e Maio 2014 ~ Diário do Moretti
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sexta-feira, 23 de maio de 2014

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Você já ouviu o barulho do mar na concha do caracol? - Completo



Você já ouviu o barulho do mar

 na concha do caracol?

Por Marco Moretti


    
 









"Sou um menino que vê o amor
pelo buraco da fechadura”
Nelson Rodrigues, Flor de Obsessão

- Eu já disse um milhão de vezes, Julião, que não é para limpar o piso de mármore do hall de entrada com água sanitária. É pra usar apenas sabão de coco, tá entendendo? Água e sabão de coco – exclamou o seu Gerânio, o zelador do prédio, com a impaciência exalando de cada poro.
O assistente de serviços gerais limitou-se ao gesto que comumente empregava quando recebia uma ordem ou escutava uma bronca: fez que sim com a cabeça, isso e somente isso. A testa negra reluzia com o suor que escorria do alto e das têmporas. Um leve tremor afetava as mãos. Não disse nada não porque se sentisse intimidado, mas porque não tinha nada para dizer, e não tinha nada para dizer porque em bem pouca coisa tinha o hábito de pensar. As regras de limpeza eram uma delas. Nem por todo o ouro do mundo seria capaz de entender por qual razão era obrigado a empregar este produto em vez daquele outro, o balde maior no lugar do menor, o esfregão em vez da vassoura. Assim era com todas as coisas que o cercavam e até mesmo com a vida.
- Se não fizer do jeito que eu estou falando, vai acabar manchando todo o chão e aí vou ser obrigado a descontar do seu salário – acrescentou o adiposo senhor de fartos bigodes cinzas, rebolando o traseiro gordo na cadeira enquanto enfatizava os pronomes pessoais com entonação irritada.
Como a expressão de paisagem estampada no semblante de Antônio Julião parecia indicar exatamente a ausência do mínimo indício de compreensão que se suspeitava dele, o zelador fartou-se de gastar o precioso latim em inúteis reprimendas e com um monossílabo ríspido despachou-o de volta ao trabalho.
No restante do dia, o servente pouco mais fez do que guardar no armário da despensa os produtos de limpeza, os panos e apetrechos de faxina. Aparentemente, a bronca de seu Gerânio havia atravessado os poucos centímetros que separavam uma orelha da outra em sua mirrada cabeça sem encontrar resistência alguma dos neurônios. Com o mesmo ar singelo e abobado, os mesmos beiços murchos caídos, o mesmo andar indolente, entrou e saiu da sala de administração, onde ouviu atento a ladainha que narramos acima, e retomou a faina diária. Seu espírito manteve-se tão inalterado quanto se nada de errado tivesse feito.
Disso tinha a mais discreta convicção. De sua absoluta inocência em todos os deslizes que lhe dissessem respeito, quero dizer. Contudo, se na aparência nenhum resquício havia de aborrecimento ou o mais leve traço de indignação, nas camadas de cebola mais profundas de seu ser a história era bem outra. Ali, no âmago formado pelo caldeirão ebuliente de memórias, frustrações, medos e anseios, fermentava um sentimento incomum. Complicado defini-lo, mas poderia ser descrito de maneira bastante vaga como um desejo, ou uma vontade ainda no nascedouro de fugir daquele lugar, de afastar-se para sempre daquelas pessoas, do serviço que o entediava e exauria, das carrancas altivas e arrogantes dos condôminos que mal se dignavam a reparar em sua presença quando, por acaso do destino, davam de cruzar ou trombar com ele nos elevadores e escadarias. Sonhava, enfim, em partir dali para uma região distante no tempo e no espaço, que podia ser o saudoso Ceará, a sua terra natal, ou outro lugar qualquer, em busca sabe-se lá do que ou de quem, desde que encontrasse a tão sonhada paz de espírito. A vaga noção que perpassava a sua mente é que pretendia mudar completamente de vida, para nunca mais ter de suportar essa situação degradante.
Enquanto esse anseio era adiado, Julião resignava-se a recolher os trapos da dignidade esfarrapada e seguir adiante. Parecia pensar como Scarlett O’Hara[1], de que o dia seguinte o aguardava ansioso com surpresas bem guardadas em uma caixa de presentes metida debaixo do braço.
Por improvável que possa parecer, as mudanças pelas                    quais o conformado rapaz tanto esperava despontaram, de súbito, na curva fechada de um recanto pouco frequentado do segundo subsolo do edifício. E foi completamente desavisado que tropeçou, literalmente, com o primeiro sinal de que algo formidável estava reservado para o seu futuro.
A coisa aconteceu na manhã de uma segunda-feira tão exasperante e chata quanto são todas as segundas-feiras desde que Deus espantou as trevas com a luz. No ambiente apropriadamente penumbroso das entranhas pouco frequentadas do prédio, ali se ocupava ele em recolher uma considerável carga de entulho que obstruía a passagem para o elevador de serviço. Sem poder contar com a ajuda de ninguém, ia e vinha, o infeliz, naquele trabalho repetitivo e cansativo, carregando de um lado para o outro lado a pilha formada pelos destroços de azulejos, pias quebradas, canos enferrujados e toda a sorte de detritos de reformas antigas quando topou com o pé esquerdo em um tijolo e estatelou-se no chão de cimento áspero e frio.
Ainda estava ocupado esfregando o joelho e mordendo os lábios para suportar a dor do machucado quando se deu conta da existência de uma porta, a poucos passos de cuja soleira ele havia caído. Aparentemente, dava para algum quartinho ou depósito, mas o que chamou a atenção de Julião não foi isso, e sim o fato de que, até aquele instante, jamais houvesse notado a sua existência. Sequer tinha ideia do que existia atrás dela. A explicação para isso é que ele pouco tinha frequentado o lugar e, mesmo quando o fazia, era às pressas e muito desavisadamente, sem prestar atenção direito ao que o rodeava.
A porta, é bom que se diga, não possuía nada de especial que justificasse um olhar meramente casual para ela. Era um pedaço de madeira bastante ordinário pintado de marrom escuro, sem qualquer placa que revelasse a sua serventia, com um ferrolho enferrujado a meia altura e uma fechadura, mas sem a maçaneta, ou melhor, com uma chapa de ferro pregada no lugar dela. Para uma mente arguta que não a de nosso improvável herói, esse simples detalhe talvez sugerisse um significado funesto, de que algo que não devia ser visto, ouvido ou cheirado existia do outro lado.
De maneira intangível e inexplicável, o servente sentiu-se imantado por aquela barreira erguida ali, bem nas suas fuças. Não conseguiu esquivar-se de um impulso insaciável de se aproximar dela, de tocá-la, sentir os seus segredos com as pontas dos dedos, quem sabe intuir as coisas cuja visão ela lhe censurava.
Ergueu-se, meio bambo, o ferimento na perna ainda dolorido, e aproximou-se da porta. Parou a poucos milímetros dela e hesitou, como quem teme avançar um passo a mais num quarto escuro. Na quietude solitária daquele recesso sob a terra, apenas o som anasalado de sua respiração acelerada fazia-se ouvir. Tímida mas decididamente, espalmou as mãos na superfície de madeira e forçou-a. Não demorou para constatar o óbvio, que ela estava trancada. Como fosse inútil tentar empurrá-la, cuidou de deixar de lado as pretensões de abri-la e foi-se de volta ao serviço, não totalmente divorciado de suspeitas.
Ainda na volta para casa, de pé no trem apinhado de gente do fim da tarde, Julião flagrou-se matutando por que a porta estava lá e, sobretudo, porque somente ela havia despertado tanto a sua curiosidade naquele dia. Passou a raciocinar por meio de negativas, a imaginar o que não devia obstruir. A hipótese de ser um depósito ou despensa de qualquer espécie podia ser sumariamente descartada. Existiam pelo menos dois grandes espaços para isso no andar térreo e no primeiro subsolo. Era pouco provável, também, que se tratasse de um banheiro abandonado e, se fosse esse o caso, seria um imenso desperdício de espaço, já que ninguém, ou quase ninguém, costumava passar por aquelas partes.
Restava a possibilidade de que haver uma passagem, talvez uma escada ou acesso para outro andar, mas mesmo isso era complicado de conceber, dado o espaço exíguo do corredor que conduzia ao elevador. E, até onde lhe era dado saber, jamais existiu um terceiro subsolo. Pelo menos, era o que o seu escasso bom senso induzia a crer.
Se a prudência e a timidez insistiam em tolhê-lo, o mesmo estava longe de se afirmar da altiva teimosia que, uns dias depois, guiou os seus passos uma vez mais para diante da porta trancada. Não é inteiramente verdade que pretendesse voltar ali de livre e espontânea vontade, mas as coisas aconteceram de maneira aleatória, sem que Julião, ou as suas entranhadas resistências, impedissem.
Foi ao passar pelo segundo subsolo com um carrinho de mão carregado de sacos de pedras e fragmentos de gesso que o assistente de serviços gerais escutou, de forma abafada mas inconfundivelmente distinta, um ruído oriundo detrás das pranchas de madeira. À distância de cerca de dois metros, foi incapaz de distinguir o som, embora lhe soasse familiar. À medida que se aproximou para captá-lo melhor, percebeu, em ondas sucessivas de espanto e temor, do que se tratava.
Com o ouvido esquerdo colado à porta, deixou-se inebriar pelo barulho relaxante da rebentação das ondas do mar nas areias da praia. Experimentou nas coxias do cérebro a sensação de vaivém das águas arranhando a superfície seca das pedras, e adivinhou a espuma jorrando em profusão para o alto, como a vitalidade indomável do esperma embranquecido que deu origem a Vênus[2]. Lembrou-se da sensação que experimentou quando, ainda menino, ganhou do tio uma concha de caracol vazia e descobriu, maravilhado, que ela guardava dentro de si um oceano inteiro.
Em meio ao marulhar inconstante, ouviu, ou jurou ouvir, certos sons inapropriados que o deixaram, por um momento que pareceu durar longos minutos, aturdido. Ao longe, bem ao longe, como se procedessem de uma distância impossível, ecoava o grasnar alegre de gaivotas à procura de peixes.
O servente recuou alguns passos. Sem saber direito o que pensar daquilo, olhou assustado para os lados, com medo de que alguém estivesse pregando uma peça, e saiu em desabalada carreira, esquecendo o carrinho de mão e tudo o mais.
Foram necessárias umas boas horas perambulando pelos corredores feito uma sombração para acalmar os nervos. Suava frio, como uma criança que tivesse sido apanhada praticando uma arte qualquer. Quando, enfim, conciliou-se com a sua calma habitual, pos os miolos em ordem e correu para explicar-se para o seu Gerânio.
- Que absurdo! Onde já se viu tamanho disparate, homem? Com o que você ouviu o barulho do mar, se não tem mar algum nesta cidade? Por acaso anda bebendo em serviço, é?  Olha lá que eu sei dessas coisas, reconheço um bafo de cachaça a quilômetros – saiu ameaçando o zelador – Preste atenção no meu conselho. Não deixe o síndico saber disso, e nem sonhe contar essa história pra mais ninguém. Se te pegam emborrachado, é rua na certa!
A admoestação, embora certeira e proferida em sinistro tom oracular, surtiu um efeito inesperado, até mesmo inverso, em Julião. Ao invés de demovê-lo de voltar ao segundo subsolo, o ceticismo expresso pelo superior teve por efeito acirrar a sua vontade de investigar com afinco redobrado o que existia por trás da porta.
Menos de 24 horas depois, lá estava ele, a cabeça apoiada sobre um copo colocado de borco rente ao ferrolho, como um médico que ausculta meticulosamente o coração de um doente, ansioso para perceber alguma coisa, mínima que fosse, que desse uma pista do que estava sucedendo. Novamente, ouviu o rumorejar da maré estatelando de encontro às rochas, e os gritos estridentes dos pássaros ao longe. Sentiu então uma certa umidade nos pés e olhou para baixo.
Os tênis estavam ilhados em meio a uma poça rasa de água de contornos difusos que escorria por debaixo da fresta da porta. Quase por instinto, e sem nem saber direito por que, abaixou-se e tocou com o indicador o espelho líquido. Em seguida, provou um pouco dele, cauteloso. Não o surpreendeu constatar que tinha um gosto deveras pronunciado de água salgada.
Dentre as poucas coisas de que o rapaz tinha alguma ciência nessa vida, era que sempre se podia confiar nos sentidos. Quando eram eles que lhe traziam alguma informação nova, inusitada como aquela, quem era ele para duvidar do que diziam? Sempre é mais fácil crer no improvável quando ele se apresenta firmemente escorado nas provas irrefutáveis do olhar, da audição, ou, como nesse caso, do paladar. Apenas de maneira muito vaga ocorreu-lhe o esboço de uma explicação racional para o fato de haver água do mar saindo sob uma porta nas profundezas de um edifício a dezenas de quilômetros de distância da costa mais próxima. Qualquer que fosse essa explicação, contudo, era insuficiente para aplacar a avassaladora curiosidade que o atiçou a se inclinar e espiar pelo buraco da fechadura.
Foi bem ali, por aquela passagem ínfima e estreita, que ele teve o primeiro vislumbre de que algo extraordinário, para além de qualquer experiência humana, estava ocorrendo. Algo que o deixou, a princípio, temeroso, depois, em um estado de completa estupefação e, finalmente, lançou-o, sem qualquer rede de proteção, no vazio abominável da incerteza se aquilo que conseguia enxergar era ou não a marca indelével da insanidade.
Do outro lado do orifício, descortinava-se a paisagem espetacular de uma extensa praia de areias brancas como a neve, acariciada por ondas tranquilas batidas por águas de um azul-esverdeado tão límpido que chegavam a ofuscar a vista. A costa era cercada por palmeiras que se deixavam agitar molemente pelo vento, e que se perdiam a uma distância que Julião só podia adivinhar. Falésias altas como prédios de cinco andares emolduravam esse cenário. No céu, claro e desprovido de nuvens, um bando de gaivotas enxameava ao longe, percorrendo a superfície do mar em voos ora rasantes, ora a grandes altitudes. Tudo tão bem arranjado, tão perfeito, tão intocado por mãos humanas, tão belo, enfim, que o pobre servente perdeu o fôlego e teve de se esforçar para conter as lágrimas.
O forte cheiro de maresia que investiu contra as suas narinas deu o toque de realismo que faltava e o fez cair para trás, num movimento repentino. O gostinho de sal permaneceu pregado aos lábios mesmo quando voltou a espiar pelo buraco, mais para certificar-se de que não estava delirando do que para extrair daquele bizarro voyeurismo um prazer proibido. E lá continuava ela, aquela praia imaculadamente utópica, deserta, tão vívida em todos os detalhes diante de seu olhar arregalado quanto a cena meticulosamente montada de um filme em 3D. Foi subitamente assaltado por uma imprevista sensação de culpa que o fez corar, talvez porque intuísse que aquilo que estava fazendo, o ato em si de espreitar em segredo, era não somente errado como perigoso.
Ergueu-se de um salto, momentaneamente movido pela inquietação, e, sem ligar para as consequências, pos-se a forçar e a empurrar a porta, possuído por um frenesi de vontades em erupção. A testa franzida, os lábios carnudos dobrados num esgar horrendo, impelia e repuxava e batia e rebatia. Contudo, logo deu-se conta de que o seu físico tacanho, mirrado, era insuficiente para arrombá-la. Cansado e arfando sem ar, já meio zonzo após um sem número de tentativas frustradas, escorou-se ao batente para não desabar.
Era inútil prosseguir com aquilo, pensou. O lugar estava firmemente vedado, e Julião perguntou-se se não haveria outra maneira de ultrapassar a barreira que o impedia de desfrutar da liberdade embriagadora que o atraía. É muito provável e nem um pouco desprezível a hipótese de que a paisagem evocava nele reminiscências de infância e da ensolarada terra natal, ainda que o lugar onde cresceu pouco tivesse a ver com areias resplandecentes e palmeiras verdejantes.
Feito um alucinado, preocupado em não se preocupar com nada, correu ao depósito de ferramentas, atrás da sala da administração, no andar térreo, e surrupiou uma chave de fenda, temendo que o seu Gerânio o apanhasse em flagrante. Meteu-a na fresta apertada entre a fechadura e o umbral e exerceu pressão o bastante para fazer saltar o ferrolho. O único efeito prático dessa nova tentativa foi um machucado provocado por uma lasca que escapou da tábua e fincou na lateral da mão esquerda. Imaginou se não seria mais fácil desatarraxar os parafusos da tranca e desmontá-la, pedaço por pedaço, mas a questão é que eles estavam tão enferrujados que era impossível sequer girá-los uma volta completa.
Diante da impotência da situação, atacou a porta com tudo o que dispunha. Primeiro, usou a própria chave de fenda como uma espécie de punhal na tentativa de estraçalhar as pranchas de madeira. Em seguida, como visse que isso de nada adiantasse, largou a ferramenta e passou a socar e a dar pontapés num crescendo de raiva. Nem mesmo a dor que começou a sentir nos punhos e nos dedos foi intensa o bastante para detê-lo. Continuou nesse embate violento sem que nada pudesse acalmá-lo.
Finalmente, ao custo de muito surrar a madeira, as mãos ensanguentadas, calejadas, as roupas empapadas de suor, exaurido e já no limite das forças, viu a porta ceder um pouco. Uma brecha raquítica de uns dois centímetros, no máximo, mas que para ele parecia tão larga quanto a passagem do Mar Vermelho se mostrou para aos hebreus. Empregando novamente a chave de fenda, agora como gazua, jogou todo o peso do corpo, que não era muito, para romper a resistência da matéria morta. Pouco a pouco, o espaço foi sendo dilatado. Julião completou o trabalho com as próprias mãos, puxando para si as pranchas até conseguir parti-las e arrancá-las, pedaço por pedaço. Contando apenas com a intransponível força de vontade, abriu um rombo considerável, pelo qual conseguiu passar o braço inteiro e destravar a tranca pelo lado de dentro. Pela passagem escancarada, o extenuado assistente de serviços gerais enfim se deparou com a realidade. E experimentou, talvez, a maior decepção de sua vida.
A praia banhada pelo mar e decorada com palmeiras tremulantes não passava da foto desbotada em um calendário amarelado de muitos anos pregado na parede bem adiante do buraco da fechadura. No chão, um saco de sal furado deixava escorrer o conteúdo sobre um fio d’água que gorgolejava do vazamento de um cano.
Tudo, então, não passou de um monumental equívoco? A visão de um lugar paradisíaco apenas isso, uma visão? Os pássaros em alegre movimentação e as árvores tocadas pelo vento mera ilusão de óptica? A maresia que impregnou as narinas, a impressão hipertrofiada ditada aos sentidos pela imaginação excitada? Seria apenas isso e nada mais? Uma armadilha pregada pelo destino?
Não, de forma alguma Julião iria se conformar com essa conclusão. Havia algo mais naquilo, que ele não conseguia entender e muito menos explicar, mas que tinha sentido ser real, um cenário palpável, que se podia ver, tocar, cheirar. Impossível aceitar que houvesse se enganado. Enraivecido, urrando qual um urso feroz, o rapaz avançou para cima do calendário, arrancou-o do prego onde esteve pendurado por anos a fio e o rasgou em uma miríade de pedaços. Não satisfeito, desviou a ira destrutiva para tudo o que havia naquele quartinho miserável. Ergueu o saco de sal e o lançou longe, puxou o cano que passava pelo canto até arrebentá-lo, derrubou o armário de madeira e espantou para todos os lados as baratas assustadas que se ocultavam debaixo das caixas de azulejos de cerâmica antigos.
Foi necessário um dia inteiro para que o seu Gerânio se desse conta do sumiço do servente. Depois de muito indagar sobre o paradeiro dele, resignou-se a procurá-lo por todos os cantos do prédio, sem sucesso. Até que desceu àquele pouco frequentado espaço no segundo subsolo. Encontrou o quartinho arrombado, a porta despedaçada, o trinco quebrado. Dentro, parecia que um furacão havia passado pelo local, deixando um rastro de devastação. Um pandemônio. Contudo, nenhum sinal de Julião. Sem compreender direito o que havia sucedido, o zelador coçou o cocuruto, intrigado, e mandou que limpassem e arrumassem o lugar antes de chamar alguém para trocar a porta.
Porém, se tivesse prestado mais atenção, notaria naquela bagunça um fato extraordinário, para dizer o mínimo.  
Em um dos fragmentos da foto despedaçada do calendário espalhados pelo chão, era impossível não perceber uma figura humana, a única figura, ainda que diminuta, perdida em meio ao esfuziante cenário da imagem descolorida de uma praia irreal, que existiu e continuaria existindo apenas na superfície delgada e infinita de uma folha de papel.

30 de agosto de 2014




[1] Heroína do filme e do livro “...E o Vento Levou”, escrito por Margaret Mitchell (1900-1949).

[2] Também conhecida como Afrodite, a deusa do amor na mitologia grego-romana, que, segundo o poeta Hesíodo, nasceu da espuma do mar oriunda do esperma do deus Urano.

HQs

Séries

Filmes





O DUELO QUE DEFINIU UMA CARREIRA
Por Marco Moretti

  Fonte: Imdb Internet Movie Database

            O longa-metragem que projetou à fama Steven Spielberg, Encurralado (“Duel”), é uma extraordinária obra inaugural, tanto mais quando se leva em conta que foi produzido originalmente para a televisão com escassos recursos (meros 425 mil dólares, uma pechincha mesmo na época em que foi feito) e pouquíssimo tempo (apenas 16 dias),  em 1971, quando o diretor tinha apenas 24 anos, embora já então fosse um profissional experiente, com créditos em séries da época como Galeria do Terror (“Night Gallery), e o episódio piloto de Columbo. Somente dois anos depois de ser exibido nas tevês americanas, em 1973, o telefilme teve a sua metragem esticada de 73 para 88 minutos com a inclusão de algumas cenas a mais, que o próprio Spielberg foi levado a filmar contra a vontade, mas que o habilitou a chegar às telas dos cinemas nos países estrangeiros, inclusive no Brasil, e amealhar prêmios importantes em festivais de prestígio como o Festival do Cinema Fantástico de Avoriaz, na França, em que abiscoitou o Grand Prix naquele mesmo ano. Curiosamente, os próprios americanos somente teriam a oportunidade de assistir a essa versão ampliada para as telonas em 1983, no momento em que o realizador já tinha se firmado como uma das grandes estrelas de Hollywood graças aos sucessos de bilheteria de Tubarão, Caçadores da Arca Perdida e, é claro, E.T., o Extraterrestre.
            A trama, de uma simplicidade absoluta, envolve uma eletrizante perseguição pelas estradas desérticas do sul dos Estados Unidos, ou antes, um duelo, como indica o título original, entre um motorista de carro meio patético, David Mann (Dennis Weaver, ator hoje esquecido, mas que nos anos 1960 e 70 era conhecido por papeis viris em seriados como Gunsmoke e McCloud, além de ter tido uma participação pequena mas marcante no clássico A Marca da Maldade, de Orson Welles, em 1958), e o motorista de um caminhão de combustível enorme e ameaçador. Um dos detalhes que tornam esse filme interessante é que jamais nos é dado ver o rosto do caminhoneiro. Tudo o que vislumbramos dele são rápidas tomadas de detalhe do braço e das botas de cowboy.
            A história foi sugerida a Spielberg por sua assistente, Nona Tyson, que havia lido o conto original homônimo na revista “Playboy”, assinado por um veterano escritor de livros e roteiros de ficção científica, terror e fantasia, Richard Matheson (1926-2013). Matheson, também um dos colaboradores da antológica série de tevê Além da Imaginação (“Twilight Zone”) em sua encarnação original, de 1959 a 1964, teve a ideia para Encurralado a partir de um incidente real ocorrido com ele mesmo. Quando viajava de carro por uma estrada em 1963, no mesmo dia em que o presidente Kennedy foi assassinado, o escritor fez uma ultrapassagem um tanto abrupta em um caminhão, o que bastou para que fosse perseguido por boa parte do percurso pelo condutor do veículo, situação que rendeu toda a linha de ação de sua historieta. O próprio Matheson foi chamado para escrever a adaptação para o telefilme, mas muito da eficácia do produto final deve-se, sem dúvida, à sensibilidade visual e ao sentido de ritmo que Spielberg imprimiu ao material.
            Em vez de ater-se caninamente aos diálogos (na verdade, praticamente inexistentes, com exceção de uma ou outra conversa limitadas a lugares-comuns. O que se vê durante boa parte do filme são monólogos longos e algo redundantes do protagonista, comentando ou expressando os seus temores e anseios), o jovem diretor optou por lastrear-se numa narrativa enxuta, essencialmente visual, aparentada ao cinema mudo, apoiada quase exclusivamente em efeitos sonoros estrategicamente relevantes (sobre os quais falarei adiante) e numa trilha sonora, de autoria de Billy Goldenberg relativamente eficaz na criação do suspense, funcional com o seu estilo progressivamente dodecafônico, que reflete a psique em fragmentação de David Mann transtornado pelo medo, bem longe das memoráveis e epicamente grandiosas composições que John Williams faria para as suas obras posteriores.
            Em parte, a eficácia desses recursos deve-se à meticulosa preparação levada a cabo por Spielberg. Nesse primeiro esforço para mostrar a sua capacidade em cuidar de projetos ambiciosos, o jovem diretor tratou de assegurar-se contra qualquer imprevisto. Para tanto, lançou mão de um método de trabalho que iria repetir no futuro e que lhe garantiu a segurança para concluir as filmagens no prazo e dentro do orçamento. Ele mesmo fez o storyboard de cada tomada do filme, descrevendo visualmente os ângulos de câmera, a colocação dos personagens em cena e a composição dos elementos como uma espécie de história em quadrinhos sem balões. Também se encarregou de mapear, num grande diagrama que consultava sempre que preciso, o percurso seguido pelos dois veículos em frenética perseguição pelas estradas desertas. Dessa maneira, era possível planejar com antecedência que tomadas seriam realizadas em dias e locações específicas, o que ajudava a precaver-se contra eventuais problemas.
Antes de tudo um exercício de estilo, Encurralado exibe magistralmente a capacidade de Spielberg em prender a atenção do espectador na beirada da cadeira, sempre tomando como modelo o bom e velho Hitchcock, tanto nas técnicas de criação do suspense quanto na escolha dos personagens. O célebre diretor de Psicose sempre defendeu a tese de que um filme de suspense é mais efetivo quando o seu protagonista é um homem comum. Por “homem comum”, Hitchcock entendia o sujeito de classe média habitual, trabalhador, pai de família, de meia idade, envolvido em questões corriqueiras do dia a dia, como o pagamento de contas, as pequenas picuinhas domésticas, os problemas no emprego etc, e que, de uma hora para outra, se vê lançado em uma situação extraordinária, que escapa à sua compreensão e ao seu controle. Lição devidamente apreendida pelo realizador de E.T. a partir de Encurralado, já que David Mann é exatamente o protótipo do homem comum repentinamente confrontado com algo que escapa à sua compreensão e ao seu controle. Macete que tem outra função importante no âmbito da narrativa, que é vincular empaticamente o espectador com o personagem, amplificando a identificação com a sua carga de angústias e temores facilmente assimiláveis. A própria “ocultação” do rosto do motorista do caminhão auxilia nesse processo, já que, sem uma face reconhecível, ele se torna instantaneamente um estranho, uma força impessoal com a qual temos dificuldade em nos ligar emocionalmente, direcionando a ele toda a antipatia de que somos capazes.
Mas as influências que se fazem sentir nessa obra seminal vão além do Mestre do Suspense. No plano cinematográfico, é possível perceber também a enorme gama de referências mais ou menos veladas que o cineasta usou e que continuaria a usar por toda a carreira, e que vão desde Walt Disney até John Ford, Frank Capra, o francês François Truffaut e Orson Welles. O uso expressivo e insistente da lente grande-angular, sobretudo nos enquadramentos do rosto desesperado de Dennis Weaver ou nas tomadas em câmera baixa do ameaçador caminhão avançando em direção à câmera, devem muito à gramática cinemática do diretor de Cidadão Kane. Contudo, a homenagem mais insistentemente frisada durante todo o filme é mesmo a Tex Avery, o inspirado e arrasadoramente sarcástico criador da Turma do Pernalonga. Não há como não enxergar a ligação umbilical óbvia entre o jogo de gato e rato desse filme com os desenhos do Coiote e do Papa-Léguas, com toda a sua carga de sadismo e perversidade infantil. Mais do que uma homenagem, trata-se de uma referência inequívoca à cultura pop, de que Spielberg faria uso, tanto neste quanto nos futuros filmes, para frisar a dependência de seu cinema do homem médio americano e ampliar o grau de identificação de que falamos acima.

Dennis Weaver em cena de "Encurralado"
Fonte: Imdb Internet Movie Data Base

Duas sequências ilustram a maestria precoce de Spielberg. A primeira é num restaurante de beira de estrada, onde David Mann para a fim de descansar e se senta em uma mesa para beber. De repente, ele se dá conta, aterrorizado, de que o motorista do caminhão que o persegue também deve estar entre os frequentadores do lugar. A câmera acompanha o seu olhar perscrutando cada rosto dos caminhoneiros sentados em frente ao balcão, esquadrinhando as botas, tentando adivinhar nos gestos e expressões quem é o responsável pelo seu sofrimento. Tudo acompanhado pelo som em off de seus pensamentos mirabolantes. A forma como as tomadas são feitas, em câmera subjetiva, a edição e o ritmo da cena toda nos convidam a compartilhar da psicose do personagem, de certa maneira fazendo com que sejamos cúmplices de suas suspeitas.
A outra sequência digna de nota se dá quando Mann para em uma espécie de reserva de animais selvagens (serpentes, lagartos e aracnídeos, de que Spielberg se serviria muito tempo depois nas aventuras de Indiana Jones) mantidos por uma velha maluca para ligar para a polícia. Com ele encerrado dentro da cabine telefônica, vemos o caminhão dar meia volta e avançar para cima do personagem, decidido mesmo a matá-lo. A força com que o veículo destrói tudo à frente frisa a disposição assassina do motorista e elimina quaisquer dúvidas que pudéssemos ter de suas intenções. Novamente, é Hitchcock que vem à nossa mente, sobretudo a famosa cena da perseguição do aeroplano na plantação de milho em Intriga Internacional.
Por mais relevantes que sejam as referências fílmicas de que o diretor costuma se servir, a mais forte influência que se faz sentir em toda a sua obra é mesmo a dos acontecimentos que permearam a sua vida, nenhum dos quais tão avassalador nem tão impactante quanto a separação dos pais, ocorrida quando ele ainda era um garoto. A dissolução familiar, e a desesperada busca por um reencontro, por um recomeço, uma reunificação, e a aflitiva angústia pela aceitação e o abraço paternos parecem ser os pilares fundamentais de sua obra, em que pese toda a carga espetacular e, por vezes, excessiva, de efeitos especiais e de grandiloquência cênica que a cercam. Famílias disfuncionais estão por toda a parte em seus filmes, basta mencionar Contatos Imediados do Terceiro Grau, E.T. e até Guerra dos Mundos. Em Encurralado, esse tema desponta com mais evidência pela primeira vez, até porque, nos episódios de seriados de televisão que havia dirigido antes, Spielberg não havia tido a oportunidade de trabalhar em um projeto que lhe permitisse abordar o assunto de maneira a inserir nele elementos de seu passado.
Nesse sentido, é importante que se diga que duas das três sequências acrescidas ao telefilme ajudam a elucidar essa dimensão autoral do filme. A primeira delas é a própria cena de abertura, que mostra o carro de David Mann (um Plymouth Valiant de cor vermelha, que contrasta com os tons predominantemente marrons da paisagem desértica) saindo da garagem de casa e tomando o rumo da estrada, sempre em câmera subjetiva (aquela em que a lente assume o lugar do olho do personagem), na qual o rosto do motorista jamais aparece. Embora mais tarde fiquemos sabendo que o personagem está apenas saindo numa rotineira viagem de negócios e deverá regressar dali a um ou dois dias, a impressão que se tem é de que ele está partindo para sempre, deixando para trás a família, a casa, a cidade e tudo o mais. Essa primeira impressão é reforçada na segunda sequência acrescentada, já no meio da viagem, quando o protagonista para em um posto de gasolina para abastecer e faz uma ligação telefônica para a esposa. Os dois têm uma conversa um tanto tensa, em que fica subentendido que houve algum tipo de briga na noite anterior e é sugerida a possibilidade de uma separação. Na única cena em que Dennis Weaver não está presente, vemos a esposa (Jacqueline Scott) e os filhos dentro de casa, num ambiente algo caótico, com robôs de brinquedo e outras quinquilharias espalhadas pelo chão da sala de estar, e que talvez reflita o próprio ambiente e o clima de antagonismo entre os pais que o cineasta vivenciou anos antes.
À medida que a história prossegue, as sequências de perseguição vão se repetindo em múltiplas variações, situação tão comum em desenhos animados como os do Coiote e do Papa-Léguas, e que atende a uma certa compulsão infantil de ver ou ler a mesma história repetidas vezes sem a mínima alteração. Mas essa repetição tem o efeito colateral de nos abstrair do realismo da história que está sendo contada. Gradualmente, à medida que os eventos vão se tornando cada vez mais absurdos e exagerados, escapando a qualquer controle racional, torna-se evidente que Encurralado é mais do que um mero exercício de suspense. O filme nos induz a interpretá-lo como uma alegoria, uma narrativa simbólica com vários níveis de compreensão. Nenhuma dessas interpretações, é importante que se diga, é exclusiva e excludente. Como uma casca de cebola, um filme se presta a múltiplos vieses, de acordo com o ponto de vista de quem o assiste. Com este aqui não é diferente.
Uma dessas linhas de interpretação é aquela que associa o duelo ou confronto entre o carro pequeno, velho e frágil e o caminhão enorme (um Peterbilt, que lembra bastante um rosto humano, com as janelas como olhos, a grade do radiador como o nariz e o para-choque como a boca escancarada) e ameaçador à luta de classes. Na época da exibição do filme em Avoriaz, alguns críticos apontaram essa possível leitura, rechaçada pelo diretor, segundo a qual David Mann representaria o proletário, o trabalhador comum ameaçado pelas forças esmagadoras do capital, simbolizadas no caminhão, que, nunca é demais lembrar, parece pertencer a uma empresa de exploração de petróleo.
Outra linha de interpretação sugere que o duelo representa a luta do ser humano contra a máquina, entendida aqui não apenas como o objeto físico, tecnológico, óbvio na figura do caminhão, mas como um sistema econômico, político e social gigantesco e impessoal que ameaça nos reduzir a nada. Talvez o próprio Spielberg tivesse consciência dessa representação orwelliana quando optou por não mostrar o rosto do caminhoneiro em momento algum, o que, como já dito, além de bloquear qualquer esforço nosso no sentido de nos identificarmos com ele, nos leva a enxergar o caminhão apenas como uma máquina implacável destituída de sentimentos e por isso mesmo ainda mais temível, quase como se ela tivesse vida própria. Também os problemas pessoais do protagonista, sobretudo a dificuldade de relacionamento com a mulher e os filhos, e as suas preocupações com o trabalho, explicitam a sua incapacidade de enfrentar e sobrepujar a carga de obrigações de todo o tipo que pesam sobre os seus ombros. A própria interpretação de Dennis Weaver, como um sujeito algo confuso, frisa a fragilidade de David Mann em se insurgir contra o sistema social e econômico que o esmaga.
Também é possível dar à história um sentido transcendental, teológico, o que a aproxima de alguns dos trabalhos do escritor tcheco Franz Kafka, como O Processo e A Metamorfose. Nunca é demais lembrar que Spielberg, judeu como Kafka, tem um entendimento muito diferente de Deus do que, por exemplo, professam os cristãos. Como nos contos e romances de Kafka, Encurralado parece ser uma parábola da condição humana num universo absurdo e sem sentido regido por um Deus implacável, caprichoso e inescrutável, mais ou menos como descrito na Torá, o livro sagrado do judaísmo, transubstanciado na imagem do caminhão, que fica cada vez maior e mais ameaçador no decorrer do filme, e que, como o Deus dos antigos Hebreus, é desprovido de um rosto definido, antropomórfico, com o qual possamos nos relacionar emocionalmente, problema resolvido no cristianismo graças à imagem onipresente de Jesus. O próprio nome do protagonista, David Mann, óbvio derivativo de “man”, “homem” em inglês, parece reforçar essa interpretação, atribuindo ao personagem de Dennis Weaver o papel simbólico como o representante da humanidade como um todo, uma espécie de Jó afligido por problemas de todos os lados e todos os tipos em busca de uma redenção que só irá encontrar no alto de um penhasco, à beira do abismo, ou da morte, quando enfim se decide a enfrentar o seu perseguidor no momento mais definidor e decisivo de sua existência.
Não deixa de ser significativo que a história se passa num cenário desértico (a Rodovia 14, ao norte de Los Angeles), o que, para além das óbvias referências bíblicas (a perambulação dos hebreus até alcançar a Terra Prometida, os 40 dias de Jesus no deserto etc), serve para amplificar a desolação física e existencial do protagonista e exagerar o seu isolamento e fraqueza. Aos poucos, Mann, o representante da humanidade contra o Deus implacável (ou a máquina implacável, esse novo deus da modernidade) vai sendo reduzido em suas dimensões psicológicas e espirituais até se ver reduzido à elementar e primitiva luta pela sobrevivência do mais apto. Significativamente, quando se vê vitorioso nesse embate final do homem solitário contra o caminhão, o personagem pula e grita como um neandertal, e parece mesmo mais um homem das cavernas numa dança ritual de agradecimento pelo sucesso na caçada do que um cidadão civilizado da segunda metade do século XX. O caminhão é a besta que precisava ser vencida e exterminada, e não importa muito se ele tem a forma de um veículo de quatro rodas, um tigre ou um dinossauro (nesse sentido, é interessante notar como os sons do caminhão despencando no penhasco, no fim do filme, são estranhamente semelhantes aos estertores de uma fera antediluviana à beira da morte, nova citação do diretor, desta vez à sequência dos dinossauros moribundos de Fantasia, de Walt Disney, a que Spielberg voltaria anos depois, de forma mais espetacular e bombástica, na franquia Parque dos Dinossauros). Encurralado, assim, está na encruzilhada de dois momentos. Tanto pode ser descrito como uma ponte para a infância do promissor realizador, quanto a fresta aberta para as suas obras de maturidade.

23 de agosto de 2014

 
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