, queira você ou não. Ou acha que irei cruzar os braços enquanto a saúde dela piora?
- Isso vai depender de eu gostar ou não do lugar que tu escolher.
- Por favor, moço, seja razoável – suplicou a esposa – Se ela não melhorar, vamos ter de ir a algum hospital, e eu tenho a impressão de que você iria gostar menos ainda dessa ideia.
O homem não fez que sim nem que não, antes resignou-se a amarrar a cara, visivelmente irritado, como quem sabe que foi vencido em uma discussão. Seja como for, a questão logo se resolveu por si mesma, pois lá pelas tantas o filho gritou:
- Pai, olha lá na frente! Um posto de  gasolina!
- Bem, creio que isso vem bem a calhar, não concordam? Além disso, a gasolina está quase no fim. É melhor reabastecer antes que fiquemos na estrada, e aí, sim, vai ser pior.
- Tá, pode ser, tudo bem – respondeu o sujeito, a contragosto – Mulher, você leva a moça até o banheiro enquanto o tiozão metido a esperto enche o tanque. Leva a pirralha junto, que eu não tenho jeito pra babá. Eu fico no carro com o moleque. Se alguém aparecer, já sabem. Nenhum pio sobre mim ou o teu filho vai virar torresminho, tão entendendo? E vê se não demoram, hein, que a minha paciência anda cada vez mais curta!
            Sem outra opção que não acatar as exigências do mascarado, o pai estacionou o carro ao lado de uma das três bombas do posto. Como tudo o mais até então, o lugar recendia a abandono. A sala onde ficava o caixa estava aberta e os freezers empanturrados de garrafas de água e cerveja funcionando, como se os frentistas houvessem largado tudo para fugir às pressas. E isso há pouquíssimo tempo, a julgar por um copo de isopor cheio até a boca de capuccino ainda fumegando dentro da máquina de café. Com exceção de um aparelho de televisão ligado que só se limitava a transmitir estática, um cemitério provavelmente pareceria ter mais vida.
            Aquela desolação, na verdade, já estava se tornando algo normal, quase corriqueiro, como se o desaparecimento da humanidade inteira fosse um fato consumado sobre o qual não valia perder tempo especulando. A questão de saber por que somente a família (e o clandestino) restavam na superfície da Terra não parecia preocupa-los. Nenhum deles, nem sequer o pai, esperava mesmo encontrar vivalma naquela altura do campeonato. Talvez justamente por isso, não conseguiram evitar uma expressão de surpresa quando a filha menor, que havia saído do carro para brincar com o cachorro, deparou com uma pessoa caída atrás do depósito de latas de óleo vazias e pneus velhos.
            A coisa aconteceu por um acidente fortuito. A menina correu para uma moita nos fundos do posto à procura da bolinha de borracha que tinha jogado para o cão. Não deu nem dois passos no meio do matagal quando ouviu um gemido, tênue, gutural, que parecia provir de algum lugar próximo. À esquerda de onde ela estava, a distância de um tiro de pedra, um homem de seus 20 anos, caído e quase inconsciente no meio do mato, agonizava. Do ombro direito, um filete vermelho escorria, empapando a camisa na altura do antebraço. A criança foi incapaz de reconhecê-lo pela farda policial que vestia, mas os pais, que acorreram ao local assim que ela gritou, assustada, pouca ou nenhuma dúvida tiveram do significado daquele achado.
            Imediatamente, trataram de trazer uma garrafa de plástico cheia de água para o jovem, que a bebeu com sofreguidão. A mãe e a filha mais velha, ainda um tanto nauseada, conseguiram achar um farrapo encardido que usaram como atadura sobre o ferimento. Em questão de minutos, o sujeito, bem apessoado e atlético, de cabelos pretos cortados rente, à recruta, queixo quadrado de Dick Tracy e olhar duro e implacável, já se sentia bem melhor e disposto a travar conversação.
            - N-não sei como agradecer a vocês. Sei lá quantas horas fiquei desacordado. Só o que lembro é de ter tomado um tiro e depois, bem, depois procurei me arrastar até este posto abandonado pra ver se achava alguém que me ajudasse. Mas não tem ninguém nesse lugar.
            - Não tem ninguém em lugar nenhum, moço – acrescentou o pai – Alguma coisa aconteceu, alguma coisa muito ruim, ao que parece. As casas, as lojas, as ruas, as estradas, está tudo do jeito que você está vendo aqui, vazio. O fato é que todo mundo parece que evaporou no ar. Eu não saberia explicar por que, mas é isso, sim.
            - Até pensamos que éramos os últimos seres humanos na face da Terra quando achamos você – explicou a mãe, sem disfarçar o alívio que sentia.
            - Mas então a gente tem que ligar pra alguma delegacia, tentar falar com alguém – retrucou o guarda.
            - Acho que você não entendeu. Estamos sozinhos – sentenciou a mulher – Somente nós e...
            A buzina insistente do carro a interrompeu no meio da frase, recordando-a de um detalhe imprescindível.
            - Quer dizer, nós e o nosso filho – explicou o marido, lançando um olhar de censura para a mulher e as filhas. Por mais que a tentação fosse grande, era arriscado demais revelar a presença do intruso. A situação poderia escapar ao controle e desandar em desnecessária violência. O mais prudente, diante daquele impasse, era evitar uma tragédia, até porque o próprio filho é quem estava à mercê do clandestino. Naquelas circunstâncias, talvez houvesse sido melhor não terem encontrado policial algum.
            - Então não há lugar pra mim no seu carro? – perguntou o rapaz.
            Por um momento, todos hesitaram e trocaram olhares de incerteza, sem saber o que dizer. Coube à filha adolescente responder, atropeladamente:
            - Claro que tem, você pode viajar comigo e com a minha irmãzinha no banco de trás. O meu irmão se ajeita no bagageiro com o... cão...
            - Vai ficar meio incômodo para o moço, filha – disse a esposa.
            - Olha, eu não quero atrapalhar vocês. Pra onde forem, eu vou junto. Tem um posto policial a uns 20 quilômetros ao norte daqui.
- É, acho que pode ser assim... – retrucou, contrariado, o pai – Agora é melhor sairmos o quanto antes.
            - Por que diz isso?
            - Por causa daquilo ali – apontou com a cabeça para o céu. A nuvem negra continuava rolando lentamente na direção deles, e agora parecia ameaçadoramente perto – Não me pergunte o que é isso, mas tenho o palpite de que é algo mais do que uma simples tempestade. E está vindo nesta direção mais rápido do que eu imaginava.
            Amparado pelo marido e a moça, o guarda se ergueu e foi manquitolando com eles até o carro. Continuava enfraquecido, mas o curativo e a água que bebeu serviram ao menos para restabelecer as forças o suficiente para que ele conseguisse se manter em pé. Antes que chegassem ao veículo, o intruso avistou de longe o policial e, mesmo de longe, reconheceu os seus trajes. Com um resmungo mal humorado, tratou de deitar no bagageiro para não ser visto. O pai levou o menino para a traseira e voltou para o volante com uma expressão de preocupação no rosto. Com gestos mudos, o mascarado deixou claro para ele que acenderia o coquetel molotov caso algo saísse errado ou alguém tentasse uma gracinha.
            O resto da viagem estava fadado a ser tenso e eivado de apreensões. Na mesma medida em que o guarda melhorava, a filha adolescente sentia-se mais e mais indisposta. Na tentativa de disfarçar o nervosismo, a mãe puxou conversa com o policial. A princípio, falaram coisas amenas e sem importância a respeito do trabalho dele, até que o assunto desaguou na causa do ferimento.
            - Eu tentei impedir que uns arruaceiros roubassem um carro largado na estrada, mas me dei mal. Eles eram em maior número, armados de paus e facas. Quando percebi que um deles carregava uma pistola, já era. Os desgraçados evaporaram no ar e não faço a mínima ideia pra onde foram. Devem estar escondidos por aí, enfiados no meio do matagal. Mas isso não importa agora, não é mesmo?
            - Tem ideia por que eles fizeram isso?
            - Ué, por acaso tem razão pra baderna? Vou dizer uma coisa, minha senhora, essa gente não tem escrúpulos. Nem boa índole. Pra eles, a propriedade particular e a vida dos outros vale tanto quanto a unha do pé. Só querem causar confusão e quebrar tudo. Parece que gostam de ver o circo pegar fogo só por diversão... ou porque desejam aparecer nos noticiários.
            - Talvez seja mais do que isso... – disse o pai, deixando em suspenso uma sugestão funesta.
            - É, moço, eu também penso que tem outra coisa por trás dessas ações. Política, é disso que se trata. Provocação. Mas, se querem a minha sincera opinião, no fundo esses vândalos não passam de um bando de idiotas que mereciam tomar umas bordoadas pra aprender uma lição.
            A conversa foi interrompida pelo gemido da filha mais velha. De repente, como que do nada, ela começou a se contorcer espasmodicamente no assento e a suar frio. As pupilas, dilatadas, os lábios desenhando um horrendo esgar, a garota era a imagem da aflição.
            - Mãe, olha isso! – exclamou a caçula, apontando para a barriga proeminente da irmã.
            - Meu Deus, minha filha! O que é que você tem? – espantou-se a esposa.
Ninguém havia reparado até então, mas subitamente o ventre da jovem começou a crescer, devagar e constantemente, adquirindo, a cada minuto que passava, um volume maior e mais esférico. Quase como se ela tivesse repentinamente se descoberto...
            - Grávida?! – o pai pisou no freio num reflexo instintivo. O carro parou com brusquidão e todos foram lançados para a frente – M-Mas não é possível! – gaguejou, incrédulo.
            - Bem, com tanta coisa esquisita acontecendo hoje, isso é praticamente normal – sentenciou a mulher, sem saber se ria ou se chorava tomada pelo desespero. Fosse como fosse, aquele inusitado fenômeno não deixou de aturdir a todos, e a ninguém mais do que à própria filha.
            - Ai, o que tá acontecendo comigo? O que é isso? Doi muito, nunca senti tanta dor na vida. Mãe, pai, alguém faz alguma coisa. Façam isso parar!
            - De que jeito, se a gente nem sabe direito o que tá havendo com você?
            - Calma, gente – interveio o policial – eu tenho uma certa prática de primeiros socorros. Na verdade, já ajudei a fazer muitos partos de emergência. Então, se precisar, eu auxilio. Agora procure ficar calma, moça, está tudo bem – falou, pousando sobre a barriga proeminente da jovem a mão confortadora.
            - Os deuses devem estar loucos. Primeiro, essa imensa nuvem de tempestade. Depois, todo mundo desaparece sem mais nem menos. Então, me aparece o clandestino e agora essa! – desabafou o marido, sem atentar para o que dizia.
            - Clandestino? Como assim? Que clandestino? – quis saber o guarda.
            - Ele está falando de mim, meu chapa – foi dizendo o intruso, erguendo-se dentre as bagagens do fundo do carro. Empunhava no braço esquerdo erguido a garrafa cheia de gasolina, como se fosse a tocha da Estátua da Liberdade.
            O policial reagiu como faria qualquer homem da lei. Instintivamente, buscou com a mão a cartucheira, mas deteve-se quando o forasteiro o agarrou pelo colarinho com brusquidão.
            - Acho bom pensar antes de fazer asneira, cara. Vai querer a morte de um monte de inocentes no teu currículo?
            Nesse instante, a filha menor prorrompeu em soluços. A mãe puxou-a para o banco da frente e a manteve abraçada ao colo, embalando-a na vã tentativa de acalmá-la.
            - Tá bom, já entendemos o recado, amigo – disse com voz firme o pai – Ninguém aqui pretende virar mártir, tá legal? Agora trate de abaixar essa garrafa.
            - É bom mesmo, coroa – redarguiu o mascarado, disparando contra o policial um olhar duro, ameaçador – Vai, pisa no acelerador que eu tô com pressa - o marido obedeceu sem questionar. Engatou a marcha, pisou no acelerador e prosseguiu pela estrada deserta até passar por um desvio – Isso, pega essa entrada aí, anda.
            “Eu sabia que ele não ia fazer nada. Nunca faz nada, o covarde”, pensou a mulher.

IV

            O carro ingressou em uma estrada ainda mais estreita e sinuosa do que a anterior. As curvas se sucediam ora para um lado, ora para outro, e o caminho foi ficando cada vez mais íngreme. Estavam subindo uma serra de uns 500 metros. Cerca de meia hora depois depararam com um caminhão tombado no meio da pista. Era um desses caminhões-tanques que carregam suco de uva, e o líquido escarlate escorria para o acostamento, formando uma poça bem larga à margem do asfaltamento. O pai reduziu a velocidade, quase parando, para passar pela brecha bastante estreita entre a boleia virada e a cerca de proteção. Novamente, o que causou estranheza não foi o acidente em si, mas a absoluta ausência do motorista. Nenhum corpo ou sinal de corpo havia a vista.
            Mal seguiram cem metros adiante, a tempestade os alcançou, enfim.
            A borrasca despencou como o prometido. Com a vontade e a força de um dilúvio bíblico. Os pingos, grandes como gomos de laranja, tamborilavam na lataria e nos vidros com incomum vigor. O rumor que faziam era tão intenso que por um momento abafaram todo e qualquer ruído estrangeiro. Em questão de segundos, a chuva borrou o ar ao redor e uma cortina de gotas d’água em suspensão se interpôs entre os passageiros no interior do carro e a visão da paisagem. Para além dos limites imediatos da enxurrada, não se podia enxergar nada. Ainda assim, o marido teimou em continuar avançando, surdo aos alertas da esposa dos perigos que corriam e dos crescentes gritos de dor da filha adolescente, agarrada aos braços do guarda. Até mesmo o intruso parecia preocupado, a todo momento limpando com a manga da camisa as janelas embaçadas. Então, de repente, o carro deu um tranco e parou, ligeiramente inclinado para o lado esquerdo. O pai tentou arrancar novamente, pisando no acelerador até o pedal encostar no chão, mas o veículo, conquanto ameaçasse ir para a frente, teimava em não sair do lugar.
            - É um buraco, pai – alertou o menino, o rosto grudado no vidro traseiro – E parece que é dos grandes e fundo que nem uma piscina!
            - Quem vai sair pra me ajudar? – perguntou o marido, desligando o motor e abrindo a porta. Nesse mesmo instante, uma saraivada de pingos invadiu o interior, molhando o painel e o banco do motorista. O policial se dispôs a segui-lo.
            Ensopados até os ossos e lutando para enxergar algo mais do que a ponta do nariz, os dois averiguaram a roda traseira da perua, afundada em uma cratera de dimensões bastante razoáveis. Não vinha ao caso discutir de que forma iriam sair dali. Era necessário fazer algo, e depressa. O marido não chegou a externar os pensamentos, mas temia que a intensidade da tormenta provocasse um deslizamento de terra, ou que a enxurrada arrastasse o carro com toda a família dentro, ou as duas coisas. O guarda vasculhou a mata por perto e encontrou um galho de árvore. Pequeno, mas grosso o suficiente. Voltou para o veículo e chamou o clandestino.
            - Precisamos de um braço forte, meu amigo. É melhor ajudar se quiser que a gente saia daqui.
            O estranho fez um muxoxo de desagrado e, mesmo contrariado, saiu para auxiliar. Levou consigo o coquetel molotov, que cuidou de enfiar no bolso traseiro da calça quando se inclinou, junto com o guarda, para forçar o pedaço de madeira contra a base do pneu, enquanto o pai dava a partida e acelerava.
            O carro patinou e patinou, sacolejou todo, sem, no entanto, sair um milímetro do lugar. O guarda ajeitou de novo o galho e disse para o sujeito pressioná-lo para baixo com mais força. Mais uma vez, o motor do carro rugiu, mais uma vez, as rodas giraram no vazio, muita lama voou para tudo quanto foi lado, e mais uma vez o veículo permaneceu teimosamente metido no atoleiro. A terceira e última tentativa, embora fracassada, provocou um incidente que veio a ser benéfico e que nada teve a ver com o atolamento.
            No esforço para empurrar para baixo a alavanca, o sujeito escorregou no lamaçal que havia se formado sob os pés e caiu no chão. Quase ao mesmo instante, uma queda de barreira deslizou sobre a pista, acompanhada de um estrondo pavoroso. A terra úmida, misturada a cascalhos e raízes de árvores, veio com o ímpeto de um tsunami, arrastando tudo o que estava no caminho por cerca de dez metros, por pouco não precipitando o veículo serra abaixo. O mascarado não teve a mesma sorte e foi carregado entre os detritos. O guarda ainda tentou estender a mão para salvá-lo, num gesto desesperado, mas foi incapaz de resistir à força do desmoronamento. Ele mesmo safou-se de ser soterrado pelo mar de lama pelo providencial retorno do pai.
            - Pelo menos, uma boa notícia, pra variar – disse ele, enquanto erguia o policial com um puxão vigoroso do braço esquerdo - Eu vou ver se encontro ajuda mais adiante. Posso jurar que vi umas luzes lá em cima.
            - Deixa isso comigo, conheço essa região melhor do que o senhor.
            - Não duvido, mas acontece que eu estou desarmado, e mesmo que tivesse um revólver, não saberia como usar. A última coisa que eu gostaria é de ter de defender sozinho e com os punhos nus a minha mulher e os meus filhos de outro bandido ou um bando deles. Além disso, nunca fui homem de usar da força bruta pra resolver as coisas.
            O guarda foi obrigado a concordar com aquela argumentação.
Mal o pai desapareceu na curva adiante, a filha mais velha, que parecia ter acalmado, voltou a sentir dores fortes. O ventre, agora, era tão grande quanto uma bola de basquete. A jovem ofegava e respirava com dificuldade. O suor esguichava das têmporas. Estava claro para todos que ela se encontrava em trabalho de parto.
            - Parto?! – espantou-se a mãe.
            - Bem, minha senhora, como eu disse, já ajudei em partos antes e sei o que isso é, e posso assegurar que ela está dando à luz.
            Como que em resposta a essa afirmação espantosa, a garota deixou escapar um grito de dor. Desorientada, a mãe e o policial trataram de acomodar a moça no banco. O filho ajudou a passar uma toalha molhada por baixo do corpo e a toda hora a caçula limpava o suor na testa e no rosto da irmã com uma flanela.
            Enquanto no interior da perua um pandemônio se armava, do lado de fora, em contraste, as coisas se acalmavam. Gradualmente, a tempestade amainou. De um dilúvio carregado por ventos de vários quilômetros por hora, relâmpagos e trovões dignos de Júpiter e enxurradas pavorosas que mais pareciam cachoeiras despenhando do céu, a tormenta foi perdendo a intensidade até ficar reduzida a uma garoa insignificante. No breve espaço de tempo de uns vinte minutos, nada restava dela além da pista molhada, um amontoado de árvores arrancadas pelas raízes e uma generosa camada de barro cobrindo todo o caminho.
            Foi ainda sob os últimos respingos que o bebê, um saudável menino de tez negra, bochechas grandes, olhos amendoados e muito escuros e cabelinhos pretos enrodilhados, deu o primeiro vagido. A jovem o confortou ao colo e, aliviada, conquanto bastante confusa, ousou esboçar um sorriso de satisfação. Ela e o policial trocaram olhares promissores e até a mãe se convenceu de que um milagre havia acontecido.
Pouco depois, o pai regressou de sua exploração. À visão da criança, não conseguiu evitar que um filete de lágrimas escorresse dos olhos marejados. Por um instante, balbuciou qualquer coisa incompreensível, incapaz de formular uma frase coerente, que desse conta das poderosas emoções que haviam se apoderado de todo o seu ser. Limitou-se a fitar a esposa e os filhos, contemplando aquela cena algo lírica com uma expressão de estupefação no rosto. Finalmente, os pensamentos vieram em socorro da razão e ele recuperou o autocontrole:
            - A meio quilômetro daqui, avistei uma cidade mirrada, dessas de beira de estrada, e posso estar enganado, mas juro que vi gente, gente e movimento de carros. Com certeza, tinha um cachorro deitado sob uma sombra abanando o rabo. Acreditem, existe vida naquele lugar.
            - Bem, agora que a tempestade passou, acho que não vai ser complicado tirar o carro daqui – observou o guarda.
            - Então está bem. Vamos andando que o meninão aí deve estar com fome.
- Eu, com certeza, estou – disse o filho.
- A propósito, que nome você pensa em dar a ele, filha?
            - Hã... não sei ainda, pai – respondeu a garota – Mas isso importa de verdade?
            - É, acho que está certa. Não importa nem um pouco – disse o homem, e saiu com o policial para desatolar o carro. Bem ao longe, por trás das montanhas distantes palidamente iluminadas pelos raios do entardecer que irrompiam dentre as nuvens, um tênue porém bem definido arco-íris lançava as suas extremidades de um canto ao outro do firmamento.


01 de novembro de 2014

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