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sábado, 20 de setembro de 2014

Confira a versão completa de "O Olhar, o desejo e as mil e uma punhaladas", a resenha crítica do filme "Psicose", de Alfred Hitchcock





O OLHAR, O DESEJO E AS MIL E UMA PUNHALADAS

Por Marco Moretti

Janet Leigh na famosa cena do chuveiro em Psicose - Fonte: Wikipedia

            Quando estreou nos cinemas, em 1960, Psicose (Psycho) provocou marolas entre os críticos e os realizadores que até hoje se fazem sentir. Os bastidores do filme já foram fartamente explorados em livros, em documentários para a televisão e até mesmo no longa-metragem que leva o nome de seu realizador, Hitchcock, lançado no ano passado, e com Anthony Hopkins no papel-título. Portanto, não pretendo me estender muito sobre os segredos por trás da realização desse clássico. Como se sabe, ele foi baseado em um romance barato de Roberto Bloch, um escritor de terror hoje lembrado apenas pelos aficionados do gênero, que por sua vez se inspirou em um caso real.
            Primeiro, os fatos: em 1957, um pacato morador de uma cidadezinha rural de Wisconsin chamado Ed Gein foi preso e condenado por uma série de assassinatos brutais. O caso de Gein, único no gênero até então, foi uma espécie de reedição aprimorada (com o perdão da expressão) dos crimes perpetrados no século XIX por seu mais ilustre antecessor, Jack, o Estripador, ao mesmo tempo em que foi um prelúdio da selvageria hoje dominante nos noticiários. Na época, os crimes de Gein foram inevitavelmente comparados aos dos nazistas, cujos horrores relatados nos campos de concentração ainda estavam bem frescos na memória de todos. Seja como for, o espetáculo macabro que os investigadores encontraram em sua casa, com pedaços de corpos mutilados espalhados por toda a parte, bolsas confeccionadas com peles humanas, tigelas de sopa feitas de crânios e outros horrores, em muito suplantaram qualquer coisa que a imaginação de Bloch ou dos roteiristas de Hollywood poderiam ou teriam a permissão de bolar.
            Com base no noticiário envolvendo os crimes de Ed Gein, Bloch criou um romance macabro capaz de envolver o leitor do começo ao fim. Escritor habilidoso, dotado de uma rara capacidade para evocar o mal em meio aos fatos cotidianos, Bloch traçou um perfil simultaneamente perturbador e fascinante do assassino, rebatizado em sua ficção de Norman Bates. Na verdade, o romancista apenas se inspirou muito livremente nos fatos reais para criar uma história completamente fictícia e um tanto inverossímil de um assassino em série que escolhe as suas vítimas entre as hóspedes de seu motel barato de beira de estrada. Ao ler Psicose, o livro, é interessante notar que todos os elementos que depois fariam a fama do filme já estão ali presentes: o complexo edipiano, a presença/ausência da mãe castradora, a heroína, Mary (no filme, rebatizada Marion) Crane, insegura e desesperada para abraçar um relacionamento com um homem casado, que a conduz inevitavelmente ao trágico desenlace, a surpreendente revelação final. Mais até do que a versão fílmica, o livro mergulha na psique dos personagens, expondo as suas motivações e iluminando alguns aspectos de suas personalidades que deveras ficam pouco claros para aqueles que só conhecem a obra hitchcockiana.
            O que o livro não tem, nem seria capaz de ter, obviamente, é o impacto visual e sonoro que o veterano diretor inglês imprimiu ao seu filme. Da primeira à última tomada, Psicose, o longa-metragem, nos seduz e nos atrai como a luz de uma lâmpada a uma mariposa. A fotografia contrastada em preto e branco (opção do realizador para evitar que os espectadores ficassem chocados demais com a imagem de sangue vermelho escorrendo pelo ralo da banheira, na antológica sequência do assassinato no chuveiro), os meticulosos movimentos de câmera, a edição seca e ritmada como uma punhalada (que atinge o limite do genial na mencionada sequência do chuveiro, desde então imitada ad nauseam pelos seguidores do diretor, com Brian DePalma à frente), a cenografia sinistramente gótica da casa do psicopata e, claro, a música, ah, a música magistral de Bernard Herrmann, onipresente e onipotente, que parece ditar o ritmo implacável da narrativa. A própria escolha dos atores não poderia ser mais apropriada, com Anthony Perkins emprestando a Norman Bates uma certa fragilidade, uma sexualidade propositalmente ambígua, e uma timidez infantil que muito contrastam com a agressividade latente em seu interior perturbado.
            Como se sabe, a esposa de Hitchcock, Alma, os seus colaboradores mais próximos e o produtor tentaram a todo custo demover o realizador da ideia de adaptar o livro de Bloch, argumentando que era uma obra gore demais, terrível demais, para o bom gosto do Mestre do Suspense. Também como se sabe, Hitch não deu ouvidos às vozes discordantes e tocou o projeto com a inevitável consequência de criar uma obra-prima e um campeão de bilheteria que resgatou a sua carreira da trilha empoeirada e modorrenta que vinha tomando na ocasião. Mas é preciso que se lembre que muito do êxito do longa-metragem se deve à colaboração de três importantes pessoas: o roteirista, Joseph Stefano, que remodelou o original, suprimindo algumas cenas, acrescentando outras e, principalmente, deslocando o principal eixo da ação, a morte de Marion no chuveiro, do início do livro para o meio do filme; Saul Bass, responsável pelos créditos iniciais (em que as letras se esfacelam, como se estivessem sendo fatiadas por uma faca, um grafismo na verdade já sugerido na capa original do livro) e considerado, segundo algumas versões, negadas veementemente pelo diretor, o co-responsável pela planificação da sequência do chuveiro; o já citado Herrmann, cuja trilha sonora foi essencial para criar a atmosfera e provocar o impacto que a história requeria. Sem os acordes em stacatto, o filme perderia metade do impacto.
            Hoje, reprisado, refilmado, sequenciado, imitado e parodiado, é pouco provável que Psicose ainda provoque alguma surpresa, mas na época de seu lançamento ele foi uma espécie de divisor de águas no cinema comercial americano, por uma série de motivos. O primeiro deles se encontra imediatamente na cena de abertura, em que Marion (interpretada por Janet Leigh) e seu amante, Sam Loomis (John Gavin), aparecem seminus em um quarto de hotel de segunda categoria. Hitchcock sabia o que estava fazendo ao insistir em manter essa cena mesmo contra toda a objeção do Hayes Office (o departamento de censura americano) e do estúdio. O que já era comum no cinema europeu, jamais havia sido mostrado escancaradamente num filme voltado para o público médio, e o fato de que essa simples cena ajudou a romper as barreiras da moralidade de Hollywood é um trunfo pouco lembrado na carreira do diretor. Outro clichê que seria soberanamente removido é o da morte da heroína no meio da história, algo até hoje pouco usual, e absolutamente impensável para os clichês cinematográficos comerciais vigentes no início dos anos 1960. E a forma como o realizador fez isso, nos levando a compartilhar e até mesmo a nos tornar cúmplices dos atos poucos honoráveis da personagem (adúltera, ladra e mentirosa) é um dos maiores atributos que justificam a sua capacidade em manipular as emoções dos espectadores, levando-os pela ponta do nariz para onde bem entendesse como poucos diretores lograram na história do cinema (somente um Spielberg, um Chaplin ou um Douglas Sirk podem se comparar a ele nesse quesito). Finalmente, a maneira explicitamente violenta com que ele exibe os crimes (além da morte da heroína, o assassinato do detetive, Milton Arbogast – Martin Balsam -, na escadaria da casa de Norman Bates) acabou se tornando a marca pela qual Psicose passou a ser lembrado e também porque abriu as comportas de um tipo de cinema menos sutil e mais ostensivamente apelativo, que ganharia fôlego a partir de então para se tornar dominante nas telas contemporâneas.
            Deixando as controvérsias de lado, gostaria de me deter numa análise do sentido do filme em si. Muito se escreveu a respeito dos temas psicanalíticos que rondam a história de Norman Bates, de sua relação doentia com a figura da mãe morta e da dupla personalidade psicótica que ele desenvolveu como consequência de um sentimento de culpa exacerbado. Mas eu penso que a chave para uma melhor compreensão de Psicose reside, antes de tudo, na forma que o diretor deu ao filme.

Anthony Perkins como o psicopata Norman Bates 
na cena final de Psicose - Fonte: Wikipedia

            A narrativa se desenvolve em torno de dois temas polares: o primeiro é o do falso culpado, bastante explorado na maioria das obras do diretor britânico. Contudo, se em filmes como Os 39 Degraus, da década de 30, a busca pelo verdadeiro culpado na tentativa de provar a inocência do herói com relação a um crime que não cometeu se dava no plano externo, em Psicose, Norman Bates tenta provar a própria inocência assumindo não tão metaforicamente quanto se pensa a identidade e a aparência da mãe, para deslocar para ela a culpa pelo seus crimes hediondos. Mas, como se sabe, essa transferência de culpa é impossível, já que o rapaz, mais do que qualquer outro, sabe quem é o verdadeiro autor dos assassinatos.
            Mais ainda do que um tratado sobre a transferência de culpa, essa é uma obra sobre o olhar como catalisador do desejo. Desejo, aqui, deve ser entendido como o anseio pela posse do objeto sexual e a consequente consumação desse desejo em ato sexual. Absolutamente, esse não é um tema inédito na obra de Hitchcock. Janela Indiscreta, realizado alguns anos antes (e de que falarei aqui em outra ocasião), é talvez o melhor estudo sobre o assunto na filmografia do diretor. Mas enquanto naquela outra obra-prima o olhar não se consuma em ato, ao menos não diretamente, em Psicose o olhar será o prelúdio de uma consumação impossível porque proibida.
            Hitchcock, que de ingênuo não tinha nada, sempre procurou mostrar o ato sexual em seus filmes de maneira simbólica, metafórica, já que a censura da época e as suas próprias restrições morais e religiosas não permitiam que ele avançasse além da sugestão gráfica. Assim é que a imagem evocativa de penetração está constantemente presente em sua longa lista de mais de 50 trabalhos. Para não me alongar nesse tópico, basta aqui recordar o final de Intriga Internacional, o filme imediatamente anterior a Psicose. Na história daquele melodrama psicológico disfarçado de thriller de espionagem, o herói, interpretado por Cary Grant, é tolhido em seu processo de se tornar adulto pela mãe castradora (eis ela aí de novo) e no fundo é incapaz de consumar uma relação com uma mulher, seja ela qual for. Somente quando se envolve com a espiã-dupla (Eva Marie Saint), que o enreda em sua teia de sedução e o arrasta para os perigos da intriga internacional do título, é que ele finalmente se distancia o bastante da mãe para se libertar de suas restrições e cumpre o papel que se espera dele como homem. Nesse sentido, as duas últimas cenas daquele filme são bastante reveladoras do método empregado pelo diretor. Na primeira, Grant ajuda Eva Marie Saint a subir para o beliche de um trem. Corte rápido e vemos o trem penetrando em um túnel. A significação dessas duas sequências finais dispensa comentários.
            Em Psicose, a consumação não acontece, ou não acontece da forma esperada, porque o personagem de Norman Bates é incapaz de se afastar da influência da mãe, já que ela se encontra no único lugar onde é impossível ao rapaz livrar-se dela: a sua própria mente fraturada em duas personalidades. Quando observa secretamente por um buraco na parede Marion se despindo para entrar no chuveiro, Norman se deixa seduzir pela imagem da sensualidade feminina e se vê arrastado pelo desejo que ela desperta em sua libido. Diante da impossibilidade de levar a cabo a consumação desse impulso, ele a penetra da única forma que lhe é permitido fazer por sua mãe, com uma faca afiada, em uma série de punhaladas que não representam outra coisa senão o ato sexual sublimado.
Do ponto de vista psicanalítico, o ato sexual representa também a morte do desejo ao passo que, do ponto de vista de Hitchcock, católico pela educação jesuítica na infância, esse mesmo ato sexual representa duplamente a morte, pois para um devoto como ele o pecado da sexualidade é sinônimo da morte para a vida eterna prometida nos Evangelhos. Daí porque em seus filmes, como assinalou certa vez o crítico e cineasta francês François Truffaut, a morte é filmada como êxtase sexual e o sexo, por sua vez, é filmado como morte.
            O que torna Psicose tão interessante, para além desse jogo de sexualidade e morte que não deixa de nos perturbar, é que o realizador mescla o olhar, o desejo e a penetração em um mesmo movimento, digamos assim, fílmico. Todo o filme se estrutura em torno de ações de olhar, de perscrutar, de espiar. É como se, a toda hora, alguém bancasse o voyeur e não resistisse à curiosidade de observar o oculto (como, aliás, faz exatamente o personagem de James Stewart em Janela Indiscreta).
            Na primeira cena, por exemplo, a câmera panoramiza pelo horizonte da cidade de Phoenix, no Arizona, antes de deter-se num hotel. Sorrateiramente, se aproxima de uma janela e penetra pelas frestas da persiana. Dentro, flagramos Marion e o amante seminus deitados na cama. Mais tarde, já no motel, é Norman Bates quem espia por um buraco na parede a jovem se despindo antes do banho, e depois de seu assassinato a câmera faz um travelling para fora da janela para captar a voz do filho censurando a “mãe”. Em outra sequência, o detetive Arbogast resolve xeretar a casa de Norman e a invade em silêncio, subindo a escada em direção ao quarto da senhora Bates, quando então é atacado e morto. Já no clímax do filme, a irmã de Marion, Lila (Vera Miles), ao se esconder de Norman, encontra a porta semiaberta do porão e não resiste a fuçar o que há no interior. Finalmente, a última tomada de Psicose nos leva ao supremo ato de olhar, a vislumbrar o que se passa ali onde jamais nos é permitido entrar: os pensamentos alheios. Ao entrarmos no recinto da delegacia onde Norman Osborn está detido, penetramos na mente doentia dele e escutamos, por intermédio da voz em “off”, a mãe gabar-se de sua engenhosidade e esperteza.
            Como se pode ver, Psicose faz do ato de olhar e, sobretudo, do olhar da câmera, que é, em última instância, substitui o nosso, o motor do desejo e do crime. Nesse sentido, ele nos torna tão perversos, em nossa consciência profunda, quanto Norman Bates. Eis um dos segredos da genialidade (ou a perversidade, se preferirem) do bom e velho Mestre do Suspense, que nunca cansa de nos surpreender.

O mestre do suspense, Alfred Hitchcock, ocupando o lugar
 da Sra. Bates nos bastidores de Psicose - Fonte: Wikipedia


13 de setembro de 2014

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