e Leia a versão completa de "A Jornada para além do homem", a resenha crítica do filme "2001, Uma Odisseia no espaço", de Stanley Kubrick ~ Diário do Moretti
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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Leia a versão completa de "A Jornada para além do homem", a resenha crítica do filme "2001, Uma Odisseia no espaço", de Stanley Kubrick






A JORNADA PARA ALÉM DO HOMEM

Por Marco Moretti
A estação espacial do filme "2001, Uma Odisseia no espaço" - Fonte: Wikipedia

            Quando meteu na cabeça realizar o proverbial “bom filme de ficção científica”, logo após desferir o murro no estômago dos republicanos e conservadores com o seu “Doutor Fantástico”, em 1964, o diretor americano Stanley Kubrick já era considerado uma das grandes promessas de sua geração. Perfeccionista, meticuloso, exigente e invariavelmente intratável, Kubrick já havia construído uma sólida carreira com apenas sete títulos, dos quais pelo menos cinco são considerados obras-primas definitivas (pela ordem, “O Grande golpe”, “Glória feita de sangue”, “Spartacus”, “Lolita” e o mencionado “Doutor Fantástico”). Para a sua excursão no universo da FC, o cineasta escolheu a dedo um conto do escritor inglês Arthur C. Clarke, também ele consagrado como um dos grandes luminares do gênero no século passado, ao lado de Isaac Asimov e Ray Bradbury. “A Sentinela”, uma historieta escrita em 1948 que narrava a descoberta, por um grupo de astronautas, de um artefato enterrado na Lua milênios atrás por uma suposta raça alienígena. Décadas antes de Erich Von Daniken propor a teoria dos deuses astronautas, Clarke sugeria, nessa narrativa curta, as possíveis implicações metafísicas e filosóficas de um achado dessa magnitude. Kubrick viu no conto o potencial para um longa-metragem que viria ao encontro de suas indagações mais profundas e que ele havia, de uma forma ou de outra, abordado nos filmes anteriores, como o questionamento da verdadeira natureza humana, (afinal, continuamos inerentemente animais ou somos algo inteiramente diferente?), e, principalmente, a ausência de uma inteligência suprema ordenadora do cosmo.
            Assim, o diretor chamou Clarke para juntos elaborarem o roteiro de um projeto que inicialmente foi batizado de “Jornada para além das estrelas”. O escritor, que vivia então no Sri Lanka (antigo Ceilão), no sudeste asiático, não se importou em deslocar-se até Londres para discutir com Kubrick o esboço do roteiro, sem imaginar que a parceria tomaria quase quatro anos de sua vida, entre idas e vindas de um lado para o outro do globo e mudanças de opinião e de humor do temperamental cineasta. Contudo, apesar das diferenças artísticas entre os dois, a colaboração foi, surpreendentemente, profícua. O produto final, em forma de filme e também livro, é uma espécie de amálgama dos talentos e ideias de ambos e é difícil distinguir quem fez o que. A narrativa enxuta foi expandida para quatro grandes segmentos (a aurora da humanidade, a descoberta do artefato na Lua, a viagem para Júpiter e a travessia do Portal Estelar) para comportar um longa com mais de duas horas de duração, os personagens aumentaram em número, embora tenham continuado a ser pouco mais do que figurantes no escopo imenso que a obra pretendia abordar. Uma mudança significativa foi proposta pelo diretor com relação à natureza do objeto alienígena. No lugar de uma pirâmide de cristal, como no conto, que entregaria o jogo logo de cara e indubitavelmente traria associações indesejáveis, ele decidiu por outra forma geométrica, o monólito retangular inteiramente negro, que acrescentaria uma certa dose de mistério ao filme (com as proporções de 3 x 4, o objeto encerra implicações cabalísticas que muitos interpretaram como uma referência a Deus). Outra alteração fundamental, e que no final das contas acabou fazendo toda a diferença, foi o acréscimo do tripulante não humano da nave espacial Discovery, o computador HAL 9000 (cujo nome, segundo alguns, seria uma brincadeira com a sigla da empresa de computação IBM, tese jamais inteiramente contestada por Clarke ou Kubrick), ele mesmo o mais denso e interessante personagem de todo o filme.
            Enquanto Clarke se esmerava em elaborar tratamento após tratamento do roteiro, Kubrick capitaneava o empreendimento junto ao estúdio produtor, a Metro Goldwyn Mayer, então em uma precária situação financeira. Uma prova de seu prestígio junto à indústria cinematográfica é que o cineasta exigiu e conseguiu obter um montante que chegou a 10,5 milhões de dólares ao final da produção (uma fortuna para os padrões da época), e carta branca para experimentar à vontade. Apesar da qualidade superior do roteiro, lá pelas tantas rebatizado definitivamente com o título que o imortalizou, “2001, uma Odisseia no espaço” (em mais de um sentido uma referência ao clássico de Homero), Kubrick sabia que a linha tênue que distinguiria o seu trabalho dos outros do gênero feitos até aquela ocasião residia, sobretudo, na qualidade ímpar dos efeitos especiais. Por essa razão, não hesitou em cercar-se das mãos e mentes mais bem preparadas para a tarefa. Ele queria que “2001” fosse não apenas revolucionário no conteúdo, mas também na forma. Desse elenco de talentos técnicos, o principal nome, sem dúvida, foi o de Douglas Trumbull, um criativo e experiente diretor de efeitos especiais que vinha testando incansavelmente novos métodos de criação visual. Não menos importante para a consecução dos delírios visuais bolados pela dupla Kubrick-Clarke foi John Dykstra, que desenvolveu um sistema reflexivo chamado “dykstraflex” empregado na espetacular e hipnotizante sequência do Portal das Estrelas, no final do filme. Não é exagero dizer que, sem o apoio de Trumbull, Dykstra e de sua equipe, o filme nem de longe teria tido o impacto que teve, e muito menos influenciaria toda uma geração de jovens realizadores que tinham acabado de sair das fraldas, Lucas e Spielberg à frente.
            O diretor sabia bem o que estava fazendo quando resolveu apoiar a maior parte do peso da narrativa nos efeitos especiais. Ex-fotógrafo da revista “Look” no início da carreira, nos anos 1940, Kubrick era um diretor essencialmente visual, como tinham sido, antes dele, os grandes mestres advindos do cinema mudo. Tendo aprendido as lições da narrativa imagética e amadurecido como realizador, ele tinha plena consciência de que o seu oitavo trabalho deveria praticamente se concentrar nos aspectos essencialmente visuais, dispensando quase por completo a necessidade de diálogos explicativos. O produto final, dessa forma, é quase um filme mudo, e se pensarmos bem, a primeira e a última sequência são precisamente isso (a grosso modo, pode-se dizer que 2/3 do longa não contêm qualquer espécie de fala, se descontarmos os grunhidos dos antropoides no início). Mesmo quando há diálogos, eles pouco mais são do que conversas banais, técnicas, até mesmo enfadonhas e que nenhuma relevância têm para levar a narrativa adiante. Significativamente, o único personagem cujas falas têm certa importância, pathos, e conteúdo é justamente o computador da nave.

O enigmático monólito negro no final do filme - Fonte: Wikipedia

            É em HAL e em torno dele que o diretor canaliza a discussão de um dos temas recorrentes em sua obra: a dicotomia entre racionalismo e irracionalismo, ou entre lógica e emoção. Fanático jogador de xadrez, Kubrick jamais perdeu de vista o fascinante paradoxo que esse jogo propõe para a mente humana. Ao mesmo tempo, entretenimento e raciocínio, passatempo e estratégia, prazer e esforço mental, ele enxergava a presença dessa ambiguidade em cada aspecto da vida humana. Geralmente, o associava a uma perspectiva mais ampla da sociedade e da história, traçando paralelos instigantes entre as ações humanas e os lances do jogo de xadrez. É nesse sentido que devem ser entendidas as estruturas e organizações militares que atuam implacavelmente, seguindo uma única e invariável sucessão de raciocínios que conduzem à lógica e inevitável conclusão em “Spartacus”, “Doutor Fantástico” e “Nascido para Matar”. Também é a lógica e a estratégia racionais do xadrez que norteiam a atuação do Estado repressor em “Laranja Mecânica” e esse mesmo planejamento subjaz ao plano de assalto ao jóquei em “O grande golpe”. Em nenhum outro filme de Kubrick o mecanismo do jogo de xadrez é tão evidente quanto em “Glória feita de sangue”, no qual um grupo de soldados franceses nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial é enviado para um assalto suicida a uma fortaleza alemã e acaba sendo sacrificado como os peões para proteger os bispos e os reis que governam os bastidores da política e do exército (não por acaso, o filme ficou proibido na França durante décadas).
            É nesse ponto que o irracionalismo inerente à mente humana, muitas vezes na forma de loucura, irrompe em cena, estragando o jogo e pondo a perder toda a meticulosa engrenagem montada com o único propósito de executar uma função específica. É nessa categoria que podemos entender a ação do general que pira na batatinha e resolve detonar a Terceira Guerra Mundial em “Doutor Fantástico” ou a paixão obsessiva pela jovem pré-adolescente que leva à insanidade o professor Humbert Humbert em “Lolita”. Em “2001”, esse papel é vivido pelo mais insuspeito dos personagens, justamente o computador, HAL. Como o Ciclope, o gigante de um olho só do poema homérico, HAL, também ele um Ciclope eletrônico de um único olho perscrutador, “devora” um a um todos os tripulantes humanos da Discovery, com exceção de David Bowman (Keir Dullea), que, tal qual Ulisses, destrói o ogro canibal, “cegando-o” naquilo que ele tem de mais vital, a inteligência.
            Apesar do ceticismo de Kubrick com relação à capacidade humana em construir e manter em funcionamento engrenagens artificialmente concebidas, sejam ela literais, como as de um computador, ou metafóricas, como as do Estado, ainda é no racionalismo que ele aposta todas as cartas para a sobrevivência de nossa espécie. Sob essa perspectiva, “2001” é antes um discurso voltado mais para a época em que foi realizado, o período agudo da Guerra Fria, com o perigo real e imediato da aniquilação do planeta pelas duas potências nucleares, do que para 33 anos à frente de seu tempo. Para o realizador, parece que a violência e a sua consequência mais extrema, a guerra, são, infelizmente, o que nos definem como seres humanos. É esse o significado da magistral sequência em que o Sentinela da Lua, o “Adão” de “2001”, descobre no osso de um animal a primeira arma e com ela mata e aniquila os inimigos e a sua caça, para em seguida, num êxtase de agressividade e euforia (ou seria loucura?), lançá-lo para o alto. Num corte elíptico já clássica (e somente superada em escopo de tempo pela montagem do recente “A Árvore da Vida”, de Terence Malick), o diretor comprime milhões de anos de história num único segundo, quando o osso se converte num satélite (militar?) em órbita da Terra. Há aqui uma observação sutil de que, afinal de contas, a conquista do espaço também se deve à guerra (no caso, a Guerra Fria que levou à Corrida Espacial entre americanos e russos).
            Mas, se o nascimento do ser humano nessa cena antológica implicou o emprego da violência, da agressividade e da loucura para levá-lo até o espaço, o filme também defende a ideia de que, se quisermos ir além da nossa vizinhança imediata, se quisermos realmente prosseguir em nossa jornada para além das estrelas, conforme o título original indicava, uma nova forma de vida, ou uma nova mentalidade, terá de surgir. Caso contrário, estaremos fadados ao desaparecimento. Embora possa parecer pessimista, o diretor jamais perdeu a fé na capacidade de nossa espécie em atingir grandes realizações. A melhor prova dessa firme convicção no potencial humano está não apenas nas maravilhas tecnológicas que o longa-metragem exibe com uma magnificência jamais vista até então, mas na própria trilha sonora. A rejeição da trilha original, feita pelo competente Alex North (com quem Kubrick havia trabalhado em “Spartacus”), em prol de composições clássicas de Richard Strauss, Johann Strauss, György Ligeti e outros, teve a sua razão de ser. Celebra a que alturas magníficas a nossa capacidade criativa e tecnológica pode chegar quando liberta das paixões violentas que nos conduzem a disputas ridículas e sem sentido. Nada ilustra melhor o casamento da técnica com a sensibilidade, da razão com o sentimento, do que a aproximação do ônibus espacial Orion III da estação orbital ao som do Danúbio Azul, de Johann Strauss II.
Em suma, é a geração dessa nova espécie de vida que o longa propõe, tomando como base a teoria da evolução humana de animal para super-homem proposta pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche (não por acaso, o seu principal trabalho, “Assim falava Zarathustra”, empresta o título ao conhecido poema sinfônico de Richard Strauss que pontua a narrativa nos momentos-chave). A pista para decifrar o sentido da história é o nome do astronauta, Bowman, “arqueiro” em inglês. Pois exímio arqueiro era também Ulisses, que, ao retornar à sua ilha de Ítaca natal, dispara uma flecha e acerta exatamente no meio de um aro de metal pendurado no salão de seu palácio, conquistando dessa maneira o direito de posse sobre a própria esposa, Penélope. Também com esse arco, o herói dispara as flechas contra os pretendentes que tentavam usurpar o seu trono. Mais de um estudioso apontou para o simbolismo fálico das flechas e ao significado velado da supremacia viril do personagem exercido sobre os possíveis concorrentes pela posse de Penélope.
No filme, essa conotação sexual simbólica não passou despercebida do realizador. Bowman é também ele um “arqueiro”, que habita uma nave espacial em forma de flecha (ou de espermatozoide, com a proa em forma circular) que tem de atravessar a estreita passagem do Portal Estelar, que remete ao aro na “Odisseia” homérica (outro símbolo claro, dessa vez do órgão sexual feminino) para que possa gerar a forma de vida do século XXI, com uma outra mentalidade tão diferente da nossa quanto a nossa é de nossos ancestrais simiescos (embora a viagem pelo Portal Estelar mostrada no filme seja realizada por Bowman a bordo de uma pequena cápsula, nos primeiros tratamentos do roteiro ela era efetuada pela Discovery inteira).
E essa nova mentalidade, ao menos para Kubrick, é essencialmente racionalista, desprovida de paixões e emoções contraditórias, ou ao menos da parcela de loucura que habita em nossas mentes. Não é outro o significado do cenário em estilo século XVIII, o Século das Luzes, ou o Século da Razão, como é mais conhecido, em que Bowman vai passar os últimos momentos de sua odisseia. Em outras palavras, somente a razão pode nos salvar de nós mesmos. Uma mensagem que continua atual, para muito além do ano de 2001.

Keir Dullea como Bowman na sequência do Portal Estelar em "2001, Uma Odisseia no espaço" 
Fonte: Wikipedia


17 de outubro de 2014

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