e Livros ~ Diário do Moretti
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domingo, 17 de agosto de 2014

Livros




LONGA JORNADA TERRA ADENTRO
Parte 1

Por Marco Moretti

O escritor francês Julio Verne - Fonte: Wikipedia

            A literatura universal registra várias jornadas rumo ao centro da Terra, e pelo menos duas são dignas de figurar nos cânones clássicos. A primeira foi escrita ainda na Idade Média, quando a ciência como a entendemos hoje simplesmente não existia e os homens daquela época eram convidados a preencher os recessos sob os nossos pés exclusivamente com as criações de sua imaginação. Estou me referindo, é claro, à Divina Comédia, o famoso poema épico escrito pelo italiano Dante Alighieri entre os séculos XIII e XIV. Nele, todos os dogmas da cristandade referentes ao Inferno se cristalizaram num cenário de pesadelo, povoado de criaturas saídas da mitologia e da crendice popular e estruturado conicamente em níveis cada vez mais profundos de castigos e sofrimentos atrozes reservados às almas dos pecadores. Dante não partiu do nada para elaborar a sua obra monumental, mas seguiu a trilha traçada séculos antes por Homero (numa das passagens da Odisseia, Ulisses desce ao limiar do submundo para conversar com os companheiros mortos na Guerra de Troia) e Virgílio (que na Eneida descreve uma breve viagem de Eneias pelo mundo subterrâneo dos mortos que possui muitos pontos em comum com o livro do poeta florentino).
            Quinhentos anos depois da Comédia, o francês Julio Verne apresentou ao mundo uma outra versão da descida aos recônditos subterrâneos do planeta. Se em sua obra Dante estava em sintonia com o espírito religioso e filosófico de sua época, em Viagem ao centro da Terra, de 1864, Verne refaz o percurso antes seguido pelo italiano de acordo com os conhecimentos incipientes que se tinha do interior de nosso mundo na Era Vitoriana. A primeira obra era a exaltação de um modelo cosmogônico que já então estava em vias de desaparecer do mapa do conhecimento humano, e seria substituída gradualmente nos séculos XVI e XVII pelo chamado método científico baconiano e pelo experimentalismo de Galileu, enquanto a segunda prenunciava uma versão mais condizente com o que era aceito pelas academias no século XIX (um panorama que hoje também está inteiramente, ou quase, descartado).
É bem verdade que o escritor francês, um dos pais da ficção científica, tomou como base certas teorias controversas e já então um tanto desacreditadas de um estudioso americano chamado John Cleves Symmes. Segundo essas teorias, a Terra era formada por cinco esferas ocas, dispostas uma no interior da outra como bonecas russas. Ainda de acordo com Symmes, as entradas para esse mundo subterrâneo estariam situadas nos polos norte e sul, regiões que permaneceriam praticamente inexploradas até o alvorecer do século XX e por isso mesmo incendiavam as imaginações dos europeus na época em que Viagem ao centro da Terra foi escrito. É interessante notar que as ideias da Terra Oca de Symmes seriam levadas a sério por uma longa linhagem de seguidores, entre os quais os mais infames foram os nazistas, que parecem ter realmente vasculhado em vão o polo norte em busca da tal entrada para o submundo. Mas o que importa é que Verne não precisou recorrer a entidades sobrenaturais para contar uma história de descida ao centro da Terra. Ele o fez empregando o puro racionalismo científico da Era Vitoriana.

Ilustração original do livro "Viagem ao centro da Terra" - Fonte: Wikipedia

            Protagonizada pelo irascível professor Lidenbrock, por seu sobrinho, o impulsivo e namorador Axel, e por um robusto guia islandês, João, Viagem ao centro da Terra me parece ser mais do que uma mera aventura infanto-juvenil, como tem sido descrita desde a sua publicação. Fã incondicional do mestre do terror Edgar Allan Poe, que muito o influenciou tanto neste quanto em outros livros, Verne se apropriou das técnicas de codificação/decodificação de mensagens empregados por Poe em contos como O escaravelho de ouro para apresentar aos leitores um pergaminho enigmático de autoria de um antigo alquimista islandês chamado Arne Saknussem, que serviria de chave para os seus heróis chegarem ao âmago do planeta. A entrada para esse mundo ctônico, apontada no criptograma de Saknussem, o criador de Vinte mil léguas submarinas situou em um vulcão da Islândia, o local mais convenientemente próximo que ele conseguiu encontrar do polo norte, segundo a teoria proposta por Symmes.
            Há uma idade certa para ler Viagem ao centro da Terra, que se situa em algum lugar entre os 9 e os quatorze anos, assim como há uma idade certa para se ler as aventuras Harry Potter ou a saga de Tolkien. Reler esse livro, já adulto, é uma experiência completamente diversa. Talvez seja um exagero enxergar no romance algo mais do que ele pretende oferecer, e comumente os seus personagens são descritos como pouco mais do que caricaturas planas e superficiais de seres humanos reais, sem qualquer profundidade psicológica. Entretanto, penso que essa abordagem merece ser revista. Para além da trama linear, que nos conduz sempre em frente, sem se importar com as motivações dos heróis ou com os seus medos e anseios mais profundos, o que se percebe é que o romance de Verne é, antes de tudo, uma jornada para o próprio passado da Terra e para as nossas origens como espécie.

Conclui na próxima semana




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