e A versão completa de "Longa jornada Terra adentro", a resenha crítica do livro "Viagem ao centro da Terra", de Júlio Verne ~ Diário do Moretti
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sábado, 30 de agosto de 2014

A versão completa de "Longa jornada Terra adentro", a resenha crítica do livro "Viagem ao centro da Terra", de Júlio Verne




  

LONGA JORNADA TERRA ADENTRO

Por Marco Moretti


O escritor francês Júlio Verne - Fonte: Wikipedia

            A literatura universal registra várias jornadas rumo ao centro da Terra, e pelo menos duas são dignas de figurar nos cânones clássicos. A primeira foi escrita ainda na Idade Média, quando a ciência como a entendemos hoje simplesmente não existia e os homens daquela época eram convidados a preencher os recessos sob os nossos pés exclusivamente com as criações de sua imaginação. Estou me referindo, é claro, à Divina Comédia, o famoso poema épico escrito pelo italiano Dante Alighieri entre os séculos XIII e XIV. Nele, todos os dogmas da cristandade referentes ao Inferno se cristalizaram num cenário de pesadelo, povoado de criaturas saídas da mitologia e da crendice popular e estruturado conicamente em níveis cada vez mais profundos de castigos e sofrimentos atrozes reservados às almas dos pecadores. Dante não partiu do nada para elaborar a sua obra monumental, mas seguiu a trilha traçada séculos antes por Homero (numa das passagens da Odisseia, Ulisses desce ao limiar do submundo para conversar com os companheiros mortos na Guerra de Troia) e Virgílio (que na Eneida descreve uma breve viagem de Eneias pelo mundo subterrâneo dos mortos que possui muitos pontos em comum com o livro do poeta florentino).
            Quinhentos anos depois da Comédia, o francês Julio Verne apresentou ao mundo uma outra versão da descida aos recônditos subterrâneos do planeta. Se em sua obra Dante estava em sintonia com o espírito religioso e filosófico de sua época, em Viagem ao centro da Terra, de 1864, Verne refaz o percurso antes seguido pelo italiano de acordo com os conhecimentos incipientes que se tinha do interior de nosso mundo na Era Vitoriana. A primeira obra era a exaltação de um modelo cosmogônico que já então estava em vias de desaparecer do mapa do conhecimento humano, e seria substituída gradualmente nos séculos XVI e XVII pelo chamado método científico baconiano e pelo experimentalismo de Galileu, enquanto a segunda prenunciava uma versão mais condizente com o que era aceito pelas academias no século XIX (um panorama que hoje também está inteiramente, ou quase, descartado).
É bem verdade que o escritor francês, um dos pais da ficção científica, tomou como base certas teorias controversas e já então um tanto desacreditadas de um estudioso americano chamado John Cleves Symmes. Segundo essas teorias, a Terra era formada por cinco esferas ocas, dispostas uma no interior da outra como bonecas russas. Ainda de acordo com Symmes, as entradas para esse mundo subterrâneo estariam situadas nos polos norte e sul, regiões que permaneceriam praticamente inexploradas até o alvorecer do século XX e por isso mesmo incendiavam as imaginações dos europeus na época em que Viagem ao centro da Terra foi escrito. É interessante notar que as ideias da Terra Oca de Symmes seriam levadas a sério por uma longa linhagem de seguidores, entre os quais os mais infames foram os nazistas, que parecem ter realmente vasculhado em vão o polo norte em busca da tal entrada para o submundo. Mas o que importa é que Verne não precisou recorrer a entidades sobrenaturais para contar uma história de descida ao centro da Terra. Ele o fez empregando o puro racionalismo científico da Era Vitoriana.
            Protagonizada pelo irascível professor Lidenbrock, por seu sobrinho, o impulsivo e namorador Axel, e por um robusto guia islandês, João, Viagem ao centro da Terra me parece ser mais do que uma mera aventura infanto-juvenil, como tem sido descrita desde a sua publicação. Fã incondicional do mestre do terror Edgar Allan Poe, que muito o influenciou tanto neste quanto em outros livros, Verne se apropriou das técnicas de codificação/decodificação de mensagens empregados por Poe em contos como O escaravelho de ouro para apresentar aos leitores um pergaminho enigmático de autoria de um antigo alquimista islandês chamado Arne Saknussem, que serviria de chave para os seus heróis chegarem ao âmago do planeta. A entrada para esse mundo ctônico, apontada no criptograma de Saknussem, o criador de Vinte mil léguas submarinas situou em um vulcão da Islândia, o local mais convenientemente próximo que ele conseguiu encontrar do polo norte, segundo a teoria proposta por Symmes.

A cena do "mar interior" na gravura original 
do livro "Viagem ao centro da Terra" - Fonte: Wikipedia

            Há uma idade certa para ler Viagem ao centro da Terra, que se situa em algum lugar entre os 9 e os quatorze anos, assim como há uma idade certa para se ler as aventuras Harry Potter ou a saga de Tolkien. Reler esse livro, já adulto, é uma experiência completamente diversa. Talvez seja um exagero enxergar no romance algo mais do que ele pretende oferecer, e comumente os seus personagens são descritos como pouco mais do que caricaturas planas e superficiais de seres humanos reais, sem qualquer profundidade psicológica. Entretanto, penso que essa abordagem merece ser revista. Para além da trama linear, que nos conduz sempre em frente, sem se importar com as motivações dos heróis ou com os seus medos e anseios mais profundos, o que se percebe é que o romance de Verne é, antes de tudo, uma jornada para o próprio passado da Terra e para as nossas origens como espécie.
            De certa maneira, o livro é também, e sobretudo, uma viagem no tempo, pois, à medida que o trio de viajantes penetra nos abismos do interior da Terra, é a própria história pregressa do planeta que vai se desvelando diante deles. É nesse ponto que percebemos o intuito didático do escritor, sugerido por seu editor e sempre presente em suas melhores obras. Num mundo em que não existia a internet, o google, canais a cabo como o Discovery Channel ou qualquer coisa remotamente parecida com isso, a única fonte de conhecimento, além da experiência pessoal de cada pessoa, era a leitura, e Julio Verne sabia tão bem quanto qualquer Dan Brown de hoje que as lições podem ser melhor aprendidas por intermédio do artifício lúdico da ficção. É sempre mais agradável absorver conhecimento entretendo-se com uma história envolvente e emocionante do que decorar dados e fatos em maçantes livros escolares.
            Sem perder esse aspecto do romance de vista, é interessante notar como o escritor francês nos faz mergulhar, literalmente, de volta ao passado. A cada etapa da descida, corresponde uma fase geológica mais antiga da Terra. Finalmente, perto do núcleo do planeta (que, aliás, nunca é de fato alcançado), nos deparamos com um oceano imenso povoado por feras antediluvianas (a recente descoberta, feita por satélites em órbita, de que ao menos nisso Verne estava certo, e que de fato existe um vasto oceano, maior do que todos os que conhecemos, debaixo da superfície terrestre, apenas corrobora a capacidade profética ou imaginativa desse fabuloso autor).
            Mas é no ponto mais extremo de sua descida que a história realmente fica interessante. Prestes a chegar ao almejado centro da Terra, o prof. Lidenbrock e os seus companheiros finalmente têm um vislumbre, um tanto assustador, de um ancestral humano, e a visão que se tem de nosso antepassado não é lá muito lisonjeira. Verne poderia nos revelar o homem das cavernas em toda a sua natureza animalesca e violentamente primitiva, mas preferiu parar por aí. Talvez pretendesse ir mais fundo, literalmente, na descrição de nossos parentes remotos, mas provavelmente foi demovido dessa ideia para não afugentar os seus jovens leitores. Afinal, tudo o que se pedia de um livro de aventuras juvenis naqueles tempos era mero entretenimento descompromissado, não elaborados jogos mentais. Ou, quem sabe, para usar a célebre frase de Nietzsche, ele tivesse medo de encarar a sua própria face e do resto da humanidade no abismo do tempo.
            Contudo, sou levado a crer que Viagem ao centro da Terra tem, além disso, muito mais aspectos psicológicos e biográficos do que sonha a nossa vã filosofia. Que me perdoem os que pensam o contrário, mas eu sempre defendi a tese de que conhecer a vida de um artista é tão importante para a compreensão de sua obra, de suas motivações profundas, de seu estilo quanto analisar e dissecar o seu trabalho. Isso é verdadeiro tanto para um Dante, quanto para um Shakespeare ou qualquer outro. Sabe-se que Verne era um homem austero e um pai temperamental, que tinha uma relação conturbada com o filho, Michel, e ainda mais problemática com o sobrinho, Gaston, que em certa ocasião chegou a disparar dois tiros contra o escritor francês. Por tudo o que se conhece de Julio Verne, a imagem do scholar teimoso e irascível do Prof. Lidenbrock bem pode servir como uma espécie de autorretrato, uma tentativa, muito certamente inconsciente, de se purgar de erros cometidos no passado, sobretudo em relação ao filho e ao sobrinho. Já Axel me parece ser, de alguma forma, a imagem algo idealizada de Michel (ou um amálgama dele com Gaston), ele também um rapaz um tanto leviano e que chegou a se casar com uma atriz, contra a vontade do pai.
            Seja como for, o que fica evidente neste maravilhoso livro de aventuras é que ele pode também ser lido como uma história de reconciliação, de humanização de duas naturezas em tudo opostas e contraditórias, retratadas nas personagens do professor de ciências geológicas e o sobrinho impetuoso. A homônima versão fílmica do romance, lançada na década de 1950 e estrelada por James Mason e Pat Boone (esqueçam a versão mais recente, é um lixo do começo ao fim), enfatiza esse aspecto, quase transformando a viagem em uma jornada de reconciliação entre Lidenbrock e Axel.

A "floresta de cogumelos gigantes" na gravura original 
do livro "Viagem ao centro da Terra" - Fonte: Wikipedia

Aqui, talvez a etimologia do nome do austero professor nos dê uma pista do sentido do personagem. Lidenbrock parece ser a corruptela de duas palavras em alemão, os substantivos lide, pálpebra, e brocken, naco, pedaço ou fatia. Imediatamente, me vem à mente a expressão bíblica trava no olho, que se refere comumente a alguém que não quer enxergar a verdade. Essa pode ser a chave para se compreender o caráter de Lidenbrock e de sua relação com o sobrinho, de alguém que só tem olhos para si mesmo e o seu trabalho, e se recusa e enxergar o sentimento, as emoções, a personalidade do outro, ignorando por completo que o sobrinho também era um ser humano com toda a sua carga de imperfeições e desejos juvenis em ebulição.

            Somente quando o jovem Axel se perde do tio e do guia islandês, nos meandros da Terra, na parte mais angustiante da narrativa, é que o Prof. Lidenbrock finalmente retira a trave do olho e reconhece os sentimentos de afeição que nutre pelo sobrinho. O velho professor se angustia, se penitencia e se culpa pelo desaparecimento de Axel, e mais tarde, quando os dois finalmente se reencontram, é com uma forte demonstração de alívio e emoção desenfreada que o acolhe. É como se o coração de pedra do Prof. Lidenbrock, da mesma forma que as rochas que ele encontra em sua descida rumo ao centro da Terra, também se liquefizesse à medida que a jornada progride, e ele se tornasse menos frio e egoísta e mais humano. Pode-se dizer que o velho professor passa por uma alquimia espiritual, e seu coração de chumbo se torna ouro, e talvez esteja nisso o maior segredo do alquimista Saknussem e de todo o romance. É possível que a viagem ao centro da Terra não passe, em última análise, de uma viagem de autodescoberta e transformação, ao centro secreto de nós mesmos.

30 de agosto de 2014

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